"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos
26.2.17

Antes de voltarmos ao festival, passei pelo hotel para tomar um duche e assim libertar-me da película de fuligem que se colara à minha pele. Deitei-me na cama, exausto, e pedi uma sanduíche de frango e um café (“black coffee, please”). Esta pausa inevitável fez-me perder, percebi depois, um dos momentos altos da programação do festival, a actuação de Leela Samson, uma das mais conceituadas e admiradas dançarinas e coreógrafas de Bharatanatyam (uma dança clássica indiana). Deixo-vos aqui uma pequena amostra da arte de Samson. (Tenham em atenção que cada gesto e cada movimento é intencional e tem um significado específico.)

 

 

Quando cheguei, o público já estava em debandada e só me restava ir para o Food Court, desta vez de barriga aconchegada. Enquanto esperava, um senhor aproximou-se de mim e meteu conversa. Era um dos convidados do festival, que estava ali para falar sobre a literatura da partição, literatura escrita na altura ou sobre os terríveis acontecimentos do período em que a Índia e o Paquistão se separaram. Tarun K. Saint já publicou vários livros sobre o tema, mas estava mais virado para falar sobre Portugal, a literatura portuguesa (Saramago, claro, cuja obra conhecia bastante bem), a Europa, o Brexit e assim decorreu a agradável conversa, tornada ainda mais agradável por me ter servido de guia naquela refeição, aconselhando-me os alimentos mais amenos para o meu massacrado estômago. Ao fim da noite, regressámos ao hotel, não sem antes os membros da comitiva que não se tinham precavido com repelente terem sido atacados por brigadas esfomeadas de mosquitos indianos. No bar do hotel, serviram-me então aquele vinho horrendo que fui obrigado a trocar por um anódino gin tónico.

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No dia seguinte, o último do festival, tivemos uma sessão de leitura. Como me tinham dito que cada um de nós (éramos três) só teria dez minutos, li dois excertos breves do meu romance. O Javier aproveitou o facto de ser o último para ultrapassar em mais de vinte minutos o tempo estipulado com a leitura de um excerto do seu livro sobre o Rio de Janeiro. A moderadora tentou interrompê-lo por várias vezes mas ele estava a milhares de quilómetros de distância, na cidade maravilhosa cheia de encantos mil, a discorrer sobre Manuel Puig, escritor argentino que também viveu no Rio, sobre filmes e sobre uma bizarra ida doméstica ao cinema num prédio anónimo numa pacata rua carioca. Ainda bem que o Javier infringiu as rígidas regras da organização.

Como tinha voo marcado para Goa às três da tarde de segunda-feira, despedi-me de Javier nessa manhã, ao pequeno-almoço. Disse-me que as portas da sua casa de Madrid estavam sempre abertas e eu retribuí-lhe a gentileza, se é que disponibilizar um quarto no meu apartamento na Baixa da Banheira equivale neste caso a uma retribuição. Quando fui fazer o check-out, apresentaram-me uma factura de um valor absurdo que, pelas minhas contas, daria para me meter num rickshaw e passear ininterruptamente por Hyderabad até ao final do ano. Pedi para esclarecerem o assunto com a organização, mas no meu íntimo temia que aquela saborosa sanduíche de frango estivesse a amargar a minha estadia. Esclarecido o equívoco, paguei as minhas contas e segui para o aeroporto.

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A viagem para Goa não durou mais de uma hora mas foi num daqueles aviões movidos a hélice que obrigam os passageiros a espreitar constantemente pela janela para confirmar que as ventoinhas não param de repente. Como paguei mais 500 rupias, tive direito a um dos lugares da frente, para poder esticar as pernas, e a uma pequena refeição. Pude comprovar que a altitude não interfere em nada com o grau de picante da comida. A chegada a Goa foi como sair de uma sauna para entrar num forno. Eu tinha levado um casaco leve, de linho, que, no curto trajecto entre a pista e o edifício, me pesou como um sobretudo. Seguindo as indicações do Delfim, do Instituto Camões, requisitei um táxi pré-pago à saída do aeroporto. Entreguei um papelinho com a indicação do destino, mas como a viagem foi muito mais demorada do que eu pensava, fui o caminho todo a suspeitar que teria havido um engano e que ia acabar o dia sentado na berma da estrada, rodeado de uma quantidade de palmeiras que só me lembravam A Cavalgada das Valquírias e Robert Duvall a despejar Napalm fictício em florestas supostamente vietnamitas mas, na verdade, filipinas (isto anda tudo ligado). Contrariando os meus piores receios, o motorista deixou-me tranquilamente à porta do Panjim Inn e, depois de me instalar e de tomar um duche, desci para a esplanada, onde fiquei a beber uma Kingfisher enquanto esperava pelo Delfim, com quem tinha combinado jantar às oito horas.

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Na mesa ao lado, um senhor bebia uma Coca-Cola e lia Nine Lives, um livro do historiador escocês William Dalrymple (não sei porquê, pensei que fosse um livro de espionagem ou um romance histórico, mas Nine Lives: In Search of the Sacred in Modern India, fiquei a saber depois, foi um enorme sucesso na Índia, tendo chegado ao topo da tabela de vendas de não-ficção). Nos dias que ali permaneci, encontrei-o sempre, a horas diferentes, a beber a sua cola e a ler o seu Dalrymple, não falando com mais ninguém a não ser com os empregados. Depois de alguns dias passados numa cidade de sete milhões de habitantes (na verdade, nunca nos sentimos realmente rodeados de sete milhões de seres humanos, o que há é um ritmo e um rumor permanentes que nos envolvem e que traduzem para a nossa limitada capacidade de sentir o que é esse número inapreensível e abstracto de sete milhões de almas), a visão de um homem sozinho numa esplanada a beber um refrigerante enquanto lê um livro é perfeitamente alienígena e tão frágil que até a nossa presença silenciosa representa uma ameaça à delicadeza do quadro. Na outra mesa, estavam duas senhoras. Portuguesas. Com os cabelos ainda molhados do banho, roupa branca e leve, um pouco morenas, tinham o ar distendido de final de um dia de praia ou de caminhada. Fumavam, conversavam e, tal como eu, bebiam Kingfisher. Ao contrário do que costumo fazer nestas ocasiões, não tentei perceber o que estavam a dizer, não por pudor ou respeito, mas por um sincero e inapelável desinteresse.

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O Delfim chegou acompanhado pelo escritor Rui Zink e por uma amiga, Astrid Ghosh. “Uma viagem de mais de oito mil quilómetros e vou jantar com o Rui Zink”, pensei. O jantar foi agradável – comi um suculento bife medium rear sem vestígios de picante. O Rui Zink, aparentemente um especialista na matéria, deu-me generosos conselhos sobre a melhor forma de amenizar as dores nas costas sem recurso a morfina. No final do jantar, falei com Astrid sobre a literatura da partição e ela ficou de me recomendar alguns dos autores mais importantes. Muitos deles, como foi o caso de Saadat Hassan Manto, escreveram sobretudo contos. Podem encontrar na net a tradução inglesa de “Cold Flesh” para ficarem com uma ideia dos temas e da qualidade. Astrid garantiu-me que a partição e tudo o que sucedeu depois continua a ser uma ferida aberta na sociedade indiana. Há anos, houve um movimento para se fazer um museu dedicado ao tema, mas foi impossível chegar a um consenso: todos os lados envolvidos na questão cometeram atrocidades, nenhum pode reclamar para si o papel exclusivo de vítima e, por isso, preferem todos – hindus, sikhs e muçulmanos, indianos e paquistaneses – esquecer o que se passou. Muitos dos autores que viveram aqueles tempos só foram capazes de escrever sobre o assunto muitos anos mais tarde, já perto do fim da vida.

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Acordei cedo na terça-feira para poder passear a horas em que o risco de uma insolação fosse menor e esperando não ser traído pelas dores nas costas que tinham atingido um nível incapacitante. Nas escadarias da Igreja da Imaculada Conceição, um desses vendedores que se encontram em qualquer cidade onde haja um turista perseguiu-me pelos degraus até vencer a minha resistência e vender-me por cem rupias uma pulseira que se desdobrava magicamente, como um artefacto criado pelas mãos dos antigos sábios da Macedónia. Animado pelo sucesso da primeira investida comercial, o rapaz tratou logo de me apresentar uns conjuntos de moedas e selos antigos, em bolsas de capa de veludo, pelos quais não pedia mais de 1500 rupias. Não querendo pôr em causa a origem e o valor dos produtos, confesso que me impressionou a versatilidade com que o vendedor passou da área da bijuteria, com as suas mirabolantes e flexíveis pulseiras, para as esferas mais elevadas da filatelia e da numismática. Disse-lhe que embora tivesse todo o interesse em adquirir aqueles inestimáveis tesouros, não dispunha no momento dos fundos para o fazer pelo que teríamos de combinar uma hora, da parte da tarde, para completar a transacção. Explicou-me com ar desgostoso que à tarde costumava estar já a muitos quilómetros dali e que, para minha conveniência, aceitaria dar o negócio por fechado a troco de míseras 800 rupias. Inconformado com a minha recusa insistente, ainda baixou para as 500 rupias e desconfio que, se outra fosse a minha tendência para o regateio, teria vindo para Portugal com selos e moedas indianos a troco da pulseira que o sujeito há pouco me vendera.

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Caminhei até à marginal, onde o trânsito é mais intenso, mesmo que, em comparação com o de Hyderabad, pareça o de uma aldeia. Pangim fica nas margens do estuário do rio Mandovi. Os ferrys vêm e vão para Alto-Betim Porvorim apinhados de gente e de motorizadas. Não muito longe da margem, há vários barcos-casino ancorados. Foi aqui que vi (e filmei) provavelmente a cena mais bela da minha estadia na Índia. Um cão vadio a banhar-se alegremente nas águas do Mandovi e, depois, a correr pelas ruas com a satisfação mais que pura do animal livre. Subjugados pelos códigos de comportamento a que aderimos na esperança de sermos recompensados sabe-se lá por quem, testemunhar a liberdade genuína de um cão faz-nos invejá-lo para lá de qualquer razoabilidade. Ali perto, há um memorial de homenagem às vítimas da tragédia da lancha Goa, ocorrida em Dezembro de 1901. Pede-se a quem passar por ali que reze pelo eterno descanso dos que pereceram e é isso que muitas pessoas que saem do ferry fazem, aproximando-se do memorial e persignando-se.

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Fui ao Coffee Day, estabelecimento do género Starbucks, que o Delfim me tinha recomendado na noite anterior. Bebi um café duplo. Numa das mesas estavam um homem e uma mulher a consultar facturas e a fazer contas em calculadoras. Presumi que fossem os proprietários e presumi igualmente que aquele negócio fosse um franchising, não só porque utilizavam o café como escritório como o faziam como se não houvesse ninguém à volta. Já contei noutro lugar a minha vida como proprietário de um bar. Um dos meus poucos clientes era um tipo galês, impecável, com o cinematográfico nome de Ray Cherry, que me disse que o que eu vendia ali não eram bebidas nem sandes mistas, era uma experiência. Esta ideia de se vender uma experiência, um “conceito”, tem sido abastardada e papagueada por muitos imbecis que querem envernizar as suas ideias pobres, mas não deixa de ser verdade. Mesmo o café suburbano mais sórdido vende mais que os produtos pelos quais o cliente paga e que consome, vende o ambiente, o exotismo, a própria sordidez se nada mais tiver para oferecer. Ao espalharem facturas pelas mesas que deveriam estar disponíveis para os clientes, mesmo que estes não entrassem, os presumíveis empresários estavam a estragar a experiência que deveriam estar a vender. A senhora, talvez irlandesa, que se sentou na mesa ao lado da minha a beber um “caffè macchiato”, deve ter pensado o mesmo, deduzi eu pelos olhares mais judicativos que intrigados que lançava para a mesa empresarial, repleta de guias de remessa e demais artefactos contabilísticos. Nada que incomodasse os dois casais de jovens russos, corpulentos, eles, atléticas, as raparigas, que respiravam qualquer coisa de ubermenschiano e idiótico que só os descendentes imediatos de novos-ricos exprimem completamente: um vigor físico que a geração anterior não conheceu misturado com um desenvolvimento intelectual incipiente. São os herdeiros de fortunas recentes, sofrem da mesma falta de passado dos pais mas exibem a confiança ameaçadora de quem nunca, ao contrário dos progenitores, teve de baixar a cabeça. Esta postura deu a impressão de ocuparem muito mais espaço do que aquele que fisicamente ocupavam. Encheram o café de uma prepotência atlética e, talvez tenha sonhado, mas vi-os soprar, com o fôlego brutal das suas amplas caixas torácicas, as facturas da mesa dos proprietários que tentaram apanhar comicamente os papéis esvoaçantes.

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24.2.17

Na manhã de sexta-feira assisti à inauguração do festival, que decorreu nas instalações da escola pública, onde se destaca um edifício monumental que tem à entrada uma placa com o desenho de uma águia e a inscrição “Shaheen” – “Be Vigilant”. Depois de alguns percalços, os voluntariosos voluntários distribuíram os sacos e os dísticos destinados a cada um dos convidados. O céu estava nublado e já se fazia sentir um calor opressivo. Ainda não havia muita gente a passear pelo recinto mas a tenda principal estava cheia. No palco estavam sentadas as figuras de proa, incluindo um responsável político do estado de Telangana, o orador convidado para fazer o discurso de abertura e a senhora embaixadora das Filipinas na Índia, Teresita Daza. Os directores deram as boas-vindas a todos e gabaram o festival e um coro de jovens surdos-mudos cantou o hino nacional da Índia num perfeito uníssono gestual. O discurso de abertura ficou a cargo do célebre poeta e crítico Ashok Vajpeyi de que eu nunca tinha ouvido falar e que presumo seja desconhecido da maioria dos leitores portugueses. O discurso, apesar de centrado nas virtudes da literatura, teve um forte conteúdo político, amenizado por (ou camuflado sob) um sorriso astuto e gaiato, nos antípodas da presunção que certos escritores (alguns portugueses) usam quando em entrevistas, festivais e cerimónias de entregas de prémios falam de política e com que recolhem aplausos generalizados e automáticos e, paradoxalmente, são gregariamente celebrados como dissidentes, as vozes do contra, um contra que segue a corrente.

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Tão sereno como contundente, o poeta falou das razões para ter devolvido, em Janeiro de 2016, o doutoramento Honoris Causa que lhe tinha sido atribuído pela Universidade Central de Hyderabad. A razão principal foi a atitude anti-dalit (os dalits são o que os escritos bramânicos classificam de “intocáveis”) das autoridades que terá estado na origem do suicídio de um aluno dalit, Rohit Vemula, no campus da universidade de Hyderabad. Na sequência da decisão de Vajpeyi, e inspirados por ele, muitos outros escritores e intelectuais devolveram em protesto prémios e condecorações às instituições oficiais que lhos tinham atribuído. Após este interlúdio político, que deixou alguns elementos da plateia com comichão no rabo, o poeta voltou à literatura e terminou a intervenção com a leitura de alguns poemas em inglês e, depois de instado por um elemento do público, em hindi.

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(Em poucos minutos, ficaram patentes algumas das tensões que atravessam a sociedade indiana, dos efeitos da política de direita do primeiro-ministro Narendra Modi, aos movimentos de contestação estudantil que, regra geral, estão na vanguarda de reivindicações que vão muito para além dos interesses imediatos dos estudantes e se estendem à defesa das culturas minoritárias e ao ataque à continuada política de discriminação das castas inferiores. Apesar de o ambiente dos festivais literários não ser propriamente favorável a um político como Modi (ao qual mais de uma pessoa se referiu como o Trump indiano), fiquei com a ideia de que a avaliação do seu desempenho enquanto primeiro-ministro dependerá em larga medida do desempenho económico da Índia e que muitos estão dispostos a desvalorizar os aspectos mais estritamente sociais e culturais desde que o crescimento não abrande. Isto foi particularmente visível na reacção a uma das medidas mais polémicas de Modi, a decisão de, de um dia para o outro, retirar de circulação as notas de 500 e 1000 rupias, com a intenção de obrigar a uma maior utilização dos pagamentos com cartão, atacar a economia informal e reduzir a prevalência do chamado “dinheiro negro”. A medida drástica teve efeitos catastróficos, com as restrições ao montante dos levantamentos a causarem incómodos generalizados numa sociedade em que o peso da economia informal, como já referi, é enorme. Mas, ao fim de alguns meses, a maioria dos indianos, segundo as sondagens mais recentes, aprova a medida do primeiro-ministro, embora haja quem critique a forma como foi implementada. O certo é que, neste momento, a reeleição de Modi é o cenário mais provável para as próximas eleições e nem mesmo uma difícil união de toda a oposição poderá ser suficiente para o evitar.)

No final da sessão de abertura, os convidados acenderam uma lamparina que supostamente terá permanecido acesa durante o resto do festival, facto que não me preocupei em confirmar. De saída da tenda, assistimos à actuação de um grupo folclórico local, exclusivamente constituído por homens de faces pintadas e ornados com penas e colares.

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(Há muitos homens na Índia. Por exemplo, em todos os hotéis em que fiquei, as únicas funcionárias estavam acantonadas nas recepções. Eram os homens que faziam a limpeza dos quartos. Ali, no meio inabitual das arrumações, entre baldes, panos e limpa-vidros, aqueles homens tinham algo de assexuado, como eunucos. Quando os via atrás de uma porta entreaberta, pareciam-me sempre em cochichos conspirativos de gineceu. Exibiam uma certa irreverência, no que esta tem de boçal, enquanto a maioria das mulheres, quer pelo modo de se passearem pelas ruas, algumas protegidas por sombrinhas, quer pelo modo delicado de segurarem um pedaço de dosa com a ponta dos dedos e levá-lo elegantemente à boca, desprendiam uma certa seriedade, no que esta tem de digno, uma virtude patrícia de que só elas guardam ainda o segredo. Um, que varria os corredores alcatifados, apresentava os sintomas ambivalentes de cansaço e determinação de quem faz uma tarefa que não percebe e que, apesar disso, está na disposição de continuar a executar até ao fim dos seus dias. Lembro-me do som que a minha mãe fazia ao varrer a casa e que, quer se afastasse quer se aproximasse da divisão onde me encontrava, permitia adivinhar, pelo ritmo, se faltava muito, a quantidade de lixo já recolhida e se, no meio do pó, havia algum pequeno objecto sólido, talvez metálico, denunciado pelo ruído que fazia ao deslizar pelo plástico da pá. Já a vassoura do empregado indiano era mais do género pendular, como se marcasse o tempo num movimento perpétuo.)

Muita gente tirou fotografias e filmou o momento, mas devo confessar que fiquei mais impressionado quando, após o final, vi o grupo numa zona mais sossegada, sentados a conversar à sombra de uma árvore, ainda com os trajes tradicionais, como se tivessem saído das personagens dançantes e destas não restasse mais do que uma camada exterior.

 

Os meus enganos e percepções erradas acerca da comida indiana sucederam-se ao ritmo das refeições e dei por mim a optar por uma dieta de muffins de caju e água mineral. Apesar de tudo, o jantar de sexta-feira foi, tenho de o confessar, glamouroso, realizado no amplo terraço do hotel, com mesas primorosamente decoradas, cadeiras de plástico com forros brancos e laços grenás. Para gáudio de uma parte da comitiva que me incluía a mim e aos dois espanhóis (um escritor e um agente literário) havia bebidas alcoólicas, whiskey, vodka, cervejas locais e internacionais e um vinho tinto cuja origem não consegui apurar mas de que tive muitas saudades quando, no dia seguinte, me serviram um copo no bar que me trouxe à memória o saudoso Machadinho que o meu avô quotidianamente bebia. Javier, o escritor espanhol apaixonado pelo Rio de Janeiro e com o ar triste de quem não vê o seu amor correspondido, falou em vino pellejón e não serei eu a encontrar definição mais feliz (para a escritora galesa que nos acompanhava, Javier traduziu a expressão por “wine to pick a fight”, que ilustra bem o que se perde na tradução quando nos encontramos nestes festivais).

No sábado foi a nossa vez – escritores em representação do Velho Continente (como é bonita esta expressão, ainda que geologicamente disparatada) – de subirmos ao palco. A sessão não foi das mais concorridas, como era de esperar, mas mesmo assim havia mais de trinta pessoas na plateia. Mostraram-se interessadas na literatura europeia, mesmo que a ideia que dela têm seja a de uma literatura homogénea. Aos olhos da maioria dos indianos, até mesmo aos olhos da maioria dos que assistem a festivais literários, a literatura europeia é tão longínqua e exótica que uma leitora veio falar connosco sobre Elena Ferrante com aquele entusiasmo familiar de quem acha que qualquer escritor vindo da Europa certamente já se terá cruzado com a misteriosa autora italiana. Esta simpática leitora, que até tinha lido uns excertos do meu livro em inglês, vê-nos como uma indistinta amálgama paroquial de escritores, o que é justo e bom porque nos ajuda a relativizar as coisas.

Após a sessão, apanhámos dois rickshaws para o centro da cidade, numa viagem de uma hora pelas ruas mais poluídas do mundo que conheço, durante a qual, enquanto inalávamos espessas golfadas de dióxido de carbono, discutimos os méritos de Elena Ferrante, Knausgard e Bolaño – chegando eu à conclusão de que o melhor da obra do chileno eram os romances breves como Estrela Distante. O mais incrível é que, no meio daquele caos, com peões a atravessar a rua sem aviso e em que o trânsito circula sem outras regras que não as de um tipo particular de bom senso desenvolvido ao fim de anos de experiência e de uma perícia tão entranhada que já nem pode ser classificada de perícia, mas de aptidão natural, e a de buzinar tanto quanto possível e sinalizar uma mudança de direcção de qualquer maneira imaginável excepto com o pisca, o mais incrível, dizia eu, é que os dois rickshaws chegaram ao destino exactamente no mesmo segundo. Foi o Javier que me chamou a atenção para esse facto transcendente só possível de ser explicado – por nós, ocidentais deslocados – por um sistema de orientação espacial idêntico ao das abelhas, como se os condutores de rickshaw se guiassem por uma espécie de comunicação não-verbal, de eco-localização, que para qualquer outro ser humano é indecifrável e misteriosa. Ainda mais admirável é a relutância que estes mártires da poluição urbana demonstram em conversar com os clientes, além da indispensável negociação inicial onde se dá a conhecer o destino pretendido e se combina a tarifa a aplicar. Um deles de vez em quando trauteava uma melodia, mas os restantes estavam entrincheirados num mutismo militante e, diria mesmo, monástico.

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Imaginei que o condutor de rickshaw, ao tomar a fatídica decisão de enveredar por esta profissão, seja obrigado a deixar para trás mulher e filhos, entrando naquele favo móvel, naquela cela apícola, com a resignação ardente do homem que se recolhe num mosteiro. Nenhum cedeu à tentação de se armar em guia e de se pôr a descrever os locais por onde íamos passando, talvez porque esse género de atrevimento não seja aconselhável quando se conduz o mais vulnerável dos veículos pelas artérias congestionadas de Hyderabad. Mas nem com tal concentração Shaolin foi possível evitar um pequeno incidente. O condutor do trauteio guinou bruscamente à direita para se desviar de uma carrinha Goods Carrier que travara subitamente e, nesse preciso momento, interrompeu a melodia bucólica que talvez lhe lembrasse a aldeia natal e soltou um gemido que me permito traduzir por “já me fodi”, embatendo tão suavemente quanto possível na traseira de outro rickshaw, com um autocolante que pedia encarecidamente ao condutor que fizesse soar a buzina. Durante alguns segundos, poucos, devo dizer, pensei em preenchimentos de declarações amigáveis mas o embate, além de ter provocado um silêncio imaginário na minha cabeça, não perturbou ninguém e os veículos lá prosseguiram como se nada tivesse acontecido, não tendo havido sequer lugar a um pedido de desculpas como aqueles que dirigíamos ao condutor de um carrinho de choque contra o qual embatíamos involuntariamente. Acrescento que nem os próprios polícias sinaleiros – espécie já extinta nas nossas ruas – parecem convencidos da sua utilidade. Em certas ocasiões, vi um ou outro a erguer-se de um estupor fumarento, soprar um apito branco e tentar imprimir alguma ordem, embora alguns condutores, sem a certeza de que as indicações gestuais fossem de cumprimento obrigatório, avançassem à revelia da autoridade com aquilo que em Hyderabad será prudência mas que em qualquer outro lugar do mundo é tentativa de suicídio.

Para entrarmos na Mesquita de Mecca, a uma centena de metros do Charminar, passámos por um detector de metais que apitava sempre que alguém passava, deixámos os sapatos à entrada e caminhámos sobre lajes atapetadas com uma camada de merda já ressequida de pombos fiéis que fizeram do lugar de adoração a sua casa. As mulheres podem entrar, desde que decentemente vestidas, e há quem forneça gratuitamente conselhos às estrangeiras sobre a forma mais adequada de cruzar o xaile sobre o peito ou de cobrir a cabeça com um lenço. Era hora da oração e lá dentro centenas de homens – velhos, jovens, adolescentes e crianças – executavam preciosamente a coreografia da submissão, no que eram imitados por algumas mulheres mais zelosas no exterior. No pátio fronteiro, havia muitas crianças a correr e que, incentivadas pelos familiares, se lançaram para os braços da escritora galesa para tirarem fotografias. Havia também homens a fazer as abluções num pequeno lago ao lado do qual se encontram os túmulos dos sultões e para onde fomos encaminhados por um velho vizir que nos levou até à presença de um homem sentado em posição de lótus, a queimar pétalas e incenso. Com um sorriso alheado e santo, abençoou-nos com um pouco de cinza na testa. A bênção custou-nos cem rupias a cada um. A voz do muezim a derramar-se pelos altifalantes era menos lúgubre da que ouvira no dia anterior perto do recinto do festival, um lamento soturno só comparável em tristeza religiosa ao órgão de uma igreja evangélica na Morelena que, numa noite já muito distante, visitei na companhia do meu tio.

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22.2.17

Quando saímos do palácio, mergulhámos com uma boa dose de inconsciência no caos de Hyderabad, caminhando pela rua do Laad Bazaar (o famoso mercado de braceletes), uma das quatro ruas que conduz ao Charminar. Para lá chegarmos, tivemos de atravessar a estrada, actividade que, como desporto radical, não fica a dever nada ao bungee-jumping. Se algum forasteiro tiver a peregrina ideia de aguardar que os veículos parem para que ele passe, é muito provável que, daqui por duas décadas, ainda esteja no mesmo sítio. Observando atentamente o guia, percebi que a única solução para chegar ao outro lado era a de aproveitar uma breve interrupção ou abrandamento na circulação para me meter entre os veículos, fazer o gesto universal de clemência unindo as duas mãos na direcção dos condutores ou usar um dos filipinos como escudo humano. Quando cheguei ao outro lado, senti-me um judeu após atravessar o Mar Vermelho e olhei com alguma superioridade para os elementos do grupo que tinham ficado para trás e que não tinham sido tão lestos quanto eu a descodificar os segredos essenciais à sobrevivência dos peões em Hyderabad.

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Descobri que, na rua do mercado, que de início pensei ser pedonal, também circulavam velocípedes. Obtive a informação quando uma mota passou a menos de cinco centímetros da minha pessoa, anunciando-se de forma típica com uma buzinadela que, por instantes, me desorientou. Os condutores só me pareceram inclementes até ao momento em que me vi rodeado de transeuntes implacáveis, nada sensíveis aos meus propósitos de registar para a posteridade aquela experiência e nitidamente impacientes quando eu, embasbacado com a multiplicidade de cores das lojas de roupas e joalharias, interrompia a caminhada e lhes obstruía o caminho. Por mais de uma vez, fui alvo de imprecações que, graças ao meu desconhecimento da língua local, não pude apreciar em toda a plenitude.

Para piorar tudo, a rua estava em obras. A certa altura, deparei-me com um homem enfiado num buraco, rodeado por outros quatro ou cinco. Não percebi se estavam a reparar uma conduta ou se estavam a tentar resgatá-lo. Para onde quer que me virasse, via qualquer coisa invulgar. Era impossível traduzir com exactidão tudo aquilo recorrendo unicamente aos utensílios rudimentares da minha pouca experiência noutros países. Em vez disso, deixei-me simplesmente arrastar, caminhando pela multidão ao mesmo ritmo dos autóctones mas sem fazer a mínima ideia do meu destino, perdendo por vezes de vista os outros elementos do grupo, mantendo como único ponto de referência o velho guia que, sem nada que o distinguisse, sem nenhum objecto que o identificasse, lá ia levantando misericordiosamente o braço na esperança de que o reconhecêssemos para que nenhum dos convidados do Festival Literário de Hyderabad fosse encontrado semanas depois a regatear braceletes ou transformado em estátua viva à espera de atravessar a rua.  

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O Charminar (que quer dizer “quatro torres”) também estava em obras de restauro, engalanado com aqueles andaimes arcaicos aparentemente feitos de canas, pelo que optámos por ficar em baixo a observá-lo muito respeitosamente, declinando a oportunidade de escalar os 149 degraus que levam o visitante ao topo do edifício, enquanto o guia nos explicava que o monumento tinha sido mandado construir pelo fundador da cidade, o sultão Muhammad Quli Qutb Shah, em 1591. Com a cidade a ser dizimada pela peste, o Sultão prometeu a Alá que, se levasse a morte para outras paragens, permitindo o crescimento de Hyderabad, ele construiria o monumento em Sua homenagem. E foi isso que aconteceu. A peste foi dizimar para outras freguesias e Hyderabad, na altura um centro populacional relativamente modesto, cresceu até ser o que é hoje: uma megalópole de 7 milhões de almas e nunca menos de 93626 rickshaws, segundo os dados oficiais.

Incrivelmente, e apesar de termos andado em grupos separados, conseguimos regressar todos ao autocarro e, depois de uma nova viagem pelas ruas da cidade em hora de ponta, chegar a tempo do jantar que decorreu num relvado a poucos metros do hotel. Novo embate com a gastronomia explosiva de Hyderabad, do qual saí outra vez derrotado, e conversa de chacha com dois designers alemães e uma poeta australiana cuja tese de doutoramento a tinha levado ao Bangladesh para um trabalho sobre as vidas de uma “closeted lesbian”, de uma “transgender woman”, de uma “unhappy housewife” e de uma “ruthless businesswoman” (esta inventei), o equivalente a um “four of a kind” em estudos de género ou, melhor dizendo, “four of a different kind”. Foi apenas um aperitivo para o jogo dos dias seguintes em que ganha quem grita mais alto contra: a) a sociedade patriarcal, b) o Ocidente, c) o Cristianismo, d) o Homem Branco, e) a polícia, f) a Direita, g) o Capitalismo, h) a conspiração branca. Mais preocupado com as prováveis e previsivelmente dolorosas consequências gastro-intestinais do consumo de comida picante, fiquei feliz por descobrir que o iogurte ajuda a amenizar os efeitos dos condimentos. E, com esta informação na cabeça, regressei ao hotel.

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Nessa noite, pensei em tudo o que tinha visto naquela cidade e percebi que, pela primeira vez na minha vida, estava no estrangeiro. Os países que já tinha visitado – todos europeus – com as idênticas ruas racionais, as mesmas lojas, a mesma disposição de elementos só ligeiramente diferentes entre si (em Budapeste temos a estátua de Petöfi e em Lisboa a de Camões), apareceram-me como encarnações de uma mesma ideia. Agora, atormentado pelo barulho infernal e incessante das buzinas que abafam até as sirenes das ambulâncias, aquele mundo ordeiro e previsível das cidades europeias surgiu-me como uma realidade tristíssima, desumana e morta, um museu a céu aberto destinado a turistas e coleccionadores de antiguidades. Enquanto as cidades europeias estão cheias de coisas antigas, ali abarrotavam de coisas velhas e, paradoxalmente, modernas. As antiguidades europeias estão arrumadas, catalogadas, embebidas em formol, enquanto aqui as velharias estão vivas, escapam aos rótulos e amanhã podem já não estar no sítio onde hoje as encontrámos. Não sabemos se pertencem ali ou se, como nós, estão apenas de passagem. Na ânsia de preservar, nós, europeus, sufocamos tudo como pais zelosos que apertam os filhos até à asfixia. Os filhos da Índia, toda a Índia – o comércio, os carros, os prédios, até os monumentos – são vagabundos. Não querem ser preservados. Querem respirar.

