"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos
30.8.09

 
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Há bandas que procuram a canção pop perfeita. Os romancistas norte-americanos procuram o grande romance americano. O Santo Graal das letras americanas teria de ser um grande fresco de toda a história americana; mítico mas que projectasse o homem comum; exemplar dos valores americanos, inspirador e escrito na língua telúrica das pedras e da paisagem, a língua de Whitman, de Twain e de Faulkner. Um romance onde coubesse toda a América, um romance que fosse a América.
 
Por esse motivo, pode parecer estranho que um livro escrito por uma mulher negra, sobre a vida de uma escrava e da sua luta para se reconstruir em liberdade, que decorre em meados do século XIX, seja talvez o mais próximo que os escritores americanos estiveram daquele grande romance. É o relato de uma experiência minoritária, sobre uma das páginas negras da história americana e, no entanto, Beloved ultrapassa claramente esses limites. Em vez da construção épica de um país, temos a história de Sethe, mulher, negra e escrava em fuga de uma plantação, Sweet Home, rumo à liberdade. Privado de desejos e vontade própria, o escravo não tinha autorização para se apegar aos seus porque nada lhe pertencia. O seu corpo, animalizado, brutalizado e violado, não lhe pertencia. Para não sofrer mais, o escravo nem sequer se podia afeiçoar aos filhos, porque “não valia a pena memorizar feições que nunca veria transformarem-se em adultas”, “assim protegíamo-nos e amávamos pouco”. Para o escravo, a liberdade era mais do que a carta de alforria, o soldo pago pelo suor do rosto, era “chegar a um lugar onde se podia amar tudo aquilo que se escolhesse - sem precisar da autorização para o desejo”. Quando Sethe se vê novamente sob a ameaça de perder o que conquistou com a fuga, recusa-se a aceitar que os filhos voltem para o lugar escuro de onde escaparam e degola a própria filha. E o que é mais chocante no sacrifício é a necessidade que subjaz ao acto aparentemente tresloucado. Tal como Abraão ouve a voz de Deus e não hesita em sacrificar o seu único filho, Sethe está disposta a matar os filhos para os poupar à não-vida da escravidão. O que parece loucura é, afinal, amor. Depois de conhecer a liberdade, Sethe não quer que os filhos sintam na pele a mesma árvore de carne viva que ela carrega às costas. A memória do sofrimento não se cinge às cicatrizes físicas. Beloved é também uma história de fantasmas que não se podem esquecer (o fantasma da criança morta assombra a casa de Sethe e encarna nessa criatura vinda de lado nenhum que se chama Beloved), de passados que não se podem exorcizar.
 
O Nobel que Toni Morrison recebeu deve-se sobretudo a este seu quinto romance, publicado em 1987. E o lugar de Beloved na galeria dos grandes romances americanos releva da sua ressonância bíblica, que lhe confere o carácter mítico, e do poder evocativo da tradição oral, que lhe garante a força telúrica e o enraizamento popular. É a história da libertação de um povo e do sangue derramado nesse caminho. É sobretudo a história de uma mulher e do seu êxodo particular rumo à Terra Prometida que cada ser humano livre traz no seu coração.
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29.8.09

