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Circo da Lama

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

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Circo da Lama

04
Abr13

Silêncio e Ruído

Bruno Vieira Amaral

Publicado na Ler

 

 

O livro de Susan Cain, uma advogada introvertida que resolveu ajudar outros introvertidos, é um misto de reportagem e auto-ajuda mas do tipo de auto-ajuda que antes de chegar à parte do aconselhamento cuida de os sustentar em centenas de páginas de informação e num tom calmo e assertivo. Vivemos com um sistema de valores a que a autora chama Ideal Extrovertido – uma sociedade dominada por machos e fêmeas Alfa, um mundo liderado por seres faladores e sociáveis. Este ideal foi-se impondo ao longo do século XX, numa cultura orientada para o sucesso do indivíduo e para o culto da personalidade, e bastante suscetível às imagens e aos valores veiculados pela publicidade. Numa sociedade de consumo as empresas precisam de funcionários que vendam os seus produtos (os céticos dirão que precisam de quem os impinja) e pessoas cabisbaixas, reservadas e soturnas não costumam dar bons vendedores. Os próprios trabalhadores, expostos às flutuações do mercado de trabalho, também tiveram de aprender a vender-se a si próprios, como um produto (nunca se atrevam a ir a uma entrevista de emprego sem estabelecer imediatamente contacto visual). Nos EUA, as palestras dos gurus da auto-ajuda são ouvidas em êxtase por milhares de pessoas ansiosas por atingir o patamar sagrado do Ideal Extrovertido: bom conversador, dinâmico, simpático, descontraído e com um sorriso ofuscante. O discurso de Tony Robbins, o rei norte-americano da auto-ajuda citado por Susan Cain, é tão triunfantemente opressivo que tanto provoca um desejo súbito de conquistar o mundo como o de fracassar propositadamente em tudo só para implodir o mantra do sucesso.

 

A ditadura da imagem e da comunicação atingiu o paroxismo nos nossos tempos com a religião do powerpoint: qualquer ideia banal apresentada com convicção e fogo-de-artifício tecnológico passou a ser dogma. E isto contaminou praticamente todas as áreas de atividade humana: educação, negócios, política, religião, desporto e até aquelas onde, à partida, o Ideal Extrovertido não seria tão decisivo, como a literatura e a filosofia. Uma boa capacidade de apresentação, diz a autora, confundiu-se com capacidade de liderança. Esta confusão esteve na origem da espetacular derrocada do sistema financeiro em 2008. A crescente preponderância nas cúpulas das empresas de pessoas propensas ao risco, maioritariamente extrovertidas, conduziu a investimentos irracionais mas perfeitamente enquadrados no ar do tempo. A dada altura, ninguém queria ouvir as opiniões mais sensatas, equilibradas e pessimistas porque mais rapidamente pomos o nosso dinheiro nas mãos de uma pessoa confiante do que nas de uma pessoa hesitante ou com dúvidas e as empresas que geriam investimentos precisavam de quem lhes pusesse o dinheiro nas mãos. Sobre os analistas ponderados recaiu o anátema da falta de confiança. Quanto aos otimistas acabaram por sucumbir ao peso do excesso de confiança e à embriaguez do sucesso, arrastando na sua queda todo o edifício financeiro.

 

Para Susan Cain, esta é uma das provas de que o nosso mundo ainda tem lugar para os introvertidos. Num oceano de tubarões extrovertidos que não param de nadar, os peixes de águas profundas são fundamentais para manter a sanidade e equilíbrio coletivos, desde que se consigam fazer ouvir. Esse é o principal desafio que se coloca aos introvertidos: como é que alguém faz chegar uma boa ideia ao mundo se não conseguir que os outros lhe prestem atenção? Numa sociedade competitiva e agressiva, como é que alguém avesso à exposição e ao conflito pode triunfar? Uma boa estratégia, segundo a autora, passa por não levar o jogo para o terreno do “adversário” e por perceber quando a simulação de extroversão pode ser utilizada a favor do introvertido sem que isso signifique o abandono das suas convicções e a alteração forçada da sua personalidade. Introvertidos tão especiais como Rosa Parks, Eleanor Roosevelt e Gandhi, três exemplos referidos por Cain, mostram como, em certas situações, a serenidade firme é a forma mais inteligente de promover uma causa em que se acredita profundamente. Falar alto quando todos os outros estão aos berros só gera mais confusão. O poder dos introvertidos é esse: o poder do silêncio.

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