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Circo da Lama

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

Circo da Lama

31
Jan10

Os Bons Selvagens

Bruno Vieira Amaral

 

Publicado no i

 

Para se afirmar, a identidade de um povo precisa de historiadores, de romancistas e de bons electricistas, e destes apenas para evitar que os outros percam tempo a trocar fusíveis. Um povo pode lutar e conseguir a independência, mas “o grito de Ipiranga” é apenas o meio do percurso na estrada que leva à construção de uma nação. Por este motivo, a luta dos povos americanos pela independência e o “combate” dos escritores latino-americanos, um século e meio mais tarde, pela emancipação cultural são dois momentos do mesmo caminho. A autodeterminação de um povo não fica completa sem o direito a narrar a própria história, a fundar novas mitologias e a consagrar as suas figuras e os seus heróis. Foi esse o papel da literatura latino-americana. Não como um projecto subordinado a ditames de natureza política ou estética, mas como um conjunto heterogéneo de vozes que, para benefício de todos, parecia cantar em uníssono. Daí que, mesmo uma voz marginal e rebelde, como a do escritor cubano Reinaldo Arenas (1943 – 1990), possa ser incluída no coro.
“O Mundo Alucinante”, romance publicado no auge do chamado boom da literatura latino-americana (1966), é um contributo para aquelas mitologias. Arenas pegou na figura histórica do frade mexicano Servando Teresa de Mier e compôs uma hagiografia secular, delirante, poética e surrealista. A escolha não foi inocente. Defensor da independência das colónias americanas, Frei Servando foi condenado ao desterro em Espanha por heresia. Várias vezes preso, conseguiu sempre fugir. Percorreu a Europa e deparou-se com a decadência dos costumes e a corrupção moral. Esteve em Itália, “onde os ladrões são tão abundantes que quando alguém não o é o canonizam imeditamente; em Espanha, “[...] a Roma de Nero comparada com a corte de Espanha, pareceria a casa de Deus e de todos os santos.” Tudo aquilo que viu inflamou o seu “mais forte e maior desejo”, a independência da sua pátria. “Até quando seremos considerados como seres paradisíacos e lascivos, criaturas de sol e água?...Até quando vamos ser considerados como seres mágicos guiados pela paixão e pelo instinto?” Era hora de o homem americano se libertar da canga incapacitante do “bom selvagem” e assumir as rédeas do seu destino.
Muitos anos depois, os escritores fizeram o mesmo. Reclamaram o direito de construir a sua própria genealogia. Como se pode comprovar neste livro, em que Arenas se apropria da tradição literária europeia e produz um artefacto miscigenado, distintamente americano e de fôlego universal. Não renega a herança para dar ares de “falso primitivo”. Arenas é Cervantes nas deambulações por uma Espanha desoladora e numa citação do discurso de D. Quixote sobre a liberdade. Arenas é Homero, e Servando é o seu Ulisses que regressará a Ítaca – a América idealizada - para libertar a pátria dos usurpadores. Arenas, e aqui paga o seu tributo à modernidade, também é Virginia Woolf e, “Orlando”, outra biografia atípica, a matriz que inspira o romance com o desrespeito pelas convenções narrativas. O romancista, ao contrário do historiador, não precisa de colmatar as lacunas da História com hipóteses verosímeis. Bastam-lhe a imaginação e a saudável tendência para quebrar as regras.
24
Jan10

Mãe

Bruno Vieira Amaral

“Virão depois as ásperas palavras do seu filho, quando um dia o avisam da visita de sua mãe e dos irmãos e ele responde: «Quem é minha mãe e quem são os meus irmãos?». E estendida a mão para os seus discípulos disse: «Eis a minha mãe e os meus irmãos. Quem tiver feito a vontade do meu pai que está nos céus, esse é meu irmão, irmã, mãe» (Mt 12, 48-50). Também aqui Maria cala e sofre aquela forma amarga de negação: «Quem é a minha mãe?». A sua mãe é aquela que permanecerá ao seu lado quando mesmo os mais fiéis discípulos se dispersam, aquela que estará aos pés da sua agonia, obrigada a assistir e a sobreviver ao suplício de um filho condenado à morte.”

