"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos
30.6.14

Ao fim de duas semanas de futebol consumido a um ritmo de, pelo menos, duas doses diárias, o cérebro humano entra em regime de poupança. Ontem, aos intervalos de lucidez e clarividência, em que tudo me parecia harmonioso e compreensível, sucediam-se longos períodos de dormência cognitiva em que o verde das camisolas mexicanas era idêntico ao verde dos algoritmos do Matrix. A cada lançamento da linha lateral, a minha cabeça aproveitava para vaguear por todos os assuntos secundários que este campeonato do mundo me obrigou a deixar em suspenso – como o reembolso do IRS ou a alimentação dos meus filhos – regressando ao jogo minutos depois, o que, num caso, coincidiu com a paragem para hidratação dos jogadores e, nos restantes, com os movimentos serpenteantes de Robben sempre finalizados com aquela coisa entre o desmaio e o mergulho com  que ele conclui todas as jogadas em que não consegue fazer golo ou passar a bola a um companheiro. Ontem, o extremo holandês derrotou Pedro Proença aos pontos. Tal como os mexicanos, o melhor árbitro português do mundo resistiu heroicamente até aos descontos, e só aí sucumbiu à humidade e à insistência de Robben. A FIFA tem agora pouco mais de uma semana para encontrar um árbitro de dentição completa e que fique tão bem na televisão como Proença, o querido dos queridos.

 

À noite, o meu cérebro manteve-se no modo poupança, amigo do ambiente e tal, tendo aí sido generosamente auxiliado pelas duas equipas em campo. A Costa Rica comprovou a minha teoria sobre as equipas-surpresa. Regra geral, são equipas simpáticas e fraquinhas, que se despenham, para bem dos espectadores, nos oitavos-de-final. Após a expulsão de Oscar Duarte, os costa-riquenhos, a qualidade do HD e um certo desespero helénico uniram-se para criar uma ilusão de óptica que dava a entender que os gregos eram uma equipa rápida, dominadora e entusiasmante. Só a expressão inamovível de Fernando Santos – o português com a cara mais trágico-grega de sempre – nos assegurava que o mundo ainda era o mesmo. Já decorria o prolongamento quando adormeci inapelavelmente. Acordei estremunhado. Havia lágrimas nas bancadas e gestos de incentivo no relvado e, sem o amparo da continuidade narrativa, demorei a perceber o que se estava a passar. Pensei que ainda iam marcar os penalties. Afinal, já tinha acabado tudo. Andei com as setinhas para trás – uma ferramenta muito útil para ensinar a regra do fora de jogo ao meu filho, para apreciar alguns deslizes verbais e para avaliar com justiça os atributos das adeptas uruguaias – e assisti, a salvo de qualquer desgosto, à ditosa eliminação da Grécia.

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29.6.14

Dos árbitros e da sorte não é lícito esperar uma coisa: que se virem ao mesmo tempo contra o Brasil. De uma equipa de Scolari pode-se esperar todo o tipo de qualidades – entrega, crença, coração, empenho, devoção – entre o bélico e o religioso, só não se deve esperar bom futebol. Isto é o fato à medida de uma competição a eliminar, com o tumulto emocional contínuo, o discernimento substituído pela fé cega que vai de tropeço em tropeço até ao paraíso. Só o Brasil de Scolari sobreviveria ao remate do intruso Pinilla ao minuto 119. Só o Brasil de Scolari escaparia com vida de um jogo em que fez alinhar – ainda que não em simultâneo, abuso supremo em que o treinador brasileiro teve a precaução de não incorrer – Fred e Jô. Duas crónicas atrás, posso ter sido injusto com o nosso trio de pontas-de-lança. Não quis dar a entender que a nossa inépcia atacante é uma característica da portugalidade, como os pastéis de nata, o fado e a Cristina Ferreira. Jô e Fred, tendo em conta o talento de que estão rodeados, são situações futebolísticas mais graves e, é o que sinto quando os vejo ensaiar uma ligação com a bola, penosas. Não é uma novidade para o Brasil. O unanimemente celebrado escrete de 82 tinha como ponta-de-lança Serginho Chulapa, um sofisticado mecanismo de aparência humana criado para falhar golos. (Como quase todos os jogadores brasileiros, Serginho ainda jogou uma época no Marítimo). No Brasil, os gordos vão à baliza, quem falhou uma carreira no jiu-jitsu vai para o centro da defesa e os toscos, para não atrapalharem a fluidez de jogo, vão lá para a frente fazer o mais fácil, encostar a bola para a baliza, tarefa ainda assim demasiado exigente para Fred e Jô. Há excepções: Ronaldo, um avançado que jogava em metade do campo, e Romário, um ponta-de-lança que ocupava um t0 na grande área e fazia passes para a baliza, são as mais evidentes. Mas excepções deste calibre só servem para aumentar a pressão sobre Fred, que agora exibe um cómico bigodinho de figurante da Kananga do Japão. Quanto a Jô, se entrasse em campo com um chapéuzinho às riscas corria o risco de alguém lhe pedir um gelado ou um cachorro. Estes acidentes não desvalorizam o essencial: com ou sem macumba, com ou sem Senhora do Caravaggio, com muito ou pouco mérito, com o tribalismo scolariano que disfarça as profundas lacunas tácticas do treinador, o Brasil está nos quartos-de-final.

 

- Antes do começo do jogo, estava a favor da Colômbia. Não desgosto do Uruguai, mas sem Suárez a equipa perde graça, futebol e dentes. E a Colômbia poderia finalmente cumprir o que a geração de 94 prometeu. Valderrama, Asprilla e Freddy Rincón, um arsenal de talentos românticos que se desintegrou na fase de grupos e cujo triste epílogo foi escrito numa rua de Medellín semanas depois, ficaram a dever-nos uma. Armero – nome de cidade maldita –, Cuadrado e, acima de todos, James Rodríguez estão a pagar essa dívida com juros. O primeiro golo de James, aliás, salda qualquer dívida. No início do jogo, e após algumas entradas de boas-vindas, o comentador da SportTv, hábil no recurso ao eufemismo, dizia que o jogo iria ser físico. E foi. Até ao momento em que James, rodeado de uruguaios, inventou aquilo. Aí, o jogo foi metafísico. Esperemos que a metafísica cafetera chegue para todas as macumbas sincretistas de Scolari.

