"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos
17.4.12

Dizer que o romance é apenas um acto estético é empobrecê-lo. Equivale a retirá-lo do mundo e a fechá-lo na arte, ainda que a arte faça parte do mundo. O romance é um acto moral, o que não se deve confundir com o ser veículo de uma determinada moral e pensar que pode ter alguma utilidade para as nossas vidas. O romance pode ser imoral ou até amoral, mas nunca é apenas estético. O herói romanesco é herdeiro do herói trágico. Desafia as convenções da sociedade e sofre as consequências, personifica o nosso destino colectivo, luta contra o que o amarra, sabendo nós que está condenado a perder. Dom Quixote, Ema Bovary, Raskolnikoff, Meursault são, cada um à sua maneira, trágicos, mas o heroísmo não é clássico: loucos, adúlteros, homicidas, insensíveis. Não são modelos de virtudes, logo, não são moralizadores. No entanto, não exigem a condenação. A qualidade da criação estética coloca-os num patamar diferente de avaliação moral. Não os podemos julgar como julgamos um vizinho, um colega de trabalho, um familiar. Conhecemos-lhes o desespero de uma forma tão íntima e tão profunda que podemos proclamar, como Flaubert: Madame Bovary sou eu, Meursault sou eu, Raskolnikoff sou eu. Não podemos dizer isto das pessoas que vivem connosco, que dormem connosco, que nos morrem, que nos matam, que nos traem. A dimensão moral do romance não nos prepara para a vida, não nos ensina, não nos instrui, porque a vida não se nos oferece assim, completa e acabada, perfeita e sem arestas. Compreendemos e, por isso, perdoamos. Perdoamos tudo aquilo que não estamos dispostos a perdoar nas nossas vidas. Tout comprendre c’est tout pardonner. Só os maus romances aspiram a tornar o leitor uma pessoa melhor. A dimensão moral de um bom romance apenas nos pode tornar melhores leitores, o que equivale a dizer que a moral de um romance é indissociável da estética. Um Meursault real é um monstro. O Meursault de Camus é um nosso semelhante. Uma Bovary real é uma puta frívola. A Bovary de Flaubert é nossa irmã de sangue e de palavras.

 

Se a tragédia grega na sua mais perfeita manifestação, a Antígona, opõe duas morais, dois deveres entre os quais o indivíduo tem de optar, o romance retira um dos deveres e substitui-o pelo indivíduo, pelos seus impulsos aleatórios, pela sua sensualidade, pelo acaso que o empurra para os actos. A luta do herói romanesco não é entre dois deveres, mas entre a norma e a subjectividade das circunstâncias do indivíduo. O mundo não é como é, mas como Dom Quixote o vê. E, no entanto, o mundo existe. Raskolnikoff quer estar para além do bem e do mal e, no entanto, eles existem em forma de consciência. Meursault é condenado porque o mundo existe, porque o mundo não compreende o apelo homicida de uma faca a brilhar ao sol. Só o leitor o pode absolver. A solidão do dever trágico, a solidão do homem perante as forças do destino, é traduzida para o romance na solidão do indivíduo: o destino, tal como o inferno, são os outros.

 

“E os olhos encheram-se-me de lágrimas, num pranto que era de vergonha, de cobardia, de penas e pecados, do remorso que dá o que não tem indulto, da solidão que nos sufoca quando descemos ao fundo de nós próprios”, diz o narrador de A Amante Holandesa, enorme herói romanesco. E os outros? “Não havia ali gente, eram uma alcateia que o vinho, as frustrações e as raivas afogadas tinham retornado ao estado de bestas.” A solidão, os outros. A irredimível solidão dos pecados próprios, a condenação implacável dos outros, um coro que não adverte, castiga; um coro que não canta, vocifera; um coro que empurra o indivíduo para o fundo dele próprio. Ao fazer do narrador um pecador (a sugestão de pedofilia), Rentes de Carvalho corre um risco literário e moral que, à semelhança dos pecados, não pode ser reduzido a uma dimensão estética. “[…] o meu único crime – se se lhe pode chamar crime – é o gosto que dá o admirar um corpo jovem e bonito. Não quero mais nada, nunca fiz mal a ninguém, o meu prazer é unicamente estético.” Estas palavras não são dirigidas aos inspectores das Judiciária que o interrogam, mas ao leitor do outro lado da ficção. É ele que poderá aferir da bondade das alegações, é ele que poderá decidir se a própria ideia de prazer não contém em si a ideia de (i)moralidade, é ele que poderá aliviar a solidão daquele homem, é ele que tanto o pode condenar (como o fazem as feras da alcateia), como absolver. E essa é uma decisão moral tão mais complexa quanto maior a qualidade estética da obra, duas dimensões inextrincáveis quando estamos perante uma obra maior.

 

Talvez não seja justo para o romance de Rentes de Carvalho compará-lo a obras indiscutíveis do cânone ocidental, o que poderá ser interpretado como um exagero a roçar a blasfémia. Seja. A Amante Holandesa é uma daquelas obras em que o estético e o moral estão num único plano e não é possível distinguir o deleite que o primeiro nos oferece das dúvidas que o outro nos semeia. Um romance bem escrito pode divertir-nos, um romance bem-intencionado pode educar-nos. Um romance como A Amante Holandesa transforma-nos.

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27.3.12

Por um desses acasos em que vida é pródiga, encontrei um livro de contos escrito por esse jovem valor que é João Pereira Coutinho exactamente quando estava à procura de um livro de contos escrito por João Pereira Coutinho. Consta que o terá escrito na juventude, época propícia a disparates e a experimentações. Eu trepei a um terceiro andar envergando umas sumárias cuecas para espiar uma vizinha, João Pereira Coutinho, pessoa mais bem formada do que eu e com intenções mais elevadas, escreveu um livro. O livro, para grande fortuna do autor, vendeu miseravelmente, muito embora, e por razões que o liberalismo desconhecerá, um dos exemplares tenha sido adquirido por uma biblioteca pública. Foi aqui que o encontrei, magro e ignoto, entre um Mário de Carvalho e um mais robusto Ferreira de Castro (Coutinho, esse, estava mal arrumado). Para não sermos acusados de injustiça, devemos salientar que ao livro foi outorgado um prémio, o que, na altura, terá enchido o neófito de esperanças absurdas, de antevisões de glórias futuras, enfim, de delírios juvenis e que, por o serem, devem ser perdoados com bonomia. Também é de sublinhar que João Pereira Coutinho possui méritos literários inegáveis, é dono de uma verve que, aproximando-o de uma caricatura de liberal blasé a abarrotar de wit e a arrotar boutades sempre que abre a boca, vai muito bem em televisão (é vê-lo num plasma para perceber o que digo), escreve em português e em brasileiro, consoante o público comprador, versatilidade que me tem feito imaginar uma crónica de Coutinho escrita para um jornal angolano, com os muadiés, as makas, os kambas, os kotas e a alegria das gentes do BO. Quero eu dizer, com esta prosa que se alonga, que com o merecido prestígio que granjeou, mal seria se João Pereira Coutinho dormisse a pensar nas suas prosas precoces, ainda para mais reconhecidas e abençoadas com um prémio literário. Não, não há motivos para vergonhas. O livro é pavoroso, lá isso é, mas há quem tenha escrito livros ainda mais pavorosos e continue a apresentar programas vespertinos de televisão. Mas alguma coisa terá corrido mal para que Coutinho tenha desertado da literatura para os jornais. Cá para mim, é uma questão de incompatibilidade. Um homem não pode ser cáustico nos jornais, bater com violência em Mia Couto e escrever contos delicados sobre cães e que começam com frases certinhas mas de uma banal placidez. O cronista ácido e o escritor melífluo não podiam viver juntos. Então, João Pereira Coutinho matou, e bem, aquele que lhe oferecia menores possibilidades de estrelato. Tivesse insistido na carreira de contista e não lhe conheceríamos nem a fisionomia, nem o talento.

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24.3.12

Era muito segunda-feira, abençoada por um inofensivo céu azul pastoral, de aguarela ingénua, e eu estava sentado na sala de espera do tribunal, sob o olhar de falsa distracção de um segurança velho, a aguardar a minha vez perante um funcionário que acabou por nos receber sem a majestade imaginada, com aquele aborrecimento vago, semanal, dos homens que dominam a arte de desperdiçar a vida. Foder. Foder. Foder. Naquela altura, poucos meses depois da separação, eu só pensava em foder, em embrenhar-me numa tempestuosa sucessão de corpos, no poder narcótico da novidade, novas e formidáveis conas, novos cus, novas mamas, novos mundos. Mamas grandes, lunares, opulentas, mamas breves, eriçadas, púberes, rabos empinados e duros, grandes e flácidos, as subtis variações minerais do sabor de cada cona, esta mais acre e espessa, mais doce, sumarenta, aquela, o movimento das coxas, a penetração contínua, exaustiva, dois, três, quatro dedos a explorar o veludo húmido para recuperar o tesão depois de duas fodas, num exercício de espeleologia desesperada na esperança que o prazer delas me fizesse recuperar o desejo, tudo isto rumo à abstracção, como se estivesse num quadro de Chirico, a uma esquina da minha vida, e aquele movimento ritmado, insistente, ocultasse algo terrível, o vazio, o vazio pornográfico e sem alma, a desumanidade. As pregas tensas de um cu virgem, as pregas lassas de um cu devastado; os lábios tímidos de uma cona impudica, os lábios largos, de antúrio, de uma cona de acesso lento ao prazer, mas de êxtases prolongados, tectónicos, os bicos negros de algumas mamas, os rosados, quase só auréola, de outras, o prazer gemido de umas, o prazer gritado de outras, a voracidade de certas bocas de lábios finos em contraste com os chupões meigos, castos, de lábios cheios que só no final, no segundo que antecede o gozo, se tornavam ávidos para receber toda a esporra; as fodas à canzana, dois animais de morte e desespero; os cus fodidos na posição de missionário, os rostos frente a frente, numa conspurcação premeditada do amor esponsal; e o zénite, num momento de fulgor dourado em que uma delas, ruborizada, a arfar de prazer e confusão, lançou sobre mim jactos envergonhados de urina. Era eu sozinho a fazer barulho para não ser encurralado pelo silêncio insidioso que precede e anuncia a solidão, a brutal solidão da foda. Até que chegou o momento do vazio e da vergonha, quando senti que aquela avalanche de corpos, de orgasmos, de ejaculações peremptórias na boca, nas mamas, no cu, não me oferecia mais do que o amparo incerto das texturas. Quando é que o descobri? Certa vez, passei a noite, acidentalmente, com uma rapariga. Fodemos e ela, por acaso, com sono, ficou a dormir na minha cama. Aconchegámo-nos e esse teatro da intimidade, esse arremedo patético de ternura, foi o ponto mais baixo da minha existência de sátiro. Vergonha. A situação repetiu-se meses mais tarde com outra mulher e foi então que aquele longo processo de desidratação espiritual culminou numa arrebatadora sensação de plenitude, de rapto sensorial, que era tanto a depuração dos sentidos pelo massacre físico, como acontece nos jejuns místicos e nas flagelações cristãs, como um despojamento total, o ponto em que, não tendo mais a perder, somos reanimados por um fôlego que julgávamos já não ter, que vem ao mesmo tempo de dentro e de fora, nosso e estranho, um princípio de inanição, o glorioso protesto do espírito contra a morte. Depois de saciada a fome carnal, os corpos, em toda a maravilhosa diversidade e abundância de cheiros e imperfeições, assemelhavam-se não a representações figurativas de mulheres mas às telas geométricas de Mondrian, aos padrões abstractos das construções islâmicas, às pedras do deserto de onde brotou Jeová, o Todo-Poderoso. O mais curioso é que ao recordar as mulheres daquele período sinto por elas uma infindável e abrangente ternura: chamo-lhe a nostalgia da foda. Não se dirige a nenhuma em particular, individualmente elas não me perturbam, nem sequer existem, refaço a custo os prazeres que senti. Só pensando nelas em conjunto é que sinto essa gratidão que, na sua essência, é uma forma bem triste de autocomiseração, um truque patético para polir as recordações, para as tornar menos vergonhosas, para que possa viver em paz com elas. O percurso religioso do esgotamento das sensações até ao ascetismo nada tem de original, mas é bem real a verdade que se atinge pelo contraste abrupto entre a foda desenfreada e o espírito em repouso, entre o cansaço físico e a luz redentora que brilha no fundo dessa fadiga. Fodemos e sentimos culpa por fodermos sem os cetins do amor. Foi assim que nos ensinaram e não é fácil foder sem culpa. Chegará o tempo em que o corpo há de pedir mais. Saímos da presença do funcionário da conservatória. Deixei-o a olhar pela janela, imbecil e judicial.

