"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos
25.5.11

"Obrigado por ter entrado em contacto connosco.
Se não houver nenhum contacto da nossa parte num prazo de 15 dias, o seu cv será mantido em base de dados e será contactado numa próxima oportunidade.
Com os Melhores Cumprimentos,"

 

"Vimos, assim, informá-lo que a sua reclamação, com o número ******, mereceu toda a atenção da Administração. Por isso mesmo, o informamos que a não autorização de circulação no Centro com patins, bicicletas ou outros meios de transporte semelhantes prende-se com questões de segurança para os seus utilizadores."

 

"Obrigada por nos ter confiado a sua candidatura.
Esta será analisada pelo Consultor Responsável do processo, pelo que oportunamente voltaremos ao seu contacto."

 

"Lamento mesmo que não nos tivéssemos entendido. De facto estamos com prioridades diferentes e o que sinto é q não há espaço para uma amizade entre nós. Conversamos tanto, desabafamos tanto… Mas parece que estamos em mundos diferentes. Tal como eu te avisei que estávamos…. Mundos demasiados diferentes…"

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19.5.11

Não havia momento em que eu me sentisse mais desamparado do que quando, na escola, me perguntavam o que é que o meu pai fazia. Tinha a vaga ideia de que ele vivia algures em França, mas sobre a coisa sólida e definitiva que a profissão do pai representa para a imaginação infantil eu não sabia nada. A pergunta “O que é que faz o teu pai?” não admite tergiversações, excessos de ficção. Desde os meus oito anos peguei nos cacos da realidade e tentei juntá-los num vaso coerente e credível, que não suscitasse muitas questões ou acusações de falsidade. Futebolista foi, naturalmente, a primeira opção. O meu pai tinha jogado futebol, mas um futebolista era, e ainda é, uma entidade mítica, semi-divina, que atiçava curiosidades e a vontade de saber pormenores. Em que clube jogava, a que posição, e isso obrigava-me a uma mentira elaborada, demasiado técnica, que eu não pretendia. Lembrei-me então de que, entre os vestígios que sobravam da existência do meu pai, havia um cartão de funcionário da Quimigal. A partir daí, era assim que o identificava: “funcionário da Quimigal”, uma actividade suficientemente desinteressante para desmotivar extensos questionários de colegas. Mais tarde, quando a cortina de névoa sobre a vida do meu pai se desfez um pouco, a quem me perguntava eu respondia que era militar, resposta um tanto vaga, com uma aura de mistério e romantismo, que exercia grande fascínio sobre os meus amigos e igualmente sobre mim, ao mesmo tempo narrador e ouvinte da história que conhecia quase tão mal quanto eles. Às vezes, depois da euforia da ficção, de exageros, de me perder na história que inventara, sentia-me triste, imaterial, evanescente, como se o meu pai não fosse real, como se eu não fosse real, como se nenhum de nós existisse. Talvez por tudo isto, eu invejava o Sérgio, rapaz tímido, desajeitado, aluno medíocre, mas cujo pai era maquinista da CP. Ser maquinista da CP era algo real, compreensível, verdadeiro. Não admitia dúvidas, nem questões. Era uma profissão límpida de que ele se orgulhava. Quando dizia que o pai era maquinista da CP, o acanhamento habitual evaporava-se, brilhavam-lhe os olhos, como quem exibe perante colegas pobres um objecto valioso. Nesses momentos, as minhas ficções pareciam-me absurdas, caía num desamparo profundo, sem um galho de realidade ao qual me agarrar. O meu pai nunca seria uma presença real, um pai que não tivesse de ser inventado. Seria sempre uma mentira. O outro, o maquinista da CP, era a verdade, o pai que acontece a um filho todos os dias.

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18.5.11

Conheço muita gente que anda a trabalhar num romance. Eu, por exemplo, ando a trabalhar num romance, que é um pouco diferente de escrever um romance. Trabalhar num romance confunde-se com a actividade geral da existência. Bebo um café e estou, de algum modo, a trabalhar no romance. Sento-me no autocarro e estou a trabalhar no romance. Fico a olhar melancolicamente pela janela do escritório e estou, mesmo assim, a trabalhar no romance. O romance, esse, não avança, tanto é o trabalho com que o sobrecarrego. Permanece em estado de crisálida, eterna possibilidade onde cabe tudo e não entra nada. É então que encontro outros que, como eu, andam a trabalhar num romance. Resumem intrigas, esboçam personagens no ar, prevêem glórias futuras, prémios Saramago, comendas, capas do suplemento do Expresso. Da crítica esperam que seja justa; dos leitores, que sejam milhares (mulheres novas em idade fértil, sobretudo); dos pares, a invejazinha fatal. Quanto ao romance, há-de aparecer, um dia.

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13.5.11

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10.5.11

Depois da Noruega de ritmo africano, chega a Arménia de sangue latino, boom-boom, chaka-chaka.

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É a vez da concorrente albanesa, cabelo vermelho, canta em inglês. Feel the passion é uma canção sobre coisas extremamente importantes que têm ocorrido na vida desta senhora. Parece a Wanda Stuart. Se calhar é a Wanda Stuart.

