"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos
31.7.10

Publicado no i

 

 

“Criado no artificioso, na mecânica doméstica de um pensamento obsessivo, que passa de geração em geração na minha família, eu vivia afastado da Natureza e chegava mesmo a duvidar da sua existência.” P. 154

 

No centro de A Vida Verdadeira, romance de estreia de Vasco Luís Curado (n. 1971), está uma quinta cercada por um muro. Vergílio, o narrador, é o derradeiro guardião desse espaço ameaçado pela expansão urbanística. A visita dos agentes imobiliários empurra-o para uma sucessão de recordações, da infância à idade adulta, em que reflecte sobre a sua separação da vida verdadeira, de tudo o que acontece para lá dos muros e das palavras. Não sendo o que se designa de romance de ideias podemos dizer que A Vida Verdadeira é um romance em que as ideias delimitam a narrativa. A ideia mais forte, a âncora do narrador, é a do indivíduo enquanto portador temporário do testemunho da família, enquanto elo transitório de uma cadeia que o transcende. Nos atavismos e na preservação da memória, Vergílio prolonga o todo que é a família. A educação da criança enquanto disputa entre duas forças antagónicas, a domus e a polis, é a outra ideia-base do livro. A escola (símbolo do mundo dos homens) procura resgatar a criança das garras da protecção doméstica, ou seja, quer dar à criança referências do mundo exterior, enquanto que a mãe quer mantê-la num estado uterino. A escola é um útero masculino, berço de cidadãos. No caso do protagonista, é a força materna que leva a melhor. Demasiado protegido, ele está separado do mundo pela grade verbal erguida pela mãe. As palavras são mais importantes do que as coisas; não lhe servem para desvendar o mundo, mas para o manter a uma distância segura. Vergílio fica à beira-vida como em criança ficava à beira-mar, porque a mãe queria “transformar o mar num tanque infantil que não oferecesse perigos” (p. 26). A viagem que planeia com a irmã, e que não chegam a realizar, é o símbolo máximo do desfasamento entre o mundo enquanto verbo e a realidade empírica.

 

A Vida Verdadeira tem fragilidades como o recurso frequente a advérbios de modo, algumas expressões anti-literárias e inestéticas e histórias laterais que, não sendo más, não são embutidas de forma graciosa no conjunto. Mas com este romance, Vasco Luís Curado conquistou, pelo menos, o direito a uma segunda oportunidade para corrigir estas falhas menores.

link do postPor Bruno Vieira Amaral, às 17:05  comentar

28.7.10

Publicado no i

 

 

“As coisas começaram a desmoronar-se em casa quando o meu irmão, o Jaja, não foi comungar (…)” O começo de A Cor do Hibisco remete-nos implicitamente para um dos romances seminais da literatura africana, Quando Tudo se Desmorona, de Chinua Achebe. No seu romance de estreia, a nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, autora do aclamado Meio Sol Amarelo, reclama a sua parte da herança e prolonga a fusão entre a literatura ocidental e as raízes africanas ou, adaptando, inglês correcto com sotaque e imaginário ibo.

 

A convivência entre as duas culturas nem sempre resultou na amálgama sólida de que é feita a literatura de Achebe e de Adichie. Neste romance, é a figura do pai de Kambili, a narradora adolescente, que representa a impermeabilidade dos dois mundos. Educado numa missão católica, o pai é “um puro produto do colonialismo”, alguém que obliterou a sua identidade africana e que exige o mesmo dos filhos, mesmo que tenha de recorrer a constantes abusos físicos e psicológicos. No entanto, este homem de uma severidade extrema é capaz dos gestos mais altruístas em benefício de estranhos e é proprietário de um jornal que denuncia corajosamente a corrupção do governo. Kambili tem dificuldade em conciliar as duas imagens do pai: o herói público e o monstro privado, que castiga os filhos com água a ferver, que espanca a mulher e que despreza o próprio pai. A ideia de pecado ensombra toda a existência de Kambili que só tem um vislumbre de uma outra vida quando vai visitar a tia. A casa de Ifeoma é um santuário de liberdade e de riso. A tia mostra-lhe que o avô não é um pecador pagão que mereça as chamas do Inferno e os olhos de Kambili abrem-se para esse novo mundo que existe para lá da disciplina paterna.

