"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos
27.2.12

 

Fui ensinado a não ter outros ídolos que não Deus. Entretanto, perdi-me de Deus, ou Deus perdeu-se de mim, em todo o caso, desencontrámo-nos e então comecei a coleccionar ídolos. Nunca os quis bezerros de ouro, exemplares e imutáveis. Sempre os preferi humanos, ídolos falíveis a quem pudesse admirar e reprovar, com longos períodos de êxtase e reverência e períodos ainda mais longos de quase esquecimento, em que subsistiam como uma luz ténue que, porém, nunca se apagava. Era bom reencontrá-los em livros, filmes, músicas, recuperar a memória que deles tinha e lançar-me em renovada adoração. Era bom deixá-los incógnitos numa estante ou numa gaveta, em pousio para que o espanto fértil não se esgotasse de tanta lavra, e regressar por um acaso, um atalho, uma desilusão. E eles lá estavam, na obediência muda das estantes, na soberania paciente dos caixotes, à espera do filho pródigo que, cansado do mundo, retorna ao abraço paterno. Ora, muitos destes ídolos de palavras e imagens, mas também de carne e osso, são gente esquiva, avessa ao ruído das turbas fanáticas, receosos da prolixidade vazia dos que não se satisfazem com o diálogo implícito da arte e desejam adorar de corpo presente, vencer a distância e mergulhar fisicamente no autor. Mesmo quando são afáveis e se prestam a sessões de autógrafos, mesmo quando posam de estátua deles mesmos em fotografias que hão-de enfeitar salas de subúrbio, mesmo quando trocam palavras que dão ao receptor o direito abusivo de dizer “conheci fulano”, vejo-os como os deuses melancólicos que são, já insensíveis a tresleituras, ávidos de ser amados mas resignados a que esse amor não signifique compreensão, nem a união funda que acontece raramente entre dois seres humanos e dispostos a aceitar a condição de santinho de altar, santuário que se dá a peregrinações cegas. Contudo, nós queremo-los, queremos vê-los na sua realidade física porque nos dói a breve incerteza de humanidade que as palavras nunca fecham, queremos ouvir-lhes a voz e ver como é o corpo de onde explodiram palavras e multidões nasceram, queremos ver os nossos ídolos e tocar-lhes e pedir-lhes que vivam para sempre, não no real intangível dos livros, mas que vivam para sempre aqui na terra, perto de nós, e para além de nós, como deuses caídos, como homens eternos. E quando não temos a coragem para os desafiar para a vida eterna, quando não lhes sabemos exigir que fiquem, que permaneçam como permanecem as suas personagens, saibamos ao menos apertar-lhes a mão e dizer-lhes “Muito obrigado por tudo”.

 

 Fotografia de Pedro Loureiro, a quem agradeço

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25.2.12

Tantos mortos. A filha do Silva da tasca que se envenenou. Ainda me lembro dela? Sei que existiu. Não consigo reconstituir na minha memória os traços do rosto. Seria loira? Talvez. Lembro-me de passar em frente da tasca do pai e de a ver lá a servir. Depois, deixou de estar. Por que razão se terá matado? Talvez a minha mãe saiba. Foi há tantos anos. A notícia saiu no jornal. Eu era criança. Tinha o fascínio infantil pelo macabro, pelo horrendo e queria assustar-me. Nada me apavorava mais do que aquele jornal, as fotografias dos ex-vivos, a imagem inquietante da casa onde o crime fora cometido, marcas de sangue no chão, os vizinhos à porta a velar a loucura homicida de um lugar amaldiçoado. À noite não conseguia dormir, ainda perturbado pela fotografia de alguém que morrera. Na fotografia até então sem história, registo banal de um dia qualquer, apareciam em lenta revelação as sombras da tragédia. A angústia de que nunca teríamos sabido surgia com a nitidez terrível, não das coisas certas, mas das premonições. Contaram-me ou terei visto o corpo de um homem no chão, a poucos metros do parque onde brincávamos, tapado por um lençol branco? Disseram que se matou, que se atirou do terceiro andar. Havia quem dissesse que o tinham atirado. Os filhos da Lurdes. Três. Os corpos foram encontrados dentro de uma arca onde se tinham escondido numa brincadeira funesta. O marido da Conceição. Encontrado no quarto com o fio do candeeiro à volta do pescoço. Disseram que se matou. Quem viu o cadáver foi o Fernando. A mãe dizia que, depois disso, ele acordava com pesadelos, o rosto duro do morto a ganhar forma na escuridão. O velho alfaiate que vivia num rés-do-chão. Na varanda tinha um cão feroz que nos metia medo. Víamos o homem através da janela a tirar medidas, a riscar de giz os fatos. Mandou-se para a linha do comboio. Nunca mais se soube nada do cão. Nesta tarde em que da minha janela vejo o mar e crianças a passear na praia com os pais, ainda oiço os latidos desesperados desse cão, ecos de morte, medo e deserto.  