Na verdade, nunca tinha sentido uma cidade viva, a resfolegar como um cavalo indomável. Ali tudo era velho e improvisado, o que nos pareciam ruínas podiam ser prédios inacabados atravessados por um cheiro a açafrão e a caril, a frutas e a fritos e ao peixe cozinhado em enormes panelas a fumegar no meio da rua; os mesmos letreiros tanto serviam para anunciar hospitais e clínicas como para sinalizar lojas de braceletes e saris, restaurantes low-cost e oficinas; havia homens deitados em camionetas e sentados em cadeiras no meio da rua, entre o trânsito, como se estivessem à espera de ser recolhidos, homens a mijar para montes de entulho, outros a cortar cocos com catanas, motos com três e quatro passageiros, cabras vadias a trincar ervas e a focinhar no lixo debaixo de um viaduto de onde se via, ao longe, um sossegado campo de cricket onde treinavam algumas crianças de equipamentos alvíssimos, edifícios modernos lado a lado com outros de idade incerta, numa anarquia tão repleta de vida como uma feira medieval com eletricidade, internet sem fios e smartphones.

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Eis a cidade em constante mutação num país em que a economia informal anda perto dos 80%, o que faz com que tudo tenha um aspecto provisório, clandestino e desmontável, ou seja, tudo aquilo que é fugaz se sobrepõe ao que é permanente, como o palácio de Chowmahalla, escondido como um oásis, um templo secreto a que só os iniciados podem aceder e que os outros ignoram como se não existisse, como se fosse uma miragem. Por uma entrada discreta, fomos postos a salvo dessa confusão que atrai e repugna, que nos assusta, que nos faz temer pela sanidade daquelas pessoas, como se fosse impensável viver diariamente debaixo daquela agitação, como se vivessem habitualmente com o misto de desconforto e entorpecimento que eu experimentava pela primeira vez, como quando estamos numa daquelas diversões de feira de alta velocidade e desejamos que pare, porque não aguentamos mais, e desejamos que prossiga, porque sabemos que não vai parar por causa de nós.

Um livro, que comprei dias depois, intitulado Indian Cities, ajudou-me a perceber melhor a realidade que me era tão difícil descrever e entender sem recorrer aos equivalentes europeus que, porém, nunca lhe poderiam fazer justiça. “For decades, cities in poor countries have been regarded as a kind of misfit representation of the real city and their modernity, a kind of inauthentic, borrowed modernity. With so many poor people, slums and squatter settlements, lack of rules regarding land use, chaotic and disorderly growth, their existence and future have always been questioned by experts and contrasted to the proper cities or the well-planned and managed cities of the West.”

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A dificuldade em avaliar estas cidades de acordo com os seus peculiares critérios – dificuldade enfrentada até por quem estuda a sério estes assuntos – deu origem à criação de um conceito mais abrangente, o de “modernidade alternativa” ou de “modernidade indígena”, que me surgiu como perfeitamente adequado àquela realidade porque os conceitos de “atraso” ou de “sub-desenvolvimento” eram bisturis rombos para esquadrinhar aquele mundo tão complexo e que nunca, para ser completamente sincero, me pareceu “atrasado”. Outra ideia no livro que me ajudou a dar corpo de palavra aos meus pensamentos foi a de “cidade cinética”, “or the city of impermanence and temporary structures.” […] “While standard writing can cover the static city or the city of the established built environment, it is more difficult to capture the realities of the kinetic city.” Tentar captar em palavras uma cidade como Hyderabad era, acabei por perceber, como tentar prender uma sombra esquiva.

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21.2.17

O primeiro indiano que conheci estava a dormir. O segundo também. Isto é mentira ou, melhor dizendo, é parcialmente verdade. O primeiro indiano que conheci foi o do serviço de estrangeiros e fronteiras no aeroporto de Mumbai, pelo que hesito entre considerá-lo indiano ou burocrata diligente, embora um tanto ensonado. A burocracia, apercebo-me quando viajo, não tem nação. É um conjunto universal de esgares, suspeitas e carimbos contrariados. O funcionário não me fez perguntas, pediu-me apenas para olhar para a câmara e pôr todos os dedos, à excepção do polegar, num aparelho. Agora sei que as minhas impressões digitais estão registadas e armazenadas numa gigantesca base de dados, pacientemente à espera do dia em que eu cometa um crime de alcance internacional.

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Recolhi a minha bagagem. Já passava das quatro da manhã, embora o movimento de carros e pessoas fosse frenético. Lá fora, encontrei Arun, motorista que segurava uma folha A4 com o meu nome e o logótipo do festival literário de Hyderabad. Fomos para o carro e perguntei-lhe quanto tempo era a viagem até ao hotel. Abanou a cabeça e não me respondeu, o que, em linguagem corporal local, significa entre 45 minutos e uma hora. No trajecto, Arun conduziu essencialmente com a buzina e os máximos. Não cheguei a perceber se conduzia pela esquerda e ultrapassava pela direita ou vice-versa. Era conforme. A única certeza é que, pelo menos àquela hora, os sinais vermelhos são facultativos. Arun passou vários sem qualquer comoção, sem aquela espécie de deliberação exasperada que exibimos quando passamos um sinal que acabou de ficar vermelho. Na verdade, ele passava os sinais vermelhos como se nem estivessem lá. Talvez eu é que não estivesse a ver bem as coisas. Nos dias seguintes, no meio do incessante trânsito caótico de Hyderabad – com rickshaws, motorizadas, SUV, autocarros obsoletos, carrinhas de transporte de mercadorias e peões aparentemente suicidas – perguntei-me se aquelas pessoas estariam mesmo a dirigir-se para algum lado – como quando alguém apanha o 732 porque quer ir para o Hospital de Santa Maria – ou se estariam apenas a circular até encontrarem um sítio onde lhes apetecesse ir ou onde percebessem que tinham alguma coisa para fazer.

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 Finalmente, perto das cinco da manhã, chegámos ao Plaza Hotel. O sossego era absoluto. A recepção estava praticamente às escuras. Reclinado na cadeira, um jovem dormia. Quando falei, deu um salto, limpou a boca, sorriu e foi chamar alguém lá dentro. Do interior de uma sala, veio um rapaz de cabelo desgrenhado, olhos de sono e que tratou logo de procurar o meu nome na lista do festival quando lhe disse que era um dos convidados. Após uma pesquisa infrutífera, encontrámos uma segunda lista na qual constava o meu nome. Tirou uma cópia do meu passaporte e lá fui eu para o quarto no sétimo andar. O hotel, percebi nos dias seguintes, era um bloco de cimento com humidade nas paredes e a atmosfera geral não de um lugar de lazer mas de uma sinistra colónia de férias para funcionários públicos. Os empregados pareciam ter todos entrado há pouco tempo ao serviço, como se o hotel estivesse apenas a funcionar para nos receber e fosse desactivado logo a seguir, reaproveitado para instalações do ministério da educação ou de um instituto de prevenção rodoviária. Nos dias que ali passei, a piscina só foi frequentada por pombos, que caminhavam cautelosamente à volta como se estudassem uma forma de a atravessar a nado, e por um indiano gordo (a propósito, saiu uma notícia num jornal local que indicava que as crianças de Hyderabad eram as mais obesas do país) que, no domingo de manhã, deu umas braçadas complexas, num esforço testemunhado pela mulher e um casal amigo.

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Na quinta-feira de manhã, após pouco mais de quatro horas de sono, tive o meu primeiro embate com a gastronomia indiana em condições que me eram francamente desfavoráveis: encontrava-me em desvantagem numérica e linguística, estava com jet-lag e, para não ofender ninguém, tinha decidido que teria de comer tudo aquilo que pusesse no prato. Cheguei pouco antes das dez e meia, hora a que acabava o pequeno-almoço, facto que me foi lembrado com autoritarismo pelo primeiro empregado com que me cruzei. Apressei-me a recolher alguma comida, não só fatias de pão branco, um ovo cozido e fruta fresca, mas também algo que, pelo aspecto, devia ser altamente nutritivo, mas que se revelou apenas insuportavelmente picante. Com um inequívoco ar de sofrimento que tentei transformar num ricto de dignidade, pedi ao empregado uma chávena de café. Olhou para o relógio e desapareceu por umas portas de saloon. Naquele momento, eu tentava negociar com o sabor inédito que me queimava a língua, o interior das bochechas, o esófago, fazendo-me derramar umas lágrimas breves de comoção pela dor que tinha de sofrer em silêncio. É indescritível a alegria que de mim se apoderou quando o empregado me trouxe uma chávena de um péssimo café que, pelo simples facto de ser café, me devolveu ao prado refrescante dos sabores familiares e me fez regressar mentalmente a esses lugares costumeiros em que me sinto em casa: uma pousada numa aldeia histórica, o adro de uma igreja na província, os barcos da Soflusa.

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Depois de me cruzar com um sujeito que carregava às costas um equipamento de desinfestação, cheguei ao quarto com a sensação de alívio de um pugilista amador que sobreviveu ao primeiro assalto contra o campeão do mundo de pesos-pesados. O almoço, apesar de todos os meus cuidados, não correu muito melhor, mesmo tendo levado para a refrega um litro de água mineral. Às três estava marcada uma visita guiada pela cidade. O nosso grupo era composto na sua maioria por escritores filipinos – o país convidado da oitava edição do festival – um dos quais exibia um rabo-de-cavalo que lhe dava o ar distinto de organizador de lutas clandestinas de cães na cidade de Manila. Programada pelo festival, a visita teve como guia um senhor ainda não vencido pelos anos que gritava bastante e era estranhamente parecido com Boutros Boutros-Ghali, o antigo secretário-geral das Nações Unidas. De vez em quando interrompia o discurso, não sei se para recuperar o fôlego ou se para se mostrar indignado por ninguém lhe estar a prestar muita atenção. Após quase uma hora de viagem, chegámos ao destino, não muito longe do Charminar, o ex-libris da cidade. Para começar, visitámos o Palácio de Chowmahalla, residência do último nizam de Hyderabad (até depois da independência, Hyderabad foi um principado governado pelos nizams). Eram muitas as famílias que se passeavam pelos magníficos jardins e pelas salas dos edifícios onde pudemos contemplar porcelanas dos séculos XVII e XVIII vindas de Inglaterra, da China e dos Países Baixos, uma colecção impressionante de armas brancas – adagas, cimitarras, espadas, punhais, cutelos, floretes – e retratos não muito favoráveis das várias gerações de nizams. No exterior, protegidos por um vidro de segurança, vimos os veículos de luxo que tinham servido os monarcas, incluindo um Rolls Royce Silver Ghost, de 1912, que segundo o guia não teria feito mais de 400 quilómetros, pois só tinha sido usado em ocasiões muito especiais. De todos os espaços, o Durbar Hall, local da coroação dos nizams, era o mais imponente, com as suas colunas de mármore e os 19 candelabros de cristal belga pendentes do tecto.

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15.3.16

Publicado no Observador.

 

Quando O Silêncio dos Inocentes estreou, no Dia de São Valentim de 1991, filmes e séries sobre serial killers eram raros. Hoje, pelo contrário, se fôssemos calcular o número real de assassinos psicopatas com base no que a televisão e o cinema nos mostram chegaríamos a números em que teríamos obrigatoriamente de incluir os vizinhos do lado, o dono do café, o motorista do autocarro e aquela vizinha que protesta diariamente com os funcionários municipais.

O filme revelou-se um sucesso inesperado. Jodie Foster era o nome mais forte do elenco. Dois anos antes, tinha recebido o Óscar para melhor actriz pelo seu desempenho em Os Acusados. Anthony Hopkins era um actor sólido, da escola britânica, mas não era uma estrela. O realizador Jonathan Demme, que tinha tido algum sucesso com os filmes Selvagem e Perigosa e Viúva… mas Não Muito, não parecia o nome mais indicado para dirigir um thriller no limite do filme de terror. A primeira adaptação ao cinema de um romance de Thomas Harris tinha sido um fracasso (Caçada ao Amanhecer, de Michael Mann). Contudo, no final da primeira semana de exibição, o filme estava pago. A partir daí foi só lucro. Dinheiro nas bilheteiras, crítica rendida e, um ano depois, os prémios da Academia, derrotando os favoritos JFK, de Oliver Stone, e Bugsy, de Barry Levinson, que revi recentemente só para confirmar que se o filme estivesse a arder só Annette Bening merecia ser salva.

Na altura, entre as muitas qualidades do filme, os críticos destacaram a química entre Foster e Hopkins ou, para ser exacto, entre Clarice Starling, agente do FBI, e Hannibal Lecter, psiquiatra e sociopata que supostamente iria ajudá-la a apanhar Buffalo Bill, um assassino em série que matava e esfolava (literalmente) as suas vítimas. Nos momentos em que contracenam estão sempre separados, primeiro por uma parede de vidro, depois por grades de ferro, e executam uma dança sublime que tanto se assemelha a um ritual de sedução como a uma sessão de terapia. É um interrogatório e um combate de boxe, uma entrevista e uma partida de xadrez. As arremetidas de Hannibal (e da câmara de Demme, repare-se como nos momentos de fraqueza Clarice olha ligeiramente para fora do plano e Hannibal olha diretamente para a câmara, confrontando Clarice e os espectadores) expõem a vulnerabilidade da agente do FBI. Tal como o espectador, Clarice sai física e emocionalmente esgotada destes confrontos, a sacudir o pó e determinada a mostrar uma força que não sabe se tem. Além de novata, Clarice é também uma mulher num mundo de homens (numa das cenas iniciais, entra num elevador só com homens e, mais tarde, antes de fazer uma autópsia, tem de se impor aos agentes parolos, todos homens, de uma terreola de província). Este aspecto é relevante se tivermos em conta que as mulheres são as vítimas preferenciais de Buffalo Bill e que ele próprio deseja mudar de sexo.

Mas se a vulnerabilidade de Clarice – tão bem captada na cena no interior da masmorra do assassino – empresta verdade à personagem – muito diferente dos previsivelmente infalíveis heróis de Hollywood – não é exagero dizer-se que este é o filme de Hannibal Lecter. A interpretação de Hopkins é de tal forma intensa que só precisou de 25 minutos para dominar o filme, assustar os espectadores e ser eleito o maior vilão da história do cinema pelo American Film Institute, batendo, entre outros, Darth Vader, Norman Bates e Max Cady. Há uma cena de grande violência (o momento gore do filme), mas o que o torna mais ameaçador é a postura, a dicção, o olhar, sem os maneirismos que arruínam tantas interpretações de génios e de vilões e com toda a intensidade lunática que imaginamos ser a de uma mente brilhantemente doentia. Acreditamos sempre que a inteligência incomum de Lecter só tem rival na sua frieza. E o grau de ameaça que dele emana não diminui pelo facto de o vermos quase sempre atrás das grades ou de um vidro. Mesmo encarcerado e sem poderes sobrenaturais, Lecter é o senhor da cena. Como diz Jack Crawford, o mentor de Clarice Starling: “não vai querer Hannibal Lecter dentro da sua cabeça.”

Mas Lecter entrou nas nossas cabeças e na nossa cultura. A sua popularidade originou outros três filmes (dois deles com Hopkins e nenhum tão bom como O Silêncio dos Inocentes) e uma série de televisão, em que o dinamarquês Mads Mikkelsen desempenha o papel do psiquiatra. A sua deixa mais célebre é também a mais sinistra: “I ate his liver with some fava beans and a nice Chianti”, considerada pelo AFI uma das melhores da história do cinema.

 

Um canibal à nossa mesa

Pois, há esse pormenor. Não foi apenas o desempenho de Brian Cox, o Dr. Lecter no filme de Mann, que foi obliterado pela extraordinária performance de Hopkins. Fascinados pelos seus modos inquietantes e irresistíveis quase esquecemos que Lecter é um canibal. E se não esquecemos, pomos o seu canibalismo gourmet ao nível de um adereço que ajuda a definir a personalidade. Os hábitos culinários de Lecter são a Smith & Wesson de Harry Callahan ou o chicote e o chapéu de Indiana Jones. Em vez de uma prova das suas perturbações mentais são uma manifestação da sua superioridade intelectual e cultural (repare-se na sua obsessão pela falta de maneiras ou por qualquer forma de rudeza no trato).

Para criar a sua personagem, o escritor Thomas Harris, autor dos romances que deram origem aos filmes, inspirou-se em alguns assassinos em série reais, como o mexicano Alfredo Ballí Treviño, um médico de Monterrey suspeito de ter assassinado vários jovens que viajavam à boleia, e Albert Fish, violador de crianças e canibal que ficou conhecido como o “Vampiro de Brooklyn”. A atracção e repulsa que casos semelhantes nos provocam distorcem a realidade do canibalismo porque o reduzem a essa dimensão patológica quando, de acordo com Carole A. Travis-Henikoff, no seu excelente livro Dinner With a Cannibal: the complete history of mankind’s oldest taboo, representam apenas 1% do total de casos conhecidos na longa história do canibalismo.

Foi Cristóvão Colombo quem, ao mesmo tempo que descobria a América para os europeus, legou o termo “canibal” à humanidade. Logo na primeira viagem, em 1492, registou nos seus diários a existência de índios comedores de carne humana. Os habitantes da ilha de San Salvador referiam-se a estes como “caribes” e é assim, ou como “canibes”, que Colombo os identifica. Na segunda viagem às Antilhas, fala pela primeira vez em canibais, querendo com isto dizer consumidores de carne humana.

Como é óbvio, o canibalismo (ou antropofagia) não passou a existir com a chegada de Colombo à América. Encontramos referências na mitologia, na Bíblia e na literatura (há o célebre episódio de Ugolino de Pisa no Inferno, de Dante, ao qual Jorge Luis Borges dedicou um dos seus nove ensaios dantescos). De acordo com o mito, o deus romano Saturno (inspirado no grego Cronos) devorava os filhos à nascença para que não se cumprisse a profecia de que seria deposto por um deles (o que, inevitável e tragicamente, acaba por acontecer).

A ingestão de carne humana é mencionada em pelo menos nove versículos bíblicos, e em quase todos como uma possibilidade atroz, uma profecia de desgraça. Em Levítico 26:29, Deus avisa o povo de Israel que a desobediência lhes sairá cara “porque comereis a carne dos vossos filhos, e a carne das vossas filhas comereis.” Em Deuteronómio 28:53, há uma nova ameaça divina contra os desobedientes: “e comerás o fruto do teu ventre, a carne dos teus filhos e das tuas filhas […] no cerco e no aperto com que os teus inimigos te apertarão.” E em Lamentações 4:9, 10: “Os mortos à espada mais ditosos são do que os mortos à fome; porque estes se esgotam como traspassados, por falta dos frutos dos campos. As mãos das mulheres piedosas cozeram seus próprios filhos; serviram-lhes de alimento na destruição da filha do meu povo.” O padrão é o seguinte: aos desobedientes, Deus ou os seus profetas mostram o mundo horrível que resultará dessa desobediência. Guerras, escravidão, fome. Esta será de tal ordem que até as mulheres piedosas acabarão a cozinhar os filhos.

Relatos de viagens

Apesar de estas e outras referências culturais, o conceito moderno de canibalismo foi formado a partir dos relatos dos viajantes que seguiram as rotas inauguradas por Colombo. Em 1503, Amerigo Vespucci, que deu o seu nome à América, publicou Mundus Novus, as cartas das duas viagens que tinha feito ao continente. Devido à enorme difusão da obra, Vespucci contribuiu decisivamente para a ideia do canibalismo generalizado daqueles povos, como refere Francisco Bethencourt em Racismos – das Cruzadas ao Século XX (Temas e Debates, 2015). A narrativa de Vespucci abundava em pormenores e tinha a vantagem do testemunho direto. O antigo companheiro de Colombo dizia, por exemplo, “ter vivido vinte e sete dias numa aldeia nativa onde viu pedaços de corpos humanos pendurados em traves nas casas, à semelhança da forma como na Europa se penduravam presuntos para serem fumados.”

Às palavras juntaram-se, em edições posteriores da obra, imagens perturbantes dos hábitos canibais dos povos americanos. Esta mistura de antropologia avant la lettre e puro sensacionalismo marcou todo o pensamento ocidental posterior, influenciou o curso da acção política e sedimentou preconceitos que nem análises e opiniões clarividentes puderam derrubar. Nos seus Ensaios, Michel de Montaigne escreveu sobre os canibais, num breve manifesto de relativismo cultural em que apontava a incapacidade de os europeus verem a sua própria crueldade e os seus comportamentos bárbaros enquanto eram lestos a condenar os costumes dos índios. Já em 1578, o viajante francês Jean de Léry tinha publicado Histoire d’un Voyage Faict en la Terre du Brésil, relato de uma viagem ao Brasil e do tempo que passou com os Tupinambás. Para as autoras de Brasil: Uma Biografia (Temas e Debates, 2015), o livro de De Léry é uma tentativa genuína de compreender o outro. Ele foi capaz de perceber que “a guerra e as práticas de canibalismo não significavam a satisfação de demandas alimentares; representavam, sim, formas de comunicação interna, práticas de dádiva, quando se trocavam valores, símbolos, bens.” Bethencourt afirma que “De Léry foi o primeiro a pôr em causa a suposta superioridade moral europeia.”

Em 1592, um século depois da chegada de Colombo ao Novo Mundo, foi publicado em França um livro com as observações de De Léry e a aventurosa e incrível história de Hans Staden, um soldado e explorador alemão que tinha passado dez meses como prisioneiro dos Tupinambás. A primeira edição do livro de Staden, de 1557, tinha sido um sucesso fenomenal, quer pela natureza quase fantástica do relato – Staden contava como tinha conseguido não ser devorado pelos seus captores e como finalmente lhes tinha escapado – quer pelas gravuras. A edição francesa conjunta de 1592 também incluía ilustrações chocantes dos índios brasileiros em rituais de canibalismo, com a particularidade de o seu autor, Théodore de Bry, nunca ter estado no Brasil.

O canibalismo nunca existiu

Ao construir uma imagem dos índios como seres que necessitavam de ser resgatados da sua condição pré-civilizacional, o livro de Staden, entre outros documentos da época, contribuiu para a narrativa que justificava o domínio europeu. Para muitos, as acusações de canibalismo tinham sido apenas instrumentos usados pelas potências coloniais para legitimar exploração de outros povos e continentes. Essa é a tese de um livro polémico de 1979, da autoria de William Arens. Em The Man-Eating Myth: Anthropology and Anthropophagy (Oxford University Press), este antropólogo dinamitou não apenas a credibilidade dos relatos de Cristóvão Colombo e de Hans Staden, mas também os trabalhos de campo de antropólogos proeminentes, como E. E. Evans-Pritchard ou Margaret Mead. Na opinião de Arens, não havia provas sérias de que o canibalismo alguma vez tivesse sido uma prática socialmente aceite em qualquer sociedade.

Nem mesmo o caso dos Fore, uma tribo da Papua-Nova Guiné, convenceu Arens. Os Fore foram alvo do interesse da comunidade internacional por causa de uma doença, kuru (uma encefalopatia espongiforme como, por exemplo, a doença das vacas loucas), que nos anos 50 e 60 vitimou várias centenas de membros da tribo, especialmente mulheres. Já na década de 1970 concluiu-se que a doença estava relacionada com a ingestão de carne humana infectada, nomeadamente o cérebro. Os Fore praticavam endo-canibalismo, ou seja, consumiam os corpos dos seus mortos em rituais funerários. Como a preparação dos manjares estava a cargo das mulheres, sempre acompanhadas pelas crianças, eram elas as principais vítimas. Um dos investigadores que estudou a kuru e estabeleceu a ligação entre a doença e o canibalismo funerário dos Fore, Daniel Carleton Gajdusek, recebeu o prémio Nobel da Medicina em 1976, mas nem ele se livrou das críticas de Arens, que afirmou que Gajdusek não tinha testemunhado a prática de canibalismo, o que demonstra o conceito muito particular de ciência de Arens. O caso dos Fore inspirou um episódio da segunda temporada dos Ficheiros Secretos, “Our Town” (um dos meus preferidos, devo dizer). No final, descobre-se que o xerife é um dos membros de uma comunidade de canibais. O nome do xerife? Arens.

Sobrevivência

Contudo, Arens nunca negou a existência de outras formas de canibalismo, quer o patológico, quer o dito canibalismo de sobrevivência. Este último é o mais fácil de aceitar, mas também o único em que se levanta a questão moral. Numa situação extrema, o indivíduo tem, por um lado, um interdito alimentar e, por outro, o alimento que o pode salvar. O que escolher? Ficou célebre o caso da equipa de râguebi uruguaia cujo avião em que seguia se despenhou nos Andes em Outubro de 1972. A certa altura, os 16 sobreviventes tiveram de fazer a escolha terrível: comer os cadáveres dos companheiros ou morrer à fome. Estamos Vivos, o título do filme baseado nesta história incrível, protagonizado por Ethan Hawke, elucida-nos quanto à escolha que fizeram. No seu livro, Travis-Henikoff diz que os sobreviventes regressaram a casa “mais devotos, mais dados à metafísica e menos materialistas. Recordam aquela experiência como um acontecimento intensamente religioso.”

Contudo, na maior parte dos casos a experiência é, digamos, menos intensamente religiosa. A exemplo do que acontece na natureza, trata-se apenas de obter alimento onde ele existe. Isso aconteceu frequentemente ao longo da história, em situações de catástrofe, naturais ou humanas. Aconteceu na Grande Fome na Irlanda do século XIX e na União Soviética de Estaline, no cerco de Leninegrado, em campos de prisioneiros de guerra dos japoneses durante a II Guerra Mundial (após o conflito, o general japonês Yoshio Tachibana foi executado por ter participado na morte e consumo dos cadáveres de soldados norte-americanos) e na China de Mao. Eis um excerto do livro Mao – A História Desconhecida, de Jung Chang (Quetzal, 2013): “Durante este período de fome [entre 1958 e 1961] algumas pessoas recorreram ao canibalismo. Um estudo pós-Mao (prontamente suprimido) sobre o condado de Fengyang, na província de Anhui, registou sessenta e três casos de canibalismo só na Primavera de 1960, incluindo o de um casal que estrangulou e comeu o filho de oito anos. E Fengyang não era provavelmente o pior. Num condado em Gansu onde um terço da população morreu, o canibalismo era frequente. Um quadro de uma aldeia, cuja mulher, irmã e filhos todos morreram nessa altura, disse mais tarde a jornalistas: «Tantas pessoas na aldeia comeram carne humana… Vêem essas pessoas agachadas junto ao escritório da comuna a apanhar sol? Algumas delas comeram carne humana… As pessoas ficavam loucas com a fome.»”

O drama da escolha entre a morte e o consumo de carne humana percorre A Estrada, o livro de Cormac Mc Carthy, também adaptado ao cinema. Num mundo pós-apocalíptico, sem esperança e que parece a concretização dos cenários previstos nos versículos bíblicos que citámos, um pai mostra ao filho que, mesmo em circunstâncias extremas, há valores dos quais não devemos abdicar porque sem esses valores a existência perde sentido. Podemos argumentar que A Estrada é um livro de ficção e que, numa situação real, a fome daquele pai poderia mais do que a dor. Contudo, não é esse o sentido da história real que o escritor Jonathan Safran Foer conta no início de Comer Animais (Bertrand, 2010). Durante a Segunda Guerra Mundial, a avó de Safran Foer e outros refugiados que tentavam escapar aos alemães comiam tudo o que apanhavam. “Nem te digo algumas das coisas que comi”, disse-lhe a avó. Um dia, faminta, bastante debilitada, quase sem forças para prosseguir, um camponês russo ofereceu-lhe um naco de carne. Ela recusou. Era carne de porco e ela era judia:

“ – Era porco. Não ia comer porco.

Porquê?

- O que queres dizer com porquê?

- Porque não era kosher?

- É claro.

- Nem para salvares a vida?

- Quando nada mais interessa, deixa de haver o que salvar.”

Regresso a Hannibal

De certo modo, a história do nosso canibal preferido também está relacionada com a Segunda Guerra Mundial e com os nazis. Em Hannibal, o terceiro romance com o Dr. Lecter, publicado em 1999, Thomas Harris conta que ainda criança, na Lituânia, durante a Segunda Guerra Mundial, Hannibal viu a irmã Mischa ser morta e comida por desertores lituanos que colaboravam com os nazis. Também aqui Harris foi buscar inspiração a uma história real, a do infame assassino em série russo Andrei Chikatilo, que entre 1978 e 1990 terá assassinado pelo menos 52 mulheres e crianças. Quando Chikatilo era pequeno, a mãe contava-lhe a história do seu irmão Stepan, que teria sido morto e comido pelos vizinhos aos quatro anos de idade. Condenado à pena de morte, Chikatilo, que chegou a provar o sangue de algumas das suas vítimas, foi executado em 1994. No dia de São Valentim.

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19.2.16

Publicado no Observador no dia 7 de janeiro de 2015

 

O tempo é de liturgia comemorativa, hossanas universais, novo álbum e aniversário, por isso é com o sabor sacrílego da carne consumida em sexta-feira santa que confesso que, durante uma parte considerável da minha vida, não fui devoto de São David Bowie. Antes que os aiatolas do bom gosto lancem uma fatwa ou comecem à pedrada (rasgar as vestes, além de hábito judaico, é pecado capital na religião de Bowie segundo a qual “não rasgarás nenhuma peça de roupa que possa ser exibida mais tarde num museu”), tratarei de explicar esta heresia menor.

Para mim, criança dos anos 80, Bowie era apenas mais uma estrela da pop, a versão branca e alienígena de Michael Jackson antes de Michael Jackson se ter tornado a versão branca e alienígena de Michael Jackson. Pior ainda, era uma espécie de Phil Collins longilíneo, com cabelo e sexualmente ambíguo. A omnipresença etérea de Let’s Dance – canção, por sinal, muito irritante – um olho de cada cor (na realidade, a pupila dilatada de um dos olhos, consequência de uma briga juvenil, dá essa impressão), o anúncio da Pepsi com Tina Turner (“a escolha da nova geração”), um dueto horripilante com Mick Jagger para Dancing in the Street –, a catequese obrigatória do “camaleão da pop”, etc. Se hoje é difícil acreditar que David Bowie nem sempre foi consensual, na altura era difícil acreditar que havia ali mais do que a sombra de um artista sério. O sucesso dos anos 80 quase lhe deu cabo da carreira. Não foi caso único. Nikita e I Just Called to Say I Love You, duas canções recomendadas em situações graves de hipoglicémia e dois êxitos monstruosos, foram kryptonite para Elton John e Stevie Wonder.

Do ponto da vista da crítica, nem tudo era mau. Nas suas incursões pelo cinema, Bowie mostrava ter um faro mais apurado do que o dos seus rivais da música. Enquanto Michael Jackson, Prince e Madonna se expunham ao ridículo em clássicos do humor involuntário como Moonwalker, Purple Rain e Who’s That Girl?, Bowie trabalhava com Nagisa Oshima e Martin Scorsese. Porém, havia um contra para alguém unanimemente elogiado por ser “camaleónico”. Ao contrário dos camaleões, que conseguem adaptar-se ao meio envolvente a fim de passarem despercebidos, David Bowie era sempre David Bowie, contaminando de estranheza tudo aquilo em que tocava. Era impossível para o espectador suspender a descrença. Eu vi A Última Tentação de Cristo e fiquei à espera que Bowie – o Pôncio Pilatos que Oscar Wilde teria inventado se tivesse escrito um dos evangelhos – exortasse Jesus a “put on your red shoes and dance the blues.” Naturalmente, como o próprio admitiu, os papéis que lhe ofereciam eram os “de bichas em fúria, travestis e marcianos.” E alguns dos que aceitou – extra-terrestre em O homem que veio do espaço, vampiro em Fome de Viver e Andy Warhol em Basquiat – não andavam muito longe desses universos.

