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Circo da Lama

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

Circo da Lama

20
Mai10

Receitas de Meia-Nigella

Bruno Vieira Amaral

Quando chego aos objectos de culto (“estes gajos que ninguém conhece são mesmo bons”) já os encontro na fase de fenómeno de massas (“os gajos venderam-se”) ou, se as coisas correrem bem, na curva descendente que os devolve à condição de objecto de culto com o bónus da nostalgia (“mesmo quando se vendiam os gajos eram bons”). Quem não quer acabar como mascote esfarrapada dos talibans do autêntico, dos que não se vendem, vende-se. Os outros, poucos, aguardam serenamente o processo de luiz-pachequização ou antonio-ganchamento e rezam para que os jovens do futuro ainda se preocupem em fazer relíquias dos vencidos. Mas isto não é sobre literatura, é sobre a forma como a senhora Nigella Lawson se abeirou do meu campo de visão e do meu proto-paladar, que os dois sentidos aqui caminham juntos. Como sempre, cheguei tarde ao objecto. Já meio-mundo a elogiara, e como qualquer especialista em devoções sabe, o escárnio e o vilipêndio acicatam mais o desejo de veneração do que mil esporas de elogios, por genuínos que sejam. Quem é que vai empregar o seu precioso tempo com a Nigella quando sabe que o mais provável é chegar à mesma conclusão que todos os outros? É como se o marido abandonado voltasse a casa e dissesse: “Se não és minha, vais ser de toda a gente”, e andasse para aí a gabar-se da múltipla inexclusividade. Há cultos que pedem multidões (Fátima, o Benfica, inaugurações do Ikea) e há outros que exigem recato e meditação. Pensei que o culto à volta da Nigella fosse deste último género mas assim que a vi a chupar os dedos num programa de televisão percebi que estava enganado. Então, na solidão densamente povoada do peregrino, parti para a Nigella. Cheguei ainda há pouco e o tempo aqui está bom. A Nigella tem um corpo todo ele Cântico dos Cânticos, cedros do Líbano e tal, de uma opulência mediterrânica de carnes.

 

 

Vou no Queijo Mozzarella em Carrozza, uma interessante reflexão sobre a condição do queijo na sociedade italiana. “Em carrozza” significa “num recipiente”, mas se disséssemos “Queijo Mozzarella num recipiente” a coisa perdia a graça e talvez nos sentíssemos tentados a levar o queijo para um centro de análises clínicas. Assim, em italiano, temos vontade de o levar a passear pelos canais de Veneza, qui c’est triste Venise, aux temps des amours morts, de discutir os romances de Calvino, o Italo, entre outros assuntos mais do agrado do queijo, como a levedação. A autora garante que este conto está algures entre “pão frito, torrada de queijo e rabanadas”, ou seja, literatura neo-realista do pós-guerra em ambiente de festividades natalícias, e insurge-se contra a tradição: “Não vou fazer de conta que esta receita é tradicional.” Não é. Nigella apropria-se da tradição para nos oferecer algo novo e com malaguetas.

 

Fiambre com Coca-Cola

 

Nigella aventura-se no auto-plágio: “Esta receita é do meu livro How to Eat, mas com algumas alterações.” Não, isto é mais O Toldo Vermelho da culinária. “E não, não vou pedir desculpa por copiar, ou melhor, reformular esta receita pela simples razão de que insisto que a prove.” Nós aprovamos. “A bebida doce e gasosa tem tudo a ver com o espírito da carne assada.” O espírito da carne assada? Estará Nigella a entrar na mitologia Navajo? O único conselho que retive é “nem pense em usar Coca-Cola Zero!”, com ponto de exclamação e tudo. Oh, Nigella!

 

Jaquinzinhos

 

Rendo-me a Nigella! Jaquinzinhos? “Já praticamente me tinha esquecido da existência de jaquinzinhos até os ver à venda numa peixaria.” É por estas e por outras que eu tenho uma agenda onde registo o nome dos peixes e respectivo número de telefone. “Jaquinzinhos são peixes pequenos”, “normalmente são carapaus pequeninos”, embora em cativeiro possam ser encontrados alguns do tamanho de lontras e outros com a voz do José Carlos Malato. Depois, vem a eco-política: “Eu sei que há uma geração mais naturalista para quem a ideia de comer peixinhos-bebés inteiros pode ser pouco tentadora.” A minha avó sempre me disse que comer jaquinzinhos era um acto essencialmente imoral, sobretudo quando acompanhados de arroz de tomate. Mas há momentos em que o homem é apenas um elo na cadeia alimentar, um “mamífero de curta duração”, como diz Steiner, e nessas alturas já se sabe que é capaz de qualquer coisa, incluindo comer hambúrgueres do Lidl e jaquinzinhos, enquanto declara que o aumento do IRS não terá efeitos retroactivos.

