"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos
19.5.13

Texto lido nas apresentações do meu livro, em Lisboa e no Porto:

 

A criação de uma personagem não é um acto meramente literário. É um acto religioso, filosófico, moral, espiritual. Quando cria uma personagem, o autor não é apenas um escritor, por muito bem que escreva. Mesmo que não goste muito da personagem, mesmo que queira que o leitor partilhe desse desdém, o facto de passar tempo com ela, de lhe dar voz, de se apagar para que a personagem se revele, é um gesto de genuíno altruísmo; não aquela noção de altruísmo corriqueiro, que se confunde com generosidade ou com dar esmola aos pobres, mas o altruísmo que significa o abandono de si e a aceitação integral do outro. A contribuição moral do romancista é a criação de personagens e o que isso representa para o alargamento da nossa concepção de humanidade. Descrever alguém diferente de nós, ser capaz de o fazer, é o mesmo que estender a mão para salvar um desconhecido. Tem, salvaguardadas as devidas distâncias, um valor idêntico. Compreender o outro é, de facto, perdoá-lo mesmo quando as suas acções são inaceitáveis. Quantos de nós, na vida real, dedicam mais do que breves momentos a tentar perceber aquelas pessoas de que não gostam ou, por muito estranho que possa parecer, das pessoas de que gostam? Na maior parte das vezes entregamo-nos aos sentimentos básicos que as pessoas nos despertam, ao ódio que lhes temos, ou amor que por elas nutrimos, e muito raramente lhes aplicamos o mesmo tratamento que um romancista dispensa às suas personagens. É esse o valor filosófico e moral da criação de personagens. A filosofia do absurdo pode ser exposta num ensaio, num tratado, mas Meursault vale todos os tratados e todos os ensaios sobre a filosofia do absurdo. Juliana, que incluí neste livro, é detestável, é certo, mas lá no fundo não gostamos dela? No fundo, não nos compadecemos com aquela vida miserável, com os seus sofrimentos de virgem tardia, com a sua eterna má-sorte de criada? Não torcemos um bocadinho por ela quando chantageia a patroa? Não pensaremos nós que aquela justiça retorcida é, ainda assim, uma forma de justiça? A verdade é que o romancista nos disse tudo sobre ela, falou-nos da sua história, da sua vida difícil, dos seus sonhos cor de bílis e isso, por muito que tenhamos vontade de a estrangular, aproxima-nos de Juliana. Compreender é perdoar. O castigo é merecido mas nós já a perdoámos porque a conhecemos como não podemos conhecer ninguém na vida real, na sua totalidade, nas condições materiais e nas ambições íntimas, de alto a baixo, dos pés à cabeça.

 

As personagens de Shakespeare, as galáxias humans de Tolstói, não podem ser consideradas meros feitos literários. Criar uma tal quantidade de personagens tão diferentes entre si, que ilustram paixões e modos de ser antagónicos, é uma realização espiritual. Podemos dizê-lo sem temer o tom esotérico. Não é o espiritual transcendental, é o espiritual humano. As grandes personagens, sobretudo as que não são moralmente didácticas, exercem sobre nós um profundo efeito moral porque nos obrigam a sair do que somos e a experimentar ser outro, a pôr-nos na pele do outro. Reparem, é mais do que nos revermos nas personagens. A má ficção – perdoem-me a inexactidão do termo – faz isso. Põe o leitor a viver aventuras que na vida real lhe são inacessíveis. Funciona como um comboio de feira, em que o leitor passeia um pouco fora de si para depois regressar a si inteiramente igual: é um intervalo de fantasia. As grandes personagens fazem outra coisa: o leitor sai de si e, quando regressa, é outro. O tempo que conviveu com o outro é de uma tal intensidade que transforma o leitor. O jogo já não é o de se identificar ou não com a personagem, o de gostar de uma e não gostar de outra, é o jogo muito sério de ver o mundo pelos olhos do outro: isto já não é só literatura porque a grande literatura não é só literatura, figuras de estilo, referências literárias, pontuação, é moral, é filosofia, é sempre, na sua expressão máxima, um humanismo. Estar no lugar do outro, ser capaz de imaginar o sofrimento alheio, de perceber as inquietações que o afligem e que nós, no dia-a-dia, não nos interessamos por aprofundar porque temos de viver funcionariamente, agarrados aos nossos preconceitos, satisfeitos com os ódios de estimação. Nas personagens literárias não há ódios de estimação. Não conseguimos alimentar um ódio de estimação por pessoas que conhecemos tão bem.

 

A literatura não nos torna melhores. A literatura não salva ninguém. Espanto-me por ainda haver pessoas que se questionam sobre isso. É o mesmo que perguntar se a vida nos torna melhores. Mas a literatura dá-nos algumas pistas que deveríamos ter a humildade de aceitar. Se, inspirados pela literatura, dedicássemos ao nosso vizinho que grita com a mulher o tempo que dedicamos a uma personagem como o professor de Rentes de Carvalho, se aquele conhecido que nos irrita com o seu tom de voz e as suas ideias estúpidas nos fosse oferecido numa bandeja como a Juliana de Eça, com todos os seus pensamentos íntimos e história de vida (provavelmente até chegaríamos a uma conclusão triste: “Que pessoa horrível! Que magnífica personagem!") a literatura já não seria apenas literatura, seria uma religião, e com a religião viriam os dogmas, e a verdade com maiúscula e a intolerância. A literatura, por isso, nunca fará de nós pessoas melhores. Porque é mais do que literatura e é apenas literatura e nós, desgraçadamente, somos apenas homens.

link do postPor Bruno Vieira Amaral, às 22:18  ver comentários (2) comentar

10.5.13

Respondi ao inquérito Balanço Vital, uma organização conjunta do Fernando Alvim e do jornal Metro. As respostas levaram umas tesouradas e uns enxertos e, porque somos todos gratuitos, aqui ficam as originalidades tal como originalmente concebidas pelo autor, que sou eu.