 

Para romance de estreia, A Cor do Hibisco revela uma autora surpreendentemente madura. O ponto de vista da narradora é coerente e temas que são lançados num determinado momento são recuperados mais à frente (as aparições em Aokpe, a visita ao monte Odim), criando um efeito de perfeição circular. A maturidade também se expressa nas personagens, agulhas de um sismógrafo que capta a turbulência social. A derrocada familiar é consequência dos abalos políticos. A forma como Adichie entrelaça os dois planos, sem excesso de melodrama e sem proselitismo político, é o grande trunfo do livro e um feito admirável para um primeiro romance.

link do postPor Bruno Vieira Amaral, às 15:35  comentar

Ainda em A Vida Verdadeira, há uma personagem que decepa a mão esquerda. Em 2666, também há um artista que corta a própria mão. Artista esse que me recordou o poeta Leopoldo María Panero e que é bem possível que tenha inspirado Bolaño. O artista do romance é internado num manicómio (não tenho a certeza que seja o de Mondragon) e Panero é autor do livro Poemas do Manicómio de Mondragon.

link do postPor Bruno Vieira Amaral, às 14:19  comentar

“Hoje sou adulto e não sei nadar. Os outros, os que não foram tão protegidos, sabem nadar, o que lhes pode valer em situações críticas (perigo no mar, naufrágios, inundações). Se um dia me vir em perigo no mar, não estará lá a minha mãe para me proteger. Mas quando esteve ela foi imensa, total, infalível.”

 

Este excerto do romance de Vasco Luís Curado, A Vida Verdadeira, lembrou-me uma cena de O Livro do Riso e do Esquecimento*, de Milan Kundera. O rapaz é um péssimo nadador e, ao ver a namorada a nadar como uma profissional, tem um acesso de litŏst, uma espécie de auto-compaixão melancólica. Quando a rapariga sai da água, ele dá-lhe uma estalada com o argumento que ela correra um grande risco ao nadar daquela maneira. Na verdade ele não estava preocupado com a segurança da rapariga, mas o desembaraço aquático da namorada tinha sido uma humilhação tácita que ele não podia suportar.

 

O protagonista do romance de Vasco Luís Curado tem o nome de Vergílio e lendo o excerto que se segue percebemos porquê: “Sentia-me íntimo do mistério das coisas, seja isso o que for. Tudo, agora, repentinamente, me parecia claro, coerente, o Universo era uno e esplendoroso sem deixar de ser terrível. Pela primeira vez na minha vida, achava-me lúcido. E tudo porque me reconciliei comigo próprio.” Obviamente, Vergílio é vergiliano.

 

Outra passagem vergiliana é quando Irene, a irmã de Vergílio, reflecte sobre o próprio nome: “Quando pensas em mim […] eu sou um nome nos teus pensamentos ou um vulto, uma imagem? Pensas a Irene ou pensas em mim não com um nome? É que o nome capta a essência da coisa, torna-a individual e única.” Carolino, o Raskolnikov alentejano de Aparição, também mastiga as palavras (pedra, pedra, pedra) até ao caroço. O mesmo que Antoine Doinel faz em Beijos Roubados, de Truffaut, quando, em frente do espelho, repete o nome inúmeras vezes (antuáneduánel, antuáneduánel, antuáneduánel). A discussão poderia avançar para o racionalismo vs. empirismo / nominalismo (matéria que, tal como o sexo em grupo ou a filmografia de Bergman, me interessa, mas que não domino), ou levar-nos até ao poema de Jorge Luis Borges, El Golem:

 

Si (como afirma el griego en el Cratilo)
el nombre es arquetipo de la cosa
en las letras de 'rosa' está la rosa
y todo el Nilo en la palabra 'Nilo'.

 

ou a uma passagem de Orlando, de Virgínia Woolf, em que @ protagonista descobre a diferença entre o verde na Natureza e o verde na Literatura. É sobre isto que Vergílio fala quando diz: “As rosas e as tulipas que deixei murchar só existem para mim enquanto palavras” ou “O real, para nós, era o verbal.”

