"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos
30.12.09

O JAA escreveu aquele que, para mim, é o post do ano. É um texto grande e um grande texto. É informativo e substantivo, sem deixar de ser pessoal (começa logo no título).

 

Merecia ser publicado numa revista, embora eu duvide que as nossas revistas mereçam um texto destes.

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29.12.09

O Circo da Lama, na pessoa do seu único autor, tem todo o gosto em esclarecer o simpático leitor que fez esta simpática pergunta. Embora Raymond Liotta seja, de acordo com o IMDB, um especialista em "psychopathic characters who hide behind a cultivated charm" é também "by all accounts a nice, well-adjusted family-man off screen." Portanto, podem aproximar-se de Ray Liotta sem quaisquer receios desde que ele não esteja a representar.

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Estou ligeiramente nauseado ou, nas palavras imortais da minha tia, “veio-me um arroto azedo à boca.” O livro 101 Monstros, de Simon Sebag Montefiore, está recheado de maldades suculentas, mas tudo tem os seus limites. Que Idi Amin gostasse de canibalizar os adversários (Montefiore não dá a receita) uma pessoa ainda compreende. Afinal, o homem intitulava-se “Senhor de Todos os Animais da Terra e dos Peixes do Mar e Conquistador do Império Britânico em África em Geral e no Uganda em Particular”. Não é a degustação do fígado de um inimigo que faz dele mais ou menos louco. Há muitos hábitos gastronómicos que nos parecem repelentes. Calígula, por exemplo, terá comido a irmã, embora não haja notícia que a tenha deglutido. Provavelmente confundiu-a com a mãe. Isto é perdoável. Até Vlad, príncipe da Valáquia, tem desculpa. Vlad na realidade era Vlad II e todos sabemos como as sequelas costumam ser piores que o original. Por tédio ou por maldade, Vlad divertia-se se a empalar camponeses. Também espetava pregos na cabeça de embaixadores estrangeiros, uma prática que infelizmente a diplomacia moderna prefere ignorar. Quanto à empalação podemos afirmar que a sua fama negra é exagerada. Passamos a explicar: crava-se uma estaca no chão e, em seguida, crava-se o camponês na estaca. Consoante o género, o camponês pode iniciar o percurso pelo ânus ou pela vagina. Quando a estaca chega à boca (ou a boca chega à estaca, visto que não é esta que investe mas sim o camponês insensato que desliza), aconselha-se a vítima a cumprir um período de repouso não inferior a 80 anos. Como é óbvio, um número considerável de camponeses chegava ao fim da empalação num estado que a ciência designa como “estar morto” e que os médicos que fazem urgências e são entrevistados pela RTP caracterizam como “chegar cadáver.” Mas também não foi isto que me deixou indisposto. O que me perturbou foi o descuido do tradutor. Então não é que traduziu The Feast of the Goat como O Festim do Bode? O título original do livro de Mario Vargas Llosa é La Fiesta del Chivo, mas a edição portuguesa existe e é A Festa do Chibo. Ora, isto é indesculpável. Uma verdadeira monstruosidade, a única capaz de me provocar um esgar de nojo ao longo desta leitura. Empalemos os tradutores!

 

 

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Que eu me lembre, nunca matei uma cantora. Quanto a Miss Novak, ela já matou um trompetista eslovaco, um assador de castanhas sírio e um tipo que fazia uma péssima imitação do Frank Sinatra. Duvido que um curriculum destes não inclua pelo menos uma cantora. Certamente não tão famosa como esta Cynthia Larissa, uma vedeta no Chipre e que aparece nos jornais. As nossas missões costumam ser mais simples e os nossos alvos mais recatados. A ideia de eliminar alguém com esta visibilidade deixou-me nervoso durante todo o dia. Até adiei o meu plano de consultar uma prostituta local. Eu sou da opinião que só se conhece uma cidade quando se frequentam restaurantes e prostitutas, ambos baratos. As pessoas perdem horas numa fila para a Sagrada Família quando, em menos de vinte minutos, poderiam ter acesso à verdadeira e mal lavada Catalunha. Naturalmente, nem a Dolores nem nenhuma das suas amigas vende postais e apenas uma ou outra deixa que lhes tirem fotografias, ainda que para isso tenha de se pagar uns euros a mais. Os menos afortunados, trazem clamídia e chatos como souvenirs indesejáveis. Os mais cuidadosos, entre os quais me conto, beneficiam da experiência incomparável de ouvir como se finge um orgasmo em catalão.

