"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos
29.7.09

Comentário de um anónimo ao célebre artigo:

 

" Tens de aprender a avaliar a música pela sua qualidade e não pelo facto de gostares ou deixares de gostar."

 

Outro comentário, agora do Ricardo Francisco, de Odivelas:

 

"Este pseudo jornalista já há algum tempo que me faz perder a vontade de ler o suplemento ípsilon simplesmente porque julga-se muito esperto."

 

Este também não está mau:

 

"O público pertence a Sonaecom...A Sonaecom era o patrocinador principal do Optimus Alive (como o nome indica)..o concerto dos The Killers foi brutal. Mais não digo.."
 
E esta sugestão de um encontro reconciliatório:
 
"lava-me essa boca antes de falares do Belenenses! A próxima vez que fores ao Restelo pode ser que os "velhinhos" te façam uma surpresa."
 
Outro que quer promover um encontro entre Bonifácio e os velhinhos:
 
"Este camarada Bonifácio antes de debitar as suas frustações no Estádio do grande Belém, devia era de passar um dia de jogo, no dito, deitado no corredor de acesso à bancada de sócios e experimentar ser pisado pelos "velhinhos do restelo" que necessáriamente por serem "palha que não bule com o vento" devem de ser leves e não lhe fazer mal algum."
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Há uns meses, a jornalista do Guardian que acompanhou o eurofestival online foi ameaçada por hordas virtuais de noruegueses enfurecidos (uma imagem que é menos inquietante se nos lembrarmos das manifestações violentas de monges budistas). Os noruegueses sentiram-se insultados e, num dos raros momentos em que não estão a contemplar as maravilhas da organização social enquanto esfregam libidinosamente as mãos dos companheiros com Neutrogena, protestaram. Eu pensei que anos de riqueza e de bem-estar, a falta de catástrofes naturais e do PCP, enfim, a pasmaceira nórdica, tivessem desensinado as artes do protesto a tão sóbrias gentes. Engano meu. A jornalista explicou-se e disse que não tinha a intenção de ofender os noruegueses; e, digo eu, mesmo que tivesse, dificilmente saberia como. Como é que se ofende um norueguês? Ninguém sabe. Como é que se ofende o Belenenses? Escrevendo uma crítica musical sobre um festival no estádio do Restelo. João Bonifácio, jornalista do Público, um jornal que quando crescer quer ser como o Guardian e que enquanto não é copia-lhe as notícias, pegou na Noruega que tinha mais à mão, o Belenenses. A direcção do Belenenses não gostou e, coerente com um longo historial de queixas e recursos, escreveu para o Público, uma actividade que eu julgava exclusiva do sr. Augusto Küttner de Magalhães. O Público, humilde e cabisbaixamente, desculpou-se. “O Belenenses pela sua actividade, história e prestígio, merece um público e sincero pedido de desculpas”. Pobre Bonifácio que foi logo meter-se com o Belenenses, o único clube em Portugal cujo processo de decadência se cristalizou num substantivo: a belenensização. Pobre Bonifácio que achou piada ao facto de um festival se realizar no bocejódromo do Restelo. Pobre Bonifácio que ainda lhe calha um concerto dos Moonspell na Casa de Repouso São José Operário, na Baixa da Banheira. Pobre Público.

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19.7.09

 

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Aldous Huxley escreveu que “um livro sobre o futuro não pode interessar-nos, a não ser que as suas profecias tenham a aparência de coisas cuja realização se pode conceber”. Barroco Tropical, sétimo romance do angolano José Eduardo Agualusa, não corre o risco de não nos interessar porque para conceber o futuro imaginado pelo escritor basta saber um pouco sobre o presente de Angola. A acção decorre no ano de 2020, em Luanda, mas ao longo das 339 páginas do livro, Agualusa mantém o leitor em 2009. A culpa talvez seja de um país onde, como diz um dos personagens, “até o futuro é arcaico”. O oxímoro, e não há escassez de oxímoros no livro, capta a essência contraditória da sociedade angolana. Opulência e miséria, tradição e futuro, realidade e ficção são elementos que, ao invés de se anularem, se potenciam. Do oxímoro à hipérbole, a figura de estilo do barroco, é um pequeno passo. Um excesso que Agualusa não desaproveita, nem sempre com os melhores resultados.
 
