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Circo da Lama

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

Circo da Lama

30
Dez11

Iluminação de Baixo Consumo

Bruno Vieira Amaral

Sobre Um Mundo IluminadoUma Leitura dos Clássicos Ocidentais em Busca de um Sentido para uma Era Secular – Hubert Dreyfus e Sean Dorrance Kelly, Lua de Papel, trad. Francisco Gonçalves

 

Publicado na Ler:

 

A proposta de Hubert Dreyfus e Sean Dorrance Kelly, dois professores de filosofia, é demasiado apetecível para uma época da qual a experiência do sagrado se parece ter evaporado ou, pelo menos, migrado para fenómenos menores ou de importância circunscrita (eventos desportivos, espectáculos musicais, etc.). Pegar nos clássicos da literatura e da filosofia e procurar neles um sentido para as nossas vidas seculares, desprovidas de transcendência, soa a receita mágica, à combinação ideal entre o deleite estético e a utilidade prática. No entanto, o resultado final está próximo da prescrição de um politeísmo suave, que, por um lado, não desampara o homem e que, por outro, não o deixa sob o jugo de um tirano omnipotente. Reconhece a existência de múltiplos significados, mas assegura que esses significados não se anulam. Não obriga o homem a dar um sentido às coisas, mas incentiva-o a descobrir esse sentido, a estar atento, a abrir-se ao mundo. Prega a reconciliação com o corpo (uma crítica à tradição judaico-cristã). Recomenda que nos deixemos levar em comoção coletiva perante as coisas boas (um discurso de Martin Luther King, um desportista de excelência) e que nos isolemos perante as más (um discurso de Hitler, por exemplo). Para Dreyfus e Kelly, o homem moderno – filho de uma linhagem que vai de Ésquilo a Nietzsche, passando por Santo Agostinho, Dante, Kant e Descartes – é vítima da sua ilusória autossuficiência. Se só o homem pode dar sentido ao mundo, então não há fuga possível quando não consegue atribuir-lhe um sentido. Só resta a angústia e o desespero.

 

Este, de acordo com os autores, é não só o mundo dos romances de David Foster Wallace, mas o mundo do próprio escritor americano que, em 2008, após anos de depressão, se suicidou. No entanto, o suicídio de DFW não é interpretado como uma resposta a um problema filosófico (ao que Albert Camus, na famosa frase inicial de O Mito de Sísifo, considerou o único problema filosófico verdadeiramente sério). Os autores deste livro estão mais interessados em mostrar a obra literária de DFW como enunciação desse problema ou, para ser mais exato, como manifestação do problema do niilismo. Camus definiu como central a questão de avaliar se a vida vale a pena ser vivida, ou seja, se o homem – solitário e órfão do divino – será capaz de encontrar um sentido que torne a vida digna de ser vivida. No seu romance inacabado e publicado postumamente, The Pale King, DFW ilustra esta questão de uma forma radical. As personagens do romance são funcionários que passam as oito horas do turno a examinar declarações de impostos. É uma encenação quase caricatural da condição do homem moderno com todo o peso entediante da burocracia. Porém, e ao contrário do que se poderia imaginar, DFW apresenta uma saída, um caminho para a felicidade com o nome de Mitchell Drinion, personagem que vence o tédio, a falta de sentido e de noção de fim das suas tarefas, com o recurso à força de vontade e ao autodomínio. DFW descreveu a personagem desta forma: “Drinion é Feliz.” Dreyfus e Kelly consideram desumana esta confiança nietzscheana na vontade individual para impor o sagrado ao quotidiano em vez de o descobrir. Um comportamento semelhante exigiria de cada indivíduo um esforço tal, uma obstinação tão violenta, uma concentração tão absoluta, que anularia de imediato qualquer possibilidade de felicidade. Este esforço consciente – e humanamente insuportável – no sentido da excelência e da beatitude contrasta com o mundo de Homero, no qual, segundo os autores, reina “a intuição de que o importante já nos foi dado, e de que a vida melhor é aquela que consegue entrar em sintonia com isso.” (p. 76). O reconhecimento de que as nossas ações escapam ao nosso controlo e nem sempre são determinadas pela nossa vontade inspirava nos gregos antigos um sentimento de gratidão perante os acontecimentos. Para Dreyfus e Kelly, a gratidão grega contraria a noção moderna “de que um agente humano é a fonte única das suas próprias acções” (p. 94). Uma vida digna, no mundo de Homero, era aquela em que o homem se deixava ligar “aos estados de espírito que um deus definia para cada situação.” (p. 99), estados por natureza transitórios. Estamos, pois, no paraíso da irresponsabilidade individual e da amoralidade (de que é exemplo Helena de Tróia), que os autores parecem apreciar. Deixarmo-nos levar por estados de espírito transitórios, sejam eles sugeridos por deuses ou por outras entidades, é excelente material para a literatura mas uma receita infalível para a catástrofe social.

