"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos
27.12.10

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“Somos um refugo cósmico, querido amigo. A mim, a única coisa que me preocupa agora é recordar com todo o pormenor o que fiz amanhã e esquecer para sempre o que farei ontem. Adeus.” P. 73

 

Duas cidades: Barcelona e Xangai. Dois narradores: Daniel e Nandu Forcat. Um romance de idealistas derrotados e um outro romance dentro do primeiro, guiado pela fantasia e pelo fascínio exótico de uma cidade distante. O realismo cinzento da Barcelona do pós-guerra e o delírio luminoso da Xangai pré-comunista. Uma cidade-símbolo da derrota dos anti-franquistas e uma cidade imaginada onde se pode apagar a memória para começar de novo.

 

Em O Feitiço de Xangai, Juan Marsé, galardoado com o Prémio Cervantes em 2008, condensou o bildungsroman, o romance de formação, com o adolescente Daniel a descobrir o amor, a morte e a verdade, e o romance de aventuras, recheado de peripécias inverosímeis em paisagens longínquas. É um romance feito das memórias de um adolescente e da imaginação de um adulto, em que as personagens adultas, vencidas na guerra e na vida, revelam a verdadeira natureza nos tempos em que já não se exigem actos heróicos, mas tão somente decência. Habituados ao sacrifício, programados para viver na clandestinidade, em estado de heroísmo, os maquis falham na transição para uma vida normal e caem na traição, na mentira e no crime. O último resistente, o quixotesco capitão Blay, acaba como actor de uma comédia humana, perdido no mundo da “derrota e da loucura”. A sua causa – a poluição que, segundo ele, ameaça a saúde dos cidadãos de Barcelona – é uma espécie de metadona para o idealismo quando se descobre “a futilidade dos velhos ideais” (p. 83), “coisas que hoje em dia já começam a não interessar a ninguém e em breve serão esquecidas.” (p. 94)

 

Marsé percorre os territórios da sua infância, físicos (a Barcelona omnipresente na sua obra; o facto de Daniel, tal como o próprio Marsé, ser aprendiz de ourives) e narrativos (o cinema, os romances de cowboys vendidos pelos irmãos Chacón) para nos levar, enfeitiçados, para um lugar distante. Pergunta uma das personagens “E porque não em Pequim, ou em Bagdad, ou na Conchinchina [sic]?” De facto, o local, desde que remoto e de ressonâncias exóticas, é indiferente. Neste romance, Xangai é apenas uma metáfora do nosso desejo de encantamento enquanto leitores, tão ingénuos quanto Susana e Daniel, os ouvintes da história que Forcat conta para se salvar (lição de “As Mil e Uma Noites”). No tempo que dura a história, o mundo real fica suspenso. O feitiço de Xangai é, simplesmente, o feitiço da literatura.

 

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24.12.10

Entre os meus livros de 2010, que eu também tenho direito a fazer a minha lista, habituado que estou a fazer listas de compras, destaco três: A Amante Holandesa, de J. Rentes de Carvalho, Zeitoun, de Dave Eggers e Clarice Lispector – Uma Vida, de Benjamin Moser.

 

Outros livros muito bons que suavizaram o dever de os ler: Silêncio (Shusaku Endo), A Cor do Hibisco (Chimamanda Ngozi Adichie), Peregrinação de Enmanuel Jhesus (Pedro Rosa Mendes), O Fio da Navalha (W. Somerset Maugham), Verão (J.M. Coetzee), Inverness (Ana Teresa Pereira), Unha com Carne (Elmore Leonard), Pecados e Seduções (John Updike), O Sonho do Celta (Mario Vargas Llosa), O Cairo Novo (Naguib Mahfouz), A Beleza e a Tristeza (Yasunary Kawabata), Papéis Inesperados (Julio Cortázar), Milagrário Pessoal (José Eduardo Agualusa), Parrot e Olivier na América (Peter Carey), Vício Intrínseco (Thomas Pynchon), A Literatura Nazi nas Américas (Roberto Bolaño), Uma Gata, Um Homem e Duas Mulheres (Junichiro Tanizaki). Para o ano há mais.

