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Circo da Lama

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

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Circo da Lama

25
Jun14

7700: civilização

Bruno Vieira Amaral

- A não ser para quem esperava uma nova aparição dos dentes de Suárez em qualquer parte da anatomia de um adversário, o jogo entre Itália e Uruguai foi uma desilusão. Talvez tenha sido do calor no Recife. Talvez tenha sido por à Itália bastar um empate. Calor e um zero-zero favorável aos italianos: os ingredientes ideais para os transalpinos exercitarem o cinismo que lhes é creditado como maior virtude futebolística ou, na novilíngua da bola, para especularem. Eu diria que há ali outra coisa: uma devoção ao ócio, aos prazeres que a própria lentidão cria. Aquela forma de jogar é a arte de estender o tempo sofrendo o menos possível. Não se pense que é uma lentidão sofrida, reflexo de incapacidade. Pelo contrário. É uma lentidão deliberada. A estratégia passa por uma organização de tal forma intricada que dispense os jogadores de correrem mais do que aquilo que é estritamente necessário. Desacelerar o jogo é um diletantismo que só uma equipa civilizada se pode permitir. E as equipas italianas são, acima de tudo, obras de civilização. Mesmo quando o futebol praticado é aparentemente feio resta sempre a beleza da fidelidade a um princípio, e essa ética é, também, uma estética, uma forma de viver. Os italianos, eliminados uma vez mais na primeira fase, voltam para casa de cabeça erguida porque é assim que jogam e, sendo o campo uma miniatura cénica da vida, diria que é assim que vivem.

 

- Tem sido tão grande a razia de equipas europeias que ver a Grécia passar aos oitavos-de-final obriga-nos a perguntar: de onde é que vieram estes rapazes? Tenho de confessar a minha admiração pelos gregos. Ontem, precisando de ganhar, não se lançaram para o ataque, não foram à procura do golo como selvagens esfomeados. Esperaram. Jogaram como se um empate lhes bastasse, apostando tudo no erro do adversário, na estupidez alheia e, no fim, foram recompensados por esse pessimismo antropológico. Com o seu futebol rudimentar o qual, nos momentos felizes, se pode premiar com o adjectivo “pragmático”, os gregos são também, à sua maneira, um dos últimos pilares civilizacionais deste jogo bárbaro: jogam sempre mal, marcam poucos golos, parecem resolutamente empenhados em não entusiasmar ninguém. São previsíveis até ao bocejo e há nessa previsibilidade qualquer coisa de amorável, como nos defeitos reiterados das pessoas de quem gostamos. Os dois golos de ontem foram apenas o terceiro e o quarto que a Grécia marcou em três participações e nove jogos em mundiais. Resultado? Estão nos oitavos-de-final a acenar a espanhóis, ingleses, italianos e, quase de certeza, portugueses.

 

- O caso de Suárez é do domínio da patologia. Depois da redenção e de, com justiça, se ter projectado com dois magníficos golpes para o cume onde estão as figuras notáveis da prova, o avançado uruguaio voltou a ser o desequilibrado a intervalar séries estupendas de golos com acções que, dizem os menos compreensivos, só podem ser iluminadas pela psicanálise. Apesar disso, nem todos ficaram horrorizados com a dentada de Suárez. Na Suécia, mais de cem apostadores puseram o dinheiro onde estaria a boca do "conejo". E saíram a ganhar.

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