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Circo da Lama

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

Circo da Lama

28
Fev09

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Bruno Vieira Amaral

 

Quando vemos Pagos a Dobrar temos a sensação de já o ter visto muitas vezes. É uma definição correcta de clássico. Filme noir por excelência, foi imitado por contemporâneos, desconstruído por pós-modernos e resistiu a tudo, até à nossa consciência cinéfila. Há a loira fatal que seduz um homem para uma teia que culmina em homicídio e em tragédia. No final, quase não sobram personagens para contar a história. O anti-herói confessa a sua culpa, mas morre (o realizador Billy Wilder filmou um final com a execução na cadeira eléctrica mas que não foi utilizado). O sexo é sugerido. É o espectador que completa as cenas através da imaginação. O tesão está nos diálogos:
 
Phyllis: Mr. Neff, why don't you drop by tomorrow evening about eight-thirty. He'll be in then.
Walter Neff: Who?
Phyllis: My husband. You were anxious to talk to him weren't you?
Walter Neff: Yeah, I was, but I'm sort of getting over the idea, if you know what I mean.
Phyllis: There's a speed limit in this state, Mr. Neff. Forty-five miles an hour.
Walter Neff: How fast was I going, officer?
Phyllis: I'd say around ninety.
Walter Neff: Suppose you get down off your motorcycle and give me a ticket.
Phyllis: Suppose I let you off with a warning this time.
Walter Neff: Suppose it doesn't take.
Phyllis: Suppose I have to whack you over the knuckles.
Walter Neff: Suppose I bust out crying and put my head on your shoulder.
Phyllis: Suppose you try putting it on my husband's shoulder.
Walter Neff: That tears it.
 
Walter Neff: The insurance ran out on the 15th. I'd hate to think of your having a smashed fender or something while you're not, uh, fully covered. (com Barbara Stanwyck semi-vestida).
 
Dizia Borges, numa frase que os inimigos e os ignorantes não lhe perdoaram, que a censura é a mãe da metáfora. Pagos a Dobrar é uma obra nascida no ventre do Código Hays e isso transparece no enredo, no desenlace e na forma como tudo é filmado. A última cena entre Walter e Phyllis é uma aula de iluminação a preto e branco. Condicionados pelo que podiam mostrar, realizadores, argumentistas e directores de fotografia eram mestres na arte de sugerir, ourives de palavras, ângulos e luzes. Pagos a Dobrar começa com uma confissão mas nunca se despe (nem podia). É esse o encanto dos clássicos.

 

28
Fev09

Unhappy endings

Bruno Vieira Amaral

 

O cinema dos anos 70 está cheio de finais infelizes. O final feliz era uma convenção da velha Hollywood. O final infeliz era um sinónimo de arte, marca de autor. Ninguém queria fazer “movies”. Queriam fazer “films”. Para o público seria mais fácil detectar significados e profundidades em finais niilistas e sem esperança. Está tudo na frase inicial de Anna Karenina. Hoje percebemos que não é um final infeliz que faz um bom filme, mas pressentimos que muitos dos filmes dos anos 70 não poderiam ser feitos nos nossos dias. Ninguém vai tão longe. Chinatown, por exemplo. Nos extra do dvd, Roman Polanski, Robert Towne e Robert Evans (realizador, argumentista e produtor) falam sobre o assunto. Seria possível fazer hoje um filme como Chinatown? Violência, incesto e um final infeliz? Não estamos a falar de um filme feito nas margens do sistema. Jack Nicholson era uma estrela em ascensão, Faye Dunaway já era suficientemente conhecida para que o papel de Evelyn Mulwray fosse um risco e John Huston era John Huston. Nos EUA, Polanski dirigira A Semente do Diabo, filme que contou também com a colaboração de Robert Evans. Os estúdios tinham perdido o pulso ao público e, sem o saberem, permitiram aos autores uma liberdade que hoje nos parece mítica. O excesso de liberdade levou a estrondosos falhanços (The Sorcerer, de Friedkin, até aos mega-desastres One from the Heart, de Coppola, e Heaven’s Gate, de Cimino) e ao regresso da “ditadura” dos estúdios e das “previews”. Os estúdios cansaram-se de perder dinheiro com génios e pseudo-génios e voltaram a recrutar tarefeiros anónimos que tinham a virtude de cumprir prazos. O risco voltou para as margens e, com ele, os finais infelizes.

