"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos
17.10.11

Às oito da noite

Oiço pontualmente a voz do meu vizinho

A chicotear paredes, vidros, filhos

 

E não entendo esse desespero

Que grita pontualmente,

Como se a discórdia tivesse horas certas

Como as de um medicamento que se toma

Contra a vida.

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13.10.11

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8.10.11

"Neste reino ou numa província da Nova Espanha, indo certo espanhol com seus cães à caça de veados ou de coelhos, um dia, não achando caça, pareceu-lhe terem fome os cães, e tomando um rapazinho a sua mãe com um punhal lhe corta aos bocados braços e pernas, dando a cada cão sua parte, e depois de comidos aqueles bocados da criança, a todos eles atira o corpito para o chão. Veja-se por aqui quanta era a insensibilidade dos espanhóis naquelas terras, e como os conduziu Deus in reprobus sensus, e em que estima têm aquelas gentes, criadas à imagem de Deus e por seu sangue redimidas. Pois ainda piores coisas veremos mais adiante."

 

Bartolomé de Las Casas, Brevíssima Relação da Destruição das Índias, trad. Júlio Henriques, Antígona

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3.10.11

Envelhecer é isto: começam a faltar-nos pessoas a quem pedir desculpas. Não aquelas que morrem, essas estão sempre disponíveis, uma disponibilidade eterna e branca, mas aquelas que estão vivas, muralhadas pelo silêncio, fartas da palavra e da lógica, dos nexos de causalidade, “eu fiz isto porque tal”, “eu estava para fazer isso mas não sei o quê”, isso cansa, meu amigo, essa ladainha interminável de justificações, promessas, a insistência em sermos tantas palavras e tão pouca carne, isso corrói, a pessoa cansa-se e desiste, “não quero ouvir mais nada”, tantas vezes que ouvi este desabafo da minha mãe, até ao dia em que ela o disse a sério sem o dizer, porque quando não queres ouvir mais nada já não fazes um último esforço para manifestar essa vontade, recolhes-te e calas-te, deixas os outros lá fora, no amparo ilusório das palavras, com o ruído incessante das desculpas, dos perdões suplicados e traídos, decides ignorar, fechas a porta, o mundo que continue, não te importas, sempre foi assim, maridos que se explicam às mulheres, filhos aos pais, empregados aos patrões, políticos aos eleitores, réus aos juízes, tantas palavras gastas para ludibriar, para transformar as acções em intenções, os crimes em necessidades, os erros em deslizes, a realidade numa merda de plasticina, moldável e elástica, “não era essa a minha intenção”, “eu precisava mesmo daquilo”, “não reparei”, sempre à espera da absolvição, “não faz mal”, “vê lá se tens mais atenção da próxima vez”, “não te preocupes, isso resolve-se”, até que essa capacidade de absorver, de desculpar, de ignorar, se esgota e nunca mais queres ouvir nada. Esta história contou-ma o teu pai, podes confirmar com ele, ele já estava na segurança, num supermercado, e apanha um gajo a roubar, foi atrás dele, agarrou-o e ele com os bolsos cheios de desodorizantes e cremes, “amigo, tenho os filhos em casa cheios de fome”, percebes? Palavras, palavras, filhos, fome e um casaco cheio de desodorizantes, nem se deu ao trabalho de fazer sentido porque aquele discurso, aquela diarreia do pedir perdão, colara-se-lhe ao cérebro, à língua, um gajo deixa de ouvir, escolhe não ouvir mais, chega a uma idade em que pode abdicar da audição, tal como um cego conhece o mundo sem o ver, o sítio onde estão as chávenas e os degraus, os interruptores e as cadeiras, o homem que desiste de ouvir também sabe a exacta localização das palavras, dos pedidos de perdão, das justificações, das exigências, não precisa de as ouvir, fê-lo durante a vida inteira, basta aquiescer, sabes o significado dessa palavra? Não te preocupes. Tens muito tempo para aprender.

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