“Tout au début de la Genèse , il est écrit que Dieu a créé l’homme pour qu’il règne sur les oiseaux, les poissons et le bétail. Bien entendu, la Genèse a été composée par un homme et pas par un cheval”. Talvez Saramago não concorde com esta última frase de Milan Kundera. É esperar para ler o novo romance do nosso Nobel. A frase é retirada de um dos últimos capítulos de “A Insustentável Leveza do Ser” (perdoem-me a paneleirice do francês mas só tenho a edição baratinha da Folio, à qual restará pouco tempo, tal a decrepitude das folhas). Kundera defende que a bondade do homem só se pode manifestar em toda a pureza e liberdade quando é dirigida aos que não o podem ameaçar, aos que lhe são “hierarquicamente” inferiores. Refere-se aos animais. De acordo com esta ideia, a verdadeira crueldade também só se poderia manifestar quando exercida contra animais, contra aqueles que, por decreto divino e humana soberba, estão à nossa mercê. O homem é deus e senhor dos animais. Vive a sua superioridade quando dispõe do destino de uma mosca, de um cão, de uma galinha. Em “Aparição”, Carolino, esse Raskolnikov alentejano, sente uma vertigem de super-homem nietzscheano quando mata uma galinha à pedrada. “O homem é que é Deus porque pode matar”, conclui com lógica imbatível. No livro “O marinheiro que perdeu as graças do mar”, Yukio Mishima descreve a morte de um gato às mãos de um grupo de adolescentes. “Fui eu que o matei. Posso fazer tudo, por mais terrível que seja”. Nestes dois exemplos, a morte do animal é um exercício cruel de superioridade, o treino para o homicídio, o líquido viscoso que serve para encher “as cavernas do tédio”. Kundera reforça esta comparação. Na Checoslováquia, antes de passarem ao alvo humano, os russos organizavam campanhas de extermínio de cães, porque sujavam os passeios, porque eram um risco para a saúde infantil. “Il fallait d’abord l’entraîner contre une cible provisoire. Cette cible, ce furent les animaux”. Quando somos crianças, a crueldade contra os animais é um meio comum de testarmos os limites da nossa humanidade, e quem nunca arrancou as asas a uma mosca que atire a primeira pedra a um pombo. Embora moralmente distintos, são gestos tão humanos quanto os de uma criança que afaga um cão moribundo. As lágrimas que Tereza derrama por Karenina (“Bon Dieu, vous n’allez tout de même pas pleurer pour un chien!”) e o olhar triunfante de Carolino após matar a galinha são os extremos – de bondade e crueldade puras - da nossa humanidade condenada.

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28.8.09

 

 

 

“As acusações de nepotismo são tão fáceis de responder que até meu secretário de imprensa, o Gedeão, casado com a mana Das Mercês, e que é um bobalhão, poderia se encarregar disto. Mas eu mesmo o farei. Não, não vou recorrer a subterfúgios e alegar que o nepotismo é antigo como o mundo, existe desde os tempos bíblicos e está mesmo nas origens do cristianismo. Quando Deus Todo Poderoso, que era Deus Todo Poderoso, quis mandar um salvador para a Terra, quem foi que escolheu? Um filho!”

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27.8.09

“Sofria de um interminável ressentimento que se manifestava numa laboriosa e agressiva amabilidade”

 
Quem ama, odeia, Silvina Ocampo e Adolfo Bioy Casares, trad. Jorge Fallorca
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19.8.09

Inocente, julguei que Zonas Húmidas fosse um livro de Al Gore e nem a primeira frase – “Desde que me conheço que tenho hemorróidas” – me levou a pensar o contrário.