 

Depois de descreverem o processo filosófico e literário que uniu os dois extremos – o politeísmo benigno de Homero e o niilismo angustiado de Foster Wallace – Dreyfus e Kelly apontam como meio-termo ideal a cosmovisão de Herman Melville, em Moby Dick. Resumindo a ideia, trata-se de “aceder a tantas formas de responder ao sagrado quantas nos for possível.” Não devemos imitar o capitão Ahab, à procura da verdade derradeira e universal, nem, a exemplo de Pip, enlouquecer na profusão de interpretações e significados. O resultado do dogmatismo monomaníaco – que não encontra a resposta –  e do relativismo estéril – que se confronta com demasiadas respostas – é o mesmo: o niilismo. A solução é sermos capazes de “aceitar todos os significados com um idêntico olhar.” (p. 195). Como todas as soluções de compromisso, a proposta de Dreyfus e Kelly parece-nos excelente quando observada à distância e confrangedoramente pobre quando ponderamos a sua aplicação prática. Somos exortados a experimentar um sentimento homérico de gratidão, mas não nos podemos esquecer que, sem os alicerces religiosos dos gregos antigos, a nossa gratidão seria uma farsa, uma gratidão estética desligada de uma necessidade interior de a expressar e sem uma referência concreta a quem a dirigir. Quando citam as palavras de Ismael, o narrador de Melville, de que “o homem deve diminuir, ou pelo menos deslocar, a ideia que faz da felicidade a que pode aceder”, não assumem que alterar a medida da felicidade exige também um esforço da vontade individual. Quando recomendam ao leitor que se alegre “com o pensamento de que [as alegrias e tristezas do politeísmo] conferem um sentido ao nosso mundo” estão, na verdade, a pedir ao leitor que dê um sentido a essas alegrias e tristezas, uma ideia sensata mas que sobrevive sem a dispensável retórica politeísta.

 

Por muito que isso tenha contribuído para a infelicidade do homem moderno (isto partindo do princípio que as personagens de Homero representam fielmente os seres humanos do seu tempo e que estes eram todos igualmente recetivos aos estímulos dos deuses, a seguir o que estes lhes diziam e a viver num perpétuo estado de gratidão) é inegável que a ideia de responsabilidade individual pelas nossas ações, a emancipação do homem, é um dos grandes triunfos do pensamento ocidental. Depositou sobre o homem um enorme peso – inerente à responsabilidade moral e à necessidade de encontrar um sentido ex nihilo – mas esse é o preço a pagar pela liberdade. Para Hubert Dreyfus e Sean Dorrance Kelly este legado tornou o homem num escravo de si mesmo, um servo da sua própria autonomia. Para se libertar desta auto-escravatura, propõem que o homem esqueça o que aprendeu, abdique do que conquistou e reencene um homem primitivo, pré-moral, a sintonizar-se com o mundo, com os deuses e com as tábuas de madeira (à guisa dos velhos artesãos), garantindo que “este mundo politeísta contemporâneo será um lugar maravilhoso de coisas sagradas e plenas de luz.” Por aqui, pensamos de maneira diferente: vale mais a liberdade nas trevas do que a felicidade fácil num mundo iluminado.

