"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos
31.5.09

"Sometimes I find it difficult to live up to my covers"

 

Angela Lansbury a.k.a J.B. Fletcher em Crime, "escreveu" ela

 

 

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Sou contra as touradas, mas sou a favor das transmissões televisivas de touradas. São dois espectáculos diferentes. O primeiro depende do toiro. O segundo depende da escola de realização televisiva da RTP 1 e dos comentadores que são periodicamente resgatados das herdades de Samora Correia para os microfones da televisão pública. Estes Luises-freitas-lobos da tauromaquia substituem a periodização táctica pela ganadaria, o ponta-de-lança pela bandarilha e, vejo agora, aqueles tipos anónimos que estacionam atrás das balizas pela Helena Coelho. É um prazer vê-la entrevistar João Moura Caetano (que eu não sei se é filho do João Moura, do Paulo Caetano ou de Sérgio Aguero e neto de Diego Armando Maradona): “Senti-me bem. Senti-me toureiro” diz, emocionado, o cavaleiro. O meu sonho é ouvir Jorge Ribeiro na flash-interview, suado e esbaforido, a proclamar ao mundo: “Senti-me bem. Senti-me lateral-esquerdo que fecha bem e consegue fazer um cruzamento decente por jogo”. Neste momento, a câmara elege uma senhora de cabelo loiro e curto. O comentador diz que é a esposa de Joaquim Bastinhas, o que impressiona qualquer pessoa que, como eu, seja incapaz de identificar Joaquim Bastinhas, quanto mais a mulher dele. O cavaleiro agora é Marcos Bastinhas (isto das ganadarias não se fica pelos toiros). A coisa não corre bem e o comentador lança um passatempo: “em que ano se realizou a 1ª corrida TV?”. Os cinco primeiros espectadores a acertar recebem convites para a próxima corrida RTP. Tudo isto me parece tautológico e particularmente grave por se passar em Coruche. Adiante. Os países civilizados, como a Rússia, aceitam touradas à portuguesa desde que cubram o lombo do touro de velcro para que as bandarilhas não se cravem na carne do animal. Ficam ali num precário equilíbrio de jogo de setas para crianças. Isto é o mesmo que legalizar o casamento homossexual e proibir o sexo anal e os vibradores. Passemos à pega. O forcado António Macedo “provoca a investida do toiro” mas o toiro, com as suas inquietantes preocupações taurinas, ignora-o. O comentador insurge-se: “É muito aborrecido o comportamento destes toiros.” Helena Coelho acusa o toiro de não colaborar. Finalmente, o toiro investe, colabora e o mundo, em especial o que a estas horas sintoniza a RTP 1, sente-se recompensado.

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29.5.09

 

Um casal neo-zelandês pediu o equivalente a 100 mil euros ao banco e recebeu na conta vários milhões. Em vez de guardarem o talão para impressionar os amigos e esperar que o banco corrigisse o erro, transferiram uma parte do dinheiro para uma conta off-shore e voaram para parte incerta. Louvo-lhes a capacidade de reacção. O nosso tempo é o da velocidade e da tecnologia, até no negócio de roubar bancos. A velocidade só não interessa se o meliante for o administrador do banco. Nesse caso faz-lhe mais falta uma boa trituradora de papel e uma memória cheia de buracos. Não se deixem enganar pelo meio-campo do Barcelona: o tempo dos românticos acabou. Chegámos ao ponto de ter um operador de armazém de Alverca a assaltar bancos na sua hora de almoço, num exemplo original de duplo emprego. Quando a polícia o foi buscar, e apesar do potencial cinematográfico de uma perseguição entre empilhadoras e paletes, o homem não ofereceu resistência. Um desfecho tão sossegado que poderia ser usado como publicidade a um condomínio na Arruda dos Vinhos. O fascínio por Bonnie e Clyde só pode aumentar.

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27.5.09

«Há uma vida à frente para percorrer e vamos percorrer essa vida juntos. É também uma forma de estarmos juntos, como ele tem estado sempre junto da selecção portuguesa»
 
Carlos Queirós que, juntamente com Carlos Queirós, é o mais próximo que vamos estar de um cruzamento entre Telé Santana e Nicholas Sparks.
 