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28.12.09

Às nove horas e trinta minutos do dia 21 de Agosto de 1939, Adolph Hitler, um sujeito colérico e de bigode à Hitler, decide invadir a Patagónia. Goebbels (lê-se guêi bóls) aplaude histericamente. A sala ocupada por meia dúzia de generais bêbados e de palas no olho esquerdo aprova enquanto sussurra que aquele louco vai conduzir a Alemanha à desgraça. Hitler sabia que os inimigos não estariam preparados para uma guerra. Em duas semanas, os ingleses apenas conseguiriam encenar o Rei Lear com anões irlandeses. Nada que impedisse a vitória alemã. Os franceses só representariam um perigo se, em vez de combates e ataques aéreos, a guerra se decidisse numa prova de queijos. Hitler acreditava que o exército francês até a invadir uma retrosaria sofreria pesadas baixas. A eventualidade de uma guerra e a aniquilação dos judeus não eram os únicos assuntos a ocupar a mente do Führer. As futuras adaptações cinematográficas da sua vida também o preocupavam. Hitler desconfiava que, no futuro, alguém iria captar a complexidade psicológica e retratar a dimensão humana e estava mesmo a ver que Bruno Ganz iria desempenhar esse papel.

 

 “Mas a Patagónia fica na América do Sul, mein Fuhrer”. Hitler, que não admitia um mein fuhrer sem o trema no u, sorriu e perguntou-lhe se achava que aquilo era hora para lições de geografia. Não era. A aula de geografia era às onze. “Invadir a Patagónia será uma demonstração do vigor da raça alemã. O povo alemão precisa de muito espaço vital e ninguém se preocupará com a Polónia”. Espanto. Polónia? Teria Hitler dito Polónia? A notícia chegou rapidamente ao gabinete do primeiro-ministro inglês, Chamberlain. “Hitler quer invadir a Patagónia…e a Polónia” Chamberlain pousou a raposa que até então estivera a acariciar. “Onde é que fica a Patagónia?” Os assessores entreolharam-se. “A Patagónia fica…extremamente longe”. “E o que é que há na Patagónia? Há judeus na Patagónia?” “Não. Quer dizer, há um rabino, um tal Abraão Abramovitz, mas os nossos serviços aguardam informações” “Hmm...este Hitler é perigoso. Conseguimos ter as nossas tropas preparadas em quanto tempo?” “Para vencer os alemães? Eu diria que em duas gerações teremos pronto um exército capaz de perder sem humilhações desnecessárias.” “E daqui a duas semanas?” “Em duas semanas podemos montar um belo espectáculo musical para receber os esquadrões da Luftwaffe em Londres, ainda que não seja fácil rapar as pernas a irlandeses bêbados” “Podemos contar com os franceses?” “Sim, mas de que nos vale fazer bons queijos em tempo de guerra?” Chamberlain ficou desgostoso. A guerra era uma chatice. Se ao menos pudessem resolver toda aquela trapalhada com uma partida de críquete.