 

Caroço de Azeitona, Erri De Luca, trad. João Pedro Brito

24
Jan10

Um Cavalo

Bruno Vieira Amaral

"Chegou o dia e saí num cavalo ético e melancólico, o qual, mais de manco que de bem criado, ia fazendo reverências. As ancas eram de macaco e sem rabo; o pescoço de camelo e mais comprido; torto de um olho e cego do outro; quanto a idade não lhe faltava mais que fechar os olhos; enfim, mais parecia cavalete de telhado que cavalo, pois a ter uma gadanha, lembrava a morte dos rocins. Demonstrava abstinência no seu aspecto, e bem se lhe viam as penitências e jejuns, nunca tinham chegado à sua notícia a cevada e a palha."

 

O Buscão, Francisco de Quevedo, trad. João Palma-Ferreira

21
Jan10

O Crime

Bruno Vieira Amaral

 

O intelectual português, espécie à qual eu gostaria de pertencer logo que a minha mãe me ofereça umas calças adequadas, compra a New Yorker para sentir a civilização na ponta dos dedos, para sentir em inglês o odor inconfundível de uma ideia que já teve, mas que a rígida legislação laboral, que o obriga a sofrer horrores num call-center de Odivelas, o impediu de materializar em forma de artigo no Jornal de Letras. Eu, intelectual português wannabe, compro O Crime para manchar de sangue a polpa dos meus dedos delicados. Que O Crime ainda não seja reconhecido como baluarte da nossa imprensa escrita e da nossa cultura, diz mais da pobreza das nossas elites do que da qualidade intrínseca deste jornal – que é, não restem dúvidas, pavorosa. Quem, como eu, não se pode dar ao luxo de fins-de-semana nas Pousadas de Portugal, tem, ainda assim, direito a saber o que se passa no país real. O país que nós conhecemos trocou a agricultura pela blogosfera, as vindimas pelo lançamento de livros, o sexo por temporadas inteiras de séries americanas (é assim que hoje em dia se vêem as séries, não é como antigamente, em que saltávamos do episódio 3 do Justiceiro para o 50 do MacGyver, convencidos, mesmo que por breves segundos, de que era a mesma série e, em casos terminais, o mesmo episódio) e a Vila de Ourique pelo Ouriquense. Mas há um outro país onde ainda se agricultiva, onde o lançamento de livros, se os houvesse, acabaria no frontispício do cabrão do miúdo que não pára com a choradeira, onde o sexo é uma actividade que resiste à escassez demográfica (eu, menino da cidade, não me caso porque seria incapaz de ter relações sexuais com alguém da minha família) – é este o país que O Crime, qual arquivo para os futuros historiadores, nos oferece pela módica quantia de 1,30 euros. Em que outro jornal, para já não falar em blogs, poderíamos encontrar a comovente história do Pedro Jorge, de 39 anos, que vivia com o tio? O Pedro Jorge, símbolo de um Portugal que teima em ser Portugal, matou o tio com um tiro de caçadeira. E matou-o, não porque o tio lhe tivesse chamado filho da puta num blog, não porque o tio não o tivesse convidado para o lançamento de um livro, não porque o tio não lhe quisesse dar dinheiro para o vinho. Peço desculpa. Pedro Jorge matou o tio porque este não lhe quis dar dinheiro para o vinho, mas este facto revela apenas uma parte, e não a menos sanguinária, do carácter do rapaz-homem. É que, uma semana após a trágica ocorrência, Pedro Jorge, numa manifestação nobre dos seus sentimentos mais profundos, reconheceu que matou o tio, mas que já tinha saudades dele. Caro leitor, na selva urbana que é a nossa, as pessoas matam-se e poucas horas depois já nem se lembram do nome da vítima, se é que alguma vez a conheceram. Ao ler O Crime, eu desfolho um país, tacteio as inocentes pétalas deste bom povo e encontro gente genuína como o Pedro Jorge, gente que mata a família (a família, reparem, ele não matou um estranho, matou um familiar, também isto é ser português) quando esta não lhe dá dinheiro para o vinho (o vinho, meus amigos, o vinho; não foi cerveja, nem vodka do Lidl, foi vinho, e também isto é ser português), gente que arranja sempre um quartinho vago no coração para esse sentimento tão nosso e tão universal: a saudade. Também isto é ser português.  
20
Jan10

Azares

Bruno Vieira Amaral

Continuação deste post.