 

p.s.: Soube, mais tarde, em circunstâncias constrangedoras, que nesta altura ela já estava com o Alfredo, um daqueles tipos simpáticos, invertebrados e social-democratas que as mulheres têm a tendência para escolher como segundos maridos.

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7.3.12

Os amores de infância duram para sempre, como múmias. Dão-se bem com corações áridos, como múmias. São mausoléus erigidos à própria ideia de amor. Sobrevivem. Sobremorrem. Persistem. Cuidamos deles como da campa de um ente querido, sabendo que debaixo da terra só há ossos e mais terra. Honramos o nosso sentimentalismo putrefacto, sórdido. Duram para sempre, esses primeiros amores. Resistem como parasitas. A sua força é tão maior quanto menos real for o seu objecto. Uma recordação, uma menina a acenar numa estação e à medida que o comboio se afasta, o vulto branco da menina agiganta-se. Quando ela desaparece, o amor instala-se. Um amor coberto de memória e, por cima, outra camada de amor, que pode ser a lembrança de outro amor mais recente que serve para envernizar aqueloutro, velho e oxidado, o que não morre, relíquia de si próprio. Amamos o quê? A infância. As nossas pernas de criança, o nosso sorriso de criança, a nossa fome, a nossa sede de criança. Quando interrompíamos os jogos de futebol e íamos beber água de um garrafão que alguém trouxera de casa. Uns bebiam sôfregos, os lábios na boca do garrafão, um quase beijo de sede e água, outros bebiam prudentes, no fim cuspiam a água, cada um matava a sede à sua maneira, como os homens de Gideão, e no fim éramos trezentos, cada um escrevendo o seu destino pela morte que dava à sede, a sede mais real que existe: “Quem beber daquela água não terá mais amargura”, “quem beber da água que eu lhe der, nunca mais terá sede”. A água final para a sede toda. Essa sede de criança que é toda amor, os corpos suados no suplício do Verão, os jogos de futebol retomados, os nossos músculos, os nossos corpos a explodir. Os amores de infância são estilhaços dessa explosão, cicatrizes da guerra que é respirar, cair, sangrar, a guerra que é ter mais um dia, com a consciência das crianças que é ainda tão fina e frágil, tão próxima do nada de onde emergiu que é quase uma espécie de recém-morte. A nossa sede nessas tardes de futebol, desaparecia o sol e nós continuávamos, persistíamos, como se o corpo nos dissesse “continua”, como se os ossos e os músculos, tudo o que há-de ser lama debaixo da terra, mergulhassem na lama do cansaço e nunca mais quisessem sair, como se o tempo fosse ilimitado, extensível, fulgurante. E era. Do altruísmo inédito, virgem, do primeiro amigo – do momento em que após o choque, a fractura da consciência com o mundo, surge um amigo, o primeiro amigo (a minha mãe dizia-me “é um menino da tua idade”), o primeiro outro, e a fenda que antes se abriu entre nós e o mundo agora se fecha subitamente com a presença física, inequívoca de um amigo, outro que não sou eu mas que sou eu, que vê as coisas à mesma altura, o aquário que havia naquela sala que não era a minha sala, a luz azulada do aquário, o amigo a explicar-me os peixes e o aquário, porque não era eu, era ele, e ele sabia mais – ao impulso egoísta da conquista e do poder, de tomar o outro que nunca seremos nós, a mulher, que nunca somos nós, que ou é nossa desde sempre ou que nunca será nossa, por isso os fracos, as eternas crianças no amor, dizem “se não és minha, não vais ser de ninguém”, porque ser e ter, tenho-te logo és, é a mesma coisa, nesse intervalo da amizade ao primeiro amor nós morremos para os outros e nunca mais poderemos dizer sem mentir “porque era ele, porque era eu.”

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1.3.12

Fui vê-lo ao hospital dias antes de ele morrer. Tinha a barba por fazer. Pediu-me que lhe levasse a gilette e lhe fizesse a barba. Enquanto me pedia isto, os olhos de animal assustado cravados na parede creme, cagou-se todo: “ai, filho, chama aí alguém.” Vieram as enfermeiras, “tenha calma, senhor João”, mudaram-lhe as fraldas e a roupa da cama e uns minutos depois, já sossegado, pediu-me novamente que lhe levasse a gilette. No dia seguinte, não fui ao hospital. O meu avô morreu nessa noite. Uma das enfermeiras fizera-lhe a barba de manhã.

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27.2.12

 

Fui ensinado a não ter outros ídolos que não Deus. Entretanto, perdi-me de Deus, ou Deus perdeu-se de mim, em todo o caso, desencontrámo-nos e então comecei a coleccionar ídolos. Nunca os quis bezerros de ouro, exemplares e imutáveis. Sempre os preferi humanos, ídolos falíveis a quem pudesse admirar e reprovar, com longos períodos de êxtase e reverência e períodos ainda mais longos de quase esquecimento, em que subsistiam como uma luz ténue que, porém, nunca se apagava. Era bom reencontrá-los em livros, filmes, músicas, recuperar a memória que deles tinha e lançar-me em renovada adoração. Era bom deixá-los incógnitos numa estante ou numa gaveta, em pousio para que o espanto fértil não se esgotasse de tanta lavra, e regressar por um acaso, um atalho, uma desilusão. E eles lá estavam, na obediência muda das estantes, na soberania paciente dos caixotes, à espera do filho pródigo que, cansado do mundo, retorna ao abraço paterno. Ora, muitos destes ídolos de palavras e imagens, mas também de carne e osso, são gente esquiva, avessa ao ruído das turbas fanáticas, receosos da prolixidade vazia dos que não se satisfazem com o diálogo implícito da arte e desejam adorar de corpo presente, vencer a distância e mergulhar fisicamente no autor. Mesmo quando são afáveis e se prestam a sessões de autógrafos, mesmo quando posam de estátua deles mesmos em fotografias que hão-de enfeitar salas de subúrbio, mesmo quando trocam palavras que dão ao receptor o direito abusivo de dizer “conheci fulano”, vejo-os como os deuses melancólicos que são, já insensíveis a tresleituras, ávidos de ser amados mas resignados a que esse amor não signifique compreensão, nem a união funda que acontece raramente entre dois seres humanos e dispostos a aceitar a condição de santinho de altar, santuário que se dá a peregrinações cegas. Contudo, nós queremo-los, queremos vê-los na sua realidade física porque nos dói a breve incerteza de humanidade que as palavras nunca fecham, queremos ouvir-lhes a voz e ver como é o corpo de onde explodiram palavras e multidões nasceram, queremos ver os nossos ídolos e tocar-lhes e pedir-lhes que vivam para sempre, não no real intangível dos livros, mas que vivam para sempre aqui na terra, perto de nós, e para além de nós, como deuses caídos, como homens eternos. E quando não temos a coragem para os desafiar para a vida eterna, quando não lhes sabemos exigir que fiquem, que permaneçam como permanecem as suas personagens, saibamos ao menos apertar-lhes a mão e dizer-lhes “Muito obrigado por tudo”.

 

 Fotografia de Pedro Loureiro, a quem agradeço

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25.2.12

Tantos mortos. A filha do Silva da tasca que se envenenou. Ainda me lembro dela? Sei que existiu. Não consigo reconstituir na minha memória os traços do rosto. Seria loira? Talvez. Lembro-me de passar em frente da tasca do pai e de a ver lá a servir. Depois, deixou de estar. Por que razão se terá matado? Talvez a minha mãe saiba. Foi há tantos anos. A notícia saiu no jornal. Eu era criança. Tinha o fascínio infantil pelo macabro, pelo horrendo e queria assustar-me. Nada me apavorava mais do que aquele jornal, as fotografias dos ex-vivos, a imagem inquietante da casa onde o crime fora cometido, marcas de sangue no chão, os vizinhos à porta a velar a loucura homicida de um lugar amaldiçoado. À noite não conseguia dormir, ainda perturbado pela fotografia de alguém que morrera. Na fotografia até então sem história, registo banal de um dia qualquer, apareciam em lenta revelação as sombras da tragédia. A angústia de que nunca teríamos sabido surgia com a nitidez terrível, não das coisas certas, mas das premonições. Contaram-me ou terei visto o corpo de um homem no chão, a poucos metros do parque onde brincávamos, tapado por um lençol branco? Disseram que se matou, que se atirou do terceiro andar. Havia quem dissesse que o tinham atirado. Os filhos da Lurdes. Três. Os corpos foram encontrados dentro de uma arca onde se tinham escondido numa brincadeira funesta. O marido da Conceição. Encontrado no quarto com o fio do candeeiro à volta do pescoço. Disseram que se matou. Quem viu o cadáver foi o Fernando. A mãe dizia que, depois disso, ele acordava com pesadelos, o rosto duro do morto a ganhar forma na escuridão. O velho alfaiate que vivia num rés-do-chão. Na varanda tinha um cão feroz que nos metia medo. Víamos o homem através da janela a tirar medidas, a riscar de giz os fatos. Mandou-se para a linha do comboio. Nunca mais se soube nada do cão. Nesta tarde em que da minha janela vejo o mar e crianças a passear na praia com os pais, ainda oiço os latidos desesperados desse cão, ecos de morte, medo e deserto.  

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7.2.12

Um texto que não se imprimiu:

 

Para se iniciar uma guerra, certas rajadas de elogios são pretexto mais feliz do que muitas ameaças e agressões. Basta ver o caso dos celebradores profissionais da beleza feminina e de outros elogiadores contumazes do que eles chamam o belo sexo. Para estes apreciadores da Mulher, a mulher, qualquer mulher, é sempre um mistério ou um enigma ou, quando o delírio irrompe, um enigma envolto em mistério. Nunca conseguem decifrá-lo, embora talvez tivessem mais sucesso se não começassem as suas profundas tentativas de compreensão pelos genitais. São os eternos apaixonados pela Mulher como outros são apaixonados por cozinha italiana, independentemente do prato, do cozinheiro e da conta que têm que pagar no fim. Quando falam de mulheres, lá vêm o embevecimento lúbrico e a condescendência babada embrulhados no fascínio que as mulheres lhes despertam, a veneração irreprimível, como se a mulher, qualquer mulher, não fosse uma mulher, um ser humano, mas um vislumbre do eterno num quadro de Botticelli. Claro que só homens com licenciaturas em Humanidades podem formular as coisas nestes termos de sofisticação intelectual. Com um bocadinho menos de sorte sociológica estariam pendurados nos andaimes a grunhir piropos. Como nasceram em berços mais abençoados, sussurram encómios, num perpétuo estado de espanto e disponibilidade para apreciar a beleza ou, como se diz no vernáculo da construção civil, “sempre de pau feito” e “pronto a aviá-la”. Estes grunhos bem-falantes transformam cada exemplo individual de beleza numa declinação de um ideal da Beleza, cada mulher na Mulher: é decoração de interiores feita Decoração de Interiores, em que a Mulher é, no fundo, um ornamento (desculpem, um Ornamento). O adorador compulsivo da Mulher não é muito melhor que o exibicionista dos parques. Enquanto este exibe infantilmente a pilinha, aquele exibe despudoradamente o seu gosto refinado. Não sei se valerá a pena declarar-lhes guerra. Afinal, não me parece muito sensato andar aos tiros a pavões.