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23.12.09
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Sábado, sessão dupla para esquecer as agruras da vida e dos multiplex: O Padrinho e Feios, Porcos e Maus. Estamos no Natal, é a época da família. Época das famílias. Michael Corleone é a melhor personagem da história do cinema. Chega atrasado e americanizado ao casamento da irmã, uniforme e namorada americanos. Está nas margens da família. Depois, o pai é vítima de um atentado. Depois, Michael é esmurrado por um polícia corrupto. Depois, ele percebe que não pode fugir às suas responsabilidades porque, entre famílias, a América é um conceito abstracto e longínquo. A Sicília fica mais perto. Lá se vai o sonho americano por água abaixo. E então chega o momento da transformação, em que Michael deixa de ser Michael e passa a ser um Corleone. “Fredo, you're my older brother, and I love you. But don't ever take sides with anyone against the Family again. Ever.” A personagem que diz isto está a milhas de distância da personagem que vimos no início. Família. Vito Corleone morre a brincar com o neto, Sonny Corleone é morto numa emboscada quando vai ter com a irmã. Família. A de Giacinto Mazzatella que vive em alegre promiscuidade numa barraca romana. Todos ao monte e fé na caçadeira. A família não é de fiar. Todos querem o dinheiro que Giacinto guarda como a própria vida. Eles querem plata, Giacinto dá-lhes plomo. A mulher é compreensiva, basta bater-lhe. E como a família não encontra o dinheiro, une-se para uma última ceia em que todos são Judas. Quem resiste a 30 moedas de prata? Giacinto come a massa envenenada mas sobrevive. E destrói a casa com o fogo da sua fúria. Família rica. Família pobre. Nada tradicionais.
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Eu gostei dos The Gift. Era jovem, acreditava no Nuno Galopim e havia a Sónia Tavares. E aquilo era pessoal de Alcobaça e eu tenho uma grande simpatia pela região Oeste, uma área razoavelmente obscura, propícia a produtores de fruta e artistas com o glamour de funcionários públicos. Também não era difícil apreciar a capacidade de iniciativa do quarteto. Consta que manufacturavam os cds e se calhar havia um primo que lhes imprimia os bilhetes e o “merchandáize” numa reprografia dos Pousos. Esta peculiar combinação de amadorismo e talento musical (na verdade, era uma apropriação pueril de Portishead e Divine Comedy, como se uma Beth Gibbons fosse largada na A8 e tivesse o azar de ser atropelada por uma carrinha conduzida por um Neil Hannon) foi celebrada como um exemplo nacional do “do it yourself”, ou seja, Guerra das Estrelas filmado na Marinha Grande com vassouras em vez de sabres de luz. O entusiasmo provocou delírios. Falou-se em internacionalização – o mais duradouro mito urbano da música portuguesa e que teve o seu auge com aquele disco em que o Miguel Ângelo cantava em castelhano. Todos sabemos o que isso quer dizer: primeiras partes em Huelva e inúmeras referências no Ípsilon ao interesse demonstrado por editoras internacionais (“Imprensa inglesa rendida ao charme de …”; “franceses não resistem a …”; “agricultores do Connecticut só ouvem The Legendary Tiger Man”). Esgotado o filão internacional, a banda de Alcobaça regressou à base e às raízes. Amália. Objectivo: dar a conhecer Amália às novas gerações, o equivalente a popularizar o fado com a música do Pingo Doce. Dar a conhecer Amália desta forma, sem a voz de Amália, com a voz de Sónia Tavares em perfeita agonia entre sintetizadores operáticos que só me lembram a XX Grande Gala Travesti, é uma ideia bizarra. A presença crowleyiana de Fernando Ribeiro é sinistra e, ao mesmo tempo, enche-nos de esperança. Pode ser que ele tenha sido convidado para decapitar os outros. Já não gosto dos The Gift. E o Natal já não é o que era.

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"Não te sentes com o rabo nu sobre a pedra." - Comentário de Estaline a um desenho de uma figura masculina sem roupa.

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20.12.09

 

Publicado no i

 

A Sala de Vidro, romance do britânico Simon Mawer, percorre 60 anos da história europeia. No centro da narrativa, uma casa. Mais do que uma casa, uma obra de arte arquitectónica. Mais do que uma obra de arte, um símbolo da crença no futuro e no progresso. Só que o futuro, quando chega, vem de botas cardadas e carregado de ódio. O futuro racional e límpido anunciado pelas linhas rectas e pelas paredes de vidro não se cumpre.
 
Na Checoslováquia, no final dos anos 20, os recém-casados Viktor e Liesel Landauer encomendam o projecto de uma casa ao arquitecto Rainer von Abt. Viktor, um industrial judeu, quer libertar-se do Romantismo e do apego ao passado e encontra em von Abt o homem certo para materializar essas aspirações. Os olhos de Viktor estão postos no futuro, num tempo em que “o facto de serem checos ou alemães ou judeus” não tenha importância. O arquitecto, por sua vez, “deseja tirar o Homem da caverna e pô-lo a flutuar no ar.” Com a invasão alemã, a família Landauer é obrigada a refugiar-se na Suiça, seguindo depois para os Estados Unidos. A casa é ocupada por cientistas alemães que aí instalam um laboratório para medição e catalogação de seres humanos. Mais tarde, após a guerra, a Casa Landauer é utilizada como ginásio para reabilitação de crianças deficientes. No final do livro, em 1990, a casa funciona como museu. Nenhuma das mudanças que o espaço sofre ao longo dos anos diminui o fascínio exercido sobre quem o visita. A Sala de Vidro, o ex-libris da casa, é dotada de uma essência que sobrevive às funções circunstanciais. Deste modo, Simon Mawer confronta Arte e História, a tranquilidade da Casa Landaeur em contraste com as convulsões do mundo exterior. Ao resistir às investidas dos acontecimentos históricos, a casa espelha as alterações políticas e sociais mas não se transforma na imagem que reflecte. Esta dimensão “teórica” do romance não é servida em bruto. Mawer dilui as reflexões (sobre arquitectura, sobre história) numa narrativa por vezes demasiado intrincada, a roçar o inverosímil, mas que consegue transmitir o essencial: a influência da sala de vidro – a personagem principal do romance – no comportamento das restantes personagens. É uma lição de arquitectura: a sala não é um mero cenário, mas um actor em interacção com os outros.
 
