"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos
29.10.10

O anúncio falava de uma empresa de ambiente jovem, informal e descontraído. Procurava pessoas enérgicas e criativas. Assustei-me com a ideia de trabalhar ao lado de maratonistas do brainstorming, capazes de aguentar horas a despejar ideias com aquele ritmo imperturbável e quase autista dos corredores de fundo quenianos. Também pensei que me podiam calhar sprinters da criatividade, daqueles com cérebros anabolizados que atiram hebdomadariamente uma ideia genial para logo se recolherem num estado meio abúlico e distante. Pedi ao meu corpo e ao meu espírito que me proporcionassem a energia e a criatividade que tantas vezes me tinham abandonado à sorte da minha retórica. O ramo de actividade era incerto. Creio que estava relacionado com toques de telemóvel ou serviços de valor acrescentado. Imaginei um escritório colorido onde os papéis, carimbos e agrafadores tinham dado lugar a ideias que circulavam, impúdicas, de um jovem recém-licenciado para outro. Imaginei os meus futuros colegas a inalar o fumo sagrado da criatividade numa orgia de irreverência, juventude e do ânimo vigoroso que possui os trabalhadores que ingenuamente se dizem “realizados” ou fascinados com um inesperado seguro de saúde ou substanciais ajudas de custo. Enfim, imaginei um ambiente febril de pulsão sexual mal direccionada.

 

No dia da entrevista choveu muito. Apresentei-me sem gravata mas com um chapéu-de-chuva preto, o único que eu tinha, que me fazia menos enérgico e menos criativo do que o exigido. Aquele artefacto, que só devia servir para me proteger da chuva, lançou sobre mim uma nuvem de formalidade grotesca. Talvez as pessoas criativas e enérgicas não se importem de apanhar chuva, distraídas que estão a amamentar ideias revolucionárias. Eu, educado por uma avó para quem o guarda-chuva era quase um amuleto religioso, prefiro chegar seco e decente a uma entrevista, embora correndo o risco de parecer demasiado engomado. Tudo menos a pneumonia que a minha avó brandia como uma espada sobre a minha cabeça. Não restem dúvidas: naquele dia, com aquele guarda-chuva, eu estava muito velho. Mandaram-me entrar num gabinete. Sentei-me sem saber onde pôr o guarda-chuva. Acomodei-o entre o meu braço e o da cadeira e aguardei que me viessem entrevistar. Chegaram duas senhoras informais e eu levantei-me apressadamente deixando cair o guarda-chuva. Um puro reflexo cerebral fez-me ver as parecenças do guarda-chuva com uma bengala. As senhoras olharam-me como se no chão não estivesse um guarda-chuva mas o meu braço direito ou um cão-guia subitamente fulminado por um ataque cardíaco. A minha experiência social é limitada. Tenho um amigo preto e outro com uma deficiência motora. Creio que já falei com um comunista. As duas entrevistadoras pareceram-me lésbicas, mas reconheço que é uma opinião sustentada por anos de consumo de pornografia e dois ensaios de Susan Sontag. Fizeram-me perguntas e eu respondi. Falei sobre a minha experiência profissional (segurança, gerente de uma bomba de gasolina) e os olhares desconfiados das entrevistadoras, fufas d’um cabrão, logo adquiriram um brilhozinho sarcástico, os lábios retorcidos, as mãos a revirar o curriculum cinzento, outra vez o guarda-chuva em equilíbrio precário. Pediram-me para descrever em inglês uma viagem que tivesse feito ao estrangeiro. Enrolei-me em trips, journeys e, desconfio, voyages, a Barcelona, I went to the Picasso Museum, I saw A Sagrada Família e o caralho, isto enquanto dava um jeito ao guarda-chuva, não fosse ele cair com redobrado estrépito e atrapalhar a narração gaguejante da minha aventura turística. Rematei com um I enjoyed a lot suado, francamente débil. As fufas estavam claramente a divertir-se. “Diz aqui que gosta de escrever”, atirou uma delas enquanto a outra olhava para mim, cúmplice das palavras (a velha história do good cop, bad cop, versão dykes on bikes). Mesmo em empresas enérgicas e criativas, quando alguém descobre que escrevemos, o melhor que pensa de nós é que somos malucos. Num quadro favorável a coisa pode evoluir para a compaixão cristã. Normalmente, estagna num desprezo sobranceiro. Como posso esquecer o bom professor de História Contemporânea que me perguntou paternal, jdanovista e retoricamente “você escreve uns poemas, não é verdade?”. O bom professor a fazer dos meus maus hábitos poéticos um canudo e a enfiar-mo recto acima. E lá estava eu outra vez: “Então, o menino gosta de escrever umas coisas, não é?” Sai-se a fufa d’um cabrão com “Mas escreve o quê? É tipo um diário?” E riram alarvemente o riso enérgico e criativo das fufas que nas empresas enérgicas e criativas são responsáveis pelo recrutamento de gente enérgica, criativa e sem chapéus-de-chuva. Cona da minha mãe, por que me pariste cobarde? Fiquei ali a explicar-me, a ruminar justificações como se houvesse ali alguém interessado em obter aquela informação. A entrevista acabou. Despedi-me desmesuradamente, quase agradecido por tamanha humilhação, um verme. Quando saí do edifício, uma chuvinha chuvinhava. O guarda-chuva ficara para trás e para trás ficou, como o soldado dispensável de um exército escorraçado. O exército era eu.