 

20
Fev09

Ruy Castro

Bruno Vieira Amaral

Peço desculpa, este é o último auto-roubo, mas estou a ler a biografia de Carmen Miranda e apeteceu-me repescar isto:

 

 
No Rio de Janeiro só estive em livros e, creio, numa música do baiano Caetano (a quem a cidade de São Paulo deve a música mais bela que sobre as suas avenidas foi composta). Isto acontece porque os livros são, salvo excepções em edição de luxo, mais baratos do que as viagens, porque neles se viaja sempre em executiva e porque, segundo consta, são bêbados incorrigíveis os melhores comandantes. É verdade que um livro não bronzeia nem traz com ele bilhetes usados de metro como souvenir. Um livro é sempre fraco como prova material e bem pode o presumível homicida jurar que às dez horas do dia 24 estava no Brasil, mais precisamente na página 183 de um Rubem Fonseca. Em tribunal, o melhor que tem a fazer é dar-se como inimputável por excesso de leitura.
 
Há quem, no entanto, prefira os livros. Em tempos conheci uma personagem (o termo é exacto porque fui eu quem a inventou) que era capaz de falar durante horas sobre cidades onde nunca estivera. Por outro lado, o seu discurso sobre as poucas cidades que conhecia fisicamente era tão desapaixonado que quem o ouvia ficava com a impressão de estar perante um mentiroso sem convicção. Apesar de viver em Lisboa, muitos dos seus amigos não acreditavam que ele alguma vez lá tivesse estado. Quando falava sobre Nova Iorque, Genebra e, o mais extraordinário, Macondo, o único espanto que causava era por ninguém saber onde arranjava ele o tempo e o dinheiro para tantas viagens.
 
Eu queria escrever sobre a biografia do Rio de Janeiro, da autoria de Ruy Castro, mas, desculpem-me os leitores, é Verão nas páginas que acabei de ler e só me apetece vadiar.
20
Fev09

Crónica da minha última vez no Estádio da Luz

Bruno Vieira Amaral

Benfica vs. Oliveira do Bairro - uma experiência (2007)

 

 
Chego ao estádio no momento em que se festeja o primeiro golo. Perdi a dramática águia Vitória e já só me resta a entrada teatral de Mantorras, que só deverá acontecer na 2ª parte. Como o desfecho do jogo não está em causa, faço antropologia social. O treinador do Oliveira do Bairro arrisca sair do banco para dar indicações aos seus jogadores. Um desperdício. Tinha uma hora e meia para ler um livro, contemplar a arquitectura do estádio, ir às compras no Colombo, dormir. Prefere dar indicações perceptivelmente imperceptíveis.
 
O Benfica não consegue fazer uma jogada decente. Desconfio que algo se passa em termos de periodização táctica ou talvez seja a presença de Kikin Fonseca a obstruir a fluidez de jogo. O problema dele é óbvio: remata sempre com o pior pé; umas vezes com o esquerdo, outras com o direito. Duvido que alguém, à excepção do José Eduardo Moniz, o queira contratar.
 
Uma adepta do Benfica recomenda ao treinador visitante que regresse ao banco. Como domina a retórica da bancada rosna uma súmula de disciplina e afecto, exemplo clássico de mediocritas latina: "Vai pá barraca, cão!"
 
O jogo prossegue. O Benfica marca mais dois golos, ambos por Nuno Gomes, que poderiam ter sido marcados, com igual eficácia, por um poste eléctrico, por um juvenil ou por uma personagem de ficção (penso em Raskolnikov).
 
Intervalo. O público devora sandes de torresmo. A voz ominosa de António Manuel Ribeiro ecoa por todo o estádio. Rui Costa chora no écran gigante o pior golo da vida dele. São quinze minutos de desgraças a que o regresso do nº 10 aos relvados põe fim. Aplausos frenéticos. Desmaios. Distúrbios no mítico 3º anel. Algum irresponsável, na sua fúria civilizadora, resolveu instalar cadeiras nos estádios de futebol e, ainda pior, numerá-las. Resultado: pancadaria. Portugal é o único país do mundo em que o conflito floresce na organização e fenece no caos.
 
