"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos
19.12.13

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3.12.13

Publicado na Ler

 

Neste artigo procuraremos determinar as origens do fascínio que o boxe exerce sobre os escritores. Nem todos os escritores. Alguns escritores. Ainda assim, mais escritores do que aqueles que se interessam por futebol ao ponto de escrever sobre futebol. (Porque um escritor pode interessar-se muito por um assunto e não ter vontade nenhuma de escrever sobre esse assunto. Estou certo que haverá exemplos disso.) Ou sobre xadrez. Esta é mentira, claro. Há uma abundante bibliografia de livros de ficção sobre xadrez porque o xadrez é o tipo de desporto (chamemos-lhe desporto) que parece ter sido inventado de propósito para que os escritores – alguns escritores – pudessem escrever sobre algum desporto. Percebe-se a afinidade que um escritor possa sentir com o xadrezista, para além de todas as metáforas bélicas, civilizacionais e existenciais que, mesmo assim, não serão suficientes para vos falar aqui de uma célebre cena de um célebre filme de um célebre realizador sueco. O boxe, como podemos facilmente deduzir, é muito diferente. É o confronto entre dois tipos extraordinariamente agressivos e brutos, aparentemente não muito inteligentes – ou não possuidores do tipo de inteligência afim da inteligência do escritor – e dispostos a lutar até à última gota de sangue (alerta de cliché) no ringue. Para citar um filme: “o boxe é o único desporto em que dois homens são pagos para fazer uma coisa pela qual seriam presos se estivessem bêbados e a fazê-la de graça.” É óbvio que ao interessar-se por boxe o escritor está a saltar a vedação e a aventurar-se em terrenos de onde pode sair muito maltratado. Mas continuam a fazê-lo. Porquê? Permitam-me recorrer ao auxílio de Marcel Berlins que, num obscuro artigo do Guardian publicado em 2007, escreveu: “em primeiro lugar um confronto mano-a-mano presta-se perfeitamente ao tópico do bem contra o mal. É o desporto elementar por excelência, não dependendo de apêndices tais como bolas, raquetes ou bastões. O sofrimento integral é-lhe inerente: é o único desporto em que o objetivo passa por sofrer e infligir dor.” Berlins refere depois a atmosfera social do boxe – um desporto de pobres, marginais e excluídos – e as tensões do próprio meio, tantas vezes retratadas no cinema (assim, por alto, O Grande Ídolo, Há Lodo no Cais, Rocky, Touro Enraivecido, Pulp Fiction, Million Dollar Baby).

 

Breve pausa para falar de cinema: nunca assisti a um combate de boxe ao vivo e desde os hipermediatizados e anabolizados acontecimentos da década de 90 (Holyfield, Tyson, Bruno) que nem sequer ligo aos resultados e às figuras. Reconheço que o meu interesse por boxe foi fomentado, quase na íntegra, pelos filmes sobre boxe e por estes não serem normalmente sobre boxe o que, inversamente, faz com que aquele que me parece ser o melhor filme de sempre sobre boxe – Há Lodo no Cais –  não tenha uma única cena no ringue. (Deve ser tido em conta que Budd Schulberg, o argumentista de Há Lodo no Cais, tinha escrito uns anos antes um livro sobre boxe The Harder They Fall, que também foi adaptado ao cinema). Normalmente os filmes sobre boxe são sobre as figuras trágicas dos pugilistas, o seu carácter auto-destrutivo, indomável: as origens humildes, a ascensão, a húbris e a queda. É essa a história de O Grande Ídolo, filme em que Kirk Douglas desempenha o papel de um pugilista de origem irlandesa que se torna campeão mas que, ao mesmo tempo, destrói todos aqueles que o amam; é essa também a história de Touro Enraivecido, talvez a obra-prima de Martin Scorsese, baseado na vida de Jake LaMotta; e, finalmente, é essa a história do documentário Tyson, de James Toback, em que vemos como um homem pode transportar todas as suas vulnerabilidades para dentro do ringue e transformá-las numa imparável máquina de agressões. Repare-se na lógica social dos três exemplos: um irlandês, um ítalo-americano e um negro. Mesmo nos filmes, ou sobretudo nos filmes, o boxe parece ser um pretexto para se falar de uma série de coisas que transcendem em muito o âmbito do desporto e da competição. Por isso é tão fascinante mesmo para quem, como eu, nunca assistiu a um combate ao vivo. Há na luta corpo a corpo entre dois homens seminus algo tão primário, brutal e verdadeiro que é impossível que não nos diga nada sobre algo que está para além de um desporto. Também pode ser uma maneira de escritores e realizadores compensarem o excessivo sedentarismo e predomínio intelectual das respectivas profissões.