24
Dez11

Natal

Bruno Vieira Amaral

O leitor já não terá idade para contos de Natal. Acha-os bem-intencionados, levemente hipócritas, a moedinha que se atira para a mão estendida dos bons sentimentos. O leitor é adulto, e como bom adulto acha que o Natal não deve ser um interlúdio de caridade num ano de indiferença. Acha que devemos ser bons e justos com os nossos semelhantes em qualquer ocasião. Acha que o Natal é uma farsa inventada por consciências pesadas, por homens carregados de culpa, por pecadores sem remissão. O leitor é bom e mesmo quando não o é sabe que isso é a natureza humana. Não somos perfeitos e o melhor é aceitá-lo em vez de o tentar camuflar com acções nobres e natalícias. Mas o que eu tenho para contar é um conto de Natal. E é um conto de Natal porque os factos que me preparo para revelar ocorreram na noite de Natal e não posso dizer que o final não vos vá encher de esperança na humanidade. Pelo menos foi assim que o senti, e ninguém mo contou. Aconteceu-me a mim. Confesso que continuo a não suportar contos de Natal. Aquilo que me aconteceu transformou-me, mas não o suficiente para mudar de opinião sobre os contos de Natal. E não espero que o leitor sofra uma transformação mais intensa. Afinal, mesmo que venha a gostar do que vai ler, a verdade é que o que aconteceu, aconteceu-me a mim. Era noite de Natal e eu estava sozinho. Não estava triste ou deprimido. Estava sozinho. O que pode não parecer uma coisa por aí além para quem, como o leitor, não liga a essas celebrações, mas que era um pouco estranha dado que ainda no ano anterior eu tinha passado o Natal com a minha mulher, o meu filho e a família dela. Mesmo que uma situação não seja objectivamente terrível é inevitável que a comparemos com alegrias recentes. No caso em apreço, a comparação não me podia animar. Apesar disso, estava disposto a enfrentá-la com bravura e estoicismo. Afinal, as grandes almas temperam-se nas dificuldades, o que é o género de pensamento confortável que só nos conforta depois de as termos ultrapassado. Na altura, tentei lidar com a situação com algum engenho psicológico, embora o frio, aliado ao facto de estar sozinho, não me ajudasse. Por muito corajosos e lúcidos que sejamos, há circunstâncias que em nada beneficiam essas qualidades e uma delas, garanto-vos, é estar enrolado numa manta, o aquecedor avariado, na noite de Natal, sem ninguém para falarmos. O leitor poderá dizer que a noite de Natal é uma noite como outra qualquer, e di-lo provavelmente rodeado pela família, com os filhinhos ansiosos por abrir os presentes e abençoado pelo sorriso da mulher. Não lhe levo a mal a indelicadeza, porque eu também pensava assim e, de certa forma, continuo a pensar o mesmo. Portanto, como vê, a história, sendo extraordinária, como verá, não mudou assim tanto o meu carácter. Mas, quer acredite, quer não, a noite de Natal é diferente, até porque nunca irá dizer que a noite de 17 de Dezembro ou de 26 de Agosto é igual às outras. Só o dirá da noite de Natal e isso, como deverá perceber, faz toda a diferença. Eu próprio fiz um grande esforço para desvalorizar a noite de Natal. Era só mais uma noite, como tantas, mas no fundo eu sabia que só me estava a enganar. Aposto que o leitor já terá proferido palavras de consolo e de ânimo a pessoas em circunstâncias irremediáveis. Mas não é por isso que deixa de as dizer, porque embora o leitor, como já concluímos, não seja um desses hipócritas que festeja o Natal, orgulha-se das suas qualidades humanas e de ser empático e capaz de compaixão. Evita magoar desnecessariamente alguém que se apresta para ser inevitavelmente magoado pela realidade. Louvo-lhe o comportamento. Bem mais difícil é dirigir palavras de consolo a nós próprios. Se na outra situação podemos desculpar-nos com a ignorância alheia e agir em nome da caridade cristã ou, no seu caso, de uma elevada consciência humanista, consolar-nos a nós próprios é um embuste demasiado óbvio para que um homem razoavelmente são possa insistir nele mais do que alguns minutos. Depois de algumas horas a falar com pessoas pela internet, fui ficando sem contactos. Pessoas que eu mal conhecia, confesso, mas que naquele momento teriam tido uma grande utilidade, quanto mais não fosse pelo facto de poder ver nelas o reflexo da minha solidão e, com isso, sentir-me menos só. Mas a noite de Natal, veja bem, não é uma noite como outra qualquer e eu tive mesmo de me confrontar com o facto de estar sozinho. Tinha preparado uma modesta ceia de couves e bacalhau, uma garrafa de vinho razoável e um bolo-rei. Também tinha em cima da mesa da sala o presente embrulhado que iria dar ao meu filho na manhã do dia seguinte. Interrompo o meu relato para perguntar ao estimado leitor se consegue imaginar o som dos talheres num prato? É fácil, não é? Acredita que, naqueles dias em que estive sozinho, era esse o som da solidão? Quem está habituado a viver com alguém pode pensar que a solidão cai quando se deita na cama e não tem ninguém a quem desejar boa noite e sente a falta dos pés para enroscar. Mas a solidão, pelo menos para mim, é ouvirmos os nossos próprios passos, ver os nossos gestos em diferido, como se estivéssemos a arrumar o palco depois da peça. O ruído dos talheres no prato, quando se está sozinho, fere-nos. A esta altura, o leitor deve estar a preparar o espírito para um milagre. Sossegue. Jamais lhe pediria o esforço de contrariar a sua natureza e encaixar um milagre no seu cepticismo. Também não acredito em milagres, sejam sobrenaturais ou daqueles que todos os dias aparecem nos jornais sobre pessoas que sobreviveram por milagre a um acidente. É também por milagre que as pessoas morrem nos acidentes, um milagre ao contrário, admito, mas um milagre: o milagre da morte. Deviam ser umas oito da noite quando recebi uma mensagem no telemóvel. Como deve imaginar, pensei logo que era uma daquelas mensagens de boas festas que as pessoas enviam por educação aos seus contactos. Por vezes até são mais elaboradas, mesmo que não tenham sido elaboradas por quem as está a enviar. Gostamos que os outros se lembrem de nós. O leitor dir-me-á que pouco consolo haverá numa mensagem enviada para todos os contactos que temos no telemóvel, e assim é, embora isso seja preferível a não receber mensagem nenhuma. Acredite no que lhe digo. Mas esta mensagem surpreendeu-me porque era mesmo para mim. Vinha de um amigo que eu já não via há algum tempo. Perguntava-me se estava tudo bem e onde é que eu ia passar o Natal. Há momentos em que não conseguimos deixar de sentir uma auto-comiseração dilacerante. Ter pena de nós, o leitor concordará, é um sentimento contraditório. Há nele qualquer coisa da consciência do mártir e da incapacidade dos falhados. A tentação é a de rebolar na lama da tristeza e da impotência. Não é fácil erguermo-nos desse conforto ambíguo. Quando li aquela mensagem senti um calor no peito, a determinação dos que caminham para a fogueira certos da sua inocência. Teria sido mais corajoso se tivesse inventado uma história, se lhe tivesse dito que estava com uns tios da província ou em casa de amigos. Tive, porém, uma fraqueza de náufrago. E se, depois daquele barco, nenhum outro passasse? Disse-lhe a verdade: estava sozinho. Uma hora depois, ouvi a campainha. Não entrarei em pormenores. Tudo aconteceu como acabo de lhe contar. Eu não estava prestes a cortar as veias, não fui salvo no último minuto pelo gesto inesperado de um amigo, não apareceu nenhum anjo de luz. Disse-lhe que não esperasse milagres. Não o enganei. No entanto, sei que o sente, esta é uma história extraordinária sem nada incrível dentro, só podia ter acontecido na noite de Natal e só a conto porque aconteceu mesmo na noite de Natal. Não acredite se lhe disser que foi o melhor Natal de sempre. Peço-lhe que acredite que nunca houve outro igual.