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23.12.10

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“Onde iria ele morar? Como faria para comer? Meneou a cabeça com desânimo. Contudo, não sentia qualquer desespero ou fraqueza. Tinha uma grande confiança em si mesmo, um enorme atrevimento, embora fervilhasse de raiva e cólera.” P. 46

 

Cairo. Anos 30. Numa sociedade em transição para a modernidade, os estudantes universitários Mamoun Radwan e Ali Taha representam dois modelos sociais antagónicos. O primeiro, inspirado no Islão. O segundo, baseado no socialismo. No entanto, O Cairo Novo é um romance sobre a terceira via do niilista Mahgoub Abdel Dayim, que rejeita todas as convenções, meros obstáculos que o impedem de aceder ao que lhe interessa: “o prazer e o poder, obtidos pelas vias e pelos meios mais simples, sem obedecer a uma moral, uma religião ou uma virtude” (p. 29). Enquanto Mamoun e Ali Taha viajam com mapa, Mahgoub navega à vista, ridicularizando as crenças e os pensamentos alheios como se fossem um lastro que dificulta as manobras na direcção do mais conveniente, mesmo que não seja o mais correcto. Quando a doença do pai o deixa sem recursos, o ressentimento de Mahgoub aumenta. Um ressentimento contra a família, as raízes humildes e os amigos. Um rancor contra o mundo. A solução para se salvar da miséria implica abdicar da honra. Para não ter de se confrontar com a consciência, refugia-se na maleabilidade do seu relativismo moral: “Só acreditava em si próprio. Existia, é certo, o agradável e o doloroso, o útil e o nocivo, mas o bem e o mal? Vãs quimeras!” (p. 197).

 

Naguib Mahfouz (1911-2006), o único escritor de língua árabe a receber o Nobel, coloca o seu protagonista perante um dilema dostoiveskiano. São várias as semelhanças entre Mahgoub e Raskolnikov, o anti-herói de Crime e Castigo. As escolhas que fazem para enfrentar os problemas têm a mesma substância amoral. Ambos acreditam que estão para além do bem e do mal e que não podem ser julgados pelos códigos que repudiaram. São dois super-homens que, no fim, acabam derrotados por falta de músculo para suportar as teorias que propugnam. A consciência e a necessidade de um amor genuíno regressam com uma “força tirânica”, contra a qual nada podem as “almas arrogantes” e as “filosofias cínicas.”

 

A estrutura de O Cairo Novo é de um classicismo irrepreensível, desde a apresentação das personagens ao desenrolar da narrativa através de quadros (os pedidos de ajuda de Mahgoub, a visita às pirâmides, a festa de caridade, o passeio de iate). O ritmo é ditado pelos andamentos - crise, reviravolta, bonança e tragédia – que têm os olhos postos no final, na conclusão moralizante que não deixa espaço para a redenção. O crime de Mahgoub só tem direito a castigo.

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20.12.10

“Era uma rapariga de dezoito anos com uma tez de marfim, lindos olhos, cuja negrura intensa da pupila e das longas pestanas a dotava de uma maravilhoso sortilégio, e que, por um harmonioso contraste com a sua cabeleira de azeviche e a alvura da sua pele, atraía os olhares. Além do mais, ocultava sob o seu casaco pardo um corpo flexível e desabrochado, cheio de encantos e incandescente.”

 

O Cairo Novo, Naguib Mahfouz

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“Tinha vinte anos, estatura média, um corpo gracioso, pele bronzeada, e o seu rosto, ligeiramente alongado, era puro e harmonioso. O que mais se evidenciava nela eram os seus lindos olhos negros, que possuíam um encanto extraordinário. Porém, se comprimisse os seus finos lábios e fixasse o olhar, ela ficava como que possuída por uma força severa que não era de todo característica do sexo feminino.”

 

O Beco dos Milagres, Naguib Mahfouz

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13.12.10

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“Exceptuando o seu olhar melancólico quando pensava em Oki, ninguém se teria apercebido da sua tristeza. Mesmo essa sombra ocasional, a expressão do anseio de uma jovem, apenas fazia aumentar a sua beleza.” P. 147

 

O mistério da criação artística, a resistência do amor ao sofrimento, o tédio do casamento, o veneno do ciúme que instila o desejo de vingança, a sedução como punhal – em A Beleza e a Tristeza [1965], Yasunary Kawabata (1899-1972), acede aos recessos violentos das relações sentimentais com uma elegância melancólica. Numa história trágica e de potencial melodramático, ressalta a moderação de um narrador que nunca procura o efeito da emoção fácil.