Evitar o declínio

Bowie tinha passado por todas as fases protocolares do estrelato musical: a luta por um lugar ao sol, os primeiros sucessos, as afirmações bombásticas para chatear os burgueses, a aclamação crítica, as drogas, a inflexão no estilo, a explosão comercial, o fel da crítica e a estagnação criativa. Se tudo corresse como previsto, passaria os anos seguintes a compor bandas sonoras para filmes da Disney, a ser arrastado por Bob Geldof para a habitual voltinha no carrossel internacional da solidariedade, a gravar um disco de duetos e a esperar pela reabilitação crítica tranquilamente reclinado numa chaise-longue no alpendre do seu chalé com vista para o lago Léman, a beber sumo de arando por uma palhinha e a acenar ao seu vizinho, Phil Collins. No entanto, o que se seguiu foi a melhor lição de sempre na cadeira de “como evitar o declínio anunciado”.

Vejamos: numa situação de esgotamento criativo, Bowie podia ter ido ao baú desenterrar roupas, maquilhagem e melodias e teria resolvido o problema. Na ocasião, deve-lhe ter valido um dos cartões das Oblique Strategies, o baralho de aforismos de auxílio a músicos em dificuldades de Brian Eno e Peter Schmitt, que rezava assim: “Descobre as receitas que usas e abandona-as.” Desistiu de agradar ao público e partiu para novas paisagens sonoras, com a perícia suficiente para não parecer um daqueles velhinhos que, aos noventa anos, decidem saltar de para-quedas ou pintar o cabelo. Essa sempre foi uma das virtudes fundamentais de Bowie, soar moderno sem parecer que está desesperado por soar moderno. Black Tie White Noise, Outside e Earthling, álbuns dos anos 90, marcaram a reinvenção de Bowie.

Porém, permitam-me outro pequeno sacrilégio: por muito bons que sejam, ninguém se apaixona por aqueles discos. Têm valor no contexto da longa carreira de Bowie, como prova da sua incrível capacidade de regeneração, mas são demasiado ásperos, pós-humanos. Só que entre o primeiro e o segundo daqueles discos, ocorreu um fenómeno inesperado, quase místico. No final de 1993, os Nirvana, então no auge do sucesso, gravaram um concerto acústico para a MTV. Ao contrário do que os outros convidados normalmente faziam, optaram por tocar temas poucos conhecidos e covers, entre as quais uma versão de The Man who sold the world. Kurt Cobain suicidou-se em 1994 e nesse ano foi lançado o MTV Unplugged in New York. O meu amor por David Bowie começou no dia em que soube que aquela canção era dele. Sem essa epifania, a minha relação ter-se-ia mantido no plano solene da admiração desapaixonada e do respeito pela integridade artística. A partir daquele momento, alguma coisa aconteceu no meu coração. E essa coisa foi crescendo com os anos graças a:

- Life on Mars no filme Ondas de Paixão, de Lars von Trier;

- ao magnífico penteado circa 2003;

- a Ashes to Ashes num concerto intimista de 2000;

- a todo esse concerto (Live at the BBC Radio Theatre),

- à escolha de Absolute Begginers como hino nacional do meu país imaginário: if our love song, could fly over mountains, could laugh at the ocean;

- à audição de Starman numa viagem nocturna para o Alentejo;

- à recordação de um documentário que passou na SIC (meu Deus, estes gajos das televisões eram loucos) em que fiquei a conhecer o melhor nome de guitarrista de sempre, Reeves Gabrels;

- ao hipnótico videoclip (ainda se diz assim?) de Thursday’s Child (música de Bowie e Gabrels e uma homenagem a Eartha Kitt);

- à influência duradoura nas bandas que eu tanto admirava (Blur – compare-se Boys Keep Swinging com M.O.R. –, Suede, Pulp, Placebo).

Respeitabilidade

“Politicians, ugly buildings, and whores all get respectable if they last long enough”. Esta célebre frase é proferida pelo personagem de John Huston em Chinatown, o clássico de Roman Polanski. É verdade que parte da respeitabilidade de David Bowie deve-se ao simples facto de ele ter durado o suficiente. Mas, ao longo do tempo, soube (quase sempre) evitar quer as armadilhas da transgressão, quer as armadilhas da respeitabilidade. Nos anos 80, homens de cabelo comprido e maquilhagem não eram propriamente subversivos mas na altura em que Bowie apareceu, no início da década de 70, o seu aspecto era suficientemente ameaçador para que um apresentador da BBC o classificasse, horrorizado, como “uma aberração com maquilhagem” (uma descrição muito fiel, diga-se de passagem). Na constante tensão entre o artifício e a autenticidade, houve um momento em que perdeu o pé. Em 1976, afirmou numa entrevista que era bissexual. Mais tarde, considerou esse o maior erro da sua carreira, porque nos EUA o conteúdo dessa afirmação eclipsou o resto. Ora, tal como os heterónimos pessoanos, as máscaras – Major Tom, Ziggy Stardust, Alladin Sane, Thin White Duke – deviam servir para libertar o artista dos constrangimentos da autenticidade e da coerência e não para o encaminhar para becos sem saída. Com a máscara colada ao rosto, Bowie percebeu que a imagem só tem valor quando liberta. Quando pesa, o artista tem de conseguir libertar-se dela.

Desde então, a história de Bowie é a história de alguém a escapar permanentemente da imagem que construiu e da mitologia que os outros foram fazendo: e essa imagem do escapista surpreendente é a mais duradoura da sua mitologia. Como é que se consegue isso na era da visibilidade total e permanente? Desaparecendo. Depois de uma exposição excessiva que durou décadas (e um guarda-roupa que daria para vestir 50 mil figurantes de uma versão hermafrodita de Star Trek dirigida por John Waters), Bowie optou pelo recolhimento e pela discrição. O pai espiritual de todos os bizarros percebeu que não ganhava nada ao entrar em competições com Miley Cyrus e já não tinha idade, saúde ou estatuto para se vestir com bifes. Então escolheu a normalidade (e quando se apresenta como normal ainda parece mais estranho, como se a “normalidade” lhe assentasse como um fato de lantejoulas em John Wayne) e o silêncio: não dá entrevistas, não faz tournées. Tornou-se um enigma. “Enigmáticas” é capaz de ser o adjectivo mais usado para descrever as canções do novo álbum, como se viessem de um lugar que ninguém consegue identificar, de outro planeta, de outro tempo, que foi sempre a impressão que o artista quis dar, a de que ele e a sua música vinham de lugares muito, muito distantes e estranhos.

De cada vez que é notícia, ainda consegue pôr o público a coçar a cabeça e a pensar: “o que é isto?” (Até a mulher, a modelo Iman, tem um adequado rosto esfíngico, como se fosse mais uma peça do Grande Mistério). E é essa ideia de que há uma realidade insondável além da superfície (“I’ve got scars that can’t be seen”, canta em Lazarus, uma das novas músicas) que alimenta o mito e o mistério. Este mistério tanto pode ser o negativo dos personagens histriónicos que Bowie inventou como o mais extravagante de todos esses personagens. O que é de certeza é uma maneira inteligente de escapar aos obstáculos da respeitabilidade senatorial. Está no pedestal mas não está morto. Está no museu mas não está a ganhar pó.

Há três anos foi inaugurada em Londres, no Victoria and Albert Museum, uma exposição dedicada ao músico. Com mais de 300 mil visitantes, foi um sucesso. O título era simples: David Bowie Is. O músico colaborou com a organização da exposição e cedeu material para a mesma, o que significa que, no seu aparente recolhimento, Bowie continua a ser um meticuloso gestor da carreira e da imagem, promovendo discretamente o seu culto, um refúgio para os que se sentem à margem mas não querem fazer parte do rebanho dos marginalizados e onde até os que se converteram tardiamente se sentem bem-vindos. Bowie não tem de pregar, basta que seja. Ele é o verdadeiro cantor de intervenção se a categoria tivesse sido criada por um dandy. E se há sempre o insondável, o mistério, o segredo que insiste em escapar, há também uma certeza que consola os fiéis: David Bowie… is.

link do postPor Bruno Vieira Amaral, às 09:54  comentar

15.2.16

Entrevista à escritora turca Elif Shafak, publicada na LER 137, Março 2015

 

Elif Shafak é a escritora mais popular da Turquia e também uma das mais polémicas. A Bastarda de Istambul, publicado agora em Portugal, valeu-lhe um processo em tribunal, em 2006, por insultar a identidade turca. Motivo: uma das personagens, uma rapariga de ascendência arménia, falava abertamente sobre o genocídio dos arménios pelos turcos, em 1915. Apesar de garantir que as questões políticas e sociais não são o seu guia, Elif Shafak aproveita os seus romances para falar de questões atuais que afetam não só as comunidades turcas na Europa como as minorias em geral: de género, étnicas, culturais ou religiosas. A escritora, que divide o seu tempo entre Londres e Istambul, teme que a sociedade turca esteja a regredir em questões tão essenciais como a liberdade de expressão e de imprensa.

 

Duas das personagens deste romance – Armanoush e Asya – relacionam-se de forma muito diferente com o respetivo passado. Uma está profundamente ligada a esse passado e quer saber mais sobre ele. A outra não sabe e não quer saber.

Interesso-me por estas questões da memória e do esquecimento, da memória e da amnésia, porque penso que a sociedade turca é uma sociedade amnésica. A nossa relação com o passado teve muitas ruturas, foi quebrada em vários sentidos. Creio que a memória é importante e acarreta uma responsabilidade. Devemos aprender com a História, devemos aprender com os erros que foram cometidos para que não os voltemos a cometer, devemos honrar a História. Ao mesmo tempo, acho que é igualmente importante que não fiquemos presos à História, é importante avançar, mas para avançar é necessário ter memória. Por isso, através de Asya e Armanoush quis discutir esta questão da memória e da amnésia.

No caso de Asya, trata-se de alguém que prefere não conhecer o seu passado. Acha que isso, ignorar o passado, não será o melhor em algumas circunstâncias?

Especialmente quando o passado é doloroso, quando há mágoa nesse passado, as pessoas preferem ignorá-lo, esquecê-lo. O mesmo acontece com os países. Mas isso é artificial, não é uma abordagem saudável. Temos de lidar com o passado, temos de o enfrentar, mesmo que seja doloroso, e então depois avançar. Os extremos não são saudáveis. Não é bom ignorarmos completamente o passado mas também não é saudável que a nossa identidade seja toda ela baseada no passado.

É isso que acontece com os personagens arménios deste romance? Estão presos a uma identidade e a um passado e não são capazes de avançar?

Para os arménios o passado está cheio de dor, de tragédias, de histórias por contar. Gostaria que, a longo prazo, as pessoas fossem capazes de esquecer um pouco, mesmo que só um pouco, mas para que eu possa esperar que os arménios esqueçam um pouco, em primeiro lugar, enquanto turca, tenho a responsabilidade de lembrar. Se eu não recordo como é que posso esperar que o outro esqueça? Como tal, em primeiro lugar está o dever de lembrar porque só então podemos pedir ao outro que esqueça um pouco. Esquecer, neste sentido, não significa ignorar, não me interprete mal, só que é necessária uma certa dose de esquecimento e de perdão. Contudo, insisto, o primeiro passo deve ser o da memória, e esse passo tem de ser dado pelos turcos. Se os políticos turcos não dão esse passo terão de ser os turcos, enquanto indivíduos, a fazê-lo.

E como poderão fazê-lo?

Enquanto escritora posso dar esse passo. Uma bailarina poderá fazer uma coreografia. Talvez alguém possa fazer um filme sobre o assunto. As histórias são sempre melhor do que os silêncios. E na Turquia tem havido muitos silêncios sobre o passado. Está na hora de falarmos sobre esses silêncios.

Disse em entrevista que a Turquia vive uma espécie de amnésia coletiva. No entanto, neste livro há um personagem arménio que diz que acontece o mesmo com todos os países. Os Estados-nação criam os seus mitos e as pessoas agarram-se a esses mitos. Concorda que esta não será uma característica exclusiva da Turquia?

Claro que não é uma característica exclusiva da Turquia ou do Estado turco. Se pensar nos Estados-nação, na Alemanha, em Israel, na Itália, até no nacionalismo escocês, todos os nacionalismos são criados retroativamente e somos levados a crer que as coisas sempre foram assim. E as coisas nem sempre foram assim. Há toda uma literatura académica que demonstra que muitos desses mitos são recentes, são modernos, não vêm dos tempos antigos.

Como no livro The Invention of Tradition, coordenado por Eric Hobsbawm e Terence Ranger.

Sim, e o Belated Modernity [livro de Gregory Jusdanis sobre as literaturas nacionais], ou o Imagined Communities [livro de Benedict Anderson sobre os nacionalismos]. Há uma literatura vasta sobre o assunto que me interessa bastante e que mostra que todos os Estados-nação têm estas características. Mas é importante que se diga que quando há liberdade de expressão e democracia os historiadores podem dizer: «Esperem lá, deixem-me mostrar-vos as coisas de uma outra perspetiva.» E dessa forma uma sociedade tem no seu interior vozes distintas que se equilibram. Visto que na Turquia a liberdade de expressão não tem feito progressos, há muitas vozes que têm sido silenciadas, e isso é um problema. Ou seja, há muitas semelhanças entre a Turquia e outros Estados-nação mas o que interessa saber é se há liberdade de expressão, multiplicidade de vozes, pluralismo. Por exemplo, em Inglaterra há muitas pessoas que criticam abertamente o passado colonial da Grã-Bretanha e não vão a tribunal por causa disso, enquanto que na Turquia as pessoas são processadas.

 

elif.jpg Foto: Pedro Loureiro

 

Foi o que aconteceu consigo quando este livro saiu na Turquia. Foi processada por «insultar a identidade turca». Como é que na altura lidou com isso?

Eu sabia que ia receber críticas mas não estava à espera de ser processada por causa de um romance. Foi a primeira vez que isso aconteceu, em 2006. Foi surreal porque em tribunal o meu advogado teve de defender personagens de ficção.

Porque um dos personagens usava o termo «genocídio».

E por criticar o passado da Turquia. Foi muito surreal. Ele tinha de relembrar as pessoas que se tratava de ficção, de imaginação. Acho que atualmente todos os poetas, jornalistas e escritores têm noção de que podem ter problemas por causa de uma palavra. Escrevemos sempre com essa consciência, o que resulta em muita autocensura.

Há coisas que não escrevem por recearem as consequências?

No que diz respeito aos acontecimentos de 1915, as deportações e os massacres, houve alguns progressos. As pessoas falam cada vez mais sobre isso, têm saído mais livros sobre o assunto. Em comparação com o que acontecia há 10 ou 15 anos há progressos na sociedade civil, conferências, debates, documentários, filmes. A sociedade não está calada. As pessoas escrevem e debatem mais do que há uns anos, mas ainda assim trata-se de um assunto complicado e a verdade é que, em termos gerais, no que diz respeito à liberdade de expressão a Turquia recuou. No índice da liberdade de imprensa caímos [em 2002, a Turquia ocupava o 99º lugar e em 2014 tinha caído para 154º]. Centenas de jornalistas ficaram sem emprego, muitos aguardam julgamento, outros continuam presos. Além disso, há muita autocensura e perdeu-se por completo a diversidade na comunicação social.

Mas num caso como o seu, o facto de o Estado processar um escritor não funciona contra o Estado? Afinal, toda a gente acaba por falar sobre isso.

Sim, mas ninguém deseja esse género de publicidade.

Não me refiro a publicidade mas ao facto de se falar sobre um assunto supostamente proibido.

Claro. Tem toda a razão. Quando fui processada, houve mais pessoas a ler o livro, a partilhá-lo e a escrever sobre ele. Mas a comunicação social foi muito agressiva. Na altura, recebi muito amor e muito ódio. A reação dos leitores foi incrível, muito positiva, maravilhosa. E eram leitores das mais diversas origens, turcos, arménios, curdos, judeus. Só que a reação da elite foi muito cruel, muito agressiva, nacionalista.

A elite que escreve na imprensa?

A elite que escreve nos jornais, que comenta na televisão. Eram menos mas faziam mais barulho.

Voltando ao romance e às personagens: todas elas, e não apenas as duas que referi, parecem estar em conflito com o passado, incluindo Mustafa, que tem uma educação privilegiada, é mimado e tratado como um príncipe. Corresponde ao típico homem turco?

Eu interesso-me muito pelas questões de género e sou muita crítica da forma como as mulheres colaboram na manutenção de uma sociedade patriarcal, portanto não se trata apenas de homens a oprimir mulheres. As coisas não são a preto e branco, é muito mais complexo.

Por isso é que lhe perguntava sobre o peso da educação dos rapazes no comportamento que eles têm mais tarde em relação às mulheres.

Bem, a história de Mustafa é a história de um indivíduo mas através dela eu queria abordar estes assuntos porque numa família típica da Turquia os rapazes são tratados de forma diferente, são privilegiados, e infelizmente as mães dizem aos filhos que eles têm o direito de vigiar as irmãs, e por isso crescem com a ideia de que são superiores, de que são os sultões da família. Quando um dia mais tarde casam, tratam as mulheres da mesma forma. Como é que quebramos este ciclo? A opressão das mulheres é em parte reforçada por coisas que as próprias mulheres fazem. É necessário quebrar esta cadeia que passa de geração para geração. Fiz parte do movimento feminista mas para mim o feminismo ou o pós-feminismo exige que nos foquemos não apenas nas mulheres mas também nos homens. Nas sociedades patriarcais não é fácil ser-se mulher mas também não é fácil ser-se um rapaz, especialmente se for um rapaz com talentos pouco habituais, se for gay. Se não se enquadrar numa certa definição de masculinidade as pessoas ridicularizam-nos, afastam-nos e as mulheres também contribuem para isso. Temos de ver qual é o papel das mulheres neste jogo e alterá-lo.

No livro Black Milk [obra de não-ficção sobre a criação literária e a maternidade, que Elif Shafak escreveu após o nascimento do primeiro filho e da depressão pós-parto que sofreu] conta o seu encontro como uma escritora turca e que ela lhe disse que as escritoras não são as maiores fãs umas das outras. Acha que quando uma mulher atinge o sucesso, por exemplo, na literatura, acaba por se virar contra as outras mulheres, culpando-as por não serem capazes de fazer o que ela faz?

Infelizmente é isso que se passa na Turquia porque o meio literário é tão pequeno, concentrado em Istambul, que abundam as coscuvilhices, as calúnias. É quase impossível encontrar dois escritores que gostem um do outro e isso é ainda pior com as escritoras.

Mas vive um pouco afastada desse meio.

Sim. Uma das coisas que me abriu os olhos foi quando estive em Boston, no Mount Holyoke College, e me apercebi que havia um grande sentimento de fraternidade, em particular entre as afro-americanas. E eu fiquei encantada com isso. Elas partilham as memórias das lutas que as mães e as avós travaram. Apoiam-se mais entre si, falam mais sobre este sentimento de união e isto despertou-me. Desejo que chegue o dia em que haja este tipo de solidariedade entre as mulheres turcas, curdas, judias, arménias, entre todas as mulheres mas especialmente entre as mulheres desta região porque vivem em sociedades patriarcais e se passam a vida a competir entre si e a magoar-se isso não beneficia ninguém. Só beneficia o próprio sistema patriarcal.

Disse numa entrevista que não se pode dar ao luxo de ser apolítica. Acha que isso é válido para todas as escritoras de países que enfrentam os mesmos problemas?

Claramente. Uma escritora da Nigéria, do Paquistão, do Egito, do Líbano, não se pode dar a esse luxo. Enquanto escritora turca sei que não me posso dar a esse luxo. Mas isto não quer dizer que a política seja o meu guia. Não é. O meu guia é a imaginação, a literatura, contar histórias, porém os meus livros falam de questões políticas. Não tenho respostas, nem quero ensinar ninguém, mas quero continuar a fazer perguntas. E, na Turquia, o desejo de ter a liberdade de fazer perguntas é, em si, um ato político.

Não acha que nos países onde não existe liberdade de expressão a literatura acaba por ser ainda mais importante do que nas democracias, onde a literatura corre o risco de se tornar irrelevante?

Essa é uma questão muito importante. Eu penso nisso. Por exemplo, na América todos os meses são publicados muitos livros que também desaparecem muito rapidamente. Na Turquia, a liberdade de expressão é menor e enquanto escritores enfrentamos mais obstáculos, mas de certa forma os livros permanecem, não se evaporam e são importantes para as pessoas. O mesmo exemplar é lido por cinco ou seis pessoas. Dizem-me que na Índia o mesmo exemplar chega a ser lido por nove ou 10 pessoas. Imagine: o livro é partilhado, alguém o lê e passa à tia, a tia passa-o à vizinha, funciona muito o boca a boca. Faz-se parte de uma família. E o resultado é que os escritores são figuras destacadas. Esse é o bom lado da questão: aquilo que escrevemos e que dizemos tem importância. O lado mau é que se está sempre a desejar ser livre. Tudo acaba por ser politizado. Estão sempre à procura de mensagens ocultas, à procura de teorias de conspiração. Até chegam a dizer que há mensagens nas capas dos meus livros. Porque é para isso que estão treinados, para procurar inimigos. Chega uma altura em que os artistas precisam de autonomia, de espaço, de liberdade.

Por causa dessa tendência de procurar significados ocultos devo dizer-lhe que encontrei um blogue que compila todas as referências culturais neste livro, de Johnny Cash a Jackson Pollock, e em que os leitores acabam por fazer as suas próprias interpretações que, na minha opinião, às vezes são um pouco exageradas. Como já disse que os escritores nem sempre pensam no que escrevem queria perguntar-lhe o que pensa destas leituras da sua obra.

Há um excesso de interpretação, é verdade. A minha opinião é que um escritor nem sempre está a controlar a história que está a contar. Às vezes escrevemos uma palavra só porque a palavra anterior a pede. Creio que há dois tipos de escrita: uma é quase engenharia, mais matemática, em que o escritor sabe o que cada personagem vai fazer. Conheço escritores assim, respeito o que fazem, mas esse não é o meu estilo. Gosto de me sentir inebriada ao escrever, mais irracional, de não saber o que vai acontecer dali a seis páginas. Gosto de ser surpreendida por um personagem porque dessa forma o leitor também será surpreendido. Como para mim a escrita é um mistério acho que as pessoas não devem interpretar em demasia.

Uma das coisas que me impressionou neste romance foi a ideia de que o amor pode ser opressivo. Em Black Milk conta uma lição que a sua avó lhe ensinou, de que para destruir alguma coisa basta cercá-la, rodeá-la. Será que esses muros que destroem podem ser feitos de amor?

Digamos que sem verdadeira liberdade não há verdadeiro amor. O sentimento de posse não combina com o amor. Um ego muito forte não combina com o amor. Onde há muito amor tem de haver pouco ego. Mas o que queremos é ter um grande amor e um grande ego, de uma forma muito possessiva. Oiço as pessoas a dizerem «a minha mulher», «o meu marido», «a minha noiva», e a ênfase é no pronome, mas essa pessoa não nos pertence, essa pessoa é um universo diferente. Como tal, esse sentimento de posse perturba-me e encontra-se muito na Turquia, especialmente da parte dos homens, que não veem as mulheres como indivíduos.

A sua intenção é a de contar histórias que foram silenciadas, de dar voz a quem não tem voz. Para este livro, falou com arménios e turcos que viveram na época que descreve. Mas quando escreve sobre épocas em que já não é possível recorrer a testemunhos, como é que faz? Usa apenas a imaginação? Porque os excluídos não tiveram oportunidade de deixar a sua versão da História.

Isso é muito importante porque a História tem sido quase sempre contada do ponto de vista dos homens. Na Turquia os indivíduos raramente são mencionados e quando falamos de História é quase sempre acerca das guerras, dos tratados, dos territórios conquistados e perdidos, esse tipo de coisas que decoramos. Os poucos indivíduos sobre os quais se fala são quase sempre os xeiques, os sultões, a elite. A mim não me interessam as pessoas do centro, do poder.

Nem para contar versões alternativas dessas histórias?

Sim, se for para contar uma História alternativa, mas não me interessa o discurso oficial da historiografia porque já o ouvimos vezes sem conta. Quero ouvir os silêncios dos excluídos, das minorias. Interesso-me muito por personagens desse género, desempenham um papel muito importante nos meus livros. Só que a minha definição de minoria é muito ampla, pode ser uma minoria sexual, étnica, cultural ou qualquer pessoa que num dado momento histórico se tenha sentido o outro. Então, quero ouvir as histórias das margens, da periferia. E isso faz-se através da imaginação e da empatia, mas para que isso seja possível em primeiro lugar tenho de ler e de pesquisar. Sem isso não se consegue imaginar. Depois pode-se voar para onde se quiser mas em primeiro lugar tem de se fazer o trabalho de casa.

É necessária uma base.

Sim, construir de baixo para cima. Faço muita pesquisa, levo isso muito a sério. Para escrever este livro li muitas obras, consultei arquivos, documentos históricos, falei com muitas pessoas de origens muito diferentes e todo esse conhecimento também me transformou. A minha mãe era diplomata e quando estávamos em Madrid, a organização terrorista arménia, ASALA [Exército Secreto Arménio para a Libertação da Arménia] tinha como alvo diplomatas turcos e, como tal, tenho memórias muito negativas da palavra «arménio», da palavra, não do povo arménio. Era a palavra em si que tinha conotações negativas e eu tive de fazer uma viagem interior para me livrar dessa conotação negativa e olhar para a História com empatia. Enquanto indivíduos todos temos de fazer as nossas próprias viagens interiores.

Tem dito que os seus muitos leitores têm origens muito diferentes mas a verdade é que as pessoas podem ler os mesmos livros e, na vida real, voltarem às suas trincheiras, sem qualquer alteração. Será que a literatura não é tão poderosa quanto gostaríamos que fosse?

Acredito que a literatura é poderosa e, mais do que isso, tem a capacidade de transformar as pessoas. Como é que eu sei? Porque eu fui transformada pela literatura.

Em A Bastarda de Istambul os livros são importantes para os personagens e também disse, em Black Milk, que os livros a salvaram.

Salvaram-me, transformaram-me, mudaram-me em tantos aspetos. Não quero romantizar mas foi o que me aconteceu e acredito que acontece com outras pessoas. Naturalmente, em escalas diferentes. Por exemplo, por vezes falo com leitores que são bastante homofóbicos e acabam por me dizer que adoraram um personagem gay de um dos meus livros. Ou pessoas que gostaram muito de um personagem turco, arménio ou judeu, pessoas que eu sei que são xenófobas no dia a dia. Como é que isto se explica? Na minha opinião, o fascismo é uma doença coletiva. Somos sempre mais reacionários, menos tolerantes e menos liberais quando estamos acompanhados. Quando estamos juntos, em sociedade, gozamos com os outros, vamos na corrente, mas quando estamos sozinhos é diferente, há um espaço interior que se abre. O romance dirige-se a esse espaço porque exige que o leitor esteja só. Vamos juntos ao cinema ou a um concerto, mas lemos sozinhos. Não interessa se o lemos no Kindle ou em outro dispositivo. E dentro desse mundo privado há um enorme potencial transformador.

Não acha que a diferença é que o leitor quando lê vê o mundo através dos olhos do escritor e que, na vida real, nunca tem oportunidade de conhecer os outros de um modo tão profundo?

Tem toda a razão. No dia a dia não conhecemos as histórias. Acontece o mesmo com os noticiários, é tudo reduzido a números. Morrem duas mil pessoas e não estabelecemos qualquer ligação emocional mas depois lemos a história de uma dessas pessoas e nasce uma ligação. É compreensível que assim seja e é por isso que temos de pegar nessas histórias cada vez mais. Até no jornalismo é preciso cada vez mais contar histórias.

Neste romance há muitas coincidências, aquilo a que chamou «sinais» noutro dos seus livros. Acredita nas velhas qualidades do romance, com um tão grande número de coincidências ou sinais?

Interesso-me muito pelo sufismo [corrente mística e contemplativa do islão], e não apenas pelo misticismo islâmico; interesso-me pelo misticismo judeu, pelo misticismo cristão, para mim são muito idênticos, dizem coisas muito parecidas. E as pessoas que seguiram estas correntes sempre estiveram na periferia das suas religiões e muito interessadas no que não se vê, na essência. Não são tanto as leis e as regras à superfície que lhes interessam, mas o significado oculto, e esse significado é universal. Os sufis acreditam que estamos todos ligados, que as nossas histórias e destinos estão ligados entre si. Hoje isso percebe-se melhor porque após o 11 de Setembro vimos que o que acontece a uma pessoa num determinado lugar afeta as pessoas no outro lado do mundo. Existem estes fios invisíveis que nos ligam. Não me importo de dizer que sou uma pessoa irracional, acredito que na vida há magia, que há coincidências ou sinais. Há coisas que não podem ser explicadas apenas pela lógica. Isso não faz com que eu seja religiosa, não sou religiosa, e faço questão de distinguir a espiritualidade da religiosidade. A religião é uma coisa organizada, com hierarquias e que divide o mundo entre nós e eles, enquanto que um místico, na minha opinião, não divide o mundo entre nós e eles.

Mas essa falta de organização faz com que permaneçam na margem das próprias religiões.

Não só por isso. Não nos podemos esquecer que alguns desses movimentos foram perseguidos e eliminados pelas narrativas dominantes em cada religião. Os cátaros, os bogomilistas, os bektāshîyahs na Anatólia partilham muitos traços comuns e nunca tiveram contacto entre si. Detesto a arrogância e o pensamento absolutista – e os ateus também podem ser bastante arrogantes –, por isso prefiro o agnosticismo, o misticismo. Precisamos da fé e da dúvida, de elementos de ambas. Respeito a fé mas também respeito a dúvida e creio que podem andar lado a lado. É esta a dualidade que me interessa e não a dualidade entre religião e ateísmo, porque ambos podem ser absolutistas e arrogantes.

A literatura prospera na incerteza?

Na incerteza, na ambiguidade. São coisas muito valiosas para um escritor. Tchékhov disse que para um escritor as perguntas são mais importantes do que as respostas. E tinha muita razão. As pessoas que têm muitas certezas estão sempre a tentar mudar os outros enquanto que as que não têm tantas certezas procuram transformar-se a si mesmas. Dou mais valor a isso.

Quando escreveu Black Milk sobre o desafio de conciliar a escrita e a maternidade, mencionou várias escritoras do passado e as dificuldades por que passaram. Mas ainda hoje se temos um grande escritor que é um péssimo pai, o que nos interessa é a obra, enquanto se houver uma grande escritora que é uma mãe negligente o que nos interessa é que é uma mãe negligente. Concorda?

Absolutamente. É assim em todo o lado mas ainda mais em sociedades patriarcais, como a Turquia, onde uma escritora, aos olhos da sociedade, dos críticos, é, em primeiro lugar e antes de mais, uma mulher, e só depois é vista como escritora. Já um romancista é em primeiro lugar um escritor e talvez alguém fale dele enquanto homem, mas é raro. Até a linguagem dos críticos, quando se trata de uma escritora, é diferente.

São mais condescendentes?

Sim, condescendentes, olham de cima para baixo. No verão passado, estava a ler uma crítica a um dos meus livros num jornal turco e era assim que começava: «Vamos lá ver o que é que a nossa kizimiz, que significa «filhinha», «escreveu desta vez», e depois passava para a crítica. E eu olho para este homem que me trata por «nossa filhinha» e somos da mesma idade. Não estou a falar de um crítico de 90 anos, de uma geração diferente. Somos da mesma geração mas só por ser homem e eu mulher, ele vê-se lá em cima e a mim vê-me aqui em baixo. Podíamos pensar que o meio literário na Turquia, por ser composto por intelectuais, artistas, seria menos sexista, mas não é. Há muito glamour à superfície mas se rasparmos um pouco vemos como é incrivelmente sexista e paternalista.