 

- com a morte de Eli Wallach sinto necessidade de valorizar os secundários. Um abraço ao Murtosa, o último dos duros.

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28.6.14

Para muitos, entre os quais não me incluo, o mundial começa hoje. Compreendo. A primeira fase é, regra geral, um período desinteressante, quase protocolar. Adeptos entediados costumam vibrar apenas com as “surpresas”, um primarismo que o apaixonado por futebol deve evitar a todo o custo. Lembremos a surpresa que foi a Grécia em 2004. No final, só acharam graça os gregos e os que queriam estragar a festa aos anfitriões. Ou a surpresa Dinamarca, ainda hoje recordada por ter ido recuperar os jogadores às praias do Mediterrâneo. É o que diz a lenda e, em caso de dúvida, imprime-se a lenda. As restantes surpresas normalmente são protagonizadas por equipas fraquinhas que por zelo, sorte e anti-futebol conseguem surpreender uma ou duas selecções poderosas e sobranceiras. O que este mundial tem de bom é que as surpresas desta primeira fase surpreenderam pela qualidade do futebol (Costa Rica) ou, pelo menos, pela coragem (Argélia). A única equipa com propósitos exclusivamente defensivos foi o Irão, selecção treinada por um português. A outra equipa que entrou em campo com cadeados foi a Grécia, embora nesse caso a responsabilidade não caiba por inteiro ao treinador. Português, como se sabe. Apesar das limitações metereológicas, das despreocupações tácticas (toda a gente sabe que abaixo dos trópicos até os grandes tácticos ficam de tanga) e de alguma mazela patriótica, foi uma primeira fase muito digna e televisiva. O que começa hoje é outro mundial. O mundial do perde-sai, do mata-mata, do quem-marcar-ganha. Acabou o mundial gourmet, começa o mundial fast-food, emoções rápidas prontas a servir. O que também não é mau. É verdade que os oitavos-de-final proporcionam ainda embates um pouco desequilibrados, mas a tensão dos momentos decisivos pode inibir os mais fortes e jogar a favor dos underdogs. Não são jogos completamente esquecíveis. Lembro-me de vários: um Alemanha-Marrocos em 86; o Brasil-Argentina de 90, com o golo de Caniggia a passe de Maradona; ainda nesse ano, os quatro golos da Checoslováquia à Costa Rica de Conejo, incluindo um hat-trick de Skuhravy; a vitória da Irlanda sobre a Roménia nos penalties; em 94, a cotovelada de Leonardo a Tab Ramos, num equilibrado Brasil-EUA, ou a grande exibição da Roménia de Hagi contra a Argentina Maradona-less; em 98, a reedição de mais uma batalha entre argentinos e ingleses, com um extraordinário golo de Owen e um vermelho idiota a Beckham; França a eliminar o Paraguai do nosso Gamarra após prolongamento, com um golo daquele sujeito com ar de professor primário da Provença; do mundial de 2002 – o pior de sempre, esqueçam lá a lenda do mundial 90 – só me recordo vagamente da Coreia a assaltar Itália; em 2006 estávamos lá e fizemos história contra a Holanda, num jogo com tantas agressões que deveria ter sido disputado Ciudad Juárez, mas o que perdurará na memória é o golo de Maxi Rodriguez contra o México; em 2010, também estávamos lá e só fomos capazes de repetir as palavras do capitão Ronaldo “Carlos, assim não vamos lá”. Que estes oitavos que hoje começam com uma espécie de mini-Copa América nos ofereçam momentos assim.

 

- o que fica do que passou:

a) o árbitro japonês que via coisas

b) o voo impossível de Van Persie

c) aquele cruzamento de Cuadrado

d) a velocidade de Joel Campbell

e) um lento passe de dança de Raheem Sterling à frente de Marchisio

f) os nervos de Pepe

g) a mítica defesa de Ochoa após cabeceamento de Neymar

h) o remate de Tim Cahill que resultou no melhor golo do campeonato

i) o vigor do Chile contra a lassidão espanhola

j) a ressurreição de Suárez com dois golos de campeonato do mundo

k) o passeio alegre de França pelos Alpes suíços

l) o golo do hondurenho Carlo Costly (melhor nome do mundial) contra o Equador

m) o golo anulado a Dzeko no jogo contra a Nigéria

n) aquele alemão tosco que marcou um golo no primeiro toque que deu na bola em todo o campeonato

o) a voracidade argelina a devorar os coreanos

p) Miguel Herrera a festejar os golos contra a Croácia no mais exuberante estilo mariachi

q) um golo fantástico de David Villa que será rapidamente esquecido

r) a dentada de Suárez (já muitas vezes vista), o golo de Godín (visto algumas vezes), italianos a correrem em desespero (nunca visto)

s) a cabeça abençoada de Islam Slimani

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27.6.14

Paulo Bento – à excepção de uma ligeira evolução na estética capilar, Paulo Bento não evoluiu muito. Agarrou-se aos mesmos jogadores que já nos tinham dado as meias-finais do Euro 2012 e seguiu à risca a máxima “em equipa que (quase) ganha não se mexe” esquecendo que a não renovação do onze daria um resultado mais próximo de “a equipa que ganhava já (quase) não se mexe.” Iremos sofrer a sua gratidão nos próximos dois anos.

 

Rui Patrício – demonstrou, proficientemente, no único jogo que disputou que está para a hierarquia dos guarda-redes mundiais como a irmã de Cristiano Ronaldo está para as divas da música. Courtois, Navas, Lloris, Ochoa e até o geriátrico Buffon fazem parte de uma galáxia que Patrício só pode contemplar à distância.