 

As três personagens centrais são o escritor Oki, a pintora Otoko e a discípula desta, Keiko. Os três formam um triângulo amoroso que, na verdade, é um pentágono que inclui Fumiko, a mulher de Oki, e Taichiro, o filho. Muitos anos depois de uma relação conturbada, quando Otoko ainda era adolescente e Oki já era casado, os dois reencontram-se. Oki ainda vive com a mulher e a sua fama de escritor deve-se quase em exclusivo a um romance inspirado na relação com Otoko. Esta é uma pintora reconhecida e vive com a sua protegida. A possessiva Keiko, conhecedora da história entre a amante e o escritor, alimenta planos de vingança. Com tantos ingredientes folhetinescos seria de esperar um drama de faca-e-alguidar, operático e excessivo. Kawabata, porém, nunca segue esse caminho. Opta por uma abordagem intimista, que releva as tensões interiores e os sofrimentos silenciados em detrimento da violência das acções. O melhor exemplo desta forma de narrar é a elipse com a qual Kawabata oculta os acontecimentos trágicos em que o romance culmina. Mas também a relação entre Otoko e Keiko é um prodígio de sugestão psicológica e sexual. Keiko é menos uma amante do que um duplo, o inconsciente da sua protectora. Contra todas as expectativas, o amor de Otoko por Oki permanecera intacto. É a dor das sucessivas separações (a morte do filho e da mãe, o fim da relação com o escritor) que a empurra para os braços de Keiko, para uma forma narcisista de amor. A nostalgia da felicidade perdida contrasta com a ferocidade latente de Keiko, expressa através de palavras e dos seus quadros. Mesmo conhecendo a vocação trágica da discípula, Otoko não se esforça o suficiente para a controlar, como se, no fundo do amor, a centelha de vingança não se tivesse apagado.

 

A capacidade de Kawabata de sugerir as motivações e os estados mentais das personagens sem ser intrusivo ou didáctico faz de A Beleza e a Tristeza uma gema artística superiormente lapidada.

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9.12.10

Onde é que iria encontrar um revisor de texto a uma hora daquelas? Lembrou-se então de descer as escadas. Quando chegou à porta do prédio, fechou os olhos e rezou para que lá fora estivesse um desses autocolantes com o número de telemóvel de um revisor de texto, mas só encontrou o de um canalizador e o de um gajo que dava aulas de escrita criativa a crianças hiper-activas, uma merda que envolvia cães e leitura de excertos de A Educação Sentimental. Nada de revisores de texto. E agora? Havia sempre a Diamantina que, depois de ter ido para a cama com todos os jornalistas culturais do país e com os poucos desportivos que citavam Galeano e Rodrigues, tinha-lhe dado uma oportunidade de mostrar o que valia ou de, pelo menos, pôr a pila em terreno anteriormente percorrido pelos membros viris de sumidades como aquele tipo espertinho que escrevia essencialmente sobre autores japoneses e o outro que agora era correspondente de uma revista semanal em Maputo, Luanda ou noutro sítio qualquer cheio de pretos e de empreiteiros tugas montados em jeeps e com quatros seguranças à volta enquanto mamam camarões e exibem o grande regresso em estilo colonial, é isso. As coisas tinham corrido tão bem que nos cinco meses seguintes a comunicação, se se pode chamar comunicação a ele enviar-lhe mensagens a horas impróprias e ela não responder, estagnou. Diamantina, coitada, a Diamantina que andava toda contente por ter uns livrinhos autografados (mormente compilações de crónicas publicadas em jornais gratuitos) e ao fim de engolir vários litros de esperma intelectualmente sobredotado lá aprendeu a dizer Derrida com uma pronúncia que não a envergonhava, a Diamantina era a última esperança dele naquela noite. “Sim, conheço um que é capaz de estar disponível.” E foi assim que às duas da manhã de uma quinta-feira particularmente fria, Mário acabou numa bomba de gasolina em Fernão Ferro à espera de um revisor de texto conhecido no meio como o Fronhas, vá-se lá saber porquê, que finalmente chegou no meio de uma nuvem de fumo com que o seu Renault 19 de 92 se fazia anunciar. “Ouve, para me fazeres vir aqui a uma hora destas é bom que seja por um excelente motivo.” Mário olhou-o, pensou na falta que uma Ordem dos Revisores de Texto fazia e, sem demoras, entregou-lhe um manuscrito, o manuscrito. O Fronhas pegou no caderno e depois de uma olhadela disse-lhe: “Estás a gozar comigo? Sabes que há umas quantas pessoas capazes de matar para ter isto, não sabes? E para que não fiques a pensar que eu sou um parvo qualquer, digo-te já que as conheço todas e que sei de cor os números de telemóvel e a música preferida de cada uma delas. Posso ficar com isto?” Mário hesitou mas conseguiu disfarçar a falta de opções com uma convicção postiça. “Preciso disso pronto amanhã.” O outro esboçou algo entre um sorriso e um atestado de incapacidade intelectual permanente. “Para amanhã posso escrever a continuação dos Lusíadas. Isto, só daqui a duas semanas.” “Preciso do texto pronto amanhã ou então tenho de procurar outra pessoa.” “Outra pessoa? Queres dizer um revisor de texto minimamente competente, às duas da manhã, nos arredores de Fernão Ferro?” “Posso ir a Lisboa” “Claro que podes. E podes fazer muita coisa em Lisboa e até podes encontrar muita gente em Lisboa, mas ninguém que te possa ajudar com o material que tens aqui.” (cont.)

