"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos
24.11.11

Da mãe, os filhos só vêem o que é mãe. Só conhecem a mãe. A mãe é sopa e o cheiro dos refogados. A mãe é a mão que esfrega as costas no banho, que escova o cabelo enriçado, que seca o cabelo molhado, a mão que afaga, que estraga. A boca que sopra a sopa, que sopra a ferida. Os filhos são os parasitas da mãe. Comem-lhe o coração que cresce da noite para o dia para que nunca lhes falte o pão-coração. O que é que a mãe quer? A mãe não quer nada. Quem tem mãe, tem tudo, diz a quadra, e quem é tudo não precisa de nada. Então, o que há-de querer a mãe? Não é dela o coração que nos alimenta, que bombeia o amor que nos entra nas veias, que nos corre na casa? E quem é que quereria a mãe? Se a mãe ainda quer, se a mãe ainda sonha, se a mãe ainda crê, perde tempo. A mãe tem dois filhos. Nós somos tudo o que a mãe pode querer, tudo o que a mãe está autorizada a querer. Quando respira, é mãe. Quando passa a roupa, é mãe. Quando come, é mãe. Quando aquece o prato solitário no micro-ondas, quando, à noite, vê televisão em silêncio, quando adormece sozinha na cama, quando na cama acorda sozinha, quando o corpo se move nos sonhos e não toca ninguém, quando toma banho e a água escorre pelos veios do corpo e só a água visita certas sombras de corpo, é sempre mãe e mãe e mãe. A mãe não pode dizer nada. Não pode dizer que está farta desta merda e que quer desistir, que está cansada de ter uma vagina e um útero que só existem nas consultas de ginecologia, que só existem para as dores, os miomas, as hemorragias. A mãe não pode sofrer por ela, porque mãe é mãe, só há uma, mater dolorosa, pietà de filho morto nos braços; e a piedade que ela merece? Os braços que hão-de segurá-la? Ontem, a mãe apaixonou-se e os filhos fizemos cara de nojo, apontámos os nossos dedos mimados ao coração da mãe, que é nosso, que diariamente o comemos. Quem nos dará o coração? Quem se alimenta da felicidade selvagem que a mãe descobriu? A mãe apaixonou-se e isso foi um erro e um erro é vida. Agora, a mãe pode voltar a sorrir por ela, a sofrer por ela, a comer o seu próprio coração. Mas nós, filhos-parasita, não queremos a mãe-canibal. O livro começa assim: “Ontem, a mãe morreu.” E prossegue: “Ontem, por fim, voltou a ser apenas uma mulher.”

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21.11.11

Publicado na Ler

 

Um Tigre nas Florestas da Noite, Margaux Fragoso, Porto Editora

 

Imagine o leitor a história de uma relação amorosa entre uma criança de sete anos e um homem de cinquenta. Imagine que esta história é narrada em retrospetiva na primeira pessoa pela criança, agora mulher. O exercício é quase inconcebível porque estica ao máximo a “suspensão da descrença” e, ao mesmo tempo, os limites da imaginação moral do leitor. Agora, em vez de suspender a incredulidade, ative a credulidade, porque Um Tigre nas Florestas da Noite não é ficção, são as memórias da autora, Margaux Fragoso.

 

