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Circo da Lama

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

Circo da Lama

26
Ago11

Um poema de Emídio Bernardes sobre o dia-a-dia

Bruno Vieira Amaral

Querida,

Fecha a torneira da cozinha

Enquanto eu baixo o tampo da sanita

Do nosso amor

 

A manteiga com que desejávamos

Untar os nossos dias

Já tem o ranço do tédio

            (e olha que a sopa de grão não me caiu lá muito bem)

 

Cortaram-nos a luz, sabias?

Aquilo são velas, amor

 

Na tua mala trazes as facturas por pagar

Como cartas de um amor que veio tarde de mais

 

A noite chega

E traz com ela o ruído do teu aspirador

A sugar as migalhas do nosso desespero

 

És tão linda, já te tinha dito?

Mas eu se fosse a ti

Ia ao ginecologista ver isso.

16
Ago11

No aeroporto

Bruno Vieira Amaral

Publicado na revista Ler:

 

À excepção das pessoas que nele trabalham ou em caso de catástrofes ocasionais como greves de pilotos e erupções de vulcões islandeses, ninguém passa muito tempo num aeroporto. Os terminais são projectados como locais de passagem, gigantescas salas de espera onde não existe nada que provoque o desejo de permanecer. Por este motivo, a experiência, presumivelmente bem paga, a que o escritor Alain de Botton se sujeitou é um movimento contrário a toda a lógica da concepção e funcionamento de um aeroporto. A empresa que gere o terminal de Heathrow convidou o autor de Como Proust Pode Mudar a Sua Vida a tornar-se no primeiro escritor-residente daquele espaço. A missão de De Botton seria a de, durante uma semana, observar os passageiros a partir de uma secretária estrategicamente colocada na zona de partidas. O resultado é este livro a meio caminho entre a monografia antropológica de ambições literárias e a publicidade disfarçada de mecenato.

 

Se permanecermos o tempo suficiente num local muito frequentado, onde seres humanos entram e saem constantemente, se lhes observarmos os comportamentos, os gestos, se lhes ouvirmos algumas palavras, a nossa tendência, enquanto membros de uma espécie de narradores, é a de pegar nesses elementos esparsos e juntá-los num todo que faça sentido, num esforço a que alguns espíritos ingénuos chamam de “uma boa história.” O caos aparente de pessoas que surgem no nosso campo de visão para, de seguida, desaparecerem para sempre, não nos satisfaz. Queremos compreendê-las, queremos que elas durem, queremos resgatá-las ao esquecimento e a forma mais simples que temos para o fazer é inventar-lhes uma história, escrever sobre elas, contar a alguém o que vimos e o que imaginamos. A missão que Alain de Botton aceitou foi, como tal, um exercício puro, ainda que generosamente patrocinado, de literatura: observação e registo, cristalização verbal de momentos frequentes – um reencontro, uma despedida – em acontecimentos que sobrevivem ao instante em que ocorreram e em que os intervenientes são desapossados do exclusivo das emoções. O leitor transforma-se no pai que revê o filho, a leitora revive os sentimentos da rapariga que se despede do namorado com beijos e lágrimas. De Botton soube resistir à tentação de criar narrativas – não era para isso que estava a ser pago. O seu olhar é o do fotógrafo que capta a força do instante mas que deixa que o leitor complete a narrativa através da imaginação.

 

Não-lugar

 