 

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26.5.09

Zeca. Zeca. Tem cinquenta anos, de certeza não menos, poucos mais terá. Ao longe, a silhueta é a mesma de há trinta anos, o corpo magro, o cabelo crescendo para cima, as mãos enfiadas fundo nos bolsos apertados das calças de ganga gastas, tão antigas como a juventude dele. Sempre viveu ali, em casa dos pais, sem ocupação conhecida, sempre ali, de um lado para o outro, de dia em dia, como um gato a esgueirar-se por portas entreabertas. O Zeca não é deste mundo. Não é de mundo nenhum. Costumava ajudar os pais na frutaria, uma barraca entre outras onde vendiam frutas e hortaliças. A mãe morreu, a frutaria fechou, o pai passa os dias à porta de casa ou sentado no carro. Uma vez discutiram, ele e o pai, o Zeca a dizer que o matava, depois silêncio, ele saiu, bateu com a porta, a vida continuou. A minha avó pede-lhe que faça algumas reparações lá em casa. Torneiras, prateleiras, gavetas que não fecham, portas que não abrem. E ele às vezes vai. Outras, não aparece. Quando aparece, faz as coisas como deve ser. A minha avó dá-lhe 5 ou 10 euros. Um prato de arroz doce. Ele agradece, todo curvado, todo gratidão, desce as escadas, volta uma hora depois, o arroz comido, o prato lavado. O Zeca teve um pombal. Lembro-me disso. Foi há muitos anos. Com umas ripas de madeira erguia-se uma garagem, com umas estacas, a vedação de uma horta. O primeiro a chegar reclamava o território e assim ficava, sem papéis, nem impostos, reconhecido por todos e por ninguém. O Zeca tinha o pombal. Um dia, o Zeca ficou sem o pombal, como outros ficaram sem as garagens e outros sem as hortas, mas permaneceu ali, nos baldios, sem nada para fazer, a descascar os dias, esse fruto que nas mãos do Zeca é só casca, uma interminável casca que se lhe enrola aos pés e que lhe vai amortalhando o corpo.

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25.5.09

 

Meninas da Numídia – Mohamed Leftah

 

Nem só de empresários da construção civil vivem os bordéis. A boa literatura, de Kawabata a García Marquez, também os frequenta. Prostitutas, pederastas e a indolência poética do Norte de África. Surpresa? Não ter sido escrito por Paul Bowles. A sodomização de um cidadão dinamarquês por um chulo marroquino é um grande momento de literatura pós-colonial.

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22.5.09

 

Tenho vontade de salvar Garrincha. Tenho vontade de ir lá atrás, a mil novecentos e sessenta e tal, e salvar Garrincha dele próprio, da cachaça, das pernas tortas e do insaciável pau grande, de Pau Grande, terra que era a dele e onde não podia voltar, da mulher feia que só lhe deu filhas, oito ou nove, não interessa, só filhas, nem um macho, um Garrinchinha, esse teve de ser feito noutros ventres, e sabem uma coisa?, morreram dois, sobrou um Garrinchinha escandinavo, feito à primeira, com a temível pontaria do índio, numa menininha sueca e loira, em cinquenta e oito, ano de ouro. Tenho vontade de o salvar dos defesas, dos “joões” que ele fintava e voltava para trás para fintar outra vez, das multidões que o adoravam e que, mais tarde, não lhe pouparam assobios e vaias, do Brasil moralista que o condenou por amar uma mulher e ser amado por ela. Mas a salvo disto tudo, quem teria sido Garrincha? Pelé. Génio da bola e do mastercard, homem e marca de sucesso. Deixa estar. Deixa o Garrincha semi-analfabeto, burro, bêbado, mau pai de família. Deixa o Garrincha assim, para sempre. Deixa o Garrincha naqueles três minutos em que um par de pernas tortas reduziu o “futebol científico” dos soviéticos à categoria das pseudo-ciências. Se o desporto de Garrincha fosse o lançamento de foguetões, Gagarin nunca teria tirado os pés do chão. Garrincha é a prova de que não necessitamos de deuses que paguem pelos nossos pecados. Precisamos de homens imperfeitos que os cometam por nós.

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21.5.09

Sexo, chantagem, desequilíbrios emocionais. Afinal, o que separa Atracção Fatal de uma aula de história? Não haverá por aí um aluno suficientemente destro para caçar um coelhinho, levá-lo para a escola e trazer de uma vez por todas Adrian Lyne para a 5 de Outubro? O caso não foi assim tão grave. Provou-se que não é necessário ter menos de 16 anos para gritar dentro de uma sala de aulas. Lamenta-se o idêntico domínio pedestre do idioma mas quando se quer impor respeito há sempre uma ou duas vítimas. Desta vez calhou à língua portuguesa. Nada a que esta não "esteje" (como diria José Veiga) habituada.