22
Dez11

Terra

Bruno Vieira Amaral

Foi o meu amigo Marco Serrano, homem que abandonou as letras e se pôs a voar, que me chamou a atenção para essa frase que anda lá pelo início de Cem Anos de Solidão. Diz (creio) que nenhuma terra é nossa enquanto não enterrarmos lá um morto. É verdade. Enterrar os nossos mortos vale mais do que hastear bandeiras ou cravar marcos geodésicos na beira da estrada. A nossa terra é sempre onde estão os nossos mortos. Há uns meses vi uma reportagem na televisão em que levavam um homem de regresso a Angola. O homem viera para Portugal ainda criança, criado por uma família de portugueses brancos. Nunca mais regressara a Angola. A televisão – moderna endireitadora de tortos – levou-o para rever os irmãos que por lá ficaram. Ao ver o sangue vivo dos seus vivos, o homem emocionou-se, chorou, perdeu-se em abraços. Mas foi apenas quando descobriram a campa da sua mãe, escondida entre o capim voraz, que aquele homem regressou à sua terra. Regressar à nossa terra é regressar aos nossos mortos, de que os vivos são manifestações breves e frágeis, meros fantasmas de carne e osso. Dois meses antes de morrer, quando a doença ainda não a tinha deixado cega e presa a uma cama anónima de hospital, a minha avó quis ir à terra, Montalvão, uma pequena aldeia do Alto Alentejo. Organizou tudo e partiu com a minha irmã, na altura com treze anos. Ficaram por lá uns dias, poucos. Não sei ao certo o que a minha avó terá feito nesses dias, desconheço os pormenores, talvez a minha irmã saiba. Do que não tenho dúvidas é que a minha avó foi lá para se despedir, para dizer adeus à terra. Creio que a passagem dela por este mundo terminou no momento em que entrou na camioneta que vai para Nisa e em que pela última vez viu a aldeia, uma silhueta de casas a desfazer-se na distância. Os últimos dois meses foram um sofrimento desnecessário, um epílogo inútil em que a minha avó deixou de ver o mundo e as pessoas, mesmo que o apego instintivo à existência, “o duro desejo de durar”, a fizesse acreditar na recuperação, na ideia de regressar a casa e pôr as batatas ao lume. Foi sepultada num cemitério a mais de duzentos quilómetros da terra, muito longe da campa da mãe, o lugar a que verdadeiramente pertencia depois de uma vida deslocada, da província para a capital e da capital para os subúrbios.

