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Circo da Lama

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

Circo da Lama

30
Out09

Cinco da Tarde

Bruno Vieira Amaral

Eu não queria que as coisas se tivessem passado daquela maneira. Eu não queria uma namorada a ler Sartre no parque, deitada de costas na relva húmida, às cinco da tarde de um dia de semana, muito menina e muito infeliz, doutrinada de comunismos e leituras que enrugavam os 16 anos que se queriam viçosos e um tanto burros. Eu não queria, mas estava lá, sentado na mesma relva húmida, vendo dois homens a jogar ténis com serviços de badmington, as corridas esforçadas e inúteis para responder a bolas fáceis, excelentes na contabilidade dos pontos (“quinze / trinta”), quem joga mal tem de compensar com conhecimentos teóricos, caso contrário aquilo é só correr à toa, uma pessoa tem de acreditar que mais uns treinos e aquilo seria Wimbledon e não um campo de ténis em Alhos Vedros, ao lado de uma casa em ruínas e de onde se avistava um armazém de material eléctrico, e enquanto eu me distraía nesta observação tépida da vida, ela murmurava as últimas palavras de um parágrafo, sorria algumas frases incompletas e nesse dia eu decidi que entre Sartre e Camus eu haveria de dar a minha vida por este último, pied-noir e guarda-redes, basta olhar para as fotografias e instintivamente nós somos Camus. Silêncio. O que interessa neste caso é a mulher. O jeito de segurar o livro, as mãos já dotadas de sabedoria antiga - ao vê-las eu não podia acreditar que eram de alguém que ainda não tinha um único cabelo branco –, muito pálidas, o azul das veias como rios desenhados num mapa, e a minha atenção desviava-se dos tenistas amadores para aquela cartografia singular, talvez Lúcia fosse um mapa que me cabia decifrar e no fim dessa indagação repousasse lúcia-inteira, lúcia-sem-sartre, lúcia-só-lúcia a luzir. Mas essa Lúcia eu já não conheci. Lembro que eram cinco da tarde, hora má para adivinhar o futuro.

28
Out09

Da Argentina

Bruno Vieira Amaral

 

Rejubila voz amiga com o fim do tempo dos Tahars e dos Paredões. Nós, benfiquistas, desejamos que o passado recente envelheça depressa, ultrapassado, trespassado. Perdoem-nos os excessos, os eflúvios de emoção rubra, as ejaculações precoces à jornada oitava. Contemporizem com o nosso sorriso babado ao ver aquele rasgo de luz vertical que saiu dos pés do Aimar e que foi ao encontro do Coentrão tanto como o Coentrão foi ao encontro da luz (em futebolês, chama-se a isto uma desmarcação, mas nos últimos anos de Benfica o verbo desmarcar apenas tem o significado de não marcar, de desmarcar golos). É certo que o Aimar mergulha, que se deixa cair ao mínimo contacto, tão mínimo que nem contacto é, apenas uma possibilidade, e ele antevê essa possibilidade e atira-se e o contacto acontece. Não é falta? Não. É excesso. Excesso de futebol malandro, sacana, porteño, tanguista. Gastem lá os elogios com o bisonte do Hulk, uma força da natureza, apreciem-lhe a corpulência de arrastador de camiões letão, que leva tudo à frente menos a inteligência, que essa fica para trás como um bocado de relva levantado à passagem de um tractor, chorem as faltas não assinaladas, impinjam-no aos Lyons desta vida por uma tonelada de euros. Nós ficamos aqui, sossegados, a materializar os meus sonhos molhados de infância com uma tripla argentina. Trazer o Aimar de Saragoça naquelas condições não é apenas péssima gestão, é um acto de amor e de fé, como aquelas mulheres que abrem os braços para o homem que já lhes partiu o coração e os maxilares. Pegar no renegado Saviola equivale a trazer para casa um ex-recluso que sopra promessas de bom comportamento ao anfitrião. E o subnutrido di María? Como conjugar as lições tácticas com um plano nutricional adequado? São coisas bonitas, como diria o nosso algoz. É bonito irmos buscar jogadores de tendões duvidosos e almas lesionadas e ter paciência com eles. E eles, com a generosidade dos arrependidos, retribuem-nos e nós ficamos mais perto do futebol tal como era no tempo em que apenas nos faltava o cromo de Nery Alberto Pumpido para acabar a colecção.
25
Out09