 

A impaciência do senhor Teixeira aumentou com as primeiras queixas dos clientes. Enquanto a exigência do Zé Lopes se poderia atribuir à debilitada condição física, à irritação provocada pela dificuldade de se fazer compreender, outros clientes não beneficiavam aos meus olhos de tais atenuantes. Muito embora tivessem conta aberta no café, o que significava que as bicas bebidas, os SG filtro sofregamente chupados até ao caramelo, as colas e os chocolates com que atafulhavam as crias, só seriam pagos no fim do mês, isso não os desencorajava de reclamar. Pelo contrário, o absurdo nível de exigência era sustentado não pelo argumento do muito que pagavam, mas do muito que deixariam por pagar. Entre os frequentadores assíduos que recorriam ao sistema da conta aberta, destacava-se um casal de bicómanos. O tipo era educado, decente e coxo. A mulher era nervosa e, como muitas mulheres do bairro que se julgavam merecedoras de mais do que a merda de vida que lhes coubera em sorte, propensa à indignação. O esforço que despendia a ocultá-la era a causa do ar macilento, dos lábios secos e gretados, da pele baça e do cabelo ralo. Ou talvez fosse fígado. Eu tomava nota da despesa diária num bloco de notas, discriminando artigo e valor. Depois, um dos elementos do casal conferia e assinava. No final do mês, juntavam-se os talões e a dívida era saldada. Conquanto não tivesse sido esse o nome dado à pia, o homem era conhecido por Beto, suponho que diminutivo de Alberto, e era assim que eu o identificava no talão de despesa. Ora, esta minha escolha, que nem escolha era, causava um profundo incómodo na mulher. Convencida de que o emprego do diminutivo era acintoso, como se ao fazê-lo eu não só diminuísse o Alberto mas também o homem, o marido e o pai, a mulher fazia questão de corrigir a minha insolência antepondo ao Beto um maiúsculo e inquestionável SENHOR. SENHOR Beto. Devolvia-me o talão sem me prodigalizar um olhar, um agradecimento. Pelo que percebi, a senhora terá sido das primeiras a queixar-se de mim ao senhor Teixeira. Outras queixas se seguiram. Não sem justiça, apontavam a minha falta de jeito e de presteza. Outras, maldosamente, sugeriam a minha desonestidade. Se as primeiras incomodavam o senhor Teixeira, estas arruinavam-lhe os nervos. Confiava ele que a solução para as minhas falhas decorrentes da inexperiência seria o tempo e a prática. Os mesmos tempo e prática que, a confirmar-se a minha desonestidade, só serviriam para lhe aumentar o prejuízo. Desconfiado e oblíquo como era, o senhor Teixeira nunca me acusou de qualquer comportamento menos sério. Ao invés, procedia a indagações que, na sua mente mesquinha, considerava subtis. A voz, normalmente aguda, cheia de fendas, transformava-se num ciciar melífluo de falsa amabilidade e partilhava casos exemplares de antigos empregados que apanhara em falso e das consequências trágicas que sobre eles se abateram. Um educador da classe, o meu patrão. Para além de me explorar, tinha ao serviço mais duas empregadas, uma das quais era voz corrente que lhe disponibilizaria mais do que uma indesmentível capacidade de trabalho. A outra era uma senhora cabo-verdiana de voz meiga, prole vasta e marido reformado por invalidez, embora outra não se lhe descortinasse que não a pura indolência. Chamava-se Armanda. Calma e contemplativa por natureza, reagia com condescendência à desconfiança indiscriminada do Sr. Teixeira. A outra empregada era a Isa. Era uma mulher de trinta e tal anos, mãe de sete e casada com um indivíduo que se dedicava ao trabalho de forma algo intermitente. Era magra mas de uma magreza que de modo algum poderia ser confundida com elegância, sendo antes o resultado das duras condições de vida, para as quais não contribuía pouco uma sogra de telenovela. As qualidades de Isa eram reconhecidas e apreciadas: enérgica, despachada, sem medo de trabalhar e com aquela pontinha de ambição que parecia afirmar que não seriam os sete filhos, o marido imprestável e a impossível sogra a impedi-la de subir na vida se e quando a oportunidade se lhe deparasse. Depois de fazer oito horas no café, lavava escadas de prédios a 600 escudos à hora e, no único dia de folga, ainda servia a dias na casa de velhotas reformadas a precisar de quem lhes engomasse a roupa. Quando eu fui trabalhar para o café, a Isa já abdicara destes serviços extra, o que motivou os primeiros falatórios que também não ignoravam uma ligeira, porém firme, mudança no seu comportamento, sobretudo quando na presença do Teixeira. A antiga humildade dera lugar a uma altivez de patroa. Mas o tempo passou e as conversas extinguiram-se. Nas traseiras do café, ficava o armazém onde, para além de grades de bebida, havia uma pequena cama de ferro sobre a qual se acomodava um colchão o seu tanto pestilento, supostamente destinada ao descanso vespertino do Senhor Teixeira. Em várias ocasiões, o patrão regressava do armazém com uma disposição renovada e um bom humor inusual. A mudança era tão brusca e inopinada que, durante anos, e mesmo depois de tudo o que veio a acontecer, eu jurei pelas propriedades curativas da sesta.