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24.10.10

Publicado no i

 

Imagine uma frase na qual só é permitido utilizar uma vogal (univocalismo) ou duas vogais (bivocalismo). Imagine uma frase em que nenhuma letra se repete (heterograma). Por fim, imagine um romance em que a letra E não aparece uma única vez. A estas regras, mais próximas da matemática e das revistas de charadas do que da literatura, os membros da OuLiPo chamavam constrangimentos. O grupo incluía escritores como Ítalo Calvino, Raymond Queneau e Georges Perec (1936 – 1982), autor de La Disparition - o famoso romance sem a letra E - e também deste exercício, A Arte e o Modo de Abordar o Seu Chefe de Serviço para lhe Pedir Um Aumento. Neste caso, o constrangimento é um organigrama (apresentado no início do livro) que contém todas as variáveis da abordagem a um chefe.

 

O objectivo de Perec era o de transpor esse organigrama para um texto linear, sem abdicar de um idêntico rigor formal. Para tanto, prescindiu da pontuação e reduziu as personagens a símbolos de uma equação (X, Y, W). A tensão humana expectável numa situação semelhante à descrita no título não existe. Tudo o que há no texto para ser admirado está na forma, na lógica binária e labiríntica (a estrutura do organigrama assemelha-se à de um labirinto) e só não podia ter sido escrito por um computador porque Perec sabota a arquitectura formal inserindo “bugs” de humanidade: Mmlle. Y é Mmle. Yollande e a empresa que, no início, é descrita de forma neutra (“a organização onde trabalha”) passa a ser mostrada em tons sarcásticos (“organização que o explora” ou “organização da qual não é um dos elementos mais brilhantes”).

 

É apenas nestes momentos que o texto se humaniza e passa a ser mais do que um exercício lúdico. O resultado final é, no entanto, uma espécie de para-literatura, misto de charada, matemática e escapismo. O constrangimento - que mais do que um ponto de partida é o verdadeiro tema desta obra - é um colete-de-forças que o escritor se auto-impõe com o intuito de impressionar o leitor com o engenho técnico necessário à fuga. O autor pode sair ileso, mas a literatura é prensada até adquirir a forma de um problema de palavras cruzadas: quadrado e impessoal.

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19.10.10

Há dias, enquanto os solavancos do autocarro transformavam a leitura de um livro de Georges Perec num duplo desafio gráfico, uma senhora contava como inadvertidamente engolira os pontos após a extracção de um dente. Histórias como esta são comuns. As pessoas gostam de partilhar com os outros as suas experiências clínicas, TACs (“uma TAC, não é um TAC”, ouvi de uma senhora preocupada com a precisão do artigo indefinido), endoscopias, colonoscopias, anestesias, pólipos, nódulos, traumatismos, diagnósticos, são palavras que flutuam na atmosfera eléctrica dos transportes públicos. Ao fim de treze anos de frequência diária, qualquer pessoa minimamente atenta está habilitada a realizar pequenas cirurgias, a receitar medicamentos e, com alguma dedicação, a passar credenciais. O programa Novas Oportunidades podia recrutar futuros médicos à saída do terminal rodo-ferro-fluvial do Barreiro. Não sei se é legítima a utilização deste material enquanto pasto para post. Desconheço se nós, utilizadores dos transportes públicos (não por consciência ecológica), estamos sujeitos a um código deontológico ou ao sigilo amador (profissionais são os padres, os médicos, os advogados e as empregadas de limpeza), mas suspeito que não. Não é a mim que aquelas pessoas se dirigem, embora em muitas se note o prazer da multiplicação da audiência – falam ao telemóvel ou com a vizinha do lado, mas também para essa entidade abstracta e tangível constituída pelos ocupantes de um autocarro, receptores involuntários desta estranha forma de confissão moderna. Somos um coro trágico e suburbano que, em vez de advertir, é advertido: tenham cuidado com os dentistas! A adequada lavagem do intestino é essencial para uma colonoscopia bem sucedida! Os talões de desconto do minipreço só podem ser utilizados na loja em que registaram o cartão! Etc. As vidas dos outros impõem-se-nos. Não podemos protestar porque, afinal, se não queremos ouvir tapamos os ouvidos. Então, é preferível fazer do que ouvimos uma novela radiofónica com personagens que vão mudando de dia para dia, mas cujas histórias, se nos dermos ao trabalho de as unir com um fio narrativo, têm uma unidade dramática que nos surpreende pela coerência: a senhora que ontem engoliu os pontos é a mesma senhora que amanhã há-de queixar-se dos uivos do cão dos vizinhos é a mesma que há duas semanas teve uma discussão com a colega de trabalho é a mesma que há dois meses sofria enxaquecas pavorosas é o rapaz que, caloiro na faculdade, diz querer alargar os seus conhecimentos musicais e que vai diversificar os gostos, numa manifestação de crença na evolução cultural do indivíduo, como aquelas pessoas que culpam a exígua biblioteca dos pais pela sua anorexia literária e que chegam aos trinta a fazer planos de leitura dos clássicos, em jeito de dieta para a engorda (cf. Robert de Niro em Raging Bull), etc.

 

 

 

