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Circo da Lama

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

Circo da Lama

16
Dez17

Um País a Céu Aberto

Bruno Vieira Amaral

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Convidado a apresentar um livro em que o autor cita abundante e justificadamente, permitam-me que comece esta apresentação com uma citação longa e, na minha humilde opinião, justificadíssima. Diz assim: “O segundo tipo de território que está a arder, em particular neste ano de 2005, é o território das matas periurbanas, características dos distritos mais feios e mais destruídos do país: os do litoral centro e norte. Os citadinos podem ver esse território nas imagens da televisão, a arder por detrás dos bombeiros exaustos e das mulheres desesperadas que gritam «Valha-me Nossa Senhora!» é o território das casas espalhadas por todas as encostas e vales, uma aqui, outra acolá, encostadas umas às outras sem espaço para passar um autotanque, separadas por caminhos serpenteantes que ficaram em parte por alcatroar, é o território das oficinas no meio de matos de restolho sujo de óleo, montanhas de papel amarelecido ao sol, garrafas de plástico rebentadas. É o território dos armazéns mais ou menos ilegais, cheios de materiais de obra, roupas, mobiliário, coisas de pirotecnia, encostados a casas ou escondidos nos eucaliptais, o territórios dos parques de sucata entre pinheiros, rodeados de charcos de óleo, poças de gasolina, garrafas de gás, o território dos lugares que nem aldeias são, debruadas a lixeiras, paletes de madeira a apodrecer, bermas atafulhadas de papel velho, embalagens, ervas secas. É o território que os citadinos, leitores de jornais, jornalistas, ministros, nunca vêem porque só andam nas auto-estradas, o território onde, à beira de cada estradeca, no sopé de cada encosta, convenientemente escondidas dos olhares pelas silvas e pelos tufos espessos de arbustos, há milhares – literalmente milhares – de lixeiras clandestinas, mobília velha, garrafas de plástico, madeiras de obras (é verdade – embora poucos o saibam: o campo, em Portugal, é muito mais sujo que as cidades).” Paulo Varela Gomes, Ouro e Cinza.

 

Deixo-vos aqui outra citação, esta igualmente longa, mas menos justificada, visto que o autor do texto é a pessoa que agora vos fala. Está no romance que publiquei este ano:

 

“A fim de nos afastarmos da morte de João Jorge, decidimos aceitar o convite de uns amigos para passar um fim-de-semana fora. Vivem numa povoação perto de Torres Vedras, um pouco isolados, sitiados pela paisagem de moinhos antigos, modernas hélices de produção de energia eólica, topos brancos piramidais de tendas instaladas em quintas onde os noivos da cidade vêm casar-se. De cada vez que vou para aqueles lados a hibridez da paisagem causa-me um certo desconforto. Para onde quer que se olhe há um ar de abandono industrial, mesmo nas fábricas em actividade e, paradoxalmente, na paisagem natural, um tanto incompleta, um estaleiro de obras da natureza, com as suas elevações semelhantes a esboços de montanhas, os sucessivos montes como uma cordilheira abandonada a meio por um deus impaciente. Há uns anos fui coagido pela empresa onde trabalhava a participar num desses eventos destinados a fomentar o espírito de equipa e a pró-actividade, um rally paper precisamente nos arredores de Torres Vedras. Passámos por lugarejos, trilhos alagados, canaviais de uma exuberância selvagem e, a par desta respiração verde assobiada por tentilhões e andorinhas, havia pausas de ferro e de cimento, os carris da linha do Oeste, os postes de alta tensão coroados por ninhos de cegonha que, naquela altura do ano não se viam, um viaduto sobrenatural, um aglomerado de vivendas, arrecadações de madeira e oficinas com cheiro a tinta e óleo de motor, um conjunto tão irregular que, em vez de pensado e construído, parecia ter sido ali despejado. Repousámos debaixo do viaduto de dimensões fenomenais. À nossa volta, dominava aquela espécie de vegetação múltipla e indecisa, o lugar ideal para se ocultar um cadáver. Imaginei aquele local dali a milhares de anos, se a construção humana subsistisse. Os pilares gigantescos em contraste com o viço daninho, espontâneo, lá em baixo. Imaginei que aquelas obras tivessem sido planeadas para um futuro que já não viveremos, sonhadas pela mente de um engenheiro sentimental, leitor de ficção científica. Eis a alarmante paisagem do Oeste: um aspecto provisório ou abandonado, de beira de estrada, onde tudo, até a natureza, é desmontável, precário, alcatrão e mata, silos desactivados, restaurantes desproporcionais onde aos fins-de-semana se servem buffets e se sorteiam Ferraris usados, vendas de loiça sanitária e stands de carros em segunda mão, produtores de melão e batata a venderem directamente o produto aos consumidores. Nada disto se via da casa dos meus amigos. Só a paisagem era a mesma, indecisa, incompleta, híbrida.”

 

Nas páginas iniciais desta Volta a Portugal, Álvaro Domingues expõe-nos ao pensamento de António Ferro, homem que não queria que vissem a bela fealdade do nosso país, a que se alude nos excertos que li. Na Cartilha da Terra Portuguesa, o propagandista do Estado Novo queria dar a conhecer aos turistas os “mais belos panoramas, monumentos principais, festas típicas, hotéis ou pousadas, as próprias especialidades culinárias.” Mas, mais do que informações úteis, a cartilha devia ser um breviário destinado a “todos os devotos da nossa Pátria”, desejosos de se iniciarem no catecismo da “sua Beleza”, com letra maiúscula. Portugal como religião e santuário. Em Vida e Arte do Povo Português, Ferro, embriagado de lirismo, cantava os “jardins onde a nossa alma colhe flores” e as “planícies onde o sonho galopa, onde o silêncio mora.” Neste país bucólico e sagrado, “casa de Deus”, vive o povo que “trabalha, sofre, ama e canta”. Mas o verdadeiro sofrimento, a miséria, a pobreza e os conflitos não cabiam neste quadro singelo de honrada e humilde portugalidade.

 

Na Visão História, o jornalista Pedro Caldeira Rodrigues descreve a origem e intenções desta corrente país-realista.

“A nova elite política, católica, conservadora, militarista e nacionalista, almejava expurgar a «desordem republicana» através de um novo figurino de emoções e referências provenientes da pureza campestre, em oposição à cidade impura, cosmopolita, anárquica. […]O campo, bucólico, hierárquico, conservador, opunha-se à cidade, proletária, caótica, maçónica, impura. O meio rural passava a ser sinónimo de autenticidade, o espaço urbano um lugar degenerado e transgressor.”