18
Jan10

Muitos Mundos tem o Dia

Bruno Vieira Amaral

 

 

Publicado no i

 

A Volta ao Dia em 80 Mundos é o melhor livro para se entrar no universo do escritor argentino Julio Cortázar (1914-1984). E é também o pior. É o melhor porque este caleidoscópio vertiginoso, publicado em 1967, reúne ensaios e contos, poemas e crónicas, e maravilhas de ourivesaria como Louis, Enormíssimo Cronópio. É o pior porque esta máquina enciclopédica, em que vamos viajando através dos 80 ou mais mundos de Cortázar, pode desanimar o leitor menos persistente. Não se esperem, portanto, facilidades do encontro com a obra de Cortázar.

 

O título pode criar no leitor uma expectativa de paródia ou de gracejo erudito. Depois das primeiras páginas, este leitor terá perdido toda a vontade de tratar Cortázar por che. É que, ao contrário de O Jogo do Mundo (Rayuela), este livro não vem com manual de instruções. Sugerimos, pois, que o leitor inicie a abordagem ao livro por territórios reconhecíveis e onde a mão de Cortázar sempre foi mais feliz: os contos. Tema para São Jorge, Com Legítimo Orgulho e A Carícia mais Profunda são óptimos preliminares para o deleite futuro. O primeiro trata de López, um ergófobo que em todos os locais de trabalho encontra um monstro feito dos hábitos do escritório; o segundo relata a história de uma comunidade cujo espírito gregário assenta na antiga tradição de recolher as folhas secas; o terceiro conto é kafkiano do início ao fim, a história de um homem que se afunda no chão, a cada dia que passa cada vez mais, sem que as pessoas à sua volta se dêem conta do facto. Nestes contos exemplares da arte de Cortázar, o fantástico não é o avesso do real, um mundo invisível habitado por entes sobrenaturais; é aquilo que paira no ângulo morto da realidade. O monstro que só é visto por López e o homem que se afunda no chão sem que ninguém repare não são menos monstruosos, fantásticos e absurdos do que a anestesia do quotidiano que impede que os outros os vejam.

 

Feito o tirocínio, saciado o desejo de leitor-fêmea (Cortázar haveria de corrigir esta expressão para leitor-passivo), é altura de avançar. A Volta ao Dia em 80 Mundos, como bom labirinto de um escritor com apetência para o jogo, tem muitas entradas: a paixão pelo boxe e pelo jazz (Thelonious Monk e Clifford Brown), o fascínio da voz de Gardel ouvida na grafonola, a contaminação da memória pela imaginação (Acerca da maneira de viajar de Atenas a Cabo Súnion), o presente e o futuro da literatura latino-americana ou o grave problema que os argentinos enfrentam para iniciar uma carta (Querido Amigo, estimado, ou o nome sem mais). Esta última entrada é uma emanação directa do sol que está no centro do universo de Cortázar: o humor. Um humor com a cara de Buster Keaton, um sol com raios de melancolia. Um humor que nos resgata da seriedade bolorenta e fúnebre que alguns escritores, mais propensos à metafísica e à solenidade, confundem com a grande literatura. Cortázar fustiga-os. “Por que diabos existe entre a nossa vida e a nossa literatura uma espécie de «muro da vergonha»?” Uma questão dirigida aos escritores argentinos da altura, mas que, a 40 anos de distância e no periférico mundo das letras portuguesas, não perdeu utilidade.

17
Jan10

Os Pássaros

Bruno Vieira Amaral

O post anterior sofre de uma imprecisão (talvez mais do que uma, mas esta eu posso identificar). O conto de Daphne du Maurier não decorre durante a guerra, mas no período do pós-guerra. Apesar disso, a leitura do conto enquanto uma alegoria das angústias e dos temores provocados pela guerra permanece válida. Deixo apenas alguns trechos do conto:

 

"Fez-lhe lembrar tempos passados, no início da guerra. Ainda não era casado e tinha feito todos os painéis de madeira para o blackout na casa da mãe em Plymouth. Também construíra o abrigo. Não é que tenha servido de grande coisa, quando chegou a hora."

