"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos
19.4.10

Não se sabe em que ano nasceu, mas é conhecida a data da sua morte (60 a.c) e a idade (47 anos, mas com a tensão a 21/2) que tinha na altura. Marco Públio Nereu era filho de um alfaiate, Túlio Pompeu, e de uma empregada doméstica, Cesaltina Gomes. Iniciou os seus estudos com o tutor Terêncio Cipião, que lhe ensinou álgebra, astronomia e literatura francesa do século XIX. Públio Nereu cedo se destacou pelos seus dotes políticos. Durante vários meses, tentou convencer Caio Aurélio a abdicar do cargo de pretor. Como este não recuava, Públio Nereu comprou a dignidade do adversário com dois milhões de sestércios. No dia seguinte, Públio Nereu convenceu o imperador a retirar de circulação os sestércios. Era um conspirador nato. Ainda não tinha cumprido dezoito anos e já participara em mais de quinze conspirações. Era tão hábil nas suas maquinações que, anos mais tarde e a pedido dos adversários, chegou a participar em conjuras que visavam derrubá-lo do poder e que só não tinham sucesso porque entretanto engendrava outras conjuras que o mantinham no poder. Traições, envenenamentos e decretos: este era o dia-a-dia de Públio Nereu que por vezes nem tinha tempo para almoçar. Teve um grande desgosto quando descobriu que o seu amigo Joaquim Catão se unira a Sidónio Pais e a Sula Marão para conquistar o poder através de um putsch. Quando confrontado com a acusação, Joaquim Catão negou tudo: “O que é um putsch? E juro-te que não conheço nenhum Sidónio Pais nem nenhum Sula Marão.” “São teus cunhados, casados com as tuas irmãs Agripina Florália e Flávia Cornúlia.” “Ah, esses...bem, a ideia foi deles.” Os três conspiradores foram poupados à espada e ao fogo e só não sobreviveram aos leões por manifesto azar. Públio Nereu sabia ser magnânime. Era implacável com os traidores e benevolente com os sediciosos, porque não sabia o significado da palavra. Quando percebeu que eram os tipos que ficavam a cochichar no escuro incitando à revolta mandou decapitá-los. Aos 35 anos, no auge da sua carreira política, Marco Públio Nereu adoptou uma vida frugal. Renunciou a todos os bens materiais, à excepção de 250 barras de ouro que guardou por questões sentimentais (foram o pagamento do seu primeiro suborno). Aos quarenta anos decidiu voltar à ribalta, mas já ninguém o conhecia. Acabou a fazer um número de sapateado em casinos.

link do postPor Bruno Vieira Amaral, às 13:00  ver comentários (2) comentar

15.4.10

Tem 83 anos. Mantém aquele olhar que fez dele o actor que a miudagem adorava em filmes como “O incorrigível celerado”, “Divertimentos debaixo de uma segurança social” e “Silogismos mornos: regresso a Antioquia”. Cedric Stuart Mckenna recebe-nos em sua casa em roupão. “Olá, acabei de alimentar o Chavez, o meu pit bull”. Depois, repete a frase que o tornou famoso: “You chose the wrong ass to play with, sir” com o seu piscar de olho característico. Por baixo do rímel, continua a ser um machão.

 

A casa, desenhada por Frank Loyd Wright nos anos 30, é motivo de orgulho para o lendário Reverendo McIntire da série “Pagarás o dobro”. “Bons tempos. Naquela altura, as pessoas viam-me na rua e pediam-me ajuda, conselhos, drogas. Eu dizia-lhes sempre: “A vida é dura para os oftalmologistas sem coração”. Não podemos deixar de sorrir ao ouvir a frase com que o Reverendo terminava todos os episódios e que de acordo com o autor, Evan Hunter, não queria dizer nada. “Escrevi-a para ver o McKenna a fazer figura de parvo”, foram as últimas palavras de Hunter.

 

Entramos na sala. Ao centro, uma fantástica mesa de mogno chinês decorada com fruta de plástico da I Dinastia Ming. “Querida, as bananas são Ming ou Chi-Huang?” “Stu, não existe nenhuma dinastia Chi-Huang.” Parece que é uma espécie de partida que McKenna gosta de pregar aos convidados. “Estava quase a acreditar, ein? Ein ou hem? Ah, ah! Bolas! Ah, Ah ou ih, ih? Filho, o grande problema é que quando envelhecemos todas as maneiras de rir são igualmente ridículas.” Di-lo com o tom de Marco António da versão televisiva da peça de Shakespeare “Júlio César”. “O Mankiewicz não gostava de mim. Escolheu o Brando. Um gajo fraquito. Sempre detestei o Método. Uma vez até apareci num talk-show com uma camisa que dizia “Lee Strasberg cheira mal dos pés”, o que por acaso até era mentira”. Um conversador de primeira.

 

Observo a tapeçaria na parede. Parecem divindades gregas. “Juno?”, pergunto eu. “Sim e ao lado dela Fred Flinstone de cabeça para baixo”. Um fartote. Procuro desviar o assunto para aquilo que me interessa. “Vai perguntar-me sobre a história do activismo gay? Não se envergonhe; é isso que toda a gente quer saber. Isso, se eu fui para a cama com Rock Hudson e qual o maior lago de água doce do mundo.”

