"Misturei xanax com cerveja, sou sincero" - L.C. apanhado a conduzir embriagado
20.11.09

A igreja não está cheia. São nove e um quarto da noite, quarta-feira, as ruas luzidias como a carapaça de um insecto, as nossas cidades são tristes a esta hora, a luz lúgubre das tascas, os restaurantes com poucos clientes, os empregados que assomam à porta, o cheiro morno da chuva, um táxi solitário na praça. Um homem entra na igreja, esfrega as mãos, sorri, “arrefeceu mesmo, caramba”, duas raparigas à entrada servem café em copos de plástico, bolachas, a velha Dolores lê a Bíblia, cabeceia de sono ou do cansaço da velhice, os miúdos correm entre as filas de cadeiras, “parem quietos”, alguns sem-abrigo já se habituaram a vir ali, a fome pode mais do que a fé, às vezes ficam para o culto, alguns já aprenderam os hinos e acompanham os louvores com as vozes cavas do desespero, depois desaparecem na noite,

 

A testa luzidia de suor, um sorriso beatífico que se derrama sobre toda a sala, uma garagem transformada em igreja, lâmpadas fluorescentes no tecto, ao fundo uma cruz sem Cristo, que abraça cada um dos presentes, famílias inteiras, crianças de colo, viúvas, homens sombrios e acabados à procura de consolo, de início não tinha condições, um barracão escuro, mas as pessoas juntavam-se ali, o pastor era tão bom, e as coisas que dizia tocavam-nos o coração, nunca mais quero outra igreja, um adolescente de óculos toca uns acordes lentos na guitarra com autocolantes “Jesus ama-te”, o pastor, lenço premido contra a face, desce do púlpito improvisado, aproxima-se de um homem sentado na última fila, incógnito, levanta-o, olha-o com bondade, tanta bondade não pode ser humana, o homem resiste, há anos que não sente aquele calor, o homem soçobra, chora, o peito sacode-se em convulsões, abraça-se ao pastor, ajoelha-se, as lágrimas, o pastor segura-lhe a cabeça, a música sobe,

 

Joaquim perdeu o filho e a mulher num acidente, tinham uma vida tão boa, ele meteu-se na bebida, as mãos tremiam-lhe, a mãe é que lhe dizia sempre para ele ir à igreja, o pastor é tão bom, filho, tens de lá ir, e ele com raiva, amaldiçoa o teu Deus e morre, e bebia mais, e morria mais, a dor tão funda que não aguentava, tremia todo, e o pastor, tanta bondade, tanta bondade, quem encheu o coração deste homem de tanta bondade, bondade que transborda, o pastor abraça-o, não sofras mais, ampara a cabeça daquele homem que chora como uma criança, entrega a tua vida a Jesus, tanta alegria, o filho e a mulher ao lado dele, pensei que nunca mais vos via, que alegria, descansa o teu coração em Jesus, confia n’Ele, a música, uma das raparigas canta, os olhos fechados, um anjo, o pastor leva Joaquim até ao púlpito, Joaquim olha para os rostos, lágrimas, tanta felicidade, ele cambaleia, dobrado, agarrado ao pastor, tanta gratidão, tanto amor, uma oração, Vamos dar graças ao Senhor, vamos agradecer pela vida do Joaquim, o nome dele dito assim, era outra vez alguém, queria tanto aquele amor, para que ele entregue o seu sofrimento, vamos pedir-Lhe que alivie o coração deste homem do fardo que tem carregado sozinho, não, nunca mais, senta-se no chão, chora, baba, ranho, lágrimas, deita-se, chora e ri ao mesmo tempo, a mulher e o filho ali, tão perto dele.

link do postPor Bruno Vieira Amaral, às 14:53  ver comentários (1) comentar

19.11.09

O livro da década. Inevitavelmente.

link do postPor Bruno Vieira Amaral, às 19:52  ver comentários (3) comentar

12.11.09

 

Fraqueza não gripal atirou-me para a cama. Não é que me tenha atirado, eu é que me fui deixando ficar, Novembro a arrefecer, o rádio do vizinho que não se cala dia e noite (ontem, duas da manhã, “ai que sarilho / ser pai dum filho”), The Wire no Mov, deixa lá ver isto, duas cenas, à terceira um preto beija um mulato, ambos gangstas, estas coisas só nas séries da HBO, o mulato, filho da cobra, é bichona, bichinho, quer que o preto o coma, corte para outra cena, adormeço. Lembro-me do Lito. Preto, um metro e oitenta, olhos grandes de gazela, bom corpo, ademanes, entrava no café rodeado de um séquito felliniano, um mulato baixinho, magro, sem um dos dentes da frente, ria-se e ocultava o buraco com a língua, estava ali para se rir das palavras do Lito, uma ou duas putas, cabelos oxigenados, dentição ruim, perfumadas até à náusea, à mesa transfiguravam-se, seguravam os talheres como princesas, comiam de boca fechada, levavam o copo de vinho à boca como descendentes dos Bourbon, um branco gordo, vermelho de futuras apoplexias, inchado de digestões demoradas, sub-empreiteiro, ford transit às seis e meia da manhã a dar a volta para pegar cabo-verdianos, comia que nem um porco, na quantidade – grande – e nos modos – nulos. No meio, iridescente, Lito, o Rei-Sol negro, saca de um maço de notas, cigarro ao canto da boca, exibe-o com o despudor dos ex-pobres, gargalha como uma grande ave negra e bêbeda, uma grande ave fêmea, capaz de gestos lábeis e fúrias tremendas: “Ouviu, ó, Sr. Teixeira? Ponha na conta. Não faça essa cara, porra! Alguma vez lhe fiquei a dever? Diga lá! Alguma vez aqui o Lito lhe ficou a dever?” E a trupe contorcia-se de riso, o gordo à beira de rebentar, o Lito a brandir um maço de notas e a dizer ao homem para pôr na conta, este Lito, pá, tem cada uma, e o Lito olhava-os malandramente, e eles, os acólitos, riam, empanturrados de pão e febras, “Que merda de febras são estas, ó, Sr. Teixeira? Sirva lá comida como deve ser!”, e uma vez quando o Teixeira exigiu pré-pagamento, os pratos, a mesa, os copos, foi tudo pelos ares, os outros calaram-se, o Sr. Teixeira, com a raiva muda dos mansos, a olhar para aquilo, o Lito a chegar ao pé dele, narinas enfunadas, os olhos cheios de sangue e ódio, a lançar o bafo na cara do velho, que tentava afastá-lo timidamente pondo-lhe as mãos na cintura, “Já lhe fiquei a dever alguma coisa, caralho?”, com a cara quase encostada, silêncio, o Lito pega num cinzeiro e atira-o contra as prateleiras, duas ou três garrafas para o chão, meu deus, o desânimo do Teixeira, a impotência dele, o olhar cheio de súplicas aos outros clientes, que faziam que não viam, e quando ele pensava que o Lito ia saltar para cima dele como uma hiena, o Lito, a grande ave negra, grande Ava negra, desata numa gargalhada histriónica, exagerada, abraça-se ao Teixeira, beija-lhe a testa, “Ó, Teixeira, desculpa lá esta confusão, eu pago tudo”, sempre a rir, a mão a tactear os bolsos, tira as notas, o Teixeira a querer apanhar os cacos, “Deixa lá isso, nós já apanhamos tudo”, sorri a medo, ainda assustado, uma criança velha, era o que ele parecia. Acordo. Tiros no The Wire, Novembro mais frio, rádio do vizinho (três da tarde, “casei com uma velha / da Ponta do Sol”).
link do postPor Bruno Vieira Amaral, às 15:51  ver comentários (2) comentar