 

Inspirados pelo nacionalismo francês de Charles Maurras, os conservadores portugueses também quiseram criar – e criaram – o seu próprio país real em oposição ao país legal, ao país das instituições e do poder central concentrado em Lisboa. Ganhava finalmente contornos políticos a tendência de opor o campo à cidade, tendência tão velha que remontava a tempos bíblicos, mas que o Romantismo, com o seu culto da paisagem como eixo da identidade nacional, recuperou e popularizou. Em Almeida Garrett, Júlio Dinis, Fialho de Almeida e até no bom Eça, a cidade é impura, fétida, decadente e caótica, e é no campo, ordenado, puro, autêntico e saudável, que o homem pode encontrar a cura para a doença da civilização. Como se lê no livro O Crime em Lisboa no século XIX: “A cidade emerge como um espaço desorganizado, caótico e de difícil controlo e, por isso, propício à prática de ilegalidades e do crime, enquanto os espaços rurais são percepcionados como locais onde se desenvolvem modos de vida mais harmoniosos, simples, equilibrados e salutares, permitindo assim o afastamento de problemas sociais, como a criminalidade.”

Em Volta a Portugal, lê-se a certa altura: “De tanto martelado o assunto, o mito e a ficção tornaram-se mais presentes do que a realidade.” É caso para dizer que o país real alojou-se de onde é mais difícil extirpá-lo: não da realidade, mas da imaginação. O mito enraizou-se no imaginário colectivo da nação. Ainda há trinta anos, o Portugal ensinado na escola primária era esse país imobilizado, pitoresco, de casinhas típicas, trajes tradicionais e gastronomia regional, de alfarrobas a secar nos telhados dos Algarves, dos socalcos vindimados do Douro, dos pastores da serra nevada e dos campinos da lezíria, dos moliceiros e dos rabelos. Hoje, mantém-se vivo nos programas de domingo à tarde, com forró das beiras e barrigas de freiras, cavacas e cavaquinhos, adufes e marafonas, vira que já não vira e torna a virar, nas eleições das aldeias mais portuguesas de Portugal e do mundo e nos panfletos turísticos assinados já não com mão de ferro, mas com a mão de veludo dos estrategas e dos marqueteiros, criadores de Allgarves e South Bays, dispostos a vender Portugal como paraíso intocado, reserva espiritual e natural onde ainda se criam portugueses – seja para consumo interno ou para exportação – e destino prime entre os destinos low-cost.

 

É mais do que óbvio que o país real – quer na versão de António Ferro e do Estado Novo, quer na versão moderna do país que está na moda – é menos real do que parece. A realidade na expressão “país real” não é intrínseca ao país que alegadamente descreve. Ou é tão intrínseca como o conceito de exotismo é intrínseco aos países e regiões ao qual é aplicado. “Reality lies in the eye of the beholder”, que é como quem diz, “quem imaginário ama, real lhe parece”, como na história do célebre Cavaleiro da Triste Figura. Por exemplo, a paisagem é sempre mais ordenada nos discursos sobre a paisagem do que na própria realidade. Aliás, para isso mesmo serve a linguagem, para ordenar a realidade que se nos apresenta caótica. O conjunto de coisas – práticas, objectos, tradições – que constituem essa realidade é escolhido a dedo, quando não criado de raiz: romarias, doçarias, monumentos, castelos, pelourinhos, ranchos folclóricos, centros históricos e ar puro.

 

A narrativa aguenta-se até o verdadeiro país real irromper, sem pedir licença, no quotidiano televisivo das desgraças. Nesse momento, a ilusão do país de sucesso desfaz-se em pó e cinzas e o país real passa a ser o dos cem mortos em incêndios, do desordenamento do território, da desertificação do interior, do abandono e do desleixo, dos Palitos e dos eucaliptos, o país envelhecido, tombado para o litoral, sem futuro e sem esperança, à espera da morte natural e anunciada. Então percebemos que o campo inculcado na nossa imaginação já só existe em pequenas unidades geríveis e rentáveis, sejam de turismo rural ou do agro-negócio, e só interessa conservar o que à volta contribua para a ilusão precária (não é preciso mais porque os turistas não se demoram) de que aquilo não é apenas um cenário.

 

Mas entre as duas imagens do país real, a do segredo mais bem escondido da Europa e das vergonhas mais mal escondidas do mundo, há um, por assim dizer, terceiro país real que permanece no ângulo morto e não cabe quer nos discursos triunfais, quer nos discursos apocalípticos. Um país que não encaixa em nenhum discurso de ordenamento do pensamento sobre o território. Neste país, certas construções humanas parecem espontâneas como ervas daninhas, tão depressa ferem a paisagem como são assimiladas por esta, proporcionando imagens que vão do kitsch ao surrealismo. Este é o país embargado e incompleto como uma ideia que se teve mas que não se pôde concretizar. Prospera no espaço de transição entre o campo e a cidade, entre o passado e a modernidade, entre o autêntico e o sofisticado (ambos falsos), entre o natural e o artificial. É narrado em parte pelas rotundas monumentais que sabotam a própria dignidade a que almejam, construídas como símbolos do progresso e que acabam como prova incriminatória do nosso atraso.

 

Este Portugal não cabe nos planos estratégicos para o interior, nem nos rios de dinheiro que desaguam nas áreas metropolitanas. Imune a programas Polis e a operações de cosmética, é um país a meio caminho, terra de ninguém onde o campo se rarefaz e a cidade ainda está por se materializar, povoado por antigos aldeões e aspirantes a citadinos que transportam as suas memórias do campo para o novo território de cimento e alcatrão criando um híbrido que provoca dissonâncias cognitivas, autênticos rasgões na realidade, como outdoors chineses nas estradas secundárias do Ribatejo.

 

Resistente a todos os esforços de domesticação, impróprio para venda, consumo e promoção, este é o país que gostaríamos de esconder no quarto das arrumações quando recebemos visitas, mas que tem o inconveniente de ser um a céu aberto. Esse país não pode ser escalado, nem surfado, tem muitos buracos que não servem para golfe e as águas que por ele correm são tudo menos terapêuticas. É um gigantesco baldio onde as autoridades se esqueceram de pôr o aviso: “é proibido vazar entulho”.

 

Álvaro Domingues conhece-o bem porque escreve: “Entre as aldeias típicas e os centros históricos”, cujo denominador comum é o passado extraordinário e a afirmação de supostas genuinidades, sobram territórios extensos e paisagens sem identidade física, sem memória. Paisagens ordinárias, amnésicas ou genéricas como os medicamentos sem marca.” Mas são essas paisagens que pedem reflexão, que imploram, no seu abandono, por um discurso. O olhar de Álvaro Domingues, visível nas fotografias que não apenas ilustram o livro, como são a sua essência, é já um discurso sobre esses não-lugares naturais que constituem grande parte do território português.