 

Nos anos 70, McKenna atravessou uma fase complicada. Irascível no plateau, foi acusado de esbofetear um ganso durante as filmagens de Nils Holgerson. Os espectadores também já estavam cansados do Reverendo (a série, no entanto, continua a ser um sucesso em França; em 1992, McKenna foi agraciado com a Legião de Honra por Mitterrand. “La vie est dure pour les ophtalomologues sans coeur”, disse um emocionado presidente gaulês na cerimónia). McKenna deixou a mulher, experimentou drogas e, no auge do desespero, filiou-se no Partido Republicano. É por essa altura que McKenna aparece pela primeira vez em manifestações pelos direitos dos homossexuais. As palavras de ordem “Gay is good”, “Gay power” foram substituídas por outras mais provocadoras “We need causes”, “Fight for the right to fight for rights”. “Bem, sabe, eu sempre me preocupei muito com essa gente. George Cukor disse-me um dia que uma pessoa não escolhe aquilo que é. Certo, disse-lhe eu, afastando a mão dele da minha perna, mas nenhum homem é obrigado a dar beijinhos a outro”.

 

Pergunto-lhe se ainda considera Richard Dean Anderson o maior actor do mundo. Responde-me com um sorriso e tenta agredir-me com uma estatueta hindu. C. S. McKenna pode não ter a mesma pontaria mas será sempre o “transeunte abespinhado”.

link do postPor Bruno Vieira Amaral, às 09:30  ver comentários (2) comentar

11.4.10

Publicado no i

 

 

Vozes no Escuro, do escritor portuense Rui Vieira, pretende ser um romance polifónico, mas as várias vozes que narram a história não se diferenciam. É uma polifonia monocórdica, como o resultado do esforço de um mau ventríloquo.

 

Por vontade da mãe, uma jovem de dezassete anos é enviada para um convento. Nos dias que ali passa é visitada pelas vozes das mulheres que, há muitos anos, conheceram o mesmo destino e sofreram as mesmas privações. Enquanto acompanhamos o sofrimento físico e espiritual da jovem, vamos conhecendo os dramas da sua família através da mãe religiosa, da avó moribunda, da tia louca e do pai afogado.

 

O romance vegeta nos lugares-comuns da condição feminina: sexualidade reprimida, prazeres proibidos e conventos. Rui Vieira não permite que nos esqueçamos do assunto: “já era mulher”, “eu ainda não mulher”, “com inveja de não sermos mulheres”, “queria ser mulher”, até ao definitivo “vou ser mulher”.

 

A prosa poética de Rui Vieira abusa dos mesmos substantivos (muitas pedras, cinzas, águas, neblinas, sombras e névoas), repete motivos em busca de uma cadência que nunca chega a atingir (o sorriso do pai na fotografia, a tia louca que embala uma boneca de pano), perpetra imagens francamente assustadoras (“o olhar terno dos pássaros”), aliterações inúteis (“no catre do quadro no corredor para o Cadeiral”) e redundâncias assassinas (“cozinheiros fritam em frigideiras”). Quando incorre no sexo vai do abjecto (“cheiro a carne apodrecida”, “a podridão da carne”, “conheci a putrefacção da carne”) à floricultura (seios que se tornam flores e sexos que se abrem como um botão de flor), sem falhar os transes místicos inspirados em Santa Teresa de Ávila (“um sonho em que o meu Senhor é carne”).

 

Rui Vieira procura cauções exteriores na divisão da estrutura em quatro partes (os quatro elementos), em abundantes passagens bíblicas e em citações do livro Cartas Portuguesas. Fica a ideia de que são enxertos desnecessários que não dialogam com o livro e que têm o efeito perverso de evidenciar a pobreza da matéria-prima. A nota final, em que o autor se justifica, era dispensável, qualidade que partilha com o resto da obra.

link do postPor Bruno Vieira Amaral, às 22:23  ver comentários (3) comentar

5.4.10

Brad Pitt não é um grande actor. O Aquiles dele é, de facto, um irritable surfer. o sotaque irlandês em Perigo Íntimo deve ter feito mais vítimas do que o IRA. Em Sete Anos no Tibete fez de alpinista (um surfista das montanhas) – o grande legado da interpretação de Pitt foi a cor do cabelo, um marco capilar que influenciou João Vieira Pinto, Herman José e, dependendo se os jogos são à tarde ou à noite, Fábio Coentrão; em 12 Malucos, Pitt fez de macaco (recebeu a protocolar nomeação para o Óscar devida a qualquer actor que faça de maluco). Meet Joe Black é de ir às lágrimas, Pitt é a Morte e o único elogio que merece é que consegue ser mais aborrecido do que a própria. Provando ser um dos maiores especialistas contemporâneos em sotaques, desta vez imita o sotaque de um jamaicano (Siz-tah). O penteado atinge um nível de ridículo que só viria a ser suplantado por Javier Bardem (Este País não é para Velhos) e Bruce Willis (todos os filmes em que tem cabelo). Em Fight Club volta a fazer de maluquinho. É o filme em que Pitt mais se aproxima do grande actor que ele não é e isto só porque partilha a personagem com Edward Norton. Divertido nos Oceans e em Mr. e Mrs. Smith, Pitt regressou ao exercício dos sotaques em Inglorious Basterds. O resultado é mais uma vez risível mas como o filme é um divertimento kitsch ninguém leva a mal. Brad Pitt não é um grande actor.

link do postPor Bruno Vieira Amaral, às 14:56  ver comentários (7) comentar

 
mais sobre mim
Abril 2010
D
S
T
Q
Q
S
S

1
2
3

4
5
6
7
8
9
10

12
13
14
16
17

18
20
21
22
23
24

25
26
27
28
29
30


Sitemeter
subscrever feeds
blogs SAPO