8.11.09

 
Publicado no i
 
Há várias maneiras de um escritor, escreva bem ou mal, se destacar: uma polémica, um prémio, a morte. Felizmente, a fama de João Ubaldo Ribeiro no nosso país deve-se apenas às duas primeiras. Pela via de uma polémica de hipermercado ou pela via do Prémio Camões, o que interessa é chegar à obra de Ubaldo Ribeiro, um dos maiores prosadores da língua portuguesa. O Albatroz Azul serve de confirmação.
  
Livro entre um começo e um fim, este romance é uma reflexão sobre a continuidade, sobre aquilo que herdamos e aquilo que nos preparamos para deixar aos que vêm depois de nós. A história começa no dia do nascimento do neto de Tertuliano Jaburu, um velho sereno “que goza de familiaridade com os seres, visíveis e invisíveis.” Tertuliano é o único que sabe, contra todas as evidências e augúrios, que vai ter um neto homem. Este futuro avô vê o nascimento do neto como uma derradeira oportunidade concedida pelo destino: a sua missão é “preparar as glórias do seu grande neto, o que em si, já continha sua própria glória” e garantir que nenhuma imprudência na hora do parto comprometa o futuro do neto, que antevê glorioso. Após o nascimento auspicioso da criança, que até nasce de rabo virado para a lua, Tertuliano sente-se renovado. Porém, uma conversa com um amigo, que o recorda de acontecimentos nefastos que marcaram a sua vida, lança nuvens no dia radioso. Então, numa longa analepse, ficamos a conhecer a história da família de Tertuliano e da ferida funda que, ao longo dos anos, aprendeu a domar mas que nunca soube cicatrizar. E, no tempo que vai do júbilo pelo nascimento ao doloroso remoer das memórias, Tertuliano adquire a certeza pacífica de que a sua hora final está prestes a chegar.
 
Ubaldo Ribeiro faz um elogio da sabedoria popular e das suas expressões: tradições, superstições, crenças e provérbios. Por exemplo, o saber empírico da parteira Altina, que havia pilotado mais de três mil partos, é mais valorizado do que a ciência de “medicastros de merda”. Tertuliano pensa que o “saber coisas demais termina por prejudicar a noção” e apesar de acreditar em Deus nunca foi “de igreja, nem de padre, nem de freira, nem de missa.” Os anos de convívio simples e atento com as coisas do mundo ensinaram-lhe mais do que os livros, os latinórios dos padres e as manhas dos advogados. Nenhum deles pode ensiná-lo a ouvir uma pedra. Dentro deste conceito de filosofia natural, deste panteísmo tropical, quase caeiriano, a linguagem das personagens desempenha um papel fundamental. É ela que, ao mesclar arcaísmos, regionalismos e expressões populares, define as personagens.
 
Ubaldo Ribeiro aproveita os matizes populares para caracterizar as personagens, mas a sua prosa é pródiga em recursos que denotam um conhecimento profundo da variante literária da língua, do Padre António Vieira a Guimarães Rosa. Do estilo mais directo dos dois romances anteriores (A Casa dos Budas Ditosos e O Diário do Farol) Ubaldo Ribeiro passa para um barroquismo elegante, numa demonstração da amplitude do seu talento. Um talento que merece estar acessível a todos os leitores, inclusive os de hipermercado.
link do postPor Bruno Vieira Amaral, às 12:46  comentar

30.10.09

Eu não queria que as coisas se tivessem passado daquela maneira. Eu não queria uma namorada a ler Sartre no parque, deitada de costas na relva húmida, às cinco da tarde de um dia de semana, muito menina e muito infeliz, doutrinada de comunismos e leituras que enrugavam os 16 anos que se queriam viçosos e um tanto burros. Eu não queria, mas estava lá, sentado na mesma relva húmida, vendo dois homens a jogar ténis com serviços de badmington, as corridas esforçadas e inúteis para responder a bolas fáceis, excelentes na contabilidade dos pontos (“quinze / trinta”), quem joga mal tem de compensar com conhecimentos teóricos, caso contrário aquilo é só correr à toa, uma pessoa tem de acreditar que mais uns treinos e aquilo seria Wimbledon e não um campo de ténis em Alhos Vedros, ao lado de uma casa em ruínas e de onde se avistava um armazém de material eléctrico, e enquanto eu me distraía nesta observação tépida da vida, ela murmurava as últimas palavras de um parágrafo, sorria algumas frases incompletas e nesse dia eu decidi que entre Sartre e Camus eu haveria de dar a minha vida por este último, pied-noir e guarda-redes, basta olhar para as fotografias e instintivamente nós somos Camus. Silêncio. O que interessa neste caso é a mulher. O jeito de segurar o livro, as mãos já dotadas de sabedoria antiga - ao vê-las eu não podia acreditar que eram de alguém que ainda não tinha um único cabelo branco –, muito pálidas, o azul das veias como rios desenhados num mapa, e a minha atenção desviava-se dos tenistas amadores para aquela cartografia singular, talvez Lúcia fosse um mapa que me cabia decifrar e no fim dessa indagação repousasse lúcia-inteira, lúcia-sem-sartre, lúcia-só-lúcia a luzir. Mas essa Lúcia eu já não conheci. Lembro que eram cinco da tarde, hora má para adivinhar o futuro.

link do postPor Bruno Vieira Amaral, às 11:53  ver comentários (2) comentar

28.10.09

 

