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Circo da Lama

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

Circo da Lama

08
Jun17

A conspiração contra nós

Bruno Vieira Amaral

Crónica publicada na GQ de Novembro de 2016:

 

Sala de espera do consultório. Seguro um envelope com os resultados de análises ao sangue. Já os espreitei. Tudo bem, exceto uns valores abaixo do normal. Sou um daqueles homens imperturbáveis a quem “valores alterados” soa como o toque de finados. Ali sentado, a fazer de conta de que não é nada comigo, sinto-me inquestionalvemente moribundo. Olho para as recepcionistas, saudáveis, morenas, prontas a viver até aos 120 anos, e esvai-se o pouco ânimo que me resta. Tusso. Sentimental, despeço-me das cadeiras, do balcão, dos panfletos em cima de uma mesa e das revistas de há três meses. Despeço-me de Fernanda Serrano, despeço-me de Sara Matos, despeço-me dos irmãos Carreira que pregaram um calote a alguém. Adeus, adeus. Uma das assistentes aproxima-se: “Sr. Florival Serrabulho!” Sorrio. Que nome genial! Mas, afinal, estou a rir-me de quê? Indiferentes ao meu riso, dentro de mim há legiões de eosinófilos, basófilos e plaquetas a conspirar contra a minha pessoa, contra eles próprios. “Ri-te, ri-te”, parecem dizer. Pior, não dizem nada, limitam-se a seguir o seu caminho irracional, ignorando as minhas alegrias, pensamentos, sorrisos.

Em A Doença como Metáfora, Susan Sontag alertou-nos contra as “fantasias punitivas ou sentimentais” que construímos acerca das doenças. Fantasias que até homens de inteligência superior criaram, como Schopenhauer que dizia que a “vontade apresenta-se como um corpo organizado e a manifestação da doença significa que a própria vontade está doente.” Uma vontade saudável teria “poderes ditatoriais capazes de subjugar as forças rebeldes” que, no interior do nosso corpo, conspiram para nos derrubar. Quantas vezes não ouvimos falar de doentes como “guerreiros” que “travam batalhas” contra um “inimigo”? Os que vencem a doença são fortes, embora se tenha algum pudor em classificar como fracos os que a ela sucumbem. A humanização da doença tem o único propósito de a tornar compreensível e, como tal, “combatível”. Se os agentes patogénicos são motivados por uma intenção – a de me atacar – eu posso responder-lhes com a intenção contrária – a de me defender. Passa a ser uma luta entre duas vontades. E assim, de uma penada, temos uma narrativa que responde à pergunta de qualquer doente – “porquê eu?” – e aumenta, ainda que subjetivamente, as nossas possibilidades de salvação. Quando nos acontece o mesmo que a Ivan Ilitch, quando sentimos que qualquer coisa horrível se passa no nosso interior, a forma de maquilhar a fealdade é atribuir-lhe um rosto humano, uma intenção que, embora malévola, reconheçamos como afim à nossa humanidade.

Finalmente, sou chamado. Levanto-me a custo, as pernas pesam-me toneladas, o corredor parece fechar-se sobre mim. Entro e a médica recebe-me com um sorriso luminoso. “Então o que o traz por cá?” (é claro que a médica não me falou nestes termos, devo ter lido isto no Retalhos da Vida de um Médico). É triste ter de explicar o meu incomensurável sentimento de derrota perante a vida, as saudades antecipadas que já tenho do mundo todo, incluindo das pessoas que me maltrataram e que agora, nesta agonia, relembro com um certo carinho fraternal. “Ó doutora, então não basta olhar para mim para ver logo o estado em que me encontro?” (também não lhe disse isto, é claro, em vez disso, falei-lhe de umas tonturas que me levaram a fazer análises e de uma dor no pé que, descobri na net, é capaz de ser fascite plantar, “não concorda, doutora?”. Dê-se acesso ilimitado à internet a um hipocondríaco e teremos um eterno miserável. Cada dor de cabeça é um tumor, cada espirro, uma pneumonia, cada pontada nas costas, uma doença mortal a fazer o seu primeiro e fatal anúncio.)

A médica olha para os resultados das análises e eu espio-lhe as reacções. Não me tente enganar, doutora. “Está tudo bem com as análises. Há só aqui uns valores mais baixos mas nada de preocupante.” Nada de preocupante, doutora? Tem a certeza? O Ivan Ilitch também dizia que aquilo era só uma dorzinha e veja lá o que lhe aconteceu. “Sim, nada de preocupante.” Quero ouvir outra vez essas harpas celestiais: “nada de preocupante.” E saio pela porta aos pulinhos, e pego na mão de uma senhora que aguarda a sua vez e danço com ela pelos corredores, e voo para o balcão e faço o meu número à Gene Kelly. Nada de preocupante, mundo. Nada de preocupante, pessoas. Olho para a recepcionista e já não a invejo. Lá fora, o sol ainda brilha. Como são negros os nossos terrores, como são doces as nossas fantasias.

16
Mai17

A Voz de um Homem

Bruno Vieira Amaral

Crónica publicada na GQ de Outubro de 2016:

Há uns anos, sete, caso haja entre vós um adepto da precisão, ofereceram-me um livro, uma escandalosa biografia, devidamente inautorizada, de Marlon Brando. O título em português era faceto: Brando mas pouco. Podia sugerir um louco, um furioso, um demente: “vejam como este homem de brandura nominal é, afinal, um selvagem de pleno direito.” O título original era mais específico: Brando Unzipped. Eu, agradecido pelo presente, espreitei escrupulosamente para a braguilha aberta do actor. Ao fim de cento e cinquenta páginas sentia-me exausto pela sucessão de orgias, taras, bizarrias e bestialidade. A única personagem merecedora de compaixão era um pato alegadamente sodomizado por uma celebridade, talvez o próprio Brando, já não sei. Perdoem-me a inexactidão mas apaguei da memória certos pormenores. Há um limite para lá do qual o escândalo se torna desinteressante e o relato de um bacanal pode ser tão soporífero como certas páginas de Viagem a Itália, de Goethe.

O homem ali retratado era plano e superficial, apenas corpo. Uma máquina sôfrega e, apesar das múltiplas variáveis sexuais, quase sem imaginação. É verdade que, nos filmes, Brando era corpo, aquela masculinidade intensa e ameaçadora, o género de homem por quem uma irmãzinha imaculada renunciaria alegremente aos votos de castidade. Mas, claro, era muito mais do que isso. Era também uma vulnerabilidade que, antes dele, não se associava aos machos de Hollywood. Dizem que foi Stella Adler, a professora de representação e discípula de Constantin Stanilavsky (o Rasputine do Método), quem trouxe à superfície esse núcleo de fragilidade, essa, digamos, verdade masculina, inédita em cinema. É possível, mas prefiro acreditar que, no momento em que Brando chegou a Nova Iorque, já trazia com ele os fundamentos da sua futura grandeza: a revolta latente misturada com uma necessidade absoluta e tristíssima de consolo. “I coulda been a contender”: quem, a não ser Brando, poderia assumir tão clamorosa e triunfalmente o fracasso?

Bem, regresso ao tal livro que, por uma questão de higiene e sanidade, abandonei a meio. Não duvidando da veracidade dos factos ali relatados, concluí que não me interessavam. Culpa minha? Culpa do autor do livro? Culpa do próprio Brando? Mistérios que não me preocupei em decifrar. Então, sete anos depois, no dia do meu trigésimo oitavo aniversário, a minha mulher ofereceu-me um DVD, “Listen to me Marlon”, um documentário sobre o actor (o livro também me tinha sido oferecido pela minha mulher quando ainda namorávamos, se me é permitido o arcaísmo). O tempo passou e o objecto permaneceu intacto, envolto no plástico protector, em cima da estante. Até que, semanas atrás, num dessas inspirações súbitas contra a rotina que animam regularmente a vida familiar, declarei: “hoje vamos ver um filme!” A declaração foi recebida com contentamento pela minha mulher e a condescendência infantil da minha filha. O meu benjamin, de quinze meses, continuou absorto na tarefa de mastigar toalhitas.

Quando finalmente conseguimos adormecer as crianças, sentámo-nos e, durante uma hora e meia, fomos reféns da voz de Brando, dos seus sonhos de tranquilidade e do duro despertar das tragédias, do refúgio que procurou no Taiti, essa ilha para onde também o pintor Paul Gauguin tinha fugido e onde o mundo de Brando ruiu, da relação magoada com o pai e desse momento assombroso em que, em tribunal, na presença de um juiz, Brando reconhece que ele próprio terá falhado enquanto pai. Sem cabeças falantes, apenas com recurso às inúmeras gravações áudio deixadas pelo actor e a imagens de arquivo, o filme leva-nos na esteira daquela voz que, de início, se confunde com a voz das múltiplas personagens que Brando encarnou (a voz de Stan Kowalski, a voz de Terry Malloy, a voz de don Vito Corleone, a voz do coronel Kurtz). Perto do final, pressentimos que a voz é a de um homem, um só homem, e que esse homem ainda é um menino, um menino que caminha no escuro e tenta domar as trevas com a luz débil dessa voz. A voz de Marlon Brando, Jr.

26
Fev17

Verão indiano (quarta parte)

Bruno Vieira Amaral

Antes de voltarmos ao festival, passei pelo hotel para tomar um duche e assim libertar-me da película de fuligem que se colara à minha pele. Deitei-me na cama, exausto, e pedi uma sanduíche de frango e um café (“black coffee, please”). Esta pausa inevitável fez-me perder, percebi depois, um dos momentos altos da programação do festival, a actuação de Leela Samson, uma das mais conceituadas e admiradas dançarinas e coreógrafas de Bharatanatyam (uma dança clássica indiana). Deixo-vos aqui uma pequena amostra da arte de Samson. (Tenham em atenção que cada gesto e cada movimento é intencional e tem um significado específico.)

 

 

Quando cheguei, o público já estava em debandada e só me restava ir para o Food Court, desta vez de barriga aconchegada. Enquanto esperava, um senhor aproximou-se de mim e meteu conversa. Era um dos convidados do festival, que estava ali para falar sobre a literatura da partição, literatura escrita na altura ou sobre os terríveis acontecimentos do período em que a Índia e o Paquistão se separaram. Tarun K. Saint já publicou vários livros sobre o tema, mas estava mais virado para falar sobre Portugal, a literatura portuguesa (Saramago, claro, cuja obra conhecia bastante bem), a Europa, o Brexit e assim decorreu a agradável conversa, tornada ainda mais agradável por me ter servido de guia naquela refeição, aconselhando-me os alimentos mais amenos para o meu massacrado estômago. Ao fim da noite, regressámos ao hotel, não sem antes os membros da comitiva que não se tinham precavido com repelente terem sido atacados por brigadas esfomeadas de mosquitos indianos. No bar do hotel, serviram-me então aquele vinho horrendo que fui obrigado a trocar por um anódino gin tónico.

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No dia seguinte, o último do festival, tivemos uma sessão de leitura. Como me tinham dito que cada um de nós (éramos três) só teria dez minutos, li dois excertos breves do meu romance. O Javier aproveitou o facto de ser o último para ultrapassar em mais de vinte minutos o tempo estipulado com a leitura de um excerto do seu livro sobre o Rio de Janeiro. A moderadora tentou interrompê-lo por várias vezes mas ele estava a milhares de quilómetros de distância, na cidade maravilhosa cheia de encantos mil, a discorrer sobre Manuel Puig, escritor argentino que também viveu no Rio, sobre filmes e sobre uma bizarra ida doméstica ao cinema num prédio anónimo numa pacata rua carioca. Ainda bem que o Javier infringiu as rígidas regras da organização.

Como tinha voo marcado para Goa às três da tarde de segunda-feira, despedi-me de Javier nessa manhã, ao pequeno-almoço. Disse-me que as portas da sua casa de Madrid estavam sempre abertas e eu retribuí-lhe a gentileza, se é que disponibilizar um quarto no meu apartamento na Baixa da Banheira equivale neste caso a uma retribuição. Quando fui fazer o check-out, apresentaram-me uma factura de um valor absurdo que, pelas minhas contas, daria para me meter num rickshaw e passear ininterruptamente por Hyderabad até ao final do ano. Pedi para esclarecerem o assunto com a organização, mas no meu íntimo temia que aquela saborosa sanduíche de frango estivesse a amargar a minha estadia. Esclarecido o equívoco, paguei as minhas contas e segui para o aeroporto.

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A viagem para Goa não durou mais de uma hora mas foi num daqueles aviões movidos a hélice que obrigam os passageiros a espreitar constantemente pela janela para confirmar que as ventoinhas não param de repente. Como paguei mais 500 rupias, tive direito a um dos lugares da frente, para poder esticar as pernas, e a uma pequena refeição. Pude comprovar que a altitude não interfere em nada com o grau de picante da comida. A chegada a Goa foi como sair de uma sauna para entrar num forno. Eu tinha levado um casaco leve, de linho, que, no curto trajecto entre a pista e o edifício, me pesou como um sobretudo. Seguindo as indicações do Delfim, do Instituto Camões, requisitei um táxi pré-pago à saída do aeroporto. Entreguei um papelinho com a indicação do destino, mas como a viagem foi muito mais demorada do que eu pensava, fui o caminho todo a suspeitar que teria havido um engano e que ia acabar o dia sentado na berma da estrada, rodeado de uma quantidade de palmeiras que só me lembravam A Cavalgada das Valquírias e Robert Duvall a despejar Napalm fictício em florestas supostamente vietnamitas mas, na verdade, filipinas (isto anda tudo ligado). Contrariando os meus piores receios, o motorista deixou-me tranquilamente à porta do Panjim Inn e, depois de me instalar e de tomar um duche, desci para a esplanada, onde fiquei a beber uma Kingfisher enquanto esperava pelo Delfim, com quem tinha combinado jantar às oito horas.

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Na mesa ao lado, um senhor bebia uma Coca-Cola e lia Nine Lives, um livro do historiador escocês William Dalrymple (não sei porquê, pensei que fosse um livro de espionagem ou um romance histórico, mas Nine Lives: In Search of the Sacred in Modern India, fiquei a saber depois, foi um enorme sucesso na Índia, tendo chegado ao topo da tabela de vendas de não-ficção). Nos dias que ali permaneci, encontrei-o sempre, a horas diferentes, a beber a sua cola e a ler o seu Dalrymple, não falando com mais ninguém a não ser com os empregados. Depois de alguns dias passados numa cidade de sete milhões de habitantes (na verdade, nunca nos sentimos realmente rodeados de sete milhões de seres humanos, o que há é um ritmo e um rumor permanentes que nos envolvem e que traduzem para a nossa limitada capacidade de sentir o que é esse número inapreensível e abstracto de sete milhões de almas), a visão de um homem sozinho numa esplanada a beber um refrigerante enquanto lê um livro é perfeitamente alienígena e tão frágil que até a nossa presença silenciosa representa uma ameaça à delicadeza do quadro. Na outra mesa, estavam duas senhoras. Portuguesas. Com os cabelos ainda molhados do banho, roupa branca e leve, um pouco morenas, tinham o ar distendido de final de um dia de praia ou de caminhada. Fumavam, conversavam e, tal como eu, bebiam Kingfisher. Ao contrário do que costumo fazer nestas ocasiões, não tentei perceber o que estavam a dizer, não por pudor ou respeito, mas por um sincero e inapelável desinteresse.