 

A Vida Verdadeira tem também um episódio sobre a viagem enquanto cosa mentale, algo que dispensa a deslocação física para se realizar, para se tornar real. A viagem acontece nos preparativos. Há um poema, cujo nome a minha memória não quer recordar, de Fernando Pessoa, ou de um dos seus heterónimos, que conclui o mesmo. Sei que tenho isto apontado no último capítulo do livro de Fernando Savater, O Conteúdo da Felicidade, mas infelizmente estou na hora de almoço e muito longe dos meus livros.

 

* corrigido

link do postPor Bruno Vieira Amaral, às 13:01  comentar

20.7.10

No país dos literatos bater em Bret Easton Ellis é desporto nacional. As regras são simples: há um taco e há, em jeito de bola, a prosa de Ellis. O objectivo é bater repetidamente na bola até que esta se desfaça em pequenos e insignificantes fragmentos. Mesmo os praticantes mais compulsivos demoram algum tempo a perceber que, desde o início, a bola já vem em pequenos e insignificantes fragmentos e que a insistência no exercício não só não é uma mais-valia social como também pode ser deprimente. É como espancar um sem abrigo, mas sem as consequências legais. Li Psicopata Americano há uns dez anos e pareceu-me tão mau que não voltei a ler nada de Ellis. Havia uma clara capacidade de chocar, havia sexo violento e narcísico, um mundo fútil e superficial, crimes. Era também muito mal escrito, o que continua a não ser crime mas que não deixa de ser um terrível defeito num romance. Alguns entusiastas do livro, incluindo pessoas genuinamente boas e outras com animais de estimação, garantiam-me que o livro era um reflexo da sociedade capitalista, individualista e hedonista. Eu respondia que até um preservativo usado atirado para um parque infantil era um reflexo da sociedade capitalista, individualista e hedonista e que isso não dava a ninguém o direito de o vender como literatura (embora pudesse resultar numa exposição de arte contemporânea). Todos estes anos depois, os entusiastas desapareceram do meu radar. Devem ter à volta de 35 anos e provavelmente só lêem obras edificantes e sãs, romances históricos e Deepak Chopra. Se alguém lhes falar sobre Ellis, farão o mesmo que Pedro e dirão que nunca conheceram tal criatura. Eu, sem que nunca mais tenha lido uma linha de Ellis, desenvolvi aquela espécie sólida de preconceito que se alicerça numa primeira má impressão e num conhecimento supérfluo. Procuro, sem escrúpulos, opiniões que reforcem o meu preconceito e é com agrado que as encontro. Provêm de homens mais sábios e mais ajuizados do que eu, mas é como se fôssemos uma irmandade de viajantes literários que retempera forças na taberna acolhedora do ódio a Bret Easton Ellis. Somos uma família, falamos a mesma língua: “a debilidade do seu estilo, o seu magro vocabulário e a pobre arte com que o autor constrói tanto os diálogos como as descrições impedem qualquer outra abordagem que não seja a de um pornógrafo” (Alberto Manguel, No Bosque do Espelho, Dom Quixote). “Ellis has tried to create a novel [Imperial Bedrooms] that is iconic and iconoclastic at the same time. But instead he has come up with something that is boring where it tries to be daring” (Stephen Abell, TLS, 2 Julho 2010). Nós, os que nos comprazemos no ódio infantil a Ellis, somos os monges protectores de todos os livros que não foram escritos por ele. Os admiradores de Ellis são uns irremediáveis idiotas mesmo quando a idade, a programação da TVI ou um violento acidente rodoviário os afasta do âmago desse simulacro de literatura.

link do postPor Bruno Vieira Amaral, às 10:06  ver comentários (8) comentar

13.7.10

Seja em que circunstâncias for, o vómito é uma capitulação ignóbil, um Tratado de Versalhes assinado com as entranhas, um harakiri sem a dignidade dos samurais. A euforia da embriaguez é derrotada pela convulsão involuntária do corpo; o entusiasmo de uma excursão às Minas de Serra d’Aire soçobra perante a confissão visceral de um estômago sensível à trepidação e às curvas. O vómito, como qualquer incontinência, humilha-nos. A bandeira admite empréstimos e doações de sangue, suor e lágrimas, mas não há pátria que solicite aos seus filhos o sacrífício de um vómito. Enjoos maritimos não fazem a grandeza de uma nação, nem mesmo das que se dizem de marinheiros. A Bíblia adverte: homem que reincide no pecado é como o cão que volta ao próprio vómito. E nós, por muito pecadores que sejamos, não somos cães e não invejamos o prazer canino de regressar ao que se expeliu sem nobreza.