 

Abomino o nacionalismo político que, de maneira infame, se aproveita do amor genuíno das pessoas à terra para arrancar ódio e intolerância, rancor e mesquinhez de um sentimento que é, na sua origem, tão humano, profundo e honesto. Mas também não acredito em cidadãos do mundo que não sejam, antes de tudo, filhos de uma terra, que se gabem de não pertencer a lado nenhum. Não aceito o argumento de que as árvores têm raízes e os homens têm pernas, porque as nossas raízes não são físicas, são feitas de memórias, são os lugares em que primeiro amamos, os lugares cheios da presença viva dos nossos mortos. A terra, a ideia de pertença a um lugar, foi pretexto para crimes terríveis e para ideologias hediondas, mas não nos esqueçamos que a primeira violência cometida sobre as vítimas foi dizer-lhes que não pertenciam a lado nenhum, que a terra onde tinham nascido e amado, a terra onde já estavam os seus mortos, não lhes pertencia. De que serve negar isso? Talvez seja um esforço meritório para tornar os homens mais livres, mais senhores de si e menos escravos dos mitos da terra e do sangue. Um esforço para nos livrarmos da carga com que nos albardam à nascença. “Puedo decir que mi patria es mi hijo y mi biblioteca”, escreveu Roberto Bolaño, para quem as únicas fronteiras de um escritor são “las fronteras de los sueños, las fronteras temblorosas del amor y del desamor, las fronteras del valor y del miedo, las fronteras doradas de la ética.” Se assim fosse, nunca mais nenhum escritor se sentiria exilado desde que a seu lado tivesse aqueles que ama e a sua biblioteca. Esta perspectiva libertadora do exílio é partilhada pela escritora checa Vera Linhartova, de que nos fala Milan Kundera num ensaio breve no livro Um Encontro (Dom Quixote, 2011). Num colóquio sobre o exílio, no início dos anos 90, Linhartova disse que “o escritor é em primeiro lugar um homem livre, e a obrigação de preservar a sua independência contra todos os constrangimentos prevalece sobre qualquer outra consideração.” O exílio pode não só libertar o escritor da pátria, mas também da língua: “O escritor não é prisioneiro de uma única língua.” Será que a ideia de exílio e a figura do exilado foram raptadas pela brigada do “moralismo lacrimejante” que se esqueceu de perguntar aos exilados como é que eles sentiam o exílio? Será possível que o exílio seja uma experiência libertadora que desobriga os escritores da fidelidade atávica para com a nação, tornando-os exclusivamente cidadãos de si? Não creio. Kundera reconhece que “cada um vive o exílio à sua maneira inimitável e a experiência de Linhartova é um caso limite” (mas cuja ideia central não se distingue da de Bolaño). E nessas experiências múltiplas encontramos a dor dos desenraizados, o “mal du pays”. Linhartova e Bolaño comportam-se como aquelas pessoas que, depois do divórcio, aproveitam para condenar todo o sentimentalismo e rejeitar qualquer possibilidade de felicidade conjugal. Olham com condescendência os românticos incuráveis que sofreram longe da terra. Ao escritor austríaco Jean Améry (1912-1978), baptizado como Hanns Mayer, a pátria suscitava sentimentos ambivalentes. Judeu, perseguido e aprisionado em Auschwitz, revoltou-se contra a pátria que o maltratou, mas não deixava de sofrer por lhe ter sido extirpada uma parte fundamental da sua identidade. No discurso Literatura e Exílio, Roberto Bolaño perguntava se se podia ter nostalgia por uma terra onde se esteve a ponto de morrer, se se podia ter nostalgia pela pobreza, pela intolerância, pela prepotência e pela injustiça. Améry também tinha feito questões parecidas: “Que era então aquela saudade da terra nesses que o terceiro Reich banira por virtude das suas opiniões políticas ou da sua árvore genealógica?” perguntava, para responder: “A minha saudade da terra, a nossa saudade da terra, era a alienação de nós mesmos.” (A Humanidade Perdida, Alain Finkielkraut, Ed. Asa, p. 121) Não a saudade da terra, mas a saudade do que somos. O exílio forçado liberta? Talvez. Porém, como escreveu Améry, o melhor é “ter uma terra própria para não se precisar dela”. A terra onde estão os nossos mortos e à qual, queiramos ou não, estamos sempre a regressar.