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O Delfim chegou acompanhado pelo escritor Rui Zink e por uma amiga, Astrid Ghosh. “Uma viagem de mais de oito mil quilómetros e vou jantar com o Rui Zink”, pensei. O jantar foi agradável – comi um suculento bife medium rear sem vestígios de picante. O Rui Zink, aparentemente um especialista na matéria, deu-me generosos conselhos sobre a melhor forma de amenizar as dores nas costas sem recurso a morfina. No final do jantar, falei com Astrid sobre a literatura da partição e ela ficou de me recomendar alguns dos autores mais importantes. Muitos deles, como foi o caso de Saadat Hassan Manto, escreveram sobretudo contos. Podem encontrar na net a tradução inglesa de “Cold Flesh” para ficarem com uma ideia dos temas e da qualidade. Astrid garantiu-me que a partição e tudo o que sucedeu depois continua a ser uma ferida aberta na sociedade indiana. Há anos, houve um movimento para se fazer um museu dedicado ao tema, mas foi impossível chegar a um consenso: todos os lados envolvidos na questão cometeram atrocidades, nenhum pode reclamar para si o papel exclusivo de vítima e, por isso, preferem todos – hindus, sikhs e muçulmanos, indianos e paquistaneses – esquecer o que se passou. Muitos dos autores que viveram aqueles tempos só foram capazes de escrever sobre o assunto muitos anos mais tarde, já perto do fim da vida.

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Acordei cedo na terça-feira para poder passear a horas em que o risco de uma insolação fosse menor e esperando não ser traído pelas dores nas costas que tinham atingido um nível incapacitante. Nas escadarias da Igreja da Imaculada Conceição, um desses vendedores que se encontram em qualquer cidade onde haja um turista perseguiu-me pelos degraus até vencer a minha resistência e vender-me por cem rupias uma pulseira que se desdobrava magicamente, como um artefacto criado pelas mãos dos antigos sábios da Macedónia. Animado pelo sucesso da primeira investida comercial, o rapaz tratou logo de me apresentar uns conjuntos de moedas e selos antigos, em bolsas de capa de veludo, pelos quais não pedia mais de 1500 rupias. Não querendo pôr em causa a origem e o valor dos produtos, confesso que me impressionou a versatilidade com que o vendedor passou da área da bijuteria, com as suas mirabolantes e flexíveis pulseiras, para as esferas mais elevadas da filatelia e da numismática. Disse-lhe que embora tivesse todo o interesse em adquirir aqueles inestimáveis tesouros, não dispunha no momento dos fundos para o fazer pelo que teríamos de combinar uma hora, da parte da tarde, para completar a transacção. Explicou-me com ar desgostoso que à tarde costumava estar já a muitos quilómetros dali e que, para minha conveniência, aceitaria dar o negócio por fechado a troco de míseras 800 rupias. Inconformado com a minha recusa insistente, ainda baixou para as 500 rupias e desconfio que, se outra fosse a minha tendência para o regateio, teria vindo para Portugal com selos e moedas indianos a troco da pulseira que o sujeito há pouco me vendera.

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Caminhei até à marginal, onde o trânsito é mais intenso, mesmo que, em comparação com o de Hyderabad, pareça o de uma aldeia. Pangim fica nas margens do estuário do rio Mandovi. Os ferrys vêm e vão para Alto-Betim Porvorim apinhados de gente e de motorizadas. Não muito longe da margem, há vários barcos-casino ancorados. Foi aqui que vi (e filmei) provavelmente a cena mais bela da minha estadia na Índia. Um cão vadio a banhar-se alegremente nas águas do Mandovi e, depois, a correr pelas ruas com a satisfação mais que pura do animal livre. Subjugados pelos códigos de comportamento a que aderimos na esperança de sermos recompensados sabe-se lá por quem, testemunhar a liberdade genuína de um cão faz-nos invejá-lo para lá de qualquer razoabilidade. Ali perto, há um memorial de homenagem às vítimas da tragédia da lancha Goa, ocorrida em Dezembro de 1901. Pede-se a quem passar por ali que reze pelo eterno descanso dos que pereceram e é isso que muitas pessoas que saem do ferry fazem, aproximando-se do memorial e persignando-se.

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Fui ao Coffee Day, estabelecimento do género Starbucks, que o Delfim me tinha recomendado na noite anterior. Bebi um café duplo. Numa das mesas estavam um homem e uma mulher a consultar facturas e a fazer contas em calculadoras. Presumi que fossem os proprietários e presumi igualmente que aquele negócio fosse um franchising, não só porque utilizavam o café como escritório como o faziam como se não houvesse ninguém à volta. Já contei noutro lugar a minha vida como proprietário de um bar. Um dos meus poucos clientes era um tipo galês, impecável, com o cinematográfico nome de Ray Cherry, que me disse que o que eu vendia ali não eram bebidas nem sandes mistas, era uma experiência. Esta ideia de se vender uma experiência, um “conceito”, tem sido abastardada e papagueada por muitos imbecis que querem envernizar as suas ideias pobres, mas não deixa de ser verdade. Mesmo o café suburbano mais sórdido vende mais que os produtos pelos quais o cliente paga e que consome, vende o ambiente, o exotismo, a própria sordidez se nada mais tiver para oferecer. Ao espalharem facturas pelas mesas que deveriam estar disponíveis para os clientes, mesmo que estes não entrassem, os presumíveis empresários estavam a estragar a experiência que deveriam estar a vender. A senhora, talvez irlandesa, que se sentou na mesa ao lado da minha a beber um “caffè macchiato”, deve ter pensado o mesmo, deduzi eu pelos olhares mais judicativos que intrigados que lançava para a mesa empresarial, repleta de guias de remessa e demais artefactos contabilísticos. Nada que incomodasse os dois casais de jovens russos, corpulentos, eles, atléticas, as raparigas, que respiravam qualquer coisa de ubermenschiano e idiótico que só os descendentes imediatos de novos-ricos exprimem completamente: um vigor físico que a geração anterior não conheceu misturado com um desenvolvimento intelectual incipiente. São os herdeiros de fortunas recentes, sofrem da mesma falta de passado dos pais mas exibem a confiança ameaçadora de quem nunca, ao contrário dos progenitores, teve de baixar a cabeça. Esta postura deu a impressão de ocuparem muito mais espaço do que aquele que fisicamente ocupavam. Encheram o café de uma prepotência atlética e, talvez tenha sonhado, mas vi-os soprar, com o fôlego brutal das suas amplas caixas torácicas, as facturas da mesa dos proprietários que tentaram apanhar comicamente os papéis esvoaçantes.

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24
Fev17

Verão indiano (terceira parte)

Bruno Vieira Amaral

Na manhã de sexta-feira assisti à inauguração do festival, que decorreu nas instalações da escola pública, onde se destaca um edifício monumental que tem à entrada uma placa com o desenho de uma águia e a inscrição “Shaheen” – “Be Vigilant”. Depois de alguns percalços, os voluntariosos voluntários distribuíram os sacos e os dísticos destinados a cada um dos convidados. O céu estava nublado e já se fazia sentir um calor opressivo. Ainda não havia muita gente a passear pelo recinto mas a tenda principal estava cheia. No palco estavam sentadas as figuras de proa, incluindo um responsável político do estado de Telangana, o orador convidado para fazer o discurso de abertura e a senhora embaixadora das Filipinas na Índia, Teresita Daza. Os directores deram as boas-vindas a todos e gabaram o festival e um coro de jovens surdos-mudos cantou o hino nacional da Índia num perfeito uníssono gestual. O discurso de abertura ficou a cargo do célebre poeta e crítico Ashok Vajpeyi de que eu nunca tinha ouvido falar e que presumo seja desconhecido da maioria dos leitores portugueses. O discurso, apesar de centrado nas virtudes da literatura, teve um forte conteúdo político, amenizado por (ou camuflado sob) um sorriso astuto e gaiato, nos antípodas da presunção que certos escritores (alguns portugueses) usam quando em entrevistas, festivais e cerimónias de entregas de prémios falam de política e com que recolhem aplausos generalizados e automáticos e, paradoxalmente, são gregariamente celebrados como dissidentes, as vozes do contra, um contra que segue a corrente.

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Tão sereno como contundente, o poeta falou das razões para ter devolvido, em Janeiro de 2016, o doutoramento Honoris Causa que lhe tinha sido atribuído pela Universidade Central de Hyderabad. A razão principal foi a atitude anti-dalit (os dalits são o que os escritos bramânicos classificam de “intocáveis”) das autoridades que terá estado na origem do suicídio de um aluno dalit, Rohit Vemula, no campus da universidade de Hyderabad. Na sequência da decisão de Vajpeyi, e inspirados por ele, muitos outros escritores e intelectuais devolveram em protesto prémios e condecorações às instituições oficiais que lhos tinham atribuído. Após este interlúdio político, que deixou alguns elementos da plateia com comichão no rabo, o poeta voltou à literatura e terminou a intervenção com a leitura de alguns poemas em inglês e, depois de instado por um elemento do público, em hindi.

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(Em poucos minutos, ficaram patentes algumas das tensões que atravessam a sociedade indiana, dos efeitos da política de direita do primeiro-ministro Narendra Modi, aos movimentos de contestação estudantil que, regra geral, estão na vanguarda de reivindicações que vão muito para além dos interesses imediatos dos estudantes e se estendem à defesa das culturas minoritárias e ao ataque à continuada política de discriminação das castas inferiores. Apesar de o ambiente dos festivais literários não ser propriamente favorável a um político como Modi (ao qual mais de uma pessoa se referiu como o Trump indiano), fiquei com a ideia de que a avaliação do seu desempenho enquanto primeiro-ministro dependerá em larga medida do desempenho económico da Índia e que muitos estão dispostos a desvalorizar os aspectos mais estritamente sociais e culturais desde que o crescimento não abrande. Isto foi particularmente visível na reacção a uma das medidas mais polémicas de Modi, a decisão de, de um dia para o outro, retirar de circulação as notas de 500 e 1000 rupias, com a intenção de obrigar a uma maior utilização dos pagamentos com cartão, atacar a economia informal e reduzir a prevalência do chamado “dinheiro negro”. A medida drástica teve efeitos catastróficos, com as restrições ao montante dos levantamentos a causarem incómodos generalizados numa sociedade em que o peso da economia informal, como já referi, é enorme. Mas, ao fim de alguns meses, a maioria dos indianos, segundo as sondagens mais recentes, aprova a medida do primeiro-ministro, embora haja quem critique a forma como foi implementada. O certo é que, neste momento, a reeleição de Modi é o cenário mais provável para as próximas eleições e nem mesmo uma difícil união de toda a oposição poderá ser suficiente para o evitar.)

No final da sessão de abertura, os convidados acenderam uma lamparina que supostamente terá permanecido acesa durante o resto do festival, facto que não me preocupei em confirmar. De saída da tenda, assistimos à actuação de um grupo folclórico local, exclusivamente constituído por homens de faces pintadas e ornados com penas e colares.

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(Há muitos homens na Índia. Por exemplo, em todos os hotéis em que fiquei, as únicas funcionárias estavam acantonadas nas recepções. Eram os homens que faziam a limpeza dos quartos. Ali, no meio inabitual das arrumações, entre baldes, panos e limpa-vidros, aqueles homens tinham algo de assexuado, como eunucos. Quando os via atrás de uma porta entreaberta, pareciam-me sempre em cochichos conspirativos de gineceu. Exibiam uma certa irreverência, no que esta tem de boçal, enquanto a maioria das mulheres, quer pelo modo de se passearem pelas ruas, algumas protegidas por sombrinhas, quer pelo modo delicado de segurarem um pedaço de dosa com a ponta dos dedos e levá-lo elegantemente à boca, desprendiam uma certa seriedade, no que esta tem de digno, uma virtude patrícia de que só elas guardam ainda o segredo. Um, que varria os corredores alcatifados, apresentava os sintomas ambivalentes de cansaço e determinação de quem faz uma tarefa que não percebe e que, apesar disso, está na disposição de continuar a executar até ao fim dos seus dias. Lembro-me do som que a minha mãe fazia ao varrer a casa e que, quer se afastasse quer se aproximasse da divisão onde me encontrava, permitia adivinhar, pelo ritmo, se faltava muito, a quantidade de lixo já recolhida e se, no meio do pó, havia algum pequeno objecto sólido, talvez metálico, denunciado pelo ruído que fazia ao deslizar pelo plástico da pá. Já a vassoura do empregado indiano era mais do género pendular, como se marcasse o tempo num movimento perpétuo.)

Muita gente tirou fotografias e filmou o momento, mas devo confessar que fiquei mais impressionado quando, após o final, vi o grupo numa zona mais sossegada, sentados a conversar à sombra de uma árvore, ainda com os trajes tradicionais, como se tivessem saído das personagens dançantes e destas não restasse mais do que uma camada exterior.

 

Os meus enganos e percepções erradas acerca da comida indiana sucederam-se ao ritmo das refeições e dei por mim a optar por uma dieta de muffins de caju e água mineral. Apesar de tudo, o jantar de sexta-feira foi, tenho de o confessar, glamouroso, realizado no amplo terraço do hotel, com mesas primorosamente decoradas, cadeiras de plástico com forros brancos e laços grenás. Para gáudio de uma parte da comitiva que me incluía a mim e aos dois espanhóis (um escritor e um agente literário) havia bebidas alcoólicas, whiskey, vodka, cervejas locais e internacionais e um vinho tinto cuja origem não consegui apurar mas de que tive muitas saudades quando, no dia seguinte, me serviram um copo no bar que me trouxe à memória o saudoso Machadinho que o meu avô quotidianamente bebia. Javier, o escritor espanhol apaixonado pelo Rio de Janeiro e com o ar triste de quem não vê o seu amor correspondido, falou em vino pellejón e não serei eu a encontrar definição mais feliz (para a escritora galesa que nos acompanhava, Javier traduziu a expressão por “wine to pick a fight”, que ilustra bem o que se perde na tradução quando nos encontramos nestes festivais).

No sábado foi a nossa vez – escritores em representação do Velho Continente (como é bonita esta expressão, ainda que geologicamente disparatada) – de subirmos ao palco. A sessão não foi das mais concorridas, como era de esperar, mas mesmo assim havia mais de trinta pessoas na plateia. Mostraram-se interessadas na literatura europeia, mesmo que a ideia que dela têm seja a de uma literatura homogénea. Aos olhos da maioria dos indianos, até mesmo aos olhos da maioria dos que assistem a festivais literários, a literatura europeia é tão longínqua e exótica que uma leitora veio falar connosco sobre Elena Ferrante com aquele entusiasmo familiar de quem acha que qualquer escritor vindo da Europa certamente já se terá cruzado com a misteriosa autora italiana. Esta simpática leitora, que até tinha lido uns excertos do meu livro em inglês, vê-nos como uma indistinta amálgama paroquial de escritores, o que é justo e bom porque nos ajuda a relativizar as coisas.

Após a sessão, apanhámos dois rickshaws para o centro da cidade, numa viagem de uma hora pelas ruas mais poluídas do mundo que conheço, durante a qual, enquanto inalávamos espessas golfadas de dióxido de carbono, discutimos os méritos de Elena Ferrante, Knausgard e Bolaño – chegando eu à conclusão de que o melhor da obra do chileno eram os romances breves como Estrela Distante. O mais incrível é que, no meio daquele caos, com peões a atravessar a rua sem aviso e em que o trânsito circula sem outras regras que não as de um tipo particular de bom senso desenvolvido ao fim de anos de experiência e de uma perícia tão entranhada que já nem pode ser classificada de perícia, mas de aptidão natural, e a de buzinar tanto quanto possível e sinalizar uma mudança de direcção de qualquer maneira imaginável excepto com o pisca, o mais incrível, dizia eu, é que os dois rickshaws chegaram ao destino exactamente no mesmo segundo. Foi o Javier que me chamou a atenção para esse facto transcendente só possível de ser explicado – por nós, ocidentais deslocados – por um sistema de orientação espacial idêntico ao das abelhas, como se os condutores de rickshaw se guiassem por uma espécie de comunicação não-verbal, de eco-localização, que para qualquer outro ser humano é indecifrável e misteriosa. Ainda mais admirável é a relutância que estes mártires da poluição urbana demonstram em conversar com os clientes, além da indispensável negociação inicial onde se dá a conhecer o destino pretendido e se combina a tarifa a aplicar. Um deles de vez em quando trauteava uma melodia, mas os restantes estavam entrincheirados num mutismo militante e, diria mesmo, monástico.