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Os prédios eram altos, não todos, só as torres, sete andares, recentes mas gastos, como se a vontade de experimentar uma casa os tivesse corroído, a roupa a drapejar nos estendais, como se em cada casa vivessem dezenas de pessoas, os fogareiros a arder nas manhãs de domingo, os elevadores parados, gente a trepar pelas escadas, gente a expirar o cansaço até ao cimo, até às quatro assoalhadas cheias de mobílias velhas, resgatadas de barracas, fogões de dois bicos, candeeiros a petróleo, caixas de velas para iluminar a vida sem electricidade, homens a exibir a preguiça, homens pré-históricos, de fartos bigodes, crianças ranhosas e mulheres despenteadas a lavar a dura desgraça dos dias nos tanques de pedra nas varandas, sob o sol iníquo das vidas que não se mexem, nem para cima, nem para baixo, imóveis como os elevadores, um luxo morto, os mais ágeis tinham erguido barracas para servirem de garagens, os empreendedores, gente que tinha ido para ali com sonhos de abundância, sem saberem que tinham saído de um buraco mais fundo para outro mais à superfície, um buraco na mesma, onde a vontade de fazer, de ter mais, de não se resignar era ainda mais ridícula como um afogado à beira da praia que não sabe que as ondas nunca o deixarão chegar a terra, faziam e não paravam, em permanente acção, um burguesia esquisita, ignorante de que tudo aquilo, as barracas, as hortas, as obras no interior das casas, eram esforços inúteis para enganar a pobreza, que os assaltava a meio da noite, com os gritos, as festas até às tantas, a merda dos cães nas escadas, ainda não sabiam mas tinham caído naquele buraco para sempre, até ao fim das vidas, não podiam adivinhar que trinta anos mais tarde andariam naqueles passeios, mais civilizados, a passear os netos, os filhos que os viriam visitar em domingos envergonhados, orgulhosos de terem saído do buraco onde os pais tinham caído e fuçado, a ascensão social naqueles olhares de desdém e a piedade natural de quem sobe para os outros que ficaram, mesmo que sejam os pais, é a lei da vida, e não estão assim tão mal, os filhos nunca conseguem compreender as ambições dos pais, olham para trás e vêem-nos ali, imóveis e eternos, no lugar que é o deles, nem mais, nem menos, sem suspeitarem que trinta anos antes os pais chegaram ali, ao buraco, com a esperança de ser uma passagem, um interlúdio de sacrifício numa narrativa épica de ascensão, e tinham demorado uma vida inteira para perceber que aquela era a última estação e os filhos nunca perceberam que tinham subido fincando os pés nos lombos sofridos dos pais e estes com a única réstia de orgulho de disponibilizarem os lombos doridos aos filhos, exibindo os filhos nos cafés, com as mulheres e os maridos que não eram dali, os netos saudáveis e letrados, a crescer em infantários e casas com aquecimento central, a ignorar os avós e aquela pobreza toda de um bairro que haveria de ser sempre um bairro, onde as pessoas todas se conheciam e cumprimentavam como se fossem todos da mesma família, cumprimenta ali aquela senhora que é amiga da avó, os filhos, saudáveis, letrados e bons dentes, eles ali uma vida inteira encavernados mas ali estavam os filhos, saudáveis, letrados e bronzeados, prova de que tinham chegado à superfície, tinham estudado com os filhos dos doutores e agora tinham bons carros, bons dentes e tinham-lhes dado bons netos, que orgulho, a vida de formiga para chegar a ver aqueles netos, o cheiro nauseabundo do bairro, dos cafés de chão cheio de escarros, tudo tinha valido a pena, mesmo demolidas as garagens, mesmo terraplanadas as hortas, tudo valera a pena para chegar a ver aqueles netos que odiavam o cheiro nauseabundo do bairro dos avós, a mesma merda dos mesmos cães nas escadas, meu rico filho, e os filhos e os netos a fugir dali, do buraco, quase asfixiados, desejosos de regressar à superfície das suas vidas de casa própria e centro comercial. Naquela altura, há trinta anos, teriam desprezado quem lhes tivesse dito que trinta anos mais tarde ainda estariam ali a celebrar filhos e netos que os desprezavam ou, os melhores, os toleravam, incrédulos perante a resignação dos pais, desdenhosos dos sacrifícios, ignorando que o pescoço à superfície dependia dos lombos doridos dos pais. Há trinta anos era assim, os que acreditavam que era tudo uma questão de tempo até a vida melhorar e os outros para quem a vida já tinha melhorado tudo o que tinha a melhorar e muito bom seria se não piorasse, eram os que escarravam o chão dos cafés e cujos cães cagavam as escadas dos prédio, a ralé de uma comunidade que era toda ralé, mas que arranjou uma aristocracia, uma burguesia, um povo, porque se a natureza tem horror ao vazio, os seres humanos não vivem sem uma hierarquia, uma escada imaginária que possa ser escalada, desde os degraus cheios de merda de cães às alturas beatíficas, e enquanto uns montavam negócios, padarias e frutarias, oficinas e sapatarias, boutiques e retrosarias, cafés de chão escarrado e mercearias, vende-se fiado, outros ficavam a ver o mundo a avançar, enterrados de merda de cão e dívidas, sem hortas, nem garagens, pobres cada vez mais pobres a ver pobres como eles cada vez mais finos, sem entenderem porquê, a encherem essa ignorância de resentimento e inveja, porque afinal tinham todos chegado ali iguais na miséria e, de um momento para o outro, uns tinham deixado a miséria para trás enquanto outros se afundavam nela, todos iguais mas uns mais iguais do que outros, casas de borla para todos, casas sem portas nem janelas para todos, prédios com elevadores que não se mexiam para todos, casas com tanques para todos e bastaram dois três anos para uns terem portas e janelas de alumínio e outros arremedos de portas e janelas feitos de contraplacado e plástico, prédios com elevadores que começaram a andar para cima e para baixo e prédios em que os elevadores nem para cima nem para baixo, casas em que as máquinas de lavar vieram atirar os tanques de pedra para a colecção de artefactos pré-históricos e casas em que a máquina de lavar foi durante anos e anos um delírio futurista enquanto o tanque se enchia e vazava e enchia e vazava e uma mulher despenteada se esfalfava à torreira do sol a esfregar fraldas de pano cheias de merda e calças do trabalho cheias de óleo e a vida presa nessa nora, às voltas e voltas, nesse mastigar estúpido dos dias, nesse amassar da roupa e dos braços, do corpo inteiro até o sangue saltar do nariz num esguicho, nunca acaba, daqui ninguém sai vivo e olhar para trás sem nostalgia porque agora ao menos as paredes são de cimento e a merda dos cães é mais fácil de lavar das escadas do que da terra em frente das barracas, e enquanto uns tinham chegado ao paraíso e outros esperavam que aquilo fosse o purgatório, havia os outros, os retornados que finalmente conheciam o inferno, rodeados de brancos ressentidos, que temiam essa raça sem terra, os retornados que retornavam a uma terra desconhecida, refugiados que se refugiavam numa terra que os não queria, expulsos de um éden africano pela política dos brancos e pelo ódio dos pretos, mulatos, mulas, híbridos caídos em terra de ninguém muito menos deles.