 

Depois do desvio cinematográfico, regresso à estrada principal: como vimos na citação de Berlins, explicar o fascínio que o boxe exerce passa por explicar o que é o boxe, melhor, o que representa o boxe. Roberto Saviano, o autor de Gomorra, fez uma reportagem sobre dois pugilistas italianos em que escreveu o seguinte: “O pugilismo continua a ser um desporto épico porque se baseia nas regras da carne que põem o homem diante das suas possibilidades. Até o último da Terra, com as suas mãos, a sua raiva, a sua velocidade, pode demonstrar o seu valor. O combate torna-se um confronto com questões derradeiras que a vida contemporânea tornou quase impossível. No ringue compreende-se quem se é e quanto se vale.” Isto significa que o boxe oferece todos os elementos básicos, quer internos, quer externos, para a ficção e, diga-se, para a não-ficção de aspirações literárias. No ringue são recuperados certos valores e certas noções básicas do que é ser-se humano que a nossa época já mal conhece e que a literatura contemporânea evita para não parecer antiquada. Qualidades exaltadas nos clássicos da literatura – honra, coragem, força e lealdade – ainda estão presentes no boxe e, se calhar, quase só no boxe.

 

As possibilidades metafóricas do boxe não diferem muito das do xadrez. O bónus para o escritor é um ambiente carregado de tensões sociais e humanas (vulgo, o submundo do boxe) que lhe permite manter um pé no simbolismo e o outro no realismo de sarjeta. Na verdade, literariamente o boxe presta-se a quase tudo: da exploração das estatísticas e da história às ejaculações sobre a beleza selvagem e violenta, da sociologia à psicologia, do ringue enquanto palco da luta de classes ao exorcismo simbólico da angústia masculina contemporânea. Virtualmente qualquer escritor, por muito distinta que seja a sua sensibilidade, pode pescar nas águas do boxe que encontrará sempre peixe para, no mínimo, cinco páginas. Isto é de extrema utilidade para o escritor porque desta forma consegue desviar-se de um obstáculo com que a literatura se depara sempre que se propõe descrever atividades eminentemente físicas mas que têm um lastro de sentimentos, emoções, significados e sentidos que derivam e se manifestam pela expressão física sendo que, em última análise, não são redutíveis a ela. Sim, estou a pensar em algumas penosas descrições de sexo.

 

Talvez nenhum outro texto sobre boxe ilustre tão bem as possibilidades e os riscos, as tendências e as contradições de se escrever sobre este desporto como o artigo que Norman Mailer, também ele ex-pugilista amador, escreveu para a revista Life em 1971, sobre o que foi chamado na altura “O Combate do Século”, entre Joe Frazier e Muhammad Ali. Uma parte do fascínio que o boxe exerce e da dificuldade que é escrever sobre boxe está resumida num dos parágrafos iniciais, um magnífico pedaço de literatura e, simultaneamente, um diagnóstico da impotência da literatura para dar conta de certas experiências. Silêncio: “E então, dois grandes pugilistas num grande combate descem aos rios subterrâneos da exaustão e atravessam os cumes montanhosos da agonia, vêem a luz da sua própria morte nos olhos do homem com quem estão a combater, chegam às encruzilhadas da mais dolorosa escolha do karma no momento em que se erguem do chão contra todos os apelos das doces e desfalecidas catacumbas do esquecimento – só que não é assim que os vemos, porque eles não são em primeira análise homens de palavras, e este é o século das palavras, números e símbolos.” É difícil escrever melhor sobre boxe enquanto se chega à conclusão que tudo o que se possa escrever sobre boxe ficará muito aquém daquilo que os homens que estão no ringue vivem e sentem. Porque se as palavras de Mailer nos parecem tão autênticas não é por estarem a representar fielmente o que se passa no ringue mas por representarem fielmente a ideia que a literatura faz daquilo que se passa no ringue. É sobre literatura que Mailer está a escrever e não sobre boxe. Mailer pode dar a sensação de estar a descrever a essência do boxe mas, na verdade, está a descrever a própria exaltação da linguagem de um intelectual branco a ver um combate de boxe. Daí que quando entra na descrição pormenorizada do que acontece ringue, com a sucessão de golpes e ganchos e esquerdas e amassos e corpos contra as cordas, a escrita de Mailer se torne aborrecida, tal como um escritor se torna aborrecido quando se dedica a descrever mecanicamente o acto sexual.