Não creio que tudo isto se possa atribuir à falta de pudor ou ao ainda incipiente (em termos macro-históricos) contacto com as novas tecnologias que faz com que algumas pessoas quando falam ao telemóvel sejam inconscientemente transportadas para o quarto fechado da adolescência de onde faziam chamadas nos velhos telefones de disco. Há o rebento tímido de um pedido de simpatia que quando chega a flor é já um grito desesperado por atenção. Ali, nos bancos onde a chuva cai como lá fora, é só esse murmúrio, o estender de um laço de cumplicidade como quem diz “Vá lá, também tu sabes o que é isto, também tu és humano, também tu hás-de engolir os pontos”, e nós vamos e juntamo-nos à grande família da humanidade com o espanto e o orgulho da criança admitida na mesa dos adultos e à frente de quem o Tio Manel não tem pejo em dizer asneiras “queres lá ver que ele não sabe o que é isso?”, então não sei, c’um caralho, sei tudo, sou um de vós, partilhem as vossas intimidades, as doenças da barriga, falem-me de ovários, de tripas, de cancros na pila, de chagas na glande à conta dos serviços pouco higiénicos de uma femme de joie, eu sou um de vós. Percebem? Não é falta de pudor, é um convite para meter os papéis de sócio desse grande clube que é a humanidade, a jóia é uma historinha idêntica, todos nós temos uma desgraça não particularmente trágica que é o salvo-conduto nesta viagem de autocarro, conte-nos a sua, não se arme em fino, o senhor também se peida, lá vem o marxismo popular que nos diz que quando os ricos cagam também cheira mal. Não é falta de pudor - como fazer a hierarquia da intimidade? É mais íntimo o hemorroidal ou uma discussão com o chefe? O cliente que foi um ordinário ou um fungo na planta do pé? A loiça que não se lavou ou o hotel das férias de verão? A comida que o marido devora ou o pouco que o marido fode? Somos todos iguais – eis o que se descobre nos autocarros – um igualitarismo rodoviário, co-financiado pelo Estado, não vale a pena simular enjoos perante o que se ouve, a pornografia da alma é uma grande conquista das nossas sociedades, todos nus e de mãos dadas num reality-show ininterrupto – esta semana Vasquinho fica sem a mesada, o Dr. Onofre rebenta o cu da recepcionista em horário pós-laboral, o gajo do rés-do-chão farta-se de ouvir berlindes no andar de cima e despacha o vizinho com um tiro de caçadeira, o mini-mercado abre para a semana, há baratas nas imediações dos esgotos e muita merda de cão nos passeios, o filho da Cesaltina casa-se na semana que vem, a filha da Cesaltina divorciou-se na semana passada, a Cesaltina há-de matar-se um dia destes – e o autocarro lá vai, lá vai, teatro ambulante, lá vai, lá vai, senhoras e senhores, humani nihil alienum.

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17.10.10
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Esta noite sonhei com Michael Landon. O sonho apanhou-me no meio de uma estrada, a muitos quilómetros da povoação mais próxima, que era Idanha-a-Nova, Wichita ou uma terreola lá em Minas. De repente, como habitualmente acontece nos sonhos, Michael Landon estava ao meu lado e assobiava a música do Dallas. Reconheci-o logo. Tinha aquela cara de genérico, a cara de um gajo que consumiu muita erva na primeira juventude e que, apesar de ter abandonado o consumo há muitos anos, nunca perdeu as feições que evocam bondade monástica e longos períodos de inconsciência.

 

 

- gruf n’gruf argnuf vonurf. Trignurf? – perguntou-me

 

- Palavras sábias – respondi eu. Mas o casaco é da minha prima que se vai casar amanhã.

 

Entretanto, comecei a assobiar a música do genérico de Um Anjo na Terra e perguntei ao Landon se ele era da opinião que a série mais não era do que o Kung-Fu para entrevados. Nesta altura já estávamos acompanhados de Victor French e foi este que, enquanto tirava bocados de laranja e periquitos da barba, disse:

 

- Michael Landon é a antítese de David Carradine e nada melhor do que comparar as respectivas mortes. Landon sucumbiu adequadamente a um cancro, enquanto Carradine foi desta para melhor na sequência de uma tentativa de masturbação só ao alcance de mestres de Shaolin ou de artistas do Cirque du Soleil. 

 

Para nos proteger de uma tempestade, Landon criou um escudo invisível à nossa volta.

 

- Não me lembrava que tinhas estes super-poderes. Pensei que neutralizavas os inimigos através do uso de parábolas, projectando-os para uma dimensão de culpa, arrependimento e redenção mesmo a tempo de acabar o episódio.

 

De um momento para o outro estávamos na cave de um edifício governamental em vídeo-conferência com Devon Miles e Pete Thornton. Primeiro ponto: Devon Miles consegue ser mais gay do que uma canção de Noel Coward. Miles não é credível enquanto chefe de uma organização, a não ser que sejamos capazes de conceber uma organização liderada por um actor do West End que não tivesse tempo para tirar toda a maquilhagem.

 

 

Pete Thornton é um afável burocrata, risonho e rotundo, cuja função consiste em arranjar bilhetes de avião para MacGyver se deslocar a ditaduras imaginárias. No meu sonho estavam a jogar à sardinha. Acordei com o meu vizinho do segundo andar a cantar “My Way”.

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13.10.10

Ok, ok, David Foster Wallace cai, não raras vezes, numa espécie de barroquismo pós-moderno que visa unicamente um efeito cómico e que nos distrai do essencial (partindo do princípio que o essencial não é a exibição do barroquismo pós-moderno). Concedo. No entanto, a recensão à biografia de Dostoievski, de Joseph Frank, tem isto:

 

“These and so many other FMD creatures are alive – retain what Frank calls their «immense vitality» - not because they’re just skillfully drawn types or facets of human beings but because, acting within plausible and morally compelling plots, they dramatize the profoundest parts of all humans, the parts most conflicted, most serious –the ones with the most at stake.”

 

Mais:

 

“He [o russo] wrote fiction about identity, moral value, death, will, sexual vs. spiritual love, greed, freedom, obsession, reason, faith, suicide. And he did it without ever reducing his characters to mouthpieces or his books to tracts.