 

João Pereira – os raros defensores de João Pereira só têm um argumento a seu favor: “quem é que punhas no lugar dele?” A resposta é evidente: o rato Mickey.

 

Bruno Alves – de repente, parece uma peça obsoleta. Olhamos para o outrora indestrutível Alves e vemos Schwarzenegger em O Exterminador Implacável 2, ultrapassado por modelos mais recentes mas ainda capaz de bater.

 

Pepe – foi expulso por um daqueles momentos Pepe que o celebrizaram como o mais lunático de todos os defesas-centrais da actualidade. Regressou contra o Gana e não só fez uma exibição razoável como susteve os ímpetos de Bruno Alves, deixando claro a quem é que foi ministrada a dose de calmantes antes do jogo.

 

Fábio Coentrão – foi o menos mau contra a Alemanha, lesionou-se e regressou imediatamente a Portugal. Estatuto intacto.

 

André Almeida – o pino de luxo da nossa selecção. É preciso um lateral-esquerdo? Chama o Almeida. Um lateral-direito? Chama o Almeida. Um trinco? Chama o Almeida. Mais um gajo para a barreira? O Almeida não pode, está lesionado. No Benfica e na selecção, é o exemplo acabado de flexigurança. Para o ano deverá jogar no Maccabi Haifa ou num clube búlgaro.

 

Ricardo Costa – por incrível que pareça, este foi o terceiro mundial para Ricardo Costa, que, a par dos 200 quilos de bacalhau e das 50 toneladas de azeite, já se tornou uma presença obrigatória nestes eventos, com a vantagem em relação aos víveres de poder alinhar a defesa esquerdo.

 

Luís Neto – cumpriu a impressionante soma de zero minutos distribuídos harmoniosamente por três jogos. Foi uma das vítimas da gratidão de Bento.

 

Miguel Veloso – a não ser por causa da novela com o pai e do casamento com a filha do presidente do Perugia ou da Reggiana, os portugueses tinham perdido o rasto a Miguel Veloso. A excepção, claro, foi Paulo Bento que, logo que acabaram as buscas pelo avião da Malásia, contratou as equipas para encontrarem Veloso nas estepes russas.

 

Raul Meireles – este ícone da moda, de abundantes tatuagens, destacou-se neste mundial por ter levado uma cotovelada de um americano e por ter ficado, em consequência disso, a afagar, durante largos minutos e com um certo vagar otomano, as suas magníficas barbas.

 

João Moutinho – depois de uma época desastrada ao serviço do Mónaco, que lhe valeu a distinção de flop da temporada, o pior que podia acontecer ao enérgico Moutinho era jogar ao lado de dois tractores. Assim que lhe ofereceram dois seres humanos capazes de pensar e correr ao mesmo tempo, o rendimento de Moutinho melhorou.

 

Nani – no início do campeonato, ainda me perguntei ingenuamente se seria este o torneio de Nani. Depois de três jogos, recepções de bola dignas de um pedreiro, um golo inexplicável e recomendações brutais aos colegas, ficou a certeza que não.

 

Helder Postiga, Hugo Almeida e Éder – para demonstrarmos a nossa incapacidade em produzirmos um ponta-de-lança de jeito podíamos ter escolhido qualquer um destes jogadores. Ter seleccionado os três equivale a uma declaração de guerra contra o próprio conceito de avançado e, lateralmente, contra a ideia de marcar golos.

 

Cristiano Ronaldo – Antes do jogo com a Alemanha declarou estar com sensações místicas que lhe diziam que este seria o ano de Portugal. Depois do jogo com os EUA o tom já era mais realista e, apesar de ainda não estarmos eliminados, Ronaldo disse que nunca sonhou ser campeão do mundo, que tínhamos uma equipa muito limitada e que havia selecções mais fortes. Tudo verdade, mas ficámos sem saber se um quarto jogo de Portugal implicaria um quarto penteado em terras brasileiras. No fim, o Bola de Ouro regressa a casa com vários recordes (jogador português com mais jogos em mundiais, único a marcar em três campeonatos e, desde 2004, sempre a marcar pelo menos um golo em fases finais de grandes competições) e um entristecido tendão rotuliano.

 

Varela – é o suplente mais utilizado por Paulo Bento e, aconteça o que acontecer com Varela em campo, uma coisa é certa: no jogo seguinte, o Drogba da Caparica estará de volta ao banco.

 

William – é o melhor médio-defensivo português a uma distância que daria para ir ao Brasil, visitar todos os estádios e voltar. Mas para o seleccionador a gratidão conta muito e, de acordo com esse critério futebolístico, o lugar era de Miguel Veloso, um rapaz que, num mundo ideal, seria secretário de estado adjunto de William Carvalho.

 

Ruben Amorim – pronto.

 

Vieirinha – Paulo Bento convocou-o mas só o utilizou quando se viu forçado a experimentar a arrojada táctica do 3-1-6.

 

Rafa – já foi ao Brasil.

 

Beto – chorou. E bem.

 

Eduardo – cinco jogos em mundiais, um golo sofrido. É o maior!

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26.6.14

- A crónica de Santiago Segurola, publicada hoje no DN, intitula-se “Messi influi no golo, não no jogo”. Termina assim: “Por agora, a Argentina depende tanto ou mais da sua estrela do que dependeu de Maradona no México 86. No entanto, ninguém diz que Messi seja o Maradona deste Mundial. Necessitará de algo mais do que golos. Terá de ser o campeão do futebol jogado. E por agora não o é.” Não o é e não tem sido nos últimos anos em que a estratosférica rivalidade com Cristiano Ronaldo é medida pelo único critério da absurda quantidade de golos que cada um tem concretizado. Messi tem resolvido os resultados da Argentina, mas parece incapaz de resolver os problemas da equipa. Neste mundial, Ronaldo não tem feito nem uma coisa nem outra. O play-off com a Suécia mostrou uma equipa planeada em função das necessidades da sua estrela que pagou em golos esse acordo: uma equipa pensada para jogar em contra-ataque com o melhor jogador do mundo para essa estratégia. A equipa joga para ele e ele retribui com golos. Mas esta Argentina não consegue jogar para Messi. No Barcelona, Messi é um membro perfeitamente integrado, a equipa joga com ele. Na selecção, há um desacordo, uma incompreensão mútua, da qual o jogador não se pode queixar em público porque será logo acusado ou de não render na selecção o que rende no Barcelona ou de ser um mau patriota. Entre uma coisa e outra, Messi prefere ficar calado, aceitar que o casamento nunca será feliz e continuar a trazer o dinheiro para casa ao fim do mês, bolsos cheios de golos.