16
Mai10

Num qualquer ramo

Bruno Vieira Amaral

"Por mais incapacitado que fosse para singrar na vida, se ao menos não tivesse tentado com tanta insistência fazer de si um intelectual, se, em vez disso, tivesse ido para uma loja qualquer aprender e aí trabalhado com afinco, poderia ter-se tornado um respeitado comerciante num qualquer ramo."

 

Junichiro Tanizaki, Uma gata, um homem e duas mulheres, trad. Telma Costa

14
Mai10

Kerouac

Bruno Vieira Amaral

1944 – conhece Allen Ginsberg. Depois de experimentarem metanfetaminas, anunciam solenemente o aumento de impostos. Kerouac vê o quinto amarelo e fica impedido de participar em concursos literários.

 

1947 – começa a escrever Pela Estrada Fora com o título provisório de Mirtilos Neurasténicos. O editor recusa o título e sugere o mais comercial As Aventuras dos Mirtilos Neurasténicos. Kerouac desiste do livro e dedica-se à decoração de árvores de Natal com almôndegas. O empresário Wallace T. Scott fareja o potencial inovador da ideia e encomenda seis toneladas de almôndegas para que Kerouac tenha total liberdade criativa. A UPS demora cinco meses a encontrar Kerouac que assim se vê obrigado a trabalhar com almôndegas estragadas. Envia um primeiro esboço a Scott que entra em pânico ao ver o resultado. Scott contrata Dashiell Hammett para refazer o trabalho. Lançamento de linha lateral para Kerouac.

 

1949 – chamado a depor perante o HUAC, denuncia Dalton Trumbo, Bugs Bunny e a avó materna.

 

1950 – viaja à boleia pela primeira; percorre apenas 150 metros. A experiência dá origem a um romance de 500 páginas que não chegará a ser publicado.

 

1951 – segunda viagem à boleia, desta vez para ir comprar mercearias. Escreve dois contos que submete à apreciação da editora Random House. São recusados com um veredicto arrasador: “demasiados pimentos”.

 

1952 – instala-se na casa de William S. Burroughs, sem o conhecimento deste. Fechado durante sete meses no roupeiro, Kerouac dedica-se à meditação e ao consumo de flanela. Planeia um romance mas abdica da ideia em favor do crescimento das unhas dos pés. Quando finalmente consegue sair, exibe ostensivamente as unhas perante os convidados de Burroughs, considerando-as a sua mais bela criação artística até à data. Livre perigoso em jeito de canto mais curto. Kerouac tenta pôr a bola ao segundo poste mas o árbitro invalida o lance e manda toda a gente para a cama de Ginsberg.

 

1955 – descobre o budismo e tenta vendê-lo sem sucesso numa casa de penhores. Volta dois dias mais tarde com um relógio de ouro. Ganha cinco dólares e decide investi-los em guardanapos de papel. Escreve um longo ensaio sobre faquirismo e transmissão de pensamentos, que se pode resumir como uma defesa ingénua do acto de falar ao telefone com os pés enfiados num fogareiro.

 

1956 – trabalha como guarda-florestal em Desolation Peak. É acusado de drogar uma família de esquilos. Na sequência de um pontapé-de-canto, Kerouac restabelece a igualdade no marcador. Adivinham-se uns minutos finais impróprios para cardíacos.

 

1964 – a sua irmã Nin morre de ataque cardíaco.

 

1969 – apito final.