Há cerca de dez anos, tive a felicidade de ocupar algum do meu tempo livre como segurança. Calhavam-me, quase sempre, os indesejados turnos da noite. Certa vez, incumbiram-me de zelar pela segurança de uma estação de serviço de uma auto-estrada pouco movimentada. Durante toda a noite, pararam uns três clientes. Abasteceram, compraram cigarros, chocolates, água, e partiram. Fiquei eu e a funcionária da bomba de gasolina. Creio que o antropólogo Marc Augé nunca terá trabalhado como vigilante em estações de serviço, mas o seu conceito de não-lugar serve-lhes na perfeição. Fisicamente, um não-lugar assemelha-se a um cenário de filme. As luzes fluorescentes e as cores das embalagens, os óleos de motor a um canto e as garrafas de refrigerante nos frigoríficos, os expositores perto da caixa com pastilhas e rebuçados, as arcas cheias de gelados, as máquinas automáticas de café dão ao não-lugar que é uma bomba de gasolina uma atmosfera de falso, como se a qualquer momento um grupo de operários pudesse entrar e alterar o cenário por completo ou transplantá-lo para qualquer sítio longínquo sem que se notasse a diferença. Aquele espaço podia ser em qualquer lugar que não perderia nenhuma das suas características essenciais, é imune aos efeitos da localidade. É a mesma lógica de hipermercados, salas de cinema multiplex, restaurantes de fast-food, que assentam na lógica de um cliente nómada e não de um cliente sedentário e procuram oferecer o conforto do que é familiar. Apesar do esforço sincero das cabeças que os conceberam, em vez de familiaridade esses espaços normalmente provocam uma sensação de desorientação, de desequilíbrio e de confusão. Como são todos iguais, quando entramos num é como se entrássemos em lugar nenhum, aspirados para o interior de um buraco negro. Basta que imaginemos uma cidade em que todas as ruas fossem iguais: estaríamos sempre perdidos. Se passássemos uma grande parte do nosso tempo nesses templos do vazio (e há quem passe) os sintomas seriam intoleráveis. Enlouqueceríamos. O segredo está no facto de não terem sido pensados e construídos para que as pessoas neles se demorem. São pontos de passagem, não de convívio. O que distingue o não-lugar não é tanto o espaço, mas o tempo. A vida noutros séculos era programada em função de um tempo lento, de pessoas que se deslocavam pouco e devagar. Como tal, os lugares convidavam à pausa, à demora, à comunhão (praça, igreja, café). Hoje, a vida organiza-se em função do movimento, de um tempo rápido, de deslocações constantes. Se lhes chamamos não-lugares estamos a admitir que a velocidade que adquirimos nos transformou em não-pessoas, porque apenas não-pessoas podem habitar não-lugares. Não haverá espectáculo mais revelador desta dimensão cinética da nossa sociedade do que o de grupos de passageiros retidos em aeroportos. O desespero não é apenas o que resulta da espera, é o que advém da sensação de não se estar em lado nenhum, em trânsito num limbo de vozes de altifalante e écrans luminosos a assinalar chegadas, partidas e atrasos. Se pensarmos nos filmes de terror, vemos que os passageiros retidos num aeroporto se assemelham notavelmente a zombies (esqueçam a parte do sangue e das mutilações). Se pensarmos em filmes de viagens no tempo, o passageiro retido no aeroporto encontra-se naquele estado em que o protagonista fica preso no portal, incapaz de regressar ao presente. Na verdade, nos aeroportos, a existência das pessoas encontra-se em suspensão temporária. Daí que não haja lugar mais não-lugar do que um aeroporto.

 

No Aeroporto

 

Esta grandiosa concepção teórica foi o ponto de partida da minha visita ao aeroporto. Para que o passageiro distraído não pense que está prestes a entrar numa central de camionagem, é informado que “o aeroporto de Lisboa está mais aeroporto”. Em inglês, para não criar no turista dispensáveis dúvidas ontológicas, a frase passa para um pragmático “the Lisbon airport keeps getting better”. À entrada, protegida dos vândalos por um vidro, há uma escultura que se insere na corrente a que os críticos de arte designam por “foleira”: uma enorme bola, talvez um planeta, onde se incrustam estrelas e um space shuttle. Esclareço que não beneficiei das condições privilegiadas de Alain de Botton (que até tinha senhas de refeição). Entrei como um observador clandestino sem nada, para além de um caderno e de uma caneta, que me distinguisse do vulgar passageiro que cruza o aeroporto da Portela. E não precisei de muito tempo para tirar algumas conclusões: a zona de chegadas do aeroporto destrói mitos. Muitos dos nossos preconceitos sobre a frieza dos nórdicos cairiam por terra se víssemos uma adolescente alemã saltar mediterranicamente para os braços de um casal de meia-idade. Desconheço se este excesso de sentimentalismo será sintoma da decadência do povo germânico, mas agrada-me que os naturais de um país que produziu os Kraftwerk e o Bayern de Munique dos anos 70 sejam capazes de semelhantes demonstrações de humanidade. Uns minutos depois outra rapariga salta para o colo de um rapaz com uma elasticidade felina que faz lembrar festejos de golos e ginástica rítmica. Há outras recepções menos calorosas, ou porque a idade e forma física dos participantes não admite movimentos bruscos ou porque talvez o tempo de separação não tenha sido demasiado longo. O comedimento das emoções também pode significar uma manifestação de classe. Há quem queira mostrar que o hábito de viajar é corriqueiro e, para essas pessoas, celebrar chegadas ou chorar partidas assemelha-se a uma embaraçosa confissão de provincianismo.