 

 

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Começou agora a meia-final do Festival da Eurovisão, que este ano se realiza em Düsseldorf, cidade alemã, banhada pelo Adriático, o Báltico e o Ganges. Düsseldorf tem cerca de 60 mil habitantes, quase todos empregados de mesa. Dusseldorfenses famosos: Thomas Mann, Klaus Maria Brandauer e Fernando Mamede.

 

Esta é a rapariga polaca:

 

 

 

 

A Noruega concorre com uma música tradicional africana género Waka Waka, com letra de Knut Hamsun.

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Copyright SA

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2.5.11

O Exterminador – T1000 é um robot que trabalha na McDonald’s e jura aos colegas que veio do futuro, o que lhe granjeia a fama de extravagante e o impede de receber o prémio de funcionário do mês. Depois de uma relação conflituosa com uma colega de trabalho (que termina com a decapitação desta), T1000 apaixona-se por uma arca congeladora. Mudam-se para os subúrbios de Filadélfia, onde passam os dias a ouvir Aimee Mann e a contar piadas sobre frigoríficos.

 

Armageddon – Um asteróide desempregado e a atravessar uma crise conjugal entra em rota de colisão com a Terra. Para destruir o asteróide, o Presidente americano – um transexual depressivo – envia uma missão liderada por um ex-marine melancólico e fã dos Smiths. Produzido por Jim Jarmusch e com banda-sonora de Daniel Johnston.

 

Titanic – um casal homossexual, Jim e Fred, decide passar a lua-de-mel a bordo de um paquete de luxo. O paquete, interpretado por Steve Buscemi, tem uma relação tumultuosa com o norueguês Sven Iceberg (inspirado numa personagem do romance de Mario Vargas Llosa, O Sonho do Celta). A cena final passa-se numa sauna. As personagens trocam acusações, uma delas diz ter sido violada pelo pai, outra queixa-se da temperatura. No final, há um momento de reconciliação, como se tudo não passasse de um episódio de Irmãos e Irmãs.

 

Os Dez Mandamentos – Moisés, um ex-toxicodependente, sofre por não conhecer os pais biológicos. Por causa disso e para sustentar o vício, só pode roubar electrodomésticos aos pais adoptivos. Numa bela tarde, em Boston, encontra Deus, que o repreende severamente e pergunta-lhe onde é que pode estacionar o carro. A partir desse momento, Moisés entra num caminho de redenção, arranja uma mulher, dois filhos e a puta de uma depressão.

 

Tubarão – é a história de um tubarão com distúrbios de personalidade que partilha o aquário com outros tubarões que o insultam constantemente. Cansado de humilhações, Tubarão faz uma operação de mudança de espécie e reaparece como enguia. A banda-sonora inclui sucessos de Eartha Kitt, Gloria Gaynor, Alicia Bridges e Pavement.

 

O Exorcista – esta produção romena prova a vitalidade do cinema daquelas paragens (o cinema toxicoindependente não vem de países, mas de paragens) e demonstra que a Roménia não é só ginástica e técnicas engenhosas de roubo no multibanco. Durante uma hora e meia, o espectador assiste à conversa de uma adolescente com o Diabo, tipo, sei lá, cenas completamente, até que Satanás não aguenta mais e atira-se de uma janela. Ah, e a meio do filme, há uma cena pungente de aborto.

link do postPor Bruno Vieira Amaral, às 22:09  comentar

1.5.11

2ª feira

 

5:50 – Acordo espontaneamente com os gritos e empurrões da minha mulher. Limpo a baba à almofada e levanto-me, lenta e dolorosamente. Os encontros literários deixam-me sempre neste estado de excitação. Como homem precavido que sou, preparei a mala no dia anterior.

 

7:30 – Santa Apolónia! Falta-me o computador portátil, um dos telemóveis e roupa interior. Entro no comboio e, heroicamente, não meto conversa com ninguém. A meio da viagem, acordo com o meu próprio ronco e, para disfarçar, imito um porco. Um senhor dos seus oitenta anos pede-me, com educação, que me cale ou, em alternativa, “parte-me o focinho todo”. Como fui ensinado a respeitar os mais velhos, calo-me e concentro-me na leitura d’A Bola.

 

10:45 – Campanhã. Supostamente tenho alguém à minha espera, mas quando saio da estação vejo apenas os taxistas e um senhor que me pergunta se sou árabe. Faço uns telefonemas. Sou uma pessoa importante. Garantem-me que daí a uma hora alguém me irá buscar.  Duas horas depois continuo à espera. Entretanto, fiquei rodeado de turistas que me julgam a meio de uma performance de arte contemporânea. Tiram-me fotografias. Uma senhora de feições asiáticas faz-me cócegas. Finalmente, chega um carro. O motorista acena-me um papel em branco: “desculpe lá. Vinha buscar outra pessoa e nem tive tempo de escrever o seu nome.”

 

13:20 – Chego ao hotel. A menina da recepção indica-me o número do quarto e informa-me, com um sorriso que tem o seu quê de lúbrico, que a internet é gratuita apenas nos primeiros quinze minutos. Terei de ser criterioso na escolha de vídeos do youporn.

 

13:40 – Acompanho o escritor Mohamed Berrada numa entrevista. A jornalista não fala francês e eu traduzo as perguntas com tanta competência que o sr. Berrada, não podendo acreditar no que ouve, pede-me que repita um pouco mais devagar, certamente para saborear cada sílaba do meu francês. O sr. Berrada diz-me que tenho ar de marroquino.

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