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Circo da Lama

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

Circo da Lama

30
Set11

Tiago Veiga: Uma Maratona

Bruno Vieira Amaral

Publicado na Ler

 

“Um cavalheiro a sério nunca deve contar ao mundo o que faz para se manter em forma.” Não sendo, segundo o próprio, um cavalheiro, Haruki Murakami conta ao mundo o que faz para se manter em forma no seu livro de memórias Auto-Retrato do escritor enquanto corredor de fundo. Menciona as distâncias percorridas, o ritmo, as músicas que ouve enquanto corre, todo um conjunto de informações que induz no leitor um sentimento de cansaço e de frustração. Quando um escritor se aventura no exterior dos seus domínios preferimos o relato de fracassos à exaltação de proezas. O famoso ensaio de David Foster Wallace sobre Roger Federer é mais admirável porque sabemos que Wallace foi jogador de ténis federado. O texto beneficia dos conhecimentos técnicos do escritor mas é a sombra do seu próprio fracasso enquanto tenista que, paradoxalmente, ilumina aquelas palavras (nas palavras do próprio “The Moments are more intense if you’ve played enough tennis to understand the impossibility of what you just saw him [Federer] do.” Ao descrever a arte de Federer em termos que o próprio tenista suiço seria incapaz, Wallace redimiu-se da sua carreira medíocre. Naquele ensaio, Wallace superou Federer. Foi o único grand slam conquistado fora dos courts. Joyce Carol Oates, que escreveu um livro sobre boxe, nunca terá subido a um ringue e só podemos imaginá-la a aplicar um uppercut metafórico. A abordagem teórica, partindo do ponto de vista do espectador, protege-nos da angústia da influência literário-desportiva. No entanto, quando Murakami escreve sobre a sua experiência de mais de vinte anos de prática desportiva, das maratonas que completou, é como se nos esfregasse na cara a sua filosofia de mente sã em corpo são. Nesse momento lamentamos que não tenha sido um cavalheiro. Mais ousado ainda é o livro de António Goucha Soares, A Maratona de Nova Iorque. Neste caso trata-se de alguém que não é um escritor profissional a escrever sobre a experiência de maratonista amador. Os únicos momentos de conforto para o leitor sedentário são as descrições de alguns tormentos por que o autor passou. O resto é a penosa confrontação com a nossa preguiça, falta de disciplina e de espírito de sacrifício. Provavelmente o autor pretendia que este fosse um livro que os talk-shows tipo Oprah definem como “inspiradores”, no sentido de inspirar pessoas comuns a desempenhar tarefas que ultrapassam nitidamente os limites das suas capacidades psico-motoras (como atravessar o canal da mancha a nado ou correr de minissaia no centro de Riad). Mas o livro só consegue inspirar um ódio visceral pela humanidade, sobretudo direccionado para a parte privilegiada que habita no hemisfério norte e que, devido a um complexo sistema de garantias políticas e assistenciais, se pode dar ao luxo de calçar umas sapatilhas ao fim da tarde e correr hora e meia no Parque das Nações. Em jeito de vingança (porque afrontas destas merecem respostas à altura) decidi relatar a minha própria experiência enquanto corredor de fundo e à qual chamarei, para que não restem dúvidas sobre a sua autenticidade, Tiago Veiga: Uma Maratona.

 

 

1-3km: Começo a maratona num ritmo tranquilo, adequado às minhas capacidades e que, à primeira vista, não difere muito de andar. Passa por mim uma senhora que empurra um carrinho de bebé a uma velocidade vertiginosa e, poucos metros à frente, sou ultrapassado por um casal de velhinhos. Não me preocupo. Isto é como acaba e aqueles insensatos não têm noção do que os espera. Já vi muitas maratonas na televisão e sei como é difícil aguentar a prova. Mesmo que se tenha o cuidado de ingerir bebidas isotónicas e barras energéticas é quase inevitável mudar de canal ao fim de meia hora. Entretanto, como me sinto bem, aumento o ritmo, o que me provoca uma dor lancinante (ou talvez seja excruciante, embora a escolha do adjectivo seja neste momento uma questão menor) na perna esquerda, obrigando-me a diminuir novamente o ritmo.

 

3-10 km: A maratona é, acima de tudo, um desafio psicológico e um teste à capacidade de resistência mental, mas podiam ter-me avisado sobre as cãibras. Lembro-me agora que, ao contrário de António Goucha Soares, não besuntei os meus mamilos com vaselina porque desconfiei que a actividade implícita nesta passagem não fosse a corrida: “Com os mamilos pacientemente besuntados com vaselina, vestido com um impermeável e chapéu de corrida, meti-me no carro em direcção à Expo.” (p. 31). Parece que me enganei. Não sei se será essa a causa, mas sinto-me apenas ligeiramente melhor do que Teresa no final de Amor de Perdição.