Como contacta com muitos escritores estrangeiros em festivais e outro tipo de eventos acha que se passa o mesmo noutros países? Veem-na como uma companheira de letras?

É uma questão problemática. Na América a cultura existente é a de olharmos para o que alguém fez e tentarmos fazer melhor. É isso que ensinam aos jovens. Na Turquia, é diferente. Se alguém consegue ter sucesso, por exemplo, no cinema, a ideia é de que está a roubar o lugar a alguém. Então essa pessoa passa a ser odiada. Acontece o mesmo na música...

De certeza que não está a falar sobre Portugal?

[Risos.] Então temos de mudar isso, porque ninguém fica a ganhar. A cultura é uma acumulação de conhecimento. Quando um autor vende muito, isso vai gerar um aumento das vendas de livros em geral. Na Turquia é muito difícil falar sobre estas coisas. Tenho uns amigos irlandeses que dizem que na Irlanda acontecia o mesmo na década de 60: era uma sociedade pequena e havia muita tensão política. Talvez na Turquia haja um fardo político que faz com que as pessoas não se ajudem entre si.

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29.1.16

Publicado na LER 120, Janeiro de 2013

 

Manhã fria de fim de novembro. Depois de uma chuva bíblica, o céu ficou limpo. O encontro com o escritor José Rodrigues dos Santos está marcado para um hotel em Sintra. Aguardamos no exterior, onde dois senhores falam sobre os exercícios físicos que praticam, pilates, natação uma ou duas vezes por semana, trabalho específico para os abdominais. Uma senhora sai do hotel para a corrida matinal, garrafa de água na mão. À entrada, um funcionário de sobrecasaca e chapéu alto recolhe, com uma pinça, as beatas depositadas no cinzeiro. É um hotel de luxo. No átrio, os hóspedes falam baixo, os recepcionistas recebem-nos com sorrisos descartáveis “vêm para uma entrevista? Com certeza. É só um momento.” Cinco minutos depois da hora marcada, chega José Rodrigues dos Santos. Afável, não levanta qualquer objeção a que comecemos pelas fotografias. Entretanto, refere circunstancialmente que este hotel foi considerado o melhor do mundo por uma publicação internacional. Depois das fotografias é hora de falarmos com o autor que mais livros vende em Portugal, mais de um milhão e meio de acordo com a informação disponibilizada pela editora. À exceção do primeiro, A Ilha das Trevas, todos os seus romances ultrapassaram a barreira dos 100 mil exemplares. Antes de ser romancista, já era uma figura bastante conhecida dos portugueses, como jornalista e apresentador do Telejornal. Os livros deram-lhe outro tipo de notoriedade. Recentemente foi eleito pelos leitores do Reader’s Digest como “escritor de confiança”, à frente de José Saramago e de Miguel Sousa Tavares. O seu décimo romance, A Mão do Diabo, lançado em novembro, tem um tema bastante atual mas, de certa forma, inesperado para um thriller: a crise económica. É o regresso de Tomás de Noronha, historiador e protagonista dos seus romances de mistério, pronto a desvendar o segredo dos verdadeiros responsáveis pela crise. Pelo meio, há perseguições a alta velocidade pelas ruas de Lisboa e uma missa negra em Florença. Ainda que um romance possa não parecer a hipótese mais óbvia para o efeito, este foi um livro pensado para esclarecer os portugueses sobre as origens da situação em que vivem. A experiência do escritor diz-lhe que, em Portugal e na Europa (na América diz que é diferente), os leitores gostam de ver temas não ficcionais tratados pela ficção. Também não teve receio que o tema afastasse leitores: “A minha preocupação não foi que as pessoas tivessem medo do tema ou não. Achei que as pessoas estavam confusas em relação ao tema e achei que tinha coisas a dizer sobre o tema e utilizei este veículo, o romance, para, procurando ser muito interessante na história que burilei, expressar estas verdades fundamentais sobre como funciona a nossa economia e a nossa democracia.” Rodrigues dos Santos reafirma que, depois de lerem este romance, os portugueses dificilmente se deixarão enganar novamente pelos políticos. Uma ideia caridosa, certamente, quando é o próprio que diz que “nós não queremos ouvir a verdade”. Estaremos então preparados para ler a verdade num romance? “Mas aí eu acho que é importante que o romance a explique. Neste caso o romance dá uma explicação para que as pessoas entendam os desafios que nós temos.” O livro tempera a verdade crua com o sal e a pimenta da ficção. Na nota final o escritor refere os mais de vinte livros que leu para fundamentar as opiniões veiculadas no romance. Apesar disso, diz que há informações no livro que não podem ser encontradas em nenhum outro lado, como a explicação pormenorizada do que se passa nos bastidores: “A forma como a política é exercida, como os negócios são feitos para beneficiar os financiadores do partido em detrimento dos financiadores do país, que são os contribuintes.”

 

Quer isto dizer que os jornalistas têm falhado na missão de esclarecer os cidadãos? Falharam, sim, mas por uma boa razão: “Um jornalista, um historiador ou um jurista pode saber que algo aconteceu mas se não tem modo de o provar não o pode afirmar. Enquanto um romancista quando sabe que algo aconteceu usa a ficção Perguntam-lhe “Mas qual é a prova?” ele responde “ah, mas isto é ficção”. É possível usar a ficção para dizer grandes verdades. Por exemplo, Kafka, quando escreveu O Processo, disse uma grande verdade sobre a justiça. Nós lemos e intuímos que aquilo é verdadeiro. É possível usar a ficção para expor a verdade de uma forma que o discurso não ficcional não consegue porque está preso a um conjunto de convenções. Nesse sentido é verdade que os jornalistas fracassaram mas fracassaram devido às regras da sua profissão.”

A Mão do Diabo é o sexto romance com Tomás de Noronha. O seu autor faz a distinção entre obras: “Tenho dois tipos de romance, o romance histórico, que obedece a regras mais canónicas, e tenho os romances de mistério, em que faço o jogo entre ficção e não ficção que são os romances do Tomás de Noronha.” Regra geral, estes últimos vendem melhor, apesar de as vendas, desde Fúria Divina, publicado em 2009, terem vindo a cair, ainda que ligeiramente. A fórmula é simples: Rodrigues dos Santos pega num tema e, mesmo que à partida não tenha um apelo evidente para o público, procura uma maneira de o tornar interessante vestindo os factos com os fatos do romance de mistério/policial/de aventuras. A nacionalidade de Cristóvão Colombo, a existência de Deus, o aquecimento global, o terrorismo islâmico e os segredos do Cristianismo foram temas submetidos ao mesmo tratamento narrativo. Por muito complexo que seja o tema, os leitores acabam por aderir: A Fórmula de Deus é um romance sobre física e matemática. A questão é como vamos fazer a obra. Como é que vamos pegar num tema que pode ser mais seco e transformá-lo numa coisa interessante. Esse é o desafio do escritor.”A Fórmula de Deus vendeu 187000 exemplares. São estes números que lhe dão confiança para acreditar que nem as longas passagens explicativas e didáticas de A Mão do Diabo demoverão os leitores. Pelo contrário, eles já estão habituados a que seja assim nos romances de Tomás de Noronha: “É um pouco como os romances da Agatha Christie. No final, o Poirot junta os suspeitos. Têm aquele formato.” São livros que atraem todo o tipo de leitores. Um livreiro disse-lhe que estes são os únicos livros que vendem tão bem no Dia do Pai como no Dia da Mãe, embora os homens se interessem mais pelos diálogos – “a parte de ensaio do romance” – e as mulheres passem à frente, à procura da parte romanesca. E se os leitores sabem que podem contar com um determinado formato, sabem também que podem contar com a fiabilidade da informação factual. Por muito que se esforce por tornar cativantes os seus livros, Rodrigues dos Santos, ao contrário de Dan Brown, com quem é frequentemente comparado, não altera os factos: “Ele [Dan Brown] faz o jogo da verdade-não verdade mas apenas ao nível da verosimilhança. Ele altera os factos reais para se adaptarem à ficção e eu faço o contrário: eu altero a ficção para que esta se adapte aos factos reais. Não quer isto dizer que eu esteja imune ao erro, mas quando eu digo uma coisa que não seja verdadeira é por erro, não é intencional. No caso do Dan Brown, ele conscientemente altera determinados factos para se ajustarem à ficção.” Uma ideia reforçada pelo editor Guilherme Valente, responsável pela Gradiva, quando diz que “Carlos Fiolhais e Jorge Dias de Deus, dois físicos de inquestionável competência, afirmaram diante de mim e publicamente não terem encontrado um único erro científico” em A Fórmula de Deus. O escritor também não considera que romancear ideias complexas e teses muito debatidas corresponda necessariamente a uma simplificação. A propósito de O Último Segredo, que abordava temas polémicos para o Cristianismo como a virgindade de Maria ou o facto de Jesus ser judeu, diz: “O livro tem mais de 600 páginas, não simplifica assim tanto.” Guilherme Valente é mais cáustico quando lhe perguntamos se não há o risco de uma editora como a Gradiva, reconhecida pela qualidade das suas publicações científicas, criar nos leitores uma confusão entre ciência a sério e o tratamento romanceado de informação científica. Pergunta-nos se faríamos essa pergunta ao diretor da Gallimard: “Nós não editamos ficção apresentando-a aos leitores como ciência, história, religião, sociologia, psicologia”.

No caso de José Rodrigues dos Santos, a resposta ao desafio de tornar interessante o tema reside, em grande parte, no trabalho de pesquisa. É a pesquisa que lhe aponta caminhos e soluções narrativas. Por isso, e ao contrário de outros, como Miguel Sousa Tavares, encarrega-se ele próprio da investigação: “é a pesquisa que me vai ditar qual é o sentido da ficção que vou criar. Por exemplo, quando estava a fazer a pesquisa para A Fórmula de Deus cruzei-me com uma referência a um encontro que Einstein teve com Ben-Gurion [primeiro-ministro de Israel] em 1951, em Princeton, em que falaram sobre a existência de Deus, e eu pensei “Eh pá! Este é o ângulo que eu vou usar para a história ficcional”. Isto terá a ver com a sua formação jornalística que, admite, é também a principal influência no seu estilo de escrita. Admirador de Somerset Maugham, Rodrigues dos Santos reconhece que, ainda que inconscientemente, somos influenciados por todos os autores que lemos. Mas a sua bíblia estilística é o jornalismo, com a necessidade permanente de ser claro e interessante. Para o escritor, “as palavras não são um fim em si mesmo mas são um instrumento para contar alguma coisa. O meu background é o de jornalista. E os jornalistas, como sabe, escrevem com duas funções, a de serem compreendidos – se eu escrever uma frase e o leitor não compreender, em princípio a culpa é minha – e a de aquilo que escrevem ser interessante.” Outros escritores falam da tortura que é o processo de escrita. Rodrigues dos Santos desconhece essas dificuldades: “Escrevo um texto e estou constantemente a limá-lo e mesmo depois de o livro ser publicado há coisas que encontro que podiam ter sido mais bem trabalhadas, mas é uma questão diferente da questão do prazer e da tortura que o livro suscita. Para mim escrever é como respirar, faz parte da minha vida. Enquanto um grande número de escritores menciona que é um período terrível, o fabrico do livro para mim é puro prazer.” Admite uma dificuldade, a de entrar na cabeça das personagens femininas: “é mais difícil porque não é uma coisa que venha de dentro de mim. Não vem. Resulta da observação exterior, não é da observação interior. Há quem diga que a mulher e o homem são a mesma coisa. Eu não acho que sejam.”

JRS.JPG Foto: Pedro Loureiro

 

Foi por acaso que o jovem apresentador do noticiário noturno da RTP se tornou uma celebridade. Em 1991, quando começou a primeira Guerra do Golfo, José Rodrigues dos Santos, então com 26 anos, estava em direto. Desde esse dia, o “apresentador orelhudo” (ver página 77 de A Mão do Diabo) passou a ser uma das figuras mais populares da nossa televisão. A segunda vida, a de romancista, também começou por acaso. As circunstâncias da sua estreia como ficcionista não foram tão dramáticas, mas o próprio ficou surpreendido quando José Manuel Mendes, presidente da Associação Portuguesa de Escritores, depois de ler a sua tese de doutoramento (Crónicas de Guerra, também publicada pela Gradiva), lhe disse que estava ali um grande romancista em potência: “Eu olhei para ele e ri-me. Era a mesma coisa que ele me dizer que eu era um astronauta em potência. Ri-me. Não fazia sentido. Acontece que ele manteve esta ideia e tinha uma revista literária e pediu-me para escrever um conto e eu não tive lata de dizer que não. Então peguei numa história que se passava em Timor, e que não tinha sido incluída na tese, e comecei a escrever um contozinho. Quando me apercebi, o conto já tinha duzentas páginas e acabei por publicar o meu primeiro romance, A Ilha das Trevas. E aí fiquei hooked, fiquei viciado.” A Ilha das Trevas foi publicado por outra editora, a Temas e Debates, numa coleção dirigida por Maria do Rosário Pedreira, a editora mais conhecida do meio literário quando se trata de descobrir novos talentos. Eis a história contada pela própria: “Um dia, o jornalista da RTP Rui Lagartinho, meu amigo havia vários anos, perguntou-me se não me importava de receber o José Rodrigues dos Santos, pois ele estava a escrever um livro que achava encaixar-se perfeitamente na Ficção-Verdade. Disse-lhe que sim e marcámos uma reunião em que soube que JRS adorava a colecção e, independentemente da relação com a editora que publicava os seus outros livros (e que, aliás, manteve), queria fazer um livro para a Ficção-Verdade. Falou-me do tema (a história de Timor desde a anexação pela Indonésia em 1975 até à restauração da independência em 2002) e da sua ideia de misturar personagens fictícios aos reais, e fiquei bastante entusiasmada, até porque ele me contou ter acompanhado como repórter vários momentos importantes dessa história e isso me dar alguma segurança sobre o rigor da crónica.” A editora pensou que o livro se adequava perfeitamente à coleção que dirigia. Praticamente não fez alterações. A “prosa era fluente como a de uma notícia, sem rodriguinhos nem floreados” e “o tom era despretensioso, como o de uma reportagem.” O primeiro contacto de Guilherme Valente com a escrita de Rodrigues dos Santos foi mais intenso. Um dia, ao chegar à editora, tinha em cima da secretária o original de Crónicas de Guerra: “Pensei: mais um desses mediáticos a querer ser escritor… Mas aconteceu um «milagre», isto é, o improvável: deu-me para começar logo, eu próprio, a ler o texto e li, sem parar, toda a parte referente à Guerra Civil de Espanha.” Foi o começo de um sucesso avassalador que, já em 2012, atingiu o primeiro lugar do top de vendas da FNAC, em França, com a tradução de A Fórmula de Deus, um feito assinalável para um autor português. Até na Bulgária o nome de José Rodrigues dos Santos começa a ser conhecido. Daniela Atanasova, da editora Hermes Books, que publica autores como James Patterson e Daniel Silva, revela que Códex 632 e A Fórmula de Deus, cuja tradução foi apoiada pela Direcção-Geral do Livro e das Bibliotecas, tiveram uma excelente recepção quer por parte da crítica, quer por parte do público.

Para um autor publicado em mais de vinte países, com mais de um milhão e meio de exemplares vendidos só em Portugal, será que as críticas negativas são tidas em conta ou subscreve a afirmação de Sousa Tavares quando disse, em entrevista à Ler, que se encontrava confortavelmente sentado em cima de um milhão de livros vendidos? “Não subscrevo nem dessubscrevo. Por uma questão, não tenho muitas críticas negativas. Você vai ler as críticas, por exemplo, agora em França, são espantosas [nem todas, diga-se, como se pode ler aqui http://www.carozine.fr/culture-lecture/la-formule-de-dieu-jose-rodrigues-dos-santos.html]. Também já tive críticas negativas no estrangeiro. São raras. Mas nas críticas negativas no estrangeiro o crítico não me conhece de parte nenhuma e portanto eu percebo que ele não é malicioso, não é destrutivo. Ele diz que a obra tem esta falha, eu analiso e posso dar-lhe razão. O que às vezes acontece em Portugal é que há malícia porque as pessoas já me conhecem.” Das únicas duas críticas negativas que diz ter tido em Portugal só houve uma que considerou maliciosa. Foi a de Rogério Casanova, no Expresso, ao livro Fúria Divina: “Vê-se que ali não há...há uma intenção destrutiva. Pronto, tudo bem, a pessoa escreve, é livre de escrever, a constituição dá liberdade da pessoa escrever o que lhe apetece. Desvalorizo.” A crítica foi tão marcante que Guilherme Valente afirma mesmo que “somos uma cultura cheia de «casanovas»”. No outro lado do Atlântico, onde haverá menos casanovas e as pessoas não conhecem José Rodrigues dos Santos enquanto figura pública, um crítico do Washington Post disse que O Códex 632 tinha “falhas graves”, que “a informação académica não é inerentemente dramática” e que “a escrita é preguiçosa e, por vezes, pateta”. O escritor defende-se “Sim, na América foi o país em que tive mais críticas negativas do que nos outros países, em que as críticas são geralmente positivas. Essa do Washington Post dá uma no cravo e outra na ferradura. Há questões que são relacionadas com a temática em si. Quando ele diz que há informações que não são inerentemente dramáticas, não são na América, mas em Portugal são. Quando temos informações de que Colombo era um judeu português isso é informação muito interessante para um português. Acho eu. Para um não português não é particularmente interessante, mas eu escrevi aquele romance para o leitor português. Em relação à escrita em si, temos aí um problema que tem a ver com a própria tradução.”

Regressando a Portugal, vemos que os romances mais “literários” (a expressão é de Guilherme Valente) – A Filha do Capitão, A Vida Num Sopro e, especialmente, O Anjo Branco, baseado na vida do pai do escritor, um médico que viveu em Moçambique – receberam elogios da crítica. Eduardo Pitta, no Público, escreveu que a narrativa de O Anjo Branco era de “uma clareza exemplar” e que o livro “tem lugar cativo na bibliografia essencial da guerra em África.” O escritor Urbano Tavares Rodrigues afirmou que o livro, um romance “belo, profundo e inteligente”, foi “uma surpreendente e gratificante revelação.” Nada que alimente as ilusões de José Rodrigues dos Santos quanto às suas obras, que acha que não irão sobreviver: “Nem as minhas nem as de ninguém. Alguém pensa que daqui a um milhão de anos ainda se está a falar do José Saramago? Eu gostaria que o meu nome sobrevivesse durante dez milhões de anos e que toda a gente me lesse religiosamente como a Bíblia, mas isso é uma fantasia, é absurdo. Não vale a pena estar a pensar nisso. O facto é que não sabemos o que vai acontecer.” Para Guilherme Valente, que também considera O Anjo Branco “um grande livro, a vários títulos”, “claro que há para aí iluminados que, maravilhando-se com o seu próprio umbigo, decretam hoje o que irá perdurar mais na história da literatura”. Com ou sem futurologia, o trabalho dos críticos ajuda a enquadrar uma obra num determinado contexto nacional ou literário. Por isso pedimos ao crítico e escritor Miguel Real que procurasse situar o trabalho de José Rodrigues dos Santos no conjunto da literatura portuguesa [ver caixa]. O próprio Rodrigues dos Santos não se coíbe de manifestar a sua opinião sobre Equador, de Miguel Sousa Tavares: “é uma obra marcante no século XX”. Para além de ter desmontado alguns mitos editoriais (como o dos livros grandes e caros não venderem), “mostrou que os portugueses em geral estavam dissociados das suas letras. Queriam ler e não compreendiam os seus autores. A obra é incontornável porque a partir desse momento ser um autor português deixou de ser um anátema.” Margarida Rebelo Pinto não tinha já feito o mesmo? “Sim, mas não me vai comparar com o Equador, no sentido em que os romances da Margarida Rebelo Pinto se destinam a um segmento muito específico do mercado. No caso do Equador é um romance aberto a todo o mercado.” Os seus livros acabaram por beneficiar desse efeito porque o livro de Sousa Tavares “criou um novo público que começou a aceitar os autores portugueses.”

É esse novo público que garante a José Rodrigues dos Santos um sucesso contínuo e incomparável. O escritor confirma que os próximos projetos já estão em marcha, apesar de não poder revelar pormenores. Afinal, o próximo segredo, que certamente não será o último, ainda é a alma deste negócio.

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22.1.16

Texto inédito que ofereci à RUC:

https://www.mixcloud.com/inesrodrigues/radioteca-7/

 

E Maria Adelaide? Ah, esse caso fora um deslize indesculpável, um entusiasmo juvenil quando já tinha passado dos cinquenta, idade em que sentia o vigor, por então já episódico, como uma experiência avassaladora. Sentia-se um animal e quanto mais essa sensação violenta o dominava, mais o seu discurso amoroso se refinava, quase explodindo em expressões ameaçadoras, superlativos, adjectivos que lhe amarravam os uivos: “não vou medir as palavras: foi brutal”, “você falou de beleza interior mas a sua beleza exterior…tocou-me de uma maneira, abalou-me…você é uma mulher lindíssima, Maria Adelaide.” Maria Adelaide tinha trinta e nove anos, dois filhos adolescentes, um casamento terrível com um indivíduo indigno, várias depressões e uma tentativa de suicídio no quarto da casa de família na Barra, onde passavam férias há várias décadas. Foi aí que César a reencontrou. Lembrava-se da filha do juiz, mas nunca imaginara que se tivesse tornado nesta mulher belíssima e com a medida certa de tristeza para lhe provocar um desejo incontrolável. O juiz Souto de Almeida convidara-o para um almoço depois de se terem cruzado numa conferência sobre a reforma dos tribunais, em Águeda. Quando a viu, o efeito foi demolidor: “uma aparição, um anjo”, haveria de protestar mais tarde, justificando a loucura temporária que então o afectou. A languidez de Maria Adelaide atribuiu-a César a qualquer coisa de lúbrico, ignorando a quantidade de medicamentos que a deixavam naquele estado apático, de sorrisos atrasados, de pequenos comentários que não revelavam nem inteligência nem comedimento, antes a incapacidade de Maria Adelaide intervir atempadamente e a propósito nas conversas. César, tesudo como um cavalo, prometeu, ao fim daquele almoço decadente, que Maria Adelaide não iria sofrer mais. Ele não o permitiria. “Você tem de ser tratada como uma porcelana da China. Você é uma mulher sensível…hiper-sensível”. Cada palavra que lhe saía da boca era uma confissão de derrota, o reconhecimento da impossibilidade de traduzir para linguagem aquele torvelinho de pensamentos cavernícolas, a vontade de violar Maria Adelaide, de a foder com uma violência selvagem que a libertasse daquela languidez e a mantivesse naquele estado narcótico, que ela se viesse gritando que nem uma histérica e que logo se acalmasse subjugada pela sua masculinidade. A filha do senhor juiz, por amor de Deus! O juiz, com um vagar bovino, comia sem se dar conta da perturbação do convidado. Só a sua excelentíssima esposa, com a infalível perspicácia feminina, via através de César, as suas intenções animalescas, e aquilo afectou-lhe o estômago, como se aquele homem estivesse ali para cumprir um desígnio terrível: raptar, violar e matar-lhe a filha e, quem sabe, fazer o mesmo com ela. A tudo isto Maria Adelaide era indiferente. Habitava alturas inacessíveis. Durante horas, falou com César, fumou quase dois maços de tabaco e quanto mais César se desencontrava com palavras aveludadas que não serviam para expressar os seus tormentos, mais Maria Adelaide vogava para longe, aproveitando a ondulação da voz de César, dos seus exageros, das suas metáforas pobres, seráficas e cerâmicas, anjos e loiças, enfim, da vulgaridade irremediável de um homem escravizado pelo desejo de foder uma mulher triste. Despediram-se. Nesse Verão, César ainda ligou várias vezes para casa dos Souto de Almeida mas não voltou a falar com Maria Adelaide. Às vezes tem dúvidas sobre a realidade daquele almoço de sábado na Barra, do cheiro a velas no hálito da excelentíssima esposa do senhor juiz, dos dois labradores que o senhor juiz tinha no quintal, do olho lacrimejante do senhor juiz, do seu cabelo amarelado, dos braços langorosos da filha do senhor juiz expostos por um vestido doméstico, da maresia, das manchas verdes que cobriam a areia, do nome de Maria Adelaide.

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22.12.15

O relato da clausura de Horácio Cardoso é o relato de um processo gradual de insanidade com intervalos pontuais de lucidez ou um processo gradual de lucidez com intervalos pontuais de loucura, intervalos fundamentais para que à força de tentar suprimi-los esses instintos não acabassem por dominar por completo aquele homem? A parede verde-escura, a falta de sol e de ar, os policiais que leu e que exasperavam uma imaginação já de si fértil, os apontamentos e as notas, frases sem sentido, inícios de romances que nunca iria escrever. Nessas tentativas incipientes de criação, até nos esboços de um caderno de memórias, Horácio notava, com o desencanto de quem se traiu a si mesmo, até que ponto a sua linguagem fora contaminada pela política e pela revolução. Afunilara a sua vida para uma existência meramente política e como que se amputara da linguagem da literatura que lera na adolescência, que a certa altura lhe parecera imaterial e risível, uma substância deletéria que entorpecia a vontade e afastava os homens da nobre missão revolucionária. Agora que tanto precisava dela, agora que essa linguagem readquirira aos seus olhos o prestígio, a nobreza, a força serena do que é escrito sem intenção de convencer ou de doutrinar, essa linguagem escapava-lhe e já não era apenas o seu corpo que se encontrava enclausurado mas também a sua experiência, os seus sentimentos, as suas ideias estavam condenados a permanecer dentro de si sem encontrarem as palavras através das quais se poderiam expressar. Cultivara o estranho e desesperado hábito de ver na parede, nos padrões do cadeirão, nos azulejos da cozinha, os filmes da sua juventude, quadros que conhecia de reproduções, o futuro. E nesse futuro via a tarde em que, após meses de cativeiro, sairia de casa, os movimentos tolhidos pelo tempo de inactividade, e seria como nascer de novo, a sensibilidade aguda aos ruídos, à luz, à cidade, caminharia com cuidado para que ninguém o pudesse identificar, pela avenida do Hospital e então para seu grande horror haveria de perceber que o mundo se esquecera de si, muitas coisas tinham ocorrido nesses meses, eram tantos os fantasmas nas ruas de Luanda que ninguém reparava naquele homem espectral, barbudo e desgrenhado. Teve a sensação claustrofóbica e aterradora de que se entrasse na esquadra e dissesse quem era, “Sou Horácio Cardoso, 26 anos, traidor procurado pela polícia secreta”, ninguém acreditaria nele porque numa cidade em que todos os dias desapareciam pessoas ninguém acreditava nos loucos que reclamavam identidades. Era difícil apurar a realidade das pessoas. Nos meses em que esteve encerrado naquele apartamento lembrava-se de ter recebido algumas visitas, antigos camaradas que também tinham escapado à polícia secreta, e das conversas intermináveis que mantinham e que se prolongavam pela noite fora, contra tudo o que o bom senso aconselhava. Havia semanas de grande afluência em que Horácio Cardoso de tão desgastado já nem sequer os ouvia, respondia-lhes de olhos fechados, acenava, assentia, e só por delicadeza não lhes pedia que se fossem embora, que o deixassem descansar, porque sabia que arriscavam muito indo ali e porque sabia o que lhe custavam as semanas em que não vinha ninguém. Em certos dias de calor, em que a parede ameaçava liquefazer-se, ouvia o barulho colectivo de uma multidão a aproximar-se, palavras de ordem gritadas por homens e mulheres de gargantas secas, depois os estampidos de tiros, rajadas de metralhadoras que rasgavam o silêncio das ruas como frutos para o desperdício, o tropel de gente em fuga, gritos de surpresa perante um horror subitamente materializado, até que tudo se cobria do silêncio atroz das cidades abandonadas à pressa e os espaços pareciam recobrar o fôlego num descanso breve, uma pausa a que uma voz conhecida vinha pôr termo, com o que de início parecia uma reza, um discurso litúrgico que, aos poucos, adquiria a cadência humana das conversas íntimas entre homens que há muito se conhecem mas que a vida afastou, Horácio escutava a voz radiofónica do mais velho a sussurrar-lhe palavras paternais que, no entanto, tinham no seio um núcleo indesmentível de ameaça, como um fruto muito doce que amarga junto ao caroço. A voz dizia-lhe que sempre soube que ele estava ali escondido, o Dinis era agente da Disa, ele próprio, o presidente, o destacara porque era um dos seus homens de confiança, não havia nada que não soubessem, conheciam todos os passos, dos amigos e dos inimigos, a que horas jantavam, escreviam, amavam, os momentos em que pensavam nessas coisas, os fantasmas e as dúvidas que lhes corroíam os espíritos, as violências que planeavam mentalmente, o ódio de que se alimentavam, cada cabelo que tinham na cabeça, cada grão de areia em cada praia, cada folha de cada árvore, nada lhes podia ser ocultado porque não havia nenhum homem que, posto perante a Lei e o Estado, não fosse transparente. Tudo o que eram, pensavam, escreviam e sonhavam para aquele país estava algures nas páginas de um relatório dos agentes da secreta e se não estava era porque não existia e o que não existia nem tinha de ser eliminado. Ouvia-se a si mesmo noutros tempos a catequizar as massas ignorantes, a contar-lhes a própria história em jeito de parábola bíblica, o filho pródigo, a semente de mostarda, porque a única linguagem metafórica que entendiam era a da Bíblia, então os revolucionários como ele liam a Bíblia à noite para pregar a revolução durante o dia. O que interessava é que resultasse, que as suas palavras lançassem luz sobre as trevas da ignorância alimentadas por séculos de opressão. A revolução não poderia falhar. “A Revolução é ciência. A Revolução é um acto moral supremo porque responsabiliza o Homem perante o seu Povo, perante a humanidade, perante a sua espécie.” Quantas vezes repetiu estas palavras, procurando negar o que à sua volta era evidente, o desleixo, a desorganização, a falta de ideias e, quando havia ideias, a falta de meios? Sobravam as palavras e uma convicção demoníaca, espiritual, fanática, na fantasia erguida por essas palavras. Ao ler os comunicados, as notícias nos jornais, as frases feitas, as fórmulas, o esqueleto do verbo sem a substância da verdade, ficava impressionado, como se de um momento para o outro uma complexa equação matemática lhe surgisse no cérebro com uma simplicidade violenta e transformadora. Afinal, era aquilo, a linguagem cifrada dos puros, “revolta pequeno-burguesa”, “tribalistas”, “acção reaccionária”, “as massas”, “os inflitrados”, “fantoches”, em todas as repartições, oficinas, empresas e serviços deverá ser posta uma fotografia do Camarada Presidente Agostinho Neto, símbolo da luta e da autoridade que esmagará o oportunismo e a ambição, “Viva a ditadura democrática revolucionária!” Viva, caralho!