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17.8.09

Não tenho nada contra o ponto de exclamação. Nem a favor. Se algum passar por mim na rua, cumprimento-o. Se me pedir um cigarro, não dou. Mas sou assim com toda a gente e não abro excepções a sinais de pontuação. O movimento contra o ponto de exclamação, iniciado aqui, confundiu-me. Um movimento que se propõe acabar com alguma coisa parece-me de natureza imperativa. Não se sugere o uso moderado do ponto de exclamação, mas o seu extermínio, porque fere a sensibilidade, porque grita, porque é próprio de pessoas sem maneiras, porque é histérico. Grita-se, baixinho, contra o ponto de exclamação: eis o paradoxo! E com tantos caracteres dispensados à excomunhão pública do ponto de exclamação, creio que há por ali qualquer coisa mal resolvida. É o mesmo que estar sempre a falar mal da ex-mulher. Eu desconfio destes ódios. São barquinhos frágeis que seguem obsessivamente na mesma direcção, desfraldam a bandeira do ressentimento mas o que os mantém à superfície é a qualidade do casco e esse é feito de amor. Um amor não correspondido. Todos nós que já quisemos mandar alguém à merda sabemos como dói precisar de um ponto de exclamação e, na sua vez, aparecerem umas reticências nervosas, engasgadas, pusilânimes. Engolimos as reticências, que parecem comprimidinhos, e ficamos com o ponto de exclamação atravessado na garganta. Se esta, ou outra que se lhe assemelhe, é a razão do despeito, sugiro que façam as pazes com o ponto de exclamação. Ofereçam-lhe um ramo de pontos de interrogação, uma caixinha de vírgulas. Se ele não aceitar, e não são poucas as razões para estar magoado convosco, mandem-no à merda e, com um pontapé bem assestado, ponham-no à frente.

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16.8.09

 