 

10-13 km: finalmente, recuperei um pouco. Voltei a respirar e o ritmo cardíaco estabilizou nas 250 pulsações por minuto. Perdi a audição do ouvido direito, o esquerdo está a sintonizar a RDP África e algures no meu cérebro um grupo de funcionários públicos húngaros discute, entre rajadas de metralhadora, os romances de Peter Esterházy. Nada disto me preocuparia se não estivesse a ser perseguido por Homais, Lheureux, o próprio Flaubert e a minha tia Isolina que, sem que eu perceba porquê, brande um exemplar de Pensamentos, de Pascal, e grita que “é necessário particularizar esta proposição geral”, palavras que me deixam à beira das lágrimas ou de uma paragem cardíaca.

 

13-17 km: primeiro abastecimento. Meia banana. Metade de uma banana já não é uma banana e deveria ser designada por um outro vocábulo, tal como beterraba ou torresmo, o que se traduziria num tremendo transtorno para os sectores do retalho e da restauração – o meu pâncreas acabou de segregar esta assustadora aliteração. Com tudo isto esqueci-me do abastecimento e tento distrair-me com temas, tentações, traumas, tungsténio...

 

17-20 km: admiro a capacidade de análise de Goucha Soares enquanto corre porque eu nem sei ao certo onde estou e nem sequer sentido faço nespereiras. Demografia: em Oxford, reparou na “crescente asiatização da população estudantil”; arquitectura: “É uma afronta à identidade nacional, por violar o espaço envolvente das zonas históricas, bem como uma denegação do direito dos cidadãos usufruírem plenamente a herança visual da cidade” (passagem inspirada nas diatribes de Miguel Sousa Tavares); sociologia: “O passeio das famílias deixou de ser na Marginal, para irem ao centro comercial”; política: “O Lula prometeu oferecer três refeições a todos os brasileiros (...). Com um programa destes, qualquer pessoa venceria as eleições num país sul-americano” (a não ser que um maquiavélico General também prometesse sobremesa e café). Poderia igualmente expor as minhas ideias sobre estes e muitos outros assuntos, mas a tarefa de respirar consome-me todos os recursos.

 

20-23 km: necessidades fisiológicas. Como é que não me lembrei disto? Estou à rasca para ler um parágrafo de Céline e nunca mais passamos perto de uma livraria ou de uma biblioteca pública. Será que algum dos concorrentes sabe um parágrafo de cor? Uma frase? Não aguento mais. Que se lixe! Também serve uma frase do romance de Vítor Serpa: “os meus mamilos inchados, a cara desfocada para não se saber quem sou e não ter de viver, para sempre, com a vergonha pública desta violentação.” Que alívio! Embora preferisse um comentário sobre as contratações do Benfica, não há dúvida que, nestas condições, reencontrar a palavra “mamilos” dá-me um ânimo suplementar.

 

23-29 km: a meia-maratona já ficou para trás e agora só o talento de um Dante ou de um crítico musical do Público pode descrever as minhas sensações. Eu sou qualquer coisa “que já não é electrónica ou jazz, mas sim uma forma espiritual assente num esqueleto” (cf. João Bonifácio, crítica a 93 Million Miles) e é como se todos nós fôssemos “espectros que se movem por entre camadas de origens remotas” (cf. Vítor Belanciano, crítica a Black Up). Onde encontrarei o Virgílio que me pergunte: “Porque vais desfalecido?” para que eu possa responder, citando o imortal Goucha Soares, “[tem] que ver com o exaurir da quantidade de glicogénio armazenado nos músculos das pernas.” Vejo o círculo infernal reservado aos maratonistas, onde para toda a eternidade milhares de quenianos e etíopes sofrem dores de burro atrozes e distensões musculares inaguentáveis.

 

 

29-35km: quase todos os maratonistas temem o “muro”, uma espécie de Adamastor que vive nos arredores do quilómetro 35 e que, durante o dia, trabalha numa empresa de congelados. Confirmo que o “muro” não existe. É uma construção poético-alucinada de mentes alteradas pela fadiga extrema e pela utilização de calções curtinhos. O que na verdade existe é uma escadaria de granito onde se acumulam os esqueletos dos maratonistas que não conseguiram passar deste ponto, no cimo da qual um ser com cabeça de homem e corpo de águia (o que lhe confere um aspecto mais patético do que bizarro) conduz um carro com rodas de fogo e, com a sua voz de buzina da Family Frost, promete descontos eternos em cursos de aramaico.