Um livro de memórias, apresentado enquanto tal, estabelece um contrato tácito com o leitor. Diz-lhe que os factos narrados, ainda que diluídos pelas impressões subjetivas da memória, são reais. A este contrato o escritor pode adicionar umas cláusulas que têm por objetivo desestabilizar a perceção do leitor. As cláusulas são a estrutura narrativa e a linguagem, que pertencem ao domínio da ficção. Não se trata de fraude ou má-fé (acrescentar factos fictícios a uma autobiografia, por exemplo), mas da exposição dos factos num quadro narrativo associado à ficção. Digamos que é um pequeno e admissível truque a que o memorialista recorre para levar o leitor para um território híbrido e que alguns ficcionistas utilizam de forma inversa, narrando ficções como se fossem factos históricos (pensemos, para não gastar mais tempo, na abertura de O Nome da Rosa, de Umberto Eco). A narradora de Um Tigre nas Florestas da Noite vive numa espécie de indecisão camuflada, de cuja verdadeira intenção nos vamos apercebendo ao longo do livro. Vejamos este exemplo logo nas primeiras páginas: Fragoso transcreve, em discurso direto, uma história que o pai lhe contou há muitos anos; recorda-se de todos os pormenores (“Fez uma pausa para beber um gole de cerveja e continuou.”). Na mesma página, conta uma das brincadeiras que fazia com Peter (o homem de cinquenta anos) e confessa ao leitor “Não me lembro bem da história”. No primeiro momento, quem nos conta a história é a narradora omnisciente que se lembra de todos os detalhes de uma conversa tida há anos. A seguir, é a memorialista sincera que se dirige ao leitor admitindo as limitações da memória. Saltamos da tirania do narrador omnisciente para a humildade do memorialista falível.

 

Em que é que ficamos? Partimos, como sempre, das condições contratuais determinadas pela própria escritora. Fragoso quer que a sua história – as suas memórias - seja lida desta forma. Cabe-nos perceber as razões de uma estrutura narrativa tão oscilante, tão arriscada, cujo maior risco é o de parecer uma tentativa de envernizar os factos, de embelezar as memórias, de pegar em migalhas dispersas pelo tempo para compor um bolo comemorativo. Mas não é o que acontece aqui. A estrutura está intrinsecamente ligada à matéria sensível relatada (o abuso continuado de uma criança, a própria autora) e à vontade de expor o comportamento de um pedófilo de um modo que não seja condicionado pelo juízo moral imediato, de um modo que permita que ele se revele gradualmente. A “humanização” do monstro, aqui, não é mais do que deixá-lo, narrativamente, à vontade para que o possamos observar em ação, sem que à partida olhemos para ele como um monstro. Porque os abusos deste género nem sempre são cometidos com recurso à violência ostensiva, nem sempre parecem abusos. Aliás, o estratagema de um pedófilo como Peter é esse: o de fazer passar um abuso por uma relação amorosa consentida (daí a escolha de palavras no início deste texto), entre iguais, escolhendo alvos suficientemente vulneráveis para entrarem nesse universo. O pedófilo constrói uma fantasia à volta do abuso e – este é o seu trunfo – tem a capacidade de a impingir às vítimas. É uma teia pacientemente tecida com a finalidade de o abuso não parecer abuso, de o agressor não parecer agressor e de a vítima não se sentir vítima.

 

Em vez de gritar a sua dor, em vez de escrever um livro-choque, Margaux Fragoso recorreu a uma trama narrativa que desmonta, com idêntica paciência, a teia do agressor. A crueza explícita das cenas de sexo descritas pela narradora e a colaboração ativa da criança/adolescente nas fantasias do agressor não são uma exploração sensacionalista, nem uma culpabilização da vítima. São uma demonstração do funcionamento da teia, do quão persuasivo consegue ser um pedófilo, da sua capacidade de distorcer a realidade e de a impor aos outros. A dada altura, a vítima cai numa violenta dependência emocional do agressor: “Sem Peter para me ver, para me adorar, como é que eu poderia existir?” (p. 255); “Jamais trairia a única pessoa no mundo que se preocupava verdadeiramente comigo” (p. 265); “eu era a droga de Peter e ele era a minha droga” (p. 286). A fantasia “suave, afável, insinuante” impõe-se brutalmente com toda a sua força destrutiva. Da mesma forma, a verdade implacável dos factos e da memória emerge da estrutura narrativa oscilante que a autora escolheu para a revelar.