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Narcotráfico, violência urbana e corrupção: a realidade mexicana oferece a dose certa de ingredientes para um bom romance policial. Talvez lhe falte um Rubem Fonseca. Embora menos visceral do que o escritor brasileiro, Élmer Mendoza (n. 1949) consegue, com mestria, trazer aqueles elementos para a literatura. Edgar, o Canhoto, Mendieta, o anti-herói do romance, é um polícia que detesta policiais. É compreensível. Enquanto que nos maus romances do género há sempre um crime que liberta o caos e um detective que, ao descobrir a verdade, repõe a ordem, em Balas de Prata o detective é uma peça do caos. Mendieta não tem ilusões. “Não acredito que me tenha feito polícia para proteger os fracos e fazer justiça; queria ganhar dinheiro e sair daqui o mais rápido possivel. Contudo ficaste. Uma pessoa acostuma-se a tudo” (pp. 12-13). A vida desarrumada de Mendieta é moldada pela inércia. Uma desarrumação na qual se pode encontrar um sentido heróico a posteriori. A incorruptibilidade de Mendieta não é de natureza ética. É meramente circunstancial. Tornou-se inimigo de quem poderia enriquecê-lo e abandonou a Brigada de Narcóticos, abdicando dessa forma “da riqueza fácil e expedita” (p. 70). Quando recusa um suborno, Mendieta não o faz em nome da virtude, mas em nome do desprendimento que o leva a dizer que “não há nada que deseje tanto como ver esta vida acabada” (p. 129). Existirá virtude na imobilidade? Élmer Mendoza escolheu para epígrafe uma frase de Einstein: “Não é por causa dos homens que fazem o mal, mas dos que ficam sentados a ver o que acontece que a vida é perigosa”. Edgar Mendieta combina a inércia dos desiludidos (“Os culpados é que me descobrem a mim” p. 99) com a atitude provocadora do homem que nada tem a perder, que o escritor James Baldwin definia como “a criação mais perigosa de qualquer sociedade”. Por causa do abuso de que foi vítima na infância e das feridas recentes de um amor falhado, a coragem de Mendieta está despida de qualquer idealismo. O seu anti-heroísmo é feito de obstinação trágica. Aos poderes que o tentam “arrumar”, pôr na ordem, responde com a recusa em desimpedir o caminho. Estar parado pode ser um acto de resistência. Por esse motivo, Mendieta é um perigo para esses poderes que afronta, o narcotráfico e a corrupção instalada, e um perigo ainda maior para ele próprio.
 
O policial pede a frase curta, ir direito ao assunto. Na escrita de Élmer Mendoza, os cortes sucessivos, como na montagem televisiva, e a referência telegráfica aos espaços e aos ambientes (Sala de Espera. Clarabóia. Silêncio. Penumbra) não servem apenas uma economia descritiva; plasmam o ritmo acelerado da cidade e intensificam os perigos da investigação. Embora dentro das regras e (alguns) clichés do género (crime, investigação, desfecho, sexo, violência, mulheres fatais), Balas de Prata não se reduz a um policial de intriga escorreita e final tranquilizador. A descoberta da verdade e a punição, à margem da lei, do culpado não têm um efeito terapêutico. Resolve-se o caso mas não o caos. Porque a ordem é o grande engano do poder, mas isso é outra história.

 

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14.8.09

“Tentei – comecei um romance chamado Tempestade sobre Castleford -, mas o herói estava sempre a jogar bilhar e a heroína ficava sentada à beira da cama, sozinha à noite, sem fazer nada. Foi talvez o mais próximo do realismo social que consegui estar.”

 

Senhora Oráculo, Margaret Atwood, trad. Maria Antónia Vasconcelos

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12.8.09

Miguel Sousa Tavares, no Expresso, diz que a cara de Isaltino “condiz com o que o tribunal o acusa de ter feito”. Concordo. Há caras para todos os crimes e até há caras que, por muitos cremes que lhes ponham, são verdadeiros crimes. Mais: exige-se um enquadramento penal para quem fuma charutos com aquela desfaçatez à porta de um tribunal. O charuto, como se sabe, evoca corrupções várias, oligarquias e nepotismos. O homem que expele o fumo do charuto faz recair sobre si a nuvem da suspeição. Há ali, no mínimo, peculato, um apalpão furtivo à secretária, uma mariscada conspirativa. Mas se a cara de Isaltino exclama delitos autárquicos, o que nos confidenciam as caras dos nossos políticos? Poderão os dentes alvíssimos de Paulo Portas sugerir outros branqueamentos? Embora não seja um crime, não há no prognatismo de Jerónimo uma ameaça de licantropia? A magreza trostkista de Louça e a fronte eclesiástica suada de Ideal não denunciam uma predisposição sádica para o espancamento de banqueiros? O estilo carygrantesco de Sócrates e a sua agilidade remetem para roubos de jóias na Riviera. Como é português, adivinham-se desvios menores: roupões em spas, lenços na Hermés e amostras de cremes, enquanto folheia revistas no supermercado. Manuela Ferreira Leite transparece seriedade, portanto só a imagino a envenenar um adversário político.

