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Circo da Lama

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

Circo da Lama

19
Jan14

Os Governadores de Barataria

Bruno Vieira Amaral

Texto escrito para o debate sobre literatura e humor do site Orgia Literária.

 

O que venho hoje fazer aqui corteja perigosamente a noção de ilegalidade, porque o que vos trago é o pecúlio acumulado de vários roubos. Espero que esta confissão antecipada predisponha os vossos corações ao perdão e, se não o fizer, notem bem que a mesma também serve para vos tornar cúmplices do crime, nomeadamente sujeitando-vos à acusação de receptação, delito punível com pena de prisão até cinco anos. Não ofenderei as vossas inteligências com originalidades, liberdades que considero nocivas e um tanto pueris. Como disse, a maior parte do que aqui vos trago foi roubado. Se se sentirem defraudados reclamem comigo pela escolha e com os verdadeiros proprietários pela qualidade. Compreendam que com a crise o mercado de produtos e ideias em 2ª mão cresce diariamente. Este breve ensaio é disso exemplo. Contudo, no meu caso, o hábito é antigo.

 

Contactei em segunda mão com a teoria aristotélica da comédia, que é um modo muito sóbrio, rabínico e intelectual de se aceder ao conhecimento. Num remoto verão de 1995, li essa medieval aventura filosófico-detectivesca com o título de O Nome da Rosa. De Aristóteles, graças a Deus, ainda não tivera notícia. Muito do que ali se falava foi causa de espanto como sempre acontece quando uma rotunda e esfomeada ignorância dá com amplos prados de conhecimento. Percebi que o nome de uma das personagens, Guilherme de Baskerville, seria uma homenagem a Arthur Conan Doyle, mas a falta de leituras e um pouco cultivado faro enciclopédico fez-me ignorar a inspiração real da personagem Jorge de Burgos, bibliotecário cego. Ora, já a trama se abeira do desenlace quando esta personagem perora sobre os perigos do riso. O riso, coisa vil e baixa, deve manter-se assim, próxima do animalesco. Daí o perigo do livro de Aristóteles que elevava o riso à categoria de arte, que o dignificava filosoficamente. Para Jorge de Burgos, o riso é o contrário do medo, e este é talvez “o mais próvido e afectuoso dos dons divinos”, pois sem temor não há crença. Pôr o riso nos antípodas do medo é muito avisado, embora seja notório que Jorge se encontra preso numa armadilha de lógica aristotélica: ele tem medo do poder do riso mas não pode defender-se desse medo rindo, que é o que muita gente faz quando se ri. No entanto, convém não exagerar o poder do riso porque, caso contrário, acabamos reféns do riso como antes éramos reféns do medo. O riso, ao contrário do que nos querem fazer crer certos teóricos do humor, não vence, por exemplo, a morte. Rirmo-nos perante a morte ou a doença ou uma desgraça é atirar bolinhas de papel a um adversário que se está efectivamente nas tintas para o nosso sentido de humor. Podemos deixar um belo e espirituoso epitáfio mas o sofrimento é insensível a esses atrevimentos do génio. Tolerem a batota de citar um humorista para me apoiar nesta argumentação: “Não quero conquistar a imortalidade através da minha obra. Quero conquistar a imortalidade através de não morrer.” (Woody Allen) Até porque o riso nem sempre é celebração da vida. Em certos momentos, pode ser pernicioso, expressão de desumanidade, tirania, desejo de silenciar o outro através da irrisão. O humor pode ser uma droga que nos torna progressivamente cínicos, distantes dos outros, incapazes de um verdadeiro diálogo. A sua utilização requer parcimónia.

 

Reconhecer o poder do riso deve implicar reconhecer os limites dos seus benefícios. Jorge de Burgos, um fanático, não lhe reconhece nenhuns, o que pode induzir em erro o leitor que sabendo que esta personagem é inspirada em Jorge Luis Borges pode convencer-se que o escritor argentino era um monumento de severidade monástica. Não era. E aqui faço um desvio do caminho da teoria para a vereda da prática. E começo por Borges regressando a O Nome da Rosa e a uma observação que o narrador, Adso de Melk, faz sobre o seu mentor, Guilherme de Baskerville: “Eu nunca compreendia quando gracejava. Na minha terra, quando se brinca, diz-se uma coisa e depois ri-se com muito barulho, de modo que todos participem na piada. Guilherme, pelo contrário, ria só quando dizia coisas sérias, e ficava muito sério quando presumivelmente gracejava.” Assim é a escrita de Borges: mantém-se muito séria quando graceja, e esta característica tanto se pode atribuir à fleuma britânica como ao cinismo porteño, ao clima cultural ou ao clima geográfico. É um humor erudito, que permanece sentado, a rabiscar as suas sentenças, enquanto os outros dançam, bebem e caem. Não haverá melhor exemplo do que o conto que abre História Universal da Infâmia. O parágrafo inaugural é de uma tal perfeição formal e humorística que quase obriga o leitor a não avançar na leitura, deleitando-se com o julgamento de uma elegância impiedosa sobre o pobre e benevolente de las Casas. Reza assim:

 

“Em 1517 o Padre Bartolomé de las Casas teve muita pena dos índios que se extenuavam nos laboriosos infernos das minas de ouro das Antilhas e propôs ao Imperador Carlos V a importação de negros, que se extenuaram nos laboriosos infernos das Antilhas. A essa curiosa variação de um filantropo devemos factos infinitos:”