 

Considerada esta informação, será, pois, legítimo fazer uma avaliação literária da obra? Sim, porque Fragoso escolheu um edifício literário para alojar as suas memórias, porque assumiu, tal como um romancista, as liberdades no discurso (direto e indireto) e também porque a sua linguagem introduz elementos cujo efeito não é o de reforçar a veracidade dos factos mas o de produzir “realismo”: desde a típica observação realista, quase neutra “A luz que entrava pelas janelas refletia-se nas tábuas do soalho” à sequência de metáforas neste excerto: “Enroscava a boca à volta dele, como uma cascavel sem presas devorando um rato vivo. (...) Depois, tratava das veias, da pele brutalmente esticada, cheia de estrias, retesada e saliente ao mesmo tempo, aquela pele lá em baixo que parecia a pele de alguém que sofrera uma queimadura grave, encrespada tal como a pele da nossa mão ficaria se a aproximássemos das chamas para logo a retirarmos.” Sendo incursões literárias meramente competentes (qualquer comparação com Lolita, de Nabokov, é delírio) não comprometem, contudo, a estabilidade factual da história (aquilo que em termos ficcionais designamos por verosimilhança). É um livro das memórias dolorosas de feridas infligidas sob o disfarce do afeto. O mérito de Margaux Fragoso é conseguir desmascarar esse arremedo de afeto e deixar visíveis as feridas sem demasiado verniz literário.

 

link do postPor Bruno Vieira Amaral, às 13:28  ver comentários (1) comentar

3.11.11

Peço a atenção dos telespectadores para as capas que se seguem:

 

 

 

 

Por um inexplicável fenómeno editorial e atmosférico, ambas as revistas coincidem no tempo (esta semana) e no espaço (o das bancas). Para facilitar, chamemos a isto democracia. De um lado, temos um encontro entre dois génios, ocorrido (assim reza a capa) a 9 de Outubro, em Cambridge, lugar onde, presumo, as pessoas são muito inteligentes e dão joviais passeios pelas ruas discutindo filosofia e literatura clássica depois de manhãs intensas de salutar exercício físico. Do outro – porque, nestas coisas de cultura, a TV Guia não gosta de ficar para trás –, temos uma concorrente da Casa dos Segredos, famosa, entre outras coisas, por desconhecer o paradeiro de África e por massajar subrepticiamente a pudenda de um colega de infortúnio. Diz a capa da TV Guia que Cátia, assim se chama a rapariga, tem um problema mental, o que só pode ser considerado um progresso porque tudo indicava que teria vários. Para divertimento geral da nação, Cátia mostrou-se ser mais burra do que o comum dos seus compatriotas: acha que Londres é um país, que África fica na América do Sul (uma curiosa variação da teoria das placas) e – segundo me constou – tem por hábito analisar os mapas ao contrário, no que considero uma metáfora arguta sobre o estado actual da economia.

 