 

A vantagem do boxe é que oferece escapatórias à literatura em que um intelectual – branco ou não – se sente mais confortável. Também aqui o artigo de Mailer é um bom exemplo. Ele passa dos movimentos físicos dificilmente apreensíveis pela palavra, que o escritor mal consegue transplantar para a página a não ser na sua pura dimensão mecânica, para a mais adequada e vívida análise sociológica e psicológica: o pugilista não enquanto inteligência em movimento mas como um fragmento social em ascensão e depois, para que a narrativa se complete, em queda. Como as figuras de pugilistas – ficcionais ou não – de que falámos, Muhammad Ali era a personificação de um ideal literário do pugilista. Mesmo que não estivesse fascinado pelo boxe, e estava, Mailer, como tantos milhões de norte-americanos e de espectadores em todo o mundo, teria de ficar fascinado pelo ego gigantesco, complexo e trágico de Ali. Mailer dedicou-se então ao escrutínio dessa personalidade ambígua, amável e detestável, grandiosa e arrogante, e do seu lugar na cultura negra da época e na sociedade norte-americana em comparação com o lugar de um tipo humilde e trabalhador como Joe Frazier, a quem Ali chamava, para o humilhar, de Uncle Tom, o estereótipo do negro obediente, do negro preferido dos brancos. Neste momento o boxe já não existia, estava lá ao fundo, como cenário de outros confrontos e, de repente, o risco já não era só o da literatura dissolver o boxe em metáforas e excessos poéticos, mas o de todas as outras leituras suplantarem a da beleza essencial e primitiva do confronto entre dois homens, de o boxe soçobrar perante todo o peso que o escritor lhe atira para cima. Há pouco tempo, li esta frase sobre música rap, que podia ter sido escrita sobre o boxe: “Existem certas tendências quando se escreve sobre rap, sendo que a que mais se destaca é a sobre-intelectualização da forma, uma sobreconcentração no seu significado sócio-económico, histórico e comunitário”. É um movimento compreensível: o escritor é empurrado pela insuficiência das palavras da essência do combate – onde corre o risco da poetização, da esterilidade da masturbação linguística – para os prados férteis da sociologia e da psicologia, onde a palavra é fecunda, mas que já ficam muito longe do ringue. Mas é precisamente esse vai e vem entre o ringue e o mundo, entre a palavra e os seus limites, entre a metáfora e a fotografia realista, que torna o boxe tão fascinante.

 

Quando viu a versão final de Touro Enraivecido, Martin Scorsese terá dito que o filme tinha “much more boxing than we wanted”. Quando lemos algumas passagens mais gráficas do artigo de Mailer também temos essa sensação. Descrever golpes e movimentos através de palavras – e, curiosamente, também através de imagens, quando estas são criadas para um filme de ficção, ou seja, quando são uma coreografia artificial e não o bailado espontâneo do combate real – é redundante e cansativo. Mas também sobrecarregar o boxe com leituras que se afastam demasiado da sua essência desrespeita-o, sobreintelectualiza-o. É projectar no boxe mais do que aquilo que ele pode reflectir, como se pedia aos pugilistas que representassem mais do que aquilo que podiam representar, um erro que ainda hoje Saviano comete quando escreve que “De La Hoya sempre combateu com todos os latinos dentro dos seus punhos, como Muhammad Ali tendo no sangue o resgate de todos os afros do mundo, ou Jake La Motta com a fúria que circulava no corpo dos ítalo-americanos.” Quando a coisa atinge tais proporções e o boxe já não é boxe mas súmula de todas as relações sociais, parábola da condição humana, metáfora dos confrontos do homem com os outros e consigo mesmo, convém relembrar as palavras de Joyce Carol Oates (sim, Joyce Carol Oates) no seu livro sobre boxe: “A vida é semelhante ao boxe em muitos aspectos inquietantes. Mas o boxe só se parece com o boxe.”

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