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11.8.09

Agosto. Casais apaixonados beijam-se apaixonadamente no metro. Exibem ternuras e afagos, lábios tremem, mãos seguram, não te vás, ainda é Agosto, é cedo, fiquemos aqui, estátuas efémeras do desejo. No Inverno, lêem Murakami, lêem policiais, tudo o que sirva para aprender o ofício da solidão e suportar-lhe os dentes. Com o Verão vêm os corpos, as despedidas longas para breves desencontros – ela para o Marquês, ele para o Campo Grande -, pode ser que logo à noite esteja tudo acabado e que, subitamente, o Inverno se desprenda sobre o calor de Agosto.

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7.8.09

 

 

 

 

 

 

 

Nous avions vingt ans,

Toi et moi,

Quand on a sous le même toit,

Combattu la misère ensemble,

Nous étions encore presque enfant,

Et l'on disait en nous voyant,

"Regardez, comme ils se ressemblent",

Nous avons la main dans la main,

Surmontés les coups du destin,

Et résolu bien des problèmes,

Le ventre vide en privation,

Tu te nourrissais d'illusions,

Il te suffisait que je t'aime.

 

Nous avons lutté tant d'années,

Que la fortune s'est donnée,

Et l'âge a pris ton insouciance,

Tu te traînes comme un fardeau,

Et ne ris plus à tout propos,

Et pleurs ton adolescence,

Et passe du matin au soir,

Des heures devant ton miroir,

Essayant des fars et des crèmes,

Et moi, je regrette parfois,

Le temps ou pour forger tes joies,

Il et suffisait que je t'aime.

 

Si je le pouvais mon amour,

Pour toi j'arrêterais le cours,

Des heures qui vont et s'éteignent,

Mais je ne peux rien y changer,

Car je suis comme toi logé,

Tu le sais à la même enseigne,

Ne cultive pas les regrets,

Car on ne récolte jamais,

Que les sentiments que l'on sême,

Fait comme au temps des années d'Or,

Et souviens qu'hier encore,

Il te suffisait que je t'aime.

 

Pour moi, rien n'a vraiment changé,

Je n'ai pas cesser de t'aimer,

Car tu as toujours tout le charme,

Que tu avais ce jour bénit,

Où devant Dieu tu as dit oui,

Avec des yeux baignés de larmes;

Le printemps passe et puis l'été,

Mais l'automne a des joies cachées,

Qui te faut découvrir toi même,

Oublie la cruauté du temps,

Et rappelle toi qu'à vingt ans,

Il te suffisait que je t'aime .