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Imaginei que o condutor de rickshaw, ao tomar a fatídica decisão de enveredar por esta profissão, seja obrigado a deixar para trás mulher e filhos, entrando naquele favo móvel, naquela cela apícola, com a resignação ardente do homem que se recolhe num mosteiro. Nenhum cedeu à tentação de se armar em guia e de se pôr a descrever os locais por onde íamos passando, talvez porque esse género de atrevimento não seja aconselhável quando se conduz o mais vulnerável dos veículos pelas artérias congestionadas de Hyderabad. Mas nem com tal concentração Shaolin foi possível evitar um pequeno incidente. O condutor do trauteio guinou bruscamente à direita para se desviar de uma carrinha Goods Carrier que travara subitamente e, nesse preciso momento, interrompeu a melodia bucólica que talvez lhe lembrasse a aldeia natal e soltou um gemido que me permito traduzir por “já me fodi”, embatendo tão suavemente quanto possível na traseira de outro rickshaw, com um autocolante que pedia encarecidamente ao condutor que fizesse soar a buzina. Durante alguns segundos, poucos, devo dizer, pensei em preenchimentos de declarações amigáveis mas o embate, além de ter provocado um silêncio imaginário na minha cabeça, não perturbou ninguém e os veículos lá prosseguiram como se nada tivesse acontecido, não tendo havido sequer lugar a um pedido de desculpas como aqueles que dirigíamos ao condutor de um carrinho de choque contra o qual embatíamos involuntariamente. Acrescento que nem os próprios polícias sinaleiros – espécie já extinta nas nossas ruas – parecem convencidos da sua utilidade. Em certas ocasiões, vi um ou outro a erguer-se de um estupor fumarento, soprar um apito branco e tentar imprimir alguma ordem, embora alguns condutores, sem a certeza de que as indicações gestuais fossem de cumprimento obrigatório, avançassem à revelia da autoridade com aquilo que em Hyderabad será prudência mas que em qualquer outro lugar do mundo é tentativa de suicídio.

Para entrarmos na Mesquita de Mecca, a uma centena de metros do Charminar, passámos por um detector de metais que apitava sempre que alguém passava, deixámos os sapatos à entrada e caminhámos sobre lajes atapetadas com uma camada de merda já ressequida de pombos fiéis que fizeram do lugar de adoração a sua casa. As mulheres podem entrar, desde que decentemente vestidas, e há quem forneça gratuitamente conselhos às estrangeiras sobre a forma mais adequada de cruzar o xaile sobre o peito ou de cobrir a cabeça com um lenço. Era hora da oração e lá dentro centenas de homens – velhos, jovens, adolescentes e crianças – executavam preciosamente a coreografia da submissão, no que eram imitados por algumas mulheres mais zelosas no exterior. No pátio fronteiro, havia muitas crianças a correr e que, incentivadas pelos familiares, se lançaram para os braços da escritora galesa para tirarem fotografias. Havia também homens a fazer as abluções num pequeno lago ao lado do qual se encontram os túmulos dos sultões e para onde fomos encaminhados por um velho vizir que nos levou até à presença de um homem sentado em posição de lótus, a queimar pétalas e incenso. Com um sorriso alheado e santo, abençoou-nos com um pouco de cinza na testa. A bênção custou-nos cem rupias a cada um. A voz do muezim a derramar-se pelos altifalantes era menos lúgubre da que ouvira no dia anterior perto do recinto do festival, um lamento soturno só comparável em tristeza religiosa ao órgão de uma igreja evangélica na Morelena que, numa noite já muito distante, visitei na companhia do meu tio.

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22
Fev17

Verão indiano (segunda parte)

Bruno Vieira Amaral

Quando saímos do palácio, mergulhámos com uma boa dose de inconsciência no caos de Hyderabad, caminhando pela rua do Laad Bazaar (o famoso mercado de braceletes), uma das quatro ruas que conduz ao Charminar. Para lá chegarmos, tivemos de atravessar a estrada, actividade que, como desporto radical, não fica a dever nada ao bungee-jumping. Se algum forasteiro tiver a peregrina ideia de aguardar que os veículos parem para que ele passe, é muito provável que, daqui por duas décadas, ainda esteja no mesmo sítio. Observando atentamente o guia, percebi que a única solução para chegar ao outro lado era a de aproveitar uma breve interrupção ou abrandamento na circulação para me meter entre os veículos, fazer o gesto universal de clemência unindo as duas mãos na direcção dos condutores ou usar um dos filipinos como escudo humano. Quando cheguei ao outro lado, senti-me um judeu após atravessar o Mar Vermelho e olhei com alguma superioridade para os elementos do grupo que tinham ficado para trás e que não tinham sido tão lestos quanto eu a descodificar os segredos essenciais à sobrevivência dos peões em Hyderabad.

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Descobri que, na rua do mercado, que de início pensei ser pedonal, também circulavam velocípedes. Obtive a informação quando uma mota passou a menos de cinco centímetros da minha pessoa, anunciando-se de forma típica com uma buzinadela que, por instantes, me desorientou. Os condutores só me pareceram inclementes até ao momento em que me vi rodeado de transeuntes implacáveis, nada sensíveis aos meus propósitos de registar para a posteridade aquela experiência e nitidamente impacientes quando eu, embasbacado com a multiplicidade de cores das lojas de roupas e joalharias, interrompia a caminhada e lhes obstruía o caminho. Por mais de uma vez, fui alvo de imprecações que, graças ao meu desconhecimento da língua local, não pude apreciar em toda a plenitude.

Para piorar tudo, a rua estava em obras. A certa altura, deparei-me com um homem enfiado num buraco, rodeado por outros quatro ou cinco. Não percebi se estavam a reparar uma conduta ou se estavam a tentar resgatá-lo. Para onde quer que me virasse, via qualquer coisa invulgar. Era impossível traduzir com exactidão tudo aquilo recorrendo unicamente aos utensílios rudimentares da minha pouca experiência noutros países. Em vez disso, deixei-me simplesmente arrastar, caminhando pela multidão ao mesmo ritmo dos autóctones mas sem fazer a mínima ideia do meu destino, perdendo por vezes de vista os outros elementos do grupo, mantendo como único ponto de referência o velho guia que, sem nada que o distinguisse, sem nenhum objecto que o identificasse, lá ia levantando misericordiosamente o braço na esperança de que o reconhecêssemos para que nenhum dos convidados do Festival Literário de Hyderabad fosse encontrado semanas depois a regatear braceletes ou transformado em estátua viva à espera de atravessar a rua.  

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O Charminar (que quer dizer “quatro torres”) também estava em obras de restauro, engalanado com aqueles andaimes arcaicos aparentemente feitos de canas, pelo que optámos por ficar em baixo a observá-lo muito respeitosamente, declinando a oportunidade de escalar os 149 degraus que levam o visitante ao topo do edifício, enquanto o guia nos explicava que o monumento tinha sido mandado construir pelo fundador da cidade, o sultão Muhammad Quli Qutb Shah, em 1591. Com a cidade a ser dizimada pela peste, o Sultão prometeu a Alá que, se levasse a morte para outras paragens, permitindo o crescimento de Hyderabad, ele construiria o monumento em Sua homenagem. E foi isso que aconteceu. A peste foi dizimar para outras freguesias e Hyderabad, na altura um centro populacional relativamente modesto, cresceu até ser o que é hoje: uma megalópole de 7 milhões de almas e nunca menos de 93626 rickshaws, segundo os dados oficiais.

Incrivelmente, e apesar de termos andado em grupos separados, conseguimos regressar todos ao autocarro e, depois de uma nova viagem pelas ruas da cidade em hora de ponta, chegar a tempo do jantar que decorreu num relvado a poucos metros do hotel. Novo embate com a gastronomia explosiva de Hyderabad, do qual saí outra vez derrotado, e conversa de chacha com dois designers alemães e uma poeta australiana cuja tese de doutoramento a tinha levado ao Bangladesh para um trabalho sobre as vidas de uma “closeted lesbian”, de uma “transgender woman”, de uma “unhappy housewife” e de uma “ruthless businesswoman” (esta inventei), o equivalente a um “four of a kind” em estudos de género ou, melhor dizendo, “four of a different kind”. Foi apenas um aperitivo para o jogo dos dias seguintes em que ganha quem grita mais alto contra: a) a sociedade patriarcal, b) o Ocidente, c) o Cristianismo, d) o Homem Branco, e) a polícia, f) a Direita, g) o Capitalismo, h) a conspiração branca. Mais preocupado com as prováveis e previsivelmente dolorosas consequências gastro-intestinais do consumo de comida picante, fiquei feliz por descobrir que o iogurte ajuda a amenizar os efeitos dos condimentos. E, com esta informação na cabeça, regressei ao hotel.

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Nessa noite, pensei em tudo o que tinha visto naquela cidade e percebi que, pela primeira vez na minha vida, estava no estrangeiro. Os países que já tinha visitado – todos europeus – com as idênticas ruas racionais, as mesmas lojas, a mesma disposição de elementos só ligeiramente diferentes entre si (em Budapeste temos a estátua de Petöfi e em Lisboa a de Camões), apareceram-me como encarnações de uma mesma ideia. Agora, atormentado pelo barulho infernal e incessante das buzinas que abafam até as sirenes das ambulâncias, aquele mundo ordeiro e previsível das cidades europeias surgiu-me como uma realidade tristíssima, desumana e morta, um museu a céu aberto destinado a turistas e coleccionadores de antiguidades. Enquanto as cidades europeias estão cheias de coisas antigas, ali abarrotavam de coisas velhas e, paradoxalmente, modernas. As antiguidades europeias estão arrumadas, catalogadas, embebidas em formol, enquanto aqui as velharias estão vivas, escapam aos rótulos e amanhã podem já não estar no sítio onde hoje as encontrámos. Não sabemos se pertencem ali ou se, como nós, estão apenas de passagem. Na ânsia de preservar, nós, europeus, sufocamos tudo como pais zelosos que apertam os filhos até à asfixia. Os filhos da Índia, toda a Índia – o comércio, os carros, os prédios, até os monumentos – são vagabundos. Não querem ser preservados. Querem respirar.

Na verdade, nunca tinha sentido uma cidade viva, a resfolegar como um cavalo indomável. Ali tudo era velho e improvisado, o que nos pareciam ruínas podiam ser prédios inacabados atravessados por um cheiro a açafrão e a caril, a frutas e a fritos e ao peixe cozinhado em enormes panelas a fumegar no meio da rua; os mesmos letreiros tanto serviam para anunciar hospitais e clínicas como para sinalizar lojas de braceletes e saris, restaurantes low-cost e oficinas; havia homens deitados em camionetas e sentados em cadeiras no meio da rua, entre o trânsito, como se estivessem à espera de ser recolhidos, homens a mijar para montes de entulho, outros a cortar cocos com catanas, motos com três e quatro passageiros, cabras vadias a trincar ervas e a focinhar no lixo debaixo de um viaduto de onde se via, ao longe, um sossegado campo de cricket onde treinavam algumas crianças de equipamentos alvíssimos, edifícios modernos lado a lado com outros de idade incerta, numa anarquia tão repleta de vida como uma feira medieval com eletricidade, internet sem fios e smartphones.

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Eis a cidade em constante mutação num país em que a economia informal anda perto dos 80%, o que faz com que tudo tenha um aspecto provisório, clandestino e desmontável, ou seja, tudo aquilo que é fugaz se sobrepõe ao que é permanente, como o palácio de Chowmahalla, escondido como um oásis, um templo secreto a que só os iniciados podem aceder e que os outros ignoram como se não existisse, como se fosse uma miragem. Por uma entrada discreta, fomos postos a salvo dessa confusão que atrai e repugna, que nos assusta, que nos faz temer pela sanidade daquelas pessoas, como se fosse impensável viver diariamente debaixo daquela agitação, como se vivessem habitualmente com o misto de desconforto e entorpecimento que eu experimentava pela primeira vez, como quando estamos numa daquelas diversões de feira de alta velocidade e desejamos que pare, porque não aguentamos mais, e desejamos que prossiga, porque sabemos que não vai parar por causa de nós.

Um livro, que comprei dias depois, intitulado Indian Cities, ajudou-me a perceber melhor a realidade que me era tão difícil descrever e entender sem recorrer aos equivalentes europeus que, porém, nunca lhe poderiam fazer justiça. “For decades, cities in poor countries have been regarded as a kind of misfit representation of the real city and their modernity, a kind of inauthentic, borrowed modernity. With so many poor people, slums and squatter settlements, lack of rules regarding land use, chaotic and disorderly growth, their existence and future have always been questioned by experts and contrasted to the proper cities or the well-planned and managed cities of the West.”

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A dificuldade em avaliar estas cidades de acordo com os seus peculiares critérios – dificuldade enfrentada até por quem estuda a sério estes assuntos – deu origem à criação de um conceito mais abrangente, o de “modernidade alternativa” ou de “modernidade indígena”, que me surgiu como perfeitamente adequado àquela realidade porque os conceitos de “atraso” ou de “sub-desenvolvimento” eram bisturis rombos para esquadrinhar aquele mundo tão complexo e que nunca, para ser completamente sincero, me pareceu “atrasado”. Outra ideia no livro que me ajudou a dar corpo de palavra aos meus pensamentos foi a de “cidade cinética”, “or the city of impermanence and temporary structures.” […] “While standard writing can cover the static city or the city of the established built environment, it is more difficult to capture the realities of the kinetic city.” Tentar captar em palavras uma cidade como Hyderabad era, acabei por perceber, como tentar prender uma sombra esquiva.

21
Fev17

Verão indiano (primeira parte)

Bruno Vieira Amaral

O primeiro indiano que conheci estava a dormir. O segundo também. Isto é mentira ou, melhor dizendo, é parcialmente verdade. O primeiro indiano que conheci foi o do serviço de estrangeiros e fronteiras no aeroporto de Mumbai, pelo que hesito entre considerá-lo indiano ou burocrata diligente, embora um tanto ensonado. A burocracia, apercebo-me quando viajo, não tem nação. É um conjunto universal de esgares, suspeitas e carimbos contrariados. O funcionário não me fez perguntas, pediu-me apenas para olhar para a câmara e pôr todos os dedos, à excepção do polegar, num aparelho. Agora sei que as minhas impressões digitais estão registadas e armazenadas numa gigantesca base de dados, pacientemente à espera do dia em que eu cometa um crime de alcance internacional.

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Recolhi a minha bagagem. Já passava das quatro da manhã, embora o movimento de carros e pessoas fosse frenético. Lá fora, encontrei Arun, motorista que segurava uma folha A4 com o meu nome e o logótipo do festival literário de Hyderabad. Fomos para o carro e perguntei-lhe quanto tempo era a viagem até ao hotel. Abanou a cabeça e não me respondeu, o que, em linguagem corporal local, significa entre 45 minutos e uma hora. No trajecto, Arun conduziu essencialmente com a buzina e os máximos. Não cheguei a perceber se conduzia pela esquerda e ultrapassava pela direita ou vice-versa. Era conforme. A única certeza é que, pelo menos àquela hora, os sinais vermelhos são facultativos. Arun passou vários sem qualquer comoção, sem aquela espécie de deliberação exasperada que exibimos quando passamos um sinal que acabou de ficar vermelho. Na verdade, ele passava os sinais vermelhos como se nem estivessem lá. Talvez eu é que não estivesse a ver bem as coisas. Nos dias seguintes, no meio do incessante trânsito caótico de Hyderabad – com rickshaws, motorizadas, SUV, autocarros obsoletos, carrinhas de transporte de mercadorias e peões aparentemente suicidas – perguntei-me se aquelas pessoas estariam mesmo a dirigir-se para algum lado – como quando alguém apanha o 732 porque quer ir para o Hospital de Santa Maria – ou se estariam apenas a circular até encontrarem um sítio onde lhes apetecesse ir ou onde percebessem que tinham alguma coisa para fazer.