 

Por vezes, as suas legendas lacónicas e motejos subtis soam-nos a sarcasmo, ao divertimento impudico do citadino que se delicia com os pitorescos cartazes autárquicos, com a toponimia ambígua ou os erros ortográficos nos menus. Mas tanta e tão reiterada atenção ao feio, ao invulgar, ao inesperado, pressupõe uma reflexão, uma educação, para não dizer uma filosofia, do olhar, e um sentimento que poderá não ser amor, mas denuncia encanto. Ao ver as imagens deste livro, lembrei-de de imediato dos dois textos que citei no início, porque foi como que um reencontro com um país que conheço, reconheço e me fascina. O país que, no seu estado de desenvolvimento selvagem, resultado de megalomanias, incúria, falta de verbas e crises, resiste a ser integrado no grande parque de diversões e de actividades de lazer ou o centro de dia de reformados nórdicos que parece ser o único futuro viável para Portugal. Este terceiro país não pode ser levado à Unesco para aprovação e saudação, não é fado, nem cante, nem chocalho, nem bonequinhos de Estremoz, não é praia, nem resorts de luxo na costa alentejana, nem hotéis de charme no interior ressequido.

 

Álvaro Domingues, geógrafo (e veja-se como o seu olhar quase sempre evita a presença humana e quase nunca os vestígios que esta semeia ou com que polui a paisagem) assume-se como cronista vagabundo deste país de tanques de pedra e caravelas de gesso, de blocos erráticos e interrompidos, de santinhas e moinhos de vento, de azulejos e castelos de reis Ghob, de cemitérios de sanitas e de serras pontuadas de palmeiras. Tem o olhar treinado para o híbrido, para os painéis fotovoltaicos ao lado de hortas visigóticas, as antenas parabólicas que vigiam rebanhos de cabras semi-urbanas, o xisto moderno e o alumínio tradicional da infatigável marquise, o tijolo nu encimado por telha verde, quase-gótica. Imagino-o a varrer a paisagem à procura não da harmonia e do enquadramento perfeito, mas do erro que ela inevitavelmente terá. E esse erro é que é sublime. Álvaro Domingues cita Edmund Burke: “tudo o que suscita de alguma maneira as ideias de dor e perigo, isto é, tudo que de alguma forma é terrível, tudo o que diz respeito a objectos terríveis ou age de forma análoga ao terror, isto é, capaz de produzir a mais forte emoção que o espírito seja capaz de experimentar.”

 

Com a banalização da paisagem, antigamente matéria de estudo para o espírito cultivado e hoje cenário para ser fotografado e partilhado aos pontapés, e o embaratecimento do sublime, só os erros que o olhar de Álvaro Domingues tão bem capta parecem ser capazes de emocionar: o espírito experimenta o terror sugerido por certas sombras ominosas dos quadros de Chirico, pelos seus objectos incongruentes, as suas formas ameaçadoras. Talvez porque não haja nada que inspire mais terror do que o vazio, e estas fotografias estão cheias desse vazio, de sentido, de gente, de memória, de palavras. Ao mesmo tempo, estão repletas de qualquer coisa profundamente nossa, como se representassem a parte da nossa identidade para a qual ainda não encontrámos as palavras. António Ferro falava dos jardins onde a alma colhe flores, mas não sabia que quase toda a nossa alma é baldio e que aqui só se colhe ferro-velho e azulejos partidos.

 

Há meses, em viagem por Terras de Basto, vi à porta de uma vivenda moderna um horrível anjinho em pedra com um Audi em fundo. Emocionou-me a fealdade evidente, a piedade vulgar e a terrível solidão do quadro, numa mistura atroz e sublime de recursos financeiros, mau gosto e sentir genuíno. O nosso sentimento religioso, aliás, raramente subiu a esferas mais elevadas, como se vê nesse lugar de devoção tétrica e comércio piedoso que é Fátima. Se Portugal tem de ser alguma religião, há-de ser esta, de anjinhos terríveis e silos que parecem catedrais, cujo breviário o irmão Álvaro teve a caridade de nos oferecer.

 

Texto lido na apresentação do livro Volta a Portugal de Álvaro Domingues

15
Dez17

É difícil amar os outros

Bruno Vieira Amaral

Crónica publicada na GQ de Junho de 2017

 

Estávamos naquela idade em que ainda exploramos os limites do mundo, ou seja, os limites da nossa crueldade. Passou por nós um cão. Tentámos atirá-lo para uma vala. O cão fugiu. Tão grande era a nossa estupidez que não desistimos de imediato dos nossos intentos. Atraímos o cão com um chamamento amigável. Ele veio, dócil, manso, confiado nos animais que o chamavam. E, como estava escrito desde o início dos tempos, lá o atirámos para a vala com um pontapé.

Quase no final de A Insustentável Leveza do Ser, Milan Kundera escreve o seguinte: “Logo no começo do Génesis, está escrito que Deus criou o homem para que ele reinasse sobre os pássaros, os peixes e o gado. […] Ninguém pode ter a certeza absoluta que Deus realmente queria que o homem reinasse sobre todas as outras criaturas. O mais provável é que o homem tenha inventado Deus para santificar o seu poder sobre a vaca e o cavalo, poder esse que ele usurpara.” Para Kundera, a bondade do homem só se pode manifestar “em toda a sua pureza e em toda a sua liberdade com aqueles que não representam força nenhuma”, os animais. Seguindo esta lógica, também a verdadeira crueldade só se poderia manifestar quando exercida sobre os animais, aqueles que, por decreto divino ou humana soberba, temos à nossa mercê. Essa crueldade seria como que um prenúncio da (ou um treino para) crueldade sobre os seres humanos. Se somos capazes de magoar quem não nos ameaça porque não o faríamos contra aqueles que nos podem resistir? Kundera conta que, na Checoslováquia, antes de passarem aos alvos humanos, os russos organizaram campanhas de extermínio de cães com o argumento de que estes sujavam os passeios e constituíam um risco para a saúde infantil: “era preciso consolidar essa agressividade […]. Era preciso primeiro treiná-la contra um alvo provisório. Esse alvo, foram os animais.”