 

Alípio Abranhos, eterno conde, mestre na oratória parlamentar, quando se viu na iminência de um duelo, circunstância que lhe pedia mais da coragem do que da retórica, teve um achaque de donzela, uma revolução gástrica que lhe dobrou os joelhos e o fez expelir uma substância esverdeada onde certamente estava escrita a sua verdadeira natureza flébil. O vómito do conde foi físico e moral, idêntico ao do jovem Marcus Messner, personagem de Indignação, de Philip Roth. Após uma longa e tensa conversa filosófica com o deão, o pobre Marcus vomita para cima da carpete, da cadeira e de uma moldura. Conclui resignadamente que “não tinha estômago para enfrentar o deão dos alunos, como não tinha estômago para enfrentar o meu pai ou os meus companheiros.” O vómito confirma-o.

 

Que a prosa de Céline chafurdava em merda e pústulas é uma verdade universalmente reconhecida. Mas os prazeres escatológicos do Doutor Destouches nunca terão sido levados tão longe como na célebre cena do vómito colectivo em Morte a Crédito. Uma viagem de barco transforma-se numa orgia de vómito cujo climax é um momento que nem as reticências atenuam: “Ela então vira-me aquela cabeça de uma assentada a favor do vento...Toda a vaca estufada que lhe gorgolejava no gasganete ela ma chimpa em cheio nas ventas...Fica-me tudo nos dentes, os feijões, o tomate..eu que já não tinha mais nada que vomitar!” Purga, catarse ou simples divertimento celineano, a cena é um espectáculo cru da humanidade no mais abjecto e inimputável da sua existência; um quadro de exagero irreal que faz dos passageiros artistas de vaudeville numa dança grotesca. Que futuro poderá haver para uma espécie que se vomita e que escreve sobre isso?

link do postPor Bruno Vieira Amaral, às 22:05  ver comentários (3) comentar

Era tudo complexo e azul, árvore marítima, crustáceo, celofane e orgulho. A concha afirmava, em leque, que aquele era um dia de praia. Começou mal, angústia e motor, o carro não pegava, a família, mulher, dois filhos e impaciência. Orlando prometera. No último Verão quebrara a promessa, usou uma desculpa melancólica, um súbito horror a multidões, o que entristeceu os filhos, a pele transparente. E agora, no dia em que ele capitulara, o carro não pegava. Orlando ignorava mecânica, só lhe restava esperar, absorto. Podia sair do carro, abri-lo, espreitar as peças, as ligações todas que não entendia, mas ele não queria dar esperanças. Dependia tudo da vontade do carro. Ele, pai, inocente, isento de culpas. Vamos tentar mais uma vez. E o carro pegou. Gritos, alegria, exasperação feminina. Orlando retrovisou os filhos, os gritos, a alegria. Não tinha o direito de lhes negar a exibição franca de estupidez. Foi então que, pela primeira vez, avistou o leopardo. Estava mesmo atrás do carro. Orlando esperou. O leopardo saltou para cima da árvore e a família seguiu, felina, para a praia. Cheia, cheia. As crianças saíram do carro e correram para a areia. Irene olhou para o marido. Ele procurava o leopardo. Rodeou o carro. Nada. Até que o viu, a caminhar na areia, perto dos filhos. Olhou para a mulher, imperturbável, sangue frio. Chamou os filhos, cuidado, mas eles já tiravam a roupa, sem medo, o leopardo tão perto. Quero lá saber. Tirou os sacos da mala do carro, chapéu-de-sol, olhou outra vez, os miúdos a correr para a água, o grande felino deitado, a bocejar sol, a vontade de chamar os filhos, arrumar as coisas, voltar para casa. A mulher desceu. A submissão pôde mais do que o medo e Orlando avançou, deu tempo para que o leopardo desaparecesse, fantasma, mas o leopardo permanecia, estátua, e Orlando, líquido, suava. Irene. Leva as coisas. Preciso de um café. Irene já nem estranhava. Foi ter com os filhos e, Orlando bem a viu, sentou-se ao lado do leopardo, acariciou-o, fêmea, lânguida. Era tudo complexo e azul. Havia um café ali perto, mas Orlando continuou. Centenas de pessoas. Toalhas, o odor enjoativo a creme, sal. Sempre em frente. Orlando podia caminhar o dia todo que não chegaria ao fim. Uma extensão interminável de areia semeada de crianças, uma avioneta a rasar a água, tão azul, tudo tão azul e outra vez o leopardo, à beira-mar, Orlando à distância. Um belo animal, pensou, sem dúvida, real, soberano, desviava-se das pessoas com uma elegância racional, milimétrica, infalível. Orlando tirou os sapatos, depois a camisola, as calças, finalmente. Pousou tudo e continuou a andar, mas já não via o leopardo. Olhou para trás, a mulher e os filhos, nevoeiro, nada. Prosseguiu. Pessoas a rarear, mais mar, mais céu e o leopardo, agora à frente, uns vinte passos, a indicar-lhe o caminho, as pegadas desapareciam. Estava longe, longe. Correu atrás do leopardo. Sabia, porém, que nunca o iria alcançar, por muito que corresse. Exausto. Caiu de costas, o céu. Fechou os olhos, o leopardo. As mãos enterraram-se na areia, uma concha, em leque, aquele era um dia de praia. Azul.