 

Inspirar. Aqui vamos nós:

 

“The big thing that makes Dostoevsky invaluable for american readers and writers is that he appears to possess degrees of passion, conviction, and engagement with deep moral issues that we – here, today – cannot or do not permit ourselves. [...] Upon his finishing Frank’s books, though, I think that any serious American reader/writer will find himself driven to think hard about what exactly it is that makes many of the novelists of our own place and time look so thematically shallow and lightweight, so morally impoverished, in comparison to Gogol or Dostoevsky (or even to lesser lights like Lermontov and Turguenev). Frank’s bio prompts us to ask ourselves why we seem to require of our art an ironic distance from deep convictions or desperate questions, so that contemporary writers have to either make jokes of them or else try to work them in under cover of some formal trick like intertextual quotation or incongruous juxtaposition, sticking the real urgent stuff inside asteriks as part of some multivalent defamiliarization-flourish or some such shit. [...] The good old modernists, among their other accomplishments, elevated aesthetics to the level of ethics – maybe even metaphysics – and Serious Novels after Joyce tend to be valued and studied mainly for their formal ingenuity. Such is the modernist legacy that we now presume as a matter of course that «serious» literature will be aesthetically distanced from real lived life. Add to this the requirement of textual self-consciousness imposed by post-modernism and literary theory, and it’s probably fair to say that Dostoevsky et al. were free of certain cultural expectations that severely constrain our own novelists’ ability to be serious.”

 

Como é que alguém que é apresentado na capa do livro como “The heir apparent to Thomas Pynchon” escreve uma coisa destas, em choque com tudo o que de sagrado há no pós-modernismo? David Foster Wallace suicidou-se em 2008.

 

Consider the Lobster And Other Essays, Abacus, 2005

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Se David Foster Wallace fosse um escritor português teria ido ao Festival do Caracol, em Loures.

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12.10.10

Onde se relata a baixa de Miss Novak e o aparecimento de Miss Ringwald; onde se fala da política de recursos humanos da organização e da propensão das estagiárias para certas práticas.

 

 

Miss Novak meteu baixa. Apanhou-me de surpresa, é verdade, mas quando alguém tenta enfiar a edição da Penguin de Moby Dick pela goela de um funcionário da Fnac temos de admitir que se trata de algo mais grave do que uma simples insatisfação na óptica do cliente. O rapaz está bem, embora com alguma dificuldade em mastigar e em pronunciar o nome de Herman Melville. A organização desaprova o uso de violência por parte dos seus funcionários, mesmo em privado. No exercício das nossas funções apenas estamos autorizados a utilizar a violência estritamente necessária para conseguir os nossos objectivos, o que pode implicar, em algumas situações extremas, passar repetidamente com um tractor por cima de um empresário sérvio ou privar um deputado eslovaco de uma parte considerável da sua dentição com recurso a um alicate ou uma chave inglesa. O muito eficiente departamento de recursos humanos já encaminhou Miss Novak para o designado PAR (Programa Avançado de Reciclagem), que inclui sessões de aromaterapia, o visionamento esporádico do canal myzen e acções de voluntariado no Banco Alimentar contra a Fome e em instituições tipo Ajuda de Berço. Entretanto, e enquanto Miss Novak não estiver apta, terei de ficar em Lisboa para acompanhar o processo de formação de uma estagiária, Miss Ringwald, cujo nome revela o desnorte de alguns sectores da nossa organização. Apesar de me ter sido apresentada ontem, estou em condições de afirmar que Miss Ringwald é ambidestra e ruiva natural. É uma rapariga curiosa, licenciada em Ciências da Comunicação pela Universidade Nova, embora suficientemente prudente para não falar sobre semiótica enquanto eu lhe tento explicar a diferença entre uma gravata colombiana, um colete basco e uma luva siciliana.* Não fiquei com má impressão de Miss Ringwald, mas não consigo deixar de pensar em Miss Novak, no seu carácter felino, na sua agressividade latente, na frontalidade com que desencoraja os meus avanços, no seu rabo perfeito e na forma como é capaz de dominar dois guarda-costas búlgaros sem sequer transpirar. Adivinham-se tempos difíceis, que só a irreprimível tendência de Miss Ringwald para a prática do fellatio poderá atenuar.

 

 

* colete basco e luva siciliana são termos exclusivos da nossa organização e encontram-se protegidos pelos direitos de autor de acordo com as leis em vigor na União Europeia. Aos fanáticos do detalhe, informo que o colete basco é uma constrição simples e a luva siciliana consiste em cortar a parte final do braço, onde habitualmente se encontram os dedos.

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10.10.10

Versão alargada da recensão publicada no i

 

Podemos ler Milagrário Pessoal, de José Eduardo Agualusa, como ensaio em fato de romance sobre a língua portuguesa, história de amor senil (o dos velhos é o verdadeiro amor senil) ou louvor das palavras de que se fazem as línguas. “Palavras fazem misérias / inclusive músicas”, cantou (ou assobiou) o poeta-pássaro Manoel de Barros, a quem o novo romance de José Eduardo Agualusa muito deve. As palavras têm poder, as palavras são poder. Neste romance, a associação entre palavras e magia é frequente: dos povos que ainda acreditam na sua natureza mágica (p. 72) aos poetas que tentam devolver às palavras o “seu brilho antigo”, a sua magia (p. 88). O realismo mágico, que também há por aqui, é consequência da magia do verbo. As palavras e as línguas não são apenas razão, logos, têm uma carga telúrica, são a topografia verbal de um povo, ideia expressa na profecia segundo a qual os angolanos haveriam de falar “um português próspero, redondo e musical”, onde se ouviria o largo rumor do Cuanza [...], o colorido piar de suas muitas aves, o silvo do vento soprando húmido por entre o capinzal.” (p. 33).

 

Palavras também são poder, política no sentido mais lato. Podem significar insubmissão, como no caso do timorense que declamava sonetos de Camões. Podem siginificar afirmação nacionalista, como no caso das elites brasileiras que passaram a utilizar apelidos de origem tupi. Podem significar subversão, como o colonizado que pretende colonizar a língua do colonizador para assim o dominar.

