Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Circo da Lama

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

Circo da Lama

10
Mai13

Respostas a Metro

Bruno Vieira Amaral

Respondi ao inquérito Balanço Vital, uma organização conjunta do Fernando Alvim e do jornal Metro. As respostas levaram umas tesouradas e uns enxertos e, porque somos todos gratuitos, aqui ficam as originalidades tal como originalmente concebidas pelo autor, que sou eu.

 

Cinco acontecimentos

 

O dia em que fiquei em último na corrida de sacas

 

O clube onde os velhos se juntavam para jogar dominó e cuspir pevides para o chão organizou um arraial e, para animar a festa, uma corrida de sacas para os mais novos. A distribuição de prémios foi pensada por uma mente sádica e mesquinha: todos os participantes tinham direito a uma medalha, à excepção do último. Fiquei em último. Apesar de vários recursos comoventes apresentados pelos meus amigos não tive direito a medalha e fiquei a roer melancolicamente o rebuçado que, com pouca destreza, retirei de um prato cheio de água e farinha.

 

O dia em que parti a cabeça ao fininho

O fininho era o fininho era o fininho. Era manifesta a sua incompetência para a prática desportiva, uma falha que todos nós lhe perdoávamos alegremente porque era ele o proprietário da bola com que jogávamos nos intervalos. Naquele dia levou raquetes de ping-pong. Jogámos a pares e posso dizer que o Fininho fez tudo o que estava ao alcance da sua falta de jeito para nos submeter a uma pesada humilhação. Para evitar que tal sucedesse tomei a decisão, que hoje considero precipitada, de lhe acertar com a raquete na parte anterior do crânio, provocando uma incontrolável hemorragia geradora de um justificado alarme entre contínuas e professores de Educação Visual que, no meio de gritos e impropérios, hesitavam entre acudir ao Fininho e neutralizar o feroz agressor. Fui levado ao Conselho Directivo onde me interrogaram judicialmente sobre as razões do meu comportamento. Respondi, tão clínica e sinceramente quanto mo permitia o terror de uma possível suspensão: “Enervei-me”.

 

O dia em que redefini o amor

Certo dia, frequentava eu a 4ª classe, a nossa professora teve uma daquelas ideias esquisitas que costumam assolar mentes onde raramente um pensamento original faz o favor de pousar. Desafiou-nos ela a compor uma redação sobre o tema “O que é o amor?” Eu, que sempre que me vi confrontado com perguntas que ultrapassavam a minha competência nunca hesitei em recorrer ao auxílio de gente mais sábia, escrevi que o amor é coisa que não tem definição. Dez minutos depois, a sala estava cheia de professoras e outros curiosos convidados para testemunhar o fenómeno de uma criança que aos dez anos se atrevia a jurar pela indefinibilidade do amor. Menti tanto quanto pude, mas não tão bem que, passados cinco minutos, as professoras não saíssem manifestamente desiludidas pelo golfo entre a minha prestação literária e o meu balbuciante desempenho verbal. Mesmo assim, ficaram sem saber que a frase que apresentei como minha, e que por alguns segundos me transportou à categoria de génio, fora indecorosamente roubada de uma entrevista da locutora de continuidade Isabel Bahia, à revista TV Guia.

 

O dia do grande jogo

A ocasião era o último jogo de um torneio de futebol de cinco. Nos primeiros jogos tinha ido à baliza onde, modéstia e um fenomenal frango à parte, até me portava com alguma dignidade. Porém, nesse dia revoltei-me. Queria jogar na frente. O treinador não concordava comigo e explicou-me racionalmente os seus motivos: “Não jogas um caralho.” Sem refutar a pertinência da observação insisti. Ou ia à frente ou, sei lá, bem, o melhor era ele pôr-me a jogar. E ele, farto de me ouvir, seguramente guiado por uma luz divina, lá me fez a vontade. Entrei em campo. De seguida, um pouco à traição, a bola sobrevoou o campo e, facto espantoso, seguindo na minha direcção. Preparei-me logística e mentalmente para desferir um pontapé fulminante mas no momento em que o meu pé deveria ter contactado com a bola, esta caprichosamente furtou-se à carícia deixando-me entregue a um solitário bailado concluído com uma estrondosa aterragem de costas. O povo que enchia o campo riu aflitivamente, alarvemente. Eu só queria continuar ali, esquecido no chão, a ver a bola a sair pela linha de fundo.

 

Aprender

De cada vez que tentei aprender matemática, xadrez e alemão fracassei, o que me leva a desconfiar da virilidade da minha inteligência, que é muito do género de ter pavor de correntes de ar não vá apanhar uma pneumonia. Gostava de ter uma inteligência mais musculada, um desiderato muito difícil de se cumprir enquanto a minha palavra preferida for “crisântemo.”

 

Cinco projectos

 

Comprar a casa dos meus bisavôs na aldeia de Montalvão, recuperá-la e, daqui a muitos anos, rodeado de netos e bisnetos, morrer à sombra da laranjeira que está no quintal.

 

Ganhar o torneio de Wimbledon numa tarde soalheira de Domingo e, simultaneamente, estar em casa a assistir à minha vitória em directo na RTP2.

 

Salvar a vida de alguém e ser entrevistado pelo Correio da Manhã: “Fiz aquilo que qualquer pessoa no meu lugar faria.”

 

Envelhecer como Aznavour.

 

Esquecer uma certa tarde de Julho, há muitos anos.

Seguir

Contactos

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2013
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2012
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2011
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2010
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2009
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D