 

Cinco acontecimentos

 

O dia em que fiquei em último na corrida de sacas

 

O clube onde os velhos se juntavam para jogar dominó e cuspir pevides para o chão organizou um arraial e, para animar a festa, uma corrida de sacas para os mais novos. A distribuição de prémios foi pensada por uma mente sádica e mesquinha: todos os participantes tinham direito a uma medalha, à excepção do último. Fiquei em último. Apesar de vários recursos comoventes apresentados pelos meus amigos não tive direito a medalha e fiquei a roer melancolicamente o rebuçado que, com pouca destreza, retirei de um prato cheio de água e farinha.

 

O dia em que parti a cabeça ao fininho

O fininho era o fininho era o fininho. Era manifesta a sua incompetência para a prática desportiva, uma falha que todos nós lhe perdoávamos alegremente porque era ele o proprietário da bola com que jogávamos nos intervalos. Naquele dia levou raquetes de ping-pong. Jogámos a pares e posso dizer que o Fininho fez tudo o que estava ao alcance da sua falta de jeito para nos submeter a uma pesada humilhação. Para evitar que tal sucedesse tomei a decisão, que hoje considero precipitada, de lhe acertar com a raquete na parte anterior do crânio, provocando uma incontrolável hemorragia geradora de um justificado alarme entre contínuas e professores de Educação Visual que, no meio de gritos e impropérios, hesitavam entre acudir ao Fininho e neutralizar o feroz agressor. Fui levado ao Conselho Directivo onde me interrogaram judicialmente sobre as razões do meu comportamento. Respondi, tão clínica e sinceramente quanto mo permitia o terror de uma possível suspensão: “Enervei-me”.

 

O dia em que redefini o amor

Certo dia, frequentava eu a 4ª classe, a nossa professora teve uma daquelas ideias esquisitas que costumam assolar mentes onde raramente um pensamento original faz o favor de pousar. Desafiou-nos ela a compor uma redação sobre o tema “O que é o amor?” Eu, que sempre que me vi confrontado com perguntas que ultrapassavam a minha competência nunca hesitei em recorrer ao auxílio de gente mais sábia, escrevi que o amor é coisa que não tem definição. Dez minutos depois, a sala estava cheia de professoras e outros curiosos convidados para testemunhar o fenómeno de uma criança que aos dez anos se atrevia a jurar pela indefinibilidade do amor. Menti tanto quanto pude, mas não tão bem que, passados cinco minutos, as professoras não saíssem manifestamente desiludidas pelo golfo entre a minha prestação literária e o meu balbuciante desempenho verbal. Mesmo assim, ficaram sem saber que a frase que apresentei como minha, e que por alguns segundos me transportou à categoria de génio, fora indecorosamente roubada de uma entrevista da locutora de continuidade Isabel Bahia, à revista TV Guia.

 

O dia do grande jogo

A ocasião era o último jogo de um torneio de futebol de cinco. Nos primeiros jogos tinha ido à baliza onde, modéstia e um fenomenal frango à parte, até me portava com alguma dignidade. Porém, nesse dia revoltei-me. Queria jogar na frente. O treinador não concordava comigo e explicou-me racionalmente os seus motivos: “Não jogas um caralho.” Sem refutar a pertinência da observação insisti. Ou ia à frente ou, sei lá, bem, o melhor era ele pôr-me a jogar. E ele, farto de me ouvir, seguramente guiado por uma luz divina, lá me fez a vontade. Entrei em campo. De seguida, um pouco à traição, a bola sobrevoou o campo e, facto espantoso, seguindo na minha direcção. Preparei-me logística e mentalmente para desferir um pontapé fulminante mas no momento em que o meu pé deveria ter contactado com a bola, esta caprichosamente furtou-se à carícia deixando-me entregue a um solitário bailado concluído com uma estrondosa aterragem de costas. O povo que enchia o campo riu aflitivamente, alarvemente. Eu só queria continuar ali, esquecido no chão, a ver a bola a sair pela linha de fundo.

 

Aprender

De cada vez que tentei aprender matemática, xadrez e alemão fracassei, o que me leva a desconfiar da virilidade da minha inteligência, que é muito do género de ter pavor de correntes de ar não vá apanhar uma pneumonia. Gostava de ter uma inteligência mais musculada, um desiderato muito difícil de se cumprir enquanto a minha palavra preferida for “crisântemo.”

 

Cinco projectos

 

Comprar a casa dos meus bisavôs na aldeia de Montalvão, recuperá-la e, daqui a muitos anos, rodeado de netos e bisnetos, morrer à sombra da laranjeira que está no quintal.

 

Ganhar o torneio de Wimbledon numa tarde soalheira de Domingo e, simultaneamente, estar em casa a assistir à minha vitória em directo na RTP2.

 

Salvar a vida de alguém e ser entrevistado pelo Correio da Manhã: “Fiz aquilo que qualquer pessoa no meu lugar faria.”

 

Envelhecer como Aznavour.

 

Esquecer uma certa tarde de Julho, há muitos anos.

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