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 Finalmente, perto das cinco da manhã, chegámos ao Plaza Hotel. O sossego era absoluto. A recepção estava praticamente às escuras. Reclinado na cadeira, um jovem dormia. Quando falei, deu um salto, limpou a boca, sorriu e foi chamar alguém lá dentro. Do interior de uma sala, veio um rapaz de cabelo desgrenhado, olhos de sono e que tratou logo de procurar o meu nome na lista do festival quando lhe disse que era um dos convidados. Após uma pesquisa infrutífera, encontrámos uma segunda lista na qual constava o meu nome. Tirou uma cópia do meu passaporte e lá fui eu para o quarto no sétimo andar. O hotel, percebi nos dias seguintes, era um bloco de cimento com humidade nas paredes e a atmosfera geral não de um lugar de lazer mas de uma sinistra colónia de férias para funcionários públicos. Os empregados pareciam ter todos entrado há pouco tempo ao serviço, como se o hotel estivesse apenas a funcionar para nos receber e fosse desactivado logo a seguir, reaproveitado para instalações do ministério da educação ou de um instituto de prevenção rodoviária. Nos dias que ali passei, a piscina só foi frequentada por pombos, que caminhavam cautelosamente à volta como se estudassem uma forma de a atravessar a nado, e por um indiano gordo (a propósito, saiu uma notícia num jornal local que indicava que as crianças de Hyderabad eram as mais obesas do país) que, no domingo de manhã, deu umas braçadas complexas, num esforço testemunhado pela mulher e um casal amigo.

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Na quinta-feira de manhã, após pouco mais de quatro horas de sono, tive o meu primeiro embate com a gastronomia indiana em condições que me eram francamente desfavoráveis: encontrava-me em desvantagem numérica e linguística, estava com jet-lag e, para não ofender ninguém, tinha decidido que teria de comer tudo aquilo que pusesse no prato. Cheguei pouco antes das dez e meia, hora a que acabava o pequeno-almoço, facto que me foi lembrado com autoritarismo pelo primeiro empregado com que me cruzei. Apressei-me a recolher alguma comida, não só fatias de pão branco, um ovo cozido e fruta fresca, mas também algo que, pelo aspecto, devia ser altamente nutritivo, mas que se revelou apenas insuportavelmente picante. Com um inequívoco ar de sofrimento que tentei transformar num ricto de dignidade, pedi ao empregado uma chávena de café. Olhou para o relógio e desapareceu por umas portas de saloon. Naquele momento, eu tentava negociar com o sabor inédito que me queimava a língua, o interior das bochechas, o esófago, fazendo-me derramar umas lágrimas breves de comoção pela dor que tinha de sofrer em silêncio. É indescritível a alegria que de mim se apoderou quando o empregado me trouxe uma chávena de um péssimo café que, pelo simples facto de ser café, me devolveu ao prado refrescante dos sabores familiares e me fez regressar mentalmente a esses lugares costumeiros em que me sinto em casa: uma pousada numa aldeia histórica, o adro de uma igreja na província, os barcos da Soflusa.

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Depois de me cruzar com um sujeito que carregava às costas um equipamento de desinfestação, cheguei ao quarto com a sensação de alívio de um pugilista amador que sobreviveu ao primeiro assalto contra o campeão do mundo de pesos-pesados. O almoço, apesar de todos os meus cuidados, não correu muito melhor, mesmo tendo levado para a refrega um litro de água mineral. Às três estava marcada uma visita guiada pela cidade. O nosso grupo era composto na sua maioria por escritores filipinos – o país convidado da oitava edição do festival – um dos quais exibia um rabo-de-cavalo que lhe dava o ar distinto de organizador de lutas clandestinas de cães na cidade de Manila. Programada pelo festival, a visita teve como guia um senhor ainda não vencido pelos anos que gritava bastante e era estranhamente parecido com Boutros Boutros-Ghali, o antigo secretário-geral das Nações Unidas. De vez em quando interrompia o discurso, não sei se para recuperar o fôlego ou se para se mostrar indignado por ninguém lhe estar a prestar muita atenção. Após quase uma hora de viagem, chegámos ao destino, não muito longe do Charminar, o ex-libris da cidade. Para começar, visitámos o Palácio de Chowmahalla, residência do último nizam de Hyderabad (até depois da independência, Hyderabad foi um principado governado pelos nizams). Eram muitas as famílias que se passeavam pelos magníficos jardins e pelas salas dos edifícios onde pudemos contemplar porcelanas dos séculos XVII e XVIII vindas de Inglaterra, da China e dos Países Baixos, uma colecção impressionante de armas brancas – adagas, cimitarras, espadas, punhais, cutelos, floretes – e retratos não muito favoráveis das várias gerações de nizams. No exterior, protegidos por um vidro de segurança, vimos os veículos de luxo que tinham servido os monarcas, incluindo um Rolls Royce Silver Ghost, de 1912, que segundo o guia não teria feito mais de 400 quilómetros, pois só tinha sido usado em ocasiões muito especiais. De todos os espaços, o Durbar Hall, local da coroação dos nizams, era o mais imponente, com as suas colunas de mármore e os 19 candelabros de cristal belga pendentes do tecto.

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15
Mar16

Hannibal Lecter: o nosso canibal preferido

Bruno Vieira Amaral

Publicado no Observador.

 

Quando O Silêncio dos Inocentes estreou, no Dia de São Valentim de 1991, filmes e séries sobre serial killers eram raros. Hoje, pelo contrário, se fôssemos calcular o número real de assassinos psicopatas com base no que a televisão e o cinema nos mostram chegaríamos a números em que teríamos obrigatoriamente de incluir os vizinhos do lado, o dono do café, o motorista do autocarro e aquela vizinha que protesta diariamente com os funcionários municipais.

O filme revelou-se um sucesso inesperado. Jodie Foster era o nome mais forte do elenco. Dois anos antes, tinha recebido o Óscar para melhor actriz pelo seu desempenho em Os Acusados. Anthony Hopkins era um actor sólido, da escola britânica, mas não era uma estrela. O realizador Jonathan Demme, que tinha tido algum sucesso com os filmes Selvagem e Perigosa e Viúva… mas Não Muito, não parecia o nome mais indicado para dirigir um thriller no limite do filme de terror. A primeira adaptação ao cinema de um romance de Thomas Harris tinha sido um fracasso (Caçada ao Amanhecer, de Michael Mann). Contudo, no final da primeira semana de exibição, o filme estava pago. A partir daí foi só lucro. Dinheiro nas bilheteiras, crítica rendida e, um ano depois, os prémios da Academia, derrotando os favoritos JFK, de Oliver Stone, e Bugsy, de Barry Levinson, que revi recentemente só para confirmar que se o filme estivesse a arder só Annette Bening merecia ser salva.

Na altura, entre as muitas qualidades do filme, os críticos destacaram a química entre Foster e Hopkins ou, para ser exacto, entre Clarice Starling, agente do FBI, e Hannibal Lecter, psiquiatra e sociopata que supostamente iria ajudá-la a apanhar Buffalo Bill, um assassino em série que matava e esfolava (literalmente) as suas vítimas. Nos momentos em que contracenam estão sempre separados, primeiro por uma parede de vidro, depois por grades de ferro, e executam uma dança sublime que tanto se assemelha a um ritual de sedução como a uma sessão de terapia. É um interrogatório e um combate de boxe, uma entrevista e uma partida de xadrez. As arremetidas de Hannibal (e da câmara de Demme, repare-se como nos momentos de fraqueza Clarice olha ligeiramente para fora do plano e Hannibal olha diretamente para a câmara, confrontando Clarice e os espectadores) expõem a vulnerabilidade da agente do FBI. Tal como o espectador, Clarice sai física e emocionalmente esgotada destes confrontos, a sacudir o pó e determinada a mostrar uma força que não sabe se tem. Além de novata, Clarice é também uma mulher num mundo de homens (numa das cenas iniciais, entra num elevador só com homens e, mais tarde, antes de fazer uma autópsia, tem de se impor aos agentes parolos, todos homens, de uma terreola de província). Este aspecto é relevante se tivermos em conta que as mulheres são as vítimas preferenciais de Buffalo Bill e que ele próprio deseja mudar de sexo.

Mas se a vulnerabilidade de Clarice – tão bem captada na cena no interior da masmorra do assassino – empresta verdade à personagem – muito diferente dos previsivelmente infalíveis heróis de Hollywood – não é exagero dizer-se que este é o filme de Hannibal Lecter. A interpretação de Hopkins é de tal forma intensa que só precisou de 25 minutos para dominar o filme, assustar os espectadores e ser eleito o maior vilão da história do cinema pelo American Film Institute, batendo, entre outros, Darth Vader, Norman Bates e Max Cady. Há uma cena de grande violência (o momento gore do filme), mas o que o torna mais ameaçador é a postura, a dicção, o olhar, sem os maneirismos que arruínam tantas interpretações de génios e de vilões e com toda a intensidade lunática que imaginamos ser a de uma mente brilhantemente doentia. Acreditamos sempre que a inteligência incomum de Lecter só tem rival na sua frieza. E o grau de ameaça que dele emana não diminui pelo facto de o vermos quase sempre atrás das grades ou de um vidro. Mesmo encarcerado e sem poderes sobrenaturais, Lecter é o senhor da cena. Como diz Jack Crawford, o mentor de Clarice Starling: “não vai querer Hannibal Lecter dentro da sua cabeça.”

Mas Lecter entrou nas nossas cabeças e na nossa cultura. A sua popularidade originou outros três filmes (dois deles com Hopkins e nenhum tão bom como O Silêncio dos Inocentes) e uma série de televisão, em que o dinamarquês Mads Mikkelsen desempenha o papel do psiquiatra. A sua deixa mais célebre é também a mais sinistra: “I ate his liver with some fava beans and a nice Chianti”, considerada pelo AFI uma das melhores da história do cinema.

 

Um canibal à nossa mesa

Pois, há esse pormenor. Não foi apenas o desempenho de Brian Cox, o Dr. Lecter no filme de Mann, que foi obliterado pela extraordinária performance de Hopkins. Fascinados pelos seus modos inquietantes e irresistíveis quase esquecemos que Lecter é um canibal. E se não esquecemos, pomos o seu canibalismo gourmet ao nível de um adereço que ajuda a definir a personalidade. Os hábitos culinários de Lecter são a Smith & Wesson de Harry Callahan ou o chicote e o chapéu de Indiana Jones. Em vez de uma prova das suas perturbações mentais são uma manifestação da sua superioridade intelectual e cultural (repare-se na sua obsessão pela falta de maneiras ou por qualquer forma de rudeza no trato).

Para criar a sua personagem, o escritor Thomas Harris, autor dos romances que deram origem aos filmes, inspirou-se em alguns assassinos em série reais, como o mexicano Alfredo Ballí Treviño, um médico de Monterrey suspeito de ter assassinado vários jovens que viajavam à boleia, e Albert Fish, violador de crianças e canibal que ficou conhecido como o “Vampiro de Brooklyn”. A atracção e repulsa que casos semelhantes nos provocam distorcem a realidade do canibalismo porque o reduzem a essa dimensão patológica quando, de acordo com Carole A. Travis-Henikoff, no seu excelente livro Dinner With a Cannibal: the complete history of mankind’s oldest taboo, representam apenas 1% do total de casos conhecidos na longa história do canibalismo.

Foi Cristóvão Colombo quem, ao mesmo tempo que descobria a América para os europeus, legou o termo “canibal” à humanidade. Logo na primeira viagem, em 1492, registou nos seus diários a existência de índios comedores de carne humana. Os habitantes da ilha de San Salvador referiam-se a estes como “caribes” e é assim, ou como “canibes”, que Colombo os identifica. Na segunda viagem às Antilhas, fala pela primeira vez em canibais, querendo com isto dizer consumidores de carne humana.

Como é óbvio, o canibalismo (ou antropofagia) não passou a existir com a chegada de Colombo à América. Encontramos referências na mitologia, na Bíblia e na literatura (há o célebre episódio de Ugolino de Pisa no Inferno, de Dante, ao qual Jorge Luis Borges dedicou um dos seus nove ensaios dantescos). De acordo com o mito, o deus romano Saturno (inspirado no grego Cronos) devorava os filhos à nascença para que não se cumprisse a profecia de que seria deposto por um deles (o que, inevitável e tragicamente, acaba por acontecer).

A ingestão de carne humana é mencionada em pelo menos nove versículos bíblicos, e em quase todos como uma possibilidade atroz, uma profecia de desgraça. Em Levítico 26:29, Deus avisa o povo de Israel que a desobediência lhes sairá cara “porque comereis a carne dos vossos filhos, e a carne das vossas filhas comereis.” Em Deuteronómio 28:53, há uma nova ameaça divina contra os desobedientes: “e comerás o fruto do teu ventre, a carne dos teus filhos e das tuas filhas […] no cerco e no aperto com que os teus inimigos te apertarão.” E em Lamentações 4:9, 10: “Os mortos à espada mais ditosos são do que os mortos à fome; porque estes se esgotam como traspassados, por falta dos frutos dos campos. As mãos das mulheres piedosas cozeram seus próprios filhos; serviram-lhes de alimento na destruição da filha do meu povo.” O padrão é o seguinte: aos desobedientes, Deus ou os seus profetas mostram o mundo horrível que resultará dessa desobediência. Guerras, escravidão, fome. Esta será de tal ordem que até as mulheres piedosas acabarão a cozinhar os filhos.

Relatos de viagens

Apesar de estas e outras referências culturais, o conceito moderno de canibalismo foi formado a partir dos relatos dos viajantes que seguiram as rotas inauguradas por Colombo. Em 1503, Amerigo Vespucci, que deu o seu nome à América, publicou Mundus Novus, as cartas das duas viagens que tinha feito ao continente. Devido à enorme difusão da obra, Vespucci contribuiu decisivamente para a ideia do canibalismo generalizado daqueles povos, como refere Francisco Bethencourt em Racismos – das Cruzadas ao Século XX (Temas e Debates, 2015). A narrativa de Vespucci abundava em pormenores e tinha a vantagem do testemunho direto. O antigo companheiro de Colombo dizia, por exemplo, “ter vivido vinte e sete dias numa aldeia nativa onde viu pedaços de corpos humanos pendurados em traves nas casas, à semelhança da forma como na Europa se penduravam presuntos para serem fumados.”

Às palavras juntaram-se, em edições posteriores da obra, imagens perturbantes dos hábitos canibais dos povos americanos. Esta mistura de antropologia avant la lettre e puro sensacionalismo marcou todo o pensamento ocidental posterior, influenciou o curso da acção política e sedimentou preconceitos que nem análises e opiniões clarividentes puderam derrubar. Nos seus Ensaios, Michel de Montaigne escreveu sobre os canibais, num breve manifesto de relativismo cultural em que apontava a incapacidade de os europeus verem a sua própria crueldade e os seus comportamentos bárbaros enquanto eram lestos a condenar os costumes dos índios. Já em 1578, o viajante francês Jean de Léry tinha publicado Histoire d’un Voyage Faict en la Terre du Brésil, relato de uma viagem ao Brasil e do tempo que passou com os Tupinambás. Para as autoras de Brasil: Uma Biografia (Temas e Debates, 2015), o livro de De Léry é uma tentativa genuína de compreender o outro. Ele foi capaz de perceber que “a guerra e as práticas de canibalismo não significavam a satisfação de demandas alimentares; representavam, sim, formas de comunicação interna, práticas de dádiva, quando se trocavam valores, símbolos, bens.” Bethencourt afirma que “De Léry foi o primeiro a pôr em causa a suposta superioridade moral europeia.”