 

35-37 km: Onde é que eu estava com a cabeça quando resolvi correr a maratona? Demonstrando um nível cultural a que não posso aspirar, Goucha Soares colocou-se esta mesma questão, mas em italiano: “Chi me lo fa fare questa cosa”. Eu oiço múltiplas vozes dentro da minha cabeça mas a única que fala italiano é uma prostituta marroquina que agora se remeteu ao silêncio. Todas as outras, à excepção de uma que lê manuais de electrodomésticos, recitam artigos da Constituição da República Portuguesa. Nenhuma me ajuda a perceber porque me meti nisto. O grego que deu origem a esta tragédia morreu assim que chegou ao destino, o português Francisco Lázaro morreu porque se besuntou com qualquer coisa que não era vaselina, Carlos Lopes teve de vender aspiradores para sobreviver. Ou seja, os antecedentes demonstram que a vida depois da maratona oscila entre a morte e as vendas porta-a-porta. Mais uma vez: porque me meti nisto? Espero que dêem o meu nome a um pavilhão.

 

38 km: água, quantidades oceânicas de água, um céu de garrafões de água do Luso, água, wasser, water, eau, iágua, iemanjá, hectolitros de água, Alqueva...

 

38,9 km: arghnumf…tragh…coisas realmente formidáveis do ponto de vista…zqrunks…o imperativo ético…ah, maldito sejas, juiz Holden!...rosa mota rosa motarrosa, rosinha, motinha-rosita-motita, sopa de peixe de leite de mamas com natas de mamas com leite e peixe sem tetas com lama…rosebud…

 

39,5 km: principio a falar línguas de uma maneira estranha. Em alemão não passo do nível I: Der vater ist grösser als ich ou Hier fährt ein Mann mit einem Fiaker. O espírito de língua inglesa que me assalta é mais erudito e obriga-me a declamar coisas como “Mary moves in soft beauty & conscious delight / To augment with sweet smiles all the joys of the Night”. Também falo ibo e quimbundo mas são sobretudo palavrões e queixas contra a emancipação feminina.

 

40 km: incrível o efeito de uma bebida isotónica. Sinto o meu corpo flutuar por entre nenúfares, a deslizar por verdes prados onde crescem harmoniosamente limoeiros, cerejeiras e camponesas de peitos fartos e coxas abundantes. Oiço liras, harpas e um trombone. Pastores saltitam: um toca uma doce melodia na flauta, o outro tenta cravar-lhe uma enxada nas costas. Três belas nereides emergem das águas do Trancão, passeiam-se por entre os arbustos e, quando se preparam para seduzir os maratonistas, são atingidas pelos tiros certeiros, porém dóceis, de dois caçadores alentejanos. Crianças afagam cordeiros, ovelhas convivem com lobos, leões participam em reuniões sindicais. Reina uma serenidade celestial.

 

40,1 km: arghnumf…tragh…blargh...

 

41 km: dobro a esquina e entro na fase dadaísta da maratona: “Sporting tem hoje primeiro teste / ricos sem património / ser mesmo velho / frugal e ecológico / o Público errou / uma democracia europeia que vença a crise / com ajudas ao abate de navios de pesca / extradição para a Suécia / estrangeiros no país / Adebayor / lixo.” Os jornais diários são fontes inesgotáveis de poesia. Rendo-me!

 

42,185 km: Mehr Licht! Mehr Licht!

 

42,195 km: Consumatum est! Ainda consigo ver dois polícias municipais a jogar às cartas sobre a minha camisola suada.

 