Os bons contadores de histórias, e Agualusa é dos melhores da nossa língua, têm uma fraqueza: desperdiçar uma história é um acto contranatura. Sobram personagens excessivos em Barroco Tropical, um mal ampliado pela estrutura do livro que tem um capítulo dedicado à apresentação dos personagens secundários. Mesmo com uma epígrafe que se socorre da compreensão metaliterária do leitor, o capítulo 3 não deixa de ser uma solução que expõe demasiado a estrutura. São 40 páginas em que o “engenheiro” substitui o romancista ou, para recorrer a uma imagem do livro, em que a lagarta irrompe da borboleta. O escritor parece não ter resistido quer à própria imaginação, quer “ao alfobre de personagens insólitos” que é Luanda. Quando se olha a realidade de fora, e o olhar de Agualusa sobre Angola é o de um “estrangeirado”, tem-se a virtude de ver o que os outros não vêem. Por outro lado, o olhar exterior pode ser afectado pela “síndrome do turista”, que consiste no fascínio pueril pelo pitoresco e pelo superficial. O observador perspicaz pode tornar-se o guia de uma visita à Disneylândia do Terceiro Mundo, com os seus pobres, os seus curandeiros e os seus Ratos Mickey. É o principal risco de se descrever uma sociedade em que o absurdo invade o quotidiano ao ponto de não se distinguirem. Um risco presente desde o início do romance em que, numa inversão gravítica do episódio mais célebre do “realismo mágico”, uma mulher cai do céu. Esta profusão tropical de personagens e situações é temperada pelo estilo enxuto de Agualusa. A linguagem é sóbria, à procura da palavra certa, e evita exibições grandiloquentes de virtuosismo que transformariam o livro num pleonasmo de barroco, um exagero exagerado. O facto de o narrador principal ser um escritor permite o recurso a artifícios como as reflexões sobre a estrutura do romance, os apartes etimológicos e as referências a outros escritores (Coetzee, Manoel de Barros, Augusto Monterroso e até uma piada sobre Paulo Coelho), que apelam ao leitor mais cínico.
 
Livro sobre o futuro de Angola, Barroco Tropical é também, implicitamente, um livro sobre o futuro da língua portuguesa. A escrita de José Eduardo Agualusa, que se desloca com elegância entre as diferentes variantes do idioma, navega esse futuro que se pode designar de “português transatlântico”.
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18.7.09
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17.7.09

Henrique, tal como tu, eu também não sou adepto das teorias da conspiração, uma coincidência que demonstra inequivocamente que os judeus contaminaram a água do ISCTE. Muito me aprouveria acreditar que o Benfica tem sido alvo de uma conspiração de proporções bilderberguianas, que algures na cidade invicta existe um Protocolo dos Sábios do Dragão. Seria a prova de que no Estádio da Luz a inteligência não se esgota nas portas automáticas. Desgraçadamente, todos os indícios apontam para um caso simples de incompetência. Uma incompetência que até a ser incompetente é incompetente. Incompetentes a sério já teriam levado o Benfica para as catacumbas da Liga Vitalis. Mas, no Benfica, a incompetência até consegue ganhar um campeonato, como tu dizes, mijado. As referências à arbitragem são supérfluas. Todas as grandes conquistas precisam de um roubo escandaloso que as eternize. A glória despida da suspeita, a glória no seu esplendor nu, é uma forma pobre de auto-satisfação. Uma boa vitória precisa do despeito do adversário para ser grande. O que fez daquele campeonato uma conquista indigna foi não termos conseguido ver, ao longo de uma época, o Benfica a alinhar uma sucessão de passes superior à unidade (não contam pontapés-de-baliza e os charutos do Luisão para o meio-campo adversário). Em mais de dez anos de desgraças e humilhações contam-se pelos dedos as minhas alegrias de adepto: uma finta do Miccoli a um infeliz defesa do Beira-Mar (valeu uma Champions); uma rabona do Aimar (outra Champions); um golo de um sujeito chamado Beto ao Manchester United (um golo). A vitória sobre o Liverpool foi um acidente cósmico que dispensa análises futebolísticas. Nessa unânime noite do benfiquismo, milhões de planetas pereceram e, algures no espaço, um ser ainda desconhecido para nós terá escrito, através de uma combinação aleatória de símbolos, a obra completa de William Shakespeare. Anfield Road foi um pintelho no grande caos universal. E assim, entre incompetências várias e destruições de mundos, chegamos ao dia 17 de Julho de 2009 e à minha vontade de acreditar numa conspiração portista. Quero acreditar que, sob aquele fato italiano do Rui Costa, rebrilha uma camisola onde se pode ler a ominosa palavra “Revigrés”. Quero acreditar, mas o melhor será falarmos de táctica.