A violência gratuita sobre os animais como antecâmara do homicídio está presente em duas cenas da literatura que, em parte, moldaram a minha sensibilidade. Em Aparição, Carolino sente uma vertigem de poder quando mata uma galinha à pedrada. “O homem é que é Deus porque pode matar”, conclui. No livro O Marinheiro que Perdeu as Graças do Mar, Yukio Mishima descreve a morte de um gato às mãos de um grupo de adolescentes. “Fui eu que o matei. Posso fazer tudo, por mais terrível que seja”, pensa um dos adolescentes. Mais tarde, em cada uma das histórias, os adolescentes acabam por assassinar alguém.

Mas se a maldade dirigida contra os animais pode indiciar uma falta de misericórdia que facilmente encontra um novo alvo nos nossos semelhantes, a bondade que manifestamos em relação aos animais, por ser pura e gratuita, não se traduz necessariamente em compaixão pelos outros seres humanos. A maldade contra um animal desumaniza-nos, mas a compaixão por um animal não nos humaniza, no sentido de nos tornar mais sensíveis ao sofrimento de outros seres humanos. Aliás, aquela bondade, radical, absoluta e que não exige qualquer contrapartida, pode tornar-nos indiferentes ao sofrimento humano mais próximo de nós, em cuja avaliação está sempre envolvido um julgamento moral (por exemplo, pensarmos no que a outra pessoa terá feito para se encontrar naquela situação de sofrimento).

O argumentista Jean-Claude Carrière lembra um episódio da Revolução Francesa narrado por Restif de La Bretonne que o impressionou fortemente. Um condenado à morte é levado para o cadafalso e é seguido pelo seu cão. O homem segura o cão e pede que alguém tome conta dele. A multidão insulta-o. Os guardas impacientes tiram-lhe o cão das mãos e executam o homem na guilhotina. O cão lambe o sangue do dono que escorre pelo chão. Os guardas matam o cão à facada e a multidão grita: “Assassinos! Que mal é que o cãozinho vos fez?” A multidão, que momentos antes tinha exigido e festejado a morte de um homem (muito provavelmente um criminoso), enche-se de compaixão pelo pobre animal. Há uns tempos, numa esplanada, enquanto comia um suculento pastel de Chaves, aproximou-se de mim, silenciosamente, uma cadela. Não ganiu, não abanou a cauda, não ladrou. Cravou em mim uns olhos cheios de palavras que não podia dizer. Uns olhos humaníssimos que suplicavam o pão. Senti por aquele animal o que nunca sinto quando aquele homem, habitualmente à porta do supermercado onde faço as compras, me pede uns trocos para comer qualquer coisa porque não consigo evitar julgar o meu semelhante. Se, de certa forma, a crueldade contra os animais é mais censurável, a bondade que lhes dirigimos também é menos louvável. É mais fácil amar um cão que sofre do que um homem que nos pode ofender.

Regresso ao cão do início da crónica. Saiu rapidamente da vala. Terá esquecido o episódio e terá entregado novamente a sua confiança a outros humanos dela merecedores. Eu é que nunca mais o esqueci e nunca mais voltei a confiar em mim. Queria sentir por pessoas que magoei o que sinto por aquele cão. E não consigo. É difícil amar os outros.

20
Nov17

Como um pássaro cheio de luz

Bruno Vieira Amaral

“Passado o primeiro claustro do Hospital de S. José, galgada a escadaria até ao segundo andar, temos outro claustro, onde a luz do dia anoitece e é sempre a mesma. Ao nosso lado, a vestimenta de ganga de um empregado que nos acompanha. Os dois, eu e ele, pouco seguros, pizamos os degraus de uma escada de ferro. A porta à direita abre sobre a enfermaria de Santo António. Começa a parte dramática, a visão da dôr escondida sob os cobertores, fria e abandonada. O rancho das duas horas róla numa carrinha. Odôr insuportável, que faz vómitos. A vidraça; a enfermaria longa onde a luz é muito pálida e o sol entra com um sorriso triste. A primeira figura de dôr é um homem que passeia, com um braço erguido por um triângulo de madeira. O empregado de vestimenta de ganga põe-se a conversar; deixa-nos à vontade e nós vamos conversar com os incomunicáveis, os que estão ali presos e feridos, como supostos bombistas. A polícia apura, não se devem lançar culpas sobre quem não pode falar. A palavra supostos, está, pois, bem. Aquilo é muito triste. Há doentes que fumam e não volvem os olhos, corpo enterrado e imóvel no meio dos lençóis sujos, quando passamos. Um rostinho de criança exangue, todo tocado de oiro antigo, onde a dôr tem resignação, cansada já. E a enfermaria é alta e triste, de janelas de vidros pálidos de luz. Conhecem a Soror Filomena dos irmãos Goncourts? Pois é assim aquilo, tal qual, com muito menos carinho, muito menos branco. Esta côr não existe naquela enfermaria. Os varais da cama, com a chapa de esmalte… esta é a 44… estão sujos; a almofada, onde a cabeça do doente descansa, gravada com as letras H.S.J., é amarela. O branco das barrelas e dos oito dias de uso gastou-se, envelheceu. Colunas que seguram a abóbada, escarradores, as camas alinhadas à parede e a carrinha do rancho que deslisa, distribuindo o arroz aguado, com pretos de coágulos de sangue. Mas nem todos os doentes estão deitados. Alguns ensaiam os primeiros passos, tropeçando os pés, como se tivessem regressado à infância, quando na relva dos jardins, a mão segura na mão da mãe que era carinhosa, que o devia ser, tentavam andar. Não há feridas à mostra; só há rostos cavados, quasi caveiras, tanto as carnes estão descarnadas.

44! O primeiro suposto bombista. Tirou a colcha; o cobertor de lã, listrado a vermelho e azul, sobre-lhe só meio corpo. Está sentado na cama. O seu estado é grave; um estilhaço duma das bombas que foi arremessada contra um eléctrico na Avenida Almirante Reis, ontem, rasgou-lhe o ventre, extravasou-lhe os intestinos num mar de sangue.

— Eu?... José… Godinho.

É um moço ainda. Pálido, o olhar húmido de tristeza, um grande perdão nas pupilas. A dôr igualou-o a todos nós. Fala-nos baixinho, a muito custo. Cara rapada, o buço está crestado de pólvora e na face branca, esquálida, a dôr murmura e fala por ele. Quando chegámos junto da sua cama, pisámos um jornal.

— Inocente?

— Sim… Eu… estou.

E aludindo ao jornal:

— Esse jor… mentiu. Não con…fe…ssei.

Não! O seu falar brando, sciciado, morre a pouco e pouco. Os lábios não aquecem a palavra. Inclinamo-nos sobre o ferido.

— Onde foi?