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6.2.12

Publicado na Ler de Janeiro:

 

Com a publicação dos Sermões do Pipi, regressa a questão de se saber quem é o Pipi. E quem é o Pipi? A hipótese Ricardo Araújo Pereira é a mais desinteressante de todas, seguida de perto pela hipótese Miguel Esteves Cardoso (normalmente formulada do seguinte modo: “Ah, este MEC é tramado!”) porque ninguém acredita que o talento de Miguel Esteves Cardoso tenha entrado em recessão ao ponto de se acomodar numa plácida coluna do Público. E é desinteressante porque revela a nossa falta de imaginação coletiva. Em cada período da nossa história cultural, há sempre uma figura que esgota as possibilidades de irreverência. Herman José, Miguel Esteves Cardoso, Ricardo Araújo Pereira. Alguma coisa tem graça? Foi o Herman. Uma crónica tem piada? Foi o Miguel Esteves Cardoso. Há um livro bem escrito, divertido e cheio de palavrões arcaicos? Com mil mangalhos, foi o Ricardo Araújo Pereira! Seria muito mais fascinante se o Pipi fosse alguém do calibre de um Tolentino Mendonça ou de um César das Neves. Mas depois de uma análise das respetivas obras (que, no caso de César das Neves, exigiu apenas a observação de uma fotografia) chegámos à conclusão que é impossível que O Meu Pipi tenha sido escrito por um dos dois ou por ambos ao mesmo tempo. Por muito que seja a menos civilizacionalmente fantástica das hipóteses, somos obrigados a concluir que o Pipi é (bocejo) Ricardo Araújo Pereira. Custa-nos ter de reconhecê-lo, ficaríamos muito mais satisfeitos se o autor fosse D. Manuel Clemente ou o General Ramalho Eanes, mas a decência e o rigor crítico não nos deixam margem para efabulações. Como esta é uma revista séria, explicamos aos nossos leitores porque é que Ricardo Araújo Pereira é o Pipi.

 

Partindo do princípio que os leitores, de acordo com a formação forense que recebem semanalmente no CSI, querem provas, resolvi investigar as crónicas que RAP escreve na revista Visão (Boca do Inferno – BC1 – e Novas Crónicas da Boca do Inferno – BC2)  e as que escreveu para o jornal A Bola (A Chama Imensa – CI). E não foi preciso muito para encontrar semelhanças. Vejamos este exemplo. Na crónica da Visão de 3 de fevereiro de 2011, o autor escreve sobre candidatos presidenciais e pescas: “Quase todos os candidatos fizeram mais uma vez referência às dificuldades por que passam as pescas, setor de atividade que continua a ser o único a merecer um plural: não é a pesca, são as pescas. Nenhum quadrante ideológico se preocupa com as agriculturas, ou com as educações, mas as pescas são, ao que parece, de uma multiplicidade que provavelmente explica a razão de serem mais atreitas a problemas.” Momento bonito, sem ser espetacular. Mas o que é que encontramos na página 54 dos sermões do Pipi? Bem, diz-nos o Pipi que quando precisa de um sapateiro, vai ao sapateiro, quando precisa de um mecânico, vai ao mecânico, mas quando precisa de uma puta, vai às putas: “Indo só a uma, digo que vou a todas.” O múltiplo autor, que afinal é singular, traído pelo plural. Isto seria mais do que suficiente para sustentar a minha tese e, de caminho, poupar-me o trabalho de ler dezenas de crónicas. Mas continuei a minha pesquisa.

 

Na crónica de 18 de novembro de 2010, curiosamente a propósito da produção de um filme pornográfico sobre o drama dos mineiros chilenos, escreve o cronista: “Quem encontra seja o que for de antipático, meu Deus, na ribaldaria?” Na página 47 de BC1: “(...) as modelos brasileiras não vêm fazer ribaldarias para o nosso mar (...)” Na página 134 do magnífico livro que reúne as esplêndidas crónicas publicadas n’A Bola, A Chama Imensa, lê-se: “Scolari, talvez seja bom recordar, herdou a selecção do alho nos balneários, das ribaldarias em Macau (...)” E escreve o Pipi, na página 99 do seu livro: “Notável, esta ribaldaria de carnes.” Ou RAP e o Pipi têm o mesmo revisor, que prefere ribaldaria à mais popular rebaldaria, ou considero muito estranho que dois autores prefiram a mesma e menos habitual “ribaldaria” e a utilizem com tanta frequência. A ribaldaria não engana.

 

O termo “chavascal” (em sentido figurado, porque duvido que se queiram referir a “terreno que não presta para searas”, embora “mata cerrada de plantas espinhosas” já tenha mais a ver com o universo dos dois autores, como mais adiante veremos) também é preferência partilhada. O de RAP é “puro, nobre e cândido”, embora não goste de meter o amor no meio “daquele chavascal todo” (BC1, p. 56, p. 206). O do Pipi é apenas “duradouro” (p. 80), mas há uma nonchalance que a racionalidade “confere a todo este chavascal” (p. 97). Repararam? “Daquele chavascal todo” a “todo este chavascal”. Ai, ai, Pipi, que bem asinha denuncias a tua identidade.

 

Sendo este um livro de sermões não lhe faltam as referências bíblicas. São muitas e algumas até em latim. Que isto não vos leve a suspeitar do padre Carreira das Neves. É apenas mais uma prova que o autor é mesmo Ricardo Araújo Pereira, que garante “que, apesar da repugnância que me causam os best-sellers, li a Bíblia” (BC1, p. 80). A páginas 87 deste sermónico opúsculo, refere o Pipi que o pai de Salomão (David, para os leitores menos versados em assuntos bíblicos) “derribou o gigante filisteu”. Em CI, escreve o humorista na página 21: “O leitor lembra-se da história de David e Golias? Vá lá buscar a Bíblia, que eu espero.” E prossegue com uma exegese heterodoxa do célebre combate, cuja utilidade moderna se restringe às manchetes dos jornais desportivos depois de um fim de semana de Taça. Concedo que não seja a melhor das provas, mas também ninguém vos prometeu o Perry Mason.

 

Para os leitores menos sensíveis a provas bíblicas, temos Shakespeare. RAP lembra a “angústia com que Hamlet encara a caveira de Yorick” (BC1, p. 20). O Pipi, que sabe umas coisas de diluir referências eruditas, evoca um tal de tio Eurico (Yorick, Eurico, reparem na subtileza onomástica) e, com indisfarçada comoção, recorda o dia em que lhe pegou na caveira, livrou-a da terra e encetou um belo monólogo existencial no qual se intromete um pintelho.

 

Esta é outra coincidência notável: na página 246 de CI temos uma referência à Covilhã (“a população da Covilhã em peso...”). Na página 96 dos Sermões qual é a cidade, de entre todas, escolhida pelo Pipi? “A bem dizer, nenhuma cidade é puta (excepto, talvez, a Covilhã).” Serei só eu a ver nesta obsessão com a Covilhã uma prova inequívoca da identidade do autor de O Meu Pipi? É provável. A verdade, no entanto, é que a Covilhã não merecia tanto destaque desde que os livros da primária deixaram de a apresentar como uma espécie de Silicon Valley dos lanifícios.

 

O leitor incréu ainda não estará convencido. Se é esse o seu caso, amigo leitor, faça-me o favor de dizer o que significa esteatopigia. Se não sabe, não se preocupe; está ao nível do corretor ortográfico do meu computador e do priberam e só ligeiramente abaixo do dicionário Houaiss, de Ricardo Araújo Pereira e do Pipi. Num post publicado a 10 de junho de 2006 no blog Gato Fedorento, RAP escreveu que “Há várias representações de nádegas na história da arte, desde a esteatopigia da Vénus paleolítica até às Três Graças, de Rubens.” O Pipi, quase tão rápido quanto a sombra do mestre, escreve no Sermão às Gordas: “Os pré-históricos avoengos que esculpiram a Vénus de Willendorf fizeram-no com o intuito de esgalharem os seus nabos paleolíticos.” (p. 86). Na página anterior, lá aparece o curioso vocábulo: “Qual de vós permanece indiferente ao admirar a esteatopigia de uma destas lontras?” Vós, descrentes contumazes, não mereceis tais espórtulas, mas aqui fica: esteatopigia é a gordura acumulada na zona das nádegas. Agradeçam ao senhor Houaiss.

 

Mas há mais, fanchono leitor. Se há assunto a que a literatura portuguesa tem dedicado muitas e brilhantes páginas não é, com certeza, aos pêlos. Quando se trata de escrever grande literatura, os portugueses sempre optaram por temas convencionais como viagens à Índia, a guerra colonial, paneleirices na Figueira da Foz. Porém, quer RAP, quer o Pipi, não poupam esforços para alcandorar o pêlo ao patamar de dignidade literária que merece. RAP dedicou aos pêlos a crónica de 18 de março de 2010. O Pipi, de acordo com a sua natureza porcalhona, oferece-nos o sermão da pintelheira. Mostrem-me uma crónica de António Lobo Antunes sobre pêlos e eu abandono, agora mesmo, a minha teoria.

 

Quem não se recorda da fantástica crónica de RAP sobre o IKEA (BC2, p. 215)? Eu não, mas encontrei-a e lá nos é narrada a aventura do autor com um móvel chamado Besta. O Pipi, como bom macho que é, não faz compras no IKEA, mas, como bom roto que também é, cita o catálogo do IKEA. Está na página 37 dos Sermões. Menciona uma cómoda Birkeland. Se não estamos a falar do mesmo roto, então não percebo nada de rotices (e não percebo).

 

Outro ponto em comum entre RAP e o Pipi são os anúncios eróticos das secções de classificados da imprensa portuguesa. Como é óbvio, RAP consulta o conceituado Público enquanto o Pipi prefere o badalhoco Correio da Manhã. Fora isso, partilham da mesma opinião: não há secção mais verdadeira nos jornais portugueses. RAP diz que “é a mais interessante, a mais informativa e a mais fiável” e que os “anúncios são tão bons e tão honestos, que não foram feitos, de certeza absoluta, por publicitários.” (BC1, pp. 57-58). O Pipi esclarece laconicamente que é “a secção mais honesta do jornal” (p. 53) e fala, sem nele se deter, num “bumbum gostoso”. RAP, para não levantar suspeitas, fala de uma “gostosa do Saldanha” de “bumbum empinadinho”.

 

Termino com a prova do Pois não é. É verificar a página 208 (BC1) e de seguida passar para a 14 e a 34 dos Sermões. Não se incomodem, eu poupo-vos o trabalho: “Pois não é evidente que os vossos negócios se desenvolvem menos bem na praia”; “Pois não é verdade que qualquer de nós entregaria mais depressa setenta almas”; “Pois não é blasfemo fazer de Deus (…)?”

 

Espero que este meu contributo tenha ajudado a derrubar preconceitos. Não é por uma hipótese ser a mais óbvia e aparentemente mais preguiçosa que tem de ser obrigatoriamente falsa. O Pipi, como acabei de demonstrar de forma inequívoca, é Ricardo Araújo Pereira. Numa futura edição, demonstrarei que as obras de William Shakespeare foram escritas por José Diogo Quintela.