Rejubila voz amiga com o fim do tempo dos Tahars e dos Paredões. Nós, benfiquistas, desejamos que o passado recente envelheça depressa, ultrapassado, trespassado. Perdoem-nos os excessos, os eflúvios de emoção rubra, as ejaculações precoces à jornada oitava. Contemporizem com o nosso sorriso babado ao ver aquele rasgo de luz vertical que saiu dos pés do Aimar e que foi ao encontro do Coentrão tanto como o Coentrão foi ao encontro da luz (em futebolês, chama-se a isto uma desmarcação, mas nos últimos anos de Benfica o verbo desmarcar apenas tem o significado de não marcar, de desmarcar golos). É certo que o Aimar mergulha, que se deixa cair ao mínimo contacto, tão mínimo que nem contacto é, apenas uma possibilidade, e ele antevê essa possibilidade e atira-se e o contacto acontece. Não é falta? Não. É excesso. Excesso de futebol malandro, sacana, porteño, tanguista. Gastem lá os elogios com o bisonte do Hulk, uma força da natureza, apreciem-lhe a corpulência de arrastador de camiões letão, que leva tudo à frente menos a inteligência, que essa fica para trás como um bocado de relva levantado à passagem de um tractor, chorem as faltas não assinaladas, impinjam-no aos Lyons desta vida por uma tonelada de euros. Nós ficamos aqui, sossegados, a materializar os meus sonhos molhados de infância com uma tripla argentina. Trazer o Aimar de Saragoça naquelas condições não é apenas péssima gestão, é um acto de amor e de fé, como aquelas mulheres que abrem os braços para o homem que já lhes partiu o coração e os maxilares. Pegar no renegado Saviola equivale a trazer para casa um ex-recluso que sopra promessas de bom comportamento ao anfitrião. E o subnutrido di María? Como conjugar as lições tácticas com um plano nutricional adequado? São coisas bonitas, como diria o nosso algoz. É bonito irmos buscar jogadores de tendões duvidosos e almas lesionadas e ter paciência com eles. E eles, com a generosidade dos arrependidos, retribuem-nos e nós ficamos mais perto do futebol tal como era no tempo em que apenas nos faltava o cromo de Nery Alberto Pumpido para acabar a colecção.
link do postPor Bruno Vieira Amaral, às 09:55  ver comentários (2) comentar

25.10.09

 

 

Publicado no i

 

 

Referir a nacionalidade de alguns escritores, como é o caso do italiano Italo Calvino, é um mero acto de competência geográfica ou de zelo patriótico. As obras que lhe granjearam admiração universal provêm de um outro lugar de coordenadas imprecisas, que por comodidade poderemos designar por Literatura, nomeadamente da sub-região do Fantástico. O poder criativo de Calvino, refreado pelo rigor matemático da linguagem, nunca resvala para o devaneio. As Cidades Invisíveis são o exemplo maior dessa arte em que uma imaginação prolífica se alia a uma prosa geométrica. O estilo do autor impõe-se sem esforço aos códigos dos géneros literários.
 
O mesmo acontece nos dois contos que constituem este livro: A Nuvem de Smog e A Formiga Argentina. Embora tenham sido escritos numa época (1958 e 1952, respectivamente) em que o neo-realismo ainda era a corrente dominante e mesmo que possam ser classificados de “realistas”, afastam-se de qualquer cartilha literária. O primeiro é a história de um jornalista que decide aceitar o lugar de redactor num pequeno jornal. Obedecendo a um desejo de apagamento (“não suporto chamar a atenção”; “queria sentir-me alguém de passagem”), muda-se para um quarto acanhado na nova cidade. Nesse sentido, a perpétua nuvem de smog que envolve a cidade e os seus habitantes deveria ser uma ajuda. No entanto, a visita da namorada, uma mulher bela e optimista lembra-o da possibilidade de uma vida diferente do beco cinzento e empoeirado que escolheu. O segundo conto passa-se num ambiente rural. Um jovem casal com um filho aluga uma casa. A esperança de aí encontrarem a tranquilidade que amenize as dificuldades quotidianas rapidamente se desvanece. Os terrenos em volta da casa estão infestados de formigas nada preocupadas em proporcionar sossego aos habitantes. Quando procuram saber como é que os vizinhos evitam as formigas, percebem que, mais do que uma ameaça, os insectos são parte integrante do seu modo de vida.
 
Tal como são apresentados nesta edição, os contos foram publicados em 1965, embora já estivessem incluídos no Livro Quarto da colectânea dos Racconti, de 1958. O autor considerava que estes contos estavam ligados por uma “afinidade estrutural e moral”. As ressonâncias são óbvias e o cruzamento de ambos permite uma leitura mais rica. O retrato de ambientes distintos (uma cidade industrial e uma aldeia) e a natureza oposta das “ameaças” (o smog e as formigas) esvaziam a dimensão neo-realista. A angústia não é classista, nem é um mal exclusivo dos centros urbanos e do progresso. Porém, é selectiva: ataca aqueles que não se adaptam. O casal e o jornalista partilham as dores da inadaptação a um novo meio. Aquilo que é um incómodo para eles é, para os adaptados, um factor de coesão social e até de cumplicidade conjugal. As semelhanças entre ambos os finais, em que os protagonistas se distanciam dos problemas e contemplam paisagens despoluídas e desinfestadas, elucidam-nos quanto ao sentido metafórico que Calvino atribui ao smog e às formigas: o da rotina que nos envolve, como a nuvem de smog, e que entra pelas nossas casas sem pedir licença, como as formigas.

 

link do postPor Bruno Vieira Amaral, às 13:46  comentar

 

Publicado no i 

 

 

O Deus do Antigo Testamento não é muito simpático. Não é preciso ser exegeta para o saber. Basta ver os “highlights”. E eles estão todos, ou quase, no último romance de José Saramago. A expulsão do Éden, a torre de Babel, o sacrifício de Isaac, o bezerro de ouro, Sodoma e Gomorra, a queda das muralhas de Jericó, o suplício de Job. A escolha não é fortuita. A intenção é denunciar o carácter vingativo e arbitrário de um Deus egoísta e que não admite concorrência. No negócio da adoração o segredo é ter o monopólio. Em oposição a este Deus tirânico temos, no canto vermelho, Caim, o primeiro homicida da história. Condenado a errar pelo mundo e pelo tempo (graças a Deus e ao não menos omnipotente narrador), Caim testemunha vários episódios do Antigo Testamento, cada vez mais revoltado com os desmandos do Senhor. O trajecto de Caim é a confirmação de que o Homem é dotado de um “inato sentido moral da existência” independente dos mandamentos de qualquer divindade.
 