link do postPor Bruno Vieira Amaral, às 12:27  ver comentários (2) comentar

9.7.10

Já começou a segunda edição do Festival Erótico Medieval. A ginasta vaginal Sonia Baby é uma das atracções do evento.

link do postPor Bruno Vieira Amaral, às 13:12  comentar

5.7.10

Elza, a Garota: a história da jovem comunista que o Partido matou, Sérgio Rodrigues, Quetzal

 

“É algo difícil de explicar para uma pessoa do século XXI, essa gente que está sempre pronta a matar ou morrer por uma briguinha de trânsito, mas jamais por suas idéias.” P. 47

 

 

O brasileiro Sérgio Rodrigues cruza investigação jornalística e ficção partindo de um caso verídico: o assassínio, nos anos 30, da amante do secretário-geral do Partido Comunista Brasileiro por decisão da cúpula partidária. O sensacionalismo fica todo no subtítulo, “a história da jovem comunista que o Partido matou”. A história de Elza e as circunstâncias macabras da sua morte são o chamariz que nos atrai para os territórios mais complexos da verdade histórica, da construção dos mitos e de como os homens se servem da memória para expiarem os seus pecados. Não é por acaso que a citação que abre o livro é retirada de Expiação, de Ian McEwan.

 

A narrativa desenvolve-se em dois planos: o ficcional e o da pesquisa histórica sobre a morte de Elza, levada a cabo pelo autor. Neste plano, Sérgio Rodrigues procura responder a uma questão simples: quem era aquela menina de dezasseis anos? Traidora para os comunistas, mártir para a propaganda anti-comunista, a verdadeira Elza perdeu-se no confronto entre as suas versões míticas e contraditórias. A conclusão de Sérgio Rodrigues é que Elza, ingénua e analfabeta, foi uma vítima acidental do turbilhão político que se seguiu à insurreição falhada dos comunistas, em 1935. No segmento ficcional, Molina, um jornalista em decadência, é contratado por um velho comunista para lhe escrever as memórias. Durante semanas, Molina grava os relatos de Xerxes. Enredado na teia fascinante urdida pelo velho, o jornalista deixa “de levar em conta os sinais de que nem tudo era o que parecia ser.” No final, Molina percebe que as memórias de Xerxes não estão ao serviço da História, mas da história pessoal daquele homem. Memória e representação são meros instrumentos de um processo íntimo de expiação.