Nuvens e Formigas

Bruno Vieira Amaral

 

 

Publicado no i

 

 

Referir a nacionalidade de alguns escritores, como é o caso do italiano Italo Calvino, é um mero acto de competência geográfica ou de zelo patriótico. As obras que lhe granjearam admiração universal provêm de um outro lugar de coordenadas imprecisas, que por comodidade poderemos designar por Literatura, nomeadamente da sub-região do Fantástico. O poder criativo de Calvino, refreado pelo rigor matemático da linguagem, nunca resvala para o devaneio. As Cidades Invisíveis são o exemplo maior dessa arte em que uma imaginação prolífica se alia a uma prosa geométrica. O estilo do autor impõe-se sem esforço aos códigos dos géneros literários.
 
O mesmo acontece nos dois contos que constituem este livro: A Nuvem de Smog e A Formiga Argentina. Embora tenham sido escritos numa época (1958 e 1952, respectivamente) em que o neo-realismo ainda era a corrente dominante e mesmo que possam ser classificados de “realistas”, afastam-se de qualquer cartilha literária. O primeiro é a história de um jornalista que decide aceitar o lugar de redactor num pequeno jornal. Obedecendo a um desejo de apagamento (“não suporto chamar a atenção”; “queria sentir-me alguém de passagem”), muda-se para um quarto acanhado na nova cidade. Nesse sentido, a perpétua nuvem de smog que envolve a cidade e os seus habitantes deveria ser uma ajuda. No entanto, a visita da namorada, uma mulher bela e optimista lembra-o da possibilidade de uma vida diferente do beco cinzento e empoeirado que escolheu. O segundo conto passa-se num ambiente rural. Um jovem casal com um filho aluga uma casa. A esperança de aí encontrarem a tranquilidade que amenize as dificuldades quotidianas rapidamente se desvanece. Os terrenos em volta da casa estão infestados de formigas nada preocupadas em proporcionar sossego aos habitantes. Quando procuram saber como é que os vizinhos evitam as formigas, percebem que, mais do que uma ameaça, os insectos são parte integrante do seu modo de vida.
 
Tal como são apresentados nesta edição, os contos foram publicados em 1965, embora já estivessem incluídos no Livro Quarto da colectânea dos Racconti, de 1958. O autor considerava que estes contos estavam ligados por uma “afinidade estrutural e moral”. As ressonâncias são óbvias e o cruzamento de ambos permite uma leitura mais rica. O retrato de ambientes distintos (uma cidade industrial e uma aldeia) e a natureza oposta das “ameaças” (o smog e as formigas) esvaziam a dimensão neo-realista. A angústia não é classista, nem é um mal exclusivo dos centros urbanos e do progresso. Porém, é selectiva: ataca aqueles que não se adaptam. O casal e o jornalista partilham as dores da inadaptação a um novo meio. Aquilo que é um incómodo para eles é, para os adaptados, um factor de coesão social e até de cumplicidade conjugal. As semelhanças entre ambos os finais, em que os protagonistas se distanciam dos problemas e contemplam paisagens despoluídas e desinfestadas, elucidam-nos quanto ao sentido metafórico que Calvino atribui ao smog e às formigas: o da rotina que nos envolve, como a nuvem de smog, e que entra pelas nossas casas sem pedir licença, como as formigas.

 

19
Out09

Catequese para Ateus

Bruno Vieira Amaral

 

Publicado no i 

 

 

O Deus do Antigo Testamento não é muito simpático. Não é preciso ser exegeta para o saber. Basta ver os “highlights”. E eles estão todos, ou quase, no último romance de José Saramago. A expulsão do Éden, a torre de Babel, o sacrifício de Isaac, o bezerro de ouro, Sodoma e Gomorra, a queda das muralhas de Jericó, o suplício de Job. A escolha não é fortuita. A intenção é denunciar o carácter vingativo e arbitrário de um Deus egoísta e que não admite concorrência. No negócio da adoração o segredo é ter o monopólio. Em oposição a este Deus tirânico temos, no canto vermelho, Caim, o primeiro homicida da história. Condenado a errar pelo mundo e pelo tempo (graças a Deus e ao não menos omnipotente narrador), Caim testemunha vários episódios do Antigo Testamento, cada vez mais revoltado com os desmandos do Senhor. O trajecto de Caim é a confirmação de que o Homem é dotado de um “inato sentido moral da existência” independente dos mandamentos de qualquer divindade.
 