20
Dez11

Quinta-feira

Bruno Vieira Amaral

Nasci no Barreiro. Cresci nos arredores, mas, por causa da tendência infantil para a criação de uma mitologia pessoal, sempre me pensei como um genuíno barreirense. Entre os meus três e nove ou dez anos, a minha mãe levava-me ao Barreiro para cortar o cabelo, no salão Os Cinco Jovens, no qual, sem surpresa, trabalhavam cinco jovens, embora com o passar dos anos uns tenham desaparecido e outros entrado para o seu lugar, a ponto de, a dada altura, trabalharem lá uns seis cada vez menos jovens. Quando chegávamos, a minha mãe tirava uma rodela de metal com um número e, como era habitual haver muita freguesia, ocupávamos o tempo numa pastelaria do outro lado da rua, onde quase sempre eu tomava um galão e comia uma sandes de queijo. Lembro-me bem do queijo, mais amanteigado e guloso do que eu comia em casa, um prazer certo nesses longínquos sábados de manhã. De seguida, depois de passarmos pela estátua de Alfredo da Silva, íamos até a imitação de lago que havia no meio do jardim. Do modo que eu via as coisas, as estátuas eram para reis a cavalo ou para o marquês com o leão ao lado, figuras históricas e solenes, e aquela estátua era demasiado parecida com um homem normal, ainda que gigantesco e éreo. Era uma estátua assustadoramente normal, de uma imponência estranha, uma estátua contemporânea do homenageado. No lago passeavam-se uns patos orgulhosos que recebiam com uma indiferença inicial as migalhas que lhes atirávamos, para logo despertarem da majestade aquática em que deslizavam, lançando-se com avidez aos pedaços de pão e provocando uma súbita e passageira agitação na água para consolo das crianças, que tanto apreciavam este arremedo de natureza, infalivelmente rendidas ao alvoroço de um mundo que começavam a descobrir e em que tudo lhes parecia vivo e verdadeiro. Depois de alimentarmos os patos, ou de alimentarmos o meu prazer inocente de os alimentar, ainda ia ao baloiço, a pedir sempre à minha mãe para me empurrar porque ainda não aprendera a dar balanço, esticando as pernas para o céu quando avançava e encolhendo-as quando recuava. Depois de cortado o cabelo, voltávamos para casa de autocarro. Saíamos numa paragem a uns quinze minutos de casa, o que nos obrigava a passar entre hortas e amoreiras, pó no Verão e lama no Inverno. A minha mãe costumava levar-me ao colo, mas com os anos lá comecei a ir a pé, cansado das pernas, choroso e queixumento. Pelo caminho, encontrávamos algumas roseiras que despontavam por cima dos muros baixos das casas. Com um pequeno corta-unhas, a minha mãe cortava-lhes o caule e os espinhos e roubava as rosas que, chegados a casa, eu exibia à minha avó, como um pequeno guerreiro cansado que regressa com os despojos da manhã. As rosas ficavam numa jarra na mesa da cozinha, onde iam definhando – de rosas vivas e frescas em objectos de decoração castrados de espinhos – e acabavam por morrer. Essa morte lenta, na penumbra que a minha avó inventava com uma toalha na janela da cozinha para que a casa não ficasse muito quente, fascinava-me tanto quanto o movimento vivo e inesperado dos patos. O mundo existia e até as manchas que apareciam nas maçãs logo depois de a minha avó as descascar tinham um carácter de mistério e de revelação. Tudo morre. Nasci no hospital velho, dizem-me que numa manhã de chuva. Hoje, é ali a Santa Casa da Misericórdia. Durante anos, sempre que passávamos por lá eu perguntava à minha mãe: “Foi aqui que eu nasci, não foi?” Ela dizia-me que sim, numa quinta-feira, chovia muito. Alegrava-me saber que tinha nascido ali, numa quinta-feira chuvosa a que a minha memória não chegava, mas que era tão certa e evidente como estar ali com a minha mãe, a olhar pela janela do autocarro os pavilhões velhos e tristes do velho e triste hospital. Agora que vivo no Barreiro e que os meus passos funcionais se confundem com os passos da minha memória, que a geometria das ruas se cruza com os labirintos da infância, que revejo o salão Os Cinco Jovens e a estátua de Alfredo da Silva noutro lugar - agora mais estátua, mais antiga, com a imponência que o tempo empresta aos monumentos, mas ainda assim acessível e próxima – que espreito e já não vejo o lago com os patos, apenas as mesmas árvores e as mesmas sombras na mesma solidão de jardim, surpreendo-me por ser tudo de uma matéria real e tangível e não uma invenção nebulosa de criança, uma reminiscência distante e ténue como o sabor diferente do queijo da pastelaria, mais amanteigado e guloso do que eu comia em casa. Pressinto que o Barreiro de pedras e vidro, de estátuas e pessoas, não é tão real como o Barreiro a que a minha memória não chega. Será que atrás do vidro do salão ainda está aquele homem de uma masculinidade serena e segura que eu imaginava como namorado da minha mãe? Será que ainda há exemplares de A Bola, naquele formato gigante, que eu lia enquanto esperava pela minha vez? Será que esta vida, que é a minha, que foi a minha, ainda existe fora de mim? Será que o Barreiro, o Barreiro que sempre foi a minha cidade, alguma vez existiu fora de mim? No fim, esquecidos os fiapos da memória, as recordações da criança que atirava pão aos patos, o Barreiro, mais do que qualquer outra coisa, antes de qualquer outra coisa, é a inequívoca quinta-feira chuvosa em que nasci, mas que desgraçadamente não recordo.