Pelo que consigo ver, a entrada de Rui Costa ilumina a equipa. Até ao fim do jogo mais dois golos. Finalmente, Kikin Fonseca rematou com o melhor pé. Mantorras entra mais cedo do que é habitual. O desvio litúrgico diminui a intensidade da fé. Apesar disso, os aplausos são claramente desproporcionais em relação à produtividade do angolano. Antes do final, um petiz sentado no maternal regaço arremessa um copo de plástico na direcção do banco de suplentes do Oliveira do Bairro. A mãe, enlevada, repreende-o com um sorrisinho modesto.
 
O jogo chega ao fim. O speaker pede aplausos para os forasteiros. O público, convicto da sua superioridade moral e futebolística, acede ao pedido. Tudo acaba bem. Ser do Benfica é uma alergia imensa.
20
Fev09

O insulto como compensação trágica de uma carência bélica

Bruno Vieira Amaral

Post roubado a mim próprio:

 

A forma como homens crescidinhos recorrem ao insulto verbal um tanto cobardolas só quer dizer uma coisa: o país precisa de uma guerra. Com o 25 de Novembro perdemos (eu não, que sou pacifista!) uma bela oportunidade de resolver este país. Como oportunidades daquelas não surgem todos os dias é provável que nos próximos cinquenta anos tenhamos de nos aturar com "bons dias" e "boas tardes, senhores doutores" rangidos e biliosos. É triste ter de dizer isto, sobretudo num Sábado de manhã, mas faz-nos falta uma guerra civil. Enfiar baionetas (desculpem-me o anacronismo) nos nossos vizinhos, enviar transmontanos e albicastrenses para campos de concentração em sinistros autocarros da Barraqueiro, rebentar com a Basílica da Estrela, assim é que uma sociedade se regenera.

 
Em vez do acima descrito passamos o tempo sentados no conforto burguês das redacções a atirar sumptuosas figuras de estilo à cara do colega de profissão que protesta com gritinhos de virgem deontológica; como demonstração de masculinidade digamos que é assim um pouco para o francês. Como é que vamos defender a civilização ocidental, o país, o T4 na Expo, alimentados a chá, croissants e filmes do François Ozon?
 
Neste momento de crise seria irrealista referendar a organização de uma guerra civil. Como já nem alfaias agrícolas temos, seríamos obrigados a recorrer às obras completas de Júlio Dinis (corpos tombados na lezíria ao lado de edições de luxo d' A Morgadinha dos Canaviais). A verdade é esta: por razões orçamentais, culturais e por défice de varonil vigor não estamos em condições de nos andarmos a matar uns aos outros. É pena.
16
Fev09

Tipo passe

Bruno Vieira Amaral

Quando eu era pequeno, uma vez por ano, alguém batia à porta. Normalmente era uma rapariga. Perguntava à minha avó se havia crianças em casa. A minha avó dizia que sim. Então, aparecia um sujeito com uma parafernália de instrumentos e um bigode ridículo. Eram fotógrafos. A minha avó penteava-me, vestia-me a roupa mais decente que encontrava – e que era sempre a que me cobria de vergonha – e eu era fotografado como um índio tupi por um jornalista da National Geographic: Bruno a comer uma maçã, Bruno com um casaco verde a olhar-se ao espelho, Bruno a ler um livro (mas com um olhar para a objectiva que dizia “eu só estou a fingir que estou a ler”, técnica que fui aprimorando e que, ainda hoje, pratico com jactância no Metro) e a mais tautológica, Bruno com uma máquina fotográfica ao pescoço. A rapariga tratava das burocracias, corrigia-me o queixo, acalmava-me o cabelo, aprovava-me a fotogenia. O dono do bigode disparava. Iam-se embora e deixavam-me sentado na sala, calçado com os sapatos de sair, sem ter para onde. Estes fotógrafos itinerantes extinguiram-se ou foram para paragens mais verdejantes de crianças. Nunca mais apareceram. Desde então, o meu contacto com fotógrafos tem sido raro e nem por isso mais precioso. Fotografias tipo passe para os documentos, casamento e fotografias com o meu filho. Os documentos vão sendo subsituídos. As fotografias do casamento, tal como o próprio, deverão ter encontrado um final pouco feliz. Restam-me as fotografias com o meu filho. Acontece que, da mesma forma que o fotógrafo ao domícilio desapareceu, o fotógrafo sedentário também se encontra ameaçado. A notícia vem no Público e eu nem teria prestado muita atenção se não fosse por esta frase: “não existe nenhuma hipótese de darmos volta à questão da fotografia tipo passe em Portugal”. Eis a dura verdade dos factos. Eu desconhecia que a fotografia tipo passe tivesse sido elevada a questão, mas para isso é que serve a leitura diária de jornais. Em 2004, o governo começou a instalar equipamentos fotográficos nos registos civis e, a partir daí, começou o lento e inexorável declínio da actividade. Solução? O Estado tem de compensar o sector. O Estado. O Estado. O Estado. Bem, vou ali levantar as fotografias do meu filho, se o fotógrafo não tiver declarado falência.