 

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26.1.12

Saí entorpecido da casa da minha mãe. Tínhamos comido um queijo fresco, bacalhau à Brás, que repeti, e bebido vinho de pacote, áspero, ordinário. Fiquei no patamar, de luzes apagadas, a fumar um cigarro e a olhar para as janelas dos prédios em frente. Gosto do prazer clandestino de fumar no escuro. Foi isso que pensei naquele momento. Desci as escadas. Tive a impressão de noutros tempos haver ali mais vida, mais gente a subir e a desce, mais suspiros de cansaço, e que, mesmo de fora, se ouviam os rumores, a pesada respiração animal do interior das casas: vozes televisivas, brinquedos arrastados pelo chão de tacos, barulho de portas a abrir e fechar, o som das facas a cortarem cebolas, o baque mínimo das lâminas nas pedras da bancada, as panelas cheias de água a pousarem sobre o fogão, os fósforos riscados na lixa das caixas, os arames da roupa a gemer nas roldanas perras, o sobressalto dos pássaros nas gaiolas, as unhas de um cão nervoso na porta de madeira, um latido, risos de gente infeliz, o fundo sonoro e monótono de dezenas de frigoríficos, gritos de uma mãe e, ao longe, nas traseiras do prédio, o estrépito das garrafas de vidro a caírem nos tambores do lixo numa explosão de cristal. Tinha sido há muitos anos. A confusão amainou, como uma tempestade que se dissipa. O prédio tornara-se um corpo doente, na fragilidade nua do cimento, no silêncio não de um corpo que repousa, mas de um que se prepara para morrer. Quando cheguei à rua ouvi uma voz: “Ei!” Depois mais nítida: “Ei! Bruno!” Procurei-a na escuridão, os candeeiros tinham as lâmpadas fundidas. Vi uma silhueta. Quem seria? Sem dúvida que me conhecia. “Como é que é?” Estava mesmo à minha frente, mas não o conseguia reconhecer. “Não te lembras de mim?” E então lembrei-me. Não era possível. Era o Fernando. Ali estava ele. Sempre igual. Não mudara nada desde que eu saíra do bairro. Sorrimos, justos. Caminhámos juntos pelos labirintos dos prédios. Descobrimos que, afinal, pouco tínhamos para dizer um ao outro. “Passaram o quê? Nove anos?”, perguntei-lhe. “Sim, nove anos, no dia 26 de Dezembro de 1999”, respondeu-me. Foi então que apontou para a cabine telefónica em frente da antiga junta de freguesia. “Foi ali. Ali mesmo. Lembras-te?” A minha memória falhou. Teria sido mesmo ali? “Ali. No dia 26 de Dezembro de 1999. Foi ali que me mataram.”

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6.1.12

“Isto é verídico” e contava uma história exemplar sobre o que alguém acabara de dizer. Em outras ocasiões, dizia “ainda no outro dia” e vinha outro exemplo muito a propósito, muito conveniente, que predispunha os outros a um consenso murmurado, a uma concordância tranquila e emoliente. Aquela cabeça não era habitada por uma única ideia, rasgo ou pensamento. Só exemplos, ilustrações, casos de que ouvira falar e que lhe davam aquela autoridade reservada às pessoas que sabem muitas coisas. Nunca contrariava ninguém. Não se metia em discussões. Quando lhe pediam a opinião contorcia-se na cadeira ou, se por acaso estava em pé, olhava para as unhas um tanto sujas, simulava dificuldade, a ponderação grave que pesa nos grandes espíritos e sentenciava “Isso é mais complicado”, e explicava, com recurso a exemplos, o quão complicadas podiam ser certas questões porque “ainda no outro dia” ouvira alguém afirmar que o gajo da junta só estava lá para ganhar do bom e do belo quando na verdade ninguém sabia quanto é que ele ganhava, etc. Por isso, não gostava de opinar, “quem muito fala, pouco acerta”, e o melhor era deixar o mundo transcorrer no seu plácido avanço, aproveitando para coleccionar exemplos, casos verídicos – ouvidos na rua ou lidos no jornal – que fundamentassem de forma convincente a superior filosofia de não ter opinião sobre nada. Para os outros frequentadores do café, o Zé Luís era um sábio. De facto, era um recipiente decorativo, um jarrão humilde, bojudo e lascado. Um trabalhador camarário com umas noções incipientes de marxismo e de luta de classes aprendidas num livro sobre Marx e Proudhon que encontrara na recolha do lixo, livro que não lhe tinha inoculado qualquer ideia, mas que apenas lhe permitira recolher mais uns exemplos que, mais cedo ou mais tarde, teriam a sua utilidade num debate de café. O emprego na câmara era a sua grande glória e desde que o mesmo não estivesse em risco, tudo o resto lhe parecia supérfluo. Uns anos antes, quando a mulher se foi embora, deixando-o com o filho, houve nele uma ameaça de insurreição, uma sombra de amargura. Já ninguém se recordava desse Zé Luís que chegara a discutir com o Teixeira do café à conta de umas cervejas alegadamente já pagas. Por esses tempos andava arredio e taciturno. Ia com o filho ver a bola aos domingos no velho campo pelado, visitava a mãe que vivia na Moita de onde trazia o Tupperware com a sopa para a semana e, esta sei porque o ouvi, de madrugada ligava para um programa da rádio local a pedir músicas que dedicava, com um acento de desilusão, à Maria Eugénia, “mãe do meu filho.” Ouvia as conversas com um inédito esgar sarcástico, como se finalmente uma opinião definitiva e contrária se desenvolvesse no seu interior e os outros nem sequer fossem dignos de uma troca de argumentos. Esmagava a beata no cinzeiro, atulhado de palavras que queria e não queria expulsar, ia para o balcão onde pedia mais uma cerveja ao Teixeira, cujo rosto comercial, a gorda mediocridade do pescoço, aumentava a sua raiva e a sua solidão. Ter de criar o filho sozinho angustiava-o. Entendia, com nítido bom senso, que o miúdo precisava da mãe, que podia acabar como um desses amputados emocionais capazes das violências mais atrozes. Eu, que muitas vezes vi o miúdo sentado nas mesas do café, camisola do Sporting manchada, garrafa de sumol de ananás na mão, pires com um saquinho de amendoins salgados à frente, tinha a mesma impressão. Não falava e aceitava as festas que o pai ocasionalmente lhe fazia na cabeça, perguntando-lhe se estava tudo bem, se queria outro sumol, se queria brincar lá fora, como um cão manso, infeliz. Os olhos – inflexíveis, demorados nas pessoas - é que lhe denunciavam a crueldade incipiente, uma maldade em plena formação e desenvolvimento, como uma flor maligna. Exagero. Talvez fosse uma simples criança assustada, aturdida com a inexplicável partida da mãe como um cão abandonado na estrada. Lentamente, o habitual Zé Luís regressou. Talvez se tivesse acostumado à ausência de Maria Eugénia, talvez o antigo hábito de pesar, sopesar e contrapesar ideias tivesse regressado, privando-o novamente do fardo de sequer ter uma. A mãe morreu-lhe sem dramas, o filho ia crescendo, o rosto readquiriu a tranquilidade, voltara a participar nas conversas. “Ainda no outro dia”, sim, “ainda no outro dia”, claro, “mas isto é verídico”, factos, “isso é mais complicado”, sem dúvida. Os outros, o Zé Andrade, o Beto, o Silva e o velhote cabo-verdiano, ex-embarcadiço que se gabava de saber uns restos de latim, e cujo nome não recordo, festejaram o regresso do sábio, do homem que punha toda a gente de acordo com a sua inesgotável capacidade de ilustrar, exemplificar ou, como se diria hoje, de pôr tudo em perspetiva – a perspetiva da resignação, de um sono olímpico, eterno. Já adolescente o filho do Zé Luís decidiu ir viver com a mãe, creio que para uma aldeia perto de Torres Vedras. O Zé Luís envelheceu. Meteu baixa. Nunca mais apareceu no café. Os vizinhos ouviam o ruído rouco do rádio, ligado a noite inteira, fados, canções antigas. Certa noite, o movimento azul das luzes de uma ambulância dançava na minha janela. Ouvi passos inusuais nas escadas, conversas entrecortadas. Bateram-me à porta. Era um GNR novo e circunspecto. Perguntou-me se tinha ouvido algo de estranho nos últimos tempos, se tinha visto desconhecidos no prédio. Neguei. Agradeceu e despediu-se. Fui à janela. Lá em baixo, encostada ao jipe, Maria Eugénia chorava abraçada ao filho. No dia seguinte, soube facilmente o que tinha acontecido. Quando a polícia arrombou a porta, o cadáver já tinha uns quatro dias. O Zé Luís, ao que tudo indicava, tinha morrido de um ataque de coração. Sozinho, sem o filho, sem a mulher, sem a mãe, sem uma ideia. Só o rádio continuava ligado, num carpido eléctrico, persistente, moribundo. “Isto é verídico.”

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30.12.11

Sobre Um Mundo IluminadoUma Leitura dos Clássicos Ocidentais em Busca de um Sentido para uma Era Secular – Hubert Dreyfus e Sean Dorrance Kelly, Lua de Papel, trad. Francisco Gonçalves

 

Publicado na Ler:

 

A proposta de Hubert Dreyfus e Sean Dorrance Kelly, dois professores de filosofia, é demasiado apetecível para uma época da qual a experiência do sagrado se parece ter evaporado ou, pelo menos, migrado para fenómenos menores ou de importância circunscrita (eventos desportivos, espectáculos musicais, etc.). Pegar nos clássicos da literatura e da filosofia e procurar neles um sentido para as nossas vidas seculares, desprovidas de transcendência, soa a receita mágica, à combinação ideal entre o deleite estético e a utilidade prática. No entanto, o resultado final está próximo da prescrição de um politeísmo suave, que, por um lado, não desampara o homem e que, por outro, não o deixa sob o jugo de um tirano omnipotente. Reconhece a existência de múltiplos significados, mas assegura que esses significados não se anulam. Não obriga o homem a dar um sentido às coisas, mas incentiva-o a descobrir esse sentido, a estar atento, a abrir-se ao mundo. Prega a reconciliação com o corpo (uma crítica à tradição judaico-cristã). Recomenda que nos deixemos levar em comoção coletiva perante as coisas boas (um discurso de Martin Luther King, um desportista de excelência) e que nos isolemos perante as más (um discurso de Hitler, por exemplo). Para Dreyfus e Kelly, o homem moderno – filho de uma linhagem que vai de Ésquilo a Nietzsche, passando por Santo Agostinho, Dante, Kant e Descartes – é vítima da sua ilusória autossuficiência. Se só o homem pode dar sentido ao mundo, então não há fuga possível quando não consegue atribuir-lhe um sentido. Só resta a angústia e o desespero.

 

Este, de acordo com os autores, é não só o mundo dos romances de David Foster Wallace, mas o mundo do próprio escritor americano que, em 2008, após anos de depressão, se suicidou. No entanto, o suicídio de DFW não é interpretado como uma resposta a um problema filosófico (ao que Albert Camus, na famosa frase inicial de O Mito de Sísifo, considerou o único problema filosófico verdadeiramente sério). Os autores deste livro estão mais interessados em mostrar a obra literária de DFW como enunciação desse problema ou, para ser mais exato, como manifestação do problema do niilismo. Camus definiu como central a questão de avaliar se a vida vale a pena ser vivida, ou seja, se o homem – solitário e órfão do divino – será capaz de encontrar um sentido que torne a vida digna de ser vivida. No seu romance inacabado e publicado postumamente, The Pale King, DFW ilustra esta questão de uma forma radical. As personagens do romance são funcionários que passam as oito horas do turno a examinar declarações de impostos. É uma encenação quase caricatural da condição do homem moderno com todo o peso entediante da burocracia. Porém, e ao contrário do que se poderia imaginar, DFW apresenta uma saída, um caminho para a felicidade com o nome de Mitchell Drinion, personagem que vence o tédio, a falta de sentido e de noção de fim das suas tarefas, com o recurso à força de vontade e ao autodomínio. DFW descreveu a personagem desta forma: “Drinion é Feliz.” Dreyfus e Kelly consideram desumana esta confiança nietzscheana na vontade individual para impor o sagrado ao quotidiano em vez de o descobrir. Um comportamento semelhante exigiria de cada indivíduo um esforço tal, uma obstinação tão violenta, uma concentração tão absoluta, que anularia de imediato qualquer possibilidade de felicidade. Este esforço consciente – e humanamente insuportável – no sentido da excelência e da beatitude contrasta com o mundo de Homero, no qual, segundo os autores, reina “a intuição de que o importante já nos foi dado, e de que a vida melhor é aquela que consegue entrar em sintonia com isso.” (p. 76). O reconhecimento de que as nossas ações escapam ao nosso controlo e nem sempre são determinadas pela nossa vontade inspirava nos gregos antigos um sentimento de gratidão perante os acontecimentos. Para Dreyfus e Kelly, a gratidão grega contraria a noção moderna “de que um agente humano é a fonte única das suas próprias acções” (p. 94). Uma vida digna, no mundo de Homero, era aquela em que o homem se deixava ligar “aos estados de espírito que um deus definia para cada situação.” (p. 99), estados por natureza transitórios. Estamos, pois, no paraíso da irresponsabilidade individual e da amoralidade (de que é exemplo Helena de Tróia), que os autores parecem apreciar. Deixarmo-nos levar por estados de espírito transitórios, sejam eles sugeridos por deuses ou por outras entidades, é excelente material para a literatura mas uma receita infalível para a catástrofe social.