A Sala de Vidro foi um dos finalistas do Booker Prize de 2009. O autor fez por merecer a distinção. A prosa de Simon Mawer é quase tão translúcida como a própria casa. Mawer esforça-se para que não reparemos nele, o que é parcialmente conseguido na quinta parte do livro, que poderia ter sido escrita por Milan Kundera. A exemplo do que sucede na obra do escritor checo, passado e futuro, memória e esquecimento, são as forças magnéticas do romance de Mawer. A família Landauer caminha em direcção ao futuro, atraída pelos contornos nítidos da casa, mas vê-se obrigada a deixar tudo para trás, para fugir de um presente ameaçador, um presente com as rugas do passado. E é irónico que a casa, que começa por ser o símbolo de um novo começo, acabe como museu, o centro nostálgico que irradia uma ideia de felicidade perdida, mas sempre luminosa.
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19.12.09
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17.12.09

 

Em certos momentos, A Sala de Vidro (Civilização) é um romance muito kunderiano -  História e triângulos amorosos, reflexões etimológicas e litost. Mĕsto, a cidade ficcional onde decorre a acção, esconde a cidade real de Brno, onde Milan Kundera nasceu em 1929. A Casa Landauer é inspirada na Villa Tugendhat, um dos projectos mais aclamados do arquitecto Mies van der Rohe, construída entre 1928 e 1930. Nenhum destes dados é facultado pelo autor. Ao ocultar esta informação, Simon Mawer lança o desafio ao leitor: “vai e descobre”. Mawer reincide no jogo com a personagem de uma jovem actriz que sonha em vir a ser uma estrela de cinema. Hedy é o nome e há uma referência a um polémico filme checo dos anos 30 em que participou sem outro adorno que não o da sua natural (carnal e carnívora) beleza. Uma beleza que haveria de enfeitiçar Sansão. Ainda na esteira de Kundera, é interessante a oposição passado/peso e futuro/leveza. Viktor Landauer, o industrial judeu que encomenda o projecto da casa ao arquitecto Rainer von Abt, quer libertar-se do Romantismo, do apego ao passado, das casas pesadas e sólidas, cheias de ornamentos. O arquitecto, por sua vez, deseja “tirar o Homem da caverna e pô-lo a flutuar no ar.” E é pelo ar que, nas vésperas da invasão alemã, Viktor e a família são obrigados a deixar a casa e o país. Luftmensch, era assim que os nazis designavam os judeus, criaturas do ar, sem raízes. Leves, sem o peso do blut und boden, da terra e do sangue. O futuro leve esmagado pelo peso do passado.
 

A recensão sai na próxima edição de fim-de-semana do jornal i

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14.12.09

Nasci Francisco da Cunha Ribeiro. Por descuido da funcionária do registo fiquei Alcott, Louisa May (1832 – 1888). Nome terrível e premonitório. Ainda não tinha dez anos quando beijei Bellow, Saul (1915 – 2005) sobretudo devido à sua “combination of cultural sophistication and the wisdom of the streets that constitutes his greatest originality”. Gostei do beijo mas ainda mais de roubar o lanche a Chandler, Raymond (1888 – 1959) só porque ele nascera em Chicago e eu não gostava de pessoas dessa cidade. “Vais morrer em La Jolla, a 26 de Março de 1959” disse-lhe.