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7.2.12

Um texto que não se imprimiu:

 

Para se iniciar uma guerra, certas rajadas de elogios são pretexto mais feliz do que muitas ameaças e agressões. Basta ver o caso dos celebradores profissionais da beleza feminina e de outros elogiadores contumazes do que eles chamam o belo sexo. Para estes apreciadores da Mulher, a mulher, qualquer mulher, é sempre um mistério ou um enigma ou, quando o delírio irrompe, um enigma envolto em mistério. Nunca conseguem decifrá-lo, embora talvez tivessem mais sucesso se não começassem as suas profundas tentativas de compreensão pelos genitais. São os eternos apaixonados pela Mulher como outros são apaixonados por cozinha italiana, independentemente do prato, do cozinheiro e da conta que têm que pagar no fim. Quando falam de mulheres, lá vêm o embevecimento lúbrico e a condescendência babada embrulhados no fascínio que as mulheres lhes despertam, a veneração irreprimível, como se a mulher, qualquer mulher, não fosse uma mulher, um ser humano, mas um vislumbre do eterno num quadro de Botticelli. Claro que só homens com licenciaturas em Humanidades podem formular as coisas nestes termos de sofisticação intelectual. Com um bocadinho menos de sorte sociológica estariam pendurados nos andaimes a grunhir piropos. Como nasceram em berços mais abençoados, sussurram encómios, num perpétuo estado de espanto e disponibilidade para apreciar a beleza ou, como se diz no vernáculo da construção civil, “sempre de pau feito” e “pronto a aviá-la”. Estes grunhos bem-falantes transformam cada exemplo individual de beleza numa declinação de um ideal da Beleza, cada mulher na Mulher: é decoração de interiores feita Decoração de Interiores, em que a Mulher é, no fundo, um ornamento (desculpem, um Ornamento). O adorador compulsivo da Mulher não é muito melhor que o exibicionista dos parques. Enquanto este exibe infantilmente a pilinha, aquele exibe despudoradamente o seu gosto refinado. Não sei se valerá a pena declarar-lhes guerra. Afinal, não me parece muito sensato andar aos tiros a pavões.

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6.2.12

Publicado na Ler de Janeiro:

 

Com a publicação dos Sermões do Pipi, regressa a questão de se saber quem é o Pipi. E quem é o Pipi? A hipótese Ricardo Araújo Pereira é a mais desinteressante de todas, seguida de perto pela hipótese Miguel Esteves Cardoso (normalmente formulada do seguinte modo: “Ah, este MEC é tramado!”) porque ninguém acredita que o talento de Miguel Esteves Cardoso tenha entrado em recessão ao ponto de se acomodar numa plácida coluna do Público. E é desinteressante porque revela a nossa falta de imaginação coletiva. Em cada período da nossa história cultural, há sempre uma figura que esgota as possibilidades de irreverência. Herman José, Miguel Esteves Cardoso, Ricardo Araújo Pereira. Alguma coisa tem graça? Foi o Herman. Uma crónica tem piada? Foi o Miguel Esteves Cardoso. Há um livro bem escrito, divertido e cheio de palavrões arcaicos? Com mil mangalhos, foi o Ricardo Araújo Pereira! Seria muito mais fascinante se o Pipi fosse alguém do calibre de um Tolentino Mendonça ou de um César das Neves. Mas depois de uma análise das respetivas obras (que, no caso de César das Neves, exigiu apenas a observação de uma fotografia) chegámos à conclusão que é impossível que O Meu Pipi tenha sido escrito por um dos dois ou por ambos ao mesmo tempo. Por muito que seja a menos civilizacionalmente fantástica das hipóteses, somos obrigados a concluir que o Pipi é (bocejo) Ricardo Araújo Pereira. Custa-nos ter de reconhecê-lo, ficaríamos muito mais satisfeitos se o autor fosse D. Manuel Clemente ou o General Ramalho Eanes, mas a decência e o rigor crítico não nos deixam margem para efabulações. Como esta é uma revista séria, explicamos aos nossos leitores porque é que Ricardo Araújo Pereira é o Pipi.