 

O aeroporto despeja pessoas a um ritmo constante. Quando atravessam as portas é impossível não sentirem uma pontinha de vaidade, mesmo que os olhares ansiosos que as seguem pertençam a agentes de viagem à espera do senhor Tamura ou da senhora Rasmussen. Reparei que entre esta classe de esperadores profissionais, cuja função consiste em passar o dia a exibir uma folha a4 com o nome de alguém que nunca viram, existe uma cumplicidade que se reflecte em códigos humorísticos inacessíveis aos restantes mortais, como no caso de piadas sobre o melhor local para esperar islandeses. E lá se vão sucedendo os tipos humanos: um casal de lésbicas finlandesas, um indíviduo com todas as condições indumentárias para gerir um bar de alterne com moderado sucesso, um cantautor de patilhas anacrónicas, um homem dos seus cinquenta anos bronzeado que reencontra a mulher pálida enquanto reza para não ter apanhado nenhuma doença venérea durante uma suposta viagem de negócios, outro casal que se reencontra sem demasiado espalhafato mas cujo marido cumpre o protocolo com um bouquet burocrático de flores e, porque me estava a incomodar a falta de um lateral-esquerdo nesta colecção, o Álvaro Magalhães, mais magro ao vivo do que na televisão.

 

O aeroporto não nos fala apenas sobre as pequenas histórias das pessoas que o visitam. É também um espelho fiável do nosso admirável mundo novo, um laboratório dos temores contemporâneos. A aviação civil, mais do que qualquer outra área do mundo moderno, sentiu os efeitos do 11 de Setembro. Regras de segurança apertadas, longas filas de espera, revistas minuciosas de todos os passageiros, reacção musculada à mínima suspeita (normal quando até se inventam sapatos-bomba). Na zona do check-in, um painel informa os passageiros dos artigos que não são permitidos nos voos: venenos, explosivos, ácidos, facas, líquidos inflamáveis. Não sei se antigamente as pessoas, à excepção das que planeavam golpes de estado em países africanos, entravam nos aviões com este tipo de objectos. A verdade é que a proibição me parece razoável, mesmo que a exibição dos objectos proibidos numa vitrina se esforce por torná-la ridícula. Lado a lado, temos frascos de laca, isqueiros, um rolo da massa e um objecto que me pareceu simplesmente uma bomba.

 

 

No seu livro, Alain de Botton descreve uma “sala multifés”, um espaço pluriconfessional, adequadamente neutro e que permite aos crentes das mais variadas religiões um momento de recolhimento espiritual antes da viagem. Não encontrei nenhum espaço idêntico no aeroporto da Portela. Os únicos sinais de religiosidade encontravam-se expostos nas montras de algumas lojas: Nossas Senhoras de cores variáveis (do prateado ao verde-fluorescente) como se tivessem sido pensadas pelos mesmos designers suecos que trabalham para o Ikea. A indústria dos souvenirs é muito conservadora. Para além da mãe de Cristo, a aposta continua nos galos de Barcelos (também estes com cores apelativas), nas molduras de cortiça e em canecas que resumem Portugal a três palavras: peace, love e beach, que brevemente deverão ser substituídas por outras três, um pouco menos simpáticas: international, monetary e fund.