 

O livro renega com igual intensidade o preto-e-branco ideológico do século XX e o relativismo “viscoso” que transforma tudo “em matéria pastosa de comédia.” A verdade está algures no meio dos mitos e de documentos falsificados, de doppelgängers e de nomes de código e encontrá-la é quase tão difícil como reparar os erros através de uma narrativa. Mas, como nos lembra a citação de McEwan, “a tentativa era tudo.”

link do postPor Bruno Vieira Amaral, às 14:29  comentar

3.7.10

Baptizaram-no Diógenes. Assim, fácil, sem antecedentes familiares, sem padrinho homónimo, alguém se lembrou, impossível averiguar quem e em que estado etílico, gritou “Diógenes” e Diógenes ficou, contra a vontade muda da mãe, a indiferença tácita do pai e a reprovação do avô, que era muita mas toda de aguardente e pouca de desacordo onomástico ou de interesse pelo neto que, por ser o décimo-quarto, embora em fealdade ocupasse lugar mais cimeiro, não suscitou entusiasmos. Diógenes nasceu completo de dedos, motivo de suspiros de alívio mais do que contentamentos. Outros indícios não escaparam ao escrutínio de uma vizinha, mulher de virtude, especialista em prever acontecimentos nefastos em borras de café e no determinar de futuros pelo olhar da criança aos quinze dias. O olhar aparvalhado do pequeno Diógenes dispensava os augúrios da velha que, no entanto, fez questão de decretar o diagnóstico, “Vai ser burro até à cova!” Chorou copiosamente a mãe, que não havia filho que parisse que não tivesse moléstia ou fraqueza de entendimento; o pai, desconfiado da autoria de prole tão modesta, jurou que aquele não havia de conhecer escola, nem letras, nem números, pois não era de razão desperdiçar recursos com rebento tão aziago; o avô permaneceu no silêncio de bagaço, expelindo ocasionais “ora”, sem que ninguém lhe ligasse muito. O resto da descendência ignorava o benjamim como ignorava quase tudo. Eram treze, todos entretidos em judiarias e em toda a sorte de actividades denunciadoras da debilidade de intelecto. Eram muitos e todos estúpidos. Haveria Diógenes de ser diferente? Mas foi. Cresceu silencioso, moderado e à sombra do avô, que lhe começou a ganhar estima quando a criança balbuciou a primeira palavra, um avoengo “ora”, o que inculcou na mãe o temor que, para além de mais estúpido do que os demais, o ultimogénito viesse a ser tão bêbado como o avô. Quando Diógenes entrou em idade escolar, a ameaça do pai cumpriu-se e a criança não sofreu aprendizagens canónicas. Verdade seja dita que, por esta altura, Diógenes aprendera a ler sem que ninguém soubesse como. O suspeito natural era o avô, mas tinha o álibi de um extenso analfabetismo. A vizinha sibilina, a quem os anos tinham diminuído o acerto mas não o atrevimento, aventou o mancomunamento da criança com o demónio, criatura sempre atenta às almas mais fracas. O avô, cansado dos palpites da vizinha, agarrou-a, sacudiu-a e disse-lhe para não voltar a pôr os pés naquela casa enquanto não conseguisse guardar a língua na boca. O tempo de a velha se recompor da turbulência foi o tempo que demorou a aparecer a notícia de que também o velho teria vendido a alma ao diabo a troco da sapiência do neto. A mãe de Diógenes já não pôde testemunhar estes sucessos, porque dois anos após o nascimento do filho, aproveitou a boleia de um vendedor de roupas que por ali passava amiúde para nunca mais se lhe saber o paradeiro. Tamanha fortuna satisfez o marido, que familiarizava muito com a ideia de uxoricídio e que, desde esse dia, gozou o proveito sem ter outra fama que não a de corno, um mal que suportava com alegria e desenfado. Os filhos lá iam crescendo, sem cuidados de maior, salvo uma ou outra constipação, uma otite mais teimosa e as cáries cruelmente expostas pelos risos idiotas. Andavam todos juntos, grande bando de pássaros, guinchos e crocitos ouviam-se ao longe, anunciando-os com antecedência. Não eram maldosos, não lhes chegava a inteligência para tanto, mas eram temidos por serem muitos e trazerem com eles desordem e desassossego. Diógenes não os acompanhava. O avô não queria e o pequeno habituou-se à solidão velada pelo velho, cada vez mais desabituado da bebida