 

As palavras estão no centro da intriga. Iara é uma linguista que estuda o aparecimento de neologismos na língua portuguesa para os dicionarizar. Quando, numa única semana, surgem vinte e três neologismos em várias publicações, pede auxílio a um ex-professor - o narrador do livro - um octogenário anarquista angolano. Os dois lançam-se numa busca quase danbrownesca e com uma pitada de O Pêndulo de Foucault, que os leva de Lisboa a Olinda. Uma trama que serve para vestir o fato de romance ao material ensaístico (ver o décimo primeiro capítulo) e que, dada a sua natureza flexível, permite a Agualusa o já habitual exercício em vários registos do idioma (segundo e quarto capítulos como os melhores exemplos).

 

Com a atenção que dedica aos neologismos, Milagrário Pessoal é veículo para a ideia da língua enquanto ser de uma inteligência orgânica que rejeita as palavras que o adoecem e assimila as que o retemperam. Como se à língua não se pudessem impor palavras, como se estas apenas estivessem à espera de quem as colhesse. O livro homenageia alguns dos colectores subversivos – porque a mais radical das subversões é “a de melhorar uma civilização sofisticando o seu idioma” (p. 22) – da língua portuguesa: Guimarães Rosa, Manoel de Barros, Luandino Vieira e Mia Couto. Agualusa não se junta ao bando como companheiro de viagem, optando por guardar a distância defensiva do ornitólogo que observa os poetas-pássaro em acção. O autor agradece-lhes a afinação da ferramenta com que constrói os seus romances. Um utensílio que é também, e cada vez mais, o tema central da obra de Agualusa.

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7.10.10

Cedi à barbárie, como sói acontecer sempre que a oportunidade se me oferece, e sintonizei o novo e polémico reality-show da TVI, A Casa dos Segredos. Uma das coisas mais interessantes no primeiro Big Brother, e dez anos depois já ninguém leva a mal que o reconheçamos, era ver nos concorrentes os efeitos da reclusão e do tédio, a atmosfera progressivamente rarefeita que culminou em fúrias espontâneas, pontapés politicamente incorrectos e uma estranha forma de sexo ocultada sob edredons da moviflor. Agora, fala-se da perda da inocência dos concorrentes, a profissionalização, a consciência do jogo, sem que ninguém se lembre daqueles senhores que, de seis em seis meses, estavam no 1,2,3, no Casa Cheia e noutros programas do género, acumulando chorudos cheques e um arsenal de incontáveis batedeiras, espremedores e moulinexes que dariam para equipar vários restaurantes de dimensão média. Enfim, podemos olhar com nostalgia para os tempos em que os reality-shows tinham uma aura de inocência, lembrar a pacatez pecuária do Zé Maria e a religiosidade sofrida daquela rapariga que foi excomungada pelos pais e dizer que agora é que o mundo está perdido, agora é que a televisão bateu no fundo e demais apocalipsismos. Percebe-se que a interferência da produção do programa é maior, que os executivos querem sangue, querem muito e querem já! Cada concorrente tem um segredo que os outros tentam descobrir. O segredo de um (que afinal eram dois) deles era a existência de um irmão gémeo. Ainda pensei que a coisa pudesse acabar num thriller ginecológico como no filme do Cronenberg, mas os farsantes foram desmascarados por uma perspicaz concorrente que estranhou a relutância do rapaz em mudar de calções ou qualquer coisa assim. Outro dos concorrentes chorava com saudades do mar, ou talvez fosse do bar, porque não consegui determinar se se tratava de um pescador, de um surfista ou de um alcoólico. “Não te preocupes, o mar (ou o bar) tá lá”, dizia-lhe outro, assegurando-lhe que a malevolência da TVI não iria ao ponto de, aproveitando a ausência dele, acabar com mares ou bares. Entre segredos descobertos e depressões revelados, uma concorrente descobria e revelava as nalgas, passeando-se impudicamente entre os colegas. Ocorreu-me de imediato que tal garupa seria a moeda ideal para aceder aos segredos dos restantes, pelo menos daqueles que não estivessem a chorar a distância do mar ou do bar. Em directo, uma concorrente era massajada mais pelos olhos lúbricos do que pelas mãos hesitantes de um macho a sofrer daquilo a que alguém chamou “síndrome do presidiário”. E as coisas ficaram por aqui. No estúdio, estavam Leonor Poeiras e Pedro Granger, que não sei se podem ser considerados avanços em relação a outros programas mas que certamente não justificam os temores quanto ao fim do mundo, o qual, a acontecer, não surpreenderia o precavido e duplamente cronológico Granger. Resumindo: não vejo que a televisão esteja a descobrir novos fundos onde encalhar, até porque, em questão de minutos, eu próprio seria capaz de conceber dois ou três formatos que seriam uma autêntica fossa das Marianas da história televisiva. Esta opinião não é definitiva posto que ainda não vi a actuação de Júlia Pinheiro, que escribas dignos de confiança garantem ser a performance televisiva mais assustadora desde o fim do telejornal da Manuela Moura Guedes ou de qualquer programa apresentado pelo José Figueiras.

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O Nobel recebeu Vargas Llosa, finalmente!