 

Fiquemos por aqui. A parte a negrito é da minha responsabilidade não se vá pensar que o defunto poeta tinha por hábito rir-se das suas próprias piadas. Em poucas linhas, Borges é absolutamente sério e absolutamente cómico. A frase nunca estremece, nunca é afectada por aquele tremor eléctrico com que certos autores pretensamente cómicos pretendem reanimar prosas moribundas. Também não padece daquela vitalidade americana, daquele troar de fanfarra com que Mark Twain se anuncia. É como se estivesse sedada, estranhamente calma, com o mundo a desabar à volta dela. O mundo da escravatura, da exploração dos índios, das boas intenções de Bartolomé de las Casas, é encolhido e transferido para um parágrafo de subtil irrisão. Esta é uma história longa contada de maneira breve, que é um dos pilares do humor, como naquela piada (outra) de Woody Allen: “Tirei um curso de leitura rápida. Li Guerra e Paz em 15 minutos. Tem a ver com a Rússia.” Este registo eufemístico, desinteressado, alusivo, reaparece um pouco mais à frente. Lazarus Morell é um bandido, um dos infames desta história universal. Juntamente com a sua quadrilha rouba uns cavalos a uns crentes desprevenidos. Eis o relato de Morell sobre o que fizeram com os cavalos roubados: “Vendêmo-los no Estado de Arkansas, excepto um avermelhado, muito garboso, que reservei para meu uso particular. A Crenshaw esse também agradava, mas fiz-lhe ver que não lhe servia.” A piada está, é claro, no eufemismo que rendilha a capacidade de persuasão de Morell. Lembra a famosa frase de O Padrinho: “Vou fazer-lhe uma proposta que ele não pode recusar.” Antes que seja tarde, e aproveitando a boleia dos cavalos roubados por Morell e seus comparsas, vou até Francisco de Quevedo, autor de O Buscão, livro onde se encontra este belo exemplar equestre: "Chegou o dia e saí num cavalo ético e melancólico, o qual, mais de manco que de bem criado, ia fazendo reverências. As ancas eram de macaco e sem rabo; o pescoço de camelo e mais comprido; torto de um olho e cego do outro; quanto a idade não lhe faltava mais que fechar os olhos; enfim, mais parecia cavalete de telhado que cavalo, pois a ter uma gadanha, lembrava a morte dos rocins. Demonstrava abstinência no seu aspecto, e bem se lhe viam as penitências e jejuns, nunca tinham chegado à sua notícia a cevada e a palha." Cervantes poderia ter plagiado Quevedo para descrever Rocinante. O cavalo de Alonso Quijano é descrito com alguma graça, sem chegar à sentença circular e ritmada de Quevedo.

 

Borges pratica um humor cerebral, literário. O humor resulta não do que se está a descrever, que em si não tem graça nenhuma, mas da conjugação de adjetivos e substantivos, do que se diz e do que se deixa por dizer. O mesmo é válido para Quevedo. Se estivéssemos a obervar a pintura daquele cavalo, teríamos vontade de rir? Não. É a escrita de Quevedo que provoca o riso. Para se perceber a ideia, só temos de imaginar o seguinte: se isto fosse a cena de um filme teria alguma piada? Mas quando se descreve uma cena de humor físico, que podia ser a cena de um filme, o desafio para o escritor também não é pequeno. Ele tem de fazer com que a cena tenha graça unicamente através da força das palavras. Há dois momentos na obra de Mario Vargas Llosa em que o escritor peruano o faz com muito sucesso. São, para além disso, dois momentos muito parecidos na estrutura cómica e serão fruto da própria reflexão sobre a literatura humorística a que o autor se terá dedicado e sobre a qual deixa algumas pistas na sequência da última destas cenas. Quero com isto dizer, e sem querer faltar ao respeito a tão alto escriba, que há nestes dois casos a aplicação de uma fórmula humorística. Sem mais delongas, aqui vai o excerto retirado de Os Cadernos de Dom Rigoberto:

 