 

Partindo do princípio que os leitores, de acordo com a formação forense que recebem semanalmente no CSI, querem provas, resolvi investigar as crónicas que RAP escreve na revista Visão (Boca do Inferno – BC1 – e Novas Crónicas da Boca do Inferno – BC2)  e as que escreveu para o jornal A Bola (A Chama Imensa – CI). E não foi preciso muito para encontrar semelhanças. Vejamos este exemplo. Na crónica da Visão de 3 de fevereiro de 2011, o autor escreve sobre candidatos presidenciais e pescas: “Quase todos os candidatos fizeram mais uma vez referência às dificuldades por que passam as pescas, setor de atividade que continua a ser o único a merecer um plural: não é a pesca, são as pescas. Nenhum quadrante ideológico se preocupa com as agriculturas, ou com as educações, mas as pescas são, ao que parece, de uma multiplicidade que provavelmente explica a razão de serem mais atreitas a problemas.” Momento bonito, sem ser espetacular. Mas o que é que encontramos na página 54 dos sermões do Pipi? Bem, diz-nos o Pipi que quando precisa de um sapateiro, vai ao sapateiro, quando precisa de um mecânico, vai ao mecânico, mas quando precisa de uma puta, vai às putas: “Indo só a uma, digo que vou a todas.” O múltiplo autor, que afinal é singular, traído pelo plural. Isto seria mais do que suficiente para sustentar a minha tese e, de caminho, poupar-me o trabalho de ler dezenas de crónicas. Mas continuei a minha pesquisa.

 

Na crónica de 18 de novembro de 2010, curiosamente a propósito da produção de um filme pornográfico sobre o drama dos mineiros chilenos, escreve o cronista: “Quem encontra seja o que for de antipático, meu Deus, na ribaldaria?” Na página 47 de BC1: “(...) as modelos brasileiras não vêm fazer ribaldarias para o nosso mar (...)” Na página 134 do magnífico livro que reúne as esplêndidas crónicas publicadas n’A Bola, A Chama Imensa, lê-se: “Scolari, talvez seja bom recordar, herdou a selecção do alho nos balneários, das ribaldarias em Macau (...)” E escreve o Pipi, na página 99 do seu livro: “Notável, esta ribaldaria de carnes.” Ou RAP e o Pipi têm o mesmo revisor, que prefere ribaldaria à mais popular rebaldaria, ou considero muito estranho que dois autores prefiram a mesma e menos habitual “ribaldaria” e a utilizem com tanta frequência. A ribaldaria não engana.

 

O termo “chavascal” (em sentido figurado, porque duvido que se queiram referir a “terreno que não presta para searas”, embora “mata cerrada de plantas espinhosas” já tenha mais a ver com o universo dos dois autores, como mais adiante veremos) também é preferência partilhada. O de RAP é “puro, nobre e cândido”, embora não goste de meter o amor no meio “daquele chavascal todo” (BC1, p. 56, p. 206). O do Pipi é apenas “duradouro” (p. 80), mas há uma nonchalance que a racionalidade “confere a todo este chavascal” (p. 97). Repararam? “Daquele chavascal todo” a “todo este chavascal”. Ai, ai, Pipi, que bem asinha denuncias a tua identidade.

 

Sendo este um livro de sermões não lhe faltam as referências bíblicas. São muitas e algumas até em latim. Que isto não vos leve a suspeitar do padre Carreira das Neves. É apenas mais uma prova que o autor é mesmo Ricardo Araújo Pereira, que garante “que, apesar da repugnância que me causam os best-sellers, li a Bíblia” (BC1, p. 80). A páginas 87 deste sermónico opúsculo, refere o Pipi que o pai de Salomão (David, para os leitores menos versados em assuntos bíblicos) “derribou o gigante filisteu”. Em CI, escreve o humorista na página 21: “O leitor lembra-se da história de David e Golias? Vá lá buscar a Bíblia, que eu espero.” E prossegue com uma exegese heterodoxa do célebre combate, cuja utilidade moderna se restringe às manchetes dos jornais desportivos depois de um fim de semana de Taça. Concedo que não seja a melhor das provas, mas também ninguém vos prometeu o Perry Mason.

 

Para os leitores menos sensíveis a provas bíblicas, temos Shakespeare. RAP lembra a “angústia com que Hamlet encara a caveira de Yorick” (BC1, p. 20). O Pipi, que sabe umas coisas de diluir referências eruditas, evoca um tal de tio Eurico (Yorick, Eurico, reparem na subtileza onomástica) e, com indisfarçada comoção, recorda o dia em que lhe pegou na caveira, livrou-a da terra e encetou um belo monólogo existencial no qual se intromete um pintelho.