Depois do consenso que recebeu A Viagem do Elefante, Saramago quis fazer polémica. Saiu-lhe uma aula de catequese às avessas, uma releitura do original com algum humor pelo meio (o leitor ficará a saber como é que o unicórnio perdeu a boleia na Arca de Noé). A prosa não traz novidades: Saramago encontrou a sua voz muitos livros atrás. Enquanto alegoria universalista, uma especialidade do autor, “Caim” também nada acrescenta. É, acima de tudo, a história do conhecido desentendimento de Saramago com Deus. Um assunto que talvez se resolva quando o escritor abdicar das vestes de profeta menor de um Deus em que não acredita.
14
Out09

Maitê

Bruno Vieira Amaral

Maitê, Mai-tê, luz da minha adolescência, concubina involuntária das minhas traições ocultas, Maitê, beija-flor, beija-menina, Mai-tê, duas sílabas quase nipónicas, perfumadas de oriente, a minha boca a reincidir nesse nome, a deleitar-se com ele, a namorá-lo, Maitê, confesso que guardei duas TV Guia em que o teu rosto inundava a capa de esplendor e não garanto que não tenha sobre elas derramado a flor branca do meu desespero em homenagem aos teus olhos, vem, Maitê, vamos cuspir nos monumentos (não venhas na Páscoa), na 1ª edição d’ Os Lusíadas, vamos dançar sobre o túmulo do Garrett, vamos rasgar as bandeiras (a da monarquia também), vamos desprestigiar os órgãos de soberania, não oiças os que te ofendem, os que se abaixo-assinam em petições de fúria provinciana, cospe neles, não peças desculpa, pára de dizer que o teu avô era português e que gostas da terrinha, isso é coisa de rainha carnavalesca, a sambar de sobretudo e gola alta, a atirar beijos de mão enluvada e lábios roxos de frio, os que te ofendem nunca te vão dar mais estatuto que o de actriz de novelas e puta, porque são putas todas as brasileiras (o que é, a meu ver, um elogio, porque nesta vida há que saber ser puta quando as circunstâncias o exigem), Maitê, eu até comprei o teu livro mas nunca o li (como o Neruda da música do Chico), e não me podes censurar, o que interessam as tuas palavras, a alma que possa haver na tua prosa, o prefácio do Sousa Tavares, quando é na capa que estão os teus olhos? Maitê, as mulheres deste país já não usam bigode e acredita-me quando te digo que terás contribuído para isso, mereces o meu agradecimento, os técnicos de informática são uns incompetentes, não tenhas dúvidas, os serviços de apoio ao cliente uma merda (quando vieres cá, hás-de reparar na quantidade de colunistas que vociferam contra as Netcabo e EDP e as meninas burras que os atendem), perdoa o despeito dos que te insultam, sabes, eles acham que tu não tens o direito de escarnecer dos nossos defeitos pois não tens a infelicidade de os partilhar (ninguém pode gozar com o Stephen Hawking a não ser o Stephen Hawking), Maitê, eu vou continuar a ouvir o Caetano (e Deus sabe o lixo que ele já falou sobre nós!), a ler o Rubem Fonseca, a amar os teus olhos, sou assim, burro, e vou continuar a admirar-te burra e eternamente.

 