 

"Na vila dizem que foi obra dos Russos. Que os Russos envenenaram os pássaros."

 

"Porque é que as autoridades não fazem alguma coisa? Por que não chamam o exército, arranjam metralhadoras, qualquer coisa?"

 

"A programação habitual fora interrompida. Isto só acontecia em ocasiões em excepcionais. Eleições, coisas assim. Tentou recordar-se se isso acontecera no tempo da guerra, durante os intensos bombardeamentos de Londres."

 

"As forças reagrupavam-se. Não era assim que chamavam a isso, nos velhos noticiários do tempo da guerra?"

 

Contos, Daphne du Maurier, trad. Margarida Periquito (funny, isn't it?)

16
Jan10

O Medo, O Mal, A Morte

Bruno Vieira Amaral

 

Em A Volta ao Dia em 80 Mundos, Julio Cortázar narra um episódio ocorrido num autocarro parisiense (tentem não se distrair com a aliteração) e dá-lhe o nome de Encontro com o Mal. Nos autocarros parisienses e, presumo, na maior parte dos transportes colectivos do mundo ocidental, podemos esperar os acontecimentos mais insólitos. Eu já fui testemunha de uma boa dezena de tais acontecimentos e acredito não ser mais azarado ou mais atento do que a maioria dos cidadãos que, por questões económicas ou de deficiente ordenamento do território, é obrigada a frequentar diariamente os veículos dos TST. Se, com o nosso exagero meridional, podemos classificar algumas dessas experiências como “infernais” ou, os como dirão os que ao exagero juntam a erudição, “dantescas”, não será, porém, razoável que esperemos um encontro com o Mal. Seria uma experiência que nem o preço dos bilhetes poderia justificar. O Mal, visto por Cortázar, é um homem de “sobretudo e chapéu pretos”. Deixo para quem sabe: “A certa altura, tive consciência do medo que se tinha vindo a instalar naquele corredor, no qual jamais alguém teria pensado que um dia sentiria medo. Não sei descrever uma coisa destas [os escritores como Cortázar têm a tendência a desvalorizar as suas capacidades para, de seguida, nos impressionarem com os seus recursos]; era uma aura, uma irradiação de mal, uma presença abominável.” Prossegue o argentino: “Dizer que era o Mal não é dizer nada; conhecemos as suas caras sorridentes e os seus múltiplos jogos amáveis [não é o Diabo capaz de se transformar em anjo de luz?]. O insuportável (e isso sentia-o o revisor na sua simplicidade, sentíamo-lo todos a partir dos nossos diversos horizontes) era a ausência de qualquer símbolo revelador.” O que Cortázar quer dizer é que o Mal é um vazio de sentido e que o medo alimenta-se desse vazio.
 
Guy de Maupassant descreveu, talvez melhor do que ninguém, esse sentimento que não deve ser confundido com outras emoções limítrofes: “Um homem enérgico nunca tem medo perante um perigo iminente. Sente-se emocionado, agitado, ansioso; mas o medo é outra coisa.” Estas palavras foram escritas por Maupassant num conto que se chama, sem surpresas, O Medo. E o que é o medo? O medo “acontece em certas circunstâncias anormais, sob certas influências misteriosas, face a ameaças vagas. O verdadeiro medo é como uma reminiscência dos terrores fantásticos de outrora.” Se Maupassant tivesse ficado por aqui nós teríamos medo, porque esta é uma descrição um tanto vaga. Mas, logo a seguir e através do relato de uma personagem, ilustra o sentimento. O homem em questão foi confrontado com o medo em duas situações bastante distintas: a primeira, no deserto, em plena luz do dia. A segunda, numa noite fria de Dezembro, num bosque do nordeste de França. A primeira diz-nos que o medo não é necessariamente, e ao contrário do que o cinema de terror nos fez crer, um animal noctívago. A segunda é uma representação mais tradicional - centro-europeia e grimmesca – do medo. Um bosque, uma casa no meio do bosque, a noite, condições atmosféricas desfavoráveis – aquilo com que se assustam as crianças. Para o estudo do medo, e até para seguirmos a lógica iniciada com Cortázar, a primeira situação é muito mais produtiva. Em plena luz do dia e no deserto (Maupassant diz que o medo é filho do Norte e que “o sol dissipa-o como uma névoa”), o medo é mais puro porque se funda no absoluto vazio de referências que normalmente nos permitem pressenti-lo. O deserto não tem esquinas nem sombras. O medo que aí se possa sentir paira mais acima. Cobre toda a extensão de areia, mas não se manifesta claramente. É a tal ameaça vaga e indecifrável. No conto, os árabes que acompanham o homem dizem: “A morte está sobre nós”. Em todo o lado e em lado nenhum, como o Deus único dos israelitas – uma invenção do deserto.
 