29
Set11

Justino

Bruno Vieira Amaral

Na noite em que conheceu aquela que viria a ser sua mulher e mãe dos seus filhos, Justino violou-a. Não foi um começo auspicioso, embora ele não tivesse feito por mal. Fernanda, nome que a mãe lhe deu à pia em homenagem a uma ilustre avoenga, estava inconsciente e Justino, ou o que ainda lhe sobrava de vontade e de discernimento, interpretou o estado como um consentimento tácito. Naqueles tempos, no precário barracão de madeira que servia de sede ao clube local, organizavam-se semanalmente festas variadas: aniversários, casamentos e celebrações sob qualquer pretexto. Júlio Soares, que era presidente do clube além de dinamizador cultural e organizador de excursões a Arraiolos e Estremoz, o que significava que tinha o monopólio do microfone no autocarro, homem encorpado, para poupá-lo à acusação de obesidade, passava as primeiras horas em contra-corrente como um adulto numa festa de adolescentes, a apontar excessos, a perorar recomendações, morigerar comportamentos, serenar ânimos. Enfim, a envidar todos os esforços para tirar às festas o que estas tinham de festivo, esforços esses que eram invariavelmente gorados. A meio da noite, era frequente encontrar o Ti Júlio sentado sozinho a uma mesa a revirar os olhos enquanto admoestava copos, cinzeiros e outros objectos. Vinha gente de muito longe para as festa n’O Barracão, sobretudo nas noites em que actuava o Gica Sampaio, um angolano baixinho e de piada fácil, capaz de incendiar o público com dois acordes e que, durante a semana, trabalhava, sem particular afinco ou esmero, nas obras. Gica conhecia o seu público. Dava-lhes merengues e modinhas, sambas, salsas e, no momento em que o álcool produzia o efeito de transformar qualquer ritmo numa desculpa para roçar o corpo da companheira, slows acompanhados por uma púdica diminuição das luzes que acobertava toda a sorte de lascívias e atrevimentos: apalpões, dedos que se aventuravam para lá dos limites da decência, bocas que se beijavam com mais língua do que sentimento. O momento crítico da noite era quando as luzes se acendiam, como se o encanto dos vapores etílicos e da escuridão se quebrasse num rasgo eléctrico: murros, pontapés, chapadas, empurrões no meio de gritos, desfalecimentos e invocações da Virgem que não era conhecida por frequentar antros idênticos. Nas manhãs de Domingo não eram raros os corpos naufragados à porta do barracão entre poças de mijo, manchas de sangue, restos de vomitado e guardanapos de papel com autógrafos de Gica Sampaio, ele, que era analfabeto. Foi precisamente numa noite em que o guitarrista se excedeu na prosápia que Justino violou Fernanda, rapariga de uns respeitáveis noventa quilos, os quais, distribuídos sem critério pelo seu metro e sessenta mal medido, lhe conferiam a formosura e a elegância de um barril de azeitonas. Por solidariedade com um namorado que cumpria uma injusta pena de onze anos por assalto à mão armada e ofensas corporais agravadas, tatuara uma grande cruz celta no braço gordo e mole. Vestia minissaias que lhe deixavam as coxas mórbidas à mostra e que, juntamente com o cabelo longo, oleoso e de pontas espigadas, compunham um quadro geral de sensualidade reles e ordinária. Tinha um filho de pai incógnito, no que seria uma benevolente tentativa de honrar uma longa tradição familiar. Dizia-se que era cliente regular de uma curiosa que executava desmanchos com perícia de cirurgiã e sensibilidade de talhante. No mini-mercado onde trabalhava discutia indiscriminadamente com clientes e com o patrão, o sr. Leal, homem paciente e poupado, casado e com netos, mas cujo vício da pederastia quase lhe arruinara o casamento, o negócio e a saúde. Aos sábados à noite, Fernanda não perdia uma festa. A bebida predispunha-a a extremos de delicadeza e de meiguice insuspeitos no seu estado normal. Justino, por seu lado, saía pouco e evitava aglomerações, festividades e o convívio com outros seres humanos. Naquela noite, porém, movido por uma estranha vontade, foi ao Barracão. Pagou duzentos escudos à entrada, que davam direito a duas cervejas. Logo que viu Fernanda, que conhecia de vista mas com quem nunca falara, iniciou uma corte de olhares oblíquos, silêncios convidativos, toda uma panóplia de métodos demasiado subtis que escapavam ao radar de Fernanda, habituado a detectar num certo grau de brutalidade a manifestação de sentimentos ardentes, da paixão. Por isso, Justino só se chegou a ela quando, umas horas mais tarde, a encontrou deitada nos bancos corridos nas traseiras do Barracão. Aproximou-se, sussurrou o nome dela e, como não obtivesse resposta, afastou-lhe, num arremedo de sedução, uma mecha de cabelo do rosto e beijou-lhe, com a trôpega resolução dos bêbados, os lábios frios e fechados. Ela não reagiu, o que em vez de o fazer recuar, incentivou-o a prosseguir, agora com as mãos debaixo da saia curta, os dedos inquietos e excitados pela farta pelugem à volta do sexo. Com cuidados de arrombador de cofres, desapossou-a das cuecas e, com uma tímida erecção, penetrou-a sem arte, sem demoras. A bebedeira prolongou o acto mais tempo do que o normal num homem acostumados aos amores breves e sórdidos das putas. Quando terminou, Fernanda ainda dormia.