Em 1592, um século depois da chegada de Colombo ao Novo Mundo, foi publicado em França um livro com as observações de De Léry e a aventurosa e incrível história de Hans Staden, um soldado e explorador alemão que tinha passado dez meses como prisioneiro dos Tupinambás. A primeira edição do livro de Staden, de 1557, tinha sido um sucesso fenomenal, quer pela natureza quase fantástica do relato – Staden contava como tinha conseguido não ser devorado pelos seus captores e como finalmente lhes tinha escapado – quer pelas gravuras. A edição francesa conjunta de 1592 também incluía ilustrações chocantes dos índios brasileiros em rituais de canibalismo, com a particularidade de o seu autor, Théodore de Bry, nunca ter estado no Brasil.

O canibalismo nunca existiu

Ao construir uma imagem dos índios como seres que necessitavam de ser resgatados da sua condição pré-civilizacional, o livro de Staden, entre outros documentos da época, contribuiu para a narrativa que justificava o domínio europeu. Para muitos, as acusações de canibalismo tinham sido apenas instrumentos usados pelas potências coloniais para legitimar exploração de outros povos e continentes. Essa é a tese de um livro polémico de 1979, da autoria de William Arens. Em The Man-Eating Myth: Anthropology and Anthropophagy (Oxford University Press), este antropólogo dinamitou não apenas a credibilidade dos relatos de Cristóvão Colombo e de Hans Staden, mas também os trabalhos de campo de antropólogos proeminentes, como E. E. Evans-Pritchard ou Margaret Mead. Na opinião de Arens, não havia provas sérias de que o canibalismo alguma vez tivesse sido uma prática socialmente aceite em qualquer sociedade.

Nem mesmo o caso dos Fore, uma tribo da Papua-Nova Guiné, convenceu Arens. Os Fore foram alvo do interesse da comunidade internacional por causa de uma doença, kuru (uma encefalopatia espongiforme como, por exemplo, a doença das vacas loucas), que nos anos 50 e 60 vitimou várias centenas de membros da tribo, especialmente mulheres. Já na década de 1970 concluiu-se que a doença estava relacionada com a ingestão de carne humana infectada, nomeadamente o cérebro. Os Fore praticavam endo-canibalismo, ou seja, consumiam os corpos dos seus mortos em rituais funerários. Como a preparação dos manjares estava a cargo das mulheres, sempre acompanhadas pelas crianças, eram elas as principais vítimas. Um dos investigadores que estudou a kuru e estabeleceu a ligação entre a doença e o canibalismo funerário dos Fore, Daniel Carleton Gajdusek, recebeu o prémio Nobel da Medicina em 1976, mas nem ele se livrou das críticas de Arens, que afirmou que Gajdusek não tinha testemunhado a prática de canibalismo, o que demonstra o conceito muito particular de ciência de Arens. O caso dos Fore inspirou um episódio da segunda temporada dos Ficheiros Secretos, “Our Town” (um dos meus preferidos, devo dizer). No final, descobre-se que o xerife é um dos membros de uma comunidade de canibais. O nome do xerife? Arens.

Sobrevivência

Contudo, Arens nunca negou a existência de outras formas de canibalismo, quer o patológico, quer o dito canibalismo de sobrevivência. Este último é o mais fácil de aceitar, mas também o único em que se levanta a questão moral. Numa situação extrema, o indivíduo tem, por um lado, um interdito alimentar e, por outro, o alimento que o pode salvar. O que escolher? Ficou célebre o caso da equipa de râguebi uruguaia cujo avião em que seguia se despenhou nos Andes em Outubro de 1972. A certa altura, os 16 sobreviventes tiveram de fazer a escolha terrível: comer os cadáveres dos companheiros ou morrer à fome. Estamos Vivos, o título do filme baseado nesta história incrível, protagonizado por Ethan Hawke, elucida-nos quanto à escolha que fizeram. No seu livro, Travis-Henikoff diz que os sobreviventes regressaram a casa “mais devotos, mais dados à metafísica e menos materialistas. Recordam aquela experiência como um acontecimento intensamente religioso.”

Contudo, na maior parte dos casos a experiência é, digamos, menos intensamente religiosa. A exemplo do que acontece na natureza, trata-se apenas de obter alimento onde ele existe. Isso aconteceu frequentemente ao longo da história, em situações de catástrofe, naturais ou humanas. Aconteceu na Grande Fome na Irlanda do século XIX e na União Soviética de Estaline, no cerco de Leninegrado, em campos de prisioneiros de guerra dos japoneses durante a II Guerra Mundial (após o conflito, o general japonês Yoshio Tachibana foi executado por ter participado na morte e consumo dos cadáveres de soldados norte-americanos) e na China de Mao. Eis um excerto do livro Mao – A História Desconhecida, de Jung Chang (Quetzal, 2013): “Durante este período de fome [entre 1958 e 1961] algumas pessoas recorreram ao canibalismo. Um estudo pós-Mao (prontamente suprimido) sobre o condado de Fengyang, na província de Anhui, registou sessenta e três casos de canibalismo só na Primavera de 1960, incluindo o de um casal que estrangulou e comeu o filho de oito anos. E Fengyang não era provavelmente o pior. Num condado em Gansu onde um terço da população morreu, o canibalismo era frequente. Um quadro de uma aldeia, cuja mulher, irmã e filhos todos morreram nessa altura, disse mais tarde a jornalistas: «Tantas pessoas na aldeia comeram carne humana… Vêem essas pessoas agachadas junto ao escritório da comuna a apanhar sol? Algumas delas comeram carne humana… As pessoas ficavam loucas com a fome.»”

O drama da escolha entre a morte e o consumo de carne humana percorre A Estrada, o livro de Cormac Mc Carthy, também adaptado ao cinema. Num mundo pós-apocalíptico, sem esperança e que parece a concretização dos cenários previstos nos versículos bíblicos que citámos, um pai mostra ao filho que, mesmo em circunstâncias extremas, há valores dos quais não devemos abdicar porque sem esses valores a existência perde sentido. Podemos argumentar que A Estrada é um livro de ficção e que, numa situação real, a fome daquele pai poderia mais do que a dor. Contudo, não é esse o sentido da história real que o escritor Jonathan Safran Foer conta no início de Comer Animais (Bertrand, 2010). Durante a Segunda Guerra Mundial, a avó de Safran Foer e outros refugiados que tentavam escapar aos alemães comiam tudo o que apanhavam. “Nem te digo algumas das coisas que comi”, disse-lhe a avó. Um dia, faminta, bastante debilitada, quase sem forças para prosseguir, um camponês russo ofereceu-lhe um naco de carne. Ela recusou. Era carne de porco e ela era judia:

“ – Era porco. Não ia comer porco.

Porquê?

- O que queres dizer com porquê?

- Porque não era kosher?

- É claro.

- Nem para salvares a vida?

- Quando nada mais interessa, deixa de haver o que salvar.”

Regresso a Hannibal

De certo modo, a história do nosso canibal preferido também está relacionada com a Segunda Guerra Mundial e com os nazis. Em Hannibal, o terceiro romance com o Dr. Lecter, publicado em 1999, Thomas Harris conta que ainda criança, na Lituânia, durante a Segunda Guerra Mundial, Hannibal viu a irmã Mischa ser morta e comida por desertores lituanos que colaboravam com os nazis. Também aqui Harris foi buscar inspiração a uma história real, a do infame assassino em série russo Andrei Chikatilo, que entre 1978 e 1990 terá assassinado pelo menos 52 mulheres e crianças. Quando Chikatilo era pequeno, a mãe contava-lhe a história do seu irmão Stepan, que teria sido morto e comido pelos vizinhos aos quatro anos de idade. Condenado à pena de morte, Chikatilo, que chegou a provar o sangue de algumas das suas vítimas, foi executado em 1994. No dia de São Valentim.

19
Fev16

Uma conversão tardia ao culto de Bowie

Bruno Vieira Amaral

Publicado no Observador no dia 7 de janeiro de 2015

 

O tempo é de liturgia comemorativa, hossanas universais, novo álbum e aniversário, por isso é com o sabor sacrílego da carne consumida em sexta-feira santa que confesso que, durante uma parte considerável da minha vida, não fui devoto de São David Bowie. Antes que os aiatolas do bom gosto lancem uma fatwa ou comecem à pedrada (rasgar as vestes, além de hábito judaico, é pecado capital na religião de Bowie segundo a qual “não rasgarás nenhuma peça de roupa que possa ser exibida mais tarde num museu”), tratarei de explicar esta heresia menor.

Para mim, criança dos anos 80, Bowie era apenas mais uma estrela da pop, a versão branca e alienígena de Michael Jackson antes de Michael Jackson se ter tornado a versão branca e alienígena de Michael Jackson. Pior ainda, era uma espécie de Phil Collins longilíneo, com cabelo e sexualmente ambíguo. A omnipresença etérea de Let’s Dance – canção, por sinal, muito irritante – um olho de cada cor (na realidade, a pupila dilatada de um dos olhos, consequência de uma briga juvenil, dá essa impressão), o anúncio da Pepsi com Tina Turner (“a escolha da nova geração”), um dueto horripilante com Mick Jagger para Dancing in the Street –, a catequese obrigatória do “camaleão da pop”, etc. Se hoje é difícil acreditar que David Bowie nem sempre foi consensual, na altura era difícil acreditar que havia ali mais do que a sombra de um artista sério. O sucesso dos anos 80 quase lhe deu cabo da carreira. Não foi caso único. Nikita e I Just Called to Say I Love You, duas canções recomendadas em situações graves de hipoglicémia e dois êxitos monstruosos, foram kryptonite para Elton John e Stevie Wonder.

Do ponto da vista da crítica, nem tudo era mau. Nas suas incursões pelo cinema, Bowie mostrava ter um faro mais apurado do que o dos seus rivais da música. Enquanto Michael Jackson, Prince e Madonna se expunham ao ridículo em clássicos do humor involuntário como Moonwalker, Purple Rain e Who’s That Girl?, Bowie trabalhava com Nagisa Oshima e Martin Scorsese. Porém, havia um contra para alguém unanimemente elogiado por ser “camaleónico”. Ao contrário dos camaleões, que conseguem adaptar-se ao meio envolvente a fim de passarem despercebidos, David Bowie era sempre David Bowie, contaminando de estranheza tudo aquilo em que tocava. Era impossível para o espectador suspender a descrença. Eu vi A Última Tentação de Cristo e fiquei à espera que Bowie – o Pôncio Pilatos que Oscar Wilde teria inventado se tivesse escrito um dos evangelhos – exortasse Jesus a “put on your red shoes and dance the blues.” Naturalmente, como o próprio admitiu, os papéis que lhe ofereciam eram os “de bichas em fúria, travestis e marcianos.” E alguns dos que aceitou – extra-terrestre em O homem que veio do espaço, vampiro em Fome de Viver e Andy Warhol em Basquiat – não andavam muito longe desses universos.

Evitar o declínio

Bowie tinha passado por todas as fases protocolares do estrelato musical: a luta por um lugar ao sol, os primeiros sucessos, as afirmações bombásticas para chatear os burgueses, a aclamação crítica, as drogas, a inflexão no estilo, a explosão comercial, o fel da crítica e a estagnação criativa. Se tudo corresse como previsto, passaria os anos seguintes a compor bandas sonoras para filmes da Disney, a ser arrastado por Bob Geldof para a habitual voltinha no carrossel internacional da solidariedade, a gravar um disco de duetos e a esperar pela reabilitação crítica tranquilamente reclinado numa chaise-longue no alpendre do seu chalé com vista para o lago Léman, a beber sumo de arando por uma palhinha e a acenar ao seu vizinho, Phil Collins. No entanto, o que se seguiu foi a melhor lição de sempre na cadeira de “como evitar o declínio anunciado”.

Vejamos: numa situação de esgotamento criativo, Bowie podia ter ido ao baú desenterrar roupas, maquilhagem e melodias e teria resolvido o problema. Na ocasião, deve-lhe ter valido um dos cartões das Oblique Strategies, o baralho de aforismos de auxílio a músicos em dificuldades de Brian Eno e Peter Schmitt, que rezava assim: “Descobre as receitas que usas e abandona-as.” Desistiu de agradar ao público e partiu para novas paisagens sonoras, com a perícia suficiente para não parecer um daqueles velhinhos que, aos noventa anos, decidem saltar de para-quedas ou pintar o cabelo. Essa sempre foi uma das virtudes fundamentais de Bowie, soar moderno sem parecer que está desesperado por soar moderno. Black Tie White Noise, Outside e Earthling, álbuns dos anos 90, marcaram a reinvenção de Bowie.

Porém, permitam-me outro pequeno sacrilégio: por muito bons que sejam, ninguém se apaixona por aqueles discos. Têm valor no contexto da longa carreira de Bowie, como prova da sua incrível capacidade de regeneração, mas são demasiado ásperos, pós-humanos. Só que entre o primeiro e o segundo daqueles discos, ocorreu um fenómeno inesperado, quase místico. No final de 1993, os Nirvana, então no auge do sucesso, gravaram um concerto acústico para a MTV. Ao contrário do que os outros convidados normalmente faziam, optaram por tocar temas poucos conhecidos e covers, entre as quais uma versão de The Man who sold the world. Kurt Cobain suicidou-se em 1994 e nesse ano foi lançado o MTV Unplugged in New York. O meu amor por David Bowie começou no dia em que soube que aquela canção era dele. Sem essa epifania, a minha relação ter-se-ia mantido no plano solene da admiração desapaixonada e do respeito pela integridade artística. A partir daquele momento, alguma coisa aconteceu no meu coração. E essa coisa foi crescendo com os anos graças a:

- Life on Mars no filme Ondas de Paixão, de Lars von Trier;

- ao magnífico penteado circa 2003;

- a Ashes to Ashes num concerto intimista de 2000;

- a todo esse concerto (Live at the BBC Radio Theatre),

- à escolha de Absolute Begginers como hino nacional do meu país imaginário: if our love song, could fly over mountains, could laugh at the ocean;

- à audição de Starman numa viagem nocturna para o Alentejo;

- à recordação de um documentário que passou na SIC (meu Deus, estes gajos das televisões eram loucos) em que fiquei a conhecer o melhor nome de guitarrista de sempre, Reeves Gabrels;

- ao hipnótico videoclip (ainda se diz assim?) de Thursday’s Child (música de Bowie e Gabrels e uma homenagem a Eartha Kitt);

- à influência duradoura nas bandas que eu tanto admirava (Blur – compare-se Boys Keep Swinging com M.O.R. –, Suede, Pulp, Placebo).

Respeitabilidade

“Politicians, ugly buildings, and whores all get respectable if they last long enough”. Esta célebre frase é proferida pelo personagem de John Huston em Chinatown, o clássico de Roman Polanski. É verdade que parte da respeitabilidade de David Bowie deve-se ao simples facto de ele ter durado o suficiente. Mas, ao longo do tempo, soube (quase sempre) evitar quer as armadilhas da transgressão, quer as armadilhas da respeitabilidade. Nos anos 80, homens de cabelo comprido e maquilhagem não eram propriamente subversivos mas na altura em que Bowie apareceu, no início da década de 70, o seu aspecto era suficientemente ameaçador para que um apresentador da BBC o classificasse, horrorizado, como “uma aberração com maquilhagem” (uma descrição muito fiel, diga-se de passagem). Na constante tensão entre o artifício e a autenticidade, houve um momento em que perdeu o pé. Em 1976, afirmou numa entrevista que era bissexual. Mais tarde, considerou esse o maior erro da sua carreira, porque nos EUA o conteúdo dessa afirmação eclipsou o resto. Ora, tal como os heterónimos pessoanos, as máscaras – Major Tom, Ziggy Stardust, Alladin Sane, Thin White Duke – deviam servir para libertar o artista dos constrangimentos da autenticidade e da coerência e não para o encaminhar para becos sem saída. Com a máscara colada ao rosto, Bowie percebeu que a imagem só tem valor quando liberta. Quando pesa, o artista tem de conseguir libertar-se dela.