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5.10.10

No seu ensaio Os Cadernos de Camus (1963), Susan Sontag afirma que “a sua [de Camus] obra, vista unicamente como realização literária, não [é] suficientemente grande para suportar o peso da admiração que os leitores lhe querem tributar” e que o juízo que se faz de Camus “é simultaneamente pessoal, moral e literário”. Sontag reconhece que Camus foi amado como poucos escritores e que a sua morte foi sentida como uma perda pessoal por todo o mundo literário. Enquanto que, para Sontag, Kafka inspirava piedade e temor, Joyce, admiração, Proust e Gide, respeito, Camus era o único que inspirava amor. Que espécie de amor é este? Quais as qualidades de Camus que o fizeram tão amado pelos leitores ainda que Sontag considere que a sua obra se encontra num patamar inferior ao de outros escritores do século XX? A explicação mais óbvia será a personalidade de Camus, o último dos justos, as suas participações cívicas, as suas opiniões políticas, até a sua imagem atraente, cinematográfica. Mas este é um julgamento que projecta na obra as virtudes pessoais do autor e que acaba inevitavelmente na sobrevalorização. Considerando que nem todo o amor que lhe tributaram teria origem nas qualidades pessoais de Camus, é na obra que teremos de encontrar as virtudes morais e literárias que atearam sentimentos que normalmente reservamos para os que nos são próximos. Para Sontag, a causa desse amor é somente moral (no sentido literário) e pouco se deve aos méritos exclusivamente literários. Logo no início do ensaio, coloca Camus no campo dos “maridos” literários, em oposição ao dos amantes. Camus seria amado por oferecer qualidades expectáveis no “marido” e particularmente valorizadas num tempo em que a maior parte dos escritores quer ser o “amante”. É o primeiro dos presentes envenenados de Sontag, porque, recorrendo a uma metáfora burguesa, arruma Camus na prateleira da convenção. E não é inocente que a metáfora jogue com as qualidades pessoais, e com os preconceitos de “marido” e de “amante”. Subtilmente, continuamos no plano das qualidades pessoais, ainda que utilizadas como metáfora para as qualidades literárias. O segundo presente envenenado de Sontag é quando se refere à beleza moral da obra de Camus. É mais um presente envenenado porque Sontag não diz que se trata de uma obra bela e, ao mesmo tempo, moral, mas que a única beleza que lá se encontra é de fundo moral, logo, uma beleza inferior. Para Sontag, a beleza da solução moral proposta (se assim se pode dizer) por Camus está desligada da forma como o escritor expressa a solução, é esteticamente neutra, é uma emanação de bom senso literário, correspondente à ideia mansa de “marido”. No fundo, Sontag considera que Camus falha a excelência literária mas atinge uma espécie de santidade profana que encontrou eco nos leitores mais necessitados de coordenadas espirituais e morais do que de rasgos estéticos (como os do nouveau roman, tão apreciado por Sontag) . Daí que, hoje em dia, seja comum a opinião segundo a qual Camus é um escritor para adolescentes, para leitores à procura de orientação. O consolo moral que os seus livros proporcionam também não é bem visto por uma época em que apenas o consolo estético é admissível. Esta postura é sintetizada por Sontag da seguinte forma: “Partindo das premissas de um niilismo popular, conduz o leitor – unicamente graças ao poder da tranquilidade da sua voz e do seu tom – a conclusões humanistas e humanitárias que de nenhum modo estavam implícitas nas premissas. Este salto ilógico por cima do abismo do niilismo é o dom pelo qual os leitores estão gratos a Camus.” (p. 81) Camus seria, então, mais do que um escritor, um flautista de Hamelin que leva os ratos (os ratos, claro) para fora da cidade, um encantador que no seu tom monocórdico e hipnótico, mas pobre do ponto de vista artístico, seduz as massas. Como no caso do flautista, pouco interessam os seus dotes de intérprete, mas o carácter funcional da música. A frase citada é outro dos presentes envenenados de Sontag. Os adjectivos “popular” e “ilógico”, a forma como passa do “humanismo” para o “humanitarismo”, a tranquilidade da voz e, por fim, a gratidão do leitor para com o escritor: Sontag, de modo gracioso, encosta Camus às cordas de uma espécie de literatura de auto-ajuda sofisticada. A violência vem depois: “Não há em Camus nem arte nem pensamento de altíssima qualidade.” É então que fala da beleza moral. No entanto, para aceitarmos a ideia de uma beleza moral independente da sua expressão estética, teríamos de aceitar a beleza de qualquer obra moral e a fealdade de qualquer livro imoral. O que acontece é que as qualidades estéticas valorizadas por Sontag não se encontram na obra de Camus, e não se podem encontrar nas obras dos “maridos”.

 

O estilo de Camus (a tranquilidade da sua voz) não é apenas o veículo de uma proposição moral, é também uma afirmação estética. A música celineana (e Céline é um óptimo anti-Camus) - o calão, a pontuação epiléptica, as imprecações - é apenas estilo? Como não ver no tumulto linguístico de Céline o pessimismo antropológico, a descrença no homem, a doença do homem, a podridão, a corrupção, a mesquinhez, a falta de esperança? O estilo só serve para transportar a (ou a falta de) moral? Ou é a moral que pede o estilo? Uma coisa é certa: é injusto ver o propósito estético nos gritos e nos urros de Céline e negá-lo na voz serena e nítida de Camus, apenas porque esta nos fala de uma esperança no homem. Falando de uma arte que é pura forma, podemos perguntar-nos como Lukács, citado por George Steiner, se haverá um único compasso de Mozart que exprima um mal intrínseco e, não havendo, em que é que tal diminui a grandeza artística de Mozart. A tranquilidade, a serenidade, a limpidez da prosa de Camus não são uma emanação das virtudes humanas do autor, da mesma forma que a escrita de Céline não é uma ejaculação arbitrária de ódio. São as ferramentas dos respectivos processos artísticos: um que se estriba no rigor e na secura do verbo, outro que os estilhaça.