12
Dez11

A Orgia Perpétua: Melodrama, Sexo e Fait-Divers (2)

Bruno Vieira Amaral

Continuação deste post

 

A ironia não é a única forma de denunciar a hipocrisia, seja na sociedade ou na arte. A denúncia pode assumir a forma “realista” de mostrar a vida tal como ela é (obviamente, transfigurada), de não ocultar, em nome do bom gosto, dos padrões morais e estéticos vigentes, dimensões incontornáveis da existência humana. De não ocultar, por exemplo, o sexo. A questão poderá parecer bizantina ao leitor contemporâneo, mas certamente não o era na época de Flaubert. A presença do sexo, ainda que de um modo não pornográfico, no romance de Flaubert, também é um manifesto contra a hipocrisia. Não é um manifesto irónico, no sentido em que não faz do sexo o tema central e omnipresente, e não o trata de uma forma explícita e obsessiva até à irrisão.

 

Esta citação de Boris Vian expõe, por contraste com a obra de Sade, tudo o que não é o erotismo flaubertiano: “O erotismo dos Cento e Vinte Dias de Sodoma, quando não cai num ridículo bastante cómico, não vai além do de um Petit Larousse pervertido.” (p. 28, Escritos Pornográficos) Vian prossegue a ideia com uma citação de Jean Paulhan: “A narração de um assassínio pode lançar-nos num sentimento turvo, o pormenor de uma ida para a cama deixa-nos algum desejo. Mas dez mil idas para a cama (na mesma noite), mas cem mil torturas não nos dão senão lassidão e enjoo.” (p. 28). Vargas Llosa também fala sobre o marquês libertino: “me excita menos un libro de Sade, donde el monotematismo desvitaliza el sexo y lo convierte en algo mental, que, por ejemplo, los episodios eróticos (muy escasos) de Splendeurs et Misères des Courtisanes, de Balzac (...)” (p. 35). A receita sexual flaubertiana passa pela negação simultânea dos excessos clínicos e dos excessos líricos, através do esforço “en pintar un amor que fuera, de un lado, sentimiento, poesía, gesto, y, del otro (más discretamente) erección y orgasmo.” (p. 33). Ou seja, fazer a ponte entre Sade e Lamartine, sublimar a obscenidade, o que Vian designou por “obscenidade poética” para classificar a literatura erótica, na qual o próprio Vargas Llosa se doutorou suma cum laude com o díptico O Elogio da Madrasta e Os Cadernos de Dom Rigoberto, embora estes dois romances se aproximem mais da intelectualização do obsceno do que da poetização.

 

Tantas vezes acusado de frieza, de ser um médico-legista dos sentimentos, Flaubert poderia recorrer ao sexo como álibi para essas acusações. Em Madame Bovary, o sexo está presente, mas não é tratado de uma forma minuciosa e exaustiva. O leitor não é bombardeado com pormenores clínicos. O voyeur que há em cada leitor é atiçado mas nunca satisfeito com a revelação total do acto. Tal como com o melodrama, o sexo está lá, mas integrado num ambiente mais rico. Sugerido em elipses, mas nunca ignorado ou obliterado. Aliás, seria ridículo que o acto sexual não estivesse presente num romance que tem como acontecimento narrativo central um adultério. A eventual ausência do sexo seria sufocantemente irreal, uma ausência omnipresente. Vargas Llosa cita uma carta que Flaubert escreveu a Louise Colet sobre um romance de Lamartine. A passagem permite perceber o que é a denúncia não irónica da hipocrisia: “Et d’abord, pour parler clair, la baise-t-il ou n ela baise-t-il pas? Ce ne sont des êtres humains, mais des manequins. […] Voilà un gaillard qui vit continuellement avec une femme qui l’aime et qu’il aime, et jamais un désir! Pas un nuage impur ne vient obscurcir ce lac bleuâtre! O hypocrite! […] Il est plus facile en effet de dessiner un ange qu’une femme: les ailes cachent la bosse.” Quer a sobrecarga sexual, quer a ausência, seriam soluções irónicas para desmontar a hipocrisia. A primeira através da caricatura, da hipérbole; a segunda através do eufemismo. A terceira via é a realista, escrever sobre sexo de uma forma que torne impossível imaginar o romance de outro de modo. Não é só a mot juste, é o tom justo que confere à obra a sua própria necessidade – só a podemos conceber assim.