 

Ainda dentro da temática religiosa, de Botton relata o encontro com dois padres que prestam serviços de aconselhamento espiritual no aeroporto. Um deles, o reverendo Sturdy, estava identificado como “Padre do Aeroporto”, o que não deve ser tão mau como certas paróquias do interior. O meu encontro aeroportuário com a religião foi com duas evangelizadoras não oficiais, a Dona Maria da Conceição e uma amiga, ambas Testemunhas de Jeová. Quando as encontrei, estavam a distribuir brochuras e a tentar, sem muito sucesso, expor as suas teorias sobre o fim do mundo. Maria da Conceição admitiu que costuma pregar a palavra de Deus no aeroporto, mas queixou-se da cada vez menor receptividade das pessoas: “Já têm a religião delas. Dizem-me que são católicas e que não querem outras religiões.” Percebi que o negócio espiritual não é muito diferente dos seguros, da televisão por cabo e do casamento. Mesmo quando não estamos muito satisfeitos, não nos queremos dar ao trabalho de mudar. Perante a minha simpatia natural e um segundo de distração, Maria da Conceição (tive o cuidado de não lhe chamar a atenção para a ironia do seu catolicíssimo nome) aproveita para me utilizar como cobaia das suas técnicas de evangelização. Cita de memória Isaías 43:10 e lança-se inesperadamente numa descrição minuciosa da história do dilúvio, salientando que as pessoas também não queriam ouvir o que Noé tinha para dizer. A narração é tão exaltada e pormenorizada que temo estar perante a última testemunha ocular da catástrofe bíblica. Terminada a prelecção, despedimo-nos com um sincero e recíproco desejo de felicidades apenas ensombrado pelo aviso de que o fim está próximo.

 

O interior do aeroporto é agradável, de uma dimensão humana que não intimida e que não inspira reverência aeronáutica. Isso também explica a animação de um pitoresco grupo de surfistas: cabelos amarelo-torrado, sacos rip curl e quicksilver, um rapaz que grita por uma Constança que não aparece. O que mais impressiona não é a juventude dos jovens, mas a perpétua adolescência de alguns quarentões que por ali circulam com fitas, cabelos grisalhos e encrespados, os dentes mais brancos pelo contraste com a pele curtida por horas de sol e sal. Têm o ar pacífico e boa onda dos hippies, embora não partilhem com estes a tendência para a meditação alienada ao som de Frank Zappa. Subitamente a frase “destrói as ondas e não as praias” parece-me uma verdade teológica e universal. Poucos segundo depois, os surfistas afastam-se e apercebo-me que a frase não passa de uma inocuidade de ambições viris, consciência ecológica e má publicidade. Logo a seguir, um sujeito com todo o ar de quem nunca destruiu ondas ou que saiba sequer nadar atravessa o meu campo de visão. Veste um pólo amarelo e, numa gritante atrocidade estética, uma gravata azul. É provável que esteja a acabar um doutoramento em física na Universidade de Lovaina.

 

Na maior livraria do aeroporto de Heathrow, Alain de Botton encontrou livros de Milan Kundera e Raymond Carver. Talvez eu não tenha procurado o suficiente, mas na livraria do aeroporto da Portela só me lembro de ver Nora Roberts, Katherine Neville e uma prateleira exclusivamente dedicada a Stephen King. Mas nenhum tipo de literatura me marcou mais do que a primeira página do Daily Mirror: “Giggs Tried to Seduce Lover’s Mother”, um título que arruinou anos de crença no fair play britânico. Outro tablóide inglês garantia que Giggs é viciado em sexo e atribuiu-lhe a mais elevada distinção da Ordem dos Viciados em Sexo, apelidando-o de novo Tiger Woods. No meio desta torrente de escândalos, e visivelmente incomodados com as más companhias, estavam dois exemplares da revista Ler.

 