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Prémio Aldo Duscher

 

Atribuído todos os anos ímpares, o Aldo Duscher premeia obras de escritores argentinos que tenham passado pelo Sporting, mesmo que não tenham alinhado em partidas oficiais. Os dois finalistas deste ano são: Leyenda de un portero porteño, de Leandro Romagnoli e Sueños de Tripoli, de Beto Acosta. O aclamado Verguenzas, romance-sensação de Jorge Burruchaga, ficou fora da selecção final por decisão unânime do júri constituído por Teolinda Gersão, Dias Ferreira e um representante do Real Massamá.

 

 

Prémio Francisco Sá-Carneiro

 

Criado este ano, o prémio Sá-Carneiro visa a divulgação junto do grande público de obras poéticas no âmbito da social-democracia. Só podem concorrer militantes do PSD com as quotas em dia ou, excepcionalmente, autores com trabalho reconhecido na área, cuja entrada depende de avaliação curricular. Entre os favoritos contam-se ADSE, conjunto de poemas concretistas da autoria de J. Ramalho; União, de Agostinho Branquinho Júnior, relato em verso livre das principais incidências dos congressos do PSD; 12 Sonetos para Cavaco, obra dividida em quatro partes (3 sonetos de Betão, 3 Sonetos de Tabu, 3 Sonetos de Belém, 3 Sonetos para a Eternidade); e o poema épico As ondas de Neptuno – Ascensão e Queda de Rui Gomes da Silva, da autoria de um colectivo de Celorico da Beira.

 

Prémio Revista Maria

 

O mais prestigiado prémio na área do conto feminino. Nos últimos três anos tem sido o que os ingleses chamam de one-horse race, com a vitória de Núria Macedo: Prazeres Proibidos, Sentimentos e Emoções e o fenomenal Vícios Discretos, sobre duas irmãs que disputam os favores sexuais de um candelabro, tornaram Núria a rainha incontestada do género.

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7.12.10

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“[…] Quinto já não se sentiu culposamente estranho a este mundo ancestral, mas parte de outro, do qual podia observar aquele com superioridade e ironia: o mundo da gente nova, sem escrúpulos, habituada a manejar o dinheiro.” (p. 73)

 

Numa entrevista, em 1958, Italo Calvino afirmou que as suas melhores personagens estavam neste conto alargado, A Especulação Imobiliária: “ao empresário daria o Óscar para a melhor personagem objectiva, em termos absolutos, e a Quinto para a melhor personagem subjectiva, semiautobiográfica.” Caisotti, o empresário rústico com o talento sub-reptício para as negociatas, talvez mereça o prémio por ser uma criação tão diferente do seu autor. Mas é de Quinto, o intelectual de esquerda que quer sujar as mãos na realidade, que Calvino aproxima o olhar, levando a leitor a simpatizar com as suas hesitações e os seus falhanços. Facilmente entusiasmado por projectos vagos, deprimido às primeiras dificuldades, Quinto vagueia entre as teorias impalpáveis da sua condição de intelectual e o mundo prático dos negócios, onde vê a beleza das coisas reais. A expansão imobiliária na Riviera italiana é a oportunidade para se envolver no “momento económico”. Admira o avanço do cimento como uma coisa bela por ser nova e violenta, pondo em causa a velha ordem da burguesia da terra, com a sua tacanhez conservadora. Há nesta personagem qualquer coisa de futurista, de fascínio bárbaro pela “modernidade”.