“Porém Manuel não fora um poeta como Neruda, nem um moralista como Swift, nem um sexólogo como Ellis. Apenas um castrado. Ou, antes, um eunuco? Diferença abissal, entre esses dois negados para a fecundação. Um possuía ainda falo e erecção e o outro tinha perdido o adminículo e a função reprodutora e apresentava um púbis liso, curvo e feminil. O que era Manuel? Eunuco. Como tinha podido Lucrecia conceder-lhe aquilo? Generosidade, curiosidade, compaixão? Ou vício e doença? Ou todas essas coisas combinadas? Ela tinha-o conhecido antes do célebre acidente, quando Manuel ganhava campeonatos motociclísticos enfiado num capacete rutilante e num calção de plástico, encarrapitado sobre um equídeo mecânico de tubos, guiador e rodas, de nome sempre japonês (Honda, Kawasaki, Suzuki ou Yamaha), catapultando-se a si mesmo com barulho de peido ensurdecedor a corta-mato – chamavam-lhe motocross -, embora também costumasse participar em galimatias como Trail e Enduro, esta última prova de suspeitosas reminiscências albigenses – a duzentos ou trezentos quilómetros por hora. Sobrevoando valetas, trepando cerros, alvoroçando areais e saltando rochedos ou abismos, Manuel ganhava troféus e aparecia fotografado nos jornais desrolhando garrafas de champanhe e com modelos que lhe beijocavam as faces. Até que, numa dessas exibições de acrisolada estupidez, voou pelos ares, depois de subir como uma bólide uma colina enganada, atrás de cujo cume o esperava, não, como ele, incauto, julgava, um sedante tobogã de amortecedoras areias, mas sim um precipício com rochedos. Precipitou-se nele, gritando um palavrão arcaico – Olho do cu! – quando voava no seu corcel de metal rumo às profundezas, a cujo fundo chegou segundos depois sonoramente, num estrondo de ossos e ferros que se esmagavam, quebravam e estilhaçavam. Milagre! A sua cabeça ficara intacta; os seus dentes, completos; a sua visão e a sua audição, sem dano algum; o uso das suas extremidades, um tanto ou quanto ressentido graças aos ossos quebrados e aos músculos rasgados e tosados. O passivo ficou compensatoriamente concentrado nos seus órgãos genitais, que monopolizaram os estragos. Porcas, pregos e punções perfuraram-lhe os testículos apesar do elástico suspensor que os guarnecia e fizeram deles uma susbstância híbrida, entre a pasta de mel e a ratatouille, ao mesmo tempo que o pecíolo da sua virilidade foi cerceado de raiz por algum material cortante que talvez – ironias da vida – não proviesse da moto dos seus amores e triunfos. O que o castrara, então? O grosso crucifixo puncticortante que levava posto para convocar a protecção divina quando perpetrava as suas proezas motociclísticas.”

 

Agora um excerto de A Tia Julia e o Escrevedor:

 

“Foi precisamente uma representação de A Vida, Paixão e Morte o que a tia Julia tinha visto no Teatro Saavedra. Era o instante supremo, Jesus Cristo agonizava no alto do Gólgota, quando o público avisou que o madeiro em que permanecia amarrado, entre nuvens de incenso, Jesus Cristo-Martí, começava a vergar. Era um acidente ou um efeito previsto? Prudentes, trocando olhares sigilosos, a Virgem, os apóstolos, os legionários, o povo em geral, começavam a retroceder, a afastar-se da cruz oscilante, na qual, ainda com a cabeça reclinada sobre o peito, Doroteo-Jesus começara a murmurar baixinho, mas audível nas primeiras filas da plateia: “Eu caio, eu caio.” Sem dúvida paralisados pelo horror ao sacrilégio, ninguém, entre os invisíveis ocupantes dos bastidores, acudia a segurar a cruz, que dançava agora desafiando numerosas leis físicas no meio de um rumor de alarme que tinha substituído as rezas. Segundos depois, os espectadores de La Paz puderam ver Martí da Galileia a cair de bruços sobre o cenário das suas glórias, sob o peso do sagrado madeiro, e ouvir o estrondo que abalou o teatro. A tia Julia jurava-me que Cristo tinha chegado a rugir selvaticamente, antes de se estatelar contra as tábuas: “Caí, carago.”

 

O leitor atento há-de notar no aproveitamento sacrílego que em ambas as cenas é feito da cruz de Cristo. É um tipo de humor latino, saudavelmente anti-religioso, de pendor popular. Na primeira cena, o crucifixo que deveria proteger o motociclista é, ironia das ironias, o que o priva do convívio íntimo com o seu membro viril. Na cena teatral, o “sagrado madeiro” leva na queda o Cristo que só pode gritar “Caí, carago”, um grito que equivale ao palavrão arcaico do rapaz da mota: “Olho do cu!” O vernáculo aqui funciona de duas maneiras. Antes disso convém salientar que não se trata de um vernáculo de presídio; é o palavrão familiar, dominical, tolerável. É a forma como a expressão brejeira interrompe o elaborado discurso literário, que faz uso de um vasto vocabulário (“galimatias”, “acrisolada estupidez”, “reminiscências albigenses”), que lhe confere uma dimensão transgressora e exacerba a sua comicidade que é, fora deste contexto, assaz infantil e um tanto básica. Podemos identificar aqui uma das fórmulas cómicas mais utilizadas na literatura: um registo linguístico de nível literário subitamente interrompido por expressões populares e grosseiras. Nesta fórmula, o palavrão explode festivamente no cérebro do leitor que sente a adrenalina de uma rápida queda no vazio: de um registo impossivelmente culto passa para o coloquial extremo. No caso do Cristo em queda, o vernáculo funciona também por ser proferido por um Jesus, ainda que falso. De Cristo esperamos eli, eli, lama sabactanis dilacerantes ou derradeiros suspiros solenes no latim dos séculos. Não esperamos esse rugido selvático, esse grito plebeu de “Caí, carago.” Temos finalmente o humor físico propriamente dito, a queda, o tipo que escorrega na casca de banana. Manuel, o futuro eunuco, espera encontrar “amortecedoras areias” mas cai num buraco com rochedos. Vargas Llosa faz-nos ouvir através das palavras “sonoramente, num estrondo de ossos e ferros que se esmagavam, quebravam e estilhaçavam”. A própria passagem é quebradiça e barulhenta. Estrondo idêntico ouve-se no teatro (“ouvir o estrondo que abalou o teatro”), mas onde havia um palavrão arcaico agora há um Cristo a “rugir selvaticamente” (note-se o ruído que verbo e advérbio produzem em conjunto). O narrador de A Tia Julia e o Escrevedor, que é escritor, quer escrever um conto com base na história do Cristo. Terá de ser um conto cómico e, para se preparar, confessa que anda a aprender técnicas humorísticas através da leitura de mestres como Twain e Bernard Shaw. Uma coisa é certa: para gerar o máximo efeito, o conto terminará com o rugido crístico. É uma noção teórica – terminar com um bang! – que posteriormente é desrespeitada na história do eunuco. Esta não termina com um bang, prolonga-se um pouco mais, explica vagarosamente a estranha ironia do crucifixo e, dessa forma, passa de um número de stand up comedy para literatura de elevada qualidade. Porque ao prescindir de um final com a frase mais sonora e bombástica, o escritor toma as rédeas da narração, diz-nos que é que ele quem manda e que não nos devemos preocupar porque o melhor está para vir e virá quando ele achar oportuno. Podemos pois considerar a cena de Os Cadernos de Dom Rigoberto um refinamento do estilo humorístico de Vargas Llosa. Não é o incidente (a anedota) que dita a narrativa, é o escritor que parte do incidente e o transforma em puro deleite literário. Na cena do teatro, vemos um narrador a abrir a porta da oficina e a mostrar as suas ideias, as suas inseguranças, a maquinaria. Na cena da mota, temos um narrador que só mostra o resultado final. Aquela é uma cena de aprendiz (porque o narrador é um aprendiz), a segunda é uma cena de mestre.