— Aqui. Com dôr: no baixo ventre…

— É das Juventudes?

— Sou, murmura mais baixo. Não…tenho…nada…passou…Perdi… o vapor…

E a cabeça róla triste, tristemente, muito branca. Mais nada. Saímos da enfermaria. Outra, a de S. Francisco. Há menos camas, uma pequena mesa, ao meio, onde o enfermeiro aquece qualquer remédio. Mais sossego, recolhimento, velado o sorriso do sol, distante dali. Cada cama é uma mesa anatómica; tem um corpo esfacelado. Só os corpos vivem e traduzem para nós o horror da dôr. Também não há feridas.

— Como te chamas, meu pequeno?

Um nome. Este está alegre, brinca com uma lapiseira, uma carteirita e tem muitos fascículos de romance na mesa de cabeceira. É um marçanito, cabelo preto, olhos negros que rolam, que saltitam, que ardem de alegria – a bela alegria da mocidade.

— Melhor?

— Oh! Muito melhor!

— E porque estás preso?

— Falava com um rapaz quando a bomba estalou… Foi há dias, a primeira que estalou na rua da Palma. Mas eu estou inocente…

E muito vivo, embriaga-se de falar, como um pássaro cheio de luz:

— Não estou preso… Mesmo que estivesse não me importava… a verdade saber-se-há…

O ferimento é leve: um buraco nas costas, do comprimento, do comprimento…

— Desta lapiseira.

Cama nº… não importa, esqueceu.

O cobertor tapa-o todo. A descoberto apenas a cabeça. Dorme? Talvez não, mas tem os olhos cerrados. É moreno, os ângulos do rosto estão negros, cheios de sombras que a dôr poz ali e que não desvanecerá tão cedo. É uma cabeça forte, um bronze, talhado em linhas violentas e enérgicas. As pálpebras mexeram-se; olha-nos.

— Então?

— Braços e pernas partidos.

Sobre a cama, desdobrado o jornal A Batalha, numa afirmação. Fala de seguida, triunfando da dôr a sorrir-se.

— Fizeram-me a operação esta madrugada. Não havia  meio de cloroformizarem-me… Até disse aos médicos que aquilo não prestava… três injecções de soro anti-tetanico… Queres ver como estou?

O corpo aparece, com os braços enfaixados de ligaduras.

— São aparelhos, gesso e madeira…

— Como se chama…

— … Carrascalão.

— Ontem à noite…

— Ia a passar…

Fala e nem uma dôr à superfície do rosto, uma palavra que indique tristeza. Aconteceu. Não o sabe ele porquê.

Aquele rosto fica, cavado de sombras, enérgico, todo ele na sombra, sem arestas nem brancos. É uma forma de sofrer, esta, a de reagir."

Notícia publicada no Diário de Lisboa de 11 de Março de 1922.

06
Nov17

A Beleza da Destruição

Bruno Vieira Amaral

Crónica publicada na GQ de Maio de 2017

 

Já sobrevivi ao fim do mundo. Foi há mais de vinte anos, num domingo. Nas semanas anteriores, uma astróloga cujo nome não recordo previu um grande terramoto para Lisboa. Ainda não vivíamos na era da Internet, nem das notícias falsas, mas o Jornal do Incrível era incrivelmente popular, com os seus extra-terrestres e bezerros de duas cabeças. Assim, aquele domingo foi vivido com uma sombra de angústia, o risinho nervoso de quem não acredita em bruxas pero que las hay… O dia passou, e foi um radioso domingo de sol, o mundo não acabou e o terramoto não aconteceu, nem sequer o mais leve tremor de terra, daqueles que só são sentidos pelos sismógrafos mais sofisticados e pelos periquitos mais sensíveis.

Comecei pelo fim do mundo para chegar à notícia da publicação do segundo volume da monumental tradução da Bíblia grega por Frederico Lourenço. Depois dos evangelhos, o leitor recebe o que faltava do Novo Testamento. Peço desculpa se já vos perdi no início da minha homilia. Aos resistentes digo que pretendo apenas falar do último livro, o Apocalipse ou Livro da Revelação, esse documento estranho, escatológico, profético, visionário, psicadélico, caleidoscópico, aterrorizador e, como afirma o tradutor, escrito num grego excêntrico. Um dos grandes mistérios da feitura da Bíblia é o de se saber como é que o Apocalipse nunca foi retirado do cânone. No século III, um discípulo de Orígenes de Alexandria declarou-o apócrifo e a igreja teve de se empenhar na luta contra as interpretações literais do texto.

Ateus, agnósticos e padres com vocação poética costumam apontar como livro preferido da Bíblia o Eclesiastes (o grande tratado do pessimismo), o Cântico dos Cânticos (a celebração do amor físico) ou o Livro de Job (essa oportunidade para apontar o dedo a Deus pelo sofrimento que deliberadamente traz aos que o servem). Eu prefiro o Apocalipse, um livro para os loucos, os criadores de cultos, os quiliastas, os místicos, os iluminados, os que acreditam que a verdade só pode ser encontrada nas margens da razão. Depois das epístolas ortodoxas de Paulo, o Apocalipse é como um rebentamento de liberdade e loucura, um manifesto selvagem e espiritual, repleto de imagens de fogo e morte mas também com a promessa paradisíaca de um novo tempo. É uma orgia sensorial, com os seus cordeiros, anjos, leões, sangue, pragas, ídolos dourados, dragões de sete cabeças e dez chifres, livros amargos, babilónias e “relâmpagos e vozes e trovões e um sismo e um imenso granizo.”

O lado demencial e de “fim do mundo” é tão marcante que a palavra “apocalipse”, que significa revelação, passou a ser sinómino de destruição total. A ideia de aniquilação é estranhamente fascinante porque traz com ela uma promessa de recomeço e renovação. A Bíblia tem outros exemplos, desde o dilúvio ao castigo de fogo sobre as cidades pecaminosas de Sodoma e Gomorra. Infelizmente, a humanidade não precisa de recuar aos tempos bíblicos para se assombrar com o fogo. Basta recordar os bombardeamentos das cidades alemãs durante a Segunda Guerra Mundial, de que W. G. Sebald fala em História Natural da Destruição, ou a bomba atómica sobre Hiroxima, cujo relato pormenorizado se encontra na reportagem clássica de John Hersey para a New Yorker. O horror dessas destruições é atenuado porque os alvos foram os “maus” daquela guerra. Queremos acreditar que as bombas largadas sobre o inimigo eram inevitáveis e, até, justas, como justo terá sido o castigo sobre os habitantes libertinos de Sodoma e Gomorra. Não foi por acaso que à operação sobre a cidade de Hamburgo pela Royal Air Force foi dado o nome de “Gomorra”.