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3.12.15

«Há quem seja tocado pela nostalgia apenas ao revisitar velhas fotografias de família, onde se constata que a morte, afinal, estivera desde sempre entre nós, ou os objectos sentimentais que nos recordam um tempo, uma pessoa, uma união. Porém, para mim o tempo reflui ao lembrar-me do armário mural (“de construção em aço inox com uma prateleira intermédia, fechado com portas de correr”) que me custou 600 euros e que vendi por 150 a um tipo que vivia destes negócios de ocasião e que me pagou em notas contadas com modos rapaces de negociante de feira, desapartando-as com um dedo sujo humedecido de saliva. Era acompanhado por um rapaz corpulento. Estacionaram a carrinha à porta do café. Desmontaram e carregaram o material com a ausência de sentimentos dos cangalheiros, e na lembrança do momento em que saíram vejo que o brilho final desse armário arde em mim com o fulgor das paixões humanas. Sinto o mesmo pelo frigorífico (“frigorífico misto branco com congelador e refrigerador”) que vendi à D. Laura, eterna vizinha da minha mãe. De todos os objectos daquele tempo, só não consegui vender uma caixa registadora. As banquetas que sobraram, ofereci-as ao Gouveia para decorar uns apartamentos que ele, sempre com um olho nos negócios, planeava arrendar a turistas. Uma ficou lá por casa e, de vez em quando, o meu filho usava-a como cavalo imaginário. A registadora permanece a um canto do quarto da minha adolescência, em cima de um pequeno móvel, em casa da minha mãe. Há pouco, reencontrei um dossiê com os despojos do meu fracasso: facturas, ementas, guias de remessa, fotocópias de cheques, talões bancários, folhas com o “recebi” e a rubrica do Dr. Nunes da Rocha. Pergunto-me se este memorial imprevisto terá alguma utilidade. A arrumação pode ser uma forma delicada de esquecimento. E, no entanto, as coisas estão ali. Vivas. Regresso a elas como um arqueólogo que já conhece a história. Nada é apenas plausível, hipotético. Aconteceu. Servem como prova os nomes das empresas, dos fornecedores, das ruas onde estacionei o carro, as salas onde fechei negócios, as datas em que autorizei, com a minha assinatura, que a desgraça se materializasse. Só depois desses factos duros regressam as impressões indocumentadas: um cão majestoso, a astúcia tranquila do Gouveia, um papagaio sonolento, o rasto efémero do capote esvoaçante do Toureiro, a memória imaginada de um tigre a passear-se num chão de ladrilhos, o corpo fantasmagórico de Magda e o amor que eu ainda sentia por ela desvanecendo-se em simultâneo ao ritmo de canções melancólicas que ela detestava e das palavras cruas que aprendera a recitar.»

 

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Excerto de Para Mal dos Meus Pecados, publicado na Granta nº 5

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30.11.15

Vista de certos ângulos, e consoante a hora do dia ou da noite, Budapeste pode ser monumental ou acolhedora, mas nunca é monótona, nem mesmo quando as amplas avenidas de Peste lembram uma Paris deslocada. É banhada (ou dividida em duas) pelo título de um livro de Claudio Magris. Por aqui, o comunismo não goza de uma reputação tão extraordinária como na nossa varanda atlântica. Consta que, em 1956, os tanques soviéticos, porventura atraídos pelo magnetismo da cidade, a invadiram com o intuito de repor a ordem e esmagar os anseios líricos de espíritos que, entre outras futilidades, reclamavam o direito de viver em liberdade. A União Soviética respondeu com as razões da força blindada e, como estivessem em causa valores mais importantes do que a liberdade, procedeu a uma limpeza que deixou marcas nas paredes de alguns edifícios históricos e outras ainda mais difíceis de apagar na memória dos húngaros.

 

Ora, em Budapeste estamos em pleno coração da Mitteleuropa e se as ameaças de outros tempos já não se fazem sentir a verdade é que passeando pelas ruas vazias à noite somos assaltados pela sensação de sermos seguidos pelo fantasma de um arquiduque, de um conde infeliz ou de um fervoroso poeta nacionalista do século XIX. Em Peste, onde tiveram a gentileza de me instalar num hotel cujo recepcionista era tão simpático como um Habsburgo a quem tivessem subtraído um terço do império, abundam as estátuas. Creio que é justo dizer que esta cidade sofre de um distúrbio mental que classificarei de statuamania. De acordo com dados que pude recolher junto de um escritor local, a proporção é de uma estátua para cada dez habitantes de Budapeste, mas o governo já prometeu corrigir esta situação e, até final do ano, espera-se que todos possam usufruir da sua estátua privada. As estátuas honram figuras muito respeitadas e conhecidas (como acontece em todo o lado), mas também personagens de ficção (é verdade). Algumas homenageiam os que tombaram na I Guerra, outras, os que tombaram na II Guerra e, outras ainda, os que tombaram à entrada de um bar de escadas a pique ao qual fui levado por um membro da organização. Como bom português, organizo a minha vida em função da hora das refeições e quando, por efeito de alguma força exterior, tenho de prescindir de um almoço ou jantar, o mecanismo que rege o meu funcionamento entra em pré-colapso. Por isso, ao entrarmos no Unnia Bistrô, tratei de saber se era possível comer alguma coisa, visto que não tinha jantado. A questão foi traduzida, e embora o catálogo de expressões faciais de cada país nem sempre corresponda ao dos outros povos, creio que a reacção do empregado não teria sido de maior perplexidade caso o tivéssemos convidado para nos acompanhar numa caçada a búfalos nas ruas de Budapeste. Ainda atordoado pelo estranho pedido, disse-nos que poderia servir batatas fritas, mas da sua entoação e postura não transpirava nenhuma vontade genuína de o fazer. Acabámos, pois, por nos alimentar com um cálice de pálinka e uma cerveja do tamanho de um uigure de dez anos.

 

Gostaria muito de falar sobre o que aprendi acerca do processo de destilação através do qual se obtém o líquido precioso a que por estas paragens se dá o nome de ressonâncias futebolísticas de pálinka. Sempre que não se estão a combater ou a redesenhar fronteiras, estes povos têm por hábito aproveitar os frutos com caroço não para os comer mas para produzir aguardentes de elevadíssimo, malcolm-lowriano, teor alcoólico. Esta é uma explicação possível para a falta de vitamina C que afecta a população. Em meados de Março, devido à falta de sol e por canalizarem a fruta para a produção de pálinka, os húngaros sofrem do “cansaço da Primavera”, uma espécie de desmotivação geral, um quebranto físico, combatido com o consumo de grandes quantidades de repolho. Esta síndrome primaveril torna a Hungria um país particularmente vulnerável a incursões de exércitos inimigos a não ser que estes enfrentem outros problemas particulares, como alergias, ou tenham pruridos morais em atacar um território cujos habitantes se encontram debilitados pela melancolia.

 

Como estava a contar, no referido estabelecimento não havia comida e a oferta envergonhada do empregado gerou em mim a suspeita de que ainda teria de apanhar os tubérculos nas planícies da Panónia, o que àquela hora poderia ser uma actividade demorada. Devo dizer que já visitei muitos bares deprimentes em todo o mundo – aliás, fui gerente de um – porém este Unnia não perde para nenhum deles. Havia música ao vivo. Os músicos esforçavam-se por animar o ambiente com músicas de Johnny Cash, Bob Dylan e alguns clássicos contemporâneos da pop húngara que, compreensivelmente, o mais longe que chegam é à outra margem do Danúbio. O público estava entusiasmado, sem dúvida, batendo palmas e acompanhando as letras com nítido regalo. Que esse público fosse constituído por duas escassas adolescentes que, no intervalo das canções, trocavam galanteios e suspiros com os músicos, deverá ser atribuído ao adiantado da hora e ao dia da semana – uma quarta-feira – em que o espectáculo se realizava. Pouco depois, a audiência duplicou com a entrada de um casal. Saudaram os presentes na sala, olhando com desconfiança para a mesa em que eu e os meus companheiros de infortúnio – também eles portugueses – estávamos sentados.

 

Permitam-me uma interrupção narrativa para elaborar sobre o episódio relatado. Concedo que este incidente do bar, e mesmo o ambiente um tanto sórdido, roça o cliché e pode ofender o leitor que não se satisfaz com a exuberante mediocridade da cena. Acontece que, quando no estrangeiro, os nossos sentidos são bombardeados por constantes novidades e expostos a estranhos estímulos que, para os que a eles estão habituados ou os que ainda não os experimentaram, parecem desprovidos de valia noticiosa ou narrativa: a moeda (ali ainda subsiste teimosamente o forint), o nome das ruas, o traçado urbanístico que, para o neófito, é sempre labiríntico, os códigos regionais do olhar e dos gestos, os transportes públicos (o arcaico sistema de controlo de entradas no metro obriga à existência de uma brigada de revisores), os semáforos, renovam a nossa capacidade de observação e de espanto, como se fôssemos em simultâneo crianças maravilhadas e primitivos com receio do mundo exterior. Arrisco dizer que os grandes escritores são aqueles que observam os cenários mais familiares e costumeiros com a mesma atenção, curiosidade, estranheza e temor do homem que visita uma cidade estrangeira pela primeira vez.

 

Aproveitando uma pausa na atuação dos músicos e depois de uma luta assanhada com a cerveja, saímos do Unnia. Como a música pode alimentar a alma mas não o corpo, eu continuava com uma fome atroz. À falta de alternativa, dirigimo-nos a um quiosque onde um primeiro e esperançoso olhar não encontrou a naquele momento tão querida presença de uma bifana, ou mesmo de um hambúrguer, sequer de um cachorro. Juntando isto à ligeira diferença horária e ao já referido forint, tem-se uma ideia do sentimento de exílio que me abalou. Naqueles instantes em que, faminto, procurei a portuguesa bifana, a minha pátria era aquela fatia de carne de porco, tantas vezes menosprezada.

 

- Aqui servem lángos – disse-me o meu interlocutor e, de seguida, transmitiu-me umas noções básicas sobre esse alimento com que eu me preparava para aconchegar o estômago. Também esperei que a explicação fosse acompanhada de pequenas curiosidades colhidas na história universal do lángos, de como algum rei macedónio morrera engasgado ou de como tinham vencido os otomanos assestando-lhes lángos nas muçulmanas ventas, mas o nosso cicerone desconhecia em absoluto a origem histórica deste pitéu. Isto tranquilizou-me. Quando nos deslocamos ao estrangeiro, quem nos recebe – ainda que imbuído do mais nobre espírito da hospitalidade – faz questão de enquadrar tudo, de aproveitar uma porção de chucrute para perorar sobre a agricultura local, uma cerveja traz uma lenda, uma árvore centenária evoca um mito do folclore. Vai-se a uma casa de banho e é quase certo que, nas imediações do urinol, algum general setecentista se sacrificou pelo povo. Talvez estes rituais explicativos sejam uma interacção humana banal e o problema esteja em mim; porém, estes hábitos fazem com que, além da desorientação do provinciano, sinta que é tudo tão historicamente importante que tememos que, ao partir um copo ou puxar uma porta que devíamos empurrar, estejamos a incorrer numa dessas violações inadvertidas de códigos sociais dos autóctones, ou a destruir uma parte inestimável do património colectivo e, com o nosso gesto inocente, espoletemos um processo de implosão que conduzirá ao fim apocalíptico de uma nação milenar.

 

Bem. Então pedi o meu lángos, uma base de massa frita coberta de sour cream e de ingredientes à escolha do freguês, do universal queijo ao típico chouriço húngaro. Enquanto o senhor do quiosque preparava esta arma de destruição maciça, aproximou-se de nós um grupo de quatro jovens, duas raparigas, um rapaz e um hipster, sendo que uma das moças vinha em custosas negociações com a gravidade que foram abruptamente interrompidas quando a cadeira de pé alto a que se encostou ganhou vida própria e avançou uns dez centímetros. Esta deslocação maldosa de um objecto só aparentemente inanimado forçou a jovem a assumir uma posição horizontal da qual foi resgatada pela companheira enquanto o mancebo e o hipster gargalhavam em convulsões magiares dizendo o que presumi ser o equivalente em húngaro a “Ai, Jesus! Tu viste-me esta queda, ó Lazslos? Ai que caralho!” Assim que se recompôs, desiludida com a falta de solidariedade geracional, a rapariga afastou-se nervosamente do local e, por segundos, temi que se fosse lançar nas águas do Danúbio, situação na qual, se tivesse ocorrido, eu não lhe poderia ter sido de grande ajuda porque não sei nadar e também porque reparei que o lángos estava pronto com todo o aspecto obsceno, caótico e clinicamente reprovável esperado pela minha fome. A fome, meus amigos, é negra – e sem mais cuidar do paradeiro da funâmbula, lancei-me que nem um Huno sobre o desamparado e gorduroso acepipe. Dispenso-me de vos oferecer uma recensão gastronómica sofisticada pois a fome não apura o sentido crítico de ninguém, antes o obnubila. Regressei então ao hotel President, na Hold Utca, farto que nem um camponês, pensando no que o dia seguinte me reservava.

 

A manhã começou com um bizarro acontecimento no hotel. Dirigi-me ao piso -1 com a firme intenção de tomar o pequeno-almoço – refeição considerada por todos os nutricionistas, e pela minha avó, a mais importante do dia – e fui impedido de concretizar o meu singelo desejo por um sujeito com ar de guarda-costas de um oligarca russo. “Your room, no breakfast. You must pay.” Palavras carinhosas embora telegráficas emolduradas por um olhar repressivo. Dei meia-volta, argumentando que ia buscar dinheiro mas sabendo que não regressaria àquele templo furiosamente vigiado por este Cerbero de uma só cabeça, embora não menos assustadora do que a do seu homólogo mitológico. No átrio, os meus companheiros esperavam-me. Perguntaram-se se tinha tomado o pequeno-almoço. Disse-lhes que sim e por isso estranharam quando, minutos depois, pedi que entrássemos num café para mordiscar qualquer coisinha. Para essa manhã, estava prevista a nossa primeira actividade oficial. Um encontro promovido pela associação de jovens escritores húngaros em que seriam discutidos temas que desde Homero têm preocupado esta classe muito peculiar de indivíduos: qual o papel do escritor na sociedade e qual é o objectivo da escrita?

 

Duas notas: qualquer escritor, por jovem que seja, que se aliste numa associação de escritores ganha automaticamente 20 anos, pelo que é muito natural que uma associação destas seja composta por antiquíssimos jovens autores; ninguém bem-intencionado acredita que as respostas àquelas perguntas sejam encontradas num belo dia de Primavera em Budapeste misturando as opiniões aleatórias de 20 escritores que na maioria se exprimem em inglês técnico. Ou seja, a utilidade de uma tal discussão é quase nula. Alguns acham que tem a virtude de pôr em contacto pessoas de outros países e outras culturas, mas a verdadeira vantagem que detecto é a confirmação de que a estupidez, as opiniões banais e formatadas, distribuem-se com alguma harmonia por todo o lado e não poupam esta elite de iluminados pontas-de-lança do pensamento com que pessoas mais ingénuas ainda insistem em confundir os escritores. Eu contribuí com as minhas e não me arrependo disso. É raro termos pensamentos originais e é certamente duvidoso que os mesmos nos ocorram numa reunião tão formal. Pode aproveitar-se uma boutade, uma piada, mas o risco de sermos atingidos por um pensamento sério nesse contexto é reduzido. Mais facilmente seríamos atingidos por um dos quadros expostos nas paredes do belo edifício onde se realizou o encontro, o Museu da Literatura Petófi. Sándor Petófi é uma espécie de Camões dos húngaros, no sentido de poeta nacional, embora a época em que viveu o aproxime mais de um Almeida Garrett. Diz a lenda (e Claudio Magris) que a mãe de Petófi não sabia falar húngaro. A minha, que eu saiba, também não. Petofi morreu, em 1849, numa das batalhas pela independência da Hungria do império austríaco, destino ao qual pretendo escapar.

 

Sentámo-nos em três longas mesas rectangulares, o que pela primeira vez me despertou para a realidade de estar em representação do meu país e, carregando nos ombros tão pesada responsabilidade, ter achado ser meu dever contribuir para dar de Portugal uma imagem completamente errada, mistificadora e irreal. Olhando para trás, creio que atingi o meu objectivo e que os meus companheiros do Festival do Primeiro Romance ficaram com uma ideia muito pior do que o nosso país é na verdade. Espero que isto me valha uma condecoração no futuro. Bem. Ministerialmente sentados, apressámo-nos a discutir esse magno tema do papel do escritor na sociedade. Um moderador húngaro lançou o debate e a primeira intervenção foi também de um escritor húngaro que se expressou fluentemente num inglês que classificarei de imaginativo, pontuado de expressões idiomáticas húngaras que o moderador procurava acomodar o melhor que podia, enfiando com a arte possível os pedacinhos de goulash no hamburguer linguístico do compatriota. Se não estou em erro, o italiano tomou de imediato a palavra e lançou-se numa bem-sucedida crítica à sociedade italiana, à falta de cultura dos seus compatriotas e aos seus miseráveis hábitos de leitura. Elevou a dificuldade do exercício tentando dizer todas estas coisas sem referir o nome “Berlusconi”, desiderato que não conseguiu atingir pois, já perto do final da sua intervenção imaculada o “Berlusconi” saiu-lhe em borbotão. Depois de denunciar Berlusconi ficou aliviado e estendido no chão porque foi como se um ginasta, depois de um desempenho perfeito nas argolas, tivesse aterrado de cabeça no tapete. Ele lá se orientou como pôde. Considero que foi das prestações mais decentes.

 

De seguida, falou o francês. 47 anos, rosto de trinta e poucos, fatinho beige, mocassins, Mathias Menegoz estava tão em casa como um Espírito Santo nas festas populares da Cruz de Pau. A sala onde nos reunimos cheirava nitidamente a classe média; na maioria dos rostos via-se a crença feroz na salvação pessoal através da literatura, uma cambada de mortos de fome contentes por um passeio no estrangeiro à boleia de um primeiro livreco, mas o odor do igualitarismo não rodeava o fidalgo Menegoz que disse logo que o escritor não tinha qualquer dever de comentar a sociedade (concordo), que estava farto dos escritorzões franceses vítimas da síndrome de Vítor Hugo (concordo), que a censura até faz bem aos escritores porque os obriga a arranjar alternativas e truques de escapismo (aqui começou a delirar), considerando que os riscos reais que correm, por exemplo, ao escrever em regimes totalitários são uma forma, perversa, concedeu, de fazer refulgir o génio, chegando mesmo a comparar a censura aos constrangimentos formais de um soneto, o que seria uma excelente analogia se houvesse registo de algum poeta alguma vez ter sido fisicamente torturado, mutilado, assassinado e atirado para uma vala comum por um soneto petrarquiano. Sobre este assunto, recomendo a leitura de um ensaio de James Wood sobre o livro Paixão Intacta, de George Steiner, especificamente sobre um dos ensaios desse livro, em que Steiner argumentava na mesma linha do nosso conferencista francês mas tendo Steiner a desculpa de ser Steiner, de ter escrito o ensaio nos anos 70 e de não ter pedido desculpas como prontamente fez o primeiro-romancista que, afinal, não queria equívocos e claro que achava que escrever em certos países envolve muita coragem e pode não fazer lá muito bem à saúde, etc. Ou seja, Monsieur Menegoz deu uma valente dentada na sandes de courato e a nuvem plebeia venceu a resistência da cúpula invisível que o protegia e o homem lá ficou democraticamente enojado (a meio saiu com um ataque de tosse). Antes de abandonar a reunião, informou-nos que era investigador na área das neuro-ciências passando os seus dias a, como fez questão de repetir inúmeras vezes, “pulling brains out of rats”, com aquele sotaque franciú que sugere um certo nojo na utilização de um idioma alheio, como se estivesse a tentar remexer um balde de detritos com o mindinho. Uma bela manhã parisiense, entediado como um Carlos da Maia no seu consultório de cartão, resolveu que aquilo não o satisfazia e fez o que qualquer mortal faria no seu lugar aos quarenta e tal anos: foi pedir dinheiro aos pais. A reacção do progenitor poderá chocar os mais sensíveis: não só o homem se dispôs a financiar bastamente o empreendimento literário do filho como ficou muito entusiasmado com a perspectiva de, finalmente, ver resultados palpáveis do seu trabalho. Antes que pensem que estou aqui armado em Robespierre e quis instaurar o Terror naquela sala devolvendo o pobre Mathias ao l'hexagone ao melhor estilo Marie Antoinette, devo dizer que nenhum preconceito me movia e que, no trato pessoal, este cabrão chauvinista foi de uma grande correcção protocolar e até de uma simpatia aparentemente genuína, mesmo sabendo eu que gente desta estirpe é exímia a dissimular desde tenríssimas idades.

 

O belga, sei lá, disse qualquer coisa que na literatura belga, ou talvez só na flamenga (eu já acho o mundo complicado vivendo num país de fronteiras estáveis e nacionalidade de hímen mais ou menos intacto – um bocadinho de pressão dos espanhóis e tal, nada definitivo – mas em convívio com estes maduros da Europa Central chego a ter pena deles) existe muita masturbação, ao que eu, com o excelente sentido de oportunidade que me caracteriza, respondi dizendo que na vida também isso acontece; portanto, as coisas equivalem-se. Depois de despacharmos este assunto, logo outro se apresentou às nossas brilhantes cabeças: “qual o objectivo da escrita”, um assunto que gerou contribuições da mais elevada valia intelectual mas que infelizmente não foram registadas para a posteridade. Quer dizer, não se perdeu o mesmo que na destruição da biblioteca de Alexandria, mas as acusações que a escritora ucraniana de origem polaca ou polaca de origem ucraniana mereciam os séculos vindouros. De estupenda cabeleira leonina, discordou de tudo o que eu dissera. O que é que se passa com estes ucranianos, pensei. Não conseguem estar em paz com ninguém? Eu disse-lhe “Svetlana (o nome dela era outro), ouve lá, cuidado com essas merdas que eu não sou o Putin”, mas tudo acabou razoavelmente bem.

 

Para aligeirar o ambiente, interveio o representante esloveno, Davorin Lenko, que com o seu pesado sotaque transilvano, um doutoramento em literatura pós-moderna e um cabelo de motard finlandês, conquistou logo a minha preferência entre todos os concorrentes. Como eu dizia, introduziu uma nota ligeira, falando sobre o tema do seu livro: cancro nos testículos e castração. Ora, o Davorin perdeu-se um pouco na história dos tomates e eu, certamente por sugestão, fui acometido de uma súbita e imperial vontade de mijar, talvez para comprovar que o filho da puta do esloveno, sabe-se por lá que negras artes daquelas regiões, não andava ali à procura de peças em segunda mão para a sua personagem desafortunada.

 

Apreciei muito a interpretação da concorrente holandesa. É impressão minha ou as holandesas têm um ar de perpétua disponibilidade fodal? Eu olho para as mulheres holandesas – sejam escritoras, a rainha ou o Van Persie – e os gestos... bem, perco-me. Entretanto, o húngaro achou que ainda não o tínhamos incompreendido o suficiente e confundiu-nos ainda mais com uma segunda intervenção que, de acordo com os conhecimentos gastronómicos que adquiri mais tarde, era uma mistura de főzelék com lángos. O homem estava possuído, falava num tom de voz de medium da Carpátia, pausado e olhando em volta da sala como se o discurso lhe estivesse a ser ditado por um ectoplasma a vaguear pelas paredes do museu. Outra escritora, esta muito nova mas com um inglês do nível do colega (em comparação nós, portugueses, apesar de todas as liberdades no nosso inglês de pirata, somos tão destros na língua de Shakespeare como o próprio bardo), também falou, trocou-se, pediu desculpa, quase chorou, não sei bem porquê e eu olhava para o francês, a sua fleuma a ocultar uma aflição interior, e pensava que nós, europeus, somos todos malucos. Porque, não contentes com o facto de termos sido convidados para discutir estes assuntos prementes, no dia seguinte teríamos de participar em painéis tais como: “O Ocidente e o resto: perspectivas do desenvolvimento ao nível das mais variadas situações”.

 

Tocou a campainha para o almoço e fomos para a esplanada no jardim do museu. Partilhei a mesa com o francês, o cipriota e o húngaro. Foi uma conversa animada em que, se percebi bem, o húngaro atacou o governo húngaro, o cipriota defendeu Michel Houellebecq e o francês atacou o compatriota. Louvou-lhe as qualidades literárias mas confessou ter ficado em choque quando, certa vez, jantou em casa do polémico romancista e encontrou restos de sanduíche no sofá. O cipriota não se convenceu: “So what?”, perguntou em verdadeiro estilo de rufia mediterrânico. O francês argumentou que uma tal desorganização e falta de higiene era a prova irrefutável de uma mente doentia, e sobre mentes, doentias ou não, ele sabia muito porque, como fez questão de repetir, passara uma parte substancial da vida “pulling the brains out of rats.” Ao almoço serviram-nos o muito típico panado de frango com batatas fritas, uma escolha sensata e ao gosto universal para não ferir os paladares mais sensíveis.

 

Enquanto os outros participantes regressaram pontualmente à sala, eu, o cipriota e o francês ficámos mais uns minutos usufruindo do inusual sol húngaro, bebendo café (o francês bebeu um chá mais adequado à sensibilidade do seu estômago infantil) e praticando aquela arte de apreciar a vida enquanto os outros cumprem os seus deveres, que creio ser a única coisa em que os povos meridionais são verdadeiramente civilizados. Só espíritos insensíveis, calcificados por climas inclementes e doses cavalares de protestantismo, têm a coragem de desaproveitar estes minutos de uma leveza diáfana em que nada se produz, nada se acrescenta à civilização material, nenhum pensamento nos obscurece a mente, e somos apenas telas aptas a registar as mínimas variações ambientais: uma aragem, a sombra de um pássaro no chão, o rebrilhar do sol na bandeja de um empregado imóvel. Como o café não estava incluído na refeição, o cipriota, engenheiro naval, pagou. Foi um momento de quase perfeição, em que alguma antipatia que pudéssemos nutrir contra o francês se dissipou, como se os raios solares e a temperatura amena se tivessem encarregado de o despir de alguma soberba, revelando-o como o que era, um rapazinho bem de quarenta e tal anos com a timidez do privilégio que é sempre, sabemo-lo bem, um reconhecimento de culpa, um desejo fundo de arrependimento inoculado por uma educação que ensina, desde muito cedo, a não esfregar na cara dos outros a superioridade da sua condição. Se me é permitida a digressão lateral, é essa educação que, muitas vezes, falta ao homem que sobe a pulso na vida e não resiste, daí para a frente, a contar – empolgado – as vicissitudes da sua ascensão, agravando misérias iniciais e exagerando conquistas recentes. Sou, neste particular, um adepto da mediocritas, de observar e avaliar a nossa vida com um certo desprendimento, para não nos enamorarmos dessas conquistas sempre tão precárias e para fruirmos das memórias dos primeiros tempos, nem sempre tão hediondos como conviria à narrativa do patinho feio.

 

Regressámos à sala de reuniões e ao tema do objectivo da escrita, por que escrevemos e assim. Nestas coisas o melhor é pegar em frases conhecidas, já testadas, e aplicar-lhes uma corzinha pessoal. Foi o que eu fiz, citando impunemente Nelson Rodrigues, Saul Bellow e Lobo Antunes. Se pensaram que as ideias eram minhas, azar o deles – embora daí também não venha mal ao mundo. Estávamos no ponto de discutir a actual obsessão com a escrita autobiográfica, sobre os limites da ficção e as algemas da realidade (o francês, mantendo uma coerência notável, afirmou que quis escrever um livro que se afastasse o mais possível da sua experiência pessoal que, como nós já bem sabíamos, consistira em “pulling brains out of rats”. Porém, o seu desgosto era menos dirigido contra o seu passado científico-laboratorial do que contra esse hábito plebeu, pé-rapado, de escrever sobre a vidinha de merda que se tem. Então inventou uma personagem, um conde húngaro do século XIX que regressa à aldeia natal, um lugarejo perdido na Transilvânia, onde é tudo muito feudal e arcaico. Repare-se neste movimento: quando poucos tinham acesso a relatar as suas vidas por escrito, as confissões eram um género necessariamente elitista. A partir do momento em que se democratizou o acesso à escrita, escrever sobre a própria vida cheira a perfume barato e os fidalgos fogem para as fantasias ou para a História, onde ficarão a salvo da pestilência auto-centrada da classe média.)

 

O finlandês, que chegara depois do almoço, (e que trazia uma t-shirt com estes dizeres pouco impressionantes quando se visita uma país como a Hungria – “I speak Finnish. What’s your superpower?”), disse que estava a escrever um livro sobre a sua família, adiantando que numa família de fotógrafos era ele o único escritor e que queria transmitir através da escrita as emoções que sentia ao rever velhas fotografias familiares. Toda esta conversa meio sentimental deve ter irritado os germano-falantes (Franz Friedrich, alemão, e Heinz Helle, suíço de Zurique) que trataram de devolver alguma seriedade à discussão, mais logos e menos pathos, vamos lá perceber os limites da linguagem, e qual a ligação entres as palavras e os objectos, entre as ideias e o mundo exterior, quando escrevemos não nos limitamos a arranhar a superfície do real? Foda-se, ó Wittgensteins, vamos lá com calma, pensei eu, mas os argumentos eram tão intrigantes e esotéricos que ninguém se atreveu a contestá-los, até porque contestar alguém que fala alemão é pedir que sejam despejadas sobre nós 50 megatoneladas de palavras compostas de um idioma criado para se filosofar quando só podemos responder em português, uma língua excelente para criticar os vizinhos, versejar com diminutivos e desabafar, mas francamente inútil quando se trata de justas internacionais de filosofia.

 

Confesso que, a partir desse momento, os meus níveis de atenção caíram a pique e passei a maior parte do templo a contemplar a mesa redonda a um canto da sala, com as garrafas vazias de água mineral, as cor-de-rosa sem gás, torres de guardanapos e copos emborcados, distraído, enquanto, vim a saber, a escritora norueguesa desenhava os nossos rostos num moleskine. Finalmente, saímos do museu. Lá fora, à entrada, sentia-se um ar fresco que, após várias horas encerrados numa sala, revigorava. Trocámos opiniões, frases de circunstância, esclarecemos alguns equívocos para assegurarmos que, apesar de algumas ideias mais arrojadas, éramos perfeitamente inofensivos e bem-intencionados.

 

Fui com o outro escritor português presente no certame até à Vorosmartyr Tér onde havia grande animação, com múltiplas barracas de artesanato, palcos onde bandas tocavam música cigana, quiosques de doçaria e de comida mais robusta, como pernil de carneiro, e enormes sertãs, onde dezenas de batatas boiavam apaticamente em molhos espessos e condimentados. Procurei comida menos agressiva, mas priápicas salsichas espreitavam de formidáveis pães, nacos de carne pendurados por fios grossos como cordame de navios pendiam ameaçadoramente como se se destinassem a saciar a fome de toda a Hungria, espetadas gargantuescas, pimentos recheados e os inevitáveis lángos, ainda mais pletóricos e repletos, compunham um banquete destinado mais a ogres do que a seres humanos. Passámos defronte do Gerbeaud, café que me fora recomendado por todas as pessoas que tinham visitado Budapeste, mas que, à excepção da atmosfera conspirativa que emana de todos os estabelecimentos abertos ao público nesta área da Europa, me pareceu despudoradamente turístico, tão aborrecido como a nossa Brasileira, que à conta de um prestígio pretérito e datado, é frequentada por hordas de turistas desejosos de experimentarem o típico, o antigo e o clássico, julgando que aquele café é uma metonímia do espírito da cidade ou qualquer merda desse género. Não é. Sentámo-nos numa esplanada, eu a beber uma cidra, ele, uma cerveja, e ficámos assim, silenciosos, embalados pela respiração da cidade que nos banhava indolentemente.

 

O programa desse dia estava quase a chegar ao fim, faltando apenas a recepção oficial no pavilhão principal do Festival Literário, em Buda. Apanhámos o metro e foi aí que confirmei a quantidade de revisores, mais numerosos que um exército persa, capazes de por si só taparem o sol se as suas funções não fossem subterrâneas. À saída do metro, um caos de obras, tapumes, maquinaria pesada. Porém, faltavam aqueles grupos tão portugueses de reformados que se juntam para apreciar em directo o progresso das obras; uns acompanham sonhadoramente a trepidação do martelo pneumático, outros de cenho crítico, mas ambas as categorias dão palpites. Creio que é um fenómeno nacional que, na minha humilde e anti-alentejana opinião, não fica atrás do cante como expressão única do sentir de um povo. Merece ser património imaterial da humanidade e teríamos todo o gosto em exportar centenas de especialistas na observação de obras que ensinariam aos restantes europeus essa arte de espreitar pelos tapumes, de se encostar às cercas sem cair num buraco. A noite estava muito agradável, quase tropical para os parâmetros da Europa de Leste.