 

Então, a minha vida mudou. Aos 16 anos comecei a escrever a peça que me iria tornar famoso “Die Frau ist gut, das Haus ist alt”. Assistiram à estreia nomes como Wharton, Edith (1862-1937), Whitman, Walt (1819 – 1892) e Irving, Washington (1783 – 1859). Os convites eram só para os apelidos W mas Washington fez o choradinho e também entrou. Faulkner, William (1897 – 1962) enviou Sutpen, Thomas (1807 – 1889), que tinha o dom de se fazer convidado sem que lhe pedissem satisfações.

 

“Der Vater und der Sohn”, a minha estreia cinematográfica, foi muito mal recebido pela crítica. Para isso contribuiu o facto de ser um plágio descarado de “Morte de um caixeiro-viajante”. Miller, Arthur (1915 – 2005, há uma teoria segundo a qual Bellow, Saul e Miller, Arthur eram a mesma pessoa, embora Marilyn Monroe só tenha dormido com o primeiro e com o apelido do segundo) enviou-me um sms onde me ameaçava com um processo. Em resposta perguntei-lhe se ele ainda se lembrava da posição preferida de Marilyn. Miller, Arthur enviou-me por EMS um exemplar de Opus Pistorum de Miller, Henry (1891 – 1980, há uma teoria segundo a qual Miller, Arthur e Miller, Henry eram a mesma pessoa, o que foi sempre negado por ambos a horas e em sítios diferentes) com o marcador na página…

 

”Der Knabe, die Knaben” foi a obra que significou a minha emancipação artística. Capote, Truman (1924 – 1984), “whose early writing extended the Southern gothic tradition”, pediu-me um beijo dizendo que não era menos do que Bellow, Saul. Como recusei o ósculo, Capote, Truman acusou-me de ser um “selfish name-dropper” ao que respondi com o melhor sotaque sulista de que um português bêbado é capaz: “So what?” Nunca mais nos vimos.

 

Aclamado pela crítica e pelo público decidi especializar-me em palavras e expressões alemãs que apareciam muitas vezes em livros eruditos sem a respectiva tradução. Aquelas palavras e expressões que o tradutor não traduz porque confia na cultura do leitor: sturm und drang, aufklarung, blitzkrieg, blut und boden, ersatz, lebensraum, anschluss. Várias vezes discuti alguns destes conceitos ignorando por completo o seu significado, partindo do princípio intuitivo que teriam a ver com invasões, extermínios e outros passatempos habituais do povo alemão. A minha segunda mulher era alemã e lembro-me que a conquistei (tanto quanto é possível conquistar uma parte da Alemanha) sabendo um sumaríssimo alemão. Soprei-lhe ao ouvido o onze inicial do Bayer Leverkusen no célebre jogo do 4-4 e antes de chegar à linha avançada já ela ia no terceiro orgasmo. FYI: Dirk Heinen, Ioan Angelo Lupescu, Christian Wörns, Markus Happe, Ralf Becker, Bernd Schuster, Franco Foda, Pavel Hapal, Mario Tolkmitt, Andreas Thom, Ulf Kirsten.

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6.12.09

 
 
Camomila engole dissertações sobre aviários. Atrasos obscuros remendam sucata. Rios antropófagos (esta até pode ser considerada poesia) desmascaram colírio. Virginia Blackburn é a autora da biografia de Robert Pattinson. Pattinson é aquele rapaz dos filmes de vampiros. E alguém escreveu uma biografia. Não autorizada. Resumindo: o rapaz não existe, pesem embora os inúmeros posters em quartos de adolescentes, tal como pude comprovar através de uma investigação no terreno. Não-Pattinson estudou no Harrodian, “sito em 25 acres de terreno” (p. 30), um colégio misto, frequentado por pessoas reais e por Pattinson. Uma vez que Não-Pattinson tinha duas irmãs mais velhas “estava bem habituado ao sexo oposto” (p. 31). Não-Pattinson ter-se-á habituado ao sexo oposto com as duas irmãs? O que é isto? Este rapaz não se contenta em não existir como se aproveita do facto para se habituar ao sexo oposto com as irmãs. Página 37: “Todo um panorama de novos aspectos se abria diante dele. Mas decerto que não eram apenas as raparigas a contribuir com toda a quantidade de novos segmentos que se estavam a introduzir na sua vida.” Um panorama de novos aspectos e a quantidade de novos segmentos a introduzirem-se na vida de Não-Pattinson são imagens dignas de Rui Santos. Não-Pattinson não é apenas um perito em inexistência, mas também um ectoplasma táctico.
 