Feito o intróito, devo começar por defender a pobre rapariga, uma vez que os outros dois senhores encontrarão com facilidade quem os defenda e até quem imediatamente se ajoelhe perante a imagem da proximidade de dois mitos. A ignorância geográfica de Cátia, não sendo matéria de louvor, não será motivo para escárnio, a não ser para aqueles que estão sempre dispostos a atacar o ensino público e a lembrar o inelutável atraso cultural do povo lusitano. É óbvio que no sistema de valores de Cátia – mesmo ignorando o eventual problema mental referido na capa da TV Guia – a localização de África, o próprio conceito de África, dos continentes e do mundo, são informações neglicenciáveis, da mesma forma que a maior parte dos seres humanos vive bem sem saber o que caralho é um neutrino (a esse propósito, deverão ler a entrevista de João Magueijo, também neste número da Ler). De manhã, quando me levanto, e apesar de saber quem são George Steiner e António Lobo Antunes, é-me bem mais útil saber onde é e como chegar a Benfica, onde trabalho. Pequena nota: há uns meses, fui almoçar a um restaurante em Benfica e quem é que estava no mesmo restaurante? António Lobo Antunes. Partilhar o mesmo restaurante com um génio fez-me ter vontade de envelhecer depressa para lamentar o tempo em que era normal ir almoçar a um restaurante em Benfica e encontrar figuras da literatura mundial, Ah, tempos que não voltam mais! Retomo. Facto curioso é que, no meio de uma conversa eruditíssima, em que praticamente não há uma frase que não seja abençoada por um nome incontornável da cultura ocidental (vou ser rápido: Tchékov, Céline, Juvenal, Swift, Platão, Malraux, Diderot, Allan Poe, Kant, Jünger, Sócrates, Jesus Cristo, Bourget, Bergson, Flaubert, a puta da Bovary, Balzac, Tolstói, Pound, Stendhal, Emily Brontë, Ovídio, Horácio, Virgílio, Camões, Melville, Cervantes, Benn, Faulkner, Nabokov, Borges, Pessoa, Gogol, Zweig, Conrad, Valéry, Proust, Shakespeare, Koestler, Gide, Greene, Mozart, Schubert, Tintoretto, Rembrandt, vinho branco), falam sobre a experiência africana de Lobo Antunes. Diz o velho mestre: “Para mim, esta questão da tortura é enorme, capital. Podemos nós tocar num outro ser humano? Espero nunca ser capaz disso. Mas, em Angola, teve com certeza de fazer esta escolha.” E é então que se abre um abismo entre estes dois homens, rapidamente colmatado pela educação e elegância de quem sabe estar a viver um momento cerimonioso, um chazinho de intercâmbio de inteligências superiores. No que diz respeito a África e, mais precisamente, à guerra (ou à tortura), estes homens vivem em mundos completamente diferentes que nem os milhares de livros que leram podem unir. A África de Lobo Antunes, a noção de tortura, é algo que o escritor conheceu em primeira mão. A África de Steiner é um ponto num mapa, algo que conhece dos romances de Conrad, e o seu conhecimento da tortura uma mera hipótese académica. Outra vez Steiner: “Em Angola, teve conhecimento direto de experiências atrozes, terá visto com os próprios olhos violências e sofrimentos que eu, graças a Deus, só conheço em segunda mão e que encontro na sua obra, que nos ajuda a compreender esta enorme injustiça (...)”. Get it? Não quero desvalorizar a erudição e o saber livresco. Quero apenas sublinhar que esse tipo de conhecimento é apenas o reverso da ignorância da pobre Cátia. Para Steiner e para Cátia, para nós que lemos muito e vemos muitas séries de televisão, África é apenas um ponto num mapa, uma ideia, uma abstracção. A diferença é que a pobre Cátia não sabe onde raio fica esse ponto no mapa. Nós, com os livros, e a pobre Cátia, com a sua estupidez refulgente, vivemos em segunda mão.

 

Enquanto escrevia estas linhas no barco, duas senhoras sentadas atrás de mim deliciavam-se com a ignorância de Cátia: “Diz que Londres é um país – é uma barbaridade”, dizia uma, ao que a outra acrescentou melancolicamente, como se contemplasse a terra devastada de toda uma civilização: “É muito triste.” Até se pode dar o caso de as duas senhoras saberem quem é António Lobo Antunes, mas duvido que saibam quem é George Steiner e o que ele já escreveu sobre a barbárie e a cultura. Para elas, passageiras triviais do barco e do mundo, a barbárie está para além das muralhas daquilo que conhecem (um reflexo historicamente compreensível e humanamente perdoável), a barbárie começa na cabeça da pobre Cátia. Daqui a uns meses, já não se recordarão da infeliz. Cátia permanecerá esquecida, porém eternamente visível e disponível, nos arquivos de milhões de vídeos do youtube. Ninguém guardará na memória que, durante uma semana, partilhou as bancas de jornais com aqueles dois gigantes, cada um especialista na sua respectiva forma de ignorância, como é próprio do ser humano.

 

link do postPor Bruno Vieira Amaral, às 21:58  ver comentários (20) comentar

 
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