 

- Óscar Tabárez disse que isto é um campeonato de futebol, não é um campeonato de moralidade barata. E apesar de o comportamento de Luis Suárez ser censurável há, de facto, um excesso persecutório, farisaico, na imprensa inglesa, sempre atenta às manchas morais dos seus estrangeiros. Lembremos o episódio da expulsão de Rooney em 2006. O rapaz pisou os tomates de Ricardo Carvalho mas quem é que foi eleito o vilão da história? Ronaldo. Por ter piscado o olho e ter cometido a infâmia definitiva de trair um colega de equipa, contra todas as regras da boa solidariedade inglesa. Suárez será suspenso, o problema é que a moralidade de tablóide vai continuar.

 

- Prognósticos? Portugal vai ganhar 3-0 e despedir-se em beleza deste campeonato do mundo.

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25.6.14

- A não ser para quem esperava uma nova aparição dos dentes de Suárez em qualquer parte da anatomia de um adversário, o jogo entre Itália e Uruguai foi uma desilusão. Talvez tenha sido do calor no Recife. Talvez tenha sido por à Itália bastar um empate. Calor e um zero-zero favorável aos italianos: os ingredientes ideais para os transalpinos exercitarem o cinismo que lhes é creditado como maior virtude futebolística ou, na novilíngua da bola, para especularem. Eu diria que há ali outra coisa: uma devoção ao ócio, aos prazeres que a própria lentidão cria. Aquela forma de jogar é a arte de estender o tempo sofrendo o menos possível. Não se pense que é uma lentidão sofrida, reflexo de incapacidade. Pelo contrário. É uma lentidão deliberada. A estratégia passa por uma organização de tal forma intricada que dispense os jogadores de correrem mais do que aquilo que é estritamente necessário. Desacelerar o jogo é um diletantismo que só uma equipa civilizada se pode permitir. E as equipas italianas são, acima de tudo, obras de civilização. Mesmo quando o futebol praticado é aparentemente feio resta sempre a beleza da fidelidade a um princípio, e essa ética é, também, uma estética, uma forma de viver. Os italianos, eliminados uma vez mais na primeira fase, voltam para casa de cabeça erguida porque é assim que jogam e, sendo o campo uma miniatura cénica da vida, diria que é assim que vivem.

 

- Tem sido tão grande a razia de equipas europeias que ver a Grécia passar aos oitavos-de-final obriga-nos a perguntar: de onde é que vieram estes rapazes? Tenho de confessar a minha admiração pelos gregos. Ontem, precisando de ganhar, não se lançaram para o ataque, não foram à procura do golo como selvagens esfomeados. Esperaram. Jogaram como se um empate lhes bastasse, apostando tudo no erro do adversário, na estupidez alheia e, no fim, foram recompensados por esse pessimismo antropológico. Com o seu futebol rudimentar o qual, nos momentos felizes, se pode premiar com o adjectivo “pragmático”, os gregos são também, à sua maneira, um dos últimos pilares civilizacionais deste jogo bárbaro: jogam sempre mal, marcam poucos golos, parecem resolutamente empenhados em não entusiasmar ninguém. São previsíveis até ao bocejo e há nessa previsibilidade qualquer coisa de amorável, como nos defeitos reiterados das pessoas de quem gostamos. Os dois golos de ontem foram apenas o terceiro e o quarto que a Grécia marcou em três participações e nove jogos em mundiais. Resultado? Estão nos oitavos-de-final a acenar a espanhóis, ingleses, italianos e, quase de certeza, portugueses.

 

- O caso de Suárez é do domínio da patologia. Depois da redenção e de, com justiça, se ter projectado com dois magníficos golpes para o cume onde estão as figuras notáveis da prova, o avançado uruguaio voltou a ser o desequilibrado a intervalar séries estupendas de golos com acções que, dizem os menos compreensivos, só podem ser iluminadas pela psicanálise. Apesar disso, nem todos ficaram horrorizados com a dentada de Suárez. Na Suécia, mais de cem apostadores puseram o dinheiro onde estaria a boca do "conejo". E saíram a ganhar.

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24.6.14

 