20
Set11

A Orgia Perpétua: Melodrama, Sexo e Fait-Divers

Bruno Vieira Amaral

Parti das coordenadas do ensaio de Mario Vargas Llosa sobre Gustave Flaubert – La Orgía Perpetua – para procurar entender o que eu próprio senti ao ler Madame Bovary. As razões do fascínio que o romance de Flaubert continua a exercer são explicadas detalhadamente por Vargas Llosa e de uma forma muito concisa por Milan Kundera no seu A Arte do Romance: “Com Flaubert [o romance] explora a terra até então incógnita do quotidiano.” O resto é literatura.

 

 

Antes de encontrar semelhanças entre Ema Bovary e Dom Quixote ou a Luísa de O Primo Basílio, antes de ver na obra de Flaubert não um exemplo de realismo mas uma reconfiguração realista do romantismo (Eça também o faz, no que poderíamos chamar de romantismo céptico), antes mesmo de ver em Ema o símbolo da revolta do indivíduo contra os seus limites sociais e sexuais, o que o mais me impressionou em Madame Bovary, a imagem que mais vezes recordei depois da primeira leitura do romance foi a descrição do jovem Charles no seu primeiro dia de escola. Porque é que essa passagem me marcou tanto, porque é que foi a marca mais funda de uma leitura que teve tantos momentos intensos? Talvez a descrição ajude a perceber: “O novo, que ficara no canto, atrás da porta, de modo que mal o víamos, era um rapaz do campo, de cerca de quinze anos, e mais alto do que qualquer de nós. Usava os cabelos cortados em franja sobre a testa, como um cantor de igreja de aldeia, e tinha aspecto comedido e cheio de acanhamento. Embora não fosse largo de ombros, o casaco de tecido verde com botões pretos devia deixá-lo pouco à vontade, e pela abertura das mangas podiam ver-se-lhe os pulsos vermelhos, habituados a estarem nus. As pernas, com meias azuis, saíam de umas calças amareladas, muito puxadas pelos suspensórios. [...] havíamos já terminado a oração e ainda o novo tinha o boné em cima dos joelhos. Era uma destas coberturas de ordem compósita, onde se encontram os elementos do boné de pêlo, do chapska, do chapéu redondo, da boina de lontra e do barrete de algodão, uma destas pobres coisas, enfim, cuja fealdade muda tem profundezas de expressão como o rosto de um imbecil.”

 

A descrição do chapéu de Charles Bovary prossegue mas o narrador já conquistou a nossa comiseração, a nossa empatia para com esta personagem: um rapaz do campo, como um cantor de igreja de aldeia, pouco à vontade, cheio de acanhamento, com um chapéu feio que lembra o rosto de um imbecil. Embora a descrição não omita o aspecto cómico da personagem e, pelo contrário, mencione cada pormenor patético, o narrador nunca “faz pouco” de Charles. Há uma ternura latente pelo objecto observado, como se a descrição que nasce da observação atenta criasse um vínculo de afecto que é mais forte do que a tentação mesquinha do escárnio e da ridicularização (“Pour qu’une chose soit interéssante, il suffit de la regarder longtemps”, disse Flaubert, um método que também é válido para as personagens). Os colegas gozam com Charles, mas o narrador, que foi um deles mas agora sabe mais do que eles, pede que o amparemos, que fiquemos do lado dele. O narrador não quer cuspir no prato de onde come – esta é a sua moral. Por muito ridículo que Charles seja, por muito frágil e pusilânime que seja, por poucas que sejam as suas qualidades, o narrador não será sobranceiro, não o abandonará à sua sorte. Desvia-nos do grupo dos colegas e faz de Charles Bovary o nosso semelhante. A fraqueza, a mediocridade e o cinzentismo de Charles Bovary são características literariamente tão dignas quanto a rebeldia, o egoísmo, o individualismo e a ousadia de Ema Bovary. De todas as muitas lições de literatura de La Orgía Perpetua, o fascinante ensaio de Mario Vargas Llosa sobre a obra de Gustave Flaubert, esta talvez seja a mais importante: não há temas menores, não há personagens menores; um homem medíocre na vida real pode ser uma personagem inesquecível na “realidade fictícia”. É esse o trabalho do artista: resgatar para a literatura, através do talento, da linguagem e da estrutura, as coisas comuns, as banalidades, o trivial, e também o que não é considerado digno, o vulgar, o ordinário. Só assim poderá aspirar à totalidade, à representação mais abrangente da vida tal como ela é, em todos os seus contrastes, em toda a furiosa combinação do sublime e do patético, do glorioso e do abjecto, do nobre e do vil. A recriação literária dessa totalidade, como afirma Vargas Llosa, não é uma cópia do real mas uma resposta ao real (p. 90), é a realidade fictícia. O próprio Flaubert terá sido mais exacto: “Je voudrais écrire tout ce que je vois, non tel qu’il est, mais transfiguré.” (p. 127). O realismo flaubertiano não é, portanto, uma reprodução científica e fotográfica do real, uma figuração,

