"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos
28.1.11

Se o Alentejo fosse ainda um imenso fígado, teríamos a obrigação de ser couve. Se poupássemos em peões, a gasolina seria mais branca. Justamente. Dizia eu que, pelos vistos, ninguém falou amarelo. Quando a chuva caminhar, outros carros. Alertas. Lembro-me de um palácio: acabou em rebuçado. A tinta para o cabelo chorava, ela sabia. Nunca mais. Todavia, a multa chegou despida. Alguns riram-se, afiaram escaravelhos. O mar, disse um. Suspirou navios, comeu ilhas, lagartos, nem todos. Onde é que isto vai parar? Sem folhas. Digamos que não foi possível autuar o solstício. Isto é coisas, mais do que folhas, parecem. O azul tem de acabar as asas, não vá o diabo comê-las, tecelão. Um telhado poisou nos pássaros, pão. Vários. Amedrontados, não cantámos cães. É tudo política de Arraiolos: há uma loja que troca impressões, fotocópias, olhares. Nem por isso, disse a estátua.

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Turnos de doze horas, vê bem, doze horas a anotar matrículas, folhas atrás de folhas, o supervisor a avisar-me, não te distraias, hora de entrada e hora de saída, não pode haver matrícula com entrada e sem saída, só os da administração, com saída e sem entrada, todas as matrículas, não te esqueças, não me falhes, é um cliente importante, e o relatório, preenche o relatório todos os dias no fim do turno, não houve qualquer incidência digna de registo, letras e números, o dia na sua inteireza lá fora, uma nesga de mundo, uma pequena parcela, o sol a abrir, depois a sombra ao fim da tarde, depois a noite, os faróis dos carros, o meu dia inteiro ali, letras e números, uns atrás dos outros, sem interrupções, até ser uma massa abstracta de símbolos, uma pintura, um poema, uma equação matemática, dia 12 de Outubro de 1999, dois furos na folha, a folha para o dossier, o cliente vem confirmar, não vem todos os dias, é quando se lembra, talvez um dia regresse lá, pego nas folhas e apresento-as como a minha primeira obra poética, ou faço uma exposição, eu sou um artista, até que me atrapalhei, já te contei que um dos meus colegas se chamava Messias e o outro Salvador? Não me valeram de nada, foi nesse dia, no dia em que me atrapalhei e não anotei uma única matrícula, que perdi a fé, o Messias e o Salvador, impotentes, embasbacados, foi nesse dia que a depressão chegou, as pessoas dizem que vão ficando assim, mas eu digo-te, em verdade te digo, 12 de Outubro de 1999, foi nesse dia que a depressão chegou, foi no momento em que abri uma garrafa de água, precisamente, nesse momento, será que havia um espírito na garrafa, porque foi no momento em que rodei a tampa, no segundo em que ouvi o estalido do plástico, dois, três, quase simultâneos, nesse momento, acredita, a depressão caiu-me, nada de uma insinuação lenta, de predador a farejar a presa, aquela tosse seca que afinal é o primeiro sintoma de um cancro, a depressão caiu-me como uma epifania às avessas, uma súbita revelação que não revela nada, tinge tudo da mais funda escuridão, um negrume que te entra pelas narinas, acreditas que eu me lembro do momento em que inspirei a depressão pela primeira vez, como um gás tóxico que te enche o peito de um peso que é todo morte, o filho-da-puta de um peso, um peso triste, um peso pode ter essa qualidade, sabias, porque há pesos alegres, acreditas, o peso de se ser alguém, de ter alguém, o peso de termos feito alguma coisa, o peso de termos feito uma pedra, e há o peso vazio e triste de se encher folhas e folhas com matrículas, de passar doze horas a anotar matrículas, nenhuma incidência digna de registo, naquele dia escrevi no relatório: o mar bateu-me nas rochas e eram os meus ossos, acreditas, o mar bateu-me nas rochas e eram os meus ossos, assinei, Bruno Vieira.

link do postPor Bruno Vieira Amaral, às 13:59  ver comentários (1) comentar

A minha mãe liga-me. Quer saber. Se me ando a alimentar, se já arranjei emprego, se. Que lhe leve a roupa para ela passar. A minha mãe a passar roupa, há quanto tempo, Penélope, uma pilha de roupa interminável, camisas, calças, panos, toalhas, tristezas dobradas em quatro, metidas numa gaveta, a música rouca no rádio, o ar pesado de vapor, a pele dos braços da minha mãe, o que é a pele dos braços da minha mãe? O que são os braços da minha mãe? O que irá sobrar deles quando tudo for sombra? No dia em que levantaram os ossos do meu avô, o dia em que levantaram os ossos do meu avô foi o dia em que levantaram os ossos do meu avô, expressão tão bela para coisa tão feia, já os viste a desenterrar um corpo? A pá acerta na madeira desfeita do caixão, as botas do descoveiro pisam terra, morto e ervas, e lá no fundo, no princípio e no fim de tudo, arrancam-no do eterno descanso, que afinal não é eterno, porque nada é eterno, nem sequer o descanso dos mortos, o fato que a avó escolheu é aquele trapo cheio de ossos dentro, tanto cuidado em respeitar a vontade do morto que quis ser enterrado com o fato do casamento, e ei-la ali, a vontade dele, feita em trapos, em ossos que o descoveiro arranca, um arqueólogo municipal, bate os ossos para lhes tirar o excesso de terra e atira-os para o pano que o colega desembrulhou, e a avó que insistiu que a vontade do avô fosse respeitada, também ela repousa ali, até que numa manhã como esta, mais chuva, menos chuva, alguém virá para lhe tirar a paz, para lhe descobrir, haja olhos que o testemunhem, a nudez óssea de cadáver.

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24.1.11

Devem ter em conta que a frase lá em cima foi actualizada.

link do postPor Bruno Vieira Amaral, às 16:35  comentar

22.1.11
link do postPor Bruno Vieira Amaral, às 18:50  comentar

14.1.11

link do postPor Bruno Vieira Amaral, às 09:53  ver comentários (3) comentar

4.1.11

Cá estamos. O Circo da Lama comemorou o 2º aniversário, numa festa que decorreu no Teatro Nacional D. Maria II e que não contou com a presença da ministra da Cultura. Em 2011, teremos duas novidades: a muito aguardada barra de contactos (é assim que se diz?) e um espaço multifunções onde os leitores podem deixar os filhos enquanto lêem o blog. Os textos publicados na imprensa serão republicados em www.ragingbulls.blogs.sapo.pt. O Circo da Lama dedicar-se-á a outro tipo de posts: vídeos do youtube, fotografias pornográficas e citações. Um bom ano para todos.

link do postPor Bruno Vieira Amaral, às 14:08  ver comentários (2) comentar

 
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