11
Mai10

Envelhecer

Bruno Vieira Amaral

 

Greenberg é o fim da juventude. Os vícios que deixámos para trás e as paixões que não podemos reacender. Os amigos que magoámos e a química que se perdeu. Os casamentos, os divórcios e os filhos do naufrágio. Aos quarenta ainda somos tão novos e já somos tão velhos. Vejam Ben Stiller a aproximar-se de Jennifer Jason Leigh e sofram a constatação de que tudo aquilo é inútil e triste. A namorada do liceu já não existe. É agora uma mãe divorciada. Stiller tenta reavivar memórias mas só suscita compaixão. A vida de outrora perdeu-se para sempre. Não há mausoléus que a celebrem e viver a vida sem meaning or control (como cantava Jarvis Cocker) é fraca homenagem a esses tempos. Não há qualquer filosofia em viver à deriva. É simplesmente viver à deriva, com a juventude cada vez mais longe. Bebe, snifa, fode, vai para a Austrália, não vás para a Austrália: o essencial não muda. Estás a envelhecer, man.

06
Mai10

40 pré-convocados para o Mundial

Bruno Vieira Amaral

Guarda-Redes: Hieronymus Bosch (AZ Alkmaar); Joaquim Bastinhas (Torreense); Guido Buchwald (Hamburgo); Bebé (Benfica); Rui Patrício (SCP); Demi Moore (Ghost);

 

Defesas: Mozer (SL Saudade); João Rendeiro (BPP); Hulk (Marvel); Carlos Carvalhas (PCP); Nunes (Maiorca); Lucílio Batista (Setúbal); Pau Gasol (LA Lakers); Fernanda Câncio (Jugular); Fox Mulder (X-Files); Gustavo Rubens Barrichello Kuerten (Blargh!); Ricardo Rodrigues (PS);

 

Médios: Arthur Schnitzler (Áustria); David Cameron (Partido Conservador); Jacques Cousteau (Morto); Que Tara de Sousa (Sic); Francisco Penim (sem clube); Enzo Francescoli (Marselha); Chris Waddle (Marselha); Didier Deschamps (Marselha): Abédi Pele (Marselha); Alan Boksic (Marselha); Lennon e McCartney (Liverpool);

 

Avançados: Nuno Gomes (McDonald’s); Ana Malhoa (Buéréré); Vieirinha (Paok); Vlk (FC Porto); Rudiger Volborn (Bayer Leverkusen); Jesus Luz (Madonna); Madonna (Sean Penn); Corn (Flakes); Freddie Mercury (Sida); Dale Cooper (Twin Peaks); Mário Crespo (ex-JN).

06
Mai10

Strippers

Bruno Vieira Amaral

São poucas as diferenças entre a Grécia e uma mulher em vias de entrar no mundo do striptease. O corpo é belo e admirado por todos, mas as dívidas são exorbitantes. A diferença é que, no caso das strippers, estar de tanga é parte da solução e não do problema. As garotas de programa vão mais longe. São uma espécie de Grécia que não só convida turistas mas também admite vender partes do território à Alemanha. Strippers e garotas também são um óptimo exemplo para a economia. Não basta reduzir a despesa, é preciso investir para depois ter retorno. Depilação, manicure, pedicure e roupas são investimentos avultados, mas as strippers têm de aparecer deslumbrantes perante os clientes ou fazem de figura de Grécia perante os mercados: uma senhora com excesso de peso e buço, a quem é recomendado um plano rigoroso de emagrecimento. Depois de consertado o estado pessoal da economia, as senhoras tentam capitalizar o sucesso escrevendo testemunhos sobre os próprios casos. É uma receita idêntica à de João Rendeiro, só que o único sucesso deste foi um banco falido. Se continuarem a escrever a este ritmo, dentro de cinco anos a Feira do Livro estará a abarrotar de strippers, e clubes como o Champagne anunciarão espectáculos de Lídia Jorge e Gonçalo M. Tavares.

 

Aqui.

04
Mai10

Feira Cabisbaixa

Bruno Vieira Amaral

 

 

Os Métodos Anticoncepcionais, Lionel Gendron, Publicações Europa-América

 

A capa é um clássico. Misto de disco de Serge Gainsbourg e panfleto das Testemunhas de Jeová, é em si mesma um poderoso anticoncepcional. O livro enumera os métodos anticoncepcionais à disposição do casal. Fala de espermicidas químicos (que não só impedem a gravidez mas que também combatem o míldio da vinha) e do método Ogino-Knaus. Tem nome de tratado italo-germânico mas trata-se apenas do popular método do calendário, que obriga os seguidores a consultarem o Almanaque Borda d’Água antes de qualquer relação sexual.

 

Aqui.

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