 

Depois de descreverem o processo filosófico e literário que uniu os dois extremos – o politeísmo benigno de Homero e o niilismo angustiado de Foster Wallace – Dreyfus e Kelly apontam como meio-termo ideal a cosmovisão de Herman Melville, em Moby Dick. Resumindo a ideia, trata-se de “aceder a tantas formas de responder ao sagrado quantas nos for possível.” Não devemos imitar o capitão Ahab, à procura da verdade derradeira e universal, nem, a exemplo de Pip, enlouquecer na profusão de interpretações e significados. O resultado do dogmatismo monomaníaco – que não encontra a resposta –  e do relativismo estéril – que se confronta com demasiadas respostas – é o mesmo: o niilismo. A solução é sermos capazes de “aceitar todos os significados com um idêntico olhar.” (p. 195). Como todas as soluções de compromisso, a proposta de Dreyfus e Kelly parece-nos excelente quando observada à distância e confrangedoramente pobre quando ponderamos a sua aplicação prática. Somos exortados a experimentar um sentimento homérico de gratidão, mas não nos podemos esquecer que, sem os alicerces religiosos dos gregos antigos, a nossa gratidão seria uma farsa, uma gratidão estética desligada de uma necessidade interior de a expressar e sem uma referência concreta a quem a dirigir. Quando citam as palavras de Ismael, o narrador de Melville, de que “o homem deve diminuir, ou pelo menos deslocar, a ideia que faz da felicidade a que pode aceder”, não assumem que alterar a medida da felicidade exige também um esforço da vontade individual. Quando recomendam ao leitor que se alegre “com o pensamento de que [as alegrias e tristezas do politeísmo] conferem um sentido ao nosso mundo” estão, na verdade, a pedir ao leitor que dê um sentido a essas alegrias e tristezas, uma ideia sensata mas que sobrevive sem a dispensável retórica politeísta.

 

Por muito que isso tenha contribuído para a infelicidade do homem moderno (isto partindo do princípio que as personagens de Homero representam fielmente os seres humanos do seu tempo e que estes eram todos igualmente recetivos aos estímulos dos deuses, a seguir o que estes lhes diziam e a viver num perpétuo estado de gratidão) é inegável que a ideia de responsabilidade individual pelas nossas ações, a emancipação do homem, é um dos grandes triunfos do pensamento ocidental. Depositou sobre o homem um enorme peso – inerente à responsabilidade moral e à necessidade de encontrar um sentido ex nihilo – mas esse é o preço a pagar pela liberdade. Para Hubert Dreyfus e Sean Dorrance Kelly este legado tornou o homem num escravo de si mesmo, um servo da sua própria autonomia. Para se libertar desta auto-escravatura, propõem que o homem esqueça o que aprendeu, abdique do que conquistou e reencene um homem primitivo, pré-moral, a sintonizar-se com o mundo, com os deuses e com as tábuas de madeira (à guisa dos velhos artesãos), garantindo que “este mundo politeísta contemporâneo será um lugar maravilhoso de coisas sagradas e plenas de luz.” Por aqui, pensamos de maneira diferente: vale mais a liberdade nas trevas do que a felicidade fácil num mundo iluminado.

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24.12.11

O leitor já não terá idade para contos de Natal. Acha-os bem-intencionados, levemente hipócritas, a moedinha que se atira para a mão estendida dos bons sentimentos. O leitor é adulto, e como bom adulto acha que o Natal não deve ser um interlúdio de caridade num ano de indiferença. Acha que devemos ser bons e justos com os nossos semelhantes em qualquer ocasião. Acha que o Natal é uma farsa inventada por consciências pesadas, por homens carregados de culpa, por pecadores sem remissão. O leitor é bom e mesmo quando não o é sabe que isso é a natureza humana. Não somos perfeitos e o melhor é aceitá-lo em vez de o tentar camuflar com acções nobres e natalícias. Mas o que eu tenho para contar é um conto de Natal. E é um conto de Natal porque os factos que me preparo para revelar ocorreram na noite de Natal e não posso dizer que o final não vos vá encher de esperança na humanidade. Pelo menos foi assim que o senti, e ninguém mo contou. Aconteceu-me a mim. Confesso que continuo a não suportar contos de Natal. Aquilo que me aconteceu transformou-me, mas não o suficiente para mudar de opinião sobre os contos de Natal. E não espero que o leitor sofra uma transformação mais intensa. Afinal, mesmo que venha a gostar do que vai ler, a verdade é que o que aconteceu, aconteceu-me a mim. Era noite de Natal e eu estava sozinho. Não estava triste ou deprimido. Estava sozinho. O que pode não parecer uma coisa por aí além para quem, como o leitor, não liga a essas celebrações, mas que era um pouco estranha dado que ainda no ano anterior eu tinha passado o Natal com a minha mulher, o meu filho e a família dela. Mesmo que uma situação não seja objectivamente terrível é inevitável que a comparemos com alegrias recentes. No caso em apreço, a comparação não me podia animar. Apesar disso, estava disposto a enfrentá-la com bravura e estoicismo. Afinal, as grandes almas temperam-se nas dificuldades, o que é o género de pensamento confortável que só nos conforta depois de as termos ultrapassado. Na altura, tentei lidar com a situação com algum engenho psicológico, embora o frio, aliado ao facto de estar sozinho, não me ajudasse. Por muito corajosos e lúcidos que sejamos, há circunstâncias que em nada beneficiam essas qualidades e uma delas, garanto-vos, é estar enrolado numa manta, o aquecedor avariado, na noite de Natal, sem ninguém para falarmos. O leitor poderá dizer que a noite de Natal é uma noite como outra qualquer, e di-lo provavelmente rodeado pela família, com os filhinhos ansiosos por abrir os presentes e abençoado pelo sorriso da mulher. Não lhe levo a mal a indelicadeza, porque eu também pensava assim e, de certa forma, continuo a pensar o mesmo. Portanto, como vê, a história, sendo extraordinária, como verá, não mudou assim tanto o meu carácter. Mas, quer acredite, quer não, a noite de Natal é diferente, até porque nunca irá dizer que a noite de 17 de Dezembro ou de 26 de Agosto é igual às outras. Só o dirá da noite de Natal e isso, como deverá perceber, faz toda a diferença. Eu próprio fiz um grande esforço para desvalorizar a noite de Natal. Era só mais uma noite, como tantas, mas no fundo eu sabia que só me estava a enganar. Aposto que o leitor já terá proferido palavras de consolo e de ânimo a pessoas em circunstâncias irremediáveis. Mas não é por isso que deixa de as dizer, porque embora o leitor, como já concluímos, não seja um desses hipócritas que festeja o Natal, orgulha-se das suas qualidades humanas e de ser empático e capaz de compaixão. Evita magoar desnecessariamente alguém que se apresta para ser inevitavelmente magoado pela realidade. Louvo-lhe o comportamento. Bem mais difícil é dirigir palavras de consolo a nós próprios. Se na outra situação podemos desculpar-nos com a ignorância alheia e agir em nome da caridade cristã ou, no seu caso, de uma elevada consciência humanista, consolar-nos a nós próprios é um embuste demasiado óbvio para que um homem razoavelmente são possa insistir nele mais do que alguns minutos. Depois de algumas horas a falar com pessoas pela internet, fui ficando sem contactos. Pessoas que eu mal conhecia, confesso, mas que naquele momento teriam tido uma grande utilidade, quanto mais não fosse pelo facto de poder ver nelas o reflexo da minha solidão e, com isso, sentir-me menos só. Mas a noite de Natal, veja bem, não é uma noite como outra qualquer e eu tive mesmo de me confrontar com o facto de estar sozinho. Tinha preparado uma modesta ceia de couves e bacalhau, uma garrafa de vinho razoável e um bolo-rei. Também tinha em cima da mesa da sala o presente embrulhado que iria dar ao meu filho na manhã do dia seguinte. Interrompo o meu relato para perguntar ao estimado leitor se consegue imaginar o som dos talheres num prato? É fácil, não é? Acredita que, naqueles dias em que estive sozinho, era esse o som da solidão? Quem está habituado a viver com alguém pode pensar que a solidão cai quando se deita na cama e não tem ninguém a quem desejar boa noite e sente a falta dos pés para enroscar. Mas a solidão, pelo menos para mim, é ouvirmos os nossos próprios passos, ver os nossos gestos em diferido, como se estivéssemos a arrumar o palco depois da peça. O ruído dos talheres no prato, quando se está sozinho, fere-nos. A esta altura, o leitor deve estar a preparar o espírito para um milagre. Sossegue. Jamais lhe pediria o esforço de contrariar a sua natureza e encaixar um milagre no seu cepticismo. Também não acredito em milagres, sejam sobrenaturais ou daqueles que todos os dias aparecem nos jornais sobre pessoas que sobreviveram por milagre a um acidente. É também por milagre que as pessoas morrem nos acidentes, um milagre ao contrário, admito, mas um milagre: o milagre da morte. Deviam ser umas oito da noite quando recebi uma mensagem no telemóvel. Como deve imaginar, pensei logo que era uma daquelas mensagens de boas festas que as pessoas enviam por educação aos seus contactos. Por vezes até são mais elaboradas, mesmo que não tenham sido elaboradas por quem as está a enviar. Gostamos que os outros se lembrem de nós. O leitor dir-me-á que pouco consolo haverá numa mensagem enviada para todos os contactos que temos no telemóvel, e assim é, embora isso seja preferível a não receber mensagem nenhuma. Acredite no que lhe digo. Mas esta mensagem surpreendeu-me porque era mesmo para mim. Vinha de um amigo que eu já não via há algum tempo. Perguntava-me se estava tudo bem e onde é que eu ia passar o Natal. Há momentos em que não conseguimos deixar de sentir uma auto-comiseração dilacerante. Ter pena de nós, o leitor concordará, é um sentimento contraditório. Há nele qualquer coisa da consciência do mártir e da incapacidade dos falhados. A tentação é a de rebolar na lama da tristeza e da impotência. Não é fácil erguermo-nos desse conforto ambíguo. Quando li aquela mensagem senti um calor no peito, a determinação dos que caminham para a fogueira certos da sua inocência. Teria sido mais corajoso se tivesse inventado uma história, se lhe tivesse dito que estava com uns tios da província ou em casa de amigos. Tive, porém, uma fraqueza de náufrago. E se, depois daquele barco, nenhum outro passasse? Disse-lhe a verdade: estava sozinho. Uma hora depois, ouvi a campainha. Não entrarei em pormenores. Tudo aconteceu como acabo de lhe contar. Eu não estava prestes a cortar as veias, não fui salvo no último minuto pelo gesto inesperado de um amigo, não apareceu nenhum anjo de luz. Disse-lhe que não esperasse milagres. Não o enganei. No entanto, sei que o sente, esta é uma história extraordinária sem nada incrível dentro, só podia ter acontecido na noite de Natal e só a conto porque aconteceu mesmo na noite de Natal. Não acredite se lhe disser que foi o melhor Natal de sempre. Peço-lhe que acredite que nunca houve outro igual.