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18.5.09

Televisionei o Eurofestival. Não foi bonito. Terminada a votação, todas as minhas ideias sobre Europa, civilização ocidental e sexualidade no Azerbaijão tinham sido desfeitas. O representante turco é o derradeiro argumento contra a entrada da Turquia na UE (pensando bem, a Turquia enviou umas odaliscas que, por si, mereciam um capítulo do Orientalismo, mas o meu argumento contra a entrada da Turquia permanece válido). A canção alemã ajuda-nos a perceber porque é que a Alemanha seria o único país do mundo a dar asilo político ao cantor David Hasselhoff. A Noruega desencantou um duende num fiorde e, com isso, ganhou o certame. A canção inglesa foi composta por Andrew Lloyd Weber o que é tão justo como o Federer competir no quadro feminino de Roland Garros. Acabaram em 5º. Portugal resiste com a dignidade possível a enviar uma aberração nacional para esta celebração indecorosa de látex e lycra, depilação masculina e letras em inglês de 5º ano, implantes mamários e geopolítica do caos musical. Mandamos gordas e cavaquinhos, todos muito felizes como provado pelo furioso menear de ancas, braços e alma do nosso percussionista.

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16.5.09

 

 

Publicado no i

 

 

 

Louis-Ferdinand Céline (1894-1961) continua a ser um nome controverso na história da literatura do séc. XX. Formado em Medicina, conquistou a celebridade literária com o primeiro romance (Viagem ao Fim da Noite, 1932), uma obra em que a sua experiência pessoal durante a I Guerra e nos anos seguintes foi transferida para o narrador, o seu alter-ego Ferdinand Bardamu. Escrito num estilo próximo da oralidade, inovando no recurso ao calão e a neologismos, o livro teve a bênção simultânea da crítica e do público. O segundo romance, Morte a Crédito, publicado em 1936, não teve o mesmo sucesso. Mas foram os panfletos anti-semitas e a colaboração com a Alemanha nazi que lançaram sobre Céline o anátema de escritor maldito que perdura até hoje.

 

Em 1944, a libertação da França pelas tropas aliadas obrigou-o a procurar refúgio na Alemanha. 2ª parte de uma trilogia que inclui os romances Castelos Perigosos e Rigodon, Norte é o relato dessa viagem ao fim da noite alemã. Acompanhado pela mulher, pelo gato e por um amigo, Céline relata sem ilusões a sua condição de refugiado e de colaboracionista. A traição à pátria obriga-o a partilhar o destino de uma Alemanha derrotada sem o consolo moral de ser alemão: “Somos malditos em toda a parte”; “só queriam uma coisa, ver-se livres de nós”. Apesar da desconfiança com que são recebidos, apesar das privações e das indignidades sofridas, para Céline tudo é preferível a ter ficado em Paris: “Quando as hienas vêm atrás de nós, saltar para a boca do lobo é apesar de tudo uma pequena vingança...”. A lucidez com que avalia a sua situação é a mesma que utiliza para descrever o que era então uma sociedade à beira do colapso. Céline compõe um quadro onde, num contexto de destruição geral, as intrigas palacianas, as depravações sexuais, as denúncias fúteis e as burlescas sessões de cartomancia de aristocratas desesperados formam um conjunto de coerência absurda, como na estranha lógica de um pesadelo ou de uma alucinação. Como no resto da sua obra, Céline aproxima uma lupa das suas personagens, expondo com a mesma precisão clínica a decadência física e a corrupção moral. O resultado é a humanidade retratada sem piedade num tom que vai do grotesco ao humor negro.

 

Por tudo isto, e apesar da narração na primeira pessoa e da persona do autor, Norte não é um panfleto em que um pária vocifera as suas memórias. Norte é um romance. É o autor, e não o homem, que se revela nestas páginas. O seu estilo recria os ritmos do discurso oral, não o transcreve. As imprecações e o calão, as onomatopeias e as reticências não são, ao contrário do que convém à lenda satânica, ejaculações de ódio de um louco anti-semita. São as ferramentas de um escritor para dominar uma locomotiva que apenas não segue os carris académicos. A música celineana não é uma melodia agradável. É uma sinfonia através da qual o escritor exorciza o ódio pelo qual ainda hoje é julgado.

 

link do postPor Bruno Vieira Amaral, às 23:21  ver comentários (1) comentar

11.5.09

A minha mãe vai ter uma óptima razão para comprar o i aos Sábados. Pode ser que Céline tome o lugar da meteorologia nas nossas conversas.

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