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15.7.09

O benfiquista anseia por espectáculo mas desconfia dos artistas. Quando a grande vedeta chega à Portela, o benfiquista aplaude mas no seu íntimo sabe que aquela chegada deve-se em partes iguais à venda de pneus, a Rui Costa e a um menisco em mau estado.  O meu amigo Henrique confessa-me que não acredita em di Maria. Louva-lhe a qualidade mas acha que quando chegar o Inverno, a chuva e a lama o di Maria terá a utilidade do cabeleireiro pessoal do Pierluigi Collina. Isto é, enquanto o Benfica jogar às 3 da tarde no Estádio da Luz, debaixo de um amigável sol de Outono, o di Maria será um génio. Quando o Benfica visitar o Paços de Ferreira e a Mata Real servir para pouco mais do que a reconstituição histórica da batalha de La Lys, di Maria, como os outros artistas, estarão perdidos.

 

Ao longo dos anos, criou-se a ideia de que os jogadores do Benfica são almas sensíveis, onze Tamagninis Nenés, com horror ao contacto físico e a qualquer sugestão de movimento que tenha como único objectivo a recuperação da bola. Obviamente a antítese é o Porto, o único clube do mundo onde um jogador como o Deco é ensinado a pensar como o Petit. Imaginem o que teria sido o Petit no Porto: um quadro de Bosch com adversários ceifados e perónios desfeitos. No Benfica, pelo contrário, o Petit estava tão domesticado que chegou a marcar um golo digno de Zidane (Benfica-PSG, oitavos-de-final da Taça Uefa 2006/2007).

 

O problema, caro Henrique, não é o di Maria ser o que é. O problema é o Benfica não melhorar os jogadores que tem. Quando o Luisão chegou era agressivo e cheio de atitude. Agora, anda ali, tão inofensivo como um juvenil. O Benfica amarica os jogadores. Se o Lisandro tivesse vindo para o Benfica a estas horas também estaria no Lyon. Mas antes disso teria sido dispensado pelo Benfica ao Rosário Independiente de Bogotá, onde demonstraria a sua enorme qualidade e seria contratado pelo Lyon.

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13.7.09

 

O Brasil recebeu o Papa Bento XVI com uma gentileza: 10 graus. O sangue bávaro terá agradecido, a não ser que Roma já lhe seja mais espessa. Os católicos do (por enquanto) país mais católico do mundo precisavam de uma visita papal. Mas Bento XVI não é João Paulo II. O polaco tinha “star quality”, coisa que o ex-Ratzinger nunca teve nem terá. Os brasileiros que esperam muito da visita deviam ser avisados: Bento XVI não é banda para grandes estádios. Onde ele pode causar comoção é em universidades alemãs, com citações de sábios de tempos em que no Brasil só se falava tupi. João Paulo II viajava tanto que eu pensava que Alitalia era o apelido dele. Bento XVI, que tem aquela cara de quem não gostou e voz de quem não comeu, deve achar as viagens uma maçada, um desperdício de tempo que deveria ser consagrado à leitura ou, em lapso pagão, a sorrateiros banhos de sol em Castel Gandolfo. Bento XVI vai encontrar um Brasil onde o número de católicos tem vindo a diminuir e o número de evangélicos não pára de aumentar. É a vitamina mediática a par de uma capacidade de responder às necessidades terrenas dos crentes que explica o crescimento evangélico. Os EUA também apostaram forte na colonização religiosa do Brasil. Não se pense que o protestantismo triunfante no Brasil é feito com missionários saídos dos quadros de Ford Maddox Brown ou de Grant Wood. Se os primeiros protestantes liam a Bíblia, os carismáticos berram-na – é o chamado cristianismo pulmonar. Contra os cristãos de trem eléctrico, contra os televendedores da salvação, não há erudição pontifícia que valha.

link do postPor Bruno Vieira Amaral, às 13:51  comentar

12.7.09

"E pensei com amargura e inveja: quem possui garantidamente uma coisa, nem precisa de a usar."