 

Cristo e a sua cruz são assuntos sérios que, por o serem, são muito vulneráveis ao humor ímpio. Mas o secularmente sério Diabo, que as nossas corrompidas e hedonistas imaginações vêem como um sedutor, um jogador, um dandy, também se expõe bastante ao ridículo. Basta puxar-lhe pelo rabo ou perguntar-lhe se não o ensinaram a comer de faca e garfo que o garbo mefistotélico logo se reduz a cacos risíveis. Sim, a cena é de Os Maias e o diabo é apenas João da Ega com máscara diabólica. O satanismo benévolo e sentimental de Ega, um satanismo de plástico, da boca para fora, é desmascarado cruelmente por um marido atraiçoado, corno manso enfurecido. O Mefistóteles de Celorico é corrido da casa dos Cohen. O momento da sua descoroação satânica é de antologia:

 

“Diante do espelho, Ega hesitava em desmanchar o seu semblante feroz de Satanás. Mas arrancou-as [às sobrancelhas] por fim – e a gorra emplumada, muito justa, que lhe escaldava a cabeça. Então Carlos lembrou-lhe que, para ir a casa do Craft, se desembaraçasse do manto e da espada, se agasalhasse num paletó dele. Ega deu ainda um longo e mudo olhar ao seu flamejante traje infernal, e com um profundo suspiro começou a desafivelar o talim. Mas o paletó era muito largo, muito comprido; teve de lhe dar uma dobra nas mangas. Depois Carlos meteu-lhe um boné escocês na cabeça. – E assim arranjado, com as canelas vermelhas de diabo aparecendo sob o paletó, a gargantilha escarlate à Carlos IX emergindo da gola, a velha casqueta de viagem na nuca, o pobre Ega tinha o ar lamentável de um Satanás pelintra, agasalhado pela caridade de um gentleman, e usando-lhe o fato velho.”

 

A piada desta passagem está no satanismo precário, teatral e postiço de Ega, como se a ferocidade do Príncipe das Trevas fosse apenas um fato de fantasia de curta duração. O que vemos é um Satanás no balneário, um Lúcifer de camarim, um diabo, um pobre diabo, desmantelado, mansinho, arrasado. Está tudo no oxímoro do “Satanás pelintra”, e cada palavra serve para acentuar a majestade debilitada deste diabo pelas ruas da amargura: “desmanchar o semblante feroz” (o tom de fim de festa, acabou-se a brincadeira), “escaldava a cabeça” (o infernal diabo que não aguenta o calor), “o paletó era muito largo [...] teve de lhe dar uma dobra nas mangas” (como um palhaço com roupas que não lhe servem), “as canelas vermelhas” (a imponência de um diabo a contrastar com a fragilidade rubra das canelas).

 