Depois do consenso que recebeu A Viagem do Elefante, Saramago quis fazer polémica. Saiu-lhe uma aula de catequese às avessas, uma releitura do original com algum humor pelo meio (o leitor ficará a saber como é que o unicórnio perdeu a boleia na Arca de Noé). A prosa não traz novidades: Saramago encontrou a sua voz muitos livros atrás. Enquanto alegoria universalista, uma especialidade do autor, “Caim” também nada acrescenta. É, acima de tudo, a história do conhecido desentendimento de Saramago com Deus. Um assunto que talvez se resolva quando o escritor abdicar das vestes de profeta menor de um Deus em que não acredita.
link do postPor Bruno Vieira Amaral, às 12:38  ver comentários (2) comentar

14.10.09

Maitê, Mai-tê, luz da minha adolescência, concubina involuntária das minhas traições ocultas, Maitê, beija-flor, beija-menina, Mai-tê, duas sílabas quase nipónicas, perfumadas de oriente, a minha boca a reincidir nesse nome, a deleitar-se com ele, a namorá-lo, Maitê, confesso que guardei duas TV Guia em que o teu rosto inundava a capa de esplendor e não garanto que não tenha sobre elas derramado a flor branca do meu desespero em homenagem aos teus olhos, vem, Maitê, vamos cuspir nos monumentos (não venhas na Páscoa), na 1ª edição d’ Os Lusíadas, vamos dançar sobre o túmulo do Garrett, vamos rasgar as bandeiras (a da monarquia também), vamos desprestigiar os órgãos de soberania, não oiças os que te ofendem, os que se abaixo-assinam em petições de fúria provinciana, cospe neles, não peças desculpa, pára de dizer que o teu avô era português e que gostas da terrinha, isso é coisa de rainha carnavalesca, a sambar de sobretudo e gola alta, a atirar beijos de mão enluvada e lábios roxos de frio, os que te ofendem nunca te vão dar mais estatuto que o de actriz de novelas e puta, porque são putas todas as brasileiras (o que é, a meu ver, um elogio, porque nesta vida há que saber ser puta quando as circunstâncias o exigem), Maitê, eu até comprei o teu livro mas nunca o li (como o Neruda da música do Chico), e não me podes censurar, o que interessam as tuas palavras, a alma que possa haver na tua prosa, o prefácio do Sousa Tavares, quando é na capa que estão os teus olhos? Maitê, as mulheres deste país já não usam bigode e acredita-me quando te digo que terás contribuído para isso, mereces o meu agradecimento, os técnicos de informática são uns incompetentes, não tenhas dúvidas, os serviços de apoio ao cliente uma merda (quando vieres cá, hás-de reparar na quantidade de colunistas que vociferam contra as Netcabo e EDP e as meninas burras que os atendem), perdoa o despeito dos que te insultam, sabes, eles acham que tu não tens o direito de escarnecer dos nossos defeitos pois não tens a infelicidade de os partilhar (ninguém pode gozar com o Stephen Hawking a não ser o Stephen Hawking), Maitê, eu vou continuar a ouvir o Caetano (e Deus sabe o lixo que ele já falou sobre nós!), a ler o Rubem Fonseca, a amar os teus olhos, sou assim, burro, e vou continuar a admirar-te burra e eternamente.

 