Desde então, a história de Bowie é a história de alguém a escapar permanentemente da imagem que construiu e da mitologia que os outros foram fazendo: e essa imagem do escapista surpreendente é a mais duradoura da sua mitologia. Como é que se consegue isso na era da visibilidade total e permanente? Desaparecendo. Depois de uma exposição excessiva que durou décadas (e um guarda-roupa que daria para vestir 50 mil figurantes de uma versão hermafrodita de Star Trek dirigida por John Waters), Bowie optou pelo recolhimento e pela discrição. O pai espiritual de todos os bizarros percebeu que não ganhava nada ao entrar em competições com Miley Cyrus e já não tinha idade, saúde ou estatuto para se vestir com bifes. Então escolheu a normalidade (e quando se apresenta como normal ainda parece mais estranho, como se a “normalidade” lhe assentasse como um fato de lantejoulas em John Wayne) e o silêncio: não dá entrevistas, não faz tournées. Tornou-se um enigma. “Enigmáticas” é capaz de ser o adjectivo mais usado para descrever as canções do novo álbum, como se viessem de um lugar que ninguém consegue identificar, de outro planeta, de outro tempo, que foi sempre a impressão que o artista quis dar, a de que ele e a sua música vinham de lugares muito, muito distantes e estranhos.

De cada vez que é notícia, ainda consegue pôr o público a coçar a cabeça e a pensar: “o que é isto?” (Até a mulher, a modelo Iman, tem um adequado rosto esfíngico, como se fosse mais uma peça do Grande Mistério). E é essa ideia de que há uma realidade insondável além da superfície (“I’ve got scars that can’t be seen”, canta em Lazarus, uma das novas músicas) que alimenta o mito e o mistério. Este mistério tanto pode ser o negativo dos personagens histriónicos que Bowie inventou como o mais extravagante de todos esses personagens. O que é de certeza é uma maneira inteligente de escapar aos obstáculos da respeitabilidade senatorial. Está no pedestal mas não está morto. Está no museu mas não está a ganhar pó.

Há três anos foi inaugurada em Londres, no Victoria and Albert Museum, uma exposição dedicada ao músico. Com mais de 300 mil visitantes, foi um sucesso. O título era simples: David Bowie Is. O músico colaborou com a organização da exposição e cedeu material para a mesma, o que significa que, no seu aparente recolhimento, Bowie continua a ser um meticuloso gestor da carreira e da imagem, promovendo discretamente o seu culto, um refúgio para os que se sentem à margem mas não querem fazer parte do rebanho dos marginalizados e onde até os que se converteram tardiamente se sentem bem-vindos. Bowie não tem de pregar, basta que seja. Ele é o verdadeiro cantor de intervenção se a categoria tivesse sido criada por um dandy. E se há sempre o insondável, o mistério, o segredo que insiste em escapar, há também uma certeza que consola os fiéis: David Bowie… is.

15
Fev16

Elif Shafak: «Na Turquia, o desejo da liberdade de fazer perguntas é um ato político.»

Bruno Vieira Amaral

Entrevista à escritora turca Elif Shafak, publicada na LER 137, Março 2015

 

Elif Shafak é a escritora mais popular da Turquia e também uma das mais polémicas. A Bastarda de Istambul, publicado agora em Portugal, valeu-lhe um processo em tribunal, em 2006, por insultar a identidade turca. Motivo: uma das personagens, uma rapariga de ascendência arménia, falava abertamente sobre o genocídio dos arménios pelos turcos, em 1915. Apesar de garantir que as questões políticas e sociais não são o seu guia, Elif Shafak aproveita os seus romances para falar de questões atuais que afetam não só as comunidades turcas na Europa como as minorias em geral: de género, étnicas, culturais ou religiosas. A escritora, que divide o seu tempo entre Londres e Istambul, teme que a sociedade turca esteja a regredir em questões tão essenciais como a liberdade de expressão e de imprensa.

 

Duas das personagens deste romance – Armanoush e Asya – relacionam-se de forma muito diferente com o respetivo passado. Uma está profundamente ligada a esse passado e quer saber mais sobre ele. A outra não sabe e não quer saber.

Interesso-me por estas questões da memória e do esquecimento, da memória e da amnésia, porque penso que a sociedade turca é uma sociedade amnésica. A nossa relação com o passado teve muitas ruturas, foi quebrada em vários sentidos. Creio que a memória é importante e acarreta uma responsabilidade. Devemos aprender com a História, devemos aprender com os erros que foram cometidos para que não os voltemos a cometer, devemos honrar a História. Ao mesmo tempo, acho que é igualmente importante que não fiquemos presos à História, é importante avançar, mas para avançar é necessário ter memória. Por isso, através de Asya e Armanoush quis discutir esta questão da memória e da amnésia.

No caso de Asya, trata-se de alguém que prefere não conhecer o seu passado. Acha que isso, ignorar o passado, não será o melhor em algumas circunstâncias?

Especialmente quando o passado é doloroso, quando há mágoa nesse passado, as pessoas preferem ignorá-lo, esquecê-lo. O mesmo acontece com os países. Mas isso é artificial, não é uma abordagem saudável. Temos de lidar com o passado, temos de o enfrentar, mesmo que seja doloroso, e então depois avançar. Os extremos não são saudáveis. Não é bom ignorarmos completamente o passado mas também não é saudável que a nossa identidade seja toda ela baseada no passado.

É isso que acontece com os personagens arménios deste romance? Estão presos a uma identidade e a um passado e não são capazes de avançar?

Para os arménios o passado está cheio de dor, de tragédias, de histórias por contar. Gostaria que, a longo prazo, as pessoas fossem capazes de esquecer um pouco, mesmo que só um pouco, mas para que eu possa esperar que os arménios esqueçam um pouco, em primeiro lugar, enquanto turca, tenho a responsabilidade de lembrar. Se eu não recordo como é que posso esperar que o outro esqueça? Como tal, em primeiro lugar está o dever de lembrar porque só então podemos pedir ao outro que esqueça um pouco. Esquecer, neste sentido, não significa ignorar, não me interprete mal, só que é necessária uma certa dose de esquecimento e de perdão. Contudo, insisto, o primeiro passo deve ser o da memória, e esse passo tem de ser dado pelos turcos. Se os políticos turcos não dão esse passo terão de ser os turcos, enquanto indivíduos, a fazê-lo.

E como poderão fazê-lo?

Enquanto escritora posso dar esse passo. Uma bailarina poderá fazer uma coreografia. Talvez alguém possa fazer um filme sobre o assunto. As histórias são sempre melhor do que os silêncios. E na Turquia tem havido muitos silêncios sobre o passado. Está na hora de falarmos sobre esses silêncios.

Disse em entrevista que a Turquia vive uma espécie de amnésia coletiva. No entanto, neste livro há um personagem arménio que diz que acontece o mesmo com todos os países. Os Estados-nação criam os seus mitos e as pessoas agarram-se a esses mitos. Concorda que esta não será uma característica exclusiva da Turquia?

Claro que não é uma característica exclusiva da Turquia ou do Estado turco. Se pensar nos Estados-nação, na Alemanha, em Israel, na Itália, até no nacionalismo escocês, todos os nacionalismos são criados retroativamente e somos levados a crer que as coisas sempre foram assim. E as coisas nem sempre foram assim. Há toda uma literatura académica que demonstra que muitos desses mitos são recentes, são modernos, não vêm dos tempos antigos.

Como no livro The Invention of Tradition, coordenado por Eric Hobsbawm e Terence Ranger.

Sim, e o Belated Modernity [livro de Gregory Jusdanis sobre as literaturas nacionais], ou o Imagined Communities [livro de Benedict Anderson sobre os nacionalismos]. Há uma literatura vasta sobre o assunto que me interessa bastante e que mostra que todos os Estados-nação têm estas características. Mas é importante que se diga que quando há liberdade de expressão e democracia os historiadores podem dizer: «Esperem lá, deixem-me mostrar-vos as coisas de uma outra perspetiva.» E dessa forma uma sociedade tem no seu interior vozes distintas que se equilibram. Visto que na Turquia a liberdade de expressão não tem feito progressos, há muitas vozes que têm sido silenciadas, e isso é um problema. Ou seja, há muitas semelhanças entre a Turquia e outros Estados-nação mas o que interessa saber é se há liberdade de expressão, multiplicidade de vozes, pluralismo. Por exemplo, em Inglaterra há muitas pessoas que criticam abertamente o passado colonial da Grã-Bretanha e não vão a tribunal por causa disso, enquanto que na Turquia as pessoas são processadas.

 

elif.jpg Foto: Pedro Loureiro

 

Foi o que aconteceu consigo quando este livro saiu na Turquia. Foi processada por «insultar a identidade turca». Como é que na altura lidou com isso?

Eu sabia que ia receber críticas mas não estava à espera de ser processada por causa de um romance. Foi a primeira vez que isso aconteceu, em 2006. Foi surreal porque em tribunal o meu advogado teve de defender personagens de ficção.

Porque um dos personagens usava o termo «genocídio».

E por criticar o passado da Turquia. Foi muito surreal. Ele tinha de relembrar as pessoas que se tratava de ficção, de imaginação. Acho que atualmente todos os poetas, jornalistas e escritores têm noção de que podem ter problemas por causa de uma palavra. Escrevemos sempre com essa consciência, o que resulta em muita autocensura.

Há coisas que não escrevem por recearem as consequências?

No que diz respeito aos acontecimentos de 1915, as deportações e os massacres, houve alguns progressos. As pessoas falam cada vez mais sobre isso, têm saído mais livros sobre o assunto. Em comparação com o que acontecia há 10 ou 15 anos há progressos na sociedade civil, conferências, debates, documentários, filmes. A sociedade não está calada. As pessoas escrevem e debatem mais do que há uns anos, mas ainda assim trata-se de um assunto complicado e a verdade é que, em termos gerais, no que diz respeito à liberdade de expressão a Turquia recuou. No índice da liberdade de imprensa caímos [em 2002, a Turquia ocupava o 99º lugar e em 2014 tinha caído para 154º]. Centenas de jornalistas ficaram sem emprego, muitos aguardam julgamento, outros continuam presos. Além disso, há muita autocensura e perdeu-se por completo a diversidade na comunicação social.

Mas num caso como o seu, o facto de o Estado processar um escritor não funciona contra o Estado? Afinal, toda a gente acaba por falar sobre isso.

Sim, mas ninguém deseja esse género de publicidade.

Não me refiro a publicidade mas ao facto de se falar sobre um assunto supostamente proibido.

Claro. Tem toda a razão. Quando fui processada, houve mais pessoas a ler o livro, a partilhá-lo e a escrever sobre ele. Mas a comunicação social foi muito agressiva. Na altura, recebi muito amor e muito ódio. A reação dos leitores foi incrível, muito positiva, maravilhosa. E eram leitores das mais diversas origens, turcos, arménios, curdos, judeus. Só que a reação da elite foi muito cruel, muito agressiva, nacionalista.

A elite que escreve na imprensa?

A elite que escreve nos jornais, que comenta na televisão. Eram menos mas faziam mais barulho.

Voltando ao romance e às personagens: todas elas, e não apenas as duas que referi, parecem estar em conflito com o passado, incluindo Mustafa, que tem uma educação privilegiada, é mimado e tratado como um príncipe. Corresponde ao típico homem turco?

Eu interesso-me muito pelas questões de género e sou muita crítica da forma como as mulheres colaboram na manutenção de uma sociedade patriarcal, portanto não se trata apenas de homens a oprimir mulheres. As coisas não são a preto e branco, é muito mais complexo.

Por isso é que lhe perguntava sobre o peso da educação dos rapazes no comportamento que eles têm mais tarde em relação às mulheres.

Bem, a história de Mustafa é a história de um indivíduo mas através dela eu queria abordar estes assuntos porque numa família típica da Turquia os rapazes são tratados de forma diferente, são privilegiados, e infelizmente as mães dizem aos filhos que eles têm o direito de vigiar as irmãs, e por isso crescem com a ideia de que são superiores, de que são os sultões da família. Quando um dia mais tarde casam, tratam as mulheres da mesma forma. Como é que quebramos este ciclo? A opressão das mulheres é em parte reforçada por coisas que as próprias mulheres fazem. É necessário quebrar esta cadeia que passa de geração para geração. Fiz parte do movimento feminista mas para mim o feminismo ou o pós-feminismo exige que nos foquemos não apenas nas mulheres mas também nos homens. Nas sociedades patriarcais não é fácil ser-se mulher mas também não é fácil ser-se um rapaz, especialmente se for um rapaz com talentos pouco habituais, se for gay. Se não se enquadrar numa certa definição de masculinidade as pessoas ridicularizam-nos, afastam-nos e as mulheres também contribuem para isso. Temos de ver qual é o papel das mulheres neste jogo e alterá-lo.

No livro Black Milk [obra de não-ficção sobre a criação literária e a maternidade, que Elif Shafak escreveu após o nascimento do primeiro filho e da depressão pós-parto que sofreu] conta o seu encontro como uma escritora turca e que ela lhe disse que as escritoras não são as maiores fãs umas das outras. Acha que quando uma mulher atinge o sucesso, por exemplo, na literatura, acaba por se virar contra as outras mulheres, culpando-as por não serem capazes de fazer o que ela faz?

Infelizmente é isso que se passa na Turquia porque o meio literário é tão pequeno, concentrado em Istambul, que abundam as coscuvilhices, as calúnias. É quase impossível encontrar dois escritores que gostem um do outro e isso é ainda pior com as escritoras.

Mas vive um pouco afastada desse meio.

Sim. Uma das coisas que me abriu os olhos foi quando estive em Boston, no Mount Holyoke College, e me apercebi que havia um grande sentimento de fraternidade, em particular entre as afro-americanas. E eu fiquei encantada com isso. Elas partilham as memórias das lutas que as mães e as avós travaram. Apoiam-se mais entre si, falam mais sobre este sentimento de união e isto despertou-me. Desejo que chegue o dia em que haja este tipo de solidariedade entre as mulheres turcas, curdas, judias, arménias, entre todas as mulheres mas especialmente entre as mulheres desta região porque vivem em sociedades patriarcais e se passam a vida a competir entre si e a magoar-se isso não beneficia ninguém. Só beneficia o próprio sistema patriarcal.

Disse numa entrevista que não se pode dar ao luxo de ser apolítica. Acha que isso é válido para todas as escritoras de países que enfrentam os mesmos problemas?

Claramente. Uma escritora da Nigéria, do Paquistão, do Egito, do Líbano, não se pode dar a esse luxo. Enquanto escritora turca sei que não me posso dar a esse luxo. Mas isto não quer dizer que a política seja o meu guia. Não é. O meu guia é a imaginação, a literatura, contar histórias, porém os meus livros falam de questões políticas. Não tenho respostas, nem quero ensinar ninguém, mas quero continuar a fazer perguntas. E, na Turquia, o desejo de ter a liberdade de fazer perguntas é, em si, um ato político.

Não acha que nos países onde não existe liberdade de expressão a literatura acaba por ser ainda mais importante do que nas democracias, onde a literatura corre o risco de se tornar irrelevante?

Essa é uma questão muito importante. Eu penso nisso. Por exemplo, na América todos os meses são publicados muitos livros que também desaparecem muito rapidamente. Na Turquia, a liberdade de expressão é menor e enquanto escritores enfrentamos mais obstáculos, mas de certa forma os livros permanecem, não se evaporam e são importantes para as pessoas. O mesmo exemplar é lido por cinco ou seis pessoas. Dizem-me que na Índia o mesmo exemplar chega a ser lido por nove ou 10 pessoas. Imagine: o livro é partilhado, alguém o lê e passa à tia, a tia passa-o à vizinha, funciona muito o boca a boca. Faz-se parte de uma família. E o resultado é que os escritores são figuras destacadas. Esse é o bom lado da questão: aquilo que escrevemos e que dizemos tem importância. O lado mau é que se está sempre a desejar ser livre. Tudo acaba por ser politizado. Estão sempre à procura de mensagens ocultas, à procura de teorias de conspiração. Até chegam a dizer que há mensagens nas capas dos meus livros. Porque é para isso que estão treinados, para procurar inimigos. Chega uma altura em que os artistas precisam de autonomia, de espaço, de liberdade.