Foi no mundial de 1986. No torneio de Diego Armando Maradona e de Pique Malagueta. Do poker de Butragueño e do hat-trick de Gary Lineker, o primeiro de que me lembro. Nesse mundial, bastou um golo para que Manuel Negrete registasse o seu nome na história do futebol. O golo certo na hora certa. No exterior do Estádio Azteca, palco de duas finais de mundiais, onde, numa tarde memorável, Maradona disfarçado de Deus e Diabo desfez a selecção inglesa, uma placa assinala aquele golo. O México, a jogar em casa, tinha esperanças de chegar longe no torneio. A preparação tinha sido meticulosa, com um grupo de jogadores escolhidos pela federação treinado para não desiludir. Naquele Domingo, 15 de Junho, jogavam-se os oitavos-de-final e o adversário da equipa da casa era a Bulgária. Era uma oportunidade de ouro para o México fazer boa figura. Mas o que aconteceu aos 35’ foi mais do que isso. Negrete, à entrada da área, deu a bola para Javier Aguirre que, sem a deixar cair, devolveu-a a Negrete. Depois, foi um segundo, nem tanto. Quando a bola inicia a trajectória descendente, Manolo já sabe o que vai fazer: um voo, um salto, um pontapé de moinho e, a próxima vez que a bola bater no chão, já será dentro da baliza da Bulgária, defendida por Borislav Mihaylov, mago da regeneração capilar. Hoje, 28 anos depois desse mundial, os golos que se recordam são os de Maradona contra a Inglaterra, mas o que todos os miúdos queriam era marcar um golo à Negrete. Na relva em frente do meu prédio, voávamos de lado, procurando repetir a coreografia que víramos, espantados, na televisão. Mesmo quando a bola não vinha a jeito, dávamos-lhe um toque a mais para merecer dos mais velhos a aprovação definitiva: “parecias o Negrete”. Quando, nesse ano, o jogador mexicano foi contratado pelo Sporting, a sua fama excedia largamente o seu talento. Não era que lhe faltasse talento, mas a fasquia era aquele golo único, superlativo. A proeza colou-se-lhe à pele e tudo o que fosse menos que aquela acrobacia era como que uma traição. Mas nenhum jogador do mundo poderia repetir ou sequer aproximar-se do que acontecera naquele momento esquisito, muito menos ao ritmo semanal dos jogos de campeonato. O mundial de 2014 ainda não nos ofereceu um golo assim. Um golo autónomo do resto do jogo, capaz de deixar na sombra toda uma carreira, uma ilha impossível, um golo maior que o seu autor, um golo como aquele que foi o zénite e a maldição de Manuel Negrete Arias, um homem que viverá para sempre no minuto 35 no Estádio Azteca, numa certa tarde de Junho.

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23.6.14

Cá estamos de novo. E, ao contrário dos que nos querem fazer crer, a depender não da matemática certa, que não admite sentimentalismos, mas à espera do sobrenatural que nos acuda. Tínhamos a vida resolvida, o destino traçado e aquele golo de Varela veio acender esperanças insensatas, fazendo os mais líricos sonhar com goleadas ao Gana, o que, pelas amostras de futebol, só conseguiremos caso os nossos jogadores entrem em campo de mota. O irracional é tão invasivo que algumas cabeças, já certas de vitória gorda sobre o Gana, começaram de imediato a culpar alemães e norte-americanos na eventualidade de estes se abotoarem com um empate. Enfim, nada a fazer. O jogo desta noite, mais do que qualquer outra coisa, fez-me ter saudades do tempo das vitórias morais, do nosso futebol de rodriguinhos, sem balizas, estéril mas muito palrador, ao qual faltavam trinta metros mas que no resto do campo era senhor ufano. Muitas vezes injustamente apontada como uma fraqueza nervosa, uma tibieza de espírito, a vitória moral era, só agora compreendemos, o nosso consolozinho, a nossa mantinha sobre os joelhos. A vitória moral era uma vitória. Agora já só conseguimos empates imorais. O golo de Varela só mereceu celebrações tristes. Em vez de bandeiras desfraldadas, sacámos todos das santas calculadoras e das invocações a Nossa Senhora do Ábaco. Paulo Bento nem reagiu. Foi o golo mais murcho da nossa história. Explicações? Não tarda elas surgirão. Alguém, um qualquer irresponsável federativo, chamará a si os holofotes com promessas de revelações escandalosas que, inevitavelmente, envolverão putas de Campinas. É só esperar. A onda de lesões musculares já não é do domínio da medicina desportiva mas da bruxaria. Os nossos jogadores dividem-se entre os que estavam a recuperar de lesões, os que se lesionaram, os pré-lesionados e os que escaparam por milagre a uma lesão. Psicologicamente, nem sequer fomos capazes de aproveitar o estímulo de um golo caído do céu. Ao longo dos noventa minutos, fizemos tudo para parecer um conjunto de onze pessoas com problemas musculares que tivessem acabado de se conhecer. Depois, claro, Paulo Bento. Vendo que o seu plano inicial – e que deu bons resultados no euro’2012 – não funcionava, Bento fez aquilo que só ele seria capaz de fazer: insistir nesse plano. O destino vingou-se de forma cruel. Com a lesão de André Almeida, foi obrigado a fazer entrar William Carvalho e a expor assim toda a sua inépcia táctica ao mundo. Um treinador que se dá ao luxo de prescindir da inteligência de William Carvalho em nome da coesão, do espírito de grupo e desse fenómeno fisiológico conhecido como “balneário” não merece outra sorte. Vamos agora enfrentar o Gana que, a exemplo dos EUA e para citar António Tadeia, tem jogadores “rápidos e velozes”. Os nossos, pobrezinhos, estão lentos e parados. E ou temos uma conjugação de resultados que, a acontecer, seria um acontecimento cósmico só ao nível do big bang ou, na próxima quinta-feira, os nossos heróis estarão de regresso à Pátria, garantindo ao povo que este grupo de jogadores não só vai levantar a cabeça como também vai dar a volta.

 

- Estes resultados sofríveis têm um efeito positivo: permitem-nos olhar para a história da nossa selecção sem exageros patrióticos. Limitemos a análise às nossas participações em mundiais. Até 2002 conseguimos ir lá duas vezes, o que até para um país que não se gabe de ter uma grande tradição futebolística é patético. O problema foi o sucesso de 66 que distorceu por completo a percepção dos portugueses sobre as capacidades da selecção. O apuramento para o mundial de 86 foi uma daquelas gestas improváveis em que a um golo absurdo de Carlos Manuel se juntou a sobrevivência ao maior assalto militar desde a batalha de Estalinegrado e um resultado favorável no jogo dos nossos adversários directos. Bem vistas as coisas, desde 86 até ontem o nosso historial inclui derrotas com Polónia, Marrocos, EUA e Coreia do Sul e vitórias sobre Angola, Irão e Coreia do Norte. A campanha de 2006 foi realizada sob os auspícios de Nossa Senhora do Caravaggio e, mesmo assim, terminou com uma derrota clara contra os alemães. Em 2010, sobrevivemos ao grupo da morte num tal estado de depressão que caímos logo a seguir, obedientemente, contra a Espanha. Afirmar a nossa superioridade teórica sobre os norte-americanos quando os resultados demonstram um empate é uma daquelas erupções cutâneas do espírito português que pedem mais Padre António Vieira e Eduardo Lourenço e menos Luís Freitas Lobo e António Tadeia. Valemos mais do que estes resultados dão a entender? Sim, mas não muito.