 

Quinto quer respirar o ar do tempo, nadar com os tubarões, revelando uma vontade tão contrária às suas inclinações naturais que o desfecho não é apenas previsível, mas também justo. Os ideais políticos ficam para trás porque “lançar-se numa iniciativa económica, manejar terrenos e dinheiro era também um dever" (p. 41). O problema é que este anseio de Quinto é mais belo na teoria do que na prática. A realidade, feita de cláusulas de contratos e de construções adiadas, arrefece-lhe o ânimo. “Toda a sua paixão pela prática, pela realidade concreta” acaba num monte de “material inutilizado que não conseguia ser nada, veleidades, tentativas não levadas a cabo.”

 

O negócio, que tanto prometia, resulta numa casa inacabada que é a representação simbólica da vida de Quinto, também ele um homem inacabado, um projecto falhado que nunca encontra a realidade ideal para se concretizar. Como personagem é, pelo contrário, uma construção quase perfeita. Sem o submeter a um julgamento impiedoso, o autor expõe-lhe as fraquezas e as contradições. Não o podemos detestar porque, através do humor, do tom levemente fraternal, Calvino lembra-nos que Quinto Anfossi, consumido por sonhos e vencido pela realidade, é um dos nossos.

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6.12.10
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5.12.10

Sobre Kawabata, Kobayashi e Endo:

 

São três romances artisticamente heterogéneos. O Navio dos Homens é pouco mais do que um artefacto arqueológico das boas intenções do realismo socialista. Silêncio é um romance que, partindo de um ponto de vista católico, aprofunda questões como a fé e o papel central do sofrimento no cristianismo, cuja ressonância ultrapassa os muros paroquiais, daí a justa comparação com Graham Greene. A Beleza e a Tristeza centra-se em relações íntimas, exploradas com uma delicadeza aguda, em que o conflito entre tradição e modernidade contribui para caracterizar as personagens, embora esteja longe de ser o tema central. Geneticamente japoneses (com gueixas, saquê, samurais e teatro kabuki), têm, no entanto, um apelo universal, tratam de questões humanas que extravasam limites alfandegários - amor, traição e vingança, fé e justiça, dúvida e revolta - e ao fazê-lo dão ao leitor a possibilidade de ver a experiência japonesa sob um ângulo mais aberto que destrói concepções apriorísticas baseadas em impressões superficiais.

 

Sobre A Literatura Nazi nas Américas, de Roberto Bolaño:

 

Ao Livro dos Seres Imaginários, de Jorge Luis Borges, falta esse magnífico animal chileno, o Roberto Bolaño (1953-2003). Escritor compulsivo, o Bolaño é um híbrido de cabeça borgesiana e de corpo realista, visceral, não raras vezes escatológico. É omnívoro, embora a sua dieta não inclua o realismo mágico, cuja simples visão lhe provoca reacções nervosas extremas. Acusado de ser um writer’s writer (animal meta-literário e erudito, contem-se as personagens dos seus livros que são escritores ou literatos), tempera essa tendência com um excesso de realismo que, por sua vez, descamba num ambiente ainda mais onírico e irreal (ver A Parte dos Crimes, em 2666). O Bolaño pega na herança de Borges e leva-a para campos de batalha e desertos cheios de cadáveres. Tão depressa cita William Beckford como logo a seguir nos serve descrições sangrentas de torturas; salta de Melville para um grafismo sexual que pede meças aos especialistas do género; inventa escritores centro-europeus e sádicos latino-americanos; domina as bibliotecas sagradas e as ruas sórdidas; da árvore da ciência só comeu metade do fruto: o que lhe deu o conhecimento do mal.

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