 

O Fim da Aventura, Graham Greene, trad. Jorge de Sena

link do postPor Bruno Vieira Amaral, às 12:12  comentar

9.7.09

 

Entre os leitores da Ler há os que escrevem para a Ler e que lêem o que escreveram para a Ler. Ler a Ler dá vontade de ler e anima o leitor a escrever para a Ler. Fátima Boliqueime, “leitora assídua da LER”, enviou um e-mail à Ler, onde escreve: “Quanto à distinção de ler os clássicos, Hitler[ sublinhado meu] frequentava clássicos…”. Isto significa que a leitura de clássicos e o extermínio de judeus são, ao contrário do que poderíamos supor, actividades compatíveis. Chateia-me muito o argumento “o Hitler também”, que serve para desprestigiar a democracia, a água canalizada e, neste caso, a leitura dos clássicos. Claro que este argumento satisfaz aquela parte da humanidade que já leu Ovídio e, apesar disso, nunca invadiu a Polónia. Não é que os utilizadores do argumento estabeleçam um nexo de causalidade entre as leituras de Hitler e as acções de Hitler. A leitora da Ler não diz: “sim, leiam os clássicos e vão ver o que vos acontece”. Diz que ler os clássicos não impede ninguém de ser um facínora, o que também se pode aplicar a beber chá, a dormir a sesta e a falar alemão (não sei se Hitler bebia chá e se dormia a sesta, mas tudo leva a crer que falava alemão). Devemos, então, ler os clássicos? Sim, mas não devemos esperar um reembolso se uns dias depois assassinarmos uma família de camponeses à sacholada.

link do postPor Bruno Vieira Amaral, às 14:27  ver comentários (1) comentar

8.7.09

 

John Cazale estava à beira da morte, à beirinha, enquanto decorriam as filmagens d’O Caçador, mas a morte já estava nele há muitos anos. Não conheço actor mais fúnebre, mais póstumo, mais aparentado à morte.

link do postPor Bruno Vieira Amaral, às 15:05  comentar

5.7.09

" I never liked you. You know why? You don't curse. I don't trust a man who doesn't curse. Not a "fuck" or a "shit" in all these years. Real men curse."

 

Raymond J. Barry para Robert Duvall em "Um dia de raiva", um filme que esteve a um final decente de ser grande

 

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Vivemos em Democracia mas não vivemos a democracia no dia-a-dia, no exercício das nossas liberdades, na rejeição das pequenas tiranias que nos sufocam e paralisam. Aceitamos tudo porque só assim nos podemos queixar de tudo. São essas as nossas armas: a queixa, a inveja e a arte de viver nas fendas que é o chico-espertismo.
“Em Busca da Identidade – o desnorte”, o filósofo José Gil atribui à doença da identidade, ao excesso de identidade, a nossa paralisia social e cívica. “Somos portugueses antes de sermos homens” (p.10) e o peso dessa identidade afecta os percursos individuais e degrada o espaço público. O excesso de identidade conforta e imobiliza, somos o que somos e isso desculpa-nos, exime-nos do debate, protege-nos do conflito e empurra-nos para o queixume. Transferindo “mecanismos psicanalíticos para o colectivo”, José Gil detecta traços neuróticos nos portugueses durante o Estado Novo como, e cita Ferenczi, “a atenuação do sentimento de responsabilidade”, “o adiamento de todas as acções” e “a crença na realização das ideias só porque são pensadas”. Estes traços permanecem no português do pós-25 de Abril como estratégia de sobrevivência, de adaptação a uma realidade que não era imediatamente dada, que tinha de ser construída. A liberdade colocou problemas de identidade, que levaram a que os portugueses se refugiassem em “antigos moldes que forneciam segurança e paz interior”. Décadas de salazarismo não só afastaram os portugueses do espaço público de debate mas também criaram uma identidade avessa ao conflito e à discussão. A identidade do português não estava preparada para a realidade democrática, para o exercício da cidadania, para a expressão livre. Para José Gil, este conflito entre a identidade e a realidade explica “a nossa dificuldade actual em nos desviarmos de uma via única”. É a nostalgia da ordem salazarista, de um sossego existencial característico dos regimes ditatoriais, de uma paz claustrofóbica que vai respirando pelo tubo do “queixume delirante”.
José Gil desmonta a retórica da “via única” do primeiro-ministro José Sócrates, do discurso reformista que, quando embate com a realidade, prefere a cosmética à transformação dessa realidade. É a institucionalização do chico-espertismo. As tácticas de sobrevivência quotidiana que constam do manual do chico-esperto são, enfim, consagradas pelo próprio Estado. A vontade de mudança permanece como “aspiração flutuante”, impossível de satisfazer, enquanto que, na prática, prevalecem truques como o estudo da OCDE que não era da OCDE. A propaganda da “via única” também procura contornar o conflito ou, quando ele é inegável, desinscrevê-lo do real. A atitude do governo relativamente à contestação dos professores é disso o melhor exemplo. Reconhece-se o direito à manifestação mas retira-se-lhe qualquer significado político, como se 120.000 professores, zombies ou couves fossem a mesma não-coisa. “Assim começa a interiorização da obediência” no país do respeitinho, onde, como afirma José Gil, “estamos ainda longe de praticar a democracia”.
link do postPor Bruno Vieira Amaral, às 19:09  comentar