 

Esta é outra coincidência notável: na página 246 de CI temos uma referência à Covilhã (“a população da Covilhã em peso...”). Na página 96 dos Sermões qual é a cidade, de entre todas, escolhida pelo Pipi? “A bem dizer, nenhuma cidade é puta (excepto, talvez, a Covilhã).” Serei só eu a ver nesta obsessão com a Covilhã uma prova inequívoca da identidade do autor de O Meu Pipi? É provável. A verdade, no entanto, é que a Covilhã não merecia tanto destaque desde que os livros da primária deixaram de a apresentar como uma espécie de Silicon Valley dos lanifícios.

 

O leitor incréu ainda não estará convencido. Se é esse o seu caso, amigo leitor, faça-me o favor de dizer o que significa esteatopigia. Se não sabe, não se preocupe; está ao nível do corretor ortográfico do meu computador e do priberam e só ligeiramente abaixo do dicionário Houaiss, de Ricardo Araújo Pereira e do Pipi. Num post publicado a 10 de junho de 2006 no blog Gato Fedorento, RAP escreveu que “Há várias representações de nádegas na história da arte, desde a esteatopigia da Vénus paleolítica até às Três Graças, de Rubens.” O Pipi, quase tão rápido quanto a sombra do mestre, escreve no Sermão às Gordas: “Os pré-históricos avoengos que esculpiram a Vénus de Willendorf fizeram-no com o intuito de esgalharem os seus nabos paleolíticos.” (p. 86). Na página anterior, lá aparece o curioso vocábulo: “Qual de vós permanece indiferente ao admirar a esteatopigia de uma destas lontras?” Vós, descrentes contumazes, não mereceis tais espórtulas, mas aqui fica: esteatopigia é a gordura acumulada na zona das nádegas. Agradeçam ao senhor Houaiss.

 

Mas há mais, fanchono leitor. Se há assunto a que a literatura portuguesa tem dedicado muitas e brilhantes páginas não é, com certeza, aos pêlos. Quando se trata de escrever grande literatura, os portugueses sempre optaram por temas convencionais como viagens à Índia, a guerra colonial, paneleirices na Figueira da Foz. Porém, quer RAP, quer o Pipi, não poupam esforços para alcandorar o pêlo ao patamar de dignidade literária que merece. RAP dedicou aos pêlos a crónica de 18 de março de 2010. O Pipi, de acordo com a sua natureza porcalhona, oferece-nos o sermão da pintelheira. Mostrem-me uma crónica de António Lobo Antunes sobre pêlos e eu abandono, agora mesmo, a minha teoria.

 

Quem não se recorda da fantástica crónica de RAP sobre o IKEA (BC2, p. 215)? Eu não, mas encontrei-a e lá nos é narrada a aventura do autor com um móvel chamado Besta. O Pipi, como bom macho que é, não faz compras no IKEA, mas, como bom roto que também é, cita o catálogo do IKEA. Está na página 37 dos Sermões. Menciona uma cómoda Birkeland. Se não estamos a falar do mesmo roto, então não percebo nada de rotices (e não percebo).

 

Outro ponto em comum entre RAP e o Pipi são os anúncios eróticos das secções de classificados da imprensa portuguesa. Como é óbvio, RAP consulta o conceituado Público enquanto o Pipi prefere o badalhoco Correio da Manhã. Fora isso, partilham da mesma opinião: não há secção mais verdadeira nos jornais portugueses. RAP diz que “é a mais interessante, a mais informativa e a mais fiável” e que os “anúncios são tão bons e tão honestos, que não foram feitos, de certeza absoluta, por publicitários.” (BC1, pp. 57-58). O Pipi esclarece laconicamente que é “a secção mais honesta do jornal” (p. 53) e fala, sem nele se deter, num “bumbum gostoso”. RAP, para não levantar suspeitas, fala de uma “gostosa do Saldanha” de “bumbum empinadinho”.

 

Termino com a prova do Pois não é. É verificar a página 208 (BC1) e de seguida passar para a 14 e a 34 dos Sermões. Não se incomodem, eu poupo-vos o trabalho: “Pois não é evidente que os vossos negócios se desenvolvem menos bem na praia”; “Pois não é verdade que qualquer de nós entregaria mais depressa setenta almas”; “Pois não é blasfemo fazer de Deus (…)?”

 

Espero que este meu contributo tenha ajudado a derrubar preconceitos. Não é por uma hipótese ser a mais óbvia e aparentemente mais preguiçosa que tem de ser obrigatoriamente falsa. O Pipi, como acabei de demonstrar de forma inequívoca, é Ricardo Araújo Pereira. Numa futura edição, demonstrarei que as obras de William Shakespeare foram escritas por José Diogo Quintela.

 

link do postPor Bruno Vieira Amaral, às 12:05  ver comentários (5) comentar

 
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