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O azar do corno na literatura é ceder o nome de família para os títulos dos romances. Eça lá se lembrou de frontispiciar o Basílio, primo que veio com libertinagens tropicais enquanto o coitado do Jorge mordia o pó que o diabo amassou nos caminhos poeirentos do Alentejo, entre engenharias várias e as mamas pênseis e o olhar oblíquo da taberneira. Olhar oblíquo de cigana era o de Capitu, Capitolina, cabra de olhos de ressaca, grandes e enfeitiçantes, Capitu-Giovanna Antonelli na novela de Manoel Carlos. E foi o mulato Machado a quebrar as tradições e a honrar o corno com o título, duplo título aliás, Dom Casmurro, embora esse não tenha sido o nome dado à pia, mas o mais beato Bento Santiago, glória a Deus nas alturas. É raro ouvir a história pela boca do corno mas sucede que nem o próprio o soube de ciência certa, nem nós, leitores, mais de cem anos depois, podemos jurar pela fidelidade de Capitu ou atirar-lhe, com a convicção dos justos, a pedra castigadora. Quer isto dizer que se ainda não sabemos, nem sabemos se seremos os últimos a saber, os corneados fomos nós pela matreirice de Assis. O lenço de Otelo de Bentinho, a prova possível da traição suspeitada, foi, maldito sejas entre os homens, amaldiçoada seja a semente do teu baixo e mais abaixo ventre, o próprio filho, o filho do homem, no dizer do bíblico José Dias (personagem com a boca cheia de superlativos e que morre a suspirar um: “Lindíssimo!”), o pequeno e profético Ezequiel, tão igual, nas mãos e no jeito de arremessar a cabeça, ao amigo Escobar. Que um homem descubra a traição por uma carta, um bilhetinho guardado numa caixa lacada, entre folhas e suspiros, num sonho em que a mulher geme o nome do amante, tudo isto são truques mais ou menos ao alcance de qualquer um. Que o corno se certifique da traição na pessoa, corpo, gestos e palavras do filho, isso é de génio. Tudo fica em águas de bacalhau porque o suposto amante morre afogado (tal como o Lulu Banzo Pombeiro, marido de Kianda, divindade aquática, no último romance de JE Agualusa), talvez suicídio, talvez azar. Regressemos aos cornos de facto, como Charles Bovary, outro que emprestou o apelido à infâmia, mesmo que o próprio nome contenha uma sugestão bovina (lembremos que há 3 madames Bovary no livro: duas virtuosas e uma que lia o que não devia). Este Bovary futuramente bovino desde as primeiras páginas em que se apresenta na escola com as mãos brutas a esmagar o boné e a balbuciar o nome tem o destino traçado, não por culpa própria, mas por escolha pobre da segunda mulher (mulher de Potifar, é o que era). Nisto da traição feminina o corno nunca tem culpa, esposo amantíssimo, pai exemplar, mesmo o infeliz Clifford Chatterley que foi à guerra e de lá voltou com o hemisfério sul inutilizado, não tinha culpa, que podia ele fazer (se tivesse visto Em Carne Viva poderia aprender alguma coisa com o Bardem mas podia argumentar com igual justiça que nem o esforço maxilar de um estropiado sossega os ardores de uma mulher, mas que a ars linguae de um homem pode despertá-los não reste a menor dúvida, lembremos Basílio, autor material do primeiro cunnilingus da literatura portuguesa, o que poderá ser desmentido por mentes mais lidas do que a minha que recordarão um qualquer minete medieval nas barbas de Dom Dinis, que de bom poeta tinha tanto que ficou para a história como o lavrador por ter mandado plantar o pinhal de Leiria, o que significa que mais valor damos ao pau do que à língua e que a expressão langue de bois talvez não seja tão despropositada), a mulher que se deixasse ganhar os ângulos ossudos da semivirgindade. Se uns se indignam com a traição, o desgraçado Clifford, sabedor da sua incapacidade para cumprir os conjugais deveres, indigna-se, à inglesa, com o rebaixamento social implícito na relação de Constance com um assalariado. A aristocracia e a fleuma britânicas têm destas coisas. O estropiado aceita a traição desde que consumada nos salões e não na cavalariça. (continua um dia destes).

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Se não penso em voltar a viver com outra pessoa é por ter horror a multidões. O que é assustador na ideia de Inferno não são os eternos tormentos mas a sobrelotação do espaço. Há doze anos, venci os meus receios e, com três amigos, parti para a Zambujeira do Mar. Foi o primeiro Sudoeste. Levávamos muita esperança e muito atum mas, ao contrário dos outros festivaleiros, nenhuma tenda. Foram três dias de intenso convívio com a Natureza, um conceito que nestas alturas se alarga para incluir vodka do Lidl mas que pode ser sintetizado no acto libertador de aliviar os intestinos ao ar livre. Houve muita música. Blur, Xutos, Marilyn Manson, Suede. Alguns concertos deram azo a que se falasse em “comunhão total” entre as bandas e o público. Ora, o mais perto que eu estive da “comunhão total” com alguma coisa durante aqueles três dias foi quando um cetáceo, a comungar totalmente, aterrou na minha espinha ao som do Song 2, dos Blur. Se era para comungar, distribuíssem hóstias. Após os concertos, esperava-nos sempre a aventura de procurar o lugar onde teria ficado a nossa tenda, se a tivéssemos levado. Pelo caminho, destruíamos as tendas dos incautos, o que nunca nos trouxe problemas porque àquela hora estava tudo a comungar com Jah, com Diónisos ou com Príapo. No Domingo, após o último concerto, fomos a pé para a Zambujeira e dormimos no adro da Igreja. Um final santo para três dias infernais.
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5.8.09

 