Por causa dessa tendência de procurar significados ocultos devo dizer-lhe que encontrei um blogue que compila todas as referências culturais neste livro, de Johnny Cash a Jackson Pollock, e em que os leitores acabam por fazer as suas próprias interpretações que, na minha opinião, às vezes são um pouco exageradas. Como já disse que os escritores nem sempre pensam no que escrevem queria perguntar-lhe o que pensa destas leituras da sua obra.

Há um excesso de interpretação, é verdade. A minha opinião é que um escritor nem sempre está a controlar a história que está a contar. Às vezes escrevemos uma palavra só porque a palavra anterior a pede. Creio que há dois tipos de escrita: uma é quase engenharia, mais matemática, em que o escritor sabe o que cada personagem vai fazer. Conheço escritores assim, respeito o que fazem, mas esse não é o meu estilo. Gosto de me sentir inebriada ao escrever, mais irracional, de não saber o que vai acontecer dali a seis páginas. Gosto de ser surpreendida por um personagem porque dessa forma o leitor também será surpreendido. Como para mim a escrita é um mistério acho que as pessoas não devem interpretar em demasia.

Uma das coisas que me impressionou neste romance foi a ideia de que o amor pode ser opressivo. Em Black Milk conta uma lição que a sua avó lhe ensinou, de que para destruir alguma coisa basta cercá-la, rodeá-la. Será que esses muros que destroem podem ser feitos de amor?

Digamos que sem verdadeira liberdade não há verdadeiro amor. O sentimento de posse não combina com o amor. Um ego muito forte não combina com o amor. Onde há muito amor tem de haver pouco ego. Mas o que queremos é ter um grande amor e um grande ego, de uma forma muito possessiva. Oiço as pessoas a dizerem «a minha mulher», «o meu marido», «a minha noiva», e a ênfase é no pronome, mas essa pessoa não nos pertence, essa pessoa é um universo diferente. Como tal, esse sentimento de posse perturba-me e encontra-se muito na Turquia, especialmente da parte dos homens, que não veem as mulheres como indivíduos.

A sua intenção é a de contar histórias que foram silenciadas, de dar voz a quem não tem voz. Para este livro, falou com arménios e turcos que viveram na época que descreve. Mas quando escreve sobre épocas em que já não é possível recorrer a testemunhos, como é que faz? Usa apenas a imaginação? Porque os excluídos não tiveram oportunidade de deixar a sua versão da História.

Isso é muito importante porque a História tem sido quase sempre contada do ponto de vista dos homens. Na Turquia os indivíduos raramente são mencionados e quando falamos de História é quase sempre acerca das guerras, dos tratados, dos territórios conquistados e perdidos, esse tipo de coisas que decoramos. Os poucos indivíduos sobre os quais se fala são quase sempre os xeiques, os sultões, a elite. A mim não me interessam as pessoas do centro, do poder.

Nem para contar versões alternativas dessas histórias?

Sim, se for para contar uma História alternativa, mas não me interessa o discurso oficial da historiografia porque já o ouvimos vezes sem conta. Quero ouvir os silêncios dos excluídos, das minorias. Interesso-me muito por personagens desse género, desempenham um papel muito importante nos meus livros. Só que a minha definição de minoria é muito ampla, pode ser uma minoria sexual, étnica, cultural ou qualquer pessoa que num dado momento histórico se tenha sentido o outro. Então, quero ouvir as histórias das margens, da periferia. E isso faz-se através da imaginação e da empatia, mas para que isso seja possível em primeiro lugar tenho de ler e de pesquisar. Sem isso não se consegue imaginar. Depois pode-se voar para onde se quiser mas em primeiro lugar tem de se fazer o trabalho de casa.

É necessária uma base.

Sim, construir de baixo para cima. Faço muita pesquisa, levo isso muito a sério. Para escrever este livro li muitas obras, consultei arquivos, documentos históricos, falei com muitas pessoas de origens muito diferentes e todo esse conhecimento também me transformou. A minha mãe era diplomata e quando estávamos em Madrid, a organização terrorista arménia, ASALA [Exército Secreto Arménio para a Libertação da Arménia] tinha como alvo diplomatas turcos e, como tal, tenho memórias muito negativas da palavra «arménio», da palavra, não do povo arménio. Era a palavra em si que tinha conotações negativas e eu tive de fazer uma viagem interior para me livrar dessa conotação negativa e olhar para a História com empatia. Enquanto indivíduos todos temos de fazer as nossas próprias viagens interiores.

Tem dito que os seus muitos leitores têm origens muito diferentes mas a verdade é que as pessoas podem ler os mesmos livros e, na vida real, voltarem às suas trincheiras, sem qualquer alteração. Será que a literatura não é tão poderosa quanto gostaríamos que fosse?

Acredito que a literatura é poderosa e, mais do que isso, tem a capacidade de transformar as pessoas. Como é que eu sei? Porque eu fui transformada pela literatura.

Em A Bastarda de Istambul os livros são importantes para os personagens e também disse, em Black Milk, que os livros a salvaram.

Salvaram-me, transformaram-me, mudaram-me em tantos aspetos. Não quero romantizar mas foi o que me aconteceu e acredito que acontece com outras pessoas. Naturalmente, em escalas diferentes. Por exemplo, por vezes falo com leitores que são bastante homofóbicos e acabam por me dizer que adoraram um personagem gay de um dos meus livros. Ou pessoas que gostaram muito de um personagem turco, arménio ou judeu, pessoas que eu sei que são xenófobas no dia a dia. Como é que isto se explica? Na minha opinião, o fascismo é uma doença coletiva. Somos sempre mais reacionários, menos tolerantes e menos liberais quando estamos acompanhados. Quando estamos juntos, em sociedade, gozamos com os outros, vamos na corrente, mas quando estamos sozinhos é diferente, há um espaço interior que se abre. O romance dirige-se a esse espaço porque exige que o leitor esteja só. Vamos juntos ao cinema ou a um concerto, mas lemos sozinhos. Não interessa se o lemos no Kindle ou em outro dispositivo. E dentro desse mundo privado há um enorme potencial transformador.

Não acha que a diferença é que o leitor quando lê vê o mundo através dos olhos do escritor e que, na vida real, nunca tem oportunidade de conhecer os outros de um modo tão profundo?

Tem toda a razão. No dia a dia não conhecemos as histórias. Acontece o mesmo com os noticiários, é tudo reduzido a números. Morrem duas mil pessoas e não estabelecemos qualquer ligação emocional mas depois lemos a história de uma dessas pessoas e nasce uma ligação. É compreensível que assim seja e é por isso que temos de pegar nessas histórias cada vez mais. Até no jornalismo é preciso cada vez mais contar histórias.

Neste romance há muitas coincidências, aquilo a que chamou «sinais» noutro dos seus livros. Acredita nas velhas qualidades do romance, com um tão grande número de coincidências ou sinais?

Interesso-me muito pelo sufismo [corrente mística e contemplativa do islão], e não apenas pelo misticismo islâmico; interesso-me pelo misticismo judeu, pelo misticismo cristão, para mim são muito idênticos, dizem coisas muito parecidas. E as pessoas que seguiram estas correntes sempre estiveram na periferia das suas religiões e muito interessadas no que não se vê, na essência. Não são tanto as leis e as regras à superfície que lhes interessam, mas o significado oculto, e esse significado é universal. Os sufis acreditam que estamos todos ligados, que as nossas histórias e destinos estão ligados entre si. Hoje isso percebe-se melhor porque após o 11 de Setembro vimos que o que acontece a uma pessoa num determinado lugar afeta as pessoas no outro lado do mundo. Existem estes fios invisíveis que nos ligam. Não me importo de dizer que sou uma pessoa irracional, acredito que na vida há magia, que há coincidências ou sinais. Há coisas que não podem ser explicadas apenas pela lógica. Isso não faz com que eu seja religiosa, não sou religiosa, e faço questão de distinguir a espiritualidade da religiosidade. A religião é uma coisa organizada, com hierarquias e que divide o mundo entre nós e eles, enquanto que um místico, na minha opinião, não divide o mundo entre nós e eles.

Mas essa falta de organização faz com que permaneçam na margem das próprias religiões.

Não só por isso. Não nos podemos esquecer que alguns desses movimentos foram perseguidos e eliminados pelas narrativas dominantes em cada religião. Os cátaros, os bogomilistas, os bektāshîyahs na Anatólia partilham muitos traços comuns e nunca tiveram contacto entre si. Detesto a arrogância e o pensamento absolutista – e os ateus também podem ser bastante arrogantes –, por isso prefiro o agnosticismo, o misticismo. Precisamos da fé e da dúvida, de elementos de ambas. Respeito a fé mas também respeito a dúvida e creio que podem andar lado a lado. É esta a dualidade que me interessa e não a dualidade entre religião e ateísmo, porque ambos podem ser absolutistas e arrogantes.

A literatura prospera na incerteza?

Na incerteza, na ambiguidade. São coisas muito valiosas para um escritor. Tchékhov disse que para um escritor as perguntas são mais importantes do que as respostas. E tinha muita razão. As pessoas que têm muitas certezas estão sempre a tentar mudar os outros enquanto que as que não têm tantas certezas procuram transformar-se a si mesmas. Dou mais valor a isso.

Quando escreveu Black Milk sobre o desafio de conciliar a escrita e a maternidade, mencionou várias escritoras do passado e as dificuldades por que passaram. Mas ainda hoje se temos um grande escritor que é um péssimo pai, o que nos interessa é a obra, enquanto se houver uma grande escritora que é uma mãe negligente o que nos interessa é que é uma mãe negligente. Concorda?

Absolutamente. É assim em todo o lado mas ainda mais em sociedades patriarcais, como a Turquia, onde uma escritora, aos olhos da sociedade, dos críticos, é, em primeiro lugar e antes de mais, uma mulher, e só depois é vista como escritora. Já um romancista é em primeiro lugar um escritor e talvez alguém fale dele enquanto homem, mas é raro. Até a linguagem dos críticos, quando se trata de uma escritora, é diferente.

São mais condescendentes?

Sim, condescendentes, olham de cima para baixo. No verão passado, estava a ler uma crítica a um dos meus livros num jornal turco e era assim que começava: «Vamos lá ver o que é que a nossa kizimiz, que significa «filhinha», «escreveu desta vez», e depois passava para a crítica. E eu olho para este homem que me trata por «nossa filhinha» e somos da mesma idade. Não estou a falar de um crítico de 90 anos, de uma geração diferente. Somos da mesma geração mas só por ser homem e eu mulher, ele vê-se lá em cima e a mim vê-me aqui em baixo. Podíamos pensar que o meio literário na Turquia, por ser composto por intelectuais, artistas, seria menos sexista, mas não é. Há muito glamour à superfície mas se rasparmos um pouco vemos como é incrivelmente sexista e paternalista.

Como contacta com muitos escritores estrangeiros em festivais e outro tipo de eventos acha que se passa o mesmo noutros países? Veem-na como uma companheira de letras?

É uma questão problemática. Na América a cultura existente é a de olharmos para o que alguém fez e tentarmos fazer melhor. É isso que ensinam aos jovens. Na Turquia, é diferente. Se alguém consegue ter sucesso, por exemplo, no cinema, a ideia é de que está a roubar o lugar a alguém. Então essa pessoa passa a ser odiada. Acontece o mesmo na música...

De certeza que não está a falar sobre Portugal?

[Risos.] Então temos de mudar isso, porque ninguém fica a ganhar. A cultura é uma acumulação de conhecimento. Quando um autor vende muito, isso vai gerar um aumento das vendas de livros em geral. Na Turquia é muito difícil falar sobre estas coisas. Tenho uns amigos irlandeses que dizem que na Irlanda acontecia o mesmo na década de 60: era uma sociedade pequena e havia muita tensão política. Talvez na Turquia haja um fardo político que faz com que as pessoas não se ajudem entre si.

29
Jan16

O romancista acidental

Bruno Vieira Amaral

Publicado na LER 120, Janeiro de 2013

 

Manhã fria de fim de novembro. Depois de uma chuva bíblica, o céu ficou limpo. O encontro com o escritor José Rodrigues dos Santos está marcado para um hotel em Sintra. Aguardamos no exterior, onde dois senhores falam sobre os exercícios físicos que praticam, pilates, natação uma ou duas vezes por semana, trabalho específico para os abdominais. Uma senhora sai do hotel para a corrida matinal, garrafa de água na mão. À entrada, um funcionário de sobrecasaca e chapéu alto recolhe, com uma pinça, as beatas depositadas no cinzeiro. É um hotel de luxo. No átrio, os hóspedes falam baixo, os recepcionistas recebem-nos com sorrisos descartáveis “vêm para uma entrevista? Com certeza. É só um momento.” Cinco minutos depois da hora marcada, chega José Rodrigues dos Santos. Afável, não levanta qualquer objeção a que comecemos pelas fotografias. Entretanto, refere circunstancialmente que este hotel foi considerado o melhor do mundo por uma publicação internacional. Depois das fotografias é hora de falarmos com o autor que mais livros vende em Portugal, mais de um milhão e meio de acordo com a informação disponibilizada pela editora. À exceção do primeiro, A Ilha das Trevas, todos os seus romances ultrapassaram a barreira dos 100 mil exemplares. Antes de ser romancista, já era uma figura bastante conhecida dos portugueses, como jornalista e apresentador do Telejornal. Os livros deram-lhe outro tipo de notoriedade. Recentemente foi eleito pelos leitores do Reader’s Digest como “escritor de confiança”, à frente de José Saramago e de Miguel Sousa Tavares. O seu décimo romance, A Mão do Diabo, lançado em novembro, tem um tema bastante atual mas, de certa forma, inesperado para um thriller: a crise económica. É o regresso de Tomás de Noronha, historiador e protagonista dos seus romances de mistério, pronto a desvendar o segredo dos verdadeiros responsáveis pela crise. Pelo meio, há perseguições a alta velocidade pelas ruas de Lisboa e uma missa negra em Florença. Ainda que um romance possa não parecer a hipótese mais óbvia para o efeito, este foi um livro pensado para esclarecer os portugueses sobre as origens da situação em que vivem. A experiência do escritor diz-lhe que, em Portugal e na Europa (na América diz que é diferente), os leitores gostam de ver temas não ficcionais tratados pela ficção. Também não teve receio que o tema afastasse leitores: “A minha preocupação não foi que as pessoas tivessem medo do tema ou não. Achei que as pessoas estavam confusas em relação ao tema e achei que tinha coisas a dizer sobre o tema e utilizei este veículo, o romance, para, procurando ser muito interessante na história que burilei, expressar estas verdades fundamentais sobre como funciona a nossa economia e a nossa democracia.” Rodrigues dos Santos reafirma que, depois de lerem este romance, os portugueses dificilmente se deixarão enganar novamente pelos políticos. Uma ideia caridosa, certamente, quando é o próprio que diz que “nós não queremos ouvir a verdade”. Estaremos então preparados para ler a verdade num romance? “Mas aí eu acho que é importante que o romance a explique. Neste caso o romance dá uma explicação para que as pessoas entendam os desafios que nós temos.” O livro tempera a verdade crua com o sal e a pimenta da ficção. Na nota final o escritor refere os mais de vinte livros que leu para fundamentar as opiniões veiculadas no romance. Apesar disso, diz que há informações no livro que não podem ser encontradas em nenhum outro lado, como a explicação pormenorizada do que se passa nos bastidores: “A forma como a política é exercida, como os negócios são feitos para beneficiar os financiadores do partido em detrimento dos financiadores do país, que são os contribuintes.”