O episódio do baile de máscaras em casa dos Cohen relembrado por Ega com uma fúria selvagem, mas em todo o caso inofensiva, é talvez o exemplo mais perfeito do brilhantismo de Eça no humor físico (um pequeno àparte. Vimos, nas duas cenas de Vargas Llosa, um humor ligeiramente antirreligioso, sacrilégios menores. Eça é de outra têmpera. Quando tem por alvo a Igreja e os seus representantes, Eça é sempre mais ácido, mais sarcástico. Mesmo quando os tons são os da farsa, há ali uma sombra de denúncia social, de combate justiceiro à hipocrisia, de um activismo de consciência, que obviamente tem a ver com a época em que Eça viveu. Seja como for, nota-se-lhe um esgar de ódio que parece ausente do verbo de Vargas Llosa quando profana a cruz). Há passagens muito cómicas em muitos dos romances de Eça, mas se escolhi esta em detrimento de outras de obras como A Relíquia ou A Capital é porque quero falar de humor na literatura mais do que de literatura de humor. A grande diferença é que esta última se anuncia com pompa colocando sobre si uma enorme pressão para ter piada e todo o seu sucesso ou insucesso depende de ter ou não ter graça. Quando o humor emerge naturalmente (sendo que em literatura nada é natural portanto estou a dizer quando o autor consegue criar a ilusão de que o humor emerge naturalmente, espontaneamente, da sábia conjugação das palavras) de um contexto não exclusivamente humorístico o efeito é muito superior. É a diferença entre alguém que está sempre a contar anedotas e alguém que conta histórias no meio das quais consegue introduzir uma nota humorística. Voltarei a este tema no fim porque, antes de concluir, quero falar de Dom Quixote. Talvez por ter lido Viagens na Minha Terra antes do clássico de Cervantes tinha aquela ideia, que mais tarde vim a saber importada do romantismo alemão, de que Dom Quixote era uma grande e séria parábola sobre o idealismo e o pragmatismo, entre os sonhadores e os realistas. Hoje, vejo como natural o facto de os alemães se terem apropriado germanicamente da obra de um espanhol, realçando todos estes conceitos pesadíssimos, prussianos, em desfavor de uma leitura mais viva e livre da obra. Por isso, quando finalmente li as aventuras de Alonso Quijano vivi a ingénua felicidade de recuperar uma certa virgindade de espírito à medida que avançava na leitura. Preparei-me para um combate ideológico, para um confronto filosófico blindado e levei um banho de alegria e de graça. Entrei com uma tesoura de tosquia alemã e saí de lá nuestrohermanamente tosquiado. Tanto ouvira falar de sonhadores que lutam metaforicamente contra moinhos de vento que não esperava encontrar no romance um homem a lutar mesmo contra moinhos de vento julgando que enfrentava gigantes e a sair do confronto moído de pancada. Aliás, as primeiras saídas de Dom Quixote e o seu fiel escudeiro Sancho Pança redundam em festivais de pancada nada metafóricos: começa com uns mercadores, depois dá-se o célebre recontro com os moinhos de vento, mais tarde até dois frades beneditinos se tornam alvo da loucura do cavaleiro da Triste Figura, camponeses malham furiosamente nos dois companheiros de aventuras. Um exemplo:

 

“Os iangueses, que se viram maltratar por aqueles dois homens sozinhos sendo eles tantos, correram aos seus varapaus, e colhendo os dois no meio começaram a malhar neles com grande afinco e veemência. Verdade é que à segunda bordoada deram com Sancho no chão, e o mesmo aconteceu a dom Quixote, sem que lhe valesse a sua destreza e bom ânimo. E quis a sua sorte que viesse a cair aos pés de Rocinante, que ainda não se tinha levantado; por onde se vê a fúria com que malham varapaus postos em mãos rústicas e zangadas.”

 

Sancho ainda será manteado numa venda e dom Quixote ainda investirá contra um rebanho convencido de que este é um exército inimigo. Esta acção não lhe vale a simpatia dos pastores que, vendo que não demovem o cavaleiro com palavras, “descingiram as fundas e começaram a saudar-lhe as orelhas com pedras como punhos.” Quixote não abranda, continua a atacar ferindo mortalmente algumas ovelhas e carneiros: “Chegou enquanto isto um calhau do ribeiro que, acertando-lhe no flanco, lhe meteu dentro duas costelas. Vendo-se tão maltratado, acreditou sem dúvida que estava morto ou malferido, e, recordando-se do seu licor, sacou da almotolia e levou-a à boca, começando a despejar o líquido no estômago; mas antes de acabar de meter no corpo aquilo que lhe parecia bastante, chegou outra amêndoa e deu-lhe na mão e na almotolia tão em cheio, que a fez em pedaços, levando-lhe de caminho três ou quatro dentes queixais da boca e machucando-lhe gravemente dois dedos da mão.”

 

Quanto a vocês não sei, mas a mim a interpretação idealismo vs. realismo parece-me tão aborrecida e estática em comparação com a burlesca vitalidade das aventuras de dom Quixote e Sancho Pança que fiquei com a impressão de ter lido um livro que não o que é referido por Almeida Garrett nas suas Viagens. E se calhar é isso que acontece sempre que um novo leitor descobre um livro. O livro torna-se outro.

 

Regresso à questão da literatura de humor e do humor na literatura. Penso que, a esta altura, não restam dúvidas de que falei de humor na literatura e, mais do que teorizar, procurei trazer uns poucos exemplos que falassem por mim com a eloquência que naturalmente me falta. A minha escolha não foi difícil. Quem entra no negócio da literatura pela via da literatura de humor desenha um círculo à sua volta e de cada vez que põe um pé, ou os dois, fora desse círculo, alguém lhe aponta um dedo acusador. Para além disso, sobrecarrega-se com a obrigação de ter piada e de apostar todas as fichas na graça e, por vezes, perdendo tudo na graçola. Por isso, considero ser mais avisado o escritor que começa com uma obra magistral, séria e imponente e, de vez em quando, inesperadamente, faz de jogral, do que aquele que se inicia nas artes e nas letras como bobo e, no momento em que quer ser rei ou imperador, faz a figura de Sancho Pança, governador de Barataria.