 

A questão que Sontag nunca coloca de forma aberta, mas que percorre todo o ensaio, é a de saber se ainda é desejável, necessária ou aceitável uma literatura moral; uma literatura, como a de Camus, que proponha o problema moral aos seus leitores. É verdade que, com o tempo, aquilo que é moral corre o risco de ser lido como moralista, a padecer do que Sontag chama de sentenciosidade ou inoportunidade. Porque uma moral é sempre uma resposta ao mundo, um guia nas trevas, um manual de conforto e isto choca com a ideia de uma literatura que nos interroga, que nos provoca, que nos inquieta. Este conforto que a obra de Camus proporciona é precisamente o que incomoda Sontag que vê aí a convenção, o prosaísmo e todas as qualidades burguesas do “marido”: estabilidade, inteligibilidade, generosidade e decência. Esquece-se de que não há no estilo Camus qualquer excesso proselitista, qualquer vocação sermónica. Não há uma vontade de melhorar o leitor, e isso faz toda a diferença porque é o que separa o romance moral do romance moralista. Há um rigoroso controlo da ênfase e da sintaxe. A temperança, a mediocritas, o nunca elevar a voz acima do exigido para se fazer ouvir, o não confundir estridência com razão, o não substituir a convicção pela retórica são opções estéticas onde a firmeza moral se alicerça. Como não admirar a concisão estética, a beleza moral desta frase: “il y a dans les hommes plus de choses à admirer que de choses à mepriser”? Esta frase não pode ser julgada de um ponto de vista meramente literário. A literatura não chega, a arte é insuficiente para tudo o que esta frase nos diz. Não haverá beleza no Sermão do Monte e nos diálogos platónicos? Não são as parábolas de Cristo cristalizações literárias de uma moral? Não é o oferecer a outra face um dos maiores desafios morais na violência filosófica e literária da sua imagem? O que seria então da Antígona, da Odisseia, do Dom Quixote, da Divina Comédia, se apenas as discutíssemos como obras de arte e não como visões do mundo, expressões de uma moral? A resposta à pergunta que abre este parágrafo é que continua a ser necessária uma literatura moral; é dos moralistas que não precisamos. O poder de um livro como A Estrada, de Cormac McCarthy, vem da sua natureza moral. A questão que coloca é próxima do universo da obra de Camus: é possível um comportamento moral num mundo sem Deus e sem esperança? Sontag considera que os imperativos morais propostos por Camus – amor, moderação – eram demasiado genéricos, abstractos e retóricos para os dilemas históricos e metafísicos que enfrentavam. De um ponto de vista filosófico talvez seja assim, mas de um ponto de vista humano, religioso e dramático, não. O amor pode não resolver todos os dilemas, mas é, tal como a solidariedade, um caminho, uma estrada.

 

No seu dicionário filosófico, Fernando Savater confessa o receio de, ao reler Camus, o achar atrasado, ou brando, ou sacristanesco, logo ele, que “foi tão amado.” De seguida, conforta-nos: “Camus não tem uma única ruga. Mais nosso que nunca: mais equânime, mais valente, mais tonificante e lúcido que nunca.” E acrescenta: “Face aos excessos por vezes impiedosos da liberdade que projecta e desfaz, defendeu os valores cálidos da vida que conserva e consola”. A crítica de Sontag dirige-se a este conservadorismo, que politicamente lhe valeu inimizades, e que artisticamente (e que é o que Sontag trata) se manifestava na sua voz também ela cálida, humana, como se do outro lado não estivesse um profeta nem um demagogo, antes o nosso semelhante. Sobre a Peste escreve Savater: “Este grande livro deixa igualmente insatisfeitos os puros estetas e os intransigentes do moralismo, os sublimes da perfeição sem compromissos e os mais preocupados em punir do que em fazer justiça; decepciona sintomaticamente aqueles que exigem a utopia de qualquer absoluto, mas é o mais limpo manifesto de “aqueles a quem basta o homem, e o seu pobre e terrível amor”” (p. 59).

 

Camus sofreu, e continua a sofrer, o facto de ter sido muito lido e muito amado. Outros, como Joyce, Proust, Woolf, Faulkner e, em menor grau, porque mais lidos, Kafka e Borges, beneficiaram do facto de serem menos lidos mas continuamente admirados à distância que separa o crente do altar, que separa o leitor do mistério que não lhe é acessível: quantos dos que não hesitam em falar da genialidade de Joyce, Proust e Woolf leram Ulisses, Em Busca do Tempo Perdido ou As Ondas? A legibilidade de Camus foi o seu grande pecado. Era demasiado acessível para que não fosse treslido, apoucado, menosprezado. Mas os seus livros estão aí, resistem a esse ataque que desdenha da beleza e da moral (e também da beleza moral) simples das suas palavras e das suas ideias. Literariamente, se isolarmos a estética, se isolarmos a literatura da atmosfera moral que respira, temos de reconhecer que outros escritores quebraram regras, foram muito mais longe do que Camus. Mas nenhum outro se aproximou mais do coração do homem, do seu centro moral. Cabe-nos a nós, seus leitores e admiradores, adolescentes de alma, perpetuar a sua voz, demonstrar que continua a fazer sentido, que continuamos a reconhecê-la como nossa, que permanece válida e importante não só na nossa relação com os livros mas na nossa relação com o mundo, na nossa relação com os outros, porque, a partir do momento em que a ouvimos pela primeira vez, inscreve-se no mundo, no mundo onde todos nós somos estrangeiros.