Na zona de chegadas, eram vários os passageiros que regressavam a Portugal apoiados em muletas. As férias em climas tropicais inspiram nas pessoas uma confiança exagerada nas suas capacidades físicas e em músculos atrofiados por anos de escritório e facebook. Pergunto-me: por que é que as pessoas viajam? Podemos identificar dois grandes grupos: os profissionais e os turistas. Alain de Botton fala do significado que, no passado, as viagens tinham como ponto de partida para uma mudança interior, de que são exemplo as peregrinações. Também se socorre da observação de uma família britânica de partida para umas “férias de sonho” na Grécia para referir a futilidade de alguns dos nossos projectos de viagem. Esperamos que o facto de ir para um lugar qualquer, sobretudo se for um local com sol, praia e pequeno-almoço, resulte numa espécie de truque de magia em que, subitamente, todos os nossos problemas desaparecem e tudo à nossa volta é felicidade, bem-estar e pessoas bronzeadas. Que isto é uma esperança fútil, podemos constatá-lo naqueles questionários inofensivos através dos quais se procura obter declarações de celebridades sem violentar o seu direito à banalidade. Quase todas adoram viajar, que é o mesmo que dizer escapar. Da literatura de puro entretenimento diz-se que é escapista. Com a democratização das viagens aéreas, o escapismo mudou-se para a vida real. As pessoas, na verdade, já não viajam; escapam, escapadinham. Colorimos a nossa existência sedentária com pinceladas fugazes de nomadismo temporário. O verdadeiro nomadismo só é vivido pelos profissionais, como a personagem de George Clooney no filme (e livro) Nas Nuvens, que Alain de Botton descreve assim: “À noite, o aeroporto transforma-se num lar de espíritos nómadas, tipos que não se conseguem comprometer com nenhum país em particular, que fogem da tradição, que suspeitam da comunidade enraizada e que, portanto, só se sentem verdadeiramente confortáveis nas zonas intermédias do mundo moderno, paisagens golpeadas por depósitos de armazenamento de combustível, parques de negócios e hotéis de aeroporto.” Em última análise, as viagens aéreas criaram uma nova categoria de seres humanos, que deve estranhar que alguém adopte a postura de simples observador num aeroporto. Estar no aeroporto para observar e registar, sem origem ou destino, sem esperar ninguém nem ter ninguém à nossa espera é, porém, uma metáfora feliz da condição de espectadores da vida. À nossa volta circulam pessoas com destinos, esperanças, sonhos, saudades, nostalgia e anseios. A nós, que os observamos, impedidos de participar nesse fluxo contínuo de sentimentos, resta-nos a imaginação e as palavras.

10
Ago11

Huge Dicks and Monster Trucks

Bruno Vieira Amaral

Recebo com demasiada frequência para as minhas necessidades e-mails que me oferecem cremes, comprimidos e bombas para aumentar o pénis. A troco de uns quantos dólares, da ingestão de comprimidos não testados em seres humanos, prometem-me dimensões masculinas capazes de rivalizar com John Holmes e de fazer tremer de medo a mais escachada das actrizes pornográficas. É óbvio que nunca compraria esse tipo de produtos. Toda a gente sabe que as transacções na internet não são seguras. Um homem, na sua boa-fé, encomenda uns comprimidos e arrisca-se a ser chantageado por gente sem escrúpulos. O complexo de inferioridade, como todos os problemas dos críticos literários, pode ter origem em leituras erradas. Neste caso, em livros cujas dimensões viris das personagens são hiperbolizadas até ao nível equídeo da masculinidade. Perante estes leviatãs genitais o pobre leitor sente que guarda dentro das calças um inofensivo e infantil peixinho dourado, uma pila de anjinho barroco. E os escritores divertem-se nesta espécie de priapismo literário, como se as palavras não chegassem para descrever tão formidáveis atributos, como se nenhuma comparação fosse suficiente para dar uma ideia fidedigna do portento que concebem na imaginação.

 

