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Circo da Lama

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

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Circo da Lama

15
Out13

Turismo literário suburbano

Bruno Vieira Amaral

Texto lido no lançamento de As Primeiras Coisas:

 

A acção deste livro decorre num bairro social, um bairro social situado na Margem Sul – uma apresentação condigna tem de o mencionar – e este dado objectivo pode entusiasmar certos espíritos que tratarão logo aí de encontrar indícios de neo-realismo ou, pior, de turismo literário suburbano para dar a conhecer aberrações de bairro social aos leitores burgueses da capital. Enganam-se. Se a intenção ainda é uma das medidas pelas quais se deve avaliar um objecto literário quero aproveitar a ocasião para, enquanto autor, deixar vincada a minha intenção, sem querer beliscar a soberania exegética do leitor. Sendo apenas quem escreveu este livro, não posso ser culpado de alguns dos eventuais leitores da obra conhecerem os “pobres” só através do neo-realismo, dos noticiários ou de reportagens eivadas de boas intenções. Em todos estes casos mencionados, as pessoas são definidas pela condição sócio-económica, são “os pobres” e a quem as conhece desta maneira escapa o resto e o resto é o que me interessa. Garanto que, a mim, a nível literário, não me interessam particularmente os pobres, nem escrevi este livro para lhes dar voz – até porque os pobres não me passaram procuração – e espero que a minha voz seja verdadeira o suficiente para falar apenas por mim. O bairro que serve de cenário a este livro, a melancolia rude, por vezes, cruel dos nossos subúrbios, os estendais de gente mórbida, não são manifestos sociológicos ou políticos. Pelo contrário, não podia ser uma escolha mais egoísta e mais centrada nos meus interesses: é este o mundo que conheço melhor, o mundo que me exigia menos trabalho e menos imaginação para o recriar. É verdade que as pessoas que vivem em bairros como este são maioritariamente pobres ou vivem com grandes dificuldades mas quando vivemos com elas e partilhamos com elas essas condições, aos nossos olhos elas não se distinguem por isso. Num meio em que só haja brancos, ninguém se identifica como o “branco”.

 

Se notarem que algumas das personagens deste livro se aproximam da caricatura, que estão mal desenhadas, tenho de vos pedir desculpa pela rudeza do meu traço; mas se as acharem demasiado “exóticas” tenham em consideração que o adjectivo qualifica a visão do observador; não é uma característica inerente ao objecto observado. Dito isto, espero que o leiam e apreciem e se apropriem dele, para que o Bairro Amélia que imaginei se torne mais real e vivo do que o Bairro Amélia em que cresci.

 

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