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Como seria bom vê-la comer uma maçã, os dentes de fera cravados na polpa do fruto, um grande pedaço triturado, uma película de sumo a molhar-lhe os lábios, um pássaro pousado no chafariz, só isto, ser Verão assim, todo o Verão no calor insuportável da tarde, na sombra pobre, uma velha a caminhar, os pés arrastados nas três da tarde, os pés líquidos a desfazerem-se nas horas, eu longe da vida real, da realidade dos outros, que caminham sobre uma estrada construída para os seus pés reais, para as suas vidas cheias de certezas e de ar, um emprego, uma rotina rotineira, constante, imparável, como um rio negro de afogados de sorrisos lívidos, peixes estúpidos, uma corrente contínua de lama sem margens, um rio só rio, sem nenhum refúgio, sem gente sólida que nos deite a mão, um emprego, essa âncora, relatórios de vendas, objectivos, o café amargo da máquina, horários, encomendas, guias de remessa, facturas, depósitos, uma chamada a desoras, um problema, uma falha de energia, algo concreto que exige resolução, resolver, agir, acabar uma chamada, fazer outra, Antunes, ouve, vê se me resolves o problema, estamos outra vez sem luz, perdem-se vendas, objectivos, etc., ok, Antunes? Vê lá se me tratas daquilo, pá, os miúdos? Ok, diz-me qualquer coisa depois, grande abraço, Antunes. Antunes, tão real, electricista, homem de coisas concretas, circuitos, botões, filhos, grande Antunes, pá, quem é o Antunes? Sabias que o Antunes teve um acidente, é verdade, há duas semanas que está no hospital, aquilo está mau, já o operaram umas cinco ou seis vezes, um médico, a revirar o Antunes, a corrigir-lhe as ligações, os circuitos, nada a fazer, o melhor é substituir o Antunes, outro Antunes para o lugar do Antunes, para o lugar de electricista, oferecemos salário compatível, empresa de grande dimensão, precisa-se de pai, mal-humorado, que leve os miúdos à bola, distante q.b., um pai visto que o Antunes não se vai safar e aquelas crianças precisam de um pai urgentemente, a mãe sozinha não dá conta delas, o Antunes morreu, coitado do Antunes, os velórios são uma merda, a mulher, a mãe, vá lá que ainda podemos ir lá para fora fumar um cigarrinho em memória do Antunes e em memória do Antunes fumamos outro cigarrinho, enquanto nos rimos de qualquer coisa que o Antunes Morto já não sabe, o Antunes Morto já não sabe de nada, vaidade, tudo é vaidade, pois é, lá voltámos ao Antunes, lembras-te quando íamos à bomba comer uns couratos, o Antunes, lembras-te, o que é que ele dizia, sempre a meter-se com o gordo da bomba, Pobre Antunes Morto, uma anedota, eis o que sobra de ti, Antunes, tudo o que pensaste e sentiste, tudo isso é pó, o que fica é o que disseste ao gordo da bomba, é isso que fica, a tua lápide, uma anedota de mármore, até te esquecermos Antunes, até. Eras tão real, tão real, com a tua mala de ferramentas, um homem-ofício, a tua mala de ferramentas, o teu desembaraço, a tua agilidade, tudo isso é uma cara fria de morto, um corpo duro de morto, o homem da funerária vem com o recipiente de vinagre porque já deitas cheiro, Antunes, já cheiras, e agora és este odor a vinagre, a morte terá sempre este odor a vinagre, a desinfectante, por amor de Deus, Antunes, tão mal que cheiras, o teu corpo com tanta pressa de apodrecer, de ser húmus, de ser nada, do ventre da tua mãe saíste, a mãe que te chora, a mãe que aspirou o teu odor morno e feliz de criança, a mãe que te esfregou o nariz nos refegos de criança, a mãe que agora sente o vinagre e a podridão, a podridão que ela pariu, a tua mãe, Antunes, a tua mãe pariu um morto, morreste há tanto tempo, morreste na hora longínqua em que alguém te pensou, morreste, hoje, às três da minha tarde, sentado na praça vazia de Julho.

link do postPor Bruno Vieira Amaral, às 21:24  comentar

4.10.10

Sobre Quartos Imperiais, Bret Easton Ellis

 

Quando sai daquilo que é o equivalente literário dos filmes de torture porn (literatura a que chamaríamos snuff), o estilo de Ellis é tão pobre que só pode ser identificado pela obsessão com as marcas e por descrições que condenariam qualquer outro ser humano a escrever panfletos de imobiliárias para o resto da vida (“Decorado em estilo minimal, suaves cremes e cinzentos com chão de madeira e iluminação indirecta, tem apenas 400 metros quadrados[...]”, p. 19).

 

Sobre Parrot e Olivier na América, Peter Carey

 

A sociedade francesa era um palco em que as personagens ocupavam o mesmo posto ao longo de toda a vida. A democracia americana rompe com esse modelo de encenação: ali, as personagens são lançadas para o palco em condições de igualdade e a dependerem exclusivamente do seu espírito de iniciativa. O que para o criado é uma oportunidade de se libertar das correntes sociais, para Olivier é um drama. Se, em França, um aristocrata era uma espécie em perigo, na América é um bicho estranho e desadequado ao meio, um papagaio empalhado num concurso de aves de rapina.

link do postPor Bruno Vieira Amaral, às 17:45  comentar

1.10.10

"Na América, toda a gente se encontra num estado de agitação: uns para atingirem o poder, outros para se apoderarem da riqueza, e quando não podem deslocar-se baloiçam. [...] Soube por Duponceau que o incansável Benjamin Franklin - que consta ter aprendido sozinho cinco línguas, além de ter inventado as lentes bifocais e o pára-raios - é o responsável pela horrorosa cadeira de baloiço."

 

Parrot e Olivier na América, Peter Carey, ed. Gradiva

 

"Sabe quem inventou a cadeira de balanço? Um brasileiro. Sim, acredite, trata-se de assunto bem documentado. Foi o pernambucano Francisco Gravatá, próspero fazendeiro, natural de Bom Sossego, pequena cidade poucos quilómetros a sul daqui. Gravatá inventou também o ventilador, a toalha de praia e o pastel de siri."

 

Milagrário Pessoal, José Eduardo Agualusa, ed. Dom Quixote

 

 

link do postPor Bruno Vieira Amaral, às 17:31  ver comentários (1) comentar

As dez palavras preferidas de Iara, personagem de Milagrário Pessoal, novo romance de José Eduardo Agualusa: serena, chama, subtil, perfume, alvo, murmurinho, alma, aia, âmbar, cisne.

 

As dez palavras preferidas de Albert Camus: mundo, dor, terra, mãe, homens, deserto, honra, miséria, Verão, mar.

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