 

O jantar-volante decorreu no pavilhão Millenaris. Os seguranças de postura vagamente homicida, a iluminação sombria, as pesadas cortinas negras à entrada e os arranjos florais fúnebres junto do palco criavam uma atmosfera geral tétrica embora não totalmente desprovida de esperança, como um baile de finalistas em que o sistema de som não funcionasse. A maioria dos convidados estava vestida a rigor e era notória a sensação de privilégio por se encontrarem ali. O ruído de fundo de vozes e de talheres era hesitante, como se a qualquer momento pudesse ser interrompido pela chegada de uma dessas personalidades que impõem, pela sua simples presença, um silêncio elétrico que lhes abre passagem, e deixam na sua esteira onomatopeias de espanto e cochichos de admiração. Mas não apareceu ninguém de tal calibre. À excepção dos que estavam entretidos a falar junto da entrada, os restantes convidados formavam uma cordilheira que impossibilitava o acesso às mesas da comida. Ao fim de várias tentativas de escalada e perfuração, lá aproveitei uma brecha para alcançar a carne de porco e outras coisas que, apesar de desconhecidas, pus no prato temendo não ter outra oportunidade de me aproximar das mesas. Criados meio sorumbáticos passeavam-se com bandejas pelo recinto oferecendo copos de um excelente vinho húngaro. Acomodámo-nos numa mesa, pedindo licença aos comensais que a tinham ocupado. Um deles, percebendo que éramos portugueses, expressou-se num idioma estranho com remotas semelhanças ao português do Brasil adquirido, pelo que percebi, na temporada em que o sujeito fora responsável pela fábrica de uma multinacional alemã em território brasileiro. Falou em samba e água de coco e tentou explicar-nos onde se situava a tal fábrica mas, à terceira tentativa, sem que soubéssemos se tinha sido em Itapuã, Adoniran, Pindamonhangaba ou Xirapatã, emitimos um expletivo e conhecedor “oh” como se estivéssemos mesmo a ver onde é que era a tal cidade, poupando o nosso interlocutor a um novo esforço e contribuindo para uma ideia completamente errada acerca do seu domínio do idioma, que era bastante rupestre. Ao terceiro copo de vinho húngaro, como nos acontecimentos inopinados dos sonhos, dei por mim a falar sobre os entraves burocráticos da administração pública portuguesa e, ato contínuo, sobre lutas de cães.

 

Após o jantar, regressámos a Peste. Saímos na estação de metro junto do Parlamento onde tirei umas fotografias de que não me envergonho. A caminho do hotel, passámos pela estátua do malogrado Imre Nágy que, na altura da revolução falhada de 1956, ocupava o cargo de primeiro-ministro, à revelia dos soviéticos. O seu objetivo político era que a Hungria saísse do pacto de Varsóvia e fosse reconhecida pela comunidade internacional como um estado neutral. Apesar de marxista (e, como provam as fotografias, de poder ser confundido com um qualquer parente afastado dos irmãos Marx) recusava a ortodoxia soviética. Pagou essa ousadia com a vida. Em 1958 foi capturado pelas tropas soviéticas, julgado e condenado à morte por enforcamento. Foi enterrado numa campa não identificada. Há quem diga que o facto de a estátua se encontrar a meio de uma ponte (que é também parte do conjunto escultórico) simboliza o percurso de Nagy até meio da liberdade. Numa primeira apreciação, concluí que seria mais a do meu homem dividido entre a ideologia em que acreditava e a lealdade e amor pelo seu povo. Um dos elementos do nosso grupo chamou a atenção para o facto de a figura olhar para a esquerda, o que também mereceria uma interpretação, mas não àquela hora em que nem sequer estávamos em condições de apreciar a histórica ironia de haver uma estátua de Ronald Reagan junto ao monumento que assinala a libertação da Hungria pelas tropas soviéticas perto do final da II Guerra Mundial. Quando entrei no meu quarto de hotel, dei graças pelo repouso que me aguardava.

 

Na manhã seguinte, dirigi-me com algum receio ao -1 mas, desta vez, não fui importunado por nenhum capanga eslavo, nem por qualquer outro empregado do hotel. Entrei, sentei-me, bebi uma chávena de café, e preparei um croissant besuntado com uma compota não excessivamente idiossincrática, antes com aquele sabor universal e plastificado que desagrada ao menor número de pessoas. Abandonei o local sentindo o orgulho injustificado e um tanto rústico de quem enganou as autoridades. Os meus planos para essa manhã passavam por assistir à conferência de imprensa da mega-estrela internacional, Jonathan Franzen, convidado de honra do festival e que, na noite anterior, já fora agraciado com uma condecoração – e, se a hospitalidade húngara quer ganhar pontos, com duas putas no quarto. Solicitei uma acreditação porque, depois de ter escapado à canina vigilância do hotel, pensei que seria abusar da sorte entrar à portuguesa na sala onde se iria realizar a conferência. Ora, foi mesmo isso que o meu homólogo belga fez, e ainda se gabou da sua destreza olhando com uma certa comiseração para o cartão plastificado que eu prendera à camisa e que dizia Press. Esperámos uns minutos e então surgiu Franzen montado numa triunfal timidez. Depois de uma troca de palavras e sorrisos com o editor húngaro (que é não só o mais importante editor húngaro como pai da ex-namorada do meu tradutor; pode certamente contar com uma estátua), sentou-se, simulando um ligeiro desconforto e desadequação, como as grandes estrelas de Hollywood que de vez em quando fazem um filme independente. O moderador da conversa prometeu não fazer perguntas demasiado medíocres. Franzen tomou a palavra e manifestou a sua surpresa pela forma como os escritores são tratados na Europa – condecorações e conferências de imprensa – e disse que nos EUA ninguém quer saber das opiniões dos escritores para nada. Concordo que nunca passaria por nenhuma cabeça capitalista convocar uma conferência de imprensa de um escritor a não ser que fosse para anunciar uma mudança de sexo ou confessar a participação no assassínio de JFK. O que depreendi das palavras do autor de Liberdade – e posso estar errado, é claro – é que a Europa se comporta como uma velha e demasiado solícita rameira, oferecendo com excessiva prontidão as suas depauperadas relíquias enquanto nos EUA, terra de muitas inteligências médias e poucos génios, segundo Tocqueville, a sensatez impera e a maioria dos escritores é ignorada com aquele desapego vital que ainda caracteriza a sociedade norte-americana. Claro que para muitos idiotas europeus isso não passa de uma manifestação de barbárie ou, pior, de filistinismo ianque, quando uma análise fria nos dirá que não haverá nada mais libertador para um homem de letras do que ser respeitado pelos seus livros sem que dele se espere uma panaceia para os males do mundo. Porém, chegados à Europa, embevecidos com tanto carinho, atordoados com tantas comendas, têm de ser um bocadinho europeus e vestir a farda anacrónica dos grandes intelectuais públicos de meados do século XX. Fazem-no, como no caso de Franzen, com algum distanciamento e uma saudável auto-ironia. Mas fazem-no. O momento alto da conferência foi quando um velho húngaro, coroado com um boné digno da famosa tradição de Paços de Ferreira, questionou o escritor norte-americano sobre a situação política do mundo em geral. Franzen agradeceu a pergunta, pigarreou, ajeitou os óculos, fez uma graçola, repigarreou, alçou a fronte como um César na iminência de falar ao povo e, depois de um suspiro vindo das profundezas da sua inibição mid-western, confessou que não tinha uma resposta muito boa para essa questão e então deu outra resposta qualquer. A sério, porque é que submetem os escritores a estas torturas? Qualquer treinador de futebol da II Liga teria sido mais assertivo e igualmente vácuo.

 

Mas o ar de filatelista de Franzen não nos deve levar ao engano. Temos de nos lembrar que estamos perante um profissional do entretenimento. Questionado sobre a avalanche de romances autobiográficos – não se fala de outra coisa – e se teria sido capaz de escrever certas coisas enquanto os seus pais eram vivos, Franzen lançou a sua pequena bomba atómica de fabrico caseiro que trouxera da América: “Entre as muitas coisas boas que me deram, os meus pais deram-me o presente de terem morrido cedo.” No entanto, o efeito não foi tão devastador como Franzen previa. As únicas pessoas que poderiam ficar chocadas com uma frase tão ponderadamente escandalosa acompanhavam a conferência pelos auscultadores da tradução simultânea. Entre o som da voz de Franzen e a reacção da plateia houve um intervalo demasiado longo que amorteceu o verdadeiro horror, o que por sua vez gerou uma reacção tardia do escritor à sua incapacidade de provocar viva indignação. Falou então sobre o ambiente, a sua grande causa tépida, meio invertebrada. Sem a convicção do partidário ou a fogosidade do activista, tudo o que transparece da sua defesa do ambiente é a adesão bem educada do porta-voz, como se tivesse escolhido aquela entre uma série de causas pelas quais não se importaria de dar a cara. Falou como o noivo envergonhado que procura justificar um casamento por conveniência. Finalmente, e a bem de todos os presentes, alguém deu por terminada a sessão. Franzen ainda assinou alguns livros mas foi rapidamente levado pela sua entourage húngara para um lugar seguro, a salvo das investidas de malucos de boné na cabeça.

 

Lá fora o dia estava magnífico, o que aumentou o meu desgosto pela hora perdida naquele anfiteatro quando poderia ter estado a observar as raparigas sentadas nos bancos de jardim junto do lago, as mulheres com blusas do ano anterior que revelavam o quão surpreendente era aquele bom tempo, homens solitários com camisolões pesados porque os homens solitários são sempre mais lentos a adaptar-se às mudanças súbitas de temperatura. Reuni-me com o meu grupo ao qual entretanto se juntara um editor húngaro. Ainda novo, não mais de 35 anos, usava aqueles óculos de lentes fumadas que a mim só me lembram líderes de seitas milenaristas e predadores sexuais do Milwaukee, sujeitos que casam com mulheres mais velhas e deprimidas que não percebem logo o que se passa na cave. Almoçámos num restaurante modesto em que, além de nokedli e arroz doce, fomos brindados com uma reflexão literária do editor, queixando-se da literatura da miséria praticada com monotonia por um número significativo de escritores húngaros. O editor desejava histórias alegres, fábulas, invenções, delírios e os compatriotas só lhe davam realismo, sujidade e depressões. Despedimo-nos dele e fomos beber um café numa esplanada de uma rua fechada ao trânsito. Nos canteiros defronte da nossa mesa, dormiam dois sem-abrigo. Pensei logo no editor e de como gostaria de lhe contar a história das bonitas dálias ocultadas pelos sobretudos daqueles desgraçados.

 

Às 16h30 fui então participar no painel sobre o Ocidente e o resto. Uma vez mais, tive a companhia do francês e do seu clássico intemporal sobre actividades laboratoriais. Explicou também a origem do seu interesse por aquela região europeia, etc, etc, etc. Não consigo precisar em que altura, mas a verdade é que a conversa guinou para um caminho ecuménico e auto-celebratório da ideia de Europa. Dentro da cabeça dos federalistas, o Hino da Alegria toca em permanente repetição e dos lábios sai-lhes incessante o mantra de que somos todos europeus. Um escritor dinamarquês, de respeitabílissimos cabelos brancos, lamentou que os intelectuais não assumissem a responsabilidade de levar a tocha desta nova condição universalista aos seus povos. Em tempos não muito distantes, estes pentescostais do pan-europeísmo foram revolucionários convencidos de que bastava percorrer a província com os seus breviários políticos e os seus cânticos de intervenção para que os aldeões se rendessem às proclamadas virtudes do igualitarismo, do marxismo e do socialismo. Hoje, goradas todas as revoluções, passaram a fumar light e a propor transformações menos radicais mas igualmente ambiciosas. Sonham em percorrer a Europa de pullman, levando às massas os ideais de Monnet e distribuindo medalhinhas com a imagem de Delors. Que as pessoas comuns não liguem nada aos escassos lunáticos que ainda se julgam incumbidos de uma missão civilizadora não desanima os nórdicos, cujos índices de qualidade de vida que alcançaram parecem ter-lhes drenado toda a sensatez dos cérebros. Estes altos, belos e bem falantes europeus acreditam, como o suíço, que o nacionalismo é uma ficção e até o temperado belga acabou a louvar o cosmopolitismo, como se este, por essa curiosa taxonomia, não fosse também uma construção cultural. Já no dia anterior, o suíço, com a conversa sobre o divórcio entre a linguagem e os objetos, me pareceu inclinado para o mundo de abstracções mentais onde uma vez que o homem caia jamais conseguirá abrir uma torneira sem perpetrar filosofia. Na medida certa, o ceticismo é saudável mas não deverá conduzir o seu praticante à paralisa, à impotência do pensamento, à esterilidade. Se uma ficção é tão poderosa ao ponto de alguém achar que vale a pena matar e morrer por essa ficção então é inútil insistirmos no seu carácter ficcional como se isso nos protegesse das acções dos que nela acreditam ou nos elevasse acima do mundo em que os outros vivem. A conversa durou apenas mais dez minutos. Felizmente, ainda tinham sobrado alguns canapés servidos no início da sessão. Quando saímos, começava a entardecer em Budapeste.

 

Para a noite estavam planeadas leituras em várias livrarias independentes. A mim calhou-me em sorte a Massolit, na Nagy Diófa Utca. É um espaço que funciona também como café, com um acanhado jardim nas traseiras e frequentado por estudantes universitários, professores universitários, pessoas húngaras que não consegui associar a nenhuma classe profissional e um brasileiro. Li excertos em português e o meu tradutor leu em húngaro, a leitura foi aplaudida mais por cortesia do que por entusiasmo e, no final, bebemos todos um excelente vinho húngaro, desta vez branco. Foi nessa ocasião que conheci o homem que nos haveria de guiar nessa noite: Laertes de Souza, poeta, performer, cineasta, carioca do mundo e, de há três anos a esta parte, fiel a Budapeste. Contou-nos como chegara a casa às 10 da manhã (mais tarde corrigiu para as 8 e ainda mais tarde, inadvertidamente, para as 6) depois de uma noite inimaginável numa festa privada. Os silêncios estudados com que pontuou o relato desafiavam a nossa imaginação a completar o quadro de sensacional deboche que a escassez cirúrgica das suas informações sugeria. O local era incerto, tinha sido convidado por amigos de um amigo e sobre as mulheres o único comentário que estava em condições de fazer lia-se-lhe no olhar de beatitude pós-coital.

 

- Adoro essa cidade.

 

Antes de avançar, aproveito para dissertar sobre o carioca. Faltam-me as qualificações para tanto, mas se um carioca se aventurou a escrever sobre Budapeste sem nunca ter posto os pés na cidade, mais direito tenho eu para escrever sobre os cariocas visto que conheço alguns. Houve tempos em que o carioca era a flor espontânea, natural, das ruas do Rio, das suas esquinas, dos seus morros e dos seus botecos, filho predilecto e vagabundo do corpo úbere da cidade. Hoje, tudo mudou. Carioca deixou de ser essa graça fatal que recaía sobre os seus habitantes e transformou-se numa filosofia, lero-lero literário, mitificação do simples, gentrificação do outrora popular, apropriação do genuíno pelas forças normalizadoras da sociedade. Qualquer um pode adoptar esse conjunto de normas rígidas que prescrevem a informalidade, o à-vontade, a malandragem. Borges escreveu que o barroco “é aquele estilo que deliberadamente esgota (ou quer esgotar) as suas possibilidades e lida com a sua caricatura”. O carioca de hoje é uma declinação barroca do verdadeiro carioca: olheirento, falsamente festivo, mortificado pela obrigação de ser um carioca by the book, um Zé Carioca. Se pratica o ócio já não é com a despreocupação do ocioso mas com a consciência do funcionário. Tornou-se um amanuense do ócio. O carioca atual vive atormentado com o receio de falhar alguma deixa e não ser suficientemente carioca. Em compensação, de cada vez que se sente à altura dos pergaminhos cariocas suspira de alívio, como o trapezista que volta a tocar o chão. Para se ver a dimensão fracturante do drama hodierno, assevero que o carioca de hoje é tão angustiado como um russo ou um alemão, mas sem as condições culturais, meteorológicas e financeiras que, nesses países, fazem da angústia uma marca de distinção social e intelectual. Um europeu angustiado pode aspirar a qualquer cargo. Ao carioca angustiado só lhe resta emigrar. Uma vez no estrangeiro, todas as suas falhas enquanto carioca poderão ser atribuídas ao tempo já passado longe do Rio ou a uma subtil porém imparável aculturação. Libertado da pressão de ser carioca, o carioca volta a ser carioca, como aqueles amadores que só cantam bem desde que não tenham público.

 

Jantámos no Bordó, ali na Nagymezo Utca. A refeição serviu essencialmente para Laertes expor a estratégia que presidiria à nossa expedição noturna. Fez da mesa um estirador, desenrolou um imaginário mapa da cidade e, qual Rommel, mostrou-nos como iríamos conquistar o coração noturno de Budapeste. Informou-nos sobre estes planos a que teríamos de aderir de livre vontade ou movidos pela curiosidade de ver onde é que aquilo ia dar. Entre garfadas e goles bávaros de cerveja, pôs-nos a par das suas mais recentes considerações sobre a vida na capital húngara.

 

- Eu pensava que queria ser milionário mas quando cheguei a Budapeste percebi que quero é viver aqui para sempre.

 

E que atrativos justificariam esta paixão descontrolada, total, por uma cidade? As mulheres, claro.

 

- Saio de casa de manhã para comprar pão e quando volto já encontrei dez mulheres com quem podia passar o resto da minha vida.

 

Com Laertes o único tempo que existe é o para sempre, o resto da vida. É lícito concluir que, em Budapeste, o nosso poeta expatriado, transplantador da última flor do Lácio para as margens do Danúbio, encontrou finalmente um vislumbre da eternidade. E não foi o único.

 

- Você sabe quem mora em Budapeste? Rocco Sifredi, o próprio.

 

Rocco Sifredi, o papa do porno, o deus Príapo do entretenimento para adultos, tem residência oficial, de acordo com a informação de Laertes, em Budapeste. Para o poeta brasileiro, esta escolha suplanta qualquer ranking da OCDE, qualquer lista das 10 melhores cidades europeias para se viver.

 

Após o jantar, atravessámos a cidade rumo a um bar onde um pretenso grupo de luso-falantes iria comemorar o 25 de Abril. Queria ver como é que os húngaros se safavam a imitar o Seixal. Quando chegámos, em vez de uma multidão a festejar a liberdade encontrámos três ou quatro jovens a beber gins sem a mínima vocação festiva e um chinês de kung-fu que, de repente, saltou da balaustrada do primeiro piso e aterrou à nossa frente lançando-nos um olhar de desprezo marcial. Vinte minutos depois, enquanto tomávamos as nossas bebidas com a voz de Laertes como música de fundo, apareceram duas húngaras de olhos do mais danubiano azul que nos convidaram para a cave onde, segundo elas, decorria uma extraordinária festa com um fantástico DJ. Como a celebração do 25 de Abril estava a pedir uma autópsia, o nosso primeiro impulso foi seguir estas Dafnes magiares, mas logo o bom senso nos travou. Era mais provável acordarmos sem um rim do que num estupendo harém rodeados de concubinas. Terminadas as bebidas, e sem qualquer indício de celebração, saímos para a noite.

 

A noite é, para mim, um país estranho. Ao calcorrear as ruas de uma cidade desconhecida a altas horas da noite senti-me duplamente estrangeiro. Desse país agora distante, em que vivi momentos marcantes, fui-me afastando e alheando, já não como quem se afasta de um território mas de um tempo. As generosas dádivas de certas noites nunca atenuaram a crueldade das manhãs, não amorteciam a sua luz impiedosa nem a verdade insuportável da ressaca. Os hábitos das tribos noctívagas são-me tão estranhos e incompreensíveis como os de tribos canibais da Polinésia e pelos seus rituais nem sequer tenho um interesse antropológico. Como a animação noturna se globalizou, sinto-me igualmente exilado na noite lisboeta ou na noite de Budapeste: os mesmos cravas que se aprumam exageradamente antes de nos pedir um cigarro, as mesmas meninas de mini-saia desejosas de atenção mas incomodadas com olhares invasivos em danças de sedução repletas de códigos secretos e não-escritos, os mesmos grupos animados em que um dos elementos permanece um pouco à margem, incapaz de se atirar para a água e contente com os salpicos do divertimento alheio, os mesmos rapazes ancorados num bar e impacientes porque imaginam que, noutro sítio qualquer, a diversão é maior, as mesmas raparigas que, no final da noite, caminham trôpegas chorando por um imbecil.

 

A nossa noite pode ser resumida a uma tentativa falhada de encontrar a Xanadu da felicidade erótica ou as misteriosas cidades da vulva dourada onde estariam à nossa espera não 72 virgens, mas 720 ou 7200 húngaras esculturais, meigas e libidinosas que dariam razão à imortal frase de Laertes, que aconselho vivamente as autoridades a gravarem na Praça dos Heróis, ao lado da estátua de Arpad e onde haverá lugar para uma estátua de Rocco, o Sifredi:

 

- Cara, nessa cidade você só toca punheta de mão dada.

 

De bar em bar, o general Laertes de Souza arrastou as suas desmoralizadas tropas, prometendo-nos o quinhão maior dos despojos futuros. Após cada desilusão – quer no famoso Szimpla, quer em qualquer taberna por onde passámos – o nosso Moisés recobrava o ânimo e instava-nos a prosseguir a caminhada rumo à Terra da Promessa que, a cada esquina dobrada, parecia mais longe e inalcançável. Até que, vencidos pelo cansaço e pelo álcool, desistimos e regressámos ao hotel sem outra coisa para contar que não esse extraordinário cometa brasileiro em terras magiares.

 

O meu sábado em Budapeste foi dia de reflexão. Aproveitei a manhã livre para passear ao longo do rio e fotografar transeuntes, cruzei-me com turistas de várias nacionalidades, todos espanhóis, bebi um “espresso” num café onde escrevi parte desta crónica e comprei recuerdos para toda a família (t-shirts, globos de neve, puzzles, lápis de cor e matrioshkas com íman para o frigorífico que indignaram jovens turistas russas perplexas por se vender na Hungria um símbolo tão evidentemente russo; o rapaz da loja, se fosse mais inspirado, podia ter respondido “esgotaram-se os tanques em miniatura”, mas a ironia poderia escapar às longilíneas moscovitas.) À tarde, fomos levar o outro escritor português ao aeroporto, não sem antes termos devorado umas deliciosas espetadas de frango numa barraquinha perto do jardim zoológico. Regressámos ao centro da cidade àquela hora crepuscular perfeita para estes edifícios neo-clássicos, em que os amplos passeios e as avenidas largas se enchem de presenças fantasmagóricas e das memórias de cortejos festivos enquanto na penumbra e nas esquinas germinam conspirações e planos de revoltas destinadas a morrer à nascença, e no interior de um restaurante ainda com poucos clientes um carioca confessa aos nómadas o seu desejo irrefletido de viver para sempre em Budapeste.

link do postPor Bruno Vieira Amaral, às 12:22  comentar

27.11.15

(Li uma versão mais curta deste texto na cerimónia de entrega do Prémio Literário Fernando Namora, a 26 de Novembro de 2011)

 

No Discurso Sobre a Dignidade do Homem, Giovanni Pico della Mirandola escreveu assim:

“Ó Adão, não te demos nem um lugar determinado, nem um aspecto que te seja próprio, nem tarefa alguma específica, a fim de que obtenhas e possuas aquele lugar, aquele aspecto, aquela tarefa que tu seguramente desejares, tudo segundo o teu parecer e a tua decisão. A natureza bem definida dos outros seres é refreada por leis por nós prescritas. Tu, pelo contrário, não constrangido por nenhuma limitação, determiná-la-ás para ti, segundo o teu arbítrio, a cujo poder te entreguei. Coloquei-te no meio do mundo para que daí possas olhar melhor tudo o que há no mundo. Não te fizemos celeste nem terreno, nem mortal nem imortal, a fim de que tu, árbitro e soberano artífice de ti mesmo, te plasmasses e te informasses, na forma que tivesses seguramente escolhido. Poderás degenerar até aos seres que são as bestas, poderás regenerar-te até às realidades superiores que são divinas, por decisão do teu ânimo.”

Não é atrevimento da minha parte dizer que, neste excerto, em que Pico della Mirandola empresta as suas palavras a Deus, estão resumidos o drama e a glória da condição humana, o peso libertador do livre arbítrio, a responsabilidade que nos eleva, os abismos que nos tentam.

Um pouco mais adiante, Pico della Mirandola expressa o desejo de que “a nossa alma seja invadida por uma sagrada ambição de não nos contentarmos com as coisas medíocres, mas de anelarmos às mais altas, de nos esforçarmos por atingi-las, com todas as nossas energias, desde o momento em que, querendo-o, isso é possível.”

Nada havendo de reprovável neste desejo de que procuremos atingir as realidades superiores, ditas divinas, sempre me pareceu que o essencial da humanidade se jogava no plano inferior. Dito de forma mais clara: antes de pensarmos em ser anjos ou santos, importa saber como não degenerar em bestas. Basta um pouco de sensatez ou, em alternativa, conhecimentos empíricos de física, para se saber que cair é mais fácil do que subir, até porque a descer garantem-nos que mesmo os santos ajudam.

Pode parecer que uma ambição tão modesta implica uma censura do ideal, uma recomendação cautelosa para que o homem aceite, resignado, o seu lugar. O que me aborrece, porém, não é a existência do ideal, mas a crença absurda de que o podemos atingir sem que no processo destruamos parte da nossa humanidade.

Em No Castelo do Barba Azul, George Steiner afirmou que na origem do ressentimento contra os judeus estão “os três momentos em que a cultura ocidental se confronta com as “reivindicações do ideal”: o monoteísmo do Sinai, o cristianismo primitivo e o socialismo messiânico. O desafio que propõem é, resumidamente, este: “Supera-te a ti próprio. Transcende as barreiras de opacidade do espírito de modo a alcançares a abstracção pura. Perde a tua vida se a queres ganhar. Abandona as tuas posses, a tua condição, o teu bem-estar mundano. Ama o teu próximo como a ti mesmo. Sofre todos os sacrifícios, suporta todas as ofensas, sem esquecer a auto-acusação, de modo a que a justiça prevaleça” – no entendimento de Steiner, estes chamamentos diferentes porém com muitas afinidades obrigaram o homem, em vários momentos históricos, a cotejar-se negativamente com o ideal, como se a mera existência desse ideal significasse, desde logo, um rebaixamento da humanidade, um apoucamento desse estado intermédio que é o nosso. Acontece que encontramos exemplos de desumanidade não apenas naqueles que, impotentes perante o desafio de se transcenderem, procuraram destruir o ideal e quem o propôs, mas também em muitos daqueles que procuraram alcançá-lo. Quem fixa o olhar no ideal para o atingir pode ser tão desumano como aqueles que, humilhados pelo ideal, o tentaram destruir. Porque ambos, de olhos postos no ideal, esquecem-se de olhar para o humano.

Pensando nas grandes tragédias da humanidade, algumas das quais bem próximas de nós no tempo e na geografia, diria que o que falhou não foram homens que não souberam ser melhores, mas homens que não conseguiram evitar ser piores do que eram. O problema não estava nos degraus que os teriam conduzido à santidade, mas no buraco escondido debaixo dos seus pés. Sem rede, não conseguiram evitar a queda.

Ora, na minha opinião, essa rede de segurança tem nome. É uma virtude tão discreta que, em tempos felizes, é provável que nem reparemos nela. É nos tempos difíceis que vemos a falta que faz a simples e prosaica decência.

O pouco brilho da decência enquanto virtude é compreensível. Ela é uma espécie de serviços mínimos da moral. A decência, em tempos normais, não inspira feitos heróicos, ações grandiosas. Em tempos normais, pode até ser confundida com alguma obtusidade, com puritanismo, com decoro, com o escrúpulo nos costumes.

Mas o que é esta decência e por que é tão fundamental para definir a nossa humanidade?

A definição mais exata encontrei-a por acaso, quando já estava a escrever este texto. Alguém me mostrou um excerto de uma entrevista de Miguel Veiga, fundador do PPD, em que dizia o seguinte: “Tenho andado a trabalhar num conceito que é desconhecido em Portugal, ou pelo menos pouco praticado: a decência. É a tradução em calão português do maior conceito de cidadania anglo-saxónico, decency. Não vamos entrar no reino das nuvens, das grandes frases e da retórica. Uma das primeiras manifestações da decency é o trabalho competente. Aqui, quando se fala num tipo decente, é um tipo que lava as mãos ou outra coisa no bidé todos os dias. Um conceito de higiene física. Temos pouca gente decente em Portugal. É um dos falhanços do 25 de Abril, que trouxe tantas coisas, mas que nunca conseguiu criar um conceito de cidadania e de decência para a generalidade das pessoas.”

A decência é, pois, a virtude indispensável ao exercício da cidadania. Onde a decência reina sobra pouco espaço para a mitologia dos homens providenciais e dos salvadores da pátria. Quanto menos decente é uma sociedade mais precisa destas figuras excecionais que, de uma assentada, a redimam e encaminhem para a salvação.

Uma das vantagens da generalização da decência é que não é incompatível com a fruição de jardins privados de civilização e prazer. Aliás, garantida a decência de uma sociedade, os indivíduos são livres para investir nessa procura pessoal, já não visando a transcendência, mas aquilo a que chamamos, de forma burguesa, “realização pessoal.”

Individualista impenitente, confesso que o meu ideal de vida passa por entregar uma parte do meu tempo à sociedade para receber em troca a liberdade de que preciso para, na minha vida privada, procurar tudo aquilo que me dá prazer, alegria, conforto, felicidade. No fundo, procuro emular Dom Rigoberto, personagem célebre criada por Mario Vargas Llosa. Dom Rigoberto é funcionário de uma companhia de seguros, o que desde logo expõe o seu modo de vida burguês, sem turbulências. Ao mesmo tempo, este homem, na sua vida privada, procura os prazeres da cultura, da música, da arte, da literatura e também do corpo. A sua casa – com os seus livros, quadros e gravuras – é uma fortaleza, um refúgio contra a barbárie. Lê-se em O Herói Discreto: “Passar horas no seu pequeno espaço de civilização, protegido da barbárie, a contemplar as suas amadas gravuras, os livros de arte que abarrotavam a biblioteca, fazer a viagem anual à Europa com Lucrecia na primavera ou no Outono, ir a festivais, feiras de arte, visitar museus, fundações, galerias, voltar a ver aqueles quadros e esculturas mais queridos e a descobrir outros que incorporaria na sua pinacoteca secreta.” A barbárie de que aqui se fala não é a barbárie homicida dos fanatismos, não é a barbárie da violência e da guerra, é a barbárie do ruído do mundo e das suas frivolidades, é a barbárie da civilização do espectáculo, título de um livro de ensaios de Vargas Llosa.

Um homem decente pode fugir a esta barbárie quase inofensiva, refugiar-se no seu castelo pessoal, sem problemas de consciência. Dom Rigoberto, por exemplo, faz um acordo de contornos faustianos com a sociedade: dá o seu tempo em troca da sua alma, aceita um emprego burocrático desde que isso lhe permita criar um espaço privado de fantasia e liberdade, aonde não chega o braço do poder absoluto, dos totalitarismos de qualquer espécie. Mas sei que um tal egoísmo só é aceitável, só é possível, numa sociedade em que a decência seja generalizada.

Porém, há ocasiões em que a barbárie é real e ignorá-la procurando abrigo na normalidade intacta da vida privada é já uma capitulação, uma indecência. Até porque a barbárie, nas suas mais diversas formas, através dos totalitarismos de Estado e dos fanatismos religiosos, não distingue a vida pública da vida privada, não traça fronteiras entre as duas esferas. Essa distinção é em si um sintoma de civilização e decência.