 

A cena de Madame Bovary que ilustra de forma mais exacta a teoria (e, como nos adverte Vargas Llosa, devemos sempre ter em atenção que a praxis literária de Flaubert é mais importante que os seus esparsos esforços teóricos) é aquela em que Ema e Léon se encontram num fiacre e aí, pela primeira vez, consumam a sua paixão. Vargas Llosa considera que este é o clímax erótico de todo o romance. Que a narração desse clímax seja feita através de uma elipse genial diz-nos tudo o que há para saber sobre o erotismo na obra de Flaubert: “Resulta notable que el más imaginativo episodio erótico de la literatura francesa no contenga una sola alusión al cuerpo feminino ni una palabra de amor, y sea sólo una enumeración de calles y lugares, la descripción de las vueltas y revueltas de un viejo coche de alquiler.” (p. 36)

 

Boris Vian dizia, com pouco acerto, a não ser que considerasse todas as pessoas erotómanos, que “não há literatura erótica senão no espírito do erotómano; e não poderíamos pretender que a descrição...digamos, de uma árvore ou de uma casa, seja menos erótica que a de um casal de sábios amantes...Tudo está em precisar o estado de espírito do leitor.” (p. 42) O que Vian não diz é que o estado de espírito do leitor é manipulado pelo autor, pela forma como este gere a informação que chega ao outro. A descrição exterior de uma casa pode não ter nada de erótico, a não ser que o leitor saiba que lá dentro um homem e uma mulher se entregam aos prazeres mais intensos. Aí, a descrição deixa de ser anódina e convencional, e cada palavra de que o narrador se serve para descrever uma janela ou uma varanda é um momento de intimidade que não nos disponibiliza. Toda a cena do fiacre obedece a esse princípio. Flaubert faz de ilusionista que lança uma cortina de fumo que nos impede de espreitar para o outro lado. Só que nós sabemos o que está a acontecer do lado de lá; o truque é a própria cortina de fumo. Uma elipse perfeita em que o narrador não nos deixa a meio de uma cena para passar para um lugar longínquo, para saltar para outro acontecimento, mas em que nos obriga a permanecer à porta, suspensos, a contemplar o nada que, afinal, é tudo. A cortina que é, afinal, o verdadeiro truque.

 

“Play them like an organ”, era o desejo de Hitchcock em relação aos espectadores. Manipular o leitor, disponibilizando-lhe rações de informação, atiçando-lhe o voyeurismo para logo o frustrar, é a função do romancista, bonecreiro de um teatro de enganos, senhor da realidade fictícia. Dá-nos pedras e ruas que, na imaginação do leitor, suspiram, gemem, gozam. Entretém-nos com pedras ao mesmo tempo que esconde a carne, o fogo do desejo. Eis o verdadeiro romance sobre o nada, de que falava o próprio Flaubert. Só podemos apreciar o nada se tivermos a certeza que, debaixo da superfície, há alguma coisa: “O veículo foi indo ao longo do rio, pelo caminho da sirga, calcetado de rudes calhaus, e, por muito tempo, do lado de Oyssel, para lá das ilhas. (...) Dali, desceu; e então, sem direcção nem destino, errou ao acaso.” O fiacre prossegue a viagem sem outro sentido que não o de prolongar o tempo dos amantes. Há uma sugestão de orgasmo, da lassidão física do êxtase: “ Em certa ocasião, a meio do dia, em pleno campo, no momento em que o sol dardejava raios mais fortes sobre as velhas lanternas prateadas, uma mão nua passou sob as pequenas cortinas de pano amarelo e lançou para o exterior papelinhos rasgados (...)”. A mão nua é toda a nudez da cena que termina com mais uma cortina de fumo, um véu que esconde as emoções tal como o fiacre tinha escondido os prazeres: “Depois, pelas seis horas, a carruagem parou numa travessa do bairro Beauvoisine, e dela se apeou uma mulher que caminhava com véu descido, sem voltar a cabeça.” Flaubert coroa a cena com esta maravilha de descrição pós-coital. Não se refere a Ema, diz apenas que é uma mulher e esta indefinição é de um poder extraordinário. Para ser, o sexo não tem de aparecer.

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