14
Out09

Azares

Bruno Vieira Amaral
Aos quinze anos, no já longínquo 1993, algumas opções que o tempo me permite classificar de infelizes desviaram-me dos despreocupados bancos da escola e atiraram-me para um mal-remunerado trabalho num café do meu bairro. O estabelecimento, cujo chão de mosaicos castanhos encardidos e pejados de beatas, as mesas de fórmica descascadas nos cantos e de tampos ofendidos por outras beatas e por navalhas rupestres, e as cadeiras desirmanadas lhe conferiam um estilo que em nada se distiguia dos efeitos de um vulgar, porém persistente, desamazelo, era propriedade de um tal Senhor Teixeira, beirão baixote, olhar desconfiado de merceeiro de província, característica associada, nos meios onde grassam a indigência, a preguiça e a venda a fiado, ao “jeito para o negócio”. Habitava o senhor Teixeira numa vivenda, que não se situando no bairro, dele não muito distava, com a mulher, uma matrona dada a casacos de peles e outros exageros ornamentais e uma filha obesa, no que saía à mãe, de olhos cinzentos e vivos, herança paterna, e uma escassez de inteligência que, à falta de provas, atribuiremos aos desmandos do acaso. A vivenda era, numa palavra, horrível. Dois grandes leões de pedra ladeavam a entrada e, dito isto, tudo o resto será submeter o leitor a um escusado suplício. O café tinha mais de vinte anos e sofrera várias gerências sem que nenhuma se pudesse vangloriar de ter vencido o aspecto um tanto lúgubre de taberna. Para o povo, o nome do café também permanecera, indiferente aos excessos de imaginação de proprietários voluntariosos: era A Toca. O Adão original que o baptizara teria em mente a evocação de um refúgio de caçadores, sugerindo aos clientes o conforto e o calor das tocas, ignorando, porém, os antecedentes literários do nome bestial. Da decoração inicial pouco ou nada restava. Lembro-me de ver em miúdo uma cabeça de javali exposta por cima do balcão, mas que já lá não estava quando comecei a trabalhar. Creio que terá sido o segundo proprietário do café a pintar numa das paredes laterais um pôr-do-sol tropical com palmeiras tingidas de vermelho e, ao fundo, uma cubata à porta da qual se via a silhueta de uma mulher, com uma criança às costas. O nome, A Toca, sobreviveu à pífia tentativa de africanização e o proprietário seguinte, ao alargar o espaço destinado ao armazenamento de bebidas, acabou por esconder o mural do Diogo Rivera austral com umas portas corridas de contraplacado. O senhor Teixeira, para além do seu cabelo oleoso, não trouxe inovações. Aproveitou o que havia e nisto se incluía uma clientela em parte composta por bêbedos e desempregados crónicos e um ou outro indivíduo que combinava admiravelmente ambos os estados. Consegui o lugar sem que nenhum mérito particular me deva ser reconhecido. Pesou mais a intercessão da minha avó do que a minha experiência, que era nula, a minha postura, deficiente, e a minha simpatia, a mesma de hoje mas agravada pela timidez da adolescência. A minha avó queria acima de tudo manter-me ocupado, uma pretensão louvável, e agindo como procuradora dos meus interesses, destes não cuidou com especial empenho. Por dez horas de trabalho diárias ficou acordado que eu receberia a insultuosa quantia de mil e duzentos escudos. Apresentei-me ao trabalho com uma determinação resignada, na disposição de aprender o ofício. Nos primeiros tempos não conheci qualquer sucesso, em parte devido à minha tendência para passar as manhãs sentado num barril de cerveja, observando filosoficamente o movimento das pessoas na rua que entravam e saíam das lojas onde se vendia de tudo um pouco, de hortaliças a meias de senhora, de frangos assados a carrinhos da Majorette. As mulheres, na maioria avós domésticas com os netos à volta das saias, atravessavam a rua, parando ocasionalmente para falar com uma amiga e repousar do esforço à sombra de um toldo ou da paragem de autocarro, apenas para regressarem à condição de mulas de carga