16
Fev09

Dúvida

Bruno Vieira Amaral

 

 

 

 

 

 

 

A adaptação cinematográfica de "Dúvida", feita pelo autor, John Patrick Shanley, é competente. Shanley fez algumas alterações porque, como o próprio reconhece, seria estranho se a criança não aparecesse no filme. Seria um pouco como "Closer", adaptado de uma peça de Patrick Marber, em que as personagens, por muito bons que sejam os diálogos, parecem vir de lado nenhum e são fixadas num cenário artificial. O mérito de Shanley é não inventar. A sorte é que os actores são tão bons que não é preciso inventar mesmo nada.

 

A acção decorre em 1964. A irmã Aloysius (Meryl Streep), reitora do Colégio de São Nicolau, convence-se de que o Padre Flynn (Philip Seymour Hoffmann) terá abusado de uma criança (o primeiro e único aluno negro da instituição). Não tem provas que o possam incriminar, mas tem a certeza. Uma certeza que nasce de impressões subjectivas. A irmã Aloysius é autoritária e antiquada. O padre Flynn é afável, moderno e eloquente. Entre eles está a irmã James (Amy Adams), uma jovem professora idealista e ingénua. Aloysius vê no padre Flynn uma ameaça. Ele representa uma igreja nova, em mudança, aberta ao mundo, mas também uma igreja que é, hierarquicamente, um mundo de homens (ver as cenas dos jantares dos padres e das freiras). Para a irmã Aloysius, o padre Flynn representa um novo mundo e uma nova igreja que ela não aceita. As motivações da irmã Aloysius não nos são nada simpáticas. Ela é movida por um preconceito e o espectador, quando se apercebe disso, já criou os seus próprios preconceitos: a irmã é detestável, o padre é inocente. Mas existem as zonas de sombra: a ingenuidade com que a irmã James lida com os alunos torna aceitáveis os métodos rígidos de Aloysius. Esta, por sua vez, dá mostras de humanidade na relação com as outras freiras. O padre Flynn é, no mínimo, ambíguo (o desvelo com as unhas compridas) e o casting de Seymour Hoffmann - pedófilo não é palavra que vá mal com aquela cara - só aumenta a dúvida. E, na melhor cena do filme, a conversa-confronto entre a irmã Aloysius e a mãe do miúdo (Viola Davis esmagadora) faz-nos repensar o nosso próprio preonceito. E se a irmã Aloysius tiver razão? Nós não queremos que ela tenha porque não aderimos emocionalmente às suas motivações e porque a sua crença na culpabilidade do padre dispensa provas. No entanto, o padre Flynn poderá ter abusado daquela criança. Em que ficamos? Preferimos uma certeza que nos sossegue ou uma dúvida que nos atormente? A resposta está mesmo na última cena do filme.

 

 

P.S: quem teve a sorte de, há dois anos, assistir à exibição da peça no Teatro Maria Matos, não poderá esquecer o sermão do boato na voz de Diogo Infante.

 

 

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