Santino “Sonny” Corleone é uma das personagens abençoadas pela natureza e pela prodigalidade do autor. Mario Puzo elabora uma descrição física exemplar. Despacha o metro e oitenta, a cabeleira farta e ondulada, rosto grosseiro, lábios arqueados, queixo obsceno, força de um touro, para se deter na braguilha: era “tão generosamente dotado pela natureza que a pobre da sua mulher temia tanto o leito nupcial como os antigos hereges receavam a tortura.” Puzo, à boa maneira italiana, mete religião e sexo no mesmo saco e compara heresias a deveres conjugais. Mas não se pense que a enorme gaita de Santino só impunha respeito à “pobre” mulher; “mesmo as mais duras e valentes prostitutas, face à visão terrível daquele membro avantajado, exigiam o dobro do preço.” Ou seja, no leito conjugal ou no bordel, a pila de Sonny infundia o mesmo terror. Podemos admitir que as prostitutas exigissem o dobro por uma questão de facilidade contabilística, mas a mensagem implícita é que Sonny vale por dois. Certamente apiedado da sua personagem, Puzo arranja-lhe uma mulher à sua largura: Lucy Mancini, a quem um namorado acusara precisamente de ser demasiado larga. Devido a esta condição do estado do terreno, Lucy só tivera experiências sexuais insatisfatórias. Até que, inadvertidamente, ouviu a mulher de Sonny referir-se publicamente à equipagem do marido: “quando vi pela primeira vez aquela coisa do Sonny e pensei que teria de me aguentar com ela cá dentro, comecei a gritar de medo. Depois, ao fim de menos de um ano, tinha já as entranhas tão desfeitas como macarrão cozido. Quando me vieram contar que ele andava com outras, fui à igreja e acendi uma vela...” Ainda estou para ler passagem mais bela sobre os efeitos de uma pila gigante na morfologia feminina. Se a mulher de Sonny fosse alentejana diria “estou para aqui feita em migas”, como é descendente de italianos encontra uma metáfora bem mais apropriada. Esta descrição ginecológico-culinário-cultural tem um efeito fulminante na Lucy escachada. Como um verdadeiro empresário, Lucy vê uma oportunidade onde todos as outras só vêem um problema e apercebe-se disso quando sente “a carne a tremer entre as pernas”. “Aquela coisa” a que a mulher de Sonny se refere como se se tratasse de um fantasma, de uma forma de vida extra-terrestre ou de um animal não classificado pela zoologia desperta um interesse de índole amorosa em Lucy, como se naquele momento a existência da até então imaginada pila-gémea se materializasse numa “coisa” ao alcance da mão. É o momento mágico em que Lucy encontra um lingam à medida da sua yoni. Puzo é mais poético: “sentiu qualquer coisa quente a deslizar pelas suas coxas [a coisa, a coisa, duvido que quando Lucy sentiu qualquer coisa quente a deslizar-lhe pelas coxas não soubesse já que era a pila de Sonny, mas deve ser a isto que se chama a técnica do suspense]. Deixando cair a mão direita, segurou-a [à coisa] para a conduzir, enorme e grossa, feita de sangue e músculos, pulsando autónoma como um animal [Puzo consegue fazer de uma cena de sexo a dois um ménage a trois entre Sonny, Lucy e a pila de Sonny. As putas tinham razão: Sonny vale por dois]. Quase a chorar de êxtase e prazer [mas pelos vistos sem saber ainda que coisa era aquela], introduziu aquele membro vivo na sua própria carne inchada e húmida, respirando cada vez mais fortemente.” Puzo atinge aqui um nível superlativo na categoria da descrição de pilas: a coisa, o animal, o membro vivo é tão autónomo que é quase possível imaginá-lo, cansado de uma injusta divisão do trabalho, a abandonar Sonny e a mudar-se para um quarto alugado.

 

Em Cem Anos de Solidão, García Márquez também contribuiu para este campeonato de pilas literárias. Mas se José Arcadio, irmão do coronel Aureliano Buendía, é um rival de peso para Sonny Corleone, as mulheres do romance do colombiano são muito mais temerárias. Tal como Sonny, também José Arcadio se apresenta numa casa de má fama. No entanto, e ao contrário das prostitutas de O Padrinho, as meninas de Macondo disputam o privilégio de albergar o fenómeno. Não é José Arcadio que tem de pagar o dobro, são elas que têm de lhe pagar (e pagam) para o terem como cliente. Até mesmo uma cigana de “seios incipientes” e “pernas tão magras que, em diâmetro, não deviam ser maiores do que os braços” de José Arcadio revela uma disponibilidade física impressionante. Apesar do corpo de “rãzinha lânguida” aguenta o embate com “uma firmeza de carácter e uma valentia admiráveis”. As entranhas não se transformam em macarrão cozido, embora a pele desfeita num suor pálido, os olhos cheios de lágrimas e o corpo a exalar “um lamento lúgubre e um vago cheiro a lama” dêem conta de uma batalha jurássica. A masculinidade titânica de José Arcadio assusta a própria mãe, que “achava que a sua desproporção era uma coisa tão desnaturada como o rabo de porco do primo”, encanta a vizinha Pilar Ternera e põe Deus na boca de uma prostituta (“Que Deus to conserve!”).