ou, como muitas vezes ouvi da minha avó, de mouras de trabalho, com os pequenos a correrem à frente, insensíveis aos avisos que as avós lhes gritavam. A simpatia do senhor Teixeira para com as minhas derivas existenciais não durou muito. A minha imobilidade, que sobressaía no contraste com os seus movimentos incessantes de formiga avarenta, cedo começou a agastá-lo. Eu não percebia porque é que durante as horas mortas da manhã, sem clientes dignos do nome - uns quatro ou cinco indivíduos que permaneciam ali sentados, enxotando ocasionais e moles moscas, suspirando recordações de tempos mais abundantes do que os magros que agora roíam e observando com filosofia idêntica à minha as mesmas avós domésticas, sem nada consumir ou, nas poucas ocasiões em que uma moeda solitária lhes pesava no bolso, bebendo de um trago uma irrepetível taça de branco para logo regressarem à habitual modorra – havia necessidade de me manter ou parecer ocupado. O senhor Teixeira explicou-me, com a sua rudimentar pedagogia, que nesta nobre actividade havia sempre alguma coisa para fazer e, no caso de não haver, era obrigação do bom empregado inventar. E mostrava-me o pó acumulado nas prateleiras, os bolos expostos de uma maneira que só apelava aos sentidos dos mais gulosos e javardos de entre os clientes, o balcão onde devia estar sempre uma fila de pires com as respectivas colheres e pacotes de açúcar, os cinzeiros onde jazia uma beata solitária, a arca refrigeradora que nunca poderia estar aquém da capacidade máxima e prosseguia numa lista interminável, excedendo largamente a minha capacidade de lhe prestar atenção. O entusiamo comercial do senhor Teixeira esbarrava na minha indiferença e espalhava-se pelo café, desenhando uma trajectória descendente e fenecente, como fogo-de-artifício a morrer na noite. O comportamento do Zé Lopes, um dos fatais clientes matutinos era-me mais familiar e caro do que a lenga-lenga destinada a inspirar todos aqueles que, ao contrário de mim, desejavam subir a pulso na vida. Devido a um tumor maligno, o rosto do Zé Lopes estava em franco retrocesso e percebia-se mal o que dizia. Todas as manhãs bebia um copo de leite morno, que tinha de ser exactamente morno, embora a percepção que tinha da temperatura dependesse do seu humor naquele dia. Algumas vezes, e não foram assim tão poucas, o copo de leite, demasiado quente ou demasiado frio, voltara para trás. Ter de o fazer não me custava tanto como a reacção exagerada do Zé Lopes. Levantava os braços e desviava o olhar, num excesso histriónico que as pessoas normais costumam poupar para os acontecimentos irremediáveis. Inversamente, não escondia um júbilo desproporcionado quando a temperatura do leite correspondia à expectativa. A cara de marioneta, tão diferente daquela que eu me lembrava de ver em criança, oferecia-me a metade do sorriso que ainda lhe restava e eu ficava satisfeito. O Zé Lopes tinha cinco filhos. Eu conhecia dois deles, poucos anos mais velhos do que eu. Era uma estirpe ruim. O próprio Zé Lopes era conhecido pelas bebedeiras e pelos arraiais de pancada na mulher que se lhes seguiam. Publicamente era isso, e um feroz sportinguismo, que o distinguia. A doença, no entanto, teve um efeito moderador no consumo de álcool. Os abusos físicos sobre a mulher também cessaram mas para o efeito terá contribuído um episódio que, na mitologia do bairro, adquiriu estatuto de lenda. Contava-se que certa noite, a mulher do Zé Lopes, farta de apanhar no focinho, aproveitou-se do sono do marido para lhe encostar uma faca de cozinha ao escroto e avisá-lo de que se lhe voltasse a bater corria o sério risco de acordar e dar com a sua masculinidade a uma distância não natural do próprio corpo. Ou porque não era intenção dele desaparecer dali, ou por não estar nos seus planos assassinar a mãe dos filhos ou, ainda, por compreensível amizade aos tomates, a verdade é que os acessos de violência do Zé Lopes terão terminado nessa noite.
11
Out09