link do postPor Bruno Vieira Amaral, às 16:41  ver comentários (7) comentar

Aos quinze anos, no já longínquo 1993, algumas opções que o tempo me permite classificar de infelizes desviaram-me dos despreocupados bancos da escola e atiraram-me para um mal-remunerado trabalho num café do meu bairro. O estabelecimento, cujo chão de mosaicos castanhos encardidos e pejados de beatas, as mesas de fórmica descascadas nos cantos e de tampos ofendidos por outras beatas e por navalhas rupestres, e as cadeiras desirmanadas lhe conferiam um estilo que em nada se distiguia dos efeitos de um vulgar, porém persistente, desamazelo, era propriedade de um tal Senhor Teixeira, beirão baixote, olhar desconfiado de merceeiro de província, característica associada, nos meios onde grassam a indigência, a preguiça e a venda a fiado, ao “jeito para o negócio”. Habitava o senhor Teixeira numa vivenda, que não se situando no bairro, dele não muito distava, com a mulher, uma matrona dada a casacos de peles e outros exageros ornamentais e uma filha obesa, no que saía à mãe, de olhos cinzentos e vivos, herança paterna, e uma escassez de inteligência que, à falta de provas, atribuiremos aos desmandos do acaso. A vivenda era, numa palavra, horrível. Dois grandes leões de pedra ladeavam a entrada e, dito isto, tudo o resto será submeter o leitor a um escusado suplício. O café tinha mais de vinte anos e sofrera várias gerências sem que nenhuma se pudesse vangloriar de ter vencido o aspecto um tanto lúgubre de taberna. Para o povo, o nome do café também permanecera, indiferente aos excessos de imaginação de proprietários voluntariosos: era A Toca. O Adão original que o baptizara teria em mente a evocação de um refúgio de caçadores, sugerindo aos clientes o conforto e o calor das tocas, ignorando, porém, os antecedentes literários do nome bestial. Da decoração inicial pouco ou nada restava. Lembro-me de ver em miúdo uma cabeça de javali exposta por cima do balcão, mas que já lá não estava quando comecei a trabalhar. Creio que terá sido o segundo proprietário do café a pintar numa das paredes laterais um pôr-do-sol tropical com palmeiras tingidas de vermelho e, ao fundo, uma cubata à porta da qual se via a silhueta de uma mulher, com uma criança às costas. O nome, A Toca, sobreviveu à pífia tentativa de africanização e o proprietário seguinte, ao alargar o espaço destinado ao armazenamento de bebidas, acabou por esconder o mural do Diogo Rivera austral com umas portas corridas de contraplacado. O senhor Teixeira, para além do seu cabelo oleoso, não trouxe inovações. Aproveitou o que havia e nisto se incluía uma clientela em parte composta por bêbedos e desempregados crónicos e um ou outro indivíduo que combinava admiravelmente ambos os estados. Consegui o lugar sem que nenhum mérito particular me deva ser reconhecido. Pesou mais a intercessão da minha avó do que a minha experiência, que era nula, a minha postura, deficiente, e a minha simpatia, a mesma de hoje mas agravada pela timidez da adolescência. A minha avó queria acima de tudo manter-me ocupado, uma pretensão louvável, e agindo como procuradora dos meus interesses, destes não cuidou com especial empenho. Por dez horas de trabalho diárias ficou acordado que eu receberia a insultuosa quantia de mil e duzentos escudos. Apresentei-me ao trabalho com uma determinação resignada, na disposição de aprender o ofício. Nos primeiros tempos não conheci qualquer sucesso, em parte devido à minha tendência para passar as manhãs sentado num barril de cerveja, observando filosoficamente o movimento das pessoas na rua que entravam e saíam das lojas onde se vendia de tudo um pouco, de hortaliças a meias de senhora, de frangos assados a carrinhos da Majorette. As mulheres, na maioria avós domésticas com os netos à volta das saias, atravessavam a rua, parando ocasionalmente para falar com uma amiga e repousar do esforço à sombra de um toldo ou da paragem de autocarro, apenas para regressarem à condição de mulas de carga ou, como muitas vezes ouvi da minha avó, de mouras de trabalho, com os pequenos a correrem à frente, insensíveis aos avisos que as avós lhes gritavam. A simpatia do senhor Teixeira para com as minhas derivas existenciais não durou muito. A minha imobilidade, que sobressaía no contraste com os seus movimentos incessantes de formiga avarenta, cedo começou a agastá-lo. Eu não percebia porque é que durante as horas mortas da manhã, sem clientes dignos do nome - uns quatro ou cinco indivíduos que permaneciam ali sentados, enxotando ocasionais e moles moscas, suspirando recordações de tempos mais abundantes do que os magros que agora roíam e observando com filosofia idêntica à minha as mesmas avós domésticas, sem nada consumir ou, nas poucas ocasiões em que uma moeda solitária lhes pesava no bolso, bebendo de um trago uma irrepetível taça de branco para logo regressarem à habitual modorra – havia necessidade de me manter ou parecer ocupado. O senhor Teixeira explicou-me, com a sua rudimentar pedagogia, que nesta nobre actividade havia sempre alguma coisa para fazer e, no caso de não haver, era obrigação do bom empregado inventar. E mostrava-me o pó acumulado nas prateleiras, os bolos expostos de uma maneira que só apelava aos sentidos dos mais gulosos e javardos de entre os clientes, o balcão onde devia estar sempre uma fila de pires com as respectivas colheres e pacotes de açúcar, os cinzeiros onde jazia uma beata solitária, a arca refrigeradora que nunca poderia estar aquém da capacidade máxima e prosseguia numa lista interminável, excedendo largamente a minha capacidade de lhe prestar atenção. O entusiamo comercial do senhor Teixeira esbarrava na minha indiferença e espalhava-se pelo café, desenhando uma trajectória descendente e fenecente, como fogo-de-artifício a morrer na noite. O comportamento do Zé Lopes, um dos fatais clientes matutinos era-me mais familiar e caro do que a lenga-lenga destinada a inspirar todos aqueles que, ao contrário de mim, desejavam subir a pulso na vida. Devido a um tumor maligno, o rosto do Zé Lopes estava em franco retrocesso e percebia-se mal o que dizia. Todas as manhãs bebia um copo de leite morno, que tinha de ser exactamente morno, embora a percepção que tinha da temperatura dependesse do seu humor naquele dia. Algumas vezes, e não foram assim tão poucas, o copo de leite, demasiado quente ou demasiado frio, voltara para trás. Ter de o fazer não me custava tanto como a reacção exagerada do Zé Lopes. Levantava os braços e desviava o olhar, num excesso histriónico que as pessoas normais costumam poupar para os acontecimentos irremediáveis. Inversamente, não escondia um júbilo desproporcionado quando a temperatura do leite correspondia à expectativa. A cara de marioneta, tão diferente daquela que eu me lembrava de ver em criança, oferecia-me a metade do sorriso que ainda lhe restava e eu ficava satisfeito. O Zé Lopes tinha cinco filhos. Eu conhecia dois deles, poucos anos mais velhos do que eu. Era uma estirpe ruim. O próprio Zé Lopes era conhecido pelas bebedeiras e pelos arraiais de pancada na mulher que se lhes seguiam. Publicamente era isso, e um feroz sportinguismo, que o distinguia. A doença, no entanto, teve um efeito moderador no consumo de álcool. Os abusos físicos sobre a mulher também cessaram mas para o efeito terá contribuído um episódio que, na mitologia do bairro, adquiriu estatuto de lenda. Contava-se que certa noite, a mulher do Zé Lopes, farta de apanhar no focinho, aproveitou-se do sono do marido para lhe encostar uma faca de cozinha ao escroto e avisá-lo de que se lhe voltasse a bater corria o sério risco de acordar e dar com a sua masculinidade a uma distância não natural do próprio corpo. Ou porque não era intenção dele desaparecer dali, ou por não estar nos seus planos assassinar a mãe dos filhos ou, ainda, por compreensível amizade aos tomates, a verdade é que os acessos de violência do Zé Lopes terão terminado nessa noite.
link do postPor Bruno Vieira Amaral, às 11:55  comentar

11.10.09

 

 

Redbelt é o filme de porrada de David Mamet, o que quer dizer que é um filme com muito Mamet e pouca porrada. Há uma cena de “rixa de bar” que denuncia uma influência “seagaliana” e um combate final que acontece contra a vontade do protagonista e, tudo leva a crer, do próprio argumentista.
 
Chiwetel Ejiofor é um instrutor de jiu-jitsu. Como é um indivíduo de carácter nobre e respeitador das vetustas tradições orientais, vê-se em dificuldades para pagar a renda. A solução é combater no ringue, apesar de ele acreditar que a competição enfraquece o lutador. É então que entra em cena o argumento. Mamet faz tudo (sub-plots, um filme dentro do filme, Rodrigo Santoro) para evitar que este Mr. Myagi afro-americano combata pelo dinheiro de que tanto precisa. É com muito esforço que o filme acaba com o inevitável combate, mas mesmo assim fora do ringue, talvez para não o confundirmos com filmes do Eric Roberts ou do Van Damme.
 
Mais do que um filme, Redbelt é um conjunto de desperdícios. Desperdiça Alice Braga (a mulher de Elijofor), desperdiça Emily Mortimer (uma advogada que anda por ali, acidental como um disparo), desperdiça Tim Allen (falta densidade à personagem que justifique a mudança de registo do actor), desperdiça Joe Mantegna (que no grau de “mametianidade” só perde para Ricky Jay, um actor que sempre que abre a boca consegue transportar-nos para a secretária onde David Mamet escreve os argumentos). Desperdiça, acima de tudo, este texto do próprio David Mamet.
 
É normal que, uma vez na vida, um dramaturgo sério queira escrever sobre a vida real: fábricas de conservas, rixas em bares, rotativos na cabeça. Mamet quis escrever sobre a tristeza dos lutadores mas não abdicou da ginástica dramatúrgica que acaba por nos distrair da tristeza do rosto de Ejiofor. E esse rosto e essa tristeza são o melhor que o filme tem.
link do postPor Bruno Vieira Amaral, às 20:28  comentar

 

 

Publicado no i

 

Indignação, vigésima-sétima obra de Philip Roth, começa e acaba no sangue. Começa no sangue ritual num talho judeu de Newark e acaba no sangue de um soldado na guerra da Coreia. No início, a distância entre ambos é enorme, mas através de uma sucessão de acasos vai sendo progressivamente eliminada até ao trágico desfecho.
 