e mais dedicado ao neto, descobrindo afectos soterrados por anos de álcool e pelo ruído de uma multidão de macacos que trepavam à exígua mobília, atacavam a comida como uma matilha de cães esfaimados, relinchavam infância e falta de educação. Através do neto mais novo reaproximou-se da humanidade, conseguia vê-lo como um ser único, um indivíduo. Conseguira extraí-lo daquele corpo multicéfalo. Não tendo amor suficiente para aquelas crianças todas, cujos nomes desconhecia, isolou uma para a poder pensar como alguém, e até o nome, que despachara com o habitual “ora”, soava-lhe adequado e insubstituível. A criança respondeu a esse afecto único, com todos os seus sentimentos, com a entrega pura e ilimitada de que só as crianças e os loucos são capazes. O avô era tudo, uma árvore magnífica, uma rocha antiga e inabalável, salvo a tremura das mãos à conta de uma vida de bagaceiras ruins. Certo dia, naquele tempo em já se esgotara o crédito de alegria pela ausência da mulher, o pai, intrigado pela proximidade de avô e neto, quis pôr à prova os laços que os uniam. Insistia, maldizia o avô, procurava criar dissensão, destruir o oásis de amizade no deserto de afectos. Diógenes olhava-o sem espanto e sem inocência, antes comiserado, doído de um pai amargo. Como a criança se recusasse a trair o avô, a embarcar na corrente de ódio, a mão do pai levantou-se para lhe cair com toda a fúria e frustração nas faces, nos braços, nas costas. Quando o violento turbilhão de rancor se acalmou, cansado de não ver na cara do filho as lágrimas esperadas, a criança imune ao vírus do ressentimento, os olhos magnânimos, “perdoo-te, pai, pois não sabes o que fazes”, o pai sentou-se, exaurido, e viu a figura do velho avançar para a criança, a ancestral firmeza dos braços recuperada. O avô pegou o neto ao colo, os braços da criança enlearam-lhe o pescoço, as mãos miúdas e suaves na pele rugosa, como os veios de um rio que secou, os nós de uma árvore que dura, e essa união fundamental e incompreensível entre dois seres envergonhou o pai, que se levantou num vagar imbecil e estuporado e foi para a rua associar-se aos cães que o igualavam em magreza mas que o superavam em discernimento. Os anos passaram-se. Os irmãos de Diógenes partiram para o mundo, cada qual ao encontro da desgraça que lhe estava destinada, até que não sobrou nenhum e o silêncio tomou conta da casa. A criança fez-se homem, o velho fez-se mais velho, o pai fez-se fantasma. Diógenes cuidava do avô, limpava-lhe as chagas do corpo, dava-lhe à boca a sopa que o velho aceitava em sorvos de passarinho, fazia-lhe a barba com paciência, contava-lhe o que o dia lhe trouxera e que os olhos do avô já não podiam ver, lia-lhe histórias de vidas em terras longínquas, do cavaleiro de figura triste ou do homem tão sábio que nunca escrevera uma única palavra, e o avô, no pasmo infantil da velhice, lembrava-se de toda essa gente, garantia que os conhecera a todos, que noutra vida e noutro tempo tivera a fortuna da amizade daqueles homens sobre os quais agora se contavam histórias. Então, sossegava. Ficava numa mudez assertiva, como se negociasse com a morte. “Ninguém há-de contar a minha história”. E Diógenes passava-lhe a mão pelo cabelo ralo, a testa coberta por uma película de água, a pele frágil que mal protegia o crânio de porcelana. Beijava-o. Naquela manhã, a primavera entrou pela casa com o cheiro forte da relva cortada e da madeira batida pelo sol. Diógenes acordou mas tardou a levantar-se. Quando o fez, chegou-se à porta do quarto do avô mas não entrou. Esperava ouvir-lhe a respiração débil. Encostou o ouvido à porta mas não se ouvia nada. Empurrou a medo a porta, receoso da verdade que o esperava. Quando entrou, viu a cama vazia. Olhou em volta e não havia nada. Nem roupas, nem fotografias, nem sequer a lâmina e o pincel da barba. Diógenes correu para a rua. Ninguém. Só cães estendidos ao sol, à espera do meio-dia.

link do postPor Bruno Vieira Amaral, às 13:08  ver comentários (2) comentar

 
mais sobre mim
Julho 2010
D
S
T
Q
Q
S
S

1
2
3

4
5
6
7
8
9
10

11
12
14
15
16
17

18
19
21
22
23
24

25
26
27
29
30


Sitemeter
subscrever feeds
blogs SAPO