10
Jan14

Breve História da Literatura do Baixo Tâmega

Bruno Vieira Amaral

Secada por esses gigantescos eucaliptos literários –Teixeira de Pascoaes e Agustina –, a literatura do Baixo Tâmega começa finalmente a mostrar ao mundo, graças ao empenho do professor Amarildo Mota e Sá e de sua voluptuosa esposa e secretária, D. Patrocínio Augusta Fidelis Manhouce de Mota e Sá, outras figuras que o tempo – inclemente nos seus julgamentos – e a inexistência de um lóbi regional trataram de remeter ao esquecimento. Com a devida autorização e beneplácito do venerável professor, é com muita honra que apresentamos alguns dos vultos das letras do Baixo Tâmega, que serão incluídos num esplêndido dicionário a publicar, de acordo com as últimas notícias, lá para 2036.

 

Leocádio Casimiro (1867-1925), pseudónimo de José de Almeida Quadros, Gondiães

 

A obra poética de Leocádio Casimiro (1887 – 1925) é, pela sua dimensão bárbara e ainda não totalmente conhecida, um dos mais significativos monumentos literários do Baixo Tâmega. Até ao momento, a equipa de investigadores destacada pelo professor Amarildo para a casa de família do poeta em Gondiães, já conseguiu encontrar mais de 15734 sonetos, 1525 quadras populares e é grande o receio que um barril recentemente descoberto na adega não contenha vinho mas esteja a abarrotar de poesia decadentista. Entre a produção de Leocádio que tem vindo a ser revelada, conta-se alguma da mais bela poesia erótica jamais saída de lusa pena, como “Lírios e Mel de Basto”, “Amanhã em Soalhães” ou “Bela Tranca”. Politicamente, Leocádio estava mais próximo das ideias do Partido Regenerador, embora também não desgostasse das propostas do Partido Progressista. Considerava-se um firme republicano com uma costela monárquica, ou um monárquico que simpatizava com a causa republicana. Esta postura singular valeu-lhe muitos inimigos e explica, em certa medida, o esquecimento a que a sua obra foi votada. Não se pense, contudo, que Leocádio não gozou do reconhecimento dos seus contemporâneos. Pelo contrário. Logo em 1935, quando se completaram dez anos da morte do poeta, a paróquia organizou uma coleta para que se erguesse uma estátua em sua homenagem. Angariada a verba, encomendou-se a um escultor de Rebordelo uma imponente obra em gesso que, no dia da inauguração, foi funestamente atingida por um raio, no que foi entendido por todos como um sinal divino de desaprovação por causa de uns poemas jacobinos e sanguinários que Leocádio escrevera na juventude e que, por falta de oportunidade, nunca renegara. Atualmente, a estátua, partida em duas e milagrosamente fumegante, é uma das grandes atrações turísticas da região e pode ser visitada nos terrenos há muito cedidos pela junta de freguesia de Gondiães para a construção do futuro Museu de Literatura do Baixo Tâmega.

 

 

Virgolina Pereira Tavares – (1894-1930) Fervença

 

Hoje em dia, Florbela Espanca é mito e Virgolina Pereira Tavares é sombra. Mas se justiça houvesse, a voz melíflua de Represas teria cantado os versos agridoces desta amante desgraçada, a grande poetisa do amor entre primos de primeiro grau. De facto, a vida foi madrasta para Virgolina. Aos quinze anos, apaixonou-se pelo seu primo, Edgar Tavares, um rapaz com uma envergadura física impressionante, apesar do seu modesto metro e sessenta. Entre os dois, o entendimento fluía tão natural como as águas da Ribeira de Fervença. Estava tudo muito bem encaminhado quando, inesperadamente, Edgar decidiu alistar-se no Corpo Expedicionário Português. O desgosto de Virgolina serviu-lhe de inspiração para as suas primeiras tentativas literárias – Gases para Orfeu, Carne e Canhão e Para Onde Vais que Não te Vejo. Enlouquecida pela perspetiva de perder o amado nas trincheiras europeias, Virgulina comprou um bigode postiço e também se alistou. Foi mesmo antes de embarcar no vapor que levaria os soldados para Brest que a rapariga foi desmascarada quando o bigode lhe caiu precisamente no momento em que proferia, com voz simuladamente grossa, estas palavras: “Então vamos lá dar cabo desses boches dum raio!” Apartou-se do primo com abundantes lágrimas e guinchos pavorosos que muito perturbaram os outros soldados, alguns dos quais estavam em crer de que iam a França participar numa peça de teatro intitulada La Guerre. Os anos passaram e a resignação apoderou-se do coração de Virgolina. Incrivelmente, quando já ninguém esperava, Edgar reapareceu em Fervença. Vinha com bom aspeto e, à primeira vista, nem se notava que tinha deixado o braço esquerdo nos lamaçais da Flandres. A prima celebrou efusivamente o regresso do herói que, no entanto, chegara decidido a desposar uma rapariga do lugar de Seixoso, cuja família tinha umas cabeças de gado e vários hectares de terra boa para cultivo. Virgolina nunca se recompôs da traição e entregou-se com todas as forças do seu ser à feitura de cestos de piorna. Na literatura, a única coisa que escreveu depois disso foi uma tragédia em cinco atos, intitulada O Maneta Ingrato, que alguns críticos perspicazes acreditam estar vagamente relacionada com o primo.

