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Circo da Lama

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

Circo da Lama

21
Mar13

As obras menores

Bruno Vieira Amaral

O ar da província revigorava Felisbela Garcia. O facto talvez se devesse às reminiscências de uma infância passada em saudáveis conferências campestres, ao leite fresco de uma vaca acabada de ordenhar, às maçãs viçosas que trincava com gosto e luxúria no quintal do avô, ou talvez não passasse de um sentimento falso sugerido por uma leitura recente. A verdade é que a mudança de ares operava nela um efeito imediato de rejuvenescimento, tornando-a propensa a pensamentos salubres e à ideia, que costumava repelir com o auxílio de Goethe, Rilke e Mann, de longas e vigorosas caminhadas. Assim estava ela, sedentária e pensativa, na zona de refeições do hotel da Castanha, Castelo de Vide, a devorar croissants com compota de pêssego e a sorver barbaramente um sumo de laranja natural e gratuito que causaria estragos inequívocos ao seu já débil equilíbrio intestinal, enquanto alinhavava mentalmente a crítica ao romance de um escritor obtuso que, para grande mágoa do seu editor, casualmente também cunhado, publicara o seu décimo-quarto livro. Combinara encontrar-se ali com Sérgio Lopes, outrora a mais rebelde e portentosa flor da crítica pátria, capaz de, com um rasgo de pena, destruir reputações e inventar novíssimos, com a facilidade de quem acorda de manhã para um novo e radioso dia, temido e incensado desde a avenida de Roma, onde morava num apartamento de cinco humildes assoalhadas com aquecimento central, até aos confins da área metropolitana de Lisboa, onde a sua fama chegava, se chegava, já na forma de vapor débil de um nome que se confunde com o de um motorista da camioneta, e que, por um daqueles infelizes acasos que enlameiam nomes ou criam imortalidades, viu a sorte mudar e toda a fama e estima que demoraram uma vida inteira a conquistar com a rapidez com que um jornal se imprime, chega às bancas e daí às mãos ávidas de um público sedento de cultura, conhecimento e polémicas escabrosas, evaporar-se. Nos seus tempos áureos, era tamanha a sua fortuna que decidira apresentar um único livro por ano, escrever não mais de dois prefácios (três se um amigo ou uma jovem escritora de abundantes ancas o solicitasse) e garantir a sua presença no máximo de três lançamentos. Os editores cumulavam-no de oferendas e elogios, enviavam-lhe as provas dos livros antes mesmo de as enviarem ao autor acompanhadas de garrafas de Barca Velha, substituídas prestimosamente pelo seu brandy preferido caso tomassem conhecimento do mínimo sinal de enfado ou desilusão, acompanhadas de postais onde sibilinamente aludiam à fraca condição viril dos críticos que aspiravam a fazer-lhe sombra e à mais do que deficiente prosa de escritores já açoitados pela sua implacável chibata. Autores ainda inéditos entupiam-lhe a caixa de correio com cartas cujos primeiros parágrafos eram extensos panegíricos ao carácter incorruptível e magnânimo do crítico e em que sobravam duas ou três linhas para sinopsear o romance que abnegadamente lhe enviavam, narrativas que descreviam em pormenor o olvidado quotidiano dos campinos ou as duras tarefas de um escrivão de tribunal. Os jornais, diários e semanais, desencadearam guerras fratricidas pelo exclusivo da sublime pena do Lopes, a que este assistia com moderado interesse, como o imperador que observa, bocejando, as lutas desumanas dos gladiadores. Consta que o director de um dos maiores semanários terá sucumbido ao fracasso de arregimentar o Lopes para as fileiras hebdomadárias. Em jeito de vingança levou consigo, para o jornal gratuito que passou a dirigir, um decrépito crítico homossexual, um promissor estagiário disléxico e um agrafador. Ora, o Lopes, imponente e respeitadíssima voz recenseadora, teve um azar. Sucedeu que no dia em que a mais demolidora, caceteira, viperina, cáustica e tremenda crítica que jamais escreveu foi publicada e que, imaginava o Lopes, lhe valeria o gáudio das novas gerações, a aprovação silenciosa dos antigos e, no futuro, uma condecoração presidencial, o visado pela pena do nosso crítico amanheceu morto, fulminado por um ataque de coração. Sabe o homem ilustrado que, em casos semelhantes, pode mais a força cruel e veloz do boato do que o passo seguro, porém lento, da verdade, e o que toda a cidade de Lisboa veio a saber, ainda o corpo do malogrado não fora devolvido à terra, era que a causa do incidente cardíaco tinha sido a malévola e feroz crítica do Lopes. Pobre Lopes, crítico honesto e frugal que, ainda de chinelos e robe, atordoado pela terrível notícia, teve de asseverar a todos os microfones que lhe pediam a palavra que sempre fora o mais lídimo defensor do génio do falecido o qual, nem mesmo este lapso derradeiro, certamente atribuível à precária condição de saúde, ensombrecia ou ensombrava, disse-o de ambas as formas a duas rádios diferentes. Tentou ir ao funeral prestar a derradeira homenagem e reparar o agravo mas voz sensata fez-lhe saber que amigos do falecido lhe preparavam uma emboscada escondidos atrás de uns jazigos no cemitério de Benfica. O próprio Secretário de Estado da Cultura, numa rara declaração pública, ocupado que estava com questões de sinalização de monumentos, veio dizer que deplorava a existência de seres humanos que, de forma torpe, matavam a nata da cultura portuguesa, declaração que interrompeu logo que o assessor o alertou para a infelicidade da formulação. Os amigos deixaram de atender o telefone ao Lopes, o director do jornal onde pontificava dispensou a colaboração sem mais explicações, a fonte dos convites das editoras secou e o nosso Lopes viu-se na contingência de ter de abandonar o apartamento na Avenida de Roma e exilar-se na Freguesia de São Vicente do Paúl, concelho de Pernes, distrito de Santarém, onde os pais lhe tinham deixado uma casa de que ele se gabava em Lisboa mas que quase lhe provocava uma síncope quando a viu pela primeira vez, ao mesmo tempo que escorraçava um cão zarolho que viera disparado sabe Deus de onde pronto a morder-lhe as canelas. Acontecera a tragédia há oito meses e, nesse período, ascendera Felisbela Garcia ao trono da grande imperatriz crítica, convidada para todas as conferências e lançamentos e, surpreendentemente, dada a sua bela figura, para membro do júri de um programa televisivo de talentos da canção. Felisbela aceitou, não sem antes deixar claro que fazia questão de que todos os participantes do concurso recebessem uma breve formação literária sobre figuras como Derrida, Robbe-Grillet e Blanchot. Era uma questão de princípios, óbvio, mas sem a qual ela não se sentia moralmente autorizada a aceitar os 12 mil euros mensais que lhe propunham. Era, portanto, uma mulher satisfeita e esfomeada aquela que aguardava a chegada do Lopes ao local combinado. Mas nada poderia tê-la preparado para o que iria encontrar.

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