Outra das razões do fascínio é mais mórbida e tem que ver com a beleza perversa e espantosa da própria destruição. Perto do final da guerra, os nazis, em debandada pela Ucrânia, foram queimando todas as aldeias por onde passavam. Numa carta enviada para casa, um soldado escreveu que aquela era uma “imagem aterradoramente bela”. Um dos sobreviventes de Hiroxima, na altura uma criança, conseguiu escapar a tempo de ver a nuvem que se elevava nos céus, recebia os raios de sol e projetava de volta as cores do arco-íris: “E que Deus me perdoe se disser que era um lindo espectáculo”, disse ele anos mais tarde.

Não sei o que haverá de tão atraente na possibilidade de destruição total: será o domínio convulsivo do terror? O ruído impossível da catástrofe? A luz e o calor mortais? A simples atração pelo abismo? O vislumbre de um novo mundo nascido das ruínas? Sei que, na minha memória, no céu azul daquele domingo em que o mundo não acabou permanece uma radiante nuvem de enxofre e que um dia, sem que saibamos a hora, ela cairá sobre nós.

06
Out17

No escurinho do cinema

Bruno Vieira Amaral

Crónica publicada na GQ de Abril de 2017

 

Ah, a nostalgia de tudo! De certeza que já houve um poeta, publicado ou por publicar, celebrado ou anónimo, a escrever palavras idênticas. Um poeta que se lembre do sabor do pão com manteiga e açúcar, de um carrinho verde numa varanda de verão, de uns desenhos animados em que um passarinho tingia as pétalas de uma flor com o sangue sacrificial do seu peito, da luxemburguesa de olhos verdes que venceu o Eurofestival em 1983, de Debra Winger a despedir-se dos filhos numa quarta-feira de Lotação Esgotada, enfim, das quatro salas de cinema do Feira Nova, ali no Lavradio, onde certamente esse poeta terá passado a adolescência no escuro a voar com Goldie Hawn nas margens do Sena, a enfrentar aracnídeos num planeta distante, a assistir deliciado aos gritor de puro pavor de Neve Campell.

Já regresso ao cinema porque, como diz ali em cima, a crónica deste mês é sobre cinema e não quero frustrar as justas expetativas do leitor habituado a confiar nos títulos (podia falar de quão enganadores são alguns títulos de filmes, mas não é o momento para isso). Antes, devo referir que há umas semanas estive na Índia, facto nada extraordinário visto que a Índia é habitada por mais de mil milhões de almas e visitada anualmente por 8 milhões de turistas. Nada extraordinário a não ser para mim, gota perecível num mar de gente, mas ainda assim gota individual e com memórias, que é o que conta. Bem, foi na Índia que conheci Javier Montes, escritor espanhol, e o ouvi a ler um excerto em inglês do seu livro mais recente, Varados en Río, que, como o título indica (confiemos no título, uma vez mais), é sobre o Rio de Janeiro, cidade maravilhosa, de encantos mil, pela qual este asturiano loiro se apaixonou sem ver correspondida a sua paixão – deve ser isto a globalização. No referido excerto, o narrador conta uma insólita ida ao cinema. Viu o anúncio de uma sessão no jornal, dirigiu-se ao local para descobrir com algum espanto e inquietação que a sessão era exibida na sala classe média de uma casa particular. Mais perplexo que temeroso, deixou-se ficar na companhia de desconhecidos para ver o filme e compara essa experiência à dos cristãos primitivos nas catacumbas. Prossegue com a analogia religiosa dizendo que, assim que as luzes burguesas da casa “muy vivida” se apagaram, ouviu na sua cabeça as palavras daquele homem que nunca escreveu nenhuma: “onde estão dois ou três reunidos em meu nome…”

Regresso, pois, ao meu cinema, após esta breve excursão cine-místico-tropical ma non troppo, ao cinema de quatro salas do Feira Nova, já encerrado e pelo qual ninguém chorou, ninguém fez petições, ninguém organizou vigílias como é habitual sempre que encerra um desses cinemas monumentais, de arquitetura majestosa e cortina bíblica. Não, as salas do Feira Nova eram acanhadas, idênticas a tantas outras salas comerciais por esse mundo fora e, no entanto, foi ali que, em muitas tardes de segunda-feira, com os bilhetes a 350 escudos, vivi, viajei e comunguei do sonho que é a essência da religião do cinema. Muitas vezes, quase sempre, sozinho, rodeado de desconhecidos, porém com essa certeza reconfortante de que estávamos imbuídos do mesmo espírito, que partilhávamos a mesma fé, que quando regressávamos à luz do dia e a primeira coisa que víamos era o interior devoluto do que havia sido uma hamburgueria vínhamos transfigurados, com os olhos a habituarem-se à claridade, como se tivéssemos bebido um pouco de verdade, mesmo que o filme fosse medíocre.

Durante alguns anos, e não os mais infelizes, cultivei esse hábito de ir sozinho ao cinema. Foi assim que vi Buffalo 66, Felicidade e Disponível para Amar, no King, A Corda e Mãe e Filho, na Cinemateca, Conto de Outono, no Nun’Álvares e Vertigo no exíguo espaço do Cine-Clube do Barreiro, numa sessão quase tão doméstica e clandestina como a que Javier relata no livro dele. Há poucos dias voltei a ir ao cinema sozinho, o que já não acontecia há oito anos, quando fui ver Gran Torino nas salas que vieram substituir as do Feira Nova. E lembrei-me dessas segundas-feiras sagradas em que apanhava o autocarro perto de casa, saía na rotunda do Lavradio, caminhava até ao cinema, comprava o bilhete com o dinheiro certo, assistia a um filme qualquer e, no final da liturgia, regressava ao mundo real pairando acima dessa realidade. Como Goldie Hawn nas margens do Sena.