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22.6.14

Já em 2010 tinha sido assim. Na altura, era a primeira vez que dois irmãos jogavam um contra o outro num campeonato do mundo. Pela Alemanha, Jérôme Boateng. Pelo Gana, Kevin-Prince Boateng. Este último tinha jogado pelas selecções jovens da Alemanha, mas alguns conflitos com treinadores e com a federação levaram-no a aceitar o convite para jogar pelo Gana. Jérôme, menos exuberante que o irmão, talvez mais germânico, manteve-se incógnito na mannschaft, um lateral regular que sobe pela certa e arrisca pouco. Kevin-Prince, não sendo genial, tem génio e namorada de passerelle, uma Melissa italiana que promove as proezas sexuais do seu macho onde deve ser: nas redes sociais. Marca golos fabulosos, embora raros. Ontem, uma vez mais, não estiveram à altura do potencial bíblico do recontro. Abel e Caim, Esaú e Jacó, José e os irmãos. Ao intervalo, Joachim Löw deixou Jérôme a reflectir no balneário. O treinador do Gana, James Appiah, só se deve ter apercebido da falta do lateral alemão oito minutos após o reinício do jogo e para que Kevin Prince não se ficasse a rir do irmão substituiu-o nesse momento. Não podemos desculpar os fraternais Boateng. Tínhamos aqui uma tragédia pronta a ser encenada e, no final, nem uma falta mais dura, nem um insulto, um indício de zanga, nada. Nenhum se destacou. Acabaram substituídos. Consta que irão passar férias juntos em Miami. E algumas pessoas ainda se perguntam para que serve a ficção. Serve para incendiar os factos quando a realidade é morna.

 

A segunda parte do jogo de ontem mostrou-nos que a poderosa selecção da Alemanha é menos poderosa quando defronta equipas que não estão interessadas em cometer suicídio. Mostrou também que o futebol é mais forte que o sangue e a terra. Quem é que, em Portugal, não ficou contente com o segundo golo dos ganeses? Ninguém olhou para a tabela classificativa. Eu não olhei. Uma selecção como a de segunda-feira não faz falta a este campeonato do mundo. E não vale o sofrimento dos adeptos.

 

A dimensão de um erro de arbitragem é mais evidente quando não estamos a torcer por nenhuma das equipas. Vemos a meridiana injustiça do erro, a sua influência funesta, sem a ambiguidade do beneficiado e sem a indignação exagerada de quem é vítima de roubo. O golo anulado a Edin Dzeko doeu-me não porque estivesse a torcer pela Bósnia ou porque algo me movesse contra a Nigéria mas por ter sido uma injustiça. Até em casa vi, sem repetição, que o homem estava em jogo. Ao que parece, a visibilidade da linha lateral em Cuiabá não era das melhores. Perante tão óbvia injustiça, que só me levou a pensar “isto não se faz”, dispensam-se as teorias tão aproveitadas nestes momentos, das conspirações contra os países mais pequenos às manobras de platinis maquiavélicos. Foi injusto porque há coisas que podem só acontecer uma vez na vida. E, ontem à noite, em pleno Pantanal, Dzeko pode não ter marcado o seu único golo em mundiais.

 

Messi marcou um golo à Messi. Klose marcou um golo à Klose. O mundo é o que é.

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21.6.14

- Estaremos perante a primeira selecção francesa da qual é lícito gostar? Ainda não consigo responder à pergunta, mas ver a forma como reduziu a Suíça a uma curiosidade etnográfica, um esboço multicultural, é um bom augúrio. Benzema está a pagar liberalmente a paciência dos adeptos que acreditaram sempre que o lugar dele era entre os melhores do mundo e não nas fileiras dos jihadistas na Síria. Matuidi e Pogba já são grandes jogadores e, ao contrário de Lilian Thuram, não aparentam ter aspirações intelectuais. A discrição e o cabelo de Lloris asseguram-nos que nunca teremos de assistir a rituais tão desagradáveis como o que Laurent Blanc e Fabian Barthez deram ao mundo em 98. Didier Deschamps, apesar de um certo ar agricultural, quase nos faz esquecer o tempo em que a França foi orientada pelo astrológico Domenech, um dos treinadores mais detestáveis da história do futebol. Isto é muito interessante porque a forma como os franceses chegaram ao mundial e o facto de serem franceses, tornava-os, à partida, os candidatos perfeitos a ocupar o trono do ódio de estimação do torneio. Assim se demonstra que o futebol praticado em campo pode corrigir sentimentos, tornar melhores os adeptos de coração duro, derrubar preconceitos. Pelo menos até que os franceses voltem a ser franceses.

 

- Porque é que os suíços jogam à bola? Não deviam estar todos a lavar dinheiro nas montanhas?

 

- A Costa Rica é conhecida como a Suíça da América Central mas, tirando isso, é um país simpático. Todos nós devíamos saber três coisas sobre qualquer país do mundo para estarmos prevenidos no caso de acordarmos, sem razão aparente, em Tegucigalpa ou Bratislava. As três coisas que, até este mundial, sabia sobre a Costa Rica eram: 1) que a capital é a formosa San José, 2) que a ficção escolheu o país como o lugar certo para ressuscitar dinossauros e 3) que, num Sábado remoto, a Checoslováquia eliminou sem misericórdia a selecção da Costa Rica que chegou aos oitavos-de-final no mundial de 1990; dessa equipa, lembro-me de Luis Gabelo Conejo, bigodudo guarda-redes, e de Hernán Medford, nome de realismo mágico caribenho. Desconheço se alguma destas informações me seria útil em caso de necessidade. Porém, a campanha dos ticos neste mundial, duas vitórias sobre dois ex-campeões do mundo e apuramento para os oitavos-de-final à segunda jornada, é um manancial de informações extra sobre o pequeno país da América Central, cuja moeda é o colon e que desde 1948 não tem exército, o que torna improvável a existência de um golpe militar nos próximos tempos. Bryan Ruiz, Keylor Navas e Joel Campbell são cromos que irão durar tanto na memória dos miúdos de 10 anos como os seus antecessores de 90, mesmo que a sorte lhes reserve nova eliminação nos oitavos-de-final, num sábado qualquer.