A fortaleza de Dom Rigoberto só pode existir em sociedades onde o direito a construir refúgios não seja negado aos homens. Por isso, representa para mim um ideal de vida para tempos bonançosos. Já Bernard Rieux, o médico do romance A Peste, de Albert Camus, é o símbolo máximo da decência em tempos difíceis, em tempos de barbárie, em tempos da peste. Porque a peste não poupa ninguém, a sua ameaça estende-se a todos os homens, irrompe em todas as casas, entra em todos os quartos, deita-se em todas as camas.

É nesses tempos que a decência obriga a acção e, ao fazê-lo, evita que o homem degenere em besta. Tal como os ideais absolutos, a barbárie absoluta pode ser uma abstracção incompreensível para o homem comum mas, como se lê em A Peste, “quando a abstracção começa a matar-nos, é bem necessário que nos ocupemos da abstracção.” E Rieux, o médico, ocupa-se da abstracção com uma coragem serena mas inequívoca. Tendo a possibilidade de fugir da cidade sitiada pelo mal, prefere ficar ali para combater a peste, cuidar dos doentes, fazer o que pode. Não como um herói ou um santo, mas apenas como um homem decente para quem o essencial, mesmo perante o flagelo irreal da peste, “era exercer bem a sua profissão.”

A Peste, lê-se quase no fim, é “o testemunho do que tinha sido necessário realizar e que, sem dúvida, deveriam realizar ainda, contra o terror e a sua arma infatigável, a despeito das suas dores pessoais, todos os homens que, não podendo ser santos e recusando-se a admitir os flagelos, se esforçam, no entanto, por ser médicos.” Acrescento: os homens que, não podendo ser santos, sabem que a dignidade do homem está em não degenerar em besta. Os homens que percebem que, em circunstâncias semelhantes, optar pelo refúgio privado, fugir para o santuário pessoal a salvo da barbárie equivale a reconhecer o triunfo da barbárie porque esta triunfa sobre aqueles que pisa mas ainda mais sobre aqueles que se escondem, triunfa sobre aqueles que silencia mas ainda mais sobre aqueles que a si mesmos se silenciam.

São os homens que se esforçam por ser médicos, esses heróis sem heroísmo que enfrentam os maiores males apenas com o escudo da decência, que, no meio dos flagelos, nos ensinam essa lição simples e luminosa: há nos homens mais coisas a admirar que coisas a desprezar.” Nos homens, escreveu Camus. Não nos deuses, não nos santos, não nas bestas, mas nos homens. Aqueles que, em tempos de peste, escolhem a decência.

 

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19.11.15

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Um certo escritor francês, daqueles cujo nome evoca passeios na Bretanha, aristocratas melancólicos e queijos, afirmou que todos os homens têm uma secreta adoração por ruínas. Porém, na época em que o visconde de Chateaubriand viveu, o fascínio pelas ruínas nada tinha de secreto. Era uma autêntica epidemia cultural. Poetas procuravam inspiração no meio dos escombros de capelas, filósofos extraíam daí os seus pensamentos crepusculares, pintores, como Caspar David Friedrich, faziam das ruínas um dos seus principais motivos.

Estes amadores de ruínas admiravam-lhes a honestidade absoluta. Ainda que possuidoras de um estranho magnetismo e de uma beleza devastada, as ruínas mostravam-lhes o que o tempo reserva às vãs construções do homem. Confrontados com a sua própria mortalidade encontravam nessa certeza um consolo paradoxal. Como escreveu o filósofo escocês Lord Kames, as ruínas afirmavam “o triunfo do tempo sobre a força, um pensamento melancólico mas nem por isso menos agradável.” Enquanto no género pictórico conhecido como vanitas – onde ecoavam as palavras do Eclesiastes, “vaidade das vaidades, tudo é vaidade” – os pintores utilizavam caveiras, frutos apodrecidos, relógios e instrumentos musicais para ilustrar a efemeridade da existência humana, os românticos contentavam-se com as ruínas. Para que os homens nunca se esquecessem da futilidade essencial da vida e aceitassem serenamente a sua condição mortal.

Esse reconhecimento de que nascemos para morrer nunca impediu o homem de negociar com o tempo e com a morte. Quando, no auge do romantismo, certos senhores mais abastados mandavam erguer nas suas vastas propriedades castelos já em ruínas, ruínas novinhas em folha, era já neste espírito de negociação com o tempo, de exorcismo do fantasma do futuro, que o faziam. Conscientes de que não se poderiam furtar aos efeitos do tempo, antecipavam-se-lhe, criando a ilusão de que o controlavam e podiam manipular a seu bel-prazer. Agiam como os homens que inventam para si mesmos genealogias ilustres: criavam um passado com os olhos postos no futuro.

O género de futurologia a que se dedicavam era infalível: bastava dizer que tudo acabaria em ruínas. A este ramo confortável da adivinhação dedicou-se, por exemplo, Sir John Soane, o responsável pelo projeto do edifício do Banco de Inglaterra. Juntamente com o projeto, apresentou três desenhos do edifício: acabado de construir, desgastado pelo tempo e, finalmente, em ruínas. Mas antes que o tempo pudesse aplicar o seu martelo, a parte mais importante do contributo de Soane foi demolida quando, em meados do século XX, o edifício foi reconstruído. Outro arquitecto que quis antecipar-se ao tempo foi o infame Albert Speer, o arquitecto do Nazismo. Foi ele o criador da Teoria do Valor Ruína, segundo a qual os edifícios construídos pelo III Reich deviam ser pensados, desde logo, como futuras ruínas e, para tal, era preferível a utilização de materiais nobres como a pedra e não de materiais mais modernos como o aço e o vidro. Como o legado mais visível dos impérios do passado eram os edifícios, Speer tinha a esperança que, dali a mil anos, o mundo ainda pudesse testemunhar a grandeza do Reich através das ruínas que lhe sobreviveriam. Nesta negociação, se assim lhe podemos chamar, havia uma arrogância de criador todo-poderoso. A exemplo de Sloane, Speer fez desenhos dos seus edifícios em ruínas, para provar a Hitler que nem mil anos de desgaste apagariam a herança do Führer. Hitler, que não podia ser acusado de não ser megalómano, aderiu à ideia como um moribundo a quem prometessem a eternidade. Mas o tempo, uma vez mais, mostrou-se intratável. Hoje, quando passaram perto de oitenta anos dos delírios de Speer, o que resta do palco do centro de congressos de Nuremberga que ele desenhou está coberto de vegetação. Tal como Speer imaginou, mas de uma forma mais célere do que desejava.

É nas ruínas deixadas pelos crimes de Hitler e do nazismo que se passeiam algumas personagens de W. G. Sebald, que alguns definem como o último escritor romântico. Os protagonistas de Sebald são como fantasmas a vaguear por um mundo que já não lhes pertence. Fantasmas que assombram não as ruínas de uma casa, mas de um continente inteiro. Há nos seus livros um interesse pelos vestígios de um mundo que desapareceu ou está em vias de desaparecer. Como o homem é um ser para a morte, Sebald entende que também certos edifícios são, pela sua dimensão desumana, objetos para a ruína: “a arquitectura habitacional abaixo do tamanho normal […] é aquela que exprime um vislumbre de paz, ao passo que ninguém no seu perfeito juízo dirá que um edifício grande como, por exemplo, o Palácio da Justiça de Bruxelas, no velho Monte da Forca, lhe agrada. Quando muito, fica-se espantado, e esse espanto é já de si uma forma antecipada do horror, pois de algum modo sabemos naturalmente que os edifícios ultradimensionados lançam já a sombra da sua destruição, concebidos que são desde a origem com vista a uma existência futura enquanto ruínas.” Nesta passagem do seu romance mais célebre, Austerlitz, concentra-se a filosofia de Sebald, a sua cosmovisão da perda. Homens, lugares, edifícios, fotografias estão todos sujeitos à erosão do tempo. Sebald é o cartógrafo desse lento desgaste da humanidade. Faz sentido falar dos seus romances como exercícios de reconstrução a partir dos escombros. Procedem, à distância de cinquenta anos, à reconstrução do indivíduo que saiu da segunda guerra mundial. Mais do que testemunhos do horror, são deambulações pelas ruínas da cultura, por uma terra devastada que guarda a cicatriz daquilo que já foi.

Neste romances, o tempo não transforma a natureza dos objetos e das pessoas, revela-a, porque a essência (o princípio degenerativo – a erosão da paisagem natural, a ruína dos espaços e o envelhecimento e a morte dos seres humanos) habita-os desde o primeiro momento. Foram concebidos para a decadência e para o esquecimento, e não para a glória e a salvação. Sebald responde ao que Kundera chama, em A Arte do Romance, o apelo do tempo: “o romancista deixa de limitar a questão do tempo ao problema proustiano da memória pessoal [e] a alargá-lo ao enigma do tempo coletivo, do tempo da Europa, a Europa que se volta para olhar o seu passado, para fazer o seu balanço, para aprender a história, tal como um homem velho que abarca com um único olhar a sua própria vida decorrida.” Ao caminhar entre as ruínas, o herói de Sebald procura o mundo que se desvaneceu porque na decifração desse mundo está a chave da sua identidade. E tal como o Palácio da Justiça em Bruxelas contém a semente do seu próprio fim, também a fotografia de Austerlitz em criança carrega tudo o que lhe há de acontecer. No rosto daquela criança já está inscrita a marca irrevogável da morte e do esquecimento.

E a verdade é que não há ruínas mais comoventes do que os rostos. É por essa razão que a série de fotografias tiradas ao longo de 40 anos às irmãs Brown nos emociona tanto. Servem-nos de espelho. Fazemos o percurso que vai das promessas da juventude à sabedoria da idade, sentimos a dor do avanço do tempo e, por fim, acedemos à beleza e à sabedoria. Sabedoria que, por exemplo, encontramos no expressivo e monumental rosto de Samuel Beckett. Nele, tudo é ruína exceto o olhar, de uma vivacidade inquietante. Devemos então acreditar que há em nós um lugar a salvo do tempo e dos seus efeitos? Se acreditássemos nessa possibilidade então tudo o que as ruínas teriam para nos ensinar seria a arte da desesperança. Se acreditássemos num paraíso inviolado, imune à ruína e à erosão, então o fascínio que as ruínas exercem em nós seria meramente estético e o seu valor pouco mais que pornográfico.

Quero acreditar que o nosso fascínio pelas ruínas não se explica apenas pelas lições existenciais e históricas que encerram ou pela sua fealdade bela; que não nos servem apenas de medida do tempo, como defendia Chateaubriand; que contam mais do que a brevidade certa da existência. Haverá um núcleo secreto que nos atrai irresistivelmente para as ruínas e nesse núcleo encontraremos as histórias. Percebe-se melhor a ideia se compararmos as ruínas a certos edifícios, como o palácio de Bruxelas de que falava Sebald, cuja frieza e monumentalidade são desumanas, não só porque se projetam para um futuro que já não iremos testemunhar mas porque lhes faltam as histórias que os humanizem. Essas histórias que só as ruínas podem contar dizem-nos que é possível reconstruir o mundo a partir dos escombros. Ao tempo do lamento e da meditação melancólica pelo que se perdeu, sucede-se o tempo da certeza feliz de que depois de nós virão outros, depois das nossas histórias outras histórias, depois das ruínas um novo mundo.

 

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25.5.15

 

Tinha visto o anúncio rudimentar no quadro de cortiça na sala dos professores. “Aluga-se quarto. Contactar Maria Emília da secretaria.” Nessa tarde, depois do almoço, foi ver o quarto. O bairro não era tão mau quanto pensava. Havia espaços verdes e canteiros, embora mal cuidados, e um campo de jogos. Reparou que, mesmo a meio da tarde, havia muita gente nos cafés. À entrada da maior parte dos prédios havia lixo acumulado. Num baldio, nas traseiras dos prédios, ao abandono, estava um carrinho de compras. António gostou da casa. Cheirava a limpo. No quarto só havia espaço suficiente para a cama, mesa-de-cabeceira com candeeiro, guarda-fatos com espelho na porta e uma secretária, à qual tinham tido o cuidado de juntar uma cadeira que devia pertencer à mesa da cozinha. A decoração consistia numa jarra de loiça em cima da secretária e, numa das paredes laterais, numa aguarela de um velho sentado num barquinho junto a um cais. Tinham-nas comprado de propósito para criar um certo ambiente de conforto. Talvez tivesse sido ideia da mãe de Mila. Simpatizou com ambas. Foram agradáveis sem ser intrusivas. Foi Mila quem lhe mostrou o quarto.

 

“Era o nosso quarto, meu e do meu irmão. Tínhamos de partilhar porque não havia mais quartos. Era um bocado chato, mas pronto, se o professor ficar cá não vai ter esse problema.”

 

Pediu desculpa por não ter televisão no quarto. Mas se António quisesse ver o noticiário ou algum filme fora do horário da telenovela, podia juntar-se a elas na sala. Mila dizia isto a rir. Era bem-vindo. O preço do quarto, trinta e cinco contos, não incluía alimentação porque, Mila fez questão de explicar, ela e a mãe nem sempre cozinhavam. À noite bebiam chá, comiam uma peça de fruta e ninguém era obrigado a seguir o mesmo regime, “o nosso ramadão”, disse na brincadeira. Mas António estava à vontade se quisesse cozinhar. Uma das prateleiras da despensa era para ele. E podia usar o frigorífico à vontade. Mila era uma mulher bem nutrida. Talvez fosse o ramadão a impedi-la de engordar. A janela do quarto dava para o baldio. António ficou contente. Achou aquela paisagem de uma beleza inesperada. Resolveu ficar ali.

 

Nos dois primeiros meses, António só foi uma vez a Leiria. Quase todos os dias depois do jantar, telefonava a Luísa. Eram conversas curtas sobre as aulas dele, as histórias do Dr. Nóvoa, uma rua fechada no centro do Leiria. Luísa perguntava-lhe como é que ele se estava a dar com aquilo. Ele respondia sempre da mesma maneira, que não desgostava, era uma experiência.

 

“Depois já não vais querer nada com Leiria. Nem comigo.”

 

“Não digas parvoíces.”

 

Vendo que o rapaz saía quase todas as noites para telefonar à namorada, Mila disse-lhe que podia usar o telefone lá de casa. A factura era detalhada. Fariam as contas no fim do mês.

 

“E o professor pode levar o telefone para o quarto. Para poder falar à vontade com a namorada.”

 

Ao dizê-lo, sorriu. António notou um registo diferente na voz de Mila. À graça jovial que lhe era característica, acrescentava um tom de proximidade descontraída, natural quando duas pessoas conquistam um certo grau de confiança. Apesar desse novo à-vontade Mila tratava-o a preceito, formal, “o professor”. Era um entendimento.

 

António aproveitava algum tempo livre para passear pelos arredores. Ia até à baía do Seixal, sempre com o seu bloco, visitava a velha fábrica de cortiça, transformada em ecomuseu, os moinhos de maré, as esplanadas ribeirinhas de onde, à tarde, via a cidade de Lisboa distendida num amplo e luminoso esplendor. Duas vezes por mês ia ao cinema a Lisboa, hábito cultivado desde os tempos da faculdade. Dava aulas a turmas do 5º e do 6º. Os miúdos gostavam dele. Era um professor meio “aluado”. Um dia, um dos alunos reparou que trazia uma meia de cada cor. Costumava chegar atrasado e sonolento.

 

Nos primeiros tempos, quando regressava dos telefonemas, António ia logo para o quarto. Ligava o rádio e, deitado na cama, lia um livro ou sentava-se à secretária a desenhar coisas que vira durante o dia, o padrão das migalhas na mesa do bar, o movimento das folhas dos plátanos nos canteiros que separavam os blocos da escola, o rosto de toupeira de uma colega, professora de Técnicas Administrativas. O pai quis oferecer-lhe uma televisão. Ele recusou. Não ter televisão era das melhores coisas daquele quarto. Mais tarde, com o tempo, e a insistência de dona Adelaide, António começou a sentar-se na sala, a ver a telenovela, cansado, distraído.

 

“Quando o professor voltar para a sua terra não pode dizer que anda a ver a telenovela.”

 

“Acho que ninguém ia acreditar.”

 

Aquela familiaridade aconchegava-o. Tinha decidido dar aulas longe de casa porque precisava de estar sozinho, de ver as possibilidades que a vida lhe podia oferecer. Assustava-o a ideia de acabar o curso, ir trabalhar para o amigo do pai, casar com Luísa, ter filhos e, de repente, a vida ter passado por ele sem que fosse ouvido sobre o assunto. Gostava de Luísa, sem dúvida, até mais do que esta decisão faria supor. Para si mesmo, António pensava em trazê-la para perto dele. Só que queria que fosse ela a tomar a decisão. Queria que Luísa arriscasse, chegasse ao pé dos pais e lhes dissesse que ia viver com ele num apartamento reles da margem sul, que bastava o ordenado de professor. Ela havia de arranjar um emprego num consultório, como recepcionista ou empregada numa loja de roupas. Porque é que aquela vidinha em Leiria, entregue de bandeja, sem questões, sem resistência, era a melhor, a única, que podiam conceber? Mas esperar uma decisão dessas por parte de Luísa era inútil. Ela nunca o faria. Nem sequer era capaz de o visitar. Seria um escândalo. Então António deixava o tempo passar e aquela vontade inicial de estar sozinho, isolado, começou a abrir frestas. Transformara-se numa solidão suburbana, sem qualquer glória, improdutiva. Tinha de a combater de alguma maneira. Para começar, servia-lhe estar sentado no sofá ao lado de Mila, vendo a telenovela brasileira com dona Adelaide, abancada no cadeirão majestoso cujo braço recebia o telefone para o caso de o filho ligar de Inglaterra. Quando a telenovela acabava, dona Adelaide levantava-se, dava as boas noites e ia para a cama. António também ia para o quarto. Mila ficava na sala a ler livros de mistério, thrillers, Robin Cook, romances de amor, Danielle Steel. A luz do quarto incomodava a mãe. Uma noite, intrigado pela leitura de Mila, que passou o episódio inteiro da telenovela a ler, António perguntou-lhe que livro era. Mila reagiu como se visse um peixe a morder o isco.

 

“Contágio. É sobre uma epidemia. Isto é viciante. Uma pessoa não consegue parar.”

 

Não era o tipo de leitura que interessasse António.

 

“Então de que livros é que o professor gosta?”

 

Tanta coisa. Agora estava a ler O Cérebro de Broca, de Carl Sagan. Mas havia um escritor inglês muito bom, Ian McEwan. Era o preferido. Tinha lido quatro livros e eram todos magníficos. Eram histórias um tanto urbano-depressivas. Mas mais do que livros o seu grande fascínio era o cinema.

 

“A sério? Também adoro cinema. Adoro mesmo. Quando era miúda, lá em Moçambique, íamos todas as semanas. Depois quando viemos é que deixei de ir. O meu ex-marido também não gostava. Mas agora vou mais vezes, aos fins-de-semana. Assim o que gostei mais foi um que é As Pontes de...

 

“...Madison County”

 

“O professor também viu esse? É lindo, lindo. Uma história tão triste e tão linda. Gostei mesmo.”

 

António não tinha visto mas sabia qual era. Todas as mulheres assim da idade de Mila gostavam desse filme.

 

“Puxa! Da minha idade? Mas que idade é que o professor acha que eu tenho?”

 

Gargalhou. António desculpou-se. Queria dizer é que não era um filme para miúdas.

 

“E conhece assim tantas mulheres da minha idade?”

 

Assinalou “minha idade” com aspas e olhou o rapaz directamente nos olhos. António sentiu um aperto. Ao fim de dois segundos fraquejou e desviou o olhar. Mila tinha um rosto bonito, olhos grandes, cheios de vida que, ao sorrir, realçando as pestanas, ganhavam uma languidez que apetecia. Andava sempre muito arranjada, lábios e olhos pintados. Tinha tendência para engordar mas aos trinta e nove anos, sem filhos, era apenas voluptuosa, carnal. Uma mulher sem artifícios, vivida, mais velha do que ele. A consciência dessa simplicidade afectou-o. Teve vontade de a beijar nesse momento, de lhe sentir o corpo, queria saber o que uma mulher assim diria no momento do prazer. Era como a manifestação viva de uma outra vida, mais real, mais autêntica, de mulheres que liam thrillers, viam telenovelas, sobreviviam a divórcios e viviam nos subúrbios com a mãe: a vida real e pulsante. Naquele momento, o namoro com Luísa pareceu-lhe tão artificial como um romance do início do século XIX. Lembrou-se das conversas frouxas com a namorada, em obediência a um final que os dois já conheciam, um guião pobre. Com Mila, mesmo começando a conversa sobre livros e filmes banais, havia imprevisibilidade, espírito, o agridoce da sedução. Sem o saber era isto que António procurava quando decidira dar aulas e ficar longe de Leiria: o imprevisível.

 

“Não tem de responder. Diga-me lá então de que filmes é que gosta?”

 

Pousou o livro no cadeirão da mãe. Aconchegou-se no sofá, as pernas dobradas, como uma adolescente.

 

“Bem, embora eu não tenha um ranking de filmes, porque aquilo que um filme nos diz depende da fase da vida em que o vemos, se tivesse de escolher um filme diria que é As Asas do Desejo.”

 

“O professor é atrevido. Isso é erótico? Nunca ouvi falar desse filme.”

 

“Não. É um filme a preto e branco, uma história sobre anjos caídos.”

 

“Como A Cidade dos Anjos? Vi esse há pouco tempo. Adorei.”

 

António explicou-lhe que A Cidade dos Anjos era na verdade um remake de As Asas do desejo, mas que este era uma obra-prima e o outro era apenas um filme romântico, kleenex, este sim para mulheres de todas as idades. E inebriado pelo desejo que começara a sentir era como se fosse mais fácil encontrar as palavras para dizer o que pensava sobre o filme, como se o tesão por aquela mulher aclarasse as suas ideias, o fizesse perceber tudo com total nitidez, não só o filme de Wim Wenders, mas a sua vida, a situação em que se encontrava. Teve a certeza – e nunca sentira nada semelhante, com tanta clarividência – que Mila também o desejava. Nunca tinha percebido com tanta clareza que uma mulher o queria, e imaginou que dali a poucos minutos estariam no quarto dele, na cama, o seu corpo nu a roçar a camisa de noite, a cuequinha de estampado de tigre – e essa pequena nota de mau gosto, expressão de uma noção básica de sensualidade e erotismo, essa nota que noutra mulher seria indesculpável, tornaria Mila numa mulher completamente desejável, porque ela era assim, real, autêntica – e quando finalmente se despisse, António sentiria o cheiro a óleo de côco por toda a pele e então ela, sábia, com a sabedoria do mundo e da vida, da idade, muito longe das repetições decoradas e infantis de Luísa que tudo o que fazia era o que pensava que ele gostaria que ela fizesse, pegaria no pau molhado, “Ai querido como tu estás”, e conduziria a mão dele para a cona quente, para que também sentisse como ela o queria, e ia chupar os dedos dele e ia gemer e ia dar-lhe os dedos dele a chupar para que os dois sentissem o sabor do desejo dela, e então ia recebê-lo, controlando-lhe o ritmo e quando ele, inexperiente e ávido, estivesse para se vir, ela ia perceber e dir-lhe-ia então ao ouvido: “Amor, tens de o tirar.” E ouvir aquele “amor” assim, dito por uma desconhecida, era o último impulso para que se viesse para cima das mamas, da barriga, das pernas, “é tão bom, amor”, e ficaria a vê-la espalhar o sémen pelo resto do corpo, como se se inundasse.

 

“Tu falas muito bem. Gosto de te ouvir. Gosto mesmo de te ouvir.”

 

Tinha acabado.

 

“É fácil uma mulher apaixonar-se por ti. É muito fácil.”

 

António tinha vontade de chorar. Mila olhou para o relógio.

 

“Caramba, já é tão tarde. Caminha, professor. Depois chega tarde à escola e ainda começam a dizer que a culpa é da Mila.”

 

António levou muito tempo a adormecer. Esperou que Mila entrasse no quarto. Mas ela não veio. Nem nessa noite nem nas noites que se seguiram. António deixou de se sentar na sala para ver a telenovela. Desculpava-se com o excesso de trabalho. Ia à rua fazer o telefonema, voltava e dirigia-se para o quarto. Precisava de se afastar do corpo de Mila.

 

Quando o ano lectivo acabou, António regressou a Leiria. Falou com o pai. Queria saber se aquilo do Delgado ainda era válido. Luísa ficou muito feliz. Os pais dela também. Quando anunciaram o casamento no ano seguinte, o Dr. Nóvoa fez questão de lhes oferecer a viagem de lua-de-mel. O copo-de-água foi retumbante. Uma cerimónia com mais de duzentos convidados, numa quinta escolhida pelo sr. Joaquim, com mesa de queijos e conjunto musical. Sete anos depois, quando já havia falatório, nasceu Núria, no Hospital Magalhães Lemos, com 2.900kg, a 2 de Setembro.

 

“Parabéns a você, nesta data querida”, os empregados do restaurante juntaram-se para cantar os parabéns. Núria estava eufórica. Soprou as velas. A mãe deu-lhe um ralhete. António foi abraçado pelo sogro: “Que contes muitos e que nós estejamos cá para os ver.” Luísa beijou o marido. Um beijo. António recordou-se daquela noite num apartamento na Cruz de Pau. Nunca conseguiu perceber o que tinha dito sobre o filme, As Asas do Desejo, mas sabia que chegara a uma verdade essencial a que nenhuma reflexão árida, inteiramente intelectual, o poderia ter levado. Sentiu que atingira um cume da existência, um lugar belo, em que o que se pensa, o que se sente e o que se deseja se une numa amálgama, um momento em que um homem se realiza na indescritível harmonia entre o interior e o exterior. Um momento destes jamais se repetiria. Só lhe restava guardá-lo, pensar nele de vez em quando, afagar a sua realidade ténue. Naquele momento, há muitos anos, sob o efeito do olhar de Mila, foi capaz de amar tudo, toda a gente, Mila, Luísa, os pais, toda a humanidade, todas as palavras, todos os objectos: a jarra banal sobre a secretária, os livros de Robin Cook, a aguarela ingénua na parede do quarto, As Pontes de Madison County, um carrinho de compras abandonado no baldio.

 

 

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14.3.15

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«Por vezes, o livro incorre em equívocos: o catolicismo não é, em abstracto, mais sombrio do que o protestantismo, depende dos contextos teológicos e geográficos; certas características “neopentecostais” estão bastante presentes em grupos “carismáticos”católicos; e não é mesmo possível tratar como “doutrinariamente sãs” doutrinas tão diferentes como o intelectualismo bíblico dos baptistas e a arenga de televendas de alguns “evangélicos.”»

 

Pedro Mexia, Expresso

 

Agradecendo ao Pedro Mexia a leitura que fez do meu livro, Aleluia!, quero, no entanto, discutir estes equívocos em que o livro, de acordo com o crítico, incorre.

 

Só por uma vez refiro o carácter sombrio do catolicismo em oposição a certas práticas das igrejas neopentecostais. Não digo que o catolicismo é, em abstracto, mais sombrio, até porque falo do “nosso” catolicismo. Ainda assim, poder-se-á argumentar que nem sequer o “nosso” catolicismo é mais sombrio, ou menos, ou outra coisa qualquer, porque haverá sempre uma igreja, um padre ou um fiel que não correspondem a essa descrição. Como é fácil de compreender, isso dificultaria em muito qualquer discussão sobre este tema. Para se perceber então o contexto em que aquela afirmação aparece no livro, transcrevo o excerto: “Não são apenas as gargalhadas no final dos cultos que causam estranheza. Em 2001, o jornal online Urbi et Orbi, da Universidade da Beira Interior, publicou uma reportagem sobre igrejas evangélicas na Covilhã. Uma das fiéis, jovem baterista de 24 anos, dizia que abandonara a Igreja Católica por achar que era «muito monótona. Não podíamos fazer barulho, enquanto aqui há louvor e alegria». À primeira vista pode parecer um motivo fútil, mas esta relação musical com a religião, a intensidade medida pelos decibéis, é cativante porque representa uma forma descontraída e alegre de viver a fé que contrasta com o nosso catolicismo sombrio e punitivo. Contra a depressão, o louvor.”

 

Quando Mexia afirma que “certas características neopentecostais [eu diria pentecostais] estão presentes em grupos carismáticos católicos” não sei qual é o equívoco em que o livro incorre. Na página 26 pode ler-se: “Oitenta anos depois, em Portugal, a realidade das Assembleias de Deus afastara-se das origens febris da rua Azusa, numa altura em que o movimento pentescostal continuava a crescer a um ritmo frenético no resto do mundo e acabava por influenciar, de forma mais ou menos directa, outras denominações evangélicas e mesmo algumas correntes carismáticas no interior do catolicismo.

 

Quanto ao terceiro equívoco, a expressão “doutrinariamente sãs” [em referência às igrejas evangélicas baptistas] não é um termo para separar os baptistas dos outros mas utilizado internamente quando, por exemplo, um pastor baptista promove alterações na sua igreja que a afastam da “sã doutrina”. Creio que, neste ponto, serão os próprios pastores baptistas as pessoas mais indicadas para explicar o conceito e admito que a minha interpretação possa ser equívoca.

 

No entanto, há várias passagens no livro em que as diferenças doutrinárias entre protestantes tradicionais [e até menos tradicionais] e os “pseudo-pastores” de "televendas" são referidas. Não interessa a minha opinião, apesar de no último capítulo ela ser evidente, mas a opinião das pessoas com quem falei e que reafirmaram as diferenças doutrinárias entre os vários movimentos. Esta é uma afirmação de João Viegas: «Eu estudei a Bíblia. Posso discutir teologia com um padre, mas com um desses pastores das neo-pentecostais não há discussão possível, não têm bases.» Este é um excerto sobre Tiago Cavaco: «Por exemplo, Tiago considera que, de um ponto de vista teológico, os neo-pentecostais estão errados. Tal como João Viegas se sente mais à vontade a debater com um padre do que com um pastor neo-pentecostal, Tiago também considera que «um evangélico estará sempre mais próximo de um bom católico». E este é sobre o pastor Jorge Leal: “«No meu tempo, havia nas aldeias a figura do tolinho, a quem se permitia que dissesse tudo, todas as verdades, sem ser punido.» Para o pastor Leal, igrejas como a IURD e a Maná fizeram o papel do tolinho e, graças a essa actuação, chegaram às pessoas a quem a mensagem se destinava.»

 

Resumindo: não serei eu a determinar que igrejas ou movimentos são doutrinariamente sãos nem o procurei fazer. Tenho a minha opinião sobre alguns desses movimentos e sobre alguns desses pastores e que, provavelmente, não será diferente da do Pedro Mexia ou da opinião destes três pastores (ainda que para alguns, por exemplo, o João Viegas possa ser considerado um pseudo-pastor) com quem falei. Mas independentemente das fragilidades doutrinárias é incontestável, na minha opinião, que a IURD representou um papel fundamental na alteração do panorama religioso português. E em consciência eu não podia desvalorizar esse papel só porque doutrinariamente a IURD não me parece tão sólida (e reforço que, neste caso, a minha avaliação sobre a solidez doutrinária vale muito pouco) quanto as igrejas protestantes tradicionais. Arrisco uma comparação: interessa menos o teor das publicações de Larry Flynt do que a importância que ele teve na defesa da liberdade de expressão.