 

 

Miguel de Lemos (1907 – 1974) – Mondim de Basto

 

Se a literatura de viagens beneficia de um assinalável prestígio nestas terras, muito se deve ao trabalho incansável e pioneiro de Miguel de Lemos, conhecido como o Amundsen do Basto. Este filho dileto de Mondim cedo revelou a sua inclinação para a aventura. Aos oito anos roubou o burro aos tios e foi numa longa jornada até Celorico, onde foi recebido à pedrada por uma turba que andava de vigília para apanhar um lobisomem. Mais tarde, já adolescente, organizou, juntamente com amigos, uma expedição às freguesias de Campanhó, Paradança, Pardelhas e Bilhó, onde se espantou muito por aí encontrar parentela e um sujeito conhecido como Já-te-avio, com quem trocou minguadas palavras. O objetivo da saída era o de reunir elementos sobre os hábitos gastronómicos da população autóctone e o de recolher canções tradicionais que, já na altura, estavam em risco de se perder. Nas gravações que efetuou, podem ouvir-se as versões mais remotas de clássicos como “Espiga, Ai que Linda Espiga” e “A Minha Sogra é um Boi (barrosão)”. Os relatos das suas viagens eram publicados na imprensa regional e aguardados por uma multidão de leitores ávidos de saber mais sobre as gentes de sítios tão exóticos como Vilar de Cunhas ou Refojos de Basto. A capacidade de observação de Miguel de Lemos era servida por uma prosa despojada e humilde, quase franciscana, como se pode observar nesta passagem de um dos seus artigos mais populares, em que relatava uma épica deslocação a Vilar de Perdizes, de onde regressou com uma chouriça e uma tremenda carga de mau-olhado: “Encontrei urze. Encontrei giesta amarela. Também encontrei giesta branca, mas menos adrede. São as cores das terras do Barroso. No inverno...quero lá saber.” Dedicou os seus últimos anos de vida ao projeto megalómano de, em conjunto com a Casa do Povo, realizar uma excursão a Arraiolos. Infelizmente, a revolução de Abril e uns cogumelos venenosos impediram a concretização desse sonho de um grande visionário.

 

 

 

Adérito Magalhães (1894-1965) – Ermelo

 

Esplêndido ensaísta, prosador, polemista e defensor dos direitos dos índios norte-americanos, Adérito Magalhães conviveu com as mais importantes figuras literárias da sua época, como João Gaspar Simões – a quem tratava por Molas – Adolfo Casais Monteiro – o Bardas – e José Régio – que, certa vez, lhe emprestou cinco escudos e uma cigarreira de prata. Foi um dos colaboradores da revista Presença e, nas horas vagas, dedicava-se à reparação de televisores, uma atividade que, segundo o próprio, o mantinha “ancorado à realidade costumeira”, embora o facto de a televisão ainda não ter sido inventada contribuísse para a pouca clientela. Ficou célebre a sua discussão com António Borges de Castro, em 1943, a propósito do estatuto jurídico-administrativo-religioso da Nossa Senhora da Graça e que ficou conhecida como a Disputa de Ermelo. Durante várias semanas, os dois ilustres intelectuais esgrimiram argumentos perante uma plateia vibrante de professores de Coimbra e de porqueiros e almocreves de Manhuncelos, que por ali passavam. Para arbitrar a contenda foi convidado Bernardo Augusto de Madureira e Vasconcelos, lente catedrático de Teologia e impulsionador da filosofia tomista, que não pôde aceitar o convite por ter morrido em 1926. No final, Borges de Castro foi considerado o vencedor e Adérito Magalhães foi expulso de Ermelo, não sem que antes tenha sido obrigado a dar as ceroulas ao seu adversário. Após esse insucesso, Magalhães refugiou-se na Serra da Aboboreira a fim de concluir uma ambiciosa biografia em dezasseis volumes do cônsul romano Décio Júnio Bruto, projeto que abandonou quando percebeu que só sabia o nome do biografado.

 

 

 

 

Fernandes, neo-realista (1915 – 1963) – Baião

 

O neo-realismo, a exemplo da açorda e do partido comunista, nunca se deu bem por estas zonas. É verdade que Soeiro Pereira Gomes nasceu em Gestaçô, também no concelho de Baião, mas para enveredar pelo comércio intelectual com o demónio vermelho teve de rumar a sul. A falta de condições naturais para a prática do neo-realismo não impediu alguns entusiastas deste desporto radical de o praticarem, adaptando-o, contudo, ao seu contexto social específico. O exemplo mais flagrante será o de Fernandes, professor primário e auto-didata que, depois de aprender alemão sozinho, tentou traduzir O Capital, de Marx, tendo desistido por volta da primeira página por, de acordo com as suas palavras, “não perceber nada daquela m...”. A sua simpatia pelos comunistas era conhecida de toda a população, que não se incomodava muito com isso, “cada um é para o que nasce”, diziam, e a prova da tolerância do povo é que ainda só lhe tinham incendiado a casa duas vezes. Também lhe tinham dado um terrível enxerto de porrada mas nesse caso não tinha sido por razões políticas mas por motivos religiosos, visto que alguém disse que, ao passar em frente da Igreja de São Tomé de Covelas, Fernandes não se teria persignado. Insensível a estes apelos um tanto abrutalhados para que corrigisse o seu passo, Fernandes, agente provocador, publicou um livro cujos 50 exemplares logo foram queimados numa cerimónia presidida pelo pároco de Frende e que esteve para contar com a presença do Bispo de Braga. A ação do livro – Fogo na Planície – decorre na região do Tâmega. Sem se saber como, uma família de camponeses alentejanos aparece subitamente em Amarante. Ao ver aquela família desamparada, a percorrer as ruas à procura de pão, um jovem idealista e extraordinariamente parecido com o autor ajuda as crianças lendo-lhes excertos de A Mãe, de Gorki. Os petizes logo esquecem a fome e, com os rostos iluminados por um sorriso de esperança, tentaram tomar de assalto a Câmara Municipal e assassinar um GNR à dentada. O segundo e último livro de Fernandes – Ventos de Mudança – ainda se insere na linha neo-realista, embora o paralelismo estabelecido entre um poderoso capitalista minhoto e Jesus Cristo, São Francisco de Assis e Gandhi, levante algumas dúvidas quanto à pureza ideológica da obra.