Quando Hitchcock quis desafiar as convenções do suspense, criou uma das cenas mais fascinantes de toda a sua obra e da história do cinema. Colocou um homem no meio do nada, num espaço aberto, em plena luz do dia, à espera de qualquer coisa. Nunca o medo foi tão abstracto. A cena, como o leitor cinéfilo já terá deduzido, pertence a North by Northwest e é a matriz de outros filmes, como Duel, de Steven Spielberg, em que o Mal não se esconde à noite atrás de uma porta fechada. Se o tempo nos permitir, ainda voltaremos a Hitchcock. Para já, aproveitemos o boleia do camião de Spielberg para avançar. Nós ficamos sem saber quem conduz o camião que persegue aquele pobre homem pelas estradas secundárias da América. O Mal não tem rosto (no que se parece com o Deus de Moisés), nem uma causa que o explique. Para todos os efeitos, o camião é guiado por ninguém e o homem perseguido, ocupado em manter-se inteiro, não pode perder tempo a pensar nas motivações do inimigo (no fundo, é a história de Nobody a perseguir o Everyman).
 
Este assustador vazio de sentido pode ser encontrado amiúde na literatura fantástica. E nada melhor do que animais em fúria para acentuar o irracional. Consideremos alguns exemplos. Os Cavalos de Abdera, de Leopoldo Lugones, O Terror, novela de Arthur Machen e o conto Os Pássaros, de Daphne du Maurier, são três relatos sobre o tema dos ataques inexplicáveis de animais contra humanos. As narrativas das obras de Machen e de du Maurier decorrem em períodos de guerra, pelo que ambas podem ser lidas como alegorias em que os animais simbolizam a ameaça exterior. Nos dois casos, o estilo é realista. O conto de Lugones é muito diferente. É um conto mitológico, temperado com um humor ausente nos outros dois. Lugones fala da célebre raça de cavalos de Abdera, os quais eram tão acarinhados pelos seus donos que alguns destes até tinham o hábito de os admitir à mesa. Tamanha deferência resulta em tragédia porque os animais, entusiasmados com o estatuto que lhes é concedido, resolvem atacar a cidade, destruindo as casas e matando os habitantes. Não é dada qualquer explicação para o comportamento dos animais, embora possamos arriscar uma interpretação; Lugones alerta para os efeitos perversos de uma educação laxista ou, o que também não é descabido, desenha uma metáfora sobre as relações de poder na sociedade: os “cavalos” devem ser tratados como cavalos ou corremos o risco de um dia os encontrarmos na cama com as nossas donzelas. Em O Terror, os ataques são levados a cabo por aves, cavalos e – suspenda-se a descrença – pirilampos. No conto de du Maurier, os responsáveis são os do título, uma Luftwaffe do Mal, passe o pleonasmo. O filme de Hitchcock (com argumento de Evan Hunter) é muito melhor enquanto ensaio sobre o Mal porque é expurgado do subtexto da guerra. Em nenhum momento somos convidados a ver o filme como uma alegoria da guerra. No filme, o escatológico (it’s the end of the world) é bíblico, metafísico, enquanto que, no conto, é uma representação literária de ameaças reais.
 