 

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23.1.15

Se tiver de pensar numa cena de sexo dos livros de Eça de Queirós a primeira de que me lembro é entre Luísa e Basílio. Luísa é uma daquelas mulheres a quem o casamento reveste de uma segunda virgindade, uma mulher a caminhar com um manto casto pelos ombros. O ambiente em casa de Luísa não é punitivo nem puritano, mas também não convida a exercícios selvagens e indecorosos. Imaginamos o amor matrimonial de Luísa, as suas concretizações, como tudo o que é regulamentar, monótono e missionário. Luísa, apostamos, não se entrega ao marido, abandona-se sem paixão e sem aborrecimento, com competência de funcionária para não denunciar a insatisfação. A chegada de Basílio é um rasgo de incadescência a que não basta arder em modo vela de altar, com aquele fogo brando, constante e inalcançável. Tem de queimar. E Luísa queima-se. O corpo, até esse momento um chão tranquilo, uma cama feita, primeiro aquece, como um corpo que se estende num banho tépido e, depois, incendeia-se. É esse aquecimento sentimental que torna inesquecível a combustão do corpo de Luísa. A sua amiga devassa, cuja influência é temida pelo marido de Luísa, é senhora de um corpo devastado, atravessado por muitas ilusões breves, tornado insensível ao prazer por conta desse desgaste moral. Nota-se um certo engelhamento, uma diminuição da capacidade física para o amor. É um pão de há três dias. A frescura de Luísa, a sua vicejante virgindade moral, apenas levemente irritada pela leitura de romances, é o que transforma aos olhos do experimentado Basílio a priminha banal numa fêmea apetecível. A falta de gosto e de classe, o provincianismo amoroso de Luísa, empresta-lhe ao corpo a graça inaugural dos territórios inexplorados. Há nela uma combinação de disponibilidade e de iliteracia sexual que, num primeiro momento, é mais prometedora do que a sabedoria de qualquer cortesã capaz de conjugar todos os verbos da cama. Luísa não é fome, é vontade de comer. Então chega essa cena tão arrojada e tão sugestiva, tão aguçada e tão subtil, em que o libertino Basílio culmina o seu repertório tropical com a execução de um cunnilingus que, independentemente dos méritos técnicos, marca um momento de viragem no adultério de Luísa e no desenvolvimento do romance. É o ponto de não retorno. A partir daqui Luísa não pode voltar para trás. Até então, era Eva em diplomáticas, mesmo que já carnais, conversações. Naquele momento, a vontade de comer dá, finalmente, a dentada na maçã. E começa a tragédia.

Umas páginas atrás, testemunhámos o primeiro êxtase. É um êxtase inocente, cândido, juvenil, causado pela leitura de uma carta (não é de estranhar visto que é através da leitura que Luísa está habituada a experimentar esses sentimentos incomuns). Mas em toda a inocência esse breve parágrafo está carregado de mais erotismo do que as futuras (e, a esta escala, explícitas) descrições. O sentimento descrito por Eça é o de um corpo na ressaca do êxtase físico e não uma alma a comprazer-se num banho sentimental. É aquela carta, são aquelas palavras que desfloram Luísa pela segunda vez, que rompem o selo da sua virgindade matrimonial. A imagem do corpo num banho tépido remete também para uma ideia de prazer auto-infligido. A leitura da carta equivale a uma cena de masturbação (como bem sabemos, a leitura é uma forma apurada de masturbação). Mais tarde, temos o clímax da licenciosidade. Basílio vai longe demais. A Luísa, por muito voluntariosa que seja, falta-lhe o estofo da cortesã. Aquele gesto precipitado e inevitável descobre-lhe lamentavelmente as insuficiências . Quando, no fim, Basílio deplora, na conversa mais porca da literatura portuguesa, o ridículo de Luísa, já após a morte desta, é que sentimos o quão longe aquele comportamento estava da verdadeira vocação de Luísa.

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20.11.14

Rebeca e Mário foram viver para aquele segundo andar na Moita após um Inverno muito chuvoso. A chuva atrasou as obras de reparação do telhado. Quando ocuparam o apartamento de duas assoalhadas, os operários da empresa de construção ainda estavam a fazer os preparativos para reparar a goteira. Como vieram a perceber, este era praticamente o único problema sério no prédio. A infiltração resultara numa mancha de humidade em expansão no tecto do 3º esquerdo – o último andar –, habitado por um casal nos quarenta que, talvez por causa de todos os incómodos, pareceu aos novos moradores o mais antipático. Da casa deles não vinha o barulho de vidas normais, apenas o som constante de música clássica, normalmente piano, que soava como uma cobertura sonora para abafar a vida, evitando que os outros pudessem depreender, pelas narrativas que os sons compõem, o que se passava no interior. Falavam pouco. Ao contrário dos vizinhos, não iam ao café que funcionava no rés-do-chão. Idalina, da casa em frente à deles, era o oposto. Se se pode admitir a existência de tal coisa, era ela a alma do prédio. Conversadora e rodopiante, tinha madeixas, usava decotes que chocavam as outras mulheres menos pela falta de decoro do que pela exibição impudica de felicidade. Era auxiliar na escola secundária. A mesma onde o vizinho dava aulas. O marido de Idalina era agente da PSP. Pesado, passava por bonacheirão devido à lentidão graciosa de paquiderme. Faziam um par perfeito naquele desencontro e nas contradições. Ela dava-lhe beijinhos em público, prodigalizava-lhe carícias. Era viva. Ele respondia com gestos vagarosos, agradecimentos envergonhados. A memória humana de um grande mamífero já extinto.

 

Foi no segundo Verão de Rebeca e Mário no prédio que apareceram as baratas. Rebeca encontrou a primeira a boiar no balde da cozinha. Uma noite, depois de voltarem do cinema, Mário viu outra a atravessar o hall em direcção à sala. De início, não disseram nada aos vizinhos. Tinham receio que fosse um problema da casa. Talvez os outros pensassem mal deles, supusessem faltas de higiene. Só quando começaram a aparecer baratas mortas – encarquilhadas, encolhidas – nas escadas do prédio é que os vizinhos falaram. Concluiu-se que todos tinham o mesmo problema e, por vergonha, não tinham dito nada. Nesta altura, a invasão atingira um pico e não era raro encontrar duas e três baratas na casa-de-banho, nos corredores, nos quartos e nos armários da cozinha. Contrataram uma empresa de desinfestações. Os funcionários eram discretos. Demoravam nas observações e desaceleravam os gestos para parecerem mais eficientes. Fumigaram as escadas e as condutas de ar, a cave e as garagens. Durante uma semana não se viram baratas, excepto as poucas que vinham morrer à luz. Só dona Tomásia, a moradora mais antiga, disse que elas iriam voltar. Lembrava-se bem de como fora há uns anos. Centenas de baratas festivas, teimosas e, por fim, maníacas, cegamente dedicadas à propagação, à ocupação geométrica de cada metro quadrado. Tinha a certeza de que acabariam por voltar. E assim foi. As baratas regressaram mais fortes e resistentes do que nunca. Estavam agora por todo o lado. De manhã eram às dezenas nas escadas, à entrada do prédio, nos caixotes do lixo abraçados aos postes de iluminação de onde saíam pelas bocas verdes como trabalhadores do fundo de uma mina. Após mais uma desinfestação mal-sucedida, os inquilinos dedicidiram contactar os serviços da Câmara. Já não era só uma questão de salubridade, era política. Em causa estavam a saúde pública, sim, mas também votos e lugares na vereação. Afinal, soube-se que o problema afectava todos os prédios das redondezas, construídos sobre um antigo campo de milho cujas sementes vindas da América ali tinham chegado depois de atravessarem o Atlântico em grandes cargueiros oxidados. À boleia marítima, entre as sementes de milho, clandestinos, tinham vindo os antepassados destas baratas. Se pudessem testemunhar os sucessos dos seus descendentes, por certo ficariam orgulhosos de comprovar como em poucas gerações um grupo inicial de baratas tontas de porão atingira o prestigiado estatuto colectivo de praga, para desespero das pacíficas gentes humanas com quem partilhavam o território. Podia proceder-se a uma desinfestação a larga escala mas o conselho sensato do vereador foi esperar que o tempo quente passasse e rezar para que no ano seguinte chovesse mais. Fez-se a grande desinfestação, as baratas recuaram, houve um novo e pequeno surto no final de Setembro e, em meados de Outubro, não se viram mais. Nem nos anos seguintes.

 

O marido da senhora do 1º esquerdo tinha morrido há muito. Dos actuais habitantes do prédio, nenhum o conhecera, embora se falasse do senhor Figueiredo com a reverência com que se fala de um antepassado nobre ou de um fundador da nação. Debilitada por uma doença renal, dona Tomásia recusava-se a ir para um lar ou para a casa do único filho, que vivia em Torres Vedras e que, com a pontualidade que visa substituir a falta de afecto, visitava a mãe de quinze em quinze dias. A partir de certa altura, depois de quase ter pegado fogo à casa, a senhora começou a receber a visita da carrinha do apoio domiciliário da paróquia. Deixavam-lhe a marmita com o almoço, faziam-lhe a higiene pessoal, limpavam-lhe a casa. Dona Tomásia gostava das raparigas, da animação que traziam à casa naqueles momentos fugazes, das piadas, do que lhe contavam sobre as suas vidas. Era um intervalo de alegria. Com o passar do tempo e o agravamento das doenças, a senhora começou a gritar à noite, gritos horrendos de sofrimento. Da primeira vez que a ouviu, Idalina, que tinha uma cópia da chave para qualquer emergência, levantou-se e foi a correr para acudir à velhota. Noutras vezes, era apenas um choro persistente, uma queixa prolongada como uma dor aguda que o tempo tornara crónica. Um dia, no terceiro ano de Rebeca e Mário no prédio, as auxiliares tocaram à campainha, esperaram durante muito tempo mas já ninguém abriu a porta.

 

Foi poucos meses depois da morte de dona Tomásia que o casal do apartamento em frente se mudou. Anunciaram a compra de um portentosa vivenda – detalhavam o número de assoalhadas e os metros quadrados, os azulejos luxuosos, a cozinha gigantesca e moderna, os electrodomésticos encastrados, o pequeno jardim e o barbecue nas traseiras onde até podiam instalar uma daquelas piscinas grandes de plástico – “quase a chegar a Palmela”, e a incerteza do lugar era uma maneira discreta de marcarem distâncias, de se separarem definitivamente daquelas pessoas e daquele prédio e daquelas vidas de apartamento em que, à noite, se ouvia a poderosa torrente de urina do vizinho, os chinelos arrastados pela madrugada, as discussões que explodiam num segundo e que duravam muito para lá do silêncio, subsistiam nos olhares, como o rasto de poeira brilhante de cometas intensos, e na forma nada solidária como os casais subiam as escadas nos dias seguintes. Arrendaram a casa e em pouco tempo, com a sucessão de inquilinos, os equilíbrios do prédio colapsaram: primeiro, esteve lá uma professora de Educação Física com o seu grande Labrador, cujo latido alastrava pelo prédio como se o cão estivesse preso nas paredes ou como se o próprio prédio estivesse a latir; mais tarde, foi para lá um casal com os três filhos adolescentes; durante uns meses, tão breves que nem toda a gente se lembrava delas, duas raparigas brasileiras viveram lá com grande discrição. Cada inquilino trazia hábitos – até pela ausência, pela invisibilidade – a que os outros tinham de se adaptar. Perante estas mudanças constantes, o casal do 3º esquerdo vivia cada vez mais afastado e, resolvido o problema do telhado, só a música clássica que se ouvia através da porta sinalizava a permanência deles no prédio. De resto, era como se estivessem mortos.

 

Idalina desapareceu durante meses. Ninguém comentou o assunto porque se percebeu logo que aquilo era coisa entre o casal. Uma noite, Idalina saiu de um carro e encontrou-se com o marido à porta do café. Passou-lhe para as mãos uma caixa. Despediu-se com um beijo no rosto. O marido não se virou logo. Por instantes, ficou parado, com a caixa nas mãos, como se o que tinha acabado de acontecer desafiasse a lógica, estivesse tão para além do que a sua mente, acantonada numa bondade intrínseca, podia conceber, que aquela imobilidade pasmada, aquela incompreensão muda, era a única vénia possível ao milagre que ali se produzira. Idalina já não pôde ver o marido transformado em estátua de sal. Ocupou o lugar do passageiro do carro que a esperava. Sem acender imediatamente as luzes, o carro arrancou e, passados uns segundos, desapareceu no meio das ruas sombrias.

 

Rebeca soube que estava grávida no dia em que nasceu o filho dos vizinhos. Mário telefonou logo aos pais, contra a vontade da mulher que queria esperar até às doze semanas para dar a novidade. Quebrado o selo do segredo, decidiram contar à restante família, aos amigos e até, mais por diplomacia do que por entusiasmo, aos colegas de trabalho. Choveram felicitações, presentes, os pais de Mário quiseram abrir uma conta para o neto – o avô tinha a certeza de que seria um rapaz – e a mãe de Rebeca comprou logo a roupa que a criança haveria de usar no dia em que saísse da maternidade. Começaram a ver sítios de decoração de quartos de bebé e já tinham uma ideia de como iria ficar o quarto que, até então, servia de escritório. De cada vez que encontravam os vizinhos e viam o bebé sentiam admiração, inveja saudável e impaciência. Faltavam pouco mais de seis meses. Um dia, já depois de ter feito a ecografia dos três meses, Rebeca estava no trabalho quando sentiu uma picada na barriga. Foi à casa-de-banho, viu que tinha uma ligeira perda de sangue. Ligou para Mário com um pânico controlado. O marido aconselhou-a a ligar para o obstetra. Não estava no consultório. O telemóvel, desligado. Rebeca tranquilizou-se pensando que seria nada. Tinha ouvido dizer que aquelas perdas eram normais. Nessa noite, já deitada, sentiu uma dor aguda, muito forte, uma cólica prolongada. O sangue espalhara-se pelo lençol.

 

Os tempos seguintes foram muito duros. Rebeca esteve um mês de baixa. Sozinha em casa, chorava ao entrar no quarto do bebé e via os sacos em que arrumara as roupas que lhe tinham dado, ao ver na barra de favoritos o sítio de decoração. Ouvia o choro do bebé do lado, tapava os ouvidos com as almofadas e chorava mais. Secretamente, loucamente, desejava que aquela criança morresse. Não, tanto também não, desejava apenas que os vizinhos mudassem de casa, fossem para longe, para onde aquela felicidade solar não a atingisse. Mário também sofria. Falavam pouco entre si. Confortavam-se com o silêncio, beijavam-se sem dizerem nada, amavam-se sem palavras, adormeciam com uma esperança triste. Quatro meses depois, Rebeca descobriu que estava grávida. Fizeram o teste em casa. Quando viram o resultado, sorriram um para o outro. Beijaram-se com um contentamento sereno. Oito meses depois nascia Laura, uma linda menina. No dia seguinte, os pais de Mário abriram uma conta em nome da neta que, à saída da maternidade, vestia a roupinha que a avó materna lhe comprara.

 

Certa noite, o prédio e a vizinhança foram sobressaltados pela sirene de uma ambulância. O professor do 3º esquerdo sofrera um AVC. Esteve cerca de um mês no hospital. Quando regressou a casa, amparado pela mulher, havia no olhar dele algo diferente, uma vulnerabilidade, uma fragilidade que agora era dos dois. Falaram com os vizinhos demoradamente, como nunca tinham feito até então a não ser quando se queixavam da situação do telhado que lhes estava a dar cabo do tecto. Agradeceram as ofertas de ajuda, o cuidado. Tornaram-se mais humanos ou, pelo menos, era assim que se comportavam. Pouco minutos depois de terem entrado em casa, fechada à chave por dentro, ouviu-se novamente o som de música clássica. Peças para piano. Muito tristes.

 

Nada fazia prever a separação do casal que vivia em frente de Rebeca e Mário, os que tinham o filho que era um ano mais velho que Laura. Na altura devia ter três anos e eles exibiam o mesmo ar de felicidade simples de sempre. Nunca se lhes ouvira uma discussão, e se aos gestos lhes faltava a cumplicidade amorosa notava-se-lhes uma entreajuda sincera. Via-se quando carregavam os sacos de compras do carro: ela com o pequeno ao colo e o marido, pousando os sacos, tirava-lhe as chaves da carteira. Havia em todos os momentos uma felicidade abrangente que dominava a rotina, tantas vezes a fresta por onde se insinua o tédio, as recriminações e, por fim, o ódio. Ele punha-lhe o açúcar no café, mexia-o, ela respondia com um sorriso de agradecimento. Quando tinham visitas em casa ninguém suspeitava de algum mal-estar, não havia indícios de fadiga, de ruptura iminente, não se ouviam aquelas palavras mais bruscas e impensadas que encontram caminho com um copo a mais, o instante de ar contrariado quando se tem de ir buscar à cozinha uma coisa que o outro devia ter trazido, o olhar de recriminação – intenso ainda que não ostensivo – por alguma coisa que ele se esqueceu de comprar, a censura por um comentário menos resguardado sobre alguém que não estava presente: da vida daquele casal estavam ausentes todas essas coisas que sugerem uma dificuldade. Não se notava o esforço de encenação concertada em que alguns casais à beira da ruptura se especializam quando recebem convidados. Até que, inesperadamente, ele saiu de casa para, ao que se dizia, ir viver com uma mulher de quem era amante desde o primeiro ano de casamento. Tudo se passara em discrição e sigilo, encontros programados com antecedência, até que Esmeraldo cometeu a imprudência de pagar uma noite numa pousada em Estremoz – quando devia estar em Coimbra – com o cartão de crédito. Consumada a separação, passou a visitar o filho de quinze em quinze dias. Primeiro trazia um ar de culpa, depois, progressivamente, à medida que o remorso ia diminuindo, vinha mais confiante, mais seguro, um homem sem dúvida mais interessante. De início, a ex-mulher resistiu ao impacto. Via-se que estava um pouco aturdida, o olhar ficava vago, perdida nos pensamentos, parecia alegremente nervosa, como alguém a recompor-se de um susto. De resto, era a mesma pessoa. Só alguns meses depois, talvez quando percebeu que não houvera um único momento em que a sua felicidade tivesse assentado em verdades, que tudo o que tinha vivido com aquele homem estava irremediavelmente manchado pela mentira e pelo engano, é que se foi abaixo, num abatimento geral do ânimo e da vontade. O corpo tornou-se uma carcaça doente, acinzentada e o rosto finalmente absorveu o negrume que lhe nascia no peito.

 

Quando Laura tinha quatro anos, Idalina voltou para casa. Regressou diferente. Era bom dia e boa tarde. Pouco mais. Não voltou a ser a alma do prédio. Uma vez, a conversar com ela sobre a pequena Laura, Rebeca teve a impressão de que Idalina queria dizer qualquer coisa sobre o que lhe acontecera. Era a antiga Idalina a assomar, a dizer que ainda estava vida, mas conteve-se. Subiu as escadas depois de um suspiro curto, cheio das coisas que decidira esquecer.

 

Mário foi promovido a supervisor de área no ano em que a filha ia entrar para a escola. Há muito tempo que esperava a promoção. Estava convencido que da última vez só uma cunha de um gerente de outro posto o tinha impedido de subir e de, em consequência, terem mais um filho, como era desejo de ambos. Mais um filho significava outra casa, com mais espaço e outras condições. A ganhar o mesmo, estava fora de questão. Mário herdara do pai esta natureza conservadora, cautelosa. O pai sempre lhe dissera que era melhor um emprego no Estado mas, não o tendo conseguido, Mário trabalhava o dobro para garantir a segurança económica da família, atormentado pela história de um avô que derretera uma pequena fortuna e nunca mais se endireitara. Quando confirmaram a promoção, Rebeca e Mário começaram à procura de casa. Ouviram falar de uma urbanização em Alcochete. Tinham pressa em tratar de tudo para que Laura entrasse para a escola já na nova casa. Quando visitaram a casa ficaram encantados. Era aquilo. Apesar de toda a excitação, da adrenalina da novidade, os últimos dias na Moita foram complicados. Tinham começado a vida a dois ali. Laura nascera naquela casa, dera aí os primeiros passos, na bancada da cozinha ainda se via uma marca de café de uma chávena pousada à pressa para se amarem, os armários velhos que os dois tinham envernizado, o varão da banheira que Mário montara e ficara para sempre torto, as tardes longas e tristes em que sentada no sofá a receber o sol que atravessava a janela da sala Rebeca chorava a criança que perdera, o lugar de cada coisa, a disposição dos móveis, o toalheiro, o odor do quarto, o móvel novinho em folha da casa-de-banho que destoava entre a loiça mais antiga. Sofreram com aquela despedida, alegraram-se por tudo o que ficava para trás, beijaram-se, e quando fecharam a porta pela última vez e rodaram a chave souberam que estavam a encerrar a primeira parte das suas vidas em comum, com a certeza magoada de que o muito que tinham para viver nunca seria tão doce como aqueles anos iniciais.

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22.8.14

Foi no estertor do casamento que viajámos para fora do país pela primeira vez. A lua-de-mel tinha sido na Régua, num hotel ao lado da estação de comboios, na altura maioritariamente ocupado pela equipa de filmagens de uma telenovela. Todas as manhãs tomávamos o pequeno-almoço perto de um actor popular, de uma ex-modelo a tentar a sorte na representação, ou de um tipo que ninguém conhecia mas que transportava um confiante sorriso de galã. Jantávamos numa pizzaria no centro da vila onde também ia um rapazinho que era a estrela da telenovela. As outras crianças – autóctones – pediam-lhe autógrafos a meio da refeição, tratavam-no como se fosse personagem. Voltámos a casa para quatro anos de casamento. Depois, naquele cruel mês de Abril, fomos a Barcelona. Ficámos instalados num hotel modesto na Via Laietana. Durante o fim-de-semana, comprámos fruta no mercado La Boquería, visitámos o museu Picasso, comprei um livro de Gore Vidal na feira de domingo de manhã. Não fizemos sexo. Passeámos pelo Parque Güell. Numa livraria de um centro comercial, ofereciam flores a quem comprasse livros. Tudo por causa do dia de Sant Jordi, padroeiro dos livros, ao que parece. Como andámos muito nesses dias, chegávamos ao hotel exaustos, quase sem forças para tomar um banho. Não fizemos sexo. Creio que já o disse. As filas para a Sagrada Família eram gigantescas, nipónicas. Desistimos. No sábado de manhã visitámos uma biblioteca local. Li os jornais. Da parte da tarde, depois de um almoço frugal num café triste, fomos até ao Museu do Palácio Nacional. Passámos pela exposição de naturezas-mortas e, mais à frente, depois de contemplarmos os restos de uma igreja do século XIII, tive uma epifania. Ao entrar numa das salas, deparei, do lado direito, escondido, com o São Francisco de Assis, de Zurbáran. Foi a primeira vez na vida que chorei ao ver uma obra de arte. Nessa tarde, lanchámos num Starbucks perto da Praça da Catalunha. Tirámos fotografias nas Ramblas. Não há o mínimo vestígio de felicidade nessas imagens. Vimos os batoteiros e as floristas, os artistas de rua, as crianças, os vendedores de kebab, as inglesas de calções claros, a estátua de Colombo, um teatro antigo, gente a tirar fotografias com os telemóveis. As duas últimas horas em Barcelona foram passadas no aeroporto, à espera. Voltámos para Lisboa no domingo à tarde. Separámo-nos dois meses depois.

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20.8.14

Texto publicado originalmente na revista Ler:

 

 

O relatório do orçamento do Estado para 2013 é um daqueles documentos fundamentais que qualquer português culto e moderadamente sensual deveria ler. Os restantes podem continuar entretidos a comer salsichas e atum enquanto engordam os números do desemprego. Estas páginas – expressão imorredoira do génio de Vítor Gaspar – são o paralelo 39 entre dois modos de vida, entre o Portugal alavancado pela poderosa engrenagem comunitária e o Portugal possível onde o bife de vaca é artigo de luxo. É o fim da utopia da classe média e o regresso ao Portugal dos remediados, um país sem remédio. E estas páginas são também um exercício de literatura tecnocrática. Por momentos podemos imaginar um dos membros do Oulipo a escrever um documento espartilhado por este constrangimento: ser o mais desinteressante possível cumprindo os critérios mínimos de legibilidade. O resultado não andaria muito longe deste relatório.

 

A primeira coisa que sobressai nesta obra notável é a tónica no esforço. Desde logo, o esforço dos trabalhadores do Ministério das Finanças que, segundo o ministro, é “desinteressado” e sem o qual não teria sido possível apresentar a proposta de orçamento a tempo e horas. Ou seja, para cumprir prazos o Ministério das Finanças tem de se valer do esforço desinteressado dos seus trabalhadores o que, traduzido para português, deve significar horas extraordinárias não pagas. É um louvor sentido e, para além disso, revela mestria no uso do eufemismo. Mas o esforço não se fica por aqui, sendo mesmo possível considerar este um orçamento esforçado, como aqueles jogadores de futebol sem talento natural mas que correm muito. Segundo o relatório é preciso mais esforço, de preferência “persistente” e repartido equitativamente. Há o esforço contributivo e o esforço na poupança, com incidência no “esforço de contenção nas despesas com pessoal” e na redução dos “encargos brutos com as Parcerias Público-Privadas”, o esforço fiscal e o esforço coletivo, o esforço financeiro e o esforço de simplificação, o esforço de revisão e o esforço de coordenação. Pedem-se, numa aritmética singular, esforços adicionais que subtraem, esforços acrescidos que reduzem e refere-se um esquisito “esforço deliberado” que cria, por contraste, uma nova e contraditória categoria semântica, a do esforço involuntário. A enxurrada de esforços é tão grande que os esforços até se sobrepõem como no caso de “um esforço acrescido no esforço de consolidação.”

 

Palavras como corte e reduções são cortadas e reduzidas ao mínimo possível, substituídas pelo mais neutro “ajustamento”. O ajustamento, sendo um emagrecimento forçado tem, ainda assim, uma proximidade semântica a algo que é justo e, como tal, necessário e benéfico. Neste relatório, o ajustamento é “muito exigente e persistente”, embora o que já foi feito seja muito “significativo.” Já os sacrifícios permanecem no lugar de eixo moral e religioso deste orçamento. A via é difícil e estreita – é a nossa via crucis rumo à redenção final, quando não mais necessitaremos de ajuda externa e atingiremos a beatitude celestial da autonomia política. Não a podemos percorrer sem sacrifícios. Estes são inevitáveis e enormes mas evitam “sacrifícios futuros bem superiores.” Ou seja, se não queremos mais sacrifícios temos de fazer mais sacrifícios, o que nos deixa numa situação bem ingrata e, para utilizar um adjetivo muito popular neste relatório, “difícil”. De facto, aqui é tudo muito difícil. Portugal “atravessa um episódio difícil da sua história”, esta é uma “difícil situação”, a sustentabilidade das finanças públicas é “tão difícil”, a consolidação orçamental é uma via “difícil” e até o diagnóstico, a caracterização do ponto de partida, é difícil devido, louve-se o humilde reconhecimento das limitações, “à escassez de competências técnicas adequadas no Ministério das Finanças”. Como se não bastassem tantas dificuldades, o relatório avisa-nos caridosamente que o “caminho que temos que percorrer não é fácil.”

 

Para mitigar as dificuldades, vale-nos o facto de o governo ter um rumo e saber perfeitamente o que quer e para onde vai. Vejamos, por exemplo, a aposta na divulgação de Portugal enquanto destino para turismo residencial: lê-se no relatório que “importa desenvolver um enquadramento que favoreça a residência de estrangeiros em território nacional”, o que é uma medida muito coerente com os apelos à emigração dos jovens qualificados. No fundo, trata-se de substituir portugueses por estrangeiros para ver se isto começa a melhorar. E como é que o governo pensa desenvolver aquele enquadramento? Simples: com um pacote “para a promoção do turismo residencial que incentiva a atração de turistas residenciais”. Não é dito se o pacote inclui bronzeador, mas é revelador de bom senso e de alguma moderação nos objetivos que um pacote de promoção de turismo residencial vise atrair turistas residenciais e não, por exemplo, refugiados do Norte de África. O projeto vai ainda mais longe porque pretende atrair particularmente “turistas residenciais seniores” e os “respectivos rendimentos” que é para ninguém pensar que só os queremos cá por serem estrangeiros. Nada disso. Também têm de ser velhos e trazer o dinheirinho. Sandálias e meias brancas são dispensáveis. Para 2013, o relatório dá conta de um Governo apostado em várias coisas como desenvolver, reorganizar, reformular, agilizar, rentabilizar, promover e, sobretudo, requalificar. O Património será requalificado e o mesmo acontecerá com as “infraestruturas e equipamentos da Administração Interna”. Em relação à RTP, promete-se “um serviço público de conteúdos de rádio e de televisão consequente com a ambição de mudança que o Governo está a levar a cabo em prol de uma sociedade moderna, aberta e cosmopolita.” Fica por dizer como é que este projeto popperiano se articula com João Baião pois estamos em crer que naquele serviço só há espaço para um dos dois.

 

Outro aspeto em que o relatório revela determinação para manter o rumo é nas medidas de incentivo ao emprego que são equívoca e divertidamente libidinosas (Programa Impulso Jovem, Programa Vida Ativa, medida Estímulo 2012) e criam a legítima dúvida se o Governo quer reduzir efetivamente a taxa de desemprego ou se está apenas a tentar levá-la para a cama. Se assim for, propomos medidas adicionais como o Programa Titilação Prolongada (destinado a desempregados de longa duração) e o Programa Maduras (apoio a desempregadas com mais de 50 anos). Outras medidas como o “IVA de Caixa” ou o “Guichet Aberto” rivalizam com a nomenclatura mais inspirada das operações da GNR e da Polícia Judiciária. Na área da Reabilitação urbana, construção e imobiliário há uma atrevida Iniciativa Jessica, em honra da campeã de vendas de imóveis na ERA do Seixal.

 

Ao longo deste brilhante texto, é criada uma atmosfera vagamente conspirativa com a disseminação de inúmeros acrónimos. Aos já familiares BCE, FMI e TSU, juntam-se a GERAP, o RFAI, o CTUP, o PAEF, a EMPORDEF (que não é um programa de emprego destinado a deficientes mas a prosódica Empresa Portuguesa de Defesa), o MAMAOT (canal para adultos que não deve ser confundido com Ministério da Agricultura, do Mar, do Ambiente e do Ordenamento do Território), o desvairado NUTS (Nomenclatura das Unidades Territoriais Estatísticas), o esotérico POPH (Programa Operacional do Potencial Humano) e o paciente SPER (Sector Empresarial Regional). Há também um SIRCA não aconselhável a crianças (Sistema de Recolha de Cadáveres de Animais Mortos na Exploração). A profusão de acrónimos é de tal ordem que até permite ao ministro uma referência oblíqua e um tanto jocosa à “queda acentuada dos CDS”.

 

Outro pormenor interessante é o da designação das pessoas a quem se destina o Orçamento, os portugueses, ou, em orçamentês, os contribuintes. Neste relatório o cidadão português é salomonicamente dividido em dois: o português, a quem o governo apela sentimentalmente, pedindo um esforço adicional, reconhecendo que este é um orçamento difícil que envolve sacrifícios para todos; e o contribuinte, que paga os impostos. Com os portugueses (que aqui são, por vezes, grafados com maiúscula, os Portugueses), o governo fala mansinho e pede-lhes ajuda na “prossecução deste desígnio nacional.” Com os contribuintes, que só conhece de número, é mais impessoal e tecnocrático: “20% dos contribuintes com salários mais altos”, “contribuintes que auferem rendimentos superiores ao salário mínimo”, “aplicável apenas aos contribuintes que auferem rendimentos mais elevados.” Esta estratégia de serem os contribuintes a auferir em vez dos portugueses é muito astuta porque põe os portugueses a desejar o pior aos contribuintes, esses auferidores de um raio!

 

Lendo o relatório só não se consegue perceber por que razão Portugal não contacta diretamente com quem manda nisto, que é o contexto (os gráficos também não se percebem mas isso é uma falha da minha formação em Humanidades). Afinal, tudo depende do contexto. O contexto é omnipresente e muito versátil: pode ser, como o clima, favorável ou desfavorável; beneficia de condições desconhecidas para a maioria dos portugueses, como a possibilidade de ser promovido (o relatório diz que se deve “promover um contexto adequado à criação”); e o ministro chega mesmo a reconhecer que pede conselhos ao contexto (“o contexto económico e financeiro atual aconselha à revisão das regras”), o que significa que, no contexto da coligação, o contexto vale mais do que o CDS. Tudo indica que sairemos desta crise muito mais pobres e extraordinariamente contextualizados.

link do postPor Bruno Vieira Amaral, às 11:31  ver comentários (3) comentar


 
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