18
Set17

As manhãs são mais perversas do que as noites

Bruno Vieira Amaral

Pequeno-almoço no hotel. Mesa redonda para seis pessoas ocupada por três, casal de meia-idade e a filha a caminho do final da adolescência. Cruzo-me com a rapariga que leva um prato com pedacinhos de melancia e abacaxi. Cedo-lhe passagem no corredor apinhado, trocamos um olhar rápido de cortesia. Não é o olhar que um homem e uma mulher trocariam porque ela, não sendo inocente – não há inocentes neste mundo –, ainda não conhece o pecado a ponto de o desejar ou temer. “Um dia também eu irei pecar” (é o que ela diz ou eu oiço), pensamento que lhe acode ao espírito sem pressa nem excessiva convicção, sem entusiasmo nem temor, como quem pensa “um dia estarei aqui como hoje estão os meus pais.” A mãe é alta, bonita, arranjada e com certas marcas do tempo que na mulher madura não são apenas admissíveis mas desejáveis. O marido, esse, grisalho e anafado, parece um urso doméstico ou um corpulento e preguiçoso cão de guarda. Falta-lhe a competição interna no corpo de um filho varão. Sem esse acicate, a sua virilidade foi lentamente suavizada. A filha, esqueci-me de dizer, não é muito bonita e, como não conhece o pecado nem o deseja, ainda não tem vaidade. A vaidade é prerrogativa da mãe que, palpito, continuará a ofuscar a filha durante muitos anos e será uma preciosa fonte de angústia para o futuro genro. Estão os três a olhar para os respectivos telemóveis. É sábado de manhã, o céu está limpo e não há nada que se compare à perversidade latente de uma família normal.

15
Set17

Fernanda Borsatti

Bruno Vieira Amaral

Há actores que precisam de uma voz extraordinária, de saber dançar, de mil e um talentos, gente versátil que faz comédia e drama, e há outros que nascem actores mesmo que nunca venham a pisar um palco, a ter uma câmara apontada na sua direcção. Têm presença e carisma. Vejam, presença e carisma remetem para o religioso e haverá nessas pessoas algo de original, de arquetípico e de irredutivelmente estranho, como nas efígies quase irreconhecíveis de moedas recuperadas por arqueólogos. São pessoas cujos rostos se gravam na nossa memória, que nos inquietam como se contivessem uma qualquer qualidade essencial e terrível. Peçam-me para dizer uma personagem memorável que Fernanda Borsatti tenha representado e tenho de confessar que não sei. Mas aquela cara tinha em si todas as Ifigénias, Antígonas, Ladies Macbeth, Cleópatras, era uma cara contemporânea de todas as tragédias do passado. Faltava-lhe a beleza previsível e banal da burguesia, indispensável a certos papéis delicados e esquecíveis, mas, como escreveu Agustina, “certa beleza da burguesia é vulgar e não [vale] os atávicos defeitos duma raça”. Diz-se que o rosto e as suas linhas contam a história do indivíduo. O de Fernanda Borsatti contava a história de impérios desaparecidos, de linhagens moribundas e persistentes, não importa quais.

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08
Set17

A Ressurreição dos Gatos

Bruno Vieira Amaral

Crónica publicada na GQ de Março de 2017

 

Quando eu era pequeno, quatro ou cinco anos, à noite a minha mãe lia-me histórias da Bíblia. Entre as muitas histórias – da arca de Noé aos padecimentos de Jó, da mula de Balaão à aventura de Jonas a caminho de Nínive, do desgosto de Moisés às portas da Terra Prometida à destruição das muralhas de Jericó – recordo-me de duas sobre ressurreições. Na verdade, lembro-me de três, mas a história da ressurreição de Jesus era outra coisa, era o próprio fundamento da divindade de Cristo. As outras eram mais prosaicas – tão prosaicas quanto um milagre pode ser. A mais conhecida é a de Lázaro, irmão de Marta. Quatro dias após a morte de Lázaro, Jesus chega ao sepulcro e, apesar de o cadáver deitar cheiro – e como eu consigo sentir o odor da putrefacção do corpo que mais não é do que um conjunto de palavras num livro sagrado ainda me impressiona –, ordena-lhe que se levante e ande e Lázaro, amortalhado, regressa atónito à luz do dia, ao mundo dos vivos (lembram-se da cena do filme Inteligência Artificial quando os extra-terrestres concretizam o desejo do menino robô de rever a mãe, do estado em que a mãe desperta desse sono de séculos?).

A outra história era a da filha de Jairo. Este pede a Jesus que cure a filha. O estado da menina é grave. Mas, a caminho da casa de Jairo, Jesus é interpelado por uma mulher que sofre de hemorragias. Entretanto, a filha de Jairo acaba por morrer. Ao chegar ao local, Jesus encontra os familiares a chorar a morte da menina, mas diz-lhes que não se devem preocupar porque ela apenas dorme. Entra no quarto e diz-lhe: “Talita, cumi” ou “Menina, levanta-te.” É um episódio interessante porque Jesus, em vez de tirar partido do milagre, parece querer convencer os familiares de que a menina não tinha morrido.

Mais de trinta anos após esses tempos em que a minha mãe me lia histórias bíblicas, agora é a minha vez de ler à minha filha contos de fadas, histórias da carochinha. Nestes contos há muitas mortes mas também há, pelo menos, duas ressurreições – a da Bela Adormecida e a da Branca de Neve. Eu e a minha mulher discutimos sobre a forma adequada de ler as histórias: deveríamos ou não dizer que tinham morrido? Seria melhor dizer que estavam apenas a dormir, como Jesus disse aos parentes de Jairo? Como alguém na escolinha lhe tinha dito que as pessoas, quando morrem, vão para o céu, eu mantive a versão, embora garantindo que quer a Branca de Neve, quer a Bela Adormecida, não tinham ido para o céu. Mas, no fim, ambas as personagens acabam por se levantar e andar, ressuscitadas pelo milagre do amor anunciado. Tudo acaba bem.

Semanas depois, ao ler-lhe a história de uma toupeira que queria agarrar a lua, a minha filha disse-me que sabia onde era a lua, era o sítio onde estava a mãe da avó Fátima. Não a contrariei. Sim, talvez os mortos vão para a lua e o céu seja apenas um deserto de estrelas. E, acrescentou a minha filha, era também na lua que estava o “gato morrido”. Uns tempos antes, ao sairmos de casa, deparámo-nos com um gato morto junto ao nosso carro. A minha filha quis tocar-lhe porque enquanto eu via um gato morto, com um fio de sangue na boca, ela via um gato deitado, a dormir pacificamente. Sem pensar, disse-lhe: “está morto.” A minha mulher ficou chocada, mas era tarde demais. Nos dias seguintes, à noite, a minha filha só falava no “gato morrido” e quando chegávamos perto do passeio onde, dias antes, o cadáver do gato repousava, perguntava-nos para onde tinha ido e eu respondia que se tinha ido embora, enredando-me em contradições que até a mim me faziam duvidar acerca do real destino do gato. Então, uns dias depois, no mesmo local, vimos um gato muito parecido com o outro e a minha filha disse logo: “está ali o gato morrido.” Eu, feliz por poder reparar o meu erro, confirmei: “pois está.”

