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Circo da Lama

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

Circo da Lama

08
Out13

Uma Temporada no Hospital

Bruno Vieira Amaral

 

No princípio era uma ligeira dor abdominal. Um incómodo ao andar. Ainda não se está doente. Isso vem mais tarde. À entrada do hospital, à porta das urgências, o doente nega a doença. Pergunto-me se algum dos que aqui estão se vê como doente. Talvez aquele adolescente muito magro, a respirar com dificuldade, a cabeça encostada ao ombro da mãe que lhe limpa a boca com um lenço embebido em água.

 

Espero no exterior antes de ser atendido. Um jovem de rasta, um tanto gago, explica que desde pequeno tem tendência para partir vidros. Confessa não saber o motivo, mas as cicatrizes nas mãos, nos braços e na testa são prova suficiente. Exibe-as com orgulho: “Uma vez um colega ia a correr à minha frente e fechou-me a porta. Eu atravessei o vidro. Sabes, eu tinha raiva dele e ele tinha raiva minha.”

 

Na triagem, após um breve questionário ao qual respondo com lucidez e objectividade, dão-me uma pulseira amarela. Terei de aguardar na sala. Daqui a umas horas, depois das análises, estarei lá dentro, acompanhado de uma mulher de oitenta anos e da sua neta viçosa e imbecil. A senhora é diabética. Tem problemas de circulação. O dedo grande do pé direito tem uma necrose. Está a apodrecer. Deita cheiro. A neta, vinte e poucos, está impaciente. Manda mensagens, guarda o telemóvel na bolsa, volta a tirá-lo. A avó pede-lhe que a leve à casa-de-banho. “Tenho vontade de fazer chichi.” Sem tirar os olhos do telemóvel: “Ó, faz na fralda.” A avó protesta sem grande convicção: “Mas fica inchada.”

 

Bebo água para fazer a TAC. “Vou ter de lhe pôr o tubo pelo rabo, está bem?” Sim, está. Estendido de barriga para cima, distraio-me com a conversa entre enfermeiros que observam o processo numa sala contígua. Falam sobre desentendimentos entre colegas, uma discussão no refeitório, “os dois agiram mal”, “sim, mas ele já não é a primeira vez que faz destas.” Chega o diagnóstico. Diverticulite. Uma inflamação dos sacos do intestino, etc... Regresso às urgências. Está lá a senhora do dedo podre. A neta já se foi embora. Dois polícias escoltam um rapaz. Pressiona um lenço contra a cabeça partida. O sangue escorre-lhe pelo rosto. Um dos agentes acompanha-o à enfermaria. O outro fica cá fora: “Este andava a dar dinheiro às pessoas”. Rio-me. Fazem-nos falta polícias capazes de sarcasmo. A senhora também se ri. Agora que tem público, aproveita para nos contar a sua história. Vendia fruta no Terreiro do Paço. Era ilegal. A licença só dava para a venda de castanhas. Na esquadra mais próxima, havia um polícia temido por todos os vendedores ambulantes. Chamavam-lhe o “comércio.” Pagavam a um informador para que os avisasse assim que visse o “comércio” a sair da esquadra. Era dinheiro mal empregue. “Ele era tão gordo que o víamos ao longe.” Ri-se com o compreensível gozo de partilhar finalmente a história com a autoridade, agora que já é intocável e só o tempo, a doença e uma neta impaciente lhe podem causar danos.

 

“Tem de ficar internado.” Não estava à espera. Enquanto aguardava, ouvia os médicos de serviço a conversarem sobre Matusalém e a linhagem de Noé. Coisa estranha. Foi-me difícil passar dessa leveza para a sentença irrevogável do internamento, como se estivesse a ser alvo de um julgamento sumário. Fico à espera que a auxiliar venha para me conduzir para o quarto. Digo para mim mesmo que não estou doente. O que é estar doente?

 

A auxiliar acompanha-me até ao quarto onde me espera uma enfermeira. Entrega-me um pijama com o logótipo do hospital. Fica-me curto. É o meu certificado de doença e reclusão. Pergunto-lhe se, por acaso, não tem um carregador para telemóveis Samsung. “Não, não tenho”, diz-me com uma voz que se desculpa. “É a primeira vez que está internado?” Sim, senhora enfermeira, é a primeira vez que estou internado e não tenho bateria no telemóvel e nem posso avisar a minha mulher, nem falar com ela e dizer-lhe que a amo e que quero voltar para casa, para junto dela e da minha filha. “Tem uma filha, é?” Tenho dois, senhora enfermeira, mas esta só tem um mês e meio, está a ver a minha situação, não é verdade? Envergonhado, percebo que cedi à fraqueza da auto-comiseração.

 

Espeta-me com delicadeza a agulha para o soro. Explica-me o que devo fazer se precisar de alguma coisa durante a noite, qual o interruptor da luz, a posição ideal para dormir. Despede-se de mim. As luzes do quarto estão todas apagadas. A única claridade vem do corredor. Ao meu lado há mais duas camas. Ocupadas. Um dos homens respira profundamente. De repente, um peido sumptuoso, barroco, atroa por todo o quarto. Prolonga-se por alguns segundos com uma insistência musical, como um lamento. Deito-me de lado, virado para a janela. As persianas estão corridas. Penso nos meus filhos, na minha mulher, na minha mãe, num fim de tarde na Fonte da Telha. Adormeço ao fim de uma hora de insónias e solidão.

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