All fighters are sad

Bruno Vieira Amaral

 

 

Redbelt é o filme de porrada de David Mamet, o que quer dizer que é um filme com muito Mamet e pouca porrada. Há uma cena de “rixa de bar” que denuncia uma influência “seagaliana” e um combate final que acontece contra a vontade do protagonista e, tudo leva a crer, do próprio argumentista.
 
Chiwetel Ejiofor é um instrutor de jiu-jitsu. Como é um indivíduo de carácter nobre e respeitador das vetustas tradições orientais, vê-se em dificuldades para pagar a renda. A solução é combater no ringue, apesar de ele acreditar que a competição enfraquece o lutador. É então que entra em cena o argumento. Mamet faz tudo (sub-plots, um filme dentro do filme, Rodrigo Santoro) para evitar que este Mr. Myagi afro-americano combata pelo dinheiro de que tanto precisa. É com muito esforço que o filme acaba com o inevitável combate, mas mesmo assim fora do ringue, talvez para não o confundirmos com filmes do Eric Roberts ou do Van Damme.
 
Mais do que um filme, Redbelt é um conjunto de desperdícios. Desperdiça Alice Braga (a mulher de Elijofor), desperdiça Emily Mortimer (uma advogada que anda por ali, acidental como um disparo), desperdiça Tim Allen (falta densidade à personagem que justifique a mudança de registo do actor), desperdiça Joe Mantegna (que no grau de “mametianidade” só perde para Ricky Jay, um actor que sempre que abre a boca consegue transportar-nos para a secretária onde David Mamet escreve os argumentos). Desperdiça, acima de tudo, este texto do próprio David Mamet.
 
É normal que, uma vez na vida, um dramaturgo sério queira escrever sobre a vida real: fábricas de conservas, rixas em bares, rotativos na cabeça. Mamet quis escrever sobre a tristeza dos lutadores mas não abdicou da ginástica dramatúrgica que acaba por nos distrair da tristeza do rosto de Ejiofor. E esse rosto e essa tristeza são o melhor que o filme tem.
11
Out09

Consequências Trágicas

Bruno Vieira Amaral

 

 

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Indignação, vigésima-sétima obra de Philip Roth, começa e acaba no sangue. Começa no sangue ritual num talho judeu de Newark e acaba no sangue de um soldado na guerra da Coreia. No início, a distância entre ambos é enorme, mas através de uma sucessão de acasos vai sendo progressivamente eliminada até ao trágico desfecho.
 
O narrador é Marcus Messner, um jovem judeu de comportamento irrepreensível. Apesar de ser um óptimo aluno e de ajudar os pais no negócio do talho, Marcus começa a ser vítima da paranóia do pai, que vive aterrorizado com a possibilidade de acontecer uma desgraça ao único filho. O pai Messner está convencido de que “o mais pequeno passo em falso pode ter consequências trágicas”. Ironicamente, o conflito entre os dois está na origem da tragédia, como se, em vez de a travar, o receio do pai servisse de alavanca à engrenagem do destino. Para se libertar da severa jurisdição paterna, Marcus decide ir para Winesburg, uma pequena universidade no conservador Ohio.
 
Com o país mergulhado numa guerra distante que custa a vida a milhares de jovens, o campus é o seguro de vida de uma juventude privilegiada. A guerra da Coreia é o rio da História. Marcus caminha em segurança pela margem. O romance, que segue essa linha, vai sendo pontuado por pequenos incidentes: a má relação de Marcus com os colegas de quarto, a iniciação sexual com uma rapariga que afinal sofre de distúrbios psiquiátricos, o confronto filosófico-religioso com o deão dos alunos e até uma prosaica apendicite. Cada um destes eventos representa um pequeno desvio no rumo traçado por Marcus, escolhos no caminho que provocarão o passo em falso de consequências trágicas. Ao fugir do pai, o “herói” cai inadvertidamente num ambiente que lhe é moral e socialmente hostil. Refém da vaga de emoções que nascem da auto-descoberta e constrangido pela pressão da “autoridade”, Marcus toma decisões aparentemente inócuas que se revelam fatais. A sua propensão juvenil para a mais bela palavra da língua inglesa, a que dá o título ao livro, trai as suas boas intenções.
 
Em Indignação, Philip Roth abandona os temas do envelhecimento e das urgências sexuais na terceira idade que marcam o seu período azul-viagra. No entanto, insiste no tema da proximidade da morte, que tinge de cores outonais este romance de iniciação. Roth também prossegue o seu estudo sobre a tensão política e moral entre as duas Américas. Uma tensão sempre pronta libertar-se por meio de uma guerra longínqua, de um inesperado fellatio ou de uma invasão das residências femininas numa pacata universidade.
O trabalho de Roth em Indignação, tragédia que expõe as fraquezas do indivíduo perante a sociedade (família, escola, religião), que esmaga as ilusões pueris do “herói” em relação ao amor, ao sexo e à morte, é quase o de um tecelão minucioso a unir os fios do acaso. É como síntese desse labor, e não como advertência moral, que a última frase do livro deve ser lida. É na arte do romance, e deste romance em particular, que “as opções de uma pessoa, mesmo as mais banais, fortuitas e até cómicas, têm o resultado mais desproporcionado”.

 

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