 

                  (outros que vieram depois dele aspiraram a esse realismo directo, em que o narrador supostamente se apaga para deixar brilhar os factos. Esta ideia é, para Vargas Llosa, uma deturpação da teoria da impessoalidade do narrador de Flaubert. Flaubert queria apagar as marcas da presença, as intromissões abusivas do narrador no próprio texto, mas o autor permanece lá, omnipotente e dissimulado, como um Deus invisível. O estilo serve para esconder o autor, não para alardear a sua técnica, da mesma forma que os artifícios literários servem para esconder o artificial, para tornar a “realidade fictícia” plausível. Muitos anos depois do ensaio de Vargas Llosa um crítico tão arguto como James Wood ainda incorre no mesmo erro ao identificar o “paradoxo quase cómico entre o célebre desejo de Flaubert de que o autor deve ser «impessoal», ominisciente, ausente, e a distinta personalidade do seu próprio estilo, aquelas magníficas frases e detalhes” (A Mecânica da Ficção, p. 23). O paradoxo não é cómico e nem sequer é paradoxo. Não seria certamente Flaubert, que tinha uma consciência tão aguda do ritmo e da construção da frase, a anelar um relato maquinal, em transformar-se no que Vargas Llosa chama de “una impersonalidad relatora, en una máquina comunicadora de datos” (p. 187). Flaubert não queria escrever com o estilo indistinto e burocrático de uma bula de medicamentos ou um formulário das finanças. A impessoalidade não tem esse sentido – se assim fosse porque se preocuparia Flaubert com o ritmo, em eliminar as cacofonias, a harmonia da frase? Trata-se somente de evitar que a atenção do leitor se desvie do que está a ser contado para o como está a ser contado, por muito bem que esteja escrito. E de evitar que a cada linha o narrador surpreenda e interrompa o leitor mostrando-se num adjectivo improvável, numa cacofonia irritante ou num comentário intrusivo. No fundo, é uma ideia muito simples: desviar o foco do narrador e fazê-lo incidir sobre o que está a ser narrado. Porque o cinema nos permite ver melhor utilizemos como comparação o classicismo de Clint Eastwood. Eastwood raramente procura um plano “bonito”, que fale mais sobre o virtuosismo do que sobre a história, o não quer dizer que Eastwood não tenha um estilo e que esse estilo não seja identificável. Significa apenas que o assunto não é o seu virtuosismo, mas a história contada através de uma aparente ausência de estilo, de uma simplicidade, do plano justo, o plano necessário, auto-suficiente, não contingente. Daí que quando uma câmara faz um movimento estranho num filme de Eastwood aquilo soe a falso – é o caso da câmara que sobe e se afasta de Sean Penn em Mystic River, e a que faz o mesmo movimento em Hereafter, quando o irmão do rapaz morre)

 

               é uma transfiguração. O chapéu de Charles Bovary é o primeiro ícone dessa transfiguração. Embora a descrição do objecto seja exaustiva, a sua intenção vai muito para além de possibilitar ao leitor que “veja” o objecto. Através do chapéu nós vemos o próprio Charles Bovary. É essa a diferença entre figuração e transfiguração.

 

 

Melodrama:

 