 

- Este mundial é tão estranho que até num Honduras-Equador se vê bom futebol.

 

- Mesmo em poucos segundos e mesmo sendo Balotelli, Balotelli devia ter percebido que a qualidade do passe de Pirlo era de tal ordem que as probabilidades de concluir a jogada com um chapéu sobre o guarda-redes eram praticamente nulas. A parte perfeita da jogada já existia. A Balotelli pedia-se apenas um remate burro para dentro da baliza.

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20.6.14

Ontem, os assinantes da SportTv puderam assistir a uma das mais memoráveis exibições individuais deste torneio. Mesmo quando a Inglaterra marcou, o homem foi capaz de se recompor e oferecer a quem o ouvia pérolas como “dentes de coelho, olhar de predador”, “Godín lá no alto, a falar com os pássaros” e “são três milhões de uruguaios naquele remate.” Falo, é óbvio, de Luís Freitas Lobo, que ontem ascendeu ao panteão onde, até agora, só moravam Rui Tovar, Gabriel Alves e José Nicolau de Melo (este só para fazer a limpeza). O segundo golo de Suárez deixou-o num êxtase que merecia uma estátua de Bernini. Antes disso, enquanto o jogo esteve empatado a uma bola, notava-se-lhe a irritação. A certa altura, quando o narrador se embrenhava em complexos cálculos aritméticos (“ora, se a Costa Rica ganhar à Itália, melhor, se a Itália não ganhar à Costa Rica…”), Freitas Lobo, francamente exasperado pela forma como a pujança dos números estava a minar todas as oportunidades para a poesia, recomendou-lhe em tom ameaçador: “Não faças contas.” No final do jogo, perante o rosto de Suárez em lágrimas, Freitas Lobo balbuciou um ambíguo “lindo”, que não sabemos se foi pensado como adjectivo, substantivo ou advérbio de modo ou se foi apenas um refluxo verbal incontrolável. As imagens de Suárez abraçado a um companheiro no banco motivaram-lhe uma série de comentários sobre o que é e como se deve sentir o futebol e a medicina desportiva. Enfim, foi mesmo um grande espectáculo que só falhou por ter sido transmitido à mesma hora do jogo entre Inglaterra e o Uruguai, eclipsando, em parte, Suárez e o seu monólogo com o destino (chupem, poetas!).

 

Monólogo, sim. Ao longo dos tempos, comentadores, professores de ginástica, catalães de esquerda com responsabilidades em La Masía e idiotas em geral (grupo no qual me incluo por uma frase que escrevi ontem), têm tentado convencer as massas ignaras de que o futebol é um desporto colectivo. De um ponto de vista marxista, é uma ideia simpática que até podia ser abordada num livro a ser escrito por Thomas Piketty e José Neves. Na verdade, é uma falácia. O futebol é, mesmo, um desporto individual. A prova, que não é necessária mas que terei todo o gosto em apresentar, é o facto de os portugueses, ao fim da primeira semana de campeonato do mundo, estarem mais habilitados a reconhecer o tendão rotuliano de Ronaldo do que Rafa se, por acaso, se cruzassem com qualquer um deles na rua. Esta ideia rebuscada do desporto colectivo só serve de atenuante às grandes estrelas quando, por acaso, não conseguem render o que delas se espera nestas competições. É o caso de Ronaldo, Messi e Rooney que juntos, em três mundiais, conseguiram marcar o mesmo número de golos que Tim Cahill, e nenhum melhor do que aquele que o jogador australiano marcou contra a Holanda. Quer isto dizer que Cahill é melhor que aqueles três? Não. Quer dizer que Messi é um golo maradoniano nos quartos-de-final da Taça do Rei contra o Almeria ou o Levante e Maradona é um golo, de então para cá designado de maradoniano, contra a Inglaterra nos quartos-de-final de um campeonato do mundo. Luis Suárez teve uma época extraordinária no Liverpool. Mas golos ao Stoke City e ao Fulham são uma coisa e os golos de ontem são outra, e só têm em comum as assistências de Gerrard. São golos como os de ontem que, a exemplo dos comentários de Freitas Lobo, imortalizam um jogador: em jogos decisivos, nos maiores palcos, contra os maiores adversários.

 

Notas:

 

- Há uns meses, um defesa imprudente do Newcastle lesionou Suárez. Os patriotas uruguaios responderam com a fleuma que reservam para estas situações delicadas e ameaçaram o homem de morte, acusando-o de ter inutilizado a grande referência da selecção celeste. Ontem, como se viu, ficou demonstrado que, a ter existido, o plano era tudo menos absurdo. Com Suárez em campo, o Uruguai é diferente. Cavani, que no primeiro jogo parecia órfão, encontrou uma família de acolhimento na cabeça, nas pernas e nos dentes de Suárez. Uma família muito moderna, feliz e cheia de histórias para contar aos netos.

 

- Steven Gerrard escolheu o crepúsculo da carreira para elevar a arte de assistir os adversários nos momentos mais inoportunos – uma arte cujas regras foram imortalmente fixadas por Secretário, lateral-direito contemporâneo do escultor Kálamis – a patamares desconhecidos.