O narrador é Marcus Messner, um jovem judeu de comportamento irrepreensível. Apesar de ser um óptimo aluno e de ajudar os pais no negócio do talho, Marcus começa a ser vítima da paranóia do pai, que vive aterrorizado com a possibilidade de acontecer uma desgraça ao único filho. O pai Messner está convencido de que “o mais pequeno passo em falso pode ter consequências trágicas”. Ironicamente, o conflito entre os dois está na origem da tragédia, como se, em vez de a travar, o receio do pai servisse de alavanca à engrenagem do destino. Para se libertar da severa jurisdição paterna, Marcus decide ir para Winesburg, uma pequena universidade no conservador Ohio.
 
Com o país mergulhado numa guerra distante que custa a vida a milhares de jovens, o campus é o seguro de vida de uma juventude privilegiada. A guerra da Coreia é o rio da História. Marcus caminha em segurança pela margem. O romance, que segue essa linha, vai sendo pontuado por pequenos incidentes: a má relação de Marcus com os colegas de quarto, a iniciação sexual com uma rapariga que afinal sofre de distúrbios psiquiátricos, o confronto filosófico-religioso com o deão dos alunos e até uma prosaica apendicite. Cada um destes eventos representa um pequeno desvio no rumo traçado por Marcus, escolhos no caminho que provocarão o passo em falso de consequências trágicas. Ao fugir do pai, o “herói” cai inadvertidamente num ambiente que lhe é moral e socialmente hostil. Refém da vaga de emoções que nascem da auto-descoberta e constrangido pela pressão da “autoridade”, Marcus toma decisões aparentemente inócuas que se revelam fatais. A sua propensão juvenil para a mais bela palavra da língua inglesa, a que dá o título ao livro, trai as suas boas intenções.
 
Em Indignação, Philip Roth abandona os temas do envelhecimento e das urgências sexuais na terceira idade que marcam o seu período azul-viagra. No entanto, insiste no tema da proximidade da morte, que tinge de cores outonais este romance de iniciação. Roth também prossegue o seu estudo sobre a tensão política e moral entre as duas Américas. Uma tensão sempre pronta libertar-se por meio de uma guerra longínqua, de um inesperado fellatio ou de uma invasão das residências femininas numa pacata universidade.
O trabalho de Roth em Indignação, tragédia que expõe as fraquezas do indivíduo perante a sociedade (família, escola, religião), que esmaga as ilusões pueris do “herói” em relação ao amor, ao sexo e à morte, é quase o de um tecelão minucioso a unir os fios do acaso. É como síntese desse labor, e não como advertência moral, que a última frase do livro deve ser lida. É na arte do romance, e deste romance em particular, que “as opções de uma pessoa, mesmo as mais banais, fortuitas e até cómicas, têm o resultado mais desproporcionado”.

 

link do postPor Bruno Vieira Amaral, às 11:49  comentar

10.10.09
link do postPor Bruno Vieira Amaral, às 14:37  comentar

9.10.09

Falar sobre livros dentro de autocarros alemães adquiridos em 2ª mão revela a perversidade dos habitantes da Margem Sul. O chiar dos pneus, os pedidos de socorro do motor, o persistente sinal sonoro das portas automáticas, supostamente inteligente, mas que teima em ignorar que as portas já se fecharam, o bip de validação dos lisboas vivas e dos sete colinas – e o escarcéu quando a máquina ruboriza um “erro na leitura”, e esta mensagem não é inocente – tudo isto convida a que se fale sobre qualquer coisa menos sobre livros. Gripe A, a diferente viscosidade dos desinfectantes nos edifícios públicos, o Gonçalo que no colégio já tem uma namoradinha, os empregados da Fnac que tão depressa ejaculam considerações sobre o Lobo Antunes como logo a seguir não sabem o preço de um dvd do Spike Lee, as capas dos saltos que mandaram pôr ao senhor Correia há mais de duas semanas – “começa a arrefecer e eu sem as botas” -, os hamburgers do Lidl que até são bem bons, “e então a tua prima, aquela que se estava a separar?”, “há uma gaja lá no trabalho, tu nem vais acreditar”, os brasileiros do rés-do-chão com música aos berros a noite toda, “para a próxima chamo a polícia, juro-te, aquilo é de mais”, as férias que não se gozaram, tantas e tantas coisas sobre as quais se pode falar no interior de um gigante germânico, visivelmente doente e cansado, e há gente que ainda fala sobre livros. Dan Brown e José Rodrigues dos Santos, verdade seja dita, mas livros ainda assim.

 
“- ...e aquilo é tudo baseado em factos...(ronco do autocarro)...e depois cada um tira as suas conclusões...muita coisa na igreja que não bate certo com os factos da história...depois cada um tira as suas conclusões...já li esse...(travagem, entra um passageiro, porta de trás abre-se, sai um passageiro, bip do sete colinas, sinal sonoro, portas fecham-se, sinal sonoro continua)...o seguidor de Jesus...o gajo que seguiu a filosofia de Jesus deturpou tudo...São Paulo...(ponto de embraiagem, óleo a pingar para a estrada)...teve uma visão...andava atrás deles e depois deturpou tudo...(paragem, uma mulher entra, arrasta dois sacos de compras e uma criança enfezada)...adorei “A filha do capitão”...(o dinossauro urra ladeira acima)...a Maria Emília candidata-se outra vez? Ganha? Pudera! Não tem adversário à altura...é o Pedroso...(risos)...6ª feira, pá, fim-de-semana outra vez...pois é...(o autocarro resfolegante chega ao destino).”
 
Despedem-se com dois beijinhos. Saio do autocarro e observo com tristeza o mal que fazemos a este Outubro: carros buzinam, megafones berram a esquerda que é esquerda, a esquerda que não desiste, a esquerda que luta e que sonha, coisas que não rimam com Assembleia Municipal; de um lado da rua, azáleas; do outro, palmeiras; mais à frente, um baldio despenteado de capim – como é melancólica a desarmonia botânica dos meus subúrbios. Dan Brown, rogai por nós agora e na hora da nossa morte!
link do postPor Bruno Vieira Amaral, às 20:34  ver comentários (2) comentar

8.10.09

Hertha Müller. Como eu sempre disse.

link do postPor Bruno Vieira Amaral, às 12:14  ver comentários (2) comentar

6.10.09

 

