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Circo da Lama

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

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Circo da Lama

19
Out12

As mamas que a revolução esqueceu

Bruno Vieira Amaral

Os meus pensamentos, que raramente abandonam o confortável círculo que une consciência cívica e luxúria, estão com a rapariga que, qual pomba de holocausto, tão corajosa e artisticamente ofereceu o peito desnudado à causa da revolução iminente. Não me refiro a Maria Archer, a já muito celebrada Marianne lusitana, imortalizada no mármore possível de uma capa do Correio da Manhã, que na sua pose de sacrifício sereno, na sua dignidade melancólica, contribuiu se não para aliviar a carga fiscal pelo menos para saciar a nossa fome estética. Maria, cândida, disse que quis mostrar “a fragilidade em que nos encontramos”, embora a fragilidade esteja mais nas palavras e numa certa alienação do olhar (como se estivesse a tentar vislumbrar um futuro que não se materializa) do que no peito farto, isento de cicatrizes neo-realistas. Como modelo de uma revolução, Archer não podia ser mais burguesa, no nome de comerciante de vinho do Porto, mais aristocrática, nas linhas sólidas do rosto, e mais classe alta – os pobres e a classe média não protestam mostrando as mamas porque são eles o último reduto da moralidade; nenhum beneficiário do RSI nem nenhum bancário aceitariam que a mulher mostrasse as mamas à nação, nem mesmo com a atenuante da crise e do elevado propósito do protesto social. Lembremos a história da menina de boas famílias, posteriormente deserdade, Caroline de Bendern, a Marianne do Maio de 68. Como neste episódio do Maio de 68, com as evocações de Delacroix, estes protestos podem ser vistos como uma grande instalação artística. Aliás, a crise europeia pode ser entendida como uma grande exposição internacional em que cada país contribui com as suas obras de arte povera. A manifestação dos empresários da restauração, com os polissémicos tachos (“rapar o tacho” ou “arranjar um tacho”), é apenas uma expressão de instintos artísticos recalcados, uma verdadeira performance, uma intervenção em espaço público. A gigantesca manifestação do 15 de setembro, com as impressionantes imagens aéreas da multidão, também se inclui neste megalómano projecto de arte conceptual que é a crise europeia. É tudo arte, foi tudo engolido pela “civilização do espetáculo”, começando na Adriana que abraçou um polícia e virou estrela das revistas cor-de-rosa e acabando nas belas mamas da Maria, rogai por nós. Até a directora de uma escola da Quarteira, que se recusou a dar almoço a uma criança, foi logo caracterizada por alguém (peço desculpa por não conseguir identificar o autor da comparação) como personagem dickensiana. Há quem recuse o regresso a um mundo neo-realista, como se o regresso não fosse à realidade mas à imagem artística dessa mesma realidade. Assim, permitam-me que os meus pensamentos estejam com a proprietária das mamas que a revolução – que é uma das vertentes deste grande espectáculo de LaFéria – esqueceu. Porque a outra rapariga que se despiu ao lado de Maria Archer foi ignorada pela iconografia instantânea da revolução, o seu sacrifício foi desaproveitado pelas narrativas de contestação – o que não aparece não existe, como bem sabiam os camaradas que retocavam fotografias. Ninguém apagou a rapariga da história, bastou escolher um ângulo em que ela não aparecesse.  Eis-me aqui, portanto, a devolvê-la à história, não enquanto revolucionária, mas enquanto mulher. Ao ser preterida pela mais fotogénica Maria, a outra foi traída na sua feminilidade, que não se mostrou à altura das necessidades icónicas desta nossa miserável revolução. Ninguém lhe viu as mamas, ninguém ouviu o seu protesto e, pior do que isso, ficou em segundo lugar na competição para busto da República, atirada para o esquecimento pela mais robusta, fecunda e sugestiva Maria, rogai por nós. É preciso não esquecer que antes da revolucionária vem a mulher. Bem sei que o que escrevo não faz justiça suficiente a quem tão valentemente expôs o peito, mas queria que ela soubesse que o seu acto não foi em vão, que a revolução e a sociedade do espectáculo podem ser mal-agradecidas mas que haverá sempre alguém para lembrar os que já foram esquecidos.

 

p.s.: consta que dois marmanjos também terão oferecido o deprimente espectáculo das suas pilas murchas às viseiras da polícia de choque e aos repórteres televisivos. Foram merecidamente ignorados.

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