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Circo da Lama

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

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Circo da Lama

08
Nov13

Cansaço

Bruno Vieira Amaral

- Estou cansada, Bruno.

 

Compreendo. A casa, o filho, os sacos para o lixo que acabaram, a grande mancha de humidade no tecto da cozinha, junto à varanda, a porta desencaixada do roupeiro, o sabonete líquido, as pilhas para o esquentador, a água que nunca mais aquece e, enquanto ela espera, as coisas que lhe passam pela cabeça, as contas, o copo de vinho a mais, os concertos a que já não vai, o filme interrompido a meio, quando acorda já morreu uma das personagens principais. Talvez seja isto, quando ela acordar uma das personagens principais da sua vida terá morrido.

 

- Estou cansada.

 

Os livros. Os livros que antes lhe diziam tantas coisas agora são conjuntos de palavras sem vida, letras amontoadas, já não a fazem duvidar, há muitos anos que um livro não lhe muda a vida, nem uma canção, nem um homem, os thrillers e os livros de espionagem que os homens gostam de ler porque são sólidos e práticos e avançam confiantes pelo mundo e não exploram as pequenas fendas do quotidiano nem as grandes falhas tectónicas das nações, e ela quer um homem que seja um livro desses, sólido e prático, um homem com um bom pau sólido e uma boa vida prática, que a foda com convicção mesmo que sem amor, um homem que não complique, que não a censure, que não lhe exija que o acompanhe na viagem ao interior de livros que a ela não lhe interessam, um homem que seja esse livro que ela começou a ler ontem à noite, um mistério de roubos de obras de arte na segunda guerra, agentes de serviços secretos, uma violinista na Costa de Prata, um livro que se pousa na mesa-de-cabeceira e cuja história estará à espera dela na manhã seguinte, um livro que nunca ousará entrar-lhe nos sonhos a não ser na forma incomum de um violino caído na paisagem árida da Córsega.

 

- Estou cansada, Bruno.

 

As festas, as reuniões na escola, a tosse seca do filho quando se deita, os horários, os atrasos dos comboios, o chip que já não está muito bom e obriga-a a aproximar o cartão com muito cuidado, na oblíqua, um pequeno passe de mágica, o almoço que é as sobras do jantar, como ela é o que sobrou do dia anterior e outra coisa que só saberá ao fim do dia, a mancha no tecto da cozinha parece-lhe cada vez maior ou diferente, parece um rosto com ar de censura, devia ir bater à porta dos vizinhos e dizer-lhes que têm um problema na canalização porque a mancha está maior a cada dia que passa, só não lhes pode dizer que agora vê na mancha um rosto e que esse rosto está zangado com ela, eles também não iam entender, e como não eles não a podem entender, ela decide que não vale a pena falar-lhes da questão prática e não sobe.

 

- Estou cansada de tudo.

 

O bolo que demorou horas a fazer e não saiu bem, ter de repetir tudo, agora mais depressa, com mais angústia, um telefonema para a mãe que vai ser internada daí a uns dias, não é nada grave, mas é sempre uma operação, uma pessoa fica nervosa, e naqueles dias em que a mãe estiver no hospital terá de arranjar tempo para a ir ver porque a mãe só a tem a ela e ela sabe como é triste estar no hospital e não ter visitas, ainda por cima, na cama ao lado da da mãe estará uma senhora a quem amputaram uma perna mas que terá sempre muitas visitas, e quando ela estiver ao lado da mãe, a guardar no armário uma garrafa de água de litro e meio, umas bolachas de água e sal e um compal de pêra, a entregar-lhe a TV7Dias, a levantar-lhe o fundo da cama por causa da circulação, há-de imaginar que tantas visitas se justificam pela perna amputada, virão amigos, familiares afastados, conhecidos, virão todos despedir-se da perna, podiam fazer-lhe um funeral, acompanhar a perna solitária até à campa, que ficaria desde logo reservada para quando o resto da senhora se decidisse juntar ao membro que agora lhe tiraram. Mas para essas coisas ainda faltam alguns dias, dias atrás de dias, ainda falta outro cansaço, a alegria do filho, o cansaço do filho depois da natação, falta ainda muito, falta sempre muito.

 

- Estou tão cansada, Bruno.

 

A gaiola sem pássaro, a alpista velha, a água já verde no bebedouro, uma lâmpada fundida, os varões para os cortinados ainda por tirar da caixa, há-de pedir um berbequim a um amigo.

 

- Estou cansada.

 

O filho gostava de ter um cão, ela acha melhor um peixe, um cágado, animais que também são objectos. Ela quer um homem que não conviva com o filho dela, que não queira saber que ele existe, que o ignore, que olhe para ela e não veja mais ninguém.

 

- Muito cansada.

 

Homens que querem impressioná-la com o filho, atiram-no ao ar, fazem-lhe cócegas, vão jogar à bola na relva do parque, mostram tudo o que são capazes de fazer, fazem o número dos que poderão ser bons pais de segunda. Ela não precisa desse teatro. Quer apenas um homem bom de pau duro, que a foda como deve ser, que não se venha logo, que lhe faça um bom e prolongado minete mas não tão prolongado que ela se distraia e olhe para baixo e fique surpreendida ao ver o cimo da cabeça de um homem entre as suas pernas, um homem bom para ela, um homem que não seja para as outras horas nem para todas as ocasiões, um homem que não insista em levar o miúdo às cavalitas, um homem que tenha um berbequim e que arranje tempo, ao domingo de manhã, para montar os varões dos cortinados.

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