Eu sabia que era outro gato, caro leitor, mas se não há mal nenhum em acreditar que os nossos mortos vão para o céu, que as princesas despertam de sonos de cem anos quando beijadas por príncipes, que os príncipes se apaixonam por donzelas em caixões de vidro e que até o acaso pode ressuscitar uma princesa que trincou uma maçã envenenada, qual Eva incapaz de resistir à tentação, também não é errado acreditar que pobres gatos suburbanos e cinzentos podem voltar a viver. Não se trata de poupar as crianças às agruras da realidade ou de as fazer acreditar em histórias da carochinha, mas a de partilhar a certeza de que os gatos “morridos” continuam a viver em nós sempre que nos lembramos deles, que Lázaro, a filha de Jairo e a mãe da avó Fátima continuam vivos através das histórias que as nossas mães nos contavam, que nós contamos aos nossos filhos e que eles, um dia, irão contar aos nossos netos.

29
Ago17

Hiroshima, meu amor

Bruno Vieira Amaral

Há dias, passei em frente da casa de uma antiga colega da escola secundária. Presumo que já não viva ali. Há uns anos, vi pendurada numa janela uma dessas placas das imobiliárias. Era uma rapariga tímida, timidez que, porém, só consumia uma parte do seu encanto. Éramos próximos, mas não íntimos. Uma vez, já perdi a conta aos anos, convidei-a para irmos ao cinema. Hiroshima, meu amor. Nunca beijei esta rapariga, nunca fizemos amor, nunca nada. Mas eu vi no olhar dela, à saída da sala, aquele brilho baço que só desce sobre as mulheres depois de um orgasmo. Estava perturbada, isso sei, e penso que me perguntou porque é que a tinha convidado para ver aquele filme. Porquê? Queria que ela me amasse? Não sei. Queria marcá-la, queria que o corpo dela estremecesse e os pensamentos explodissem e o coração batesse à velocidade do cinema, vinte e quatro batimentos por segundo, e queria que ela, por muitos homens que viesse a conhecer, nunca mais esquecesse aquela noite. E, afinal, tantos anos depois, a única certeza é a de que eu não me esqueci. Tudo é vaidade.

28
Ago17

A vida ao ritmo das redes sociais

Bruno Vieira Amaral

A presidente da CIG afirmou que a decisão de recomendar a retirada dos livros da Porto Editora do mercado foi uma resposta ao clamor nas redes sociais: “nós recomendámos tendo em conta a polémica que estava nas redes sociais […] recomendámos à Porto Editora que pudesse retirá-los para apaziguar de alguma forma os ânimos e permitir com alguma serenidade olhar para os conteúdos”. Ou seja, primeiro recomenda-se a suspensão da venda e depois é que se vai olhar com alguma serenidade para os conteúdos. Teresa Fragoso nem sequer precisava de dizer que foram as redes sociais a impor uma decisão rápida, mas, ao mesmo tempo, procurou demonstrar quão perniciosas eram as diferenças entre os livros escolhendo os exemplos mais convenientes, fazendo o que se chama cherry picking. Ricardo Araújo Pereira fez o exercício contrário e demonstrou o que já sabíamos: o clamor nas redes sociais é, quase sempre, o ruído da ignorância, quando não da má-fé. Os indignados querem indignar-se e não admitem que os factos sirvam de corta-fogo aos incêndios virtuais. Houve quem exigisse saber o nome dos autores dos livros, certamente com propósitos pedagógicos de humilhar, insultar e ofender, mas provando que nem sequer tinham visto os tais blocos de actividades, não que isso interesse muito quando a indignação, como os incêndios de Verão, já está descontrolada e tem várias frentes activas. A Porto Editora, também atordoada, foi lesta a anunciar a retirada dos livros do mercado, sempre ao ritmo imposto pelas redes sociais. Agora parece que mudou de estratégia, mas, quanto a mim, o mal estava feito: a obediência imediata teve o cheiro da capitulação ou, ainda pior, da minimização de danos, expressão corriqueira nos departamentos de comunicação das empresas sempre que as chamas das redes sociais lhes chegam às portas. Como era de esperar, aquele momento didáctico de Ricardo Araújo Pereira teve já uma grande repercussão, mas nem isso foi suficiente para aplacar a fúria justiceira de alguns. “Está bem, o caso não é assim tão grave, mas a luta pela igualdade de direitos é justa e isso é que interessa”, dizem, e siga para bingo. Logo após estalar a polémica, o pediatra Mário Cordeiro deu uma entrevista ao Expresso em que dizia não estar de acordo com a recomendação e sustentava a sua opinião. Respostas de alguns indignados: é faccioso, deve ter interesses obscuros para ser tão parcial, não gosto da pinta dele. Porém, aquilo que na minha opinião é mais grave é constatar a facilidade com que milhares de pessoas aceitaram a bondade de uma recomendação para a retirada de um livro do mercado. Dou de barato a ignorância em relação ao conteúdo dos livros. Afinal, ninguém frequenta as redes sociais à espera de encontrar opiniões fundamentadas e que resultem de uma análise aprofundada dos factos. Mas é preocupante que uma tal recomendação encontre semelhante acolhimento numa sociedade. Recomendar a retirada de um livro do mercado (aos que, em defesa da CIG, dizem que não é uma proibição mas uma simples recomendação, realçando a bondade das intenções da comissão, lembro que, felizmente, esta não tem poderes para decretar a proibição de um livro, mas é claro que se tivesse, isso também não perturbaria muita gente) é uma decisão grave que não pode ser tomada num clima definido pela excitação das redes sociais. Poderia até ser justa (e já se provou que não é), mas isso dificilmente aconteceria quando a presidente da comissão admite que o ruído das redes teve um peso decisivo na recomendação. Estas indignações são cíclicas e de curta duração, mas, enquanto duram, criam a ilusão de ocupar todo o espaço mediático disponível. É assim o tempo das redes sociais, mas não pode ser esse o tempo de um comissão como a CIG, por uma vez transformada em tribunal instantâneo das boas práticas editoriais. A CIG solicitou pareceres independentes para fundamentar a decisão? Em que consistiu a “avaliação técnica” que diz ter feito? Ouviu a editora? Ouviu os autores? Fez uma análise de outras publicações equiparáveis? Não fez porque esse processo requer tempo e quando o tempo é fixado pelas redes sociais nunca há tempo. Não se pode “pedir às redes sociais” que respirem fundo, reflictam e só depois se pronunciem. Mas isso é o mínimo que se pode exigir a um organismo público que recomenda, com certa leveza de espírito, que um livro seja retirado dos pontos de venda.

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