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22.12.11

Foi o meu amigo Marco Serrano, homem que abandonou as letras e se pôs a voar, que me chamou a atenção para essa frase que anda lá pelo início de Cem Anos de Solidão. Diz (creio) que nenhuma terra é nossa enquanto não enterrarmos lá um morto. É verdade. Enterrar os nossos mortos vale mais do que hastear bandeiras ou cravar marcos geodésicos na beira da estrada. A nossa terra é sempre onde estão os nossos mortos. Há uns meses vi uma reportagem na televisão em que levavam um homem de regresso a Angola. O homem viera para Portugal ainda criança, criado por uma família de portugueses brancos. Nunca mais regressara a Angola. A televisão – moderna endireitadora de tortos – levou-o para rever os irmãos que por lá ficaram. Ao ver o sangue vivo dos seus vivos, o homem emocionou-se, chorou, perdeu-se em abraços. Mas foi apenas quando descobriram a campa da sua mãe, escondida entre o capim voraz, que aquele homem regressou à sua terra. Regressar à nossa terra é regressar aos nossos mortos, de que os vivos são manifestações breves e frágeis, meros fantasmas de carne e osso. Dois meses antes de morrer, quando a doença ainda não a tinha deixado cega e presa a uma cama anónima de hospital, a minha avó quis ir à terra, Montalvão, uma pequena aldeia do Alto Alentejo. Organizou tudo e partiu com a minha irmã, na altura com treze anos. Ficaram por lá uns dias, poucos. Não sei ao certo o que a minha avó terá feito nesses dias, desconheço os pormenores, talvez a minha irmã saiba. Do que não tenho dúvidas é que a minha avó foi lá para se despedir, para dizer adeus à terra. Creio que a passagem dela por este mundo terminou no momento em que entrou na camioneta que vai para Nisa e em que pela última vez viu a aldeia, uma silhueta de casas a desfazer-se na distância. Os últimos dois meses foram um sofrimento desnecessário, um epílogo inútil em que a minha avó deixou de ver o mundo e as pessoas, mesmo que o apego instintivo à existência, “o duro desejo de durar”, a fizesse acreditar na recuperação, na ideia de regressar a casa e pôr as batatas ao lume. Foi sepultada num cemitério a mais de duzentos quilómetros da terra, muito longe da campa da mãe, o lugar a que verdadeiramente pertencia depois de uma vida deslocada, da província para a capital e da capital para os subúrbios.

 

Abomino o nacionalismo político que, de maneira infame, se aproveita do amor genuíno das pessoas à terra para arrancar ódio e intolerância, rancor e mesquinhez de um sentimento que é, na sua origem, tão humano, profundo e honesto. Mas também não acredito em cidadãos do mundo que não sejam, antes de tudo, filhos de uma terra, que se gabem de não pertencer a lado nenhum. Não aceito o argumento de que as árvores têm raízes e os homens têm pernas, porque as nossas raízes não são físicas, são feitas de memórias, são os lugares em que primeiro amamos, os lugares cheios da presença viva dos nossos mortos. A terra, a ideia de pertença a um lugar, foi pretexto para crimes terríveis e para ideologias hediondas, mas não nos esqueçamos que a primeira violência cometida sobre as vítimas foi dizer-lhes que não pertenciam a lado nenhum, que a terra onde tinham nascido e amado, a terra onde já estavam os seus mortos, não lhes pertencia. De que serve negar isso? Talvez seja um esforço meritório para tornar os homens mais livres, mais senhores de si e menos escravos dos mitos da terra e do sangue. Um esforço para nos livrarmos da carga com que nos albardam à nascença. “Puedo decir que mi patria es mi hijo y mi biblioteca”, escreveu Roberto Bolaño, para quem as únicas fronteiras de um escritor são “las fronteras de los sueños, las fronteras temblorosas del amor y del desamor, las fronteras del valor y del miedo, las fronteras doradas de la ética.” Se assim fosse, nunca mais nenhum escritor se sentiria exilado desde que a seu lado tivesse aqueles que ama e a sua biblioteca. Esta perspectiva libertadora do exílio é partilhada pela escritora checa Vera Linhartova, de que nos fala Milan Kundera num ensaio breve no livro Um Encontro (Dom Quixote, 2011). Num colóquio sobre o exílio, no início dos anos 90, Linhartova disse que “o escritor é em primeiro lugar um homem livre, e a obrigação de preservar a sua independência contra todos os constrangimentos prevalece sobre qualquer outra consideração.” O exílio pode não só libertar o escritor da pátria, mas também da língua: “O escritor não é prisioneiro de uma única língua.” Será que a ideia de exílio e a figura do exilado foram raptadas pela brigada do “moralismo lacrimejante” que se esqueceu de perguntar aos exilados como é que eles sentiam o exílio? Será possível que o exílio seja uma experiência libertadora que desobriga os escritores da fidelidade atávica para com a nação, tornando-os exclusivamente cidadãos de si? Não creio. Kundera reconhece que “cada um vive o exílio à sua maneira inimitável e a experiência de Linhartova é um caso limite” (mas cuja ideia central não se distingue da de Bolaño). E nessas experiências múltiplas encontramos a dor dos desenraizados, o “mal du pays”. Linhartova e Bolaño comportam-se como aquelas pessoas que, depois do divórcio, aproveitam para condenar todo o sentimentalismo e rejeitar qualquer possibilidade de felicidade conjugal. Olham com condescendência os românticos incuráveis que sofreram longe da terra. Ao escritor austríaco Jean Améry (1912-1978), baptizado como Hanns Mayer, a pátria suscitava sentimentos ambivalentes. Judeu, perseguido e aprisionado em Auschwitz, revoltou-se contra a pátria que o maltratou, mas não deixava de sofrer por lhe ter sido extirpada uma parte fundamental da sua identidade. No discurso Literatura e Exílio, Roberto Bolaño perguntava se se podia ter nostalgia por uma terra onde se esteve a ponto de morrer, se se podia ter nostalgia pela pobreza, pela intolerância, pela prepotência e pela injustiça. Améry também tinha feito questões parecidas: “Que era então aquela saudade da terra nesses que o terceiro Reich banira por virtude das suas opiniões políticas ou da sua árvore genealógica?” perguntava, para responder: “A minha saudade da terra, a nossa saudade da terra, era a alienação de nós mesmos.” (A Humanidade Perdida, Alain Finkielkraut, Ed. Asa, p. 121) Não a saudade da terra, mas a saudade do que somos. O exílio forçado liberta? Talvez. Porém, como escreveu Améry, o melhor é “ter uma terra própria para não se precisar dela”. A terra onde estão os nossos mortos e à qual, queiramos ou não, estamos sempre a regressar.

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20.12.11

Nasci no Barreiro. Cresci nos arredores, mas, por causa da tendência infantil para a criação de uma mitologia pessoal, sempre me pensei como um genuíno barreirense. Entre os meus três e nove ou dez anos, a minha mãe levava-me ao Barreiro para cortar o cabelo, no salão Os Cinco Jovens, no qual, sem surpresa, trabalhavam cinco jovens, embora com o passar dos anos uns tenham desaparecido e outros entrado para o seu lugar, a ponto de, a dada altura, trabalharem lá uns seis cada vez menos jovens. Quando chegávamos, a minha mãe tirava uma rodela de metal com um número e, como era habitual haver muita freguesia, ocupávamos o tempo numa pastelaria do outro lado da rua, onde quase sempre eu tomava um galão e comia uma sandes de queijo. Lembro-me bem do queijo, mais amanteigado e guloso do que eu comia em casa, um prazer certo nesses longínquos sábados de manhã. De seguida, depois de passarmos pela estátua de Alfredo da Silva, íamos até a imitação de lago que havia no meio do jardim. Do modo que eu via as coisas, as estátuas eram para reis a cavalo ou para o marquês com o leão ao lado, figuras históricas e solenes, e aquela estátua era demasiado parecida com um homem normal, ainda que gigantesco e éreo. Era uma estátua assustadoramente normal, de uma imponência estranha, uma estátua contemporânea do homenageado. No lago passeavam-se uns patos orgulhosos que recebiam com uma indiferença inicial as migalhas que lhes atirávamos, para logo despertarem da majestade aquática em que deslizavam, lançando-se com avidez aos pedaços de pão e provocando uma súbita e passageira agitação na água para consolo das crianças, que tanto apreciavam este arremedo de natureza, infalivelmente rendidas ao alvoroço de um mundo que começavam a descobrir e em que tudo lhes parecia vivo e verdadeiro. Depois de alimentarmos os patos, ou de alimentarmos o meu prazer inocente de os alimentar, ainda ia ao baloiço, a pedir sempre à minha mãe para me empurrar porque ainda não aprendera a dar balanço, esticando as pernas para o céu quando avançava e encolhendo-as quando recuava. Depois de cortado o cabelo, voltávamos para casa de autocarro. Saíamos numa paragem a uns quinze minutos de casa, o que nos obrigava a passar entre hortas e amoreiras, pó no Verão e lama no Inverno. A minha mãe costumava levar-me ao colo, mas com os anos lá comecei a ir a pé, cansado das pernas, choroso e queixumento. Pelo caminho, encontrávamos algumas roseiras que despontavam por cima dos muros baixos das casas. Com um pequeno corta-unhas, a minha mãe cortava-lhes o caule e os espinhos e roubava as rosas que, chegados a casa, eu exibia à minha avó, como um pequeno guerreiro cansado que regressa com os despojos da manhã. As rosas ficavam numa jarra na mesa da cozinha, onde iam definhando – de rosas vivas e frescas em objectos de decoração castrados de espinhos – e acabavam por morrer. Essa morte lenta, na penumbra que a minha avó inventava com uma toalha na janela da cozinha para que a casa não ficasse muito quente, fascinava-me tanto quanto o movimento vivo e inesperado dos patos. O mundo existia e até as manchas que apareciam nas maçãs logo depois de a minha avó as descascar tinham um carácter de mistério e de revelação. Tudo morre. Nasci no hospital velho, dizem-me que numa manhã de chuva. Hoje, é ali a Santa Casa da Misericórdia. Durante anos, sempre que passávamos por lá eu perguntava à minha mãe: “Foi aqui que eu nasci, não foi?” Ela dizia-me que sim, numa quinta-feira, chovia muito. Alegrava-me saber que tinha nascido ali, numa quinta-feira chuvosa a que a minha memória não chegava, mas que era tão certa e evidente como estar ali com a minha mãe, a olhar pela janela do autocarro os pavilhões velhos e tristes do velho e triste hospital. Agora que vivo no Barreiro e que os meus passos funcionais se confundem com os passos da minha memória, que a geometria das ruas se cruza com os labirintos da infância, que revejo o salão Os Cinco Jovens e a estátua de Alfredo da Silva noutro lugar - agora mais estátua, mais antiga, com a imponência que o tempo empresta aos monumentos, mas ainda assim acessível e próxima – que espreito e já não vejo o lago com os patos, apenas as mesmas árvores e as mesmas sombras na mesma solidão de jardim, surpreendo-me por ser tudo de uma matéria real e tangível e não uma invenção nebulosa de criança, uma reminiscência distante e ténue como o sabor diferente do queijo da pastelaria, mais amanteigado e guloso do que eu comia em casa. Pressinto que o Barreiro de pedras e vidro, de estátuas e pessoas, não é tão real como o Barreiro a que a minha memória não chega. Será que atrás do vidro do salão ainda está aquele homem de uma masculinidade serena e segura que eu imaginava como namorado da minha mãe? Será que ainda há exemplares de A Bola, naquele formato gigante, que eu lia enquanto esperava pela minha vez? Será que esta vida, que é a minha, que foi a minha, ainda existe fora de mim? Será que o Barreiro, o Barreiro que sempre foi a minha cidade, alguma vez existiu fora de mim? No fim, esquecidos os fiapos da memória, as recordações da criança que atirava pão aos patos, o Barreiro, mais do que qualquer outra coisa, antes de qualquer outra coisa, é a inequívoca quinta-feira chuvosa em que nasci, mas que desgraçadamente não recordo.