 
Eu ainda era adolescente quando vi Sandrine Bonnaire pela primeira vez. Nessa tarde tingida por um desespero juvenil, apaixonei-me por Sandrine. O filme era “Aos nossos amores”. Se o quiser catalogar, posso dizer que o acontecimento é pueril mas apenas na medida em que todo o amor o é por sempre se dirigir a alguém que não existe (é esta a desgraça de Alonso Quijano). Embora consideravelmente menos táctil, Sandrine era tão real como as deflagrações anatómicas que aos 16 anos, não sem exagero, chamamos de namoradas. Tento reconstituir os meus sentimentos por Sandrine mas tudo o que era vivo e real sedimentou-se na memória: o meu amor por Sandrine é um fóssil. Embora sem provas, posso dizer desse amor o que posso dizer da tarde em que nasceu: existiu.
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3.8.09

E agora sou um blogger de pleno direito porque vou linkar um texto da Ana Cristina Leonardo e com isto espero acabar de uma vez por todas, não com o Bonifácio (deixo a tarefa para fãs dos The Killers e sócios do Belenenses) mas com o caso homónimo. Tenho dito. É este o link.

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2.8.09

 

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Pode um crítico literário, ensaísta e professor de literatura comparada em Oxford ser uma celebridade fora dos círculos académicos? Pode, mas convém que se chame George Steiner. Nos tempos da celebração do efémero, a sabedoria livresca de Steiner (n. 1929) é, paradoxalmente, a razão do seu reconhecimento. A sociedade que pressente a importância dos clássicos, mas que não tem tempo para os ler, precisa de um sábio de outras eras que se dedique a essa tarefa, que seja o guardião da sabedoria universal. Os seus leitores, mesmo os de uma obra tão exigente como Antígonas, viajam a reboque pela cultura ocidental, deslumbrados com as pontes entre Homero e Shakespeare, entre Sófocles e os grandes romancistas russos do século XIX. A resposta da academia a esta erudição monumental com uma veia pedagógica balançou entre a condescendência e o menosprezo. Para os micro-especialistas, pós-doutorados com teses sobre os cavaleiros do lago de Paladru, a dispersão apaixonada de Steiner, o temerário desafio de se lançar aos grandes “titãs”, são encarados como diletantismo inconsequente ou exibicionismo pedante. Errata: revisões de uma vida, sendo uma súmula dos “vícios” e “virtudes” intelectuais do autor, é também, por esse motivo, uma resposta aos seus detractores. Mais do que uma autobiografia, é um ensaio com “gatilhos” autobiográficos. Steiner nunca se expõe e contorna sem esforço as incursões ostensivas na intimidade. Em que outra autobiografia poderíamos encontrar um capítulo consagrado ao mistério da música, onde Steiner conclui, entre o fascínio e a decepção, que “face à música, as maravilhas da linguagem são também as suas frustrações” (p.83)? É como se a máscara pública de Steiner escondesse uma réplica idêntica, com a qual partilha o nome e as perplexidades. Em Errata, Steiner volta a questões como o convívio aparentemente contraditório entre a alta cultura e a barbárie ou os limites da linguagem para circunscrever todos os fenómenos da experiência humana, que já aprofundara nos seus ensaios sobre o Holocausto e que são indissociáveis da sua condição judaica. Filho de judeus austríacos que, prevendo os tempos sombrios que se aproximavam, emigraram para França, Steiner foi educado no ambiente do judaísmo secularizado. É essa a origem da “reverência hipertrofiada pelos clássicos”, do multilinguismo e da submissão do impulso criador à hermenêutica, características sem as quais a sua obra e a sua “persona” não são concebíveis. O conservadorismo clássico de Steiner e a sua rejeição veemente do pós-modernismo e do “caos relativista” implicaram, por outro lado, uma cegueira obtusa perante expressões artísticas modernas, como o cinema ou a música popular. Entre várias lamentações – uma especialidade judaica – Steiner assume, porém, a sua devoção aos clássicos e ao ensino, a sua verdadeira vocação. Até na autobiografia, um género mais propenso ao memorialismo ou à romantização, a vontade de partilhar significados e o prazer de ensinar sobrepõem-se ao resto. É isso que faz de George Steiner, mais do que uma celebridade académica, um mestre no sentido clássico da palavra.
link do postPor Bruno Vieira Amaral, às 15:36  comentar

 
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