 

Porfírio Queirós Carneiro (1927 – 2005) – Arco de Baúlhe

 

O romance gótico nunca teve muitos adeptos nem praticantes em Portugal. No Baixo Tâmega, a exceção tem o nome de Queirós Carneiro. Descendente de uma família de aristocratas, o seu tetravô era o Visconde de Busteliberne, famoso por liderar um regimento que enfrentou galhardamente os franceses vinte anos depois das invasões napoleónicas, o que deixou os soldados num estado de prostração ontológica por não saberem ao certo quem tinham andado a combater. Queirós Carneiro desenvolveu desde criança um carácter melancólico e lânguido que o avô tentou corrigir com banhos de água fria e apalpões às criadas. Mas pouco havia a fazer. Na escola, quando a professora lhe pediu para fazer uma composição sobre o dia mais feliz da sua vida, o rapaz escreveu sobre um passarinho moribundo que lhe veio pousar na mão no dia do funeral da sua mãe. A influência de um tutor alemão neurasténico, Conrad von Hagendaz, só veio agravar estas tendências mórbidas, embora tivesse inculcado no jovem o gosto pela literatura e o interesse por histórias macabras. Os seus primeiros romances – A Casa da Loucura e A Dor Negra das Campas – eram joviais, mas os seguintes – Vamos Brincar!, Bom dia, Alegria! – revelam já uma mente torturada perdida num labirinto de sofrimento. Na sua História da Literatura Portuguesa, Óscar Lopes e António José Saraiva, dedicam palavras de reconhecimento ao eremita de Arco de Baúlhe. Nos seus livros, cujo cenário é geralmente um solar decrépito onde há sempre a presença fantasmagórica de uma governanta de voz sepulcral (de acordo com um estudo realizado por uma aluna da Faculdade de Letras que tive o prazer de conhecer recentemente e com quem fui beber um copo enquanto conversámos inteligentemente sobre Barthes e depilação brasileira, as palavras que mais se encontram na obra de Freixieiro são sepulcral, fúnebre, cemitério e aipo), ninguém tem direito sequer a um vislumbre de felicidade, sendo que os mais sortudos sofrem terrivelmente antes de morrer e os mais infelizes sofrem terrivelmente até depois de mortos. De início, o público reagiu muito bem às obras de Freixieiro, mas depois, até mesmo os indefectíveis, como o Soares da barbearia, o acusaram de “explorar uma fórmula literariamente pobre”. Quase no fim da vida, Freixieiro tentou escrever coisas mais leves e luminosas, talvez para se redimir de uma vida consagrada à penumbra no Solar dos Morcegos. O melhor que conseguiu foi escrever “A Angústia”, um tratado sobre a morte, o sofrimento e o absurdo da existência humana e que, lá pelo meio, traz uma alegre e tropical receita de mousse de maracujá.

 

 

Futuristas de Caçarilhe (1911-1918)

 

Ainda é pouco conhecido e estudado o grupo de futuristas de Caçarilhe que, na segunda década do século XX, levou a cabo dezenas de ações de terrorismo artístico, entre as quais a tentativa de embalsamamento de um sacristão. Pensa-se que seriam cinco ou seis rapazes, todos eles filhos de famílias abastadas e de muita religião. Para enervar os pais, bocejavam ruidosamente na igreja, organizavam concursos de lançamento de hóstias e praguejavam em Latim. Inspirados pelos escritos de F. T. Marinetti e pela proximidade física de Amadeo de Souza-Cardozo, natural do concelho de Amarante, estes futuristas sem pontes, automóveis ou guindastes celebravam as árvores, os riachos e o menir da Serra da Aboboreira, criando dessa forma uma espécie de “retrofuturismo” ou “futurismo bucólico”. Um dos rapazes escreveu um poema intitulado “Fiat Lux”, que deveria ser uma apologia da luz elétrica, mas que não foi bem recebido pelos restantes. Numa noite de fim de outono, em 1915, a ideia da guerra como única higiene do mundo levou-os a pegar em forquilhas e sacholas e atacar a aldeia vizinha de Infesta. Houve grande tumulto, vivas à República! e perda de um alqueire de couve-lombarda. Na manhã seguinte foram obrigados pelas famílias a ir de porta em porta pedindo desculpa pelos acontecimentos da noite anterior. Com a morte do pintor de Manhufe, o grupo futurista de Caçarilhe desfez-se. Tanto quanto se sabe, dois dos membros que o compunham foram ordenados padres, tendo um deles chegado a visitar Roma para receber a bênção do papa Pio XI.

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