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12.12.11

Continuação deste post

 

A ironia não é a única forma de denunciar a hipocrisia, seja na sociedade ou na arte. A denúncia pode assumir a forma “realista” de mostrar a vida tal como ela é (obviamente, transfigurada), de não ocultar, em nome do bom gosto, dos padrões morais e estéticos vigentes, dimensões incontornáveis da existência humana. De não ocultar, por exemplo, o sexo. A questão poderá parecer bizantina ao leitor contemporâneo, mas certamente não o era na época de Flaubert. A presença do sexo, ainda que de um modo não pornográfico, no romance de Flaubert, também é um manifesto contra a hipocrisia. Não é um manifesto irónico, no sentido em que não faz do sexo o tema central e omnipresente, e não o trata de uma forma explícita e obsessiva até à irrisão.

 

Esta citação de Boris Vian expõe, por contraste com a obra de Sade, tudo o que não é o erotismo flaubertiano: “O erotismo dos Cento e Vinte Dias de Sodoma, quando não cai num ridículo bastante cómico, não vai além do de um Petit Larousse pervertido.” (p. 28, Escritos Pornográficos) Vian prossegue a ideia com uma citação de Jean Paulhan: “A narração de um assassínio pode lançar-nos num sentimento turvo, o pormenor de uma ida para a cama deixa-nos algum desejo. Mas dez mil idas para a cama (na mesma noite), mas cem mil torturas não nos dão senão lassidão e enjoo.” (p. 28). Vargas Llosa também fala sobre o marquês libertino: “me excita menos un libro de Sade, donde el monotematismo desvitaliza el sexo y lo convierte en algo mental, que, por ejemplo, los episodios eróticos (muy escasos) de Splendeurs et Misères des Courtisanes, de Balzac (...)” (p. 35). A receita sexual flaubertiana passa pela negação simultânea dos excessos clínicos e dos excessos líricos, através do esforço “en pintar un amor que fuera, de un lado, sentimiento, poesía, gesto, y, del otro (más discretamente) erección y orgasmo.” (p. 33). Ou seja, fazer a ponte entre Sade e Lamartine, sublimar a obscenidade, o que Vian designou por “obscenidade poética” para classificar a literatura erótica, na qual o próprio Vargas Llosa se doutorou suma cum laude com o díptico O Elogio da Madrasta e Os Cadernos de Dom Rigoberto, embora estes dois romances se aproximem mais da intelectualização do obsceno do que da poetização.

 

Tantas vezes acusado de frieza, de ser um médico-legista dos sentimentos, Flaubert poderia recorrer ao sexo como álibi para essas acusações. Em Madame Bovary, o sexo está presente, mas não é tratado de uma forma minuciosa e exaustiva. O leitor não é bombardeado com pormenores clínicos. O voyeur que há em cada leitor é atiçado mas nunca satisfeito com a revelação total do acto. Tal como com o melodrama, o sexo está lá, mas integrado num ambiente mais rico. Sugerido em elipses, mas nunca ignorado ou obliterado. Aliás, seria ridículo que o acto sexual não estivesse presente num romance que tem como acontecimento narrativo central um adultério. A eventual ausência do sexo seria sufocantemente irreal, uma ausência omnipresente. Vargas Llosa cita uma carta que Flaubert escreveu a Louise Colet sobre um romance de Lamartine. A passagem permite perceber o que é a denúncia não irónica da hipocrisia: “Et d’abord, pour parler clair, la baise-t-il ou n ela baise-t-il pas? Ce ne sont des êtres humains, mais des manequins. […] Voilà un gaillard qui vit continuellement avec une femme qui l’aime et qu’il aime, et jamais un désir! Pas un nuage impur ne vient obscurcir ce lac bleuâtre! O hypocrite! […] Il est plus facile en effet de dessiner un ange qu’une femme: les ailes cachent la bosse.” Quer a sobrecarga sexual, quer a ausência, seriam soluções irónicas para desmontar a hipocrisia. A primeira através da caricatura, da hipérbole; a segunda através do eufemismo. A terceira via é a realista, escrever sobre sexo de uma forma que torne impossível imaginar o romance de outro de modo. Não é só a mot juste, é o tom justo que confere à obra a sua própria necessidade – só a podemos conceber assim.

 

A cena de Madame Bovary que ilustra de forma mais exacta a teoria (e, como nos adverte Vargas Llosa, devemos sempre ter em atenção que a praxis literária de Flaubert é mais importante que os seus esparsos esforços teóricos) é aquela em que Ema e Léon se encontram num fiacre e aí, pela primeira vez, consumam a sua paixão. Vargas Llosa considera que este é o clímax erótico de todo o romance. Que a narração desse clímax seja feita através de uma elipse genial diz-nos tudo o que há para saber sobre o erotismo na obra de Flaubert: “Resulta notable que el más imaginativo episodio erótico de la literatura francesa no contenga una sola alusión al cuerpo feminino ni una palabra de amor, y sea sólo una enumeración de calles y lugares, la descripción de las vueltas y revueltas de un viejo coche de alquiler.” (p. 36)

 

Boris Vian dizia, com pouco acerto, a não ser que considerasse todas as pessoas erotómanos, que “não há literatura erótica senão no espírito do erotómano; e não poderíamos pretender que a descrição...digamos, de uma árvore ou de uma casa, seja menos erótica que a de um casal de sábios amantes...Tudo está em precisar o estado de espírito do leitor.” (p. 42) O que Vian não diz é que o estado de espírito do leitor é manipulado pelo autor, pela forma como este gere a informação que chega ao outro. A descrição exterior de uma casa pode não ter nada de erótico, a não ser que o leitor saiba que lá dentro um homem e uma mulher se entregam aos prazeres mais intensos. Aí, a descrição deixa de ser anódina e convencional, e cada palavra de que o narrador se serve para descrever uma janela ou uma varanda é um momento de intimidade que não nos disponibiliza. Toda a cena do fiacre obedece a esse princípio. Flaubert faz de ilusionista que lança uma cortina de fumo que nos impede de espreitar para o outro lado. Só que nós sabemos o que está a acontecer do lado de lá; o truque é a própria cortina de fumo. Uma elipse perfeita em que o narrador não nos deixa a meio de uma cena para passar para um lugar longínquo, para saltar para outro acontecimento, mas em que nos obriga a permanecer à porta, suspensos, a contemplar o nada que, afinal, é tudo. A cortina que é, afinal, o verdadeiro truque.

 

“Play them like an organ”, era o desejo de Hitchcock em relação aos espectadores. Manipular o leitor, disponibilizando-lhe rações de informação, atiçando-lhe o voyeurismo para logo o frustrar, é a função do romancista, bonecreiro de um teatro de enganos, senhor da realidade fictícia. Dá-nos pedras e ruas que, na imaginação do leitor, suspiram, gemem, gozam. Entretém-nos com pedras ao mesmo tempo que esconde a carne, o fogo do desejo. Eis o verdadeiro romance sobre o nada, de que falava o próprio Flaubert. Só podemos apreciar o nada se tivermos a certeza que, debaixo da superfície, há alguma coisa: “O veículo foi indo ao longo do rio, pelo caminho da sirga, calcetado de rudes calhaus, e, por muito tempo, do lado de Oyssel, para lá das ilhas. (...) Dali, desceu; e então, sem direcção nem destino, errou ao acaso.” O fiacre prossegue a viagem sem outro sentido que não o de prolongar o tempo dos amantes. Há uma sugestão de orgasmo, da lassidão física do êxtase: “ Em certa ocasião, a meio do dia, em pleno campo, no momento em que o sol dardejava raios mais fortes sobre as velhas lanternas prateadas, uma mão nua passou sob as pequenas cortinas de pano amarelo e lançou para o exterior papelinhos rasgados (...)”. A mão nua é toda a nudez da cena que termina com mais uma cortina de fumo, um véu que esconde as emoções tal como o fiacre tinha escondido os prazeres: “Depois, pelas seis horas, a carruagem parou numa travessa do bairro Beauvoisine, e dela se apeou uma mulher que caminhava com véu descido, sem voltar a cabeça.” Flaubert coroa a cena com esta maravilha de descrição pós-coital. Não se refere a Ema, diz apenas que é uma mulher e esta indefinição é de um poder extraordinário. Para ser, o sexo não tem de aparecer.

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24.11.11

Da mãe, os filhos só vêem o que é mãe. Só conhecem a mãe. A mãe é sopa e o cheiro dos refogados. A mãe é a mão que esfrega as costas no banho, que escova o cabelo enriçado, que seca o cabelo molhado, a mão que afaga, que estraga. A boca que sopra a sopa, que sopra a ferida. Os filhos são os parasitas da mãe. Comem-lhe o coração que cresce da noite para o dia para que nunca lhes falte o pão-coração. O que é que a mãe quer? A mãe não quer nada. Quem tem mãe, tem tudo, diz a quadra, e quem é tudo não precisa de nada. Então, o que há-de querer a mãe? Não é dela o coração que nos alimenta, que bombeia o amor que nos entra nas veias, que nos corre na casa? E quem é que quereria a mãe? Se a mãe ainda quer, se a mãe ainda sonha, se a mãe ainda crê, perde tempo. A mãe tem dois filhos. Nós somos tudo o que a mãe pode querer, tudo o que a mãe está autorizada a querer. Quando respira, é mãe. Quando passa a roupa, é mãe. Quando come, é mãe. Quando aquece o prato solitário no micro-ondas, quando, à noite, vê televisão em silêncio, quando adormece sozinha na cama, quando na cama acorda sozinha, quando o corpo se move nos sonhos e não toca ninguém, quando toma banho e a água escorre pelos veios do corpo e só a água visita certas sombras de corpo, é sempre mãe e mãe e mãe. A mãe não pode dizer nada. Não pode dizer que está farta desta merda e que quer desistir, que está cansada de ter uma vagina e um útero que só existem nas consultas de ginecologia, que só existem para as dores, os miomas, as hemorragias. A mãe não pode sofrer por ela, porque mãe é mãe, só há uma, mater dolorosa, pietà de filho morto nos braços; e a piedade que ela merece? Os braços que hão-de segurá-la? Ontem, a mãe apaixonou-se e os filhos fizemos cara de nojo, apontámos os nossos dedos mimados ao coração da mãe, que é nosso, que diariamente o comemos. Quem nos dará o coração? Quem se alimenta da felicidade selvagem que a mãe descobriu? A mãe apaixonou-se e isso foi um erro e um erro é vida. Agora, a mãe pode voltar a sorrir por ela, a sofrer por ela, a comer o seu próprio coração. Mas nós, filhos-parasita, não queremos a mãe-canibal. O livro começa assim: “Ontem, a mãe morreu.” E prossegue: “Ontem, por fim, voltou a ser apenas uma mulher.”

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21.11.11

Publicado na Ler

 

Um Tigre nas Florestas da Noite, Margaux Fragoso, Porto Editora

 

Imagine o leitor a história de uma relação amorosa entre uma criança de sete anos e um homem de cinquenta. Imagine que esta história é narrada em retrospetiva na primeira pessoa pela criança, agora mulher. O exercício é quase inconcebível porque estica ao máximo a “suspensão da descrença” e, ao mesmo tempo, os limites da imaginação moral do leitor. Agora, em vez de suspender a incredulidade, ative a credulidade, porque Um Tigre nas Florestas da Noite não é ficção, são as memórias da autora, Margaux Fragoso.