            Vargas Llosa confessa que experimenta uma felicidade ilimitada quando uma obra utiliza “materiais melodramáticos dentro de um ambiente mais rico e com talento artístico”. Nesta afirmação está implícita a inferioridade e a pobreza artística dos materiais melodramáticos. É preciso que o talento artístico os insira num “contexto” mais nobre para que possamos desfrutar deles. Neste ponto, Vargas Llosa demarca-se da sensibilidade camp (e da teorização proposta por Susan Sontag), para a qual a “pobreza” do melodrama deve ser apreciada em si, por aquilo que é - uma estética do exagero, uma barroquização do sentimento – sem necessidade de a diluir num “contexto” mais rico. Vargas Llosa desclassifica esta teorização como um mero jogo intelectual, em que, através da interpretação, o que é pobre passa a ser nobre. Ao mesmo tempo reconhece que “melodrama” talvez não seja a palavra certa porque está demasiado carregada de conotações “artísticas” (do cinema, teatro, ópera, romance) e aquilo a que se refere é aos materiais melodramáticos da própria vida, ou seja, o seu interesse não é pela estética do melodrama mas pela sua ética. A colisão com o camp é óbvia: ao camp interessa-lhe o melodrama enquanto estética do exagero sentimental, tão exagerado que se torna anti-natural. O ataque de Vargas Llosa contra a abordagem da sensibilidade camp ao melodrama não visa apenas a teorização mas estende-se contra a prática artística que utiliza o melodrama com uma “distância irónica” e com uma “superioridade intelectual ou moral”, aquilo a que Susan Sontag chama de camp deliberado (e que a própria reconhece como sendo quase sempre inferior ao camp ingénuo). Portanto, quando Vargas Llosa se refere aos materiais melodramáticos devemos entender que são os materiais normalmente associados ao melodrama (sentimentais, patéticos, estúpidos) e que a sua pobreza está ligada a essa utilização e não ao facto de serem elementos inexistentes na experiência humana. O que pode criar alguma confusão porque Vargas Llosa tenta delimitar determinadas ocorrências da existência humana com uma definição que já reflecte a utilização artística (o melodrama) dessas mesmas ocorrências. Vargas Llosa não está “contra” o que a vida tem de melodramático mas contra a melodramatização da vida através da arte, reduzindo experiências profundas a um exagero caricatural, que estupidifica o patético, o sentimental, como se não fizessem parte da vida mas pertencessem exclusivamente a uma esfera estética, anti-natural, artificial. Isto é precisamente o que a sensibilidade camp valoriza: a melodramatização do sentimento até que a sua expressão estética não seja apenas autónoma mas a própria negação do sentimento que lhe deu origem. É um exagero das características da paixão até que a paixão seja apenas os seus contornos grotescos e ridículos, até que não nos possamos identificar com aquele sentimento e a adesão seja apenas possível através do jogo intelectual. Há, contudo, uma proximidade entre Vargas Llosa e o camp porque o escritor peruano aprecia “la perversión del gusto entronizado en cada época, de esa herejía, contrapunto, deterioro (popular, burguês y aristocrático) que en cada sociedade sufren los modelos estabelecidos por las elites como patrones estéticos, linguísticos, morales, sociales y eróticos” (p. 29), uma frase que poderia constar do ensaio Notes on Camp, de Sontag. A única diferença assinalável é a de que Vargas Llosa propõe a dissolução desses elementos num contexto mais rico.

 

Um bom exemplo do que pode ser uma síntese equilibrada entre o camp e o tratamento sério do melodrama é o filme (outra vez o cinema) Tudo sobre a minha mãe, de Almodóvar. Tem elementos que derivam claramente da e apelam à sensibilidade camp (os travestis, o exagero, a citação nostálgica) mas insere esses elementos num contexto mais rico. Eis a crítica de Roger Ebert ao filme: “"You don't know where to position yourself while you're watching a film like All About My Mother, and that's part of the appeal: Do you take it seriously, like the characters do, or do you notice the bright colors and flashy art decoration, the cheerful homages to Tennessee Williams and All About Eve, and see it as a parody? . . . Almodovar's earlier films sometimes seemed to be manipulating the characters as an exercise. Here the plot does handstands in its eagerness to use coincidence, surprise and melodrama. But the characters have a weight and reality, as if Almodovar has finally taken pity on them - has seen that although their plights may seem ludicrous, they are real enough to hurt." O Almodóvar de Tudo Sobre a Minha Mãe é empático com as suas personagens, não as ridiculariza, dignifica-as; não as reduz a uma excentricidade estética, humaniza-as. Obriga-nos a ver para lá das aparências, do superficial. Também a ironia cumpre por vezes essa função “realista” de desmontar as construções falsas do poder, seja o poder político, mediático, artístico. O distanciamento irónico não é exclusivo do camp, é a marca de água do pós-modernismo. No ensaio E Unibus Pluram, David Foster Wallace identificou a ironia dos romancistas pós-modernos como a resposta natural e necessária à hipocrisia da sociedade: “It’s not one bit accidental that post-modern fiction aimed its ironic cross hairs at the banal, the naive, the sentimental and simplistic and conservative, for these qualities were just what sixties TV seemed to celebrate as American” (p. 182). Numa sociedade em ebulição, os poderes, sobretudo o mediático, insistiam numa imagem falsa de harmonia, autoridade, conservadorismo. Se a ironia dos pós-modernos punha em causa o discurso oficial do poder, a distância irónica do camp punha em causa a noção de autoridade no julgamento artístico. Não era, em alguns casos, unicamente um exercício estético, um jogo intelectual. Como escreveu Foster Wallace: “the rebellious irony in the best postmodern fiction wasn’t only credible as art; it seemed downright socially useful” (p. 183). Nas palavras de Alberto Manguel, “as histórias continuam a mostrar aos leitores cidades imaginárias cujos ideais provavelmente contradizem ou subvertem os da República oficial.” (p. 35, A Cidade das Palavras). Se entendermos “cidades imaginárias” como realidades fictícias concebidas pela imaginação e “República oficial” no sentido mais lato de poder, compreendemos a função subversiva e justiceira do romance.