 

De certa forma, as pilas de Sonny Corleone e de José Arcadio, exuberantes e festivas, são espectáculos de feira. Reflectem (ou talvez sejam a causa de) o carácter estouvado e imponderado dos seus proprietários (pede-se ao leitor mais paciente que estude as diferenças de personalidade entre irmãos – Sonny vs. Michael e José Arcadio vs. Aureliano. A propósito, é óbvio que, de acordo com este critério na distribuição de atributos, Fredo Corleone terá uma pila minúscula). Dirigem-se a um público feminino e observamo-las da perspectiva deste. Há outras duas pilas literárias que nos interessam (moderadamente, é certo), mas que são maioritariamente observadas por outros homens. A diferença é quase do tamanho das respectivas. O que nos primeiros casos é fonte de terror e desejo feminino, transforma-se, nos segundos, em argumento de legitimação da autoridade e da liderança. Falo (verbo falar) de Mr. Sammler’s Planet, de Saul Bellow, e 2666, de Roberto Bolaño. Mr. Sammler é um velho judeu fascinado por observar um carteirista preto em acção num autocarro. O carteirista (de quem não sabemos o nome) percebe que o velho pode estragar-lhe o negócio e, certo dia, segue-o e leva-o para o lobby de um prédio. É aí que abre a braguilha e expõe os seus “great oval testicles” e “a large tan-and-purple uncircuncised thing – a tube, a snake”. Mr. Sammler é forçado a olhar durante alguns segundos na direcção do “bicho”, após o que o carteirista recolhe a pila e parte sem dizer uma palavra. Deste exercício tácito de exibicionismo e de autoridade pode retirar-se o seguinte ensinamento moral: respeita quem tem uma pila grande, sobretudo se essa pessoa se dedica a actividades ilícitas. Mr. Sammler não é insultado, não é agredido, não é violado, mas ao obrigá-lo a olhar para a sua pila, o carteirista faz retroceder as relações de poder entre homens a um estado pré-histórico (cf. a cena do hominídeo assassino em 2001), dizendo, sem palavras e sem Bíblia ou Constituição (como cantava Miguel Ângelo), que é dali que todo o poder emana (ler o ensaio que ainda não escrevi Falocracia e as Letras dos Delfins – Uma Aproximação Mais ou Menos).

 

É também pelas dimensões fenomenais da sua pila que o General Entrescu ganha a fidelidade dos seus homens (2666, Roberto Bolaño), isto sem querer entrar em polémicas sobre o evidente homo-erotismo das instituições militares romenas. Afinal, os trinta centímetros (Bolaño é o único que não se escusa à precisão métrica) da verga do General eram “o orgulho do exército romeno”. A metáfora bélica sublinha a liderança carismática de Entrescu, mas não oblitera comparações mais triviais: “Mais do que um homem, contou Wilke aos seus camaradas, parecia um cavalo.” Os fabulosos atributos de Entrescu não o salvam, contudo, de um fim desgraçado às mãos dos seus soldados. Num episódio que deveria ser estudado por críticos literários mas também por psicanalistas, Entrescu é agredido até à morte e posteriormente crucificado, e o seu membro a abanar “pesadamente ao vento” é como que um estandarte da sua impotência para suster a revolta dos subordinados. Morto, o animal, o monstro, a coisa com vida própria, regressa à condição vegetal, a uma pesada murchidão, ao eterno repouso.

 

Este breve inventário de vergas imponentes e mangalhos mastodônticos não é uma compilação de amostras do génio metafórico aplicado à genitália masculina que nos ofereceu símbolos tão poderosos como “espingarda de carne” (agradeço a quem me chamou a atenção para esta preciosidade de Lídia Jorge) ou o chourição que aparece na charcutaria literária de José Rodrigues dos Santos. Aqui, trata-se apenas de detectar semelhanças entre personagens que partilham tão proeminente característica. Homens de acção (mafiosos, aventureiros, guerreiros e carteiristas) e pouca reflexão, embora Entrescu não seja um mero action man com pila de cavalo. O carteirista de Bellow é um representante da nova ordem social - o corpo arruma o intelecto – e é o único que não tem um final trágico (não conhecemos o seu destino). Os outros três são liquidados sem que aos assassinos seja dado um rosto: não sabemos quem mata José Arcadio, e Sonny Corleone e o general Entrescu são mortos por uma multidão de inimigos e de aliados, respectivamente. Haverá aqui um padrão de vingança psicanalítica? Não sei. O que é certo é que a conjunção de uma personagem de ficção e de uma pila grande é um mau prenúncio para a saúde das duas.

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