As pessoas já não se esmurram. Perderam o hábito genuíno de responder com violência às ofensas e aos apoucamentos de carácter. Guardam a vergonha no bolso interior do casaco, com mil cuidados para que não se amarrote, mantêm a ferida viva e quando chegam a casa escrevem um post sobre humilhação, com o título “Humilhação – algumas considerações”. A última vez que me lembro de ver uma discussão resolvida a murro fui eu o receptor do argumento final e o efeito foi tremendo; a discussão terminou ali e eu, embora sem o auxílio do meu maxilar, não tive pejo em reconhecer a superioridade retórica do meu oponente. Toda a gente recorda, mesmo os que lá não estiveram, a famosa “Disputa de Valladolid”, em 1550-1551. O combate opôs Bartolomé de las Casas a Ginés de Sepúlveda, e se os nomes lembram pesos-mosca cubanos e heróis de romances de cavalaria, a verdade é que estes dois espanhóis, pois era esta a nacionalidade dos infames, passaram meses a discutir se os índios tinham alma sem que nenhum dos dois tivesse tido a coragem de partir a boca do outro. No final, como seria de esperar, ambos reclamaram vitória. Alguns séculos depois, García Márquez e Vargas Llosa, duas consequências literárias daquela antiga discussão, consumaram, enfim, a violência anunciada; este encontro de uma face caribenha com um punho andino ficou conhecido como o mais célebre murro da literatura latino-americana. Depois do boom, o bonc! (é uma onomatopeia esquisita para soco, eu sei). O episódio ocorreu em 1976, na Cidade do México, na antestreia de um filme cujo guião tinha sido escrito por Vargas Llosa. Ao ver o companheiro, García Márquez exclamou um eufórico “Irmão!”. Vargas Llosa, menos eufórico mas mais certeiro, respondeu-lhe com um murro que deixou o futuro Nobel quase inconsciente. No cerne do desaguisado não terá estado a existência da alma dos índios mas, segundo consta, o corpo da mulher de Vargas Llosa, cuja existência aparentemente só oferecia dúvidas a García Márquez. Não há certezas. Como numa boa cena de um mau western, o peruano terá acompanhado o murro de uma justificação pouco clara: “Isto é pelo que disseste à Patricia” ou “Isto é pelo que fizeste à Patricia”. Dito ou feito, na forma tentada ou verbalizada, o atrevimento valeu a García Márquez um inquestionável murro, com direito a um lugar eterno nas discussões entre intelectuais hispânicos. E Vargas Llosa provou que também com os punhos se fala bom castelhano.
 
O famoso episódio é narrado, sem novidades, na biografia de GGM, de Gerald Martin.
link do postPor Bruno Vieira Amaral, às 23:55  ver comentários (3) comentar

2.10.09

Inferno é uma palavra vazia que só se enche de horror na noite em que ouves as balas por cima da tua cabeça, e pensas na tua mãe, mãezinha, caralho, quem me mandou vir para aqui morrer?, e rezas sabes lá a quem, e encolhes-te muito, pode ser que a morte passe e tenha piedade de um insecto e leve outro, um homem, e não é que resulta?, ali está um de miolos no chão, valente soldado, mercenário valente, e o mais triste é que eu nem sabia o nome dele, porque a primeira coisa que fazem quando chegamos é mudar-nos o nome e depois fazem de nós homens, sem nome mas homens, para combatermos como homens e morrermos como homens, mas ninguém morre como homem, morremos todos como crianças, cagados, meu filho, literalmente cagados, e quando tudo acabava, quando acabavam os tiros, quando as explosões acabavam, quando acabavam os inimigos e os companheiros acabavam, no fim de tudo acordavas, o terror aturdido de alguém que desperta de uma anestesia e olha para as pernas para ver se não lhas amputaram, e olha para os braços e tem os dois, e vê o tórax, o abdómen, está completo, graças a Deus, não lhe falta nada, um homem inteiro, coisa assombrosa é um homem pleno, e levantavas-te e andavas, saías dali recém-renascido e dois meses depois estavas na Bósnia e caminhavas por uma estrada lado a lado com os teus companheiros, os homens sem nome, e na curva da estrada viam um autocarro, abrandavam o passo, enquanto se aproximavam só se ouvia o som das botas na terra, os pulmões com um mínimo de ar, e então viam os corpos decepados, torcidos, o esgar canino, as bocas entreabertas que deixavam ver os dentes de leite escurecidos pelo sangue seco.

link do postPor Bruno Vieira Amaral, às 14:10  ver comentários (2) comentar

28.9.09

 

O fim-de-semana começou no tenebroso evento. Críticos, escritores, actrizes, um ministro da cultura, margaritas que teimavam passar ao largo da minha sede e empregados de mesa. Aquilo estava tão bem organizado que ouvi alguém perguntar se o autor ainda demorava muito. “É chileno”, disse um sujeito com cara de estar habituado à falta de pontualidade dos latino-americanos. Francisco José Viegas, o editor, abriu as hostilidades. António-Pedro Vasconcelos leu um excerto, não sem antes reconhecer que ainda não tinha lido o livro todo, atitude merecedora da simpatia de um público que se encontrava maioritariamente nas mesmas condições. Seguiu-se a actriz Carla Bolito que ia bem lançada para ler a obra na íntegra. A sensatez impediu-a de cometer essa genialidade. Foi então a vez de José Eduardo Agualusa. O escritor angolano escolheu um trecho que lhe permitiu chamar filho-da-puta a Estaline e a Lenine e deitar as culpas num chileno morto. José Mário Silva também chamou filho-da-puta ao chileno morto, embora a sua intenção fosse elogiosa. Desconheço se a leitora seguinte, Soraia Chaves, chamou filho-da-puta a alguém, porque quando ela iniciou a intervenção eu fui para a rua aproveitar os favores do Outono. Quando regressei, Carlos Vaz Marques, o único na sala que seria capaz de, naquela noite, entrevistar o chileno morto, tal a quantidade de escritores latino-americanos com quem já falou, declamava fervorosamente uma passagem que o chileno morto dedicou a esse grande tema da literatura mundial: os benefícios de engolir esperma em grandes quantidades em tempos de guerra.
 
Confesso que sou contra a mercantilização da literatura, contra a conspurcação editorial do talento. O verdadeiro escritor, aquele que almeja a eternidade e não apenas o pão, aquele que deseja a imortalidade literária com tal intensidade que se esquece que tem o gás para pagar, nem se deve sujeitar à vergonha de publicar o que escreve. Sócrates escreveu algum livro? Jesus? Alguém se lembra da festa de lançamento d’ A República? O verdadeiro escritor deve deixar tudo na arca ou, no máximo, pendurar as folhas A4 no estendal, sujeitas ao teste do tempo e do Tempo. Ao editor, admitindo a existência de tão negra figura, ser-lhe-á concedido o privilégio de passar as molas ao génio.
 