 

O problema surge quando a ironia se torna a única expressão válida e aceitável, quando qualquer manifestação de sentimento é vista como sentimentalismo, qualquer expressão genuína é vista como ingenuidade, qualquer ideia de autoridade é vista como autoritarismo. A ironia, tão útil a desmascarar o poder e as aparências, transforma-se então num jogo intelectual, autofágico e estéril. Fechada sobre si mesma, a ironia passa a ser esteticamente insignificante e socialmente inútil. Os efeitos desta postura distanciada não se esgotaram na literatura, mas atingiram a sociedade no seu todo, da forma como olhamos os políticos à própria noção de cultura. Numa polémica conferência proferida em 2010, Vargas Llosa afirmou: “Queríamos acabar con las élites, que nos repugnaban moralmente por el retintín privilegiado, despectivo y discriminatorio con que su solo nombre resonaba ante nuestros ideales igualitaristas y, a lo largo del tiempo, desde distintas trincheras, fuimos impugnando y deshaciendo a ese cuerpo exclusivo de pedantes que se creían superiores y se jactaban de monopolizar el saber, los valores morales, la elegancia espiritual y el buen gusto. Pero lo que hemos conseguido es una victoria pírrica, un remedio que resultó peor que la enfermedad: vivir en la confusión de un mundo en el que, paradójicamente, como ya no hay manera de saber qué cosa es cultura, todo lo es y ya nada lo es.” As implicações do uso e abuso continuados da distância irónica, no fundo, uma forma de negar qualquer autoridade e sinceridade na arte, transcendem o campo estético, permeiam toda a sociedade. No que à literatura diz respeito, Foster Wallace indicou as consequências dessa insistência na ironia com um exemplo político: “Think, if you will for a moment, of Third World rebels and coups. Rebels are great at exposing and overthrowing corrupt and hypocritical regimes, but seem noticeably less great at the mundane, non-negative tasks of then establishing a superior governing alternative. Victorious rebels, in fact, seem best at using their tough cynical rebel skills to avoid being rebelled against themselves – in other words they just become better tyrants. And make no mistake: irony tyrannizes us.” A ironia tiraniza-nos porque, diz Foster Wallace, não conseguimos abatê-la. Como nunca se compromete com qualquer ideia (porque isso seria ingenuidade), a autoridade negativa e sofística da ironia é simplesmente imbatível. Qualquer tentativa de obrigar o ironista a comprometer-se é denunciada como um ressurgimento da velha noção da autoridade opressora. O modo de contar histórias que subverte a República oficial torna-se, ele próprio, uma República oficial e inexpugnável. O diagnóstico de Foster Wallace (que data de 1991) aplica-se à ficção americana e aos efeitos perniciosos da cultura televisiva (irónica, metaficcional) nos jovens escritores americanos, que continuavam a usar o mesmo remédio dos antecessores para uma doença que já não existia. Embora a homogeneização cultural fosse (e continue a ser) uma realidade, romancistas de outros países tinham preocupações muito diferentes das dos romancistas americanos. A cultura televisiva dizia-lhes menos, a realidade política e social era muito mais transparente, o que pedia respostas literárias mais “directas”, menos distanciadas e menos irónicas. Leia-se o que escreveu Milan Kundera sobre os dois pólos geográficos que mais contribuíram para a reinvenção do romance no século XX, a Europa Central (anos 20, 30 e 40) e a América Latina (anos 50, 60 e 70) em Um Encontro, na carta que dirigiu a Carlos Fuentes. Vargas Llosa pertence a um destes pólos. A ironia enquanto jogo intelectual não lhe podia interessar, havia abordagens mais “sérias” (palavra abominada pela geração do Maio de 68) e mesmo o aparentemente ridículo da existência humana devia ser tratado com dignidade. Em última análise, situar os materiais melodramáticos num ambiente mais rico, significa a dignificação dos aspectos mais patéticos da existência humana. O exacto oposto da ironia pós-moderna que consiste em ridicularizar os aspectos mais nobres da existência humana: “Se trata, en suma, de lograr esta simbiosis: dar vida, mediante un arte depurado y exquisito (aristocrático, dice él), a la vulgaridad, a las experiencias más compartidas de los hombres.” (p. 214)

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