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19.6.14

Eu tinha 10 anos e o sonho de ser guarda-redes. Estava sentado na bancada poente do velho estádio D. Manuel de Melo, no Barreiro. Era o jogo de apresentação do Barreirense. O Sporting foi a equipa convidada mas que como se sabia que não iria levar as maiores estrelas o estádio estava quase vazio. Na baliza à minha frente, estava o guarda-redes, de costas para os raros expectadores. Os colegas, miúdos com idade para serem filhos dele, chutam umas bolas molengas, tentando desenhar com a preguiça de Agosto arcos sobre o guarda-redes, que nem se esforça para chegar às bolas, basta seguir a trajectória com o olhar. Uma sobrevoou a baliza e aterrou duas filas abaixo de onde me encontrava. O guarda-redes virou-se para a bancada e eu atirei-lhe a bola, que não lhe chegou. Atirei-a novamente, então com todas as forças para não o desiludir. Ele segurou a bola e voltou para a baliza, para o lugar que era o dele. Depois de mais alguns remates, recolheram aos balneários e, para mim, o jogo que ainda não começara terminou nesse momento, o momento em que Vítor Damas se virou para a bancada e eu pude admirá-lo na elegância intacta dos seus 40 anos. Nós, benfiquistas, tínhamos o Bento louco, corajoso, cão de guarda; os sportinguistas tinham um príncipe, um guardião. O Damas não era do Sporting, era meu. Era ele que inspirava o meu sonho de ser guarda-redes. Foi a única vez que o vi num campo de futebol, no ocaso da carreira mas, inegável e soberano, ainda era o Damas. Nunca mais me esqueci daqueles minutos.

 

A defesa de Guillermo Ochoa ao cabeceamento de Neymar é uma daquelas jogadas que despertam em alguns miúdos singulares o desejo torturado de ocupar aquele espaço inóspito e solitário, onde nem a relva cresce. O guarda-redes será sempre guarda-redes. O indivíduo num jogo colectivo. Quando têm a bola, os colegas avançam deixando-o para trás, entregue a si mesmo. Quando o adversário cavalga para a área, lembram-se dele, lançam-lhe olhares de súplica, pedidos urgentes de salvação. Ao longo de uma carreira, avançados exaustos fazem-se médios, extremos procuram os espaços interiores onde não possam ser fustigados pelos ventos das alas, trincos viram líberos. Com a passagem do tempo, só o guarda-redes permanece guarda-redes. Quando começa a carreira já não tem para onde recuar. Vive na esperança masoquista de ser posto à prova. De ter ao menos uma vez na vida a oportunidade de ver uma bola rematada pelo adversário vir puxada ao cantinho e, nesse momento, não pensar mais e voar, mão aberta, bola em cima da linha, o desalento da multidão inimiga, a alegria dos companheiros em movimento porque o jogo não pára. Não pára. Na baliza, não há tempo para celebrações, para coreografias. É tudo ou nada. Vida ou morte.

 

“Guarda-redes” é um capítulo do meu romance As Primeiras Coisas e é dedicado ao Luz, guarda-redes do GDRP:

 

O semblante sério quando entrava em campo nas tardes de domingo, o último dos onze a pisar com o pé direito a terra batida para lá da linha lateral, a benzer-se de luvas calçadas, a braçadeira de capitão, o boné verde na cabeça quando ficava na baliza virada a sul, a voz que vencia o ruído do público e dava ordens à defesa, o corpo a voar para uma bola impossível, a atirar-se como um raio aos pés de um avançado, as mãos a apertarem a bola antes do pontapé de baliza que a fazia subir bem alto e aterrar junto aos pés do extremo direito, o braço forte que a arremessava para lá do meio campo, o joelho erguido nas saídas temerárias aos cruzamentos, os frangos míticos, que também os dava, como no jogo contra o Arrentela, uma bola chutada do meio-campo a chegar à baliza já quase num desmaio, Leal a agachar-se e a bola, num capricho de amante ressentida, a passar-lhe por baixo das pernas e a cruzar, com malícia vagarosa, a linha de golo, filha duma puta, garrafinha de água encostada ao poste quando o jogo andava no outro lado do campo, os gritos de incentivo, as palmas que espirravam pó das luvas, os abraços quando os jogos acabavam. Abandonou o futebol aos quarenta e três anos, depois de ser campeão da II Divisão Distrital[1]. Morreu poucos meses depois de ataque de coração. Na sede do CDA, entre calendários amarelecidos de loiras pneumáticas e uma prateleira com poeirentos troféus de lata, havia uma moldura com as velhas e ressequidas luvas de Leal, o boné verde e a faixa de campeão.



[1] Crónica do jogo CDA – CRI no jornal O Rio:

“O CDA sagrou-se ontem campeão da II Divisão Distrital da Associação de Futebol de Setúbal ao empatar a duas bolas com o CRI, irremediavelmente afastado do título. Contudo, foi a equipa de Alhos Vedros a mostrar mais argumentos durante a primeira parte do encontro, graças às acções dos dois extremos, Ferreirinha e Jacques, que em constantes trocas desposicionaram a defesa do CDA. Foi sem surpresa que, à passagem do minuto 26, o CRI se adiantou no marcador, com um golo do avançado Dino, a corresponder na perfeição a um cruzamento de Ferreirinha. O CDA não se encontrava, o meio-campo estava abúlico, do que se aproveitavam os jogadores do CRI para ganhar as segundas bolas. No entanto, contra a corrente de jogo, o CDA chegou ao empate na conversão de um pontapé da marca da grande penalidade, após um lance que deixou muitas dúvidas aos espectadores presentes no Campo Municipal das Amoreiras. Eurico assumiu a responsabilidade. Bola para um lado, guarda-redes para o outro, estava restabelecido o empate. O intervalo fez bem à equipa treinada por Maurício Gonçalves que regressou dos balneários com outro discernimento. O centro-campista Beto, um talento promissor que não deve ficar por muito tempo no Desportivo Amizade começou a pautar o jogo da equipa da casa, que se adiantou pela primeira vez à passagem do primeiro quarto de hora da segunda parte. Beto fez um passe na diagonal a rasgar a defesa contrária e foi o extremo, Amarelinho, a cumprir a oitava época ao serviço do clube, que apareceu em zona de finalização picando a bola com classe e desfeiteando um desamparado Miranda. O público entrou em delírio. O empate era suficiente para o CDA se sagrar campeão mas uma vitória