2.7.09

 

O fim do secundário foi penoso. Enquanto toda a gente sofria com a possibilidade de não entrar na faculdade ou de escolher um curso sem saída, eu preparava-me para enfrentar a vida sem poder acompanhar o Tour. O trabalho nunca me assustou mas imaginar-me num call center enquanto o Marco Chagas comentava os últimos 40 kms de uma etapa do Tour fez-me ponderar a hipótese de me dedicar à mendicância ou ao jornalismo desportivo. A vida de Julhos sem tardes livres era um cenário desolador. Tirar férias nessa altura era pouco menos do que um embuste burguês. Cheguei a pensar no suicídio, e brandia O Mito de Sísifo, mas depois li Durkheim e não quis acabar como nota-de-rodapé estatística de uma tese de mestrado no ISCTE. Como poderia sobreviver sem experimentar essa reedição do eterno confronto entre o Bem e o Mal com os anjos da Banesto de um lado e os nazis da Deutsche Telekom do outro? Depois de Indurain, as minhas esperanças transferiram-se para esse Indurain que não ganhava tempo suficiente nos contra-relógios para poder ser carregado pelos companheiros Alpes acima sem perder a camisola amarela e a quem chamavam Abraham Olano. Bjarne Riis e Jan Ulrich, o equivalente velocipédico de Ivan Drago, trataram de acabar com o meu sonho de uma Banesto eternamente vencedora. Passaram-se anos e, inevitavelmente, o Tour acabou-se, pelo menos para mim. Até que o ano passado, instigado por um tio cicloturista, dei por mim a comprar uns calções de lycra almofadados, uma camisola justinha e um capacete para me lançar naquilo que me disseram ser um passeio mas que rapidamente se transformou num suplício. A manhã começou prazenteira. À excepção de uns quantos maníacos de óculos escuros, que bebiam powerade e comiam barras de chocolate como se se preparassem para atacar o Alpe d’Huez, o ambiente era familiar. Uns velhotes barrigudos, uns miúdos e, o que me animou bastante, umas rapariguitas. O percurso era de 60 kms e eu, apesar de nunca ter feito nada semelhante, estava convencido que as pernas estariam à altura do desafio. O “passeio” começou tranquilo e até dava para ir no meio do pelotão a contemplar os sobreiros e restante flora típica da Margem Sul. Quando, aos 30 kms, fizemos uma pausa, não só as minhas pernas, como o meu cérebro e sobretudo aquela parte que se estende do períneo à nuca, estavam dormentes. Olhei para os velhotes, para os miúdos e para as rapariguitas, todos com um ar muito saudável, e eu, confirmei no espelho de um carro, podia ser confundido com um tuberculoso internado num sanatório a quem tinha sido concedido um último e estúpido desejo. O meu tio estava a conversar animadamente com os amigos enquanto eu me entregava com total concentração à solitária tarefa de respirar. Nada me assustava mais do que a ideia de ainda ter de percorrer 30 kms. Mas por fé, teimosia ou incapacidade de raciocinar, lá me fiz à estrada. Muitos de vós não conhecerão, e eu não vos culpo por isso, um viaduto que há ali para os lados do Pinhal Novo. É um viaduto como tantos outros, sobre uma auto-estrada como tantas outras mas, na minha lenda pessoal, aquele é o lugar da vergonha e da ignomínia: o lugar onde parei para observar, com a melancolia permitida pelo cansaço, o pelotão colorido que se afastava de mim num ritmo sereno mas constante. Olhei para o lado e senti o desespero do carro-vassoura. Atrás de mim, apenas uma ambulância. Aproveitei a inclinação do viaduto para voltar ao selim e cumprir o percurso restante, com toda a tristeza de quem está perfeitamente equipado para uma prova que está para além das suas forças. Nunca tive tantas saudades do tempo em que me contentava em ver as bicicletas no sossego da minha sala. 

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