Em qualquer destes casos, o medo radica na ausência de qualquer explicação plausível para a irrupção do Mal. Um homicida maníaco ou os alemães (O Terror) e a vaga de frio (Os Pássaros) oferecem “pelo menos, a tranquilidade de uma explicação, e qualquer explicação, ainda que pobre, é melhor do que um mistério terrível e intolerável”, para citar uma passagem do livro de Machen. O mistério terrível e intolerável do ruído de tambores no meio do deserto e da fúria de animais enlouquecidos ou assustadoramente conscientes; o mistério terrível e intolerável de um homem numa estrada deserta e de um homem de sobretudo e chapéu pretos num autocarro em Paris. Esse mistério a que fomos chamando de Mal tem outro nome familiar e, ao mesmo tempo, longínquo. É a morte, a que está sobre nós.
14
Jan10

Portugueses Ilustres

Bruno Vieira Amaral

O primeiro Mendonça do Amaral que a historiografia regista ficou para a posteridade como barão, mas teve os mais modestos começos como ladrão de galinhas e de toda a sorte de legumes. O primeiro documento a referir Mendonça do Amaral omite a forma como terá enriquecido, mas inscrições em lápides, entre outra documentação menos fiável, apontam no sentido de extorsões diversas e um outro rapto sem consequências gravosas para as vítimas. A respeitabilidade de Mendonça do Amaral cresceu ao ritmo da fortuna. Os amigos dos primeiros tempos afastaram-se, certamente por falta de calçado adequado, e os inimigos, se alguma vez os houve, ou ascenderam a amigos ou tornaram ao pó, tal como as Sagradas Escrituras nos garantem que sucederá a todo e qualquer homem, por muita influência que este tenha no Ministério das Obras Públicas. Da casa, e respectivas adjacências, incluindo um barracão onde era guardada a lenha, de Mendonça do Amaral, brotou uma casta inigualável de ilustres varões, todos eles guerreiros ferozes que, por acasos da História que lhes não podem ser atribuídos, jamais tiveram o ensejo de alardear a inequívoca coragem no campo de batalha. Ao longo de três gerações, os Mendonça do Amaral destacaram-se por cultivar uma enérgica inimizade com os livros, facto mais do que comprovado pela vastíssima biblioteca de que eram proprietários. Até que nasceu Artur Mendonça do Amaral e aquele venerável nome, cuja glória inicial se alicerçou em pilhagens e delações, roubos e chantagens, foi destruído a golpes de putas nada sérias e de croupiers ominosos. O génio de Artur, asseveram todos os que com ele travaram conhecimento, era essencialmente verbal. Um talento cruelmente cerceado pelos infortúnios de uma gaguez contraída na primeira infância e do analfabetismo hereditário. Se assim não fosse, talvez hoje o querido esqueleto de Artur repousasse sob a egrégia sombra dos Jerónimos em vez de jazer esquecido no cemitério de T., arredores de Coruche, ladeado, como Cristo, por dois populares gatunos, ambos assassinados pela fúria de um caseiro à renda do qual procuraram subtrair galinhas e legumes.

14
Jan10

É tudo um sonho

Bruno Vieira Amaral

 

A teoria mais recorrente quando se trata de fazer uma segunda leitura ou interpretação de um filme ou de um livro é a do aquilo-não-passa-de-um-sonho. Simples. Os filmes de David Lynch não passam de um sonho, Vertigo não passa de um sonho e Fuga para a Vitória não passa de um sonho. Ora, para mim, Avatar é que não passa mesmo de um sonho. O filme, como é óbvio, é sobre a Guerra do Iraque. Jake Sully fica sem as pernas e, de acordo com a minha teoria, o filme começa precisamente nesse momento. A partir daí, é tudo uma alucinação de Sully (plantas fluorescentes, uma tribo de alienígenas azuis – o verde está fora de moda, cães que se parecem com os dobermans dos pesadelos, seres que se unem através de uma coisa bastante parecida com fibra óptica). Num estado de inconsciência, de semi-vigília, Sully é assaltado por preocupações e memórias: a recuperação da mobilidade, a relação difícil com o superior, o sentimento de culpa e Danças com Lobos. Sully, que se encontra numa situação física extremamente precária, sonha-se herói e até voa montado num bicho grafittado na Amadora. É sempre ele a delirar. Criado em roulottes por um casal de hippies (a minha interpretação tem uma dimensão genealógica), Sully renega a família e o consumo de marijuana quando se alista no exército. É este sentimento de culpa que, no momento em que perde as pernas, o faz imaginar uma tribo muito new age, em harmonia com o universo, a viver numa árvore e com rituais místicos próprios de quem passou uma boa parte da vida metido em ácidos e a ouvir Helter Skelter. No fundo, Sully é um hippie imperialista, um oxímoro que o torna propenso ao fenómeno que afecta Douglas Quaid em Desafio Total (baseado num conto de Philip K. Dick): embolia esquizóide. Os efeitos 3D são excelentes mas só reforçam a minha teoria. Fui.

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