Depois, arrumei o livro e comecei a ver Sweet Smell of Success, de Alexander Mackendrick, com Burt Lancaster e Tony Curtis. Um filme de canalhas com “scruples of a guinea pig and the morals of a gangster”. Não admira que o colunista Lancaster, capaz de erguer e destruir carreiras, respire fundo e diga “I love this dirty town.” Uns anos mais tarde, haveria de aparecer um taxista com vontade de limpar as ruas. Aqui é diferente. Estão todos “immersed in the theology of making a fast buck.” É um grande filme sobre a ambição, o egoísmo, a corrupção, o desdém pelo outro. E um dos grandes filmes, de entre tantos, sobre a cidade de Nova Iorque, cidade nocturna. Os clubes de jazz (a banda sonora de Elmer Bernstein a levar o filme), o fumo, as esquinas morais. Curtis brilhante como réptil. Lancaster com a solidez dos grandes: pérfido, egocêntrico, dominador e, no fim, impotente. O plano final, as ruas lavadas pela manhã que se anuncia, Curtis a rastejar, a irmã que se liberta de Lancaster, é um triunfo. Mas os nossos pensamentos vão para os derrotados.
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Publicado no i
 
 
Se as boas intenções não salvam nenhuma alma do inferno, também não chegam para fazer um grande romance. Laurent Gaudé, um dos nomes da nova literatura francesa, desceu ao inferno e voltou de lá com um livro menor nas mãos. A culpa é do pesado caderno de encargos a que se lançou: a dissolução de um casal que perde o filho, o desejo de vingança que não se concretiza por falta de coragem e um pai que se sacrifica para resgatar a alma da criança, numa recriação do mito de Orfeu. Junte-se o quarteto extravagante de personagens secundárias, que inclui um travesti de bom coração e um padre subversivo, e o resultado é uma espécie de viagem ao inferno de Dante, com Almodóvar no lugar de Virgílio.
 
Pippo, o filho de Giuliana e Matteo, é atingido mortalmente por uma bala perdida durante um tiroteio entre clãs da Camorra. Para mitigar a dor, Matteo vagueia pelas ruas de Nápoles como uma sombra sem destino nem consistência. É a vontade de vingança alimentada pela mulher que o traz de volta à realidade. Na impossibilidade de reaver o filho, Giuliana exige a Matteo que encontre e mate o assassino de Pippo. Mas quando finalmente tem oportunidade de o fazer, Matteo acobarda-se e regressa a casa sem o sangue do carrasco. Desesperada com a fraqueza do marido, Giuliana abandona-o. A sua forma de lidar com a dor é através do esquecimento. Esquecer o marido, a vida que teve e o filho que perdeu. Matteo regressa às deambulações nocturnas e é então que conhece o grupo de personagens excêntricas que, inesperadamente, acaba por guiá-lo ao inferno e à redenção.
 
A combinação entre o real e o fantástico, entre as ruas de Nápoles e as profundezas do Reino dos Mortos, entre a monstruosidade física de Grace (o travesti) e a amargura silenciosa de Matteo, requer versatilidade. Mas a solução de Gaudé passa por empilhar, sem grande subtileza, blocos de mitologia solene, realismo visceral e tragédia familiar, sepultando a verosimilhança e as boas intenções. De todas as personagens, incluindo as que não se distinguem de uma caricatura grosseira, é a de Giuliana a que corporiza os defeitos do livro. As manifestações da sua dor – as imprecações revoltadas, os bilhetes que coloca entre as pedras das igrejas e a auto-mutilação – são artificiais e quase burlescas no arremedo de pathos bíblico. “Quando voltares, lavarei a tua roupa suja de sangue” e “Restitui-me o meu filho, Matteo. Restitui-mo ou, se não puderes fazê-lo, entrega-me pelo menos aquele que o matou!” são falas que colocam o leitor a salvo de qualquer ameaça de compaixão. Em vez de demonstrar o desespero de uma mãe enlutada, Gaudé encena o sofrimento com requintes litúrgicos, como se a personagem não fosse mais do que uma múmia literária a simbolizar o arquétipo da mater dolorosa. Não convence, nem comove.
 