 

Um livro de memórias, apresentado enquanto tal, estabelece um contrato tácito com o leitor. Diz-lhe que os factos narrados, ainda que diluídos pelas impressões subjetivas da memória, são reais. A este contrato o escritor pode adicionar umas cláusulas que têm por objetivo desestabilizar a perceção do leitor. As cláusulas são a estrutura narrativa e a linguagem, que pertencem ao domínio da ficção. Não se trata de fraude ou má-fé (acrescentar factos fictícios a uma autobiografia, por exemplo), mas da exposição dos factos num quadro narrativo associado à ficção. Digamos que é um pequeno e admissível truque a que o memorialista recorre para levar o leitor para um território híbrido e que alguns ficcionistas utilizam de forma inversa, narrando ficções como se fossem factos históricos (pensemos, para não gastar mais tempo, na abertura de O Nome da Rosa, de Umberto Eco). A narradora de Um Tigre nas Florestas da Noite vive numa espécie de indecisão camuflada, de cuja verdadeira intenção nos vamos apercebendo ao longo do livro. Vejamos este exemplo logo nas primeiras páginas: Fragoso transcreve, em discurso direto, uma história que o pai lhe contou há muitos anos; recorda-se de todos os pormenores (“Fez uma pausa para beber um gole de cerveja e continuou.”). Na mesma página, conta uma das brincadeiras que fazia com Peter (o homem de cinquenta anos) e confessa ao leitor “Não me lembro bem da história”. No primeiro momento, quem nos conta a história é a narradora omnisciente que se lembra de todos os detalhes de uma conversa tida há anos. A seguir, é a memorialista sincera que se dirige ao leitor admitindo as limitações da memória. Saltamos da tirania do narrador omnisciente para a humildade do memorialista falível.

 

Em que é que ficamos? Partimos, como sempre, das condições contratuais determinadas pela própria escritora. Fragoso quer que a sua história – as suas memórias - seja lida desta forma. Cabe-nos perceber as razões de uma estrutura narrativa tão oscilante, tão arriscada, cujo maior risco é o de parecer uma tentativa de envernizar os factos, de embelezar as memórias, de pegar em migalhas dispersas pelo tempo para compor um bolo comemorativo. Mas não é o que acontece aqui. A estrutura está intrinsecamente ligada à matéria sensível relatada (o abuso continuado de uma criança, a própria autora) e à vontade de expor o comportamento de um pedófilo de um modo que não seja condicionado pelo juízo moral imediato, de um modo que permita que ele se revele gradualmente. A “humanização” do monstro, aqui, não é mais do que deixá-lo, narrativamente, à vontade para que o possamos observar em ação, sem que à partida olhemos para ele como um monstro. Porque os abusos deste género nem sempre são cometidos com recurso à violência ostensiva, nem sempre parecem abusos. Aliás, o estratagema de um pedófilo como Peter é esse: o de fazer passar um abuso por uma relação amorosa consentida (daí a escolha de palavras no início deste texto), entre iguais, escolhendo alvos suficientemente vulneráveis para entrarem nesse universo. O pedófilo constrói uma fantasia à volta do abuso e – este é o seu trunfo – tem a capacidade de a impingir às vítimas. É uma teia pacientemente tecida com a finalidade de o abuso não parecer abuso, de o agressor não parecer agressor e de a vítima não se sentir vítima.

 

Em vez de gritar a sua dor, em vez de escrever um livro-choque, Margaux Fragoso recorreu a uma trama narrativa que desmonta, com idêntica paciência, a teia do agressor. A crueza explícita das cenas de sexo descritas pela narradora e a colaboração ativa da criança/adolescente nas fantasias do agressor não são uma exploração sensacionalista, nem uma culpabilização da vítima. São uma demonstração do funcionamento da teia, do quão persuasivo consegue ser um pedófilo, da sua capacidade de distorcer a realidade e de a impor aos outros. A dada altura, a vítima cai numa violenta dependência emocional do agressor: “Sem Peter para me ver, para me adorar, como é que eu poderia existir?” (p. 255); “Jamais trairia a única pessoa no mundo que se preocupava verdadeiramente comigo” (p. 265); “eu era a droga de Peter e ele era a minha droga” (p. 286). A fantasia “suave, afável, insinuante” impõe-se brutalmente com toda a sua força destrutiva. Da mesma forma, a verdade implacável dos factos e da memória emerge da estrutura narrativa oscilante que a autora escolheu para a revelar.

 

Considerada esta informação, será, pois, legítimo fazer uma avaliação literária da obra? Sim, porque Fragoso escolheu um edifício literário para alojar as suas memórias, porque assumiu, tal como um romancista, as liberdades no discurso (direto e indireto) e também porque a sua linguagem introduz elementos cujo efeito não é o de reforçar a veracidade dos factos mas o de produzir “realismo”: desde a típica observação realista, quase neutra “A luz que entrava pelas janelas refletia-se nas tábuas do soalho” à sequência de metáforas neste excerto: “Enroscava a boca à volta dele, como uma cascavel sem presas devorando um rato vivo. (...) Depois, tratava das veias, da pele brutalmente esticada, cheia de estrias, retesada e saliente ao mesmo tempo, aquela pele lá em baixo que parecia a pele de alguém que sofrera uma queimadura grave, encrespada tal como a pele da nossa mão ficaria se a aproximássemos das chamas para logo a retirarmos.” Sendo incursões literárias meramente competentes (qualquer comparação com Lolita, de Nabokov, é delírio) não comprometem, contudo, a estabilidade factual da história (aquilo que em termos ficcionais designamos por verosimilhança). É um livro das memórias dolorosas de feridas infligidas sob o disfarce do afeto. O mérito de Margaux Fragoso é conseguir desmascarar esse arremedo de afeto e deixar visíveis as feridas sem demasiado verniz literário.

 

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3.11.11

Peço a atenção dos telespectadores para as capas que se seguem:

 

 

 

 

Por um inexplicável fenómeno editorial e atmosférico, ambas as revistas coincidem no tempo (esta semana) e no espaço (o das bancas). Para facilitar, chamemos a isto democracia. De um lado, temos um encontro entre dois génios, ocorrido (assim reza a capa) a 9 de Outubro, em Cambridge, lugar onde, presumo, as pessoas são muito inteligentes e dão joviais passeios pelas ruas discutindo filosofia e literatura clássica depois de manhãs intensas de salutar exercício físico. Do outro – porque, nestas coisas de cultura, a TV Guia não gosta de ficar para trás –, temos uma concorrente da Casa dos Segredos, famosa, entre outras coisas, por desconhecer o paradeiro de África e por massajar subrepticiamente a pudenda de um colega de infortúnio. Diz a capa da TV Guia que Cátia, assim se chama a rapariga, tem um problema mental, o que só pode ser considerado um progresso porque tudo indicava que teria vários. Para divertimento geral da nação, Cátia mostrou-se ser mais burra do que o comum dos seus compatriotas: acha que Londres é um país, que África fica na América do Sul (uma curiosa variação da teoria das placas) e – segundo me constou – tem por hábito analisar os mapas ao contrário, no que considero uma metáfora arguta sobre o estado actual da economia.

 

Feito o intróito, devo começar por defender a pobre rapariga, uma vez que os outros dois senhores encontrarão com facilidade quem os defenda e até quem imediatamente se ajoelhe perante a imagem da proximidade de dois mitos. A ignorância geográfica de Cátia, não sendo matéria de louvor, não será motivo para escárnio, a não ser para aqueles que estão sempre dispostos a atacar o ensino público e a lembrar o inelutável atraso cultural do povo lusitano. É óbvio que no sistema de valores de Cátia – mesmo ignorando o eventual problema mental referido na capa da TV Guia – a localização de África, o próprio conceito de África, dos continentes e do mundo, são informações neglicenciáveis, da mesma forma que a maior parte dos seres humanos vive bem sem saber o que caralho é um neutrino (a esse propósito, deverão ler a entrevista de João Magueijo, também neste número da Ler). De manhã, quando me levanto, e apesar de saber quem são George Steiner e António Lobo Antunes, é-me bem mais útil saber onde é e como chegar a Benfica, onde trabalho. Pequena nota: há uns meses, fui almoçar a um restaurante em Benfica e quem é que estava no mesmo restaurante? António Lobo Antunes. Partilhar o mesmo restaurante com um génio fez-me ter vontade de envelhecer depressa para lamentar o tempo em que era normal ir almoçar a um restaurante em Benfica e encontrar figuras da literatura mundial, Ah, tempos que não voltam mais! Retomo. Facto curioso é que, no meio de uma conversa eruditíssima, em que praticamente não há uma frase que não seja abençoada por um nome incontornável da cultura ocidental (vou ser rápido: Tchékov, Céline, Juvenal, Swift, Platão, Malraux, Diderot, Allan Poe, Kant, Jünger, Sócrates, Jesus Cristo, Bourget, Bergson, Flaubert, a puta da Bovary, Balzac, Tolstói, Pound, Stendhal, Emily Brontë, Ovídio, Horácio, Virgílio, Camões, Melville, Cervantes, Benn, Faulkner, Nabokov, Borges, Pessoa, Gogol, Zweig, Conrad, Valéry, Proust, Shakespeare, Koestler, Gide, Greene, Mozart, Schubert, Tintoretto, Rembrandt, vinho branco), falam sobre a experiência africana de Lobo Antunes. Diz o velho mestre: “Para mim, esta questão da tortura é enorme, capital. Podemos nós tocar num outro ser humano? Espero nunca ser capaz disso. Mas, em Angola, teve com certeza de fazer esta escolha.” E é então que se abre um abismo entre estes dois homens, rapidamente colmatado pela educação e elegância de quem sabe estar a viver um momento cerimonioso, um chazinho de intercâmbio de inteligências superiores. No que diz respeito a África e, mais precisamente, à guerra (ou à tortura), estes homens vivem em mundos completamente diferentes que nem os milhares de livros que leram podem unir. A África de Lobo Antunes, a noção de tortura, é algo que o escritor conheceu em primeira mão. A África de Steiner é um ponto num mapa, algo que conhece dos romances de Conrad, e o seu conhecimento da tortura uma mera hipótese académica. Outra vez Steiner: “Em Angola, teve conhecimento direto de experiências atrozes, terá visto com os próprios olhos violências e sofrimentos que eu, graças a Deus, só conheço em segunda mão e que encontro na sua obra, que nos ajuda a compreender esta enorme injustiça (...)”. Get it? Não quero desvalorizar a erudição e o saber livresco. Quero apenas sublinhar que esse tipo de conhecimento é apenas o reverso da ignorância da pobre Cátia. Para Steiner e para Cátia, para nós que lemos muito e vemos muitas séries de televisão, África é apenas um ponto num mapa, uma ideia, uma abstracção. A diferença é que a pobre Cátia não sabe onde raio fica esse ponto no mapa. Nós, com os livros, e a pobre Cátia, com a sua estupidez refulgente, vivemos em segunda mão.

 

Enquanto escrevia estas linhas no barco, duas senhoras sentadas atrás de mim deliciavam-se com a ignorância de Cátia: “Diz que Londres é um país – é uma barbaridade”, dizia uma, ao que a outra acrescentou melancolicamente, como se contemplasse a terra devastada de toda uma civilização: “É muito triste.” Até se pode dar o caso de as duas senhoras saberem quem é António Lobo Antunes, mas duvido que saibam quem é George Steiner e o que ele já escreveu sobre a barbárie e a cultura. Para elas, passageiras triviais do barco e do mundo, a barbárie está para além das muralhas daquilo que conhecem (um reflexo historicamente compreensível e humanamente perdoável), a barbárie começa na cabeça da pobre Cátia. Daqui a uns meses, já não se recordarão da infeliz. Cátia permanecerá esquecida, porém eternamente visível e disponível, nos arquivos de milhões de vídeos do youtube. Ninguém guardará na memória que, durante uma semana, partilhou as bancas de jornais com aqueles dois gigantes, cada um especialista na sua respectiva forma de ignorância, como é próprio do ser humano.

 

link do postPor Bruno Vieira Amaral, às 21:58  ver comentários (20) comentar


 
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