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Circo da Lama

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

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Circo da Lama

20
Fev09

Crónica da minha última vez no Estádio da Luz

Bruno Vieira Amaral

Benfica vs. Oliveira do Bairro - uma experiência (2007)

 

 
Chego ao estádio no momento em que se festeja o primeiro golo. Perdi a dramática águia Vitória e já só me resta a entrada teatral de Mantorras, que só deverá acontecer na 2ª parte. Como o desfecho do jogo não está em causa, faço antropologia social. O treinador do Oliveira do Bairro arrisca sair do banco para dar indicações aos seus jogadores. Um desperdício. Tinha uma hora e meia para ler um livro, contemplar a arquitectura do estádio, ir às compras no Colombo, dormir. Prefere dar indicações perceptivelmente imperceptíveis.
 
O Benfica não consegue fazer uma jogada decente. Desconfio que algo se passa em termos de periodização táctica ou talvez seja a presença de Kikin Fonseca a obstruir a fluidez de jogo. O problema dele é óbvio: remata sempre com o pior pé; umas vezes com o esquerdo, outras com o direito. Duvido que alguém, à excepção do José Eduardo Moniz, o queira contratar.
 
Uma adepta do Benfica recomenda ao treinador visitante que regresse ao banco. Como domina a retórica da bancada rosna uma súmula de disciplina e afecto, exemplo clássico de mediocritas latina: "Vai pá barraca, cão!"
 
O jogo prossegue. O Benfica marca mais dois golos, ambos por Nuno Gomes, que poderiam ter sido marcados, com igual eficácia, por um poste eléctrico, por um juvenil ou por uma personagem de ficção (penso em Raskolnikov).
 
Intervalo. O público devora sandes de torresmo. A voz ominosa de António Manuel Ribeiro ecoa por todo o estádio. Rui Costa chora no écran gigante o pior golo da vida dele. São quinze minutos de desgraças a que o regresso do nº 10 aos relvados põe fim. Aplausos frenéticos. Desmaios. Distúrbios no mítico 3º anel. Algum irresponsável, na sua fúria civilizadora, resolveu instalar cadeiras nos estádios de futebol e, ainda pior, numerá-las. Resultado: pancadaria. Portugal é o único país do mundo em que o conflito floresce na organização e fenece no caos.
 
Pelo que consigo ver, a entrada de Rui Costa ilumina a equipa. Até ao fim do jogo mais dois golos. Finalmente, Kikin Fonseca rematou com o melhor pé. Mantorras entra mais cedo do que é habitual. O desvio litúrgico diminui a intensidade da fé. Apesar disso, os aplausos são claramente desproporcionais em relação à produtividade do angolano. Antes do final, um petiz sentado no maternal regaço arremessa um copo de plástico na direcção do banco de suplentes do Oliveira do Bairro. A mãe, enlevada, repreende-o com um sorrisinho modesto.
 
O jogo chega ao fim. O speaker pede aplausos para os forasteiros. O público, convicto da sua superioridade moral e futebolística, acede ao pedido. Tudo acaba bem. Ser do Benfica é uma alergia imensa.

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