Sempre demasiado explicativo, Gaudé vai arriscando alguma filosofia ao longo do livro: a vida pode ser um verdadeiro inferno; a dor pode transformar um homem numa sombra; esquecer os que partiram é condená-los a uma segunda e definitiva morte. Boas intenções, misticismo sofrível. Por vezes, o melhor é deixar os mortos em paz.
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3.12.09

Muita preguiça. A propósito da liquidação total da livraria alemã, deixo aqui as minhas recomendações (também no i)

 

Bellow, A biography, James Atlas
Utilidade: As biografias são as revistas cor-de-rosa dos intelectuais. Esta, do escritor Saul Bellow, ficaria bem na sala de espera de um consultório psiquiátrico de Manhattan.
Preço: 5 euros ou 4 Nova Gente
 
Aspirin – The Story of a Wonder Drug, Diarmuid Jeffreys
Utilidade: Se é daquelas pessoas que não se contentam em ler a bula dos medicamentos, este é o livro indicado para si. Ler três vezes ao dia, com um intervalo de oito horas.
Preço: 10 euros ou duas caixas de aspirina (20 caixas se optar pelo genérico)
 
Constituições Portuguesas – 1976 – Revisões Constitucionais
Utilidade: Uma obra saída da imaginação delirante dos autores da comédia Portugal Democrático. Um livro indispensável para perceber as razões do nosso atraso.
Preço: 10 euros ou um quilo de robalo
 
The Cambridge Guide to Women’s Writing in English, Lorna Sage
Utilidade: Com este livro torna-se redundante a leitura das obras integrais de Virginia Woolf, Margaret Atwood e Truman Capote. Ideal para jantares de ex-alunos da Faculdade de Letras.
Preço: 7,50 euros, uma das melhores obras no rácio peso/preço
 
Mark Twain: His words, Wit and Wisdom, R. Kent Rasmussen
Utilidade: As citações estão para o verdadeiro conhecimento como a fast-food para a culinária. Mas às vezes sabe bem comer com as mãos e pensar com os pés.
Preço: 5 euros e liberte-se da citação sobre as notícias da morte de Twain
 
The Many Lives of Marilyn Monroe, Sarah Churchwell
Utilidade: É muito provável que este livro nos mostre o lado sensível e inteligente do ícone. É muito provável que o leitor médio procure as fotografias de Marilyn sem roupa.
Preço: 5 euros, curiosamente o mesmo preço da biografia de Arthur Miller
 
Shakespeare and the Art of Verbal Seduction, Wayne F. Hill and Cynthia J. Öttchen
Utilidade: Shakespeare pode ser um óptimo auxiliar de engate, mas é aconselhável não revelar os destinos de Julieta, Desdémona e Ofélia, sob pena de afugentar a caça.
Preço: 3 euros, mais barato do que pagar vodkas a desconhecidas em discotecas da Margem Sul
 
Explaining Hitler, Ron Rosenbaum
Utilidade: É a este simpático pintor alemão que devemos a existência da Livraria Buchholz. Na capa há uma fotografia do bebé Adolph, ainda sem o famoso bigode, que prova que não foi a República de Weimar a gerar o monstro.
Preço: 10 euros, o valor de todos os quadros que Hitler pintou
 
McCartney, Christopher Sandford
Utilidade: Qual é a probabilidade do mesmo ser humano compor Hey Jude e Say, Say, Say? Este livro só pode ser verdadeiramente útil se responder a esta questão.
Preço: 7, 50, um preço aceitável desde que o dinheiro não ajude McCartney a pagar custas judiciais com os divórcios.
 
No Caminho do Amor, Arlinda Mestre
Utilidade: Enquanto alguns dos ex-participantes em reality shows se dedicaram ao crime, outros enveredaram pela literatura. Os primeiros estão presos. Os outros, inexplicavelmente, continuam à solta.
Preço: 1 euro, não é uma pechincha, é um roubo
 
Une Autre Histoire de la Littérature Française II, Jean d’Ormesson
Utilidade: Essencialmente decorativa. Não encontrámos o primeiro volume mas, por sorte, estavam lá dois exemplares do segundo. É uma questão de jeito para apagar o I e impressionar os seus amigos francófilos.
Preço: 3 euros, um preço justo para um livro que não há-de sair da estante.
 
Dicionário Universal Japonês-Português
Utilidade e preço: deixámos para o fim um objecto caro (30 euros) e completamente inútil (o leitor que está a aprender japonês que nos perdoe). Apenas consta desta lista porque a 31 de Dezembro ainda deverá estar à venda.

 

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