 

Quer isto dizer que os jornalistas têm falhado na missão de esclarecer os cidadãos? Falharam, sim, mas por uma boa razão: “Um jornalista, um historiador ou um jurista pode saber que algo aconteceu mas se não tem modo de o provar não o pode afirmar. Enquanto um romancista quando sabe que algo aconteceu usa a ficção Perguntam-lhe “Mas qual é a prova?” ele responde “ah, mas isto é ficção”. É possível usar a ficção para dizer grandes verdades. Por exemplo, Kafka, quando escreveu O Processo, disse uma grande verdade sobre a justiça. Nós lemos e intuímos que aquilo é verdadeiro. É possível usar a ficção para expor a verdade de uma forma que o discurso não ficcional não consegue porque está preso a um conjunto de convenções. Nesse sentido é verdade que os jornalistas fracassaram mas fracassaram devido às regras da sua profissão.”

A Mão do Diabo é o sexto romance com Tomás de Noronha. O seu autor faz a distinção entre obras: “Tenho dois tipos de romance, o romance histórico, que obedece a regras mais canónicas, e tenho os romances de mistério, em que faço o jogo entre ficção e não ficção que são os romances do Tomás de Noronha.” Regra geral, estes últimos vendem melhor, apesar de as vendas, desde Fúria Divina, publicado em 2009, terem vindo a cair, ainda que ligeiramente. A fórmula é simples: Rodrigues dos Santos pega num tema e, mesmo que à partida não tenha um apelo evidente para o público, procura uma maneira de o tornar interessante vestindo os factos com os fatos do romance de mistério/policial/de aventuras. A nacionalidade de Cristóvão Colombo, a existência de Deus, o aquecimento global, o terrorismo islâmico e os segredos do Cristianismo foram temas submetidos ao mesmo tratamento narrativo. Por muito complexo que seja o tema, os leitores acabam por aderir: A Fórmula de Deus é um romance sobre física e matemática. A questão é como vamos fazer a obra. Como é que vamos pegar num tema que pode ser mais seco e transformá-lo numa coisa interessante. Esse é o desafio do escritor.”A Fórmula de Deus vendeu 187000 exemplares. São estes números que lhe dão confiança para acreditar que nem as longas passagens explicativas e didáticas de A Mão do Diabo demoverão os leitores. Pelo contrário, eles já estão habituados a que seja assim nos romances de Tomás de Noronha: “É um pouco como os romances da Agatha Christie. No final, o Poirot junta os suspeitos. Têm aquele formato.” São livros que atraem todo o tipo de leitores. Um livreiro disse-lhe que estes são os únicos livros que vendem tão bem no Dia do Pai como no Dia da Mãe, embora os homens se interessem mais pelos diálogos – “a parte de ensaio do romance” – e as mulheres passem à frente, à procura da parte romanesca. E se os leitores sabem que podem contar com um determinado formato, sabem também que podem contar com a fiabilidade da informação factual. Por muito que se esforce por tornar cativantes os seus livros, Rodrigues dos Santos, ao contrário de Dan Brown, com quem é frequentemente comparado, não altera os factos: “Ele [Dan Brown] faz o jogo da verdade-não verdade mas apenas ao nível da verosimilhança. Ele altera os factos reais para se adaptarem à ficção e eu faço o contrário: eu altero a ficção para que esta se adapte aos factos reais. Não quer isto dizer que eu esteja imune ao erro, mas quando eu digo uma coisa que não seja verdadeira é por erro, não é intencional. No caso do Dan Brown, ele conscientemente altera determinados factos para se ajustarem à ficção.” Uma ideia reforçada pelo editor Guilherme Valente, responsável pela Gradiva, quando diz que “Carlos Fiolhais e Jorge Dias de Deus, dois físicos de inquestionável competência, afirmaram diante de mim e publicamente não terem encontrado um único erro científico” em A Fórmula de Deus. O escritor também não considera que romancear ideias complexas e teses muito debatidas corresponda necessariamente a uma simplificação. A propósito de O Último Segredo, que abordava temas polémicos para o Cristianismo como a virgindade de Maria ou o facto de Jesus ser judeu, diz: “O livro tem mais de 600 páginas, não simplifica assim tanto.” Guilherme Valente é mais cáustico quando lhe perguntamos se não há o risco de uma editora como a Gradiva, reconhecida pela qualidade das suas publicações científicas, criar nos leitores uma confusão entre ciência a sério e o tratamento romanceado de informação científica. Pergunta-nos se faríamos essa pergunta ao diretor da Gallimard: “Nós não editamos ficção apresentando-a aos leitores como ciência, história, religião, sociologia, psicologia”.

No caso de José Rodrigues dos Santos, a resposta ao desafio de tornar interessante o tema reside, em grande parte, no trabalho de pesquisa. É a pesquisa que lhe aponta caminhos e soluções narrativas. Por isso, e ao contrário de outros, como Miguel Sousa Tavares, encarrega-se ele próprio da investigação: “é a pesquisa que me vai ditar qual é o sentido da ficção que vou criar. Por exemplo, quando estava a fazer a pesquisa para A Fórmula de Deus cruzei-me com uma referência a um encontro que Einstein teve com Ben-Gurion [primeiro-ministro de Israel] em 1951, em Princeton, em que falaram sobre a existência de Deus, e eu pensei “Eh pá! Este é o ângulo que eu vou usar para a história ficcional”. Isto terá a ver com a sua formação jornalística que, admite, é também a principal influência no seu estilo de escrita. Admirador de Somerset Maugham, Rodrigues dos Santos reconhece que, ainda que inconscientemente, somos influenciados por todos os autores que lemos. Mas a sua bíblia estilística é o jornalismo, com a necessidade permanente de ser claro e interessante. Para o escritor, “as palavras não são um fim em si mesmo mas são um instrumento para contar alguma coisa. O meu background é o de jornalista. E os jornalistas, como sabe, escrevem com duas funções, a de serem compreendidos – se eu escrever uma frase e o leitor não compreender, em princípio a culpa é minha – e a de aquilo que escrevem ser interessante.” Outros escritores falam da tortura que é o processo de escrita. Rodrigues dos Santos desconhece essas dificuldades: “Escrevo um texto e estou constantemente a limá-lo e mesmo depois de o livro ser publicado há coisas que encontro que podiam ter sido mais bem trabalhadas, mas é uma questão diferente da questão do prazer e da tortura que o livro suscita. Para mim escrever é como respirar, faz parte da minha vida. Enquanto um grande número de escritores menciona que é um período terrível, o fabrico do livro para mim é puro prazer.” Admite uma dificuldade, a de entrar na cabeça das personagens femininas: “é mais difícil porque não é uma coisa que venha de dentro de mim. Não vem. Resulta da observação exterior, não é da observação interior. Há quem diga que a mulher e o homem são a mesma coisa. Eu não acho que sejam.”

JRS.JPG Foto: Pedro Loureiro

 

Foi por acaso que o jovem apresentador do noticiário noturno da RTP se tornou uma celebridade. Em 1991, quando começou a primeira Guerra do Golfo, José Rodrigues dos Santos, então com 26 anos, estava em direto. Desde esse dia, o “apresentador orelhudo” (ver página 77 de A Mão do Diabo) passou a ser uma das figuras mais populares da nossa televisão. A segunda vida, a de romancista, também começou por acaso. As circunstâncias da sua estreia como ficcionista não foram tão dramáticas, mas o próprio ficou surpreendido quando José Manuel Mendes, presidente da Associação Portuguesa de Escritores, depois de ler a sua tese de doutoramento (Crónicas de Guerra, também publicada pela Gradiva), lhe disse que estava ali um grande romancista em potência: “Eu olhei para ele e ri-me. Era a mesma coisa que ele me dizer que eu era um astronauta em potência. Ri-me. Não fazia sentido. Acontece que ele manteve esta ideia e tinha uma revista literária e pediu-me para escrever um conto e eu não tive lata de dizer que não. Então peguei numa história que se passava em Timor, e que não tinha sido incluída na tese, e comecei a escrever um contozinho. Quando me apercebi, o conto já tinha duzentas páginas e acabei por publicar o meu primeiro romance, A Ilha das Trevas. E aí fiquei hooked, fiquei viciado.” A Ilha das Trevas foi publicado por outra editora, a Temas e Debates, numa coleção dirigida por Maria do Rosário Pedreira, a editora mais conhecida do meio literário quando se trata de descobrir novos talentos. Eis a história contada pela própria: “Um dia, o jornalista da RTP Rui Lagartinho, meu amigo havia vários anos, perguntou-me se não me importava de receber o José Rodrigues dos Santos, pois ele estava a escrever um livro que achava encaixar-se perfeitamente na Ficção-Verdade. Disse-lhe que sim e marcámos uma reunião em que soube que JRS adorava a colecção e, independentemente da relação com a editora que publicava os seus outros livros (e que, aliás, manteve), queria fazer um livro para a Ficção-Verdade. Falou-me do tema (a história de Timor desde a anexação pela Indonésia em 1975 até à restauração da independência em 2002) e da sua ideia de misturar personagens fictícios aos reais, e fiquei bastante entusiasmada, até porque ele me contou ter acompanhado como repórter vários momentos importantes dessa história e isso me dar alguma segurança sobre o rigor da crónica.” A editora pensou que o livro se adequava perfeitamente à coleção que dirigia. Praticamente não fez alterações. A “prosa era fluente como a de uma notícia, sem rodriguinhos nem floreados” e “o tom era despretensioso, como o de uma reportagem.” O primeiro contacto de Guilherme Valente com a escrita de Rodrigues dos Santos foi mais intenso. Um dia, ao chegar à editora, tinha em cima da secretária o original de Crónicas de Guerra: “Pensei: mais um desses mediáticos a querer ser escritor… Mas aconteceu um «milagre», isto é, o improvável: deu-me para começar logo, eu próprio, a ler o texto e li, sem parar, toda a parte referente à Guerra Civil de Espanha.” Foi o começo de um sucesso avassalador que, já em 2012, atingiu o primeiro lugar do top de vendas da FNAC, em França, com a tradução de A Fórmula de Deus, um feito assinalável para um autor português. Até na Bulgária o nome de José Rodrigues dos Santos começa a ser conhecido. Daniela Atanasova, da editora Hermes Books, que publica autores como James Patterson e Daniel Silva, revela que Códex 632 e A Fórmula de Deus, cuja tradução foi apoiada pela Direcção-Geral do Livro e das Bibliotecas, tiveram uma excelente recepção quer por parte da crítica, quer por parte do público.

Para um autor publicado em mais de vinte países, com mais de um milhão e meio de exemplares vendidos só em Portugal, será que as críticas negativas são tidas em conta ou subscreve a afirmação de Sousa Tavares quando disse, em entrevista à Ler, que se encontrava confortavelmente sentado em cima de um milhão de livros vendidos? “Não subscrevo nem dessubscrevo. Por uma questão, não tenho muitas críticas negativas. Você vai ler as críticas, por exemplo, agora em França, são espantosas [nem todas, diga-se, como se pode ler aqui http://www.carozine.fr/culture-lecture/la-formule-de-dieu-jose-rodrigues-dos-santos.html]. Também já tive críticas negativas no estrangeiro. São raras. Mas nas críticas negativas no estrangeiro o crítico não me conhece de parte nenhuma e portanto eu percebo que ele não é malicioso, não é destrutivo. Ele diz que a obra tem esta falha, eu analiso e posso dar-lhe razão. O que às vezes acontece em Portugal é que há malícia porque as pessoas já me conhecem.” Das únicas duas críticas negativas que diz ter tido em Portugal só houve uma que considerou maliciosa. Foi a de Rogério Casanova, no Expresso, ao livro Fúria Divina: “Vê-se que ali não há...há uma intenção destrutiva. Pronto, tudo bem, a pessoa escreve, é livre de escrever, a constituição dá liberdade da pessoa escrever o que lhe apetece. Desvalorizo.” A crítica foi tão marcante que Guilherme Valente afirma mesmo que “somos uma cultura cheia de «casanovas»”. No outro lado do Atlântico, onde haverá menos casanovas e as pessoas não conhecem José Rodrigues dos Santos enquanto figura pública, um crítico do Washington Post disse que O Códex 632 tinha “falhas graves”, que “a informação académica não é inerentemente dramática” e que “a escrita é preguiçosa e, por vezes, pateta”. O escritor defende-se “Sim, na América foi o país em que tive mais críticas negativas do que nos outros países, em que as críticas são geralmente positivas. Essa do Washington Post dá uma no cravo e outra na ferradura. Há questões que são relacionadas com a temática em si. Quando ele diz que há informações que não são inerentemente dramáticas, não são na América, mas em Portugal são. Quando temos informações de que Colombo era um judeu português isso é informação muito interessante para um português. Acho eu. Para um não português não é particularmente interessante, mas eu escrevi aquele romance para o leitor português. Em relação à escrita em si, temos aí um problema que tem a ver com a própria tradução.”

Regressando a Portugal, vemos que os romances mais “literários” (a expressão é de Guilherme Valente) – A Filha do Capitão, A Vida Num Sopro e, especialmente, O Anjo Branco, baseado na vida do pai do escritor, um médico que viveu em Moçambique – receberam elogios da crítica. Eduardo Pitta, no Público, escreveu que a narrativa de O Anjo Branco era de “uma clareza exemplar” e que o livro “tem lugar cativo na bibliografia essencial da guerra em África.” O escritor Urbano Tavares Rodrigues afirmou que o livro, um romance “belo, profundo e inteligente”, foi “uma surpreendente e gratificante revelação.” Nada que alimente as ilusões de José Rodrigues dos Santos quanto às suas obras, que acha que não irão sobreviver: “Nem as minhas nem as de ninguém. Alguém pensa que daqui a um milhão de anos ainda se está a falar do José Saramago? Eu gostaria que o meu nome sobrevivesse durante dez milhões de anos e que toda a gente me lesse religiosamente como a Bíblia, mas isso é uma fantasia, é absurdo. Não vale a pena estar a pensar nisso. O facto é que não sabemos o que vai acontecer.” Para Guilherme Valente, que também considera O Anjo Branco “um grande livro, a vários títulos”, “claro que há para aí iluminados que, maravilhando-se com o seu próprio umbigo, decretam hoje o que irá perdurar mais na história da literatura”. Com ou sem futurologia, o trabalho dos críticos ajuda a enquadrar uma obra num determinado contexto nacional ou literário. Por isso pedimos ao crítico e escritor Miguel Real que procurasse situar o trabalho de José Rodrigues dos Santos no conjunto da literatura portuguesa [ver caixa]. O próprio Rodrigues dos Santos não se coíbe de manifestar a sua opinião sobre Equador, de Miguel Sousa Tavares: “é uma obra marcante no século XX”. Para além de ter desmontado alguns mitos editoriais (como o dos livros grandes e caros não venderem), “mostrou que os portugueses em geral estavam dissociados das suas letras. Queriam ler e não compreendiam os seus autores. A obra é incontornável porque a partir desse momento ser um autor português deixou de ser um anátema.” Margarida Rebelo Pinto não tinha já feito o mesmo? “Sim, mas não me vai comparar com o Equador, no sentido em que os romances da Margarida Rebelo Pinto se destinam a um segmento muito específico do mercado. No caso do Equador é um romance aberto a todo o mercado.” Os seus livros acabaram por beneficiar desse efeito porque o livro de Sousa Tavares “criou um novo público que começou a aceitar os autores portugueses.”

É esse novo público que garante a José Rodrigues dos Santos um sucesso contínuo e incomparável. O escritor confirma que os próximos projetos já estão em marcha, apesar de não poder revelar pormenores. Afinal, o próximo segredo, que certamente não será o último, ainda é a alma deste negócio.

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