Terminada a sessão de leitura o público dispersou e eu regressei a casa já em estado de reflexão. No sábado de manhã dirigi-me à Fnac. Comprei um livro de Philip Roth para poder insultá-lo com conhecimento de causa. Passei a tarde a ler o livro para chegar à triste conclusão de que um bom insulto depende em certa medida da nossa ignorância acerca do objecto que queremos insultar. Lentamente comecei a sentir a angústia do voto. Dediquei o resto do dia a pensar num símbolo que, uma vez inscrito no boletim e observado de um certo ângulo pelo escrutinador, pudesse ser contabilizado como um voto a menos no Bloco de Esquerda. Adormeci. Ainda era madrugada quando me levantei. Pensei que seria agradável que um outro eu votasse por mim e que votasse em branco, que a ceifeira interrompesse, por um dia, o seu eterno movimento pendular e que a humanidade inteira comemorasse o acontecimento num centro comercial qualquer. Ah!, suspirei, apesar de não ser aconselhável suspirar com um Ah!, se a vida pudesse ser como nos romances de Saramago! Entretanto vesti-me e fui votar, não exactamente por esta ordem. À porta da escola, alguns cidadãos comparavam as canetas com as quais profilaticamente se tinham apetrechado. Um deles, de bigode proletário, garantia que comprara a caneta para o efeito, visto não ser ele homem de convivência com artefactos tão burgueses. Naqueles olhos reluzia um misto de orgulho democrático e de consciência sanitária. Nunca, em toda a história da democracia portuguesa, o dever cívico de votar e o medo de contrair uma gripe se uniram num gesto tão elevado. Abençoados porcos mexicanos! Votei. Não levei a minha caneta. Tive de utilizar a caneta pública, a meretriz democrática que a todos, à excepção dos mais cuidadosos, oferece os seus préstimos. A Marianne do nosso regime é aquela caneta solitária, hóstia dos republicanos ateus. Na íntima reclusão do biombo, carregando o peso que cai sobre os ombros do cidadão na hora das decisões soberanas e sagradas, venci os meus escrúpulos e escrevi: “Filhos-da-Puta!”. Assinei: “Um chileno morto”.
link do postPor Bruno Vieira Amaral, às 21:22  ver comentários (9) comentar

27.9.09

Esta é a versão ligeiramente mais longa do texto que saiu na edição do i deste fim-de-semana. Não me ocupo da recepção crítica, da Bolañomania e da campanha de marketing. São assuntos para a pena de quem, apesar de não ter lido o livro, se sente na obrigação cívica de contra ele clamar. Afinal, nem só o unanimismo é burro.

 

O maior desafio de escrever um romance de mil páginas é o de se conseguir manter a unidade. Foi essa a grande proeza de Roberto Bolaño. São mil páginas de domínio da mão e da narrativa, de obstinação e, em alguns momentos, de génio, mas também, é forçoso reconhecê-lo, de longos períodos de masturbação livresca e de meta-literatura estéril.
 
Em 2666 há uma unidade geográfica, a ficcional cidade de Santa Teresa, no México, palco de dezenas de assassínios de mulheres, mas sobretudo atmosférica. As cinco partes do livro e as personagens principais confluem para o deserto de Sonora, na fronteira com os EUA, atraídas por um íman de morte e de loucura. Chegadas a Santa Teresa mergulham num mar de irrealidade, uma névoa onírica que nunca se dissipa ao longo do romance. Seja no cenário desolador de uma Europa devastada pela II Guerra Mundial, seja no deserto de Sonora, cujo tempo é assinalado pelo “gotejar incessante” de cadáveres, as personagens movimentam-se como fantasmas perdidos num limbo de sonhos e de aparências, que evocam o conto de Borges, “As Ruínas Circulares”, cujo protagonista compreende “que ele próprio também era uma aparência, que outro estava a sonhá-lo”. Há a criança que quer viver no fundo do mar, os presos que parecem seres de outro planeta, os soldados que caminham como zombis, os loucos internados em manicómios e as crianças bêbedas que jogam à bola: presenças voláteis que flutuam num meio ambiente hostil, como peixes no deserto.
 
2666 é um território do medo, da loucura e da incerteza. “No México uma pessoa pode estar mais ou menos morta”, mas os mortos aparecem e os suspeitos evaporam-se. A vida é sonho e só a morte é real. Os investigadores são incapazes de resolver o mistério dos crimes, de desfazer o novelo da realidade. Também eles caminham em círculos, tal como os académicos que, na primeira parte do livro, procuram sem sucesso o escritor alemão Benno von Archimboldi, a personagem central do romance. Frustrados por não chegar a conhecer o homem a cuja obra dedicaram as suas vidas, entregam-se à indolência mexicana e passam os dias como sonâmbulos ou detectives drogados. A identidade do autor dos crimes e do perpetrador dos livros permanece oculta sob os alçapões de uma realidade inapreensível.
 
A estrutura narrativa de 2666 é o que Vargas Llosa define de “boneca russa”. Histórias dentro de histórias que, ao partilharem os motivos, criam um efeito hipnótico de continuidade. Não são material enxertado à força no corpo do romance, são órgãos que pertencem ao mesmo corpo, reconhecíveis apesar dos diferentes cenários, tempos e personagens. Ao chegarmos ao final da terceira parte, a parte dos crimes, temos a impressão de que Bolaño poderia ter continuado a narração ad infinitum, numa teia interminável de sonhos e assassínios.
 
Entre tantas outras coisas, 2666 é também um manifesto estético contra as correntes que aprisionaram a literatura latino-americana: o sentimentalismo poético de Neruda e o realismo mágico. Não há na escrita de Bolaño vestígio de cedências ao lirismo sentimental nem ao anedótico do realismo mágico. Há outros pecados, como o exibicionismo erudito sub-borgeano, mas não aqueles.
 
Roberto Bolaño escreveu 2666 consciente de que “todo o livro que não seja uma obra-prima é carne para canhão”. À angústia da criação artística, aos medos que assombram o escritor – o medo de ser mau, o medo de escrever livros que fiquem esquecidos na floresta da literatura, nas valas comuns onde acabam tantas obras menores – Bolaño respondeu com um livro de uma ambição desmesurada. Um livro contra o esquecimento que, nas suas qualidades e nas suas imperfeições, é uma profissão de fé no poder da literatura. A prova de que, ao contrário do que é dito no livro, pode não se acreditar em Deus e, ainda assim, acreditar num livro. Bolaño acreditou.

 

link do postPor Bruno Vieira Amaral, às 18:18  ver comentários (2) comentar


 
mais sobre mim
Novembro 2009
D
S
T
Q
Q
S
S

1
2
3
4
5
6
7

8
9
10
11
13
14

15
16
17
18
21

22
23
24
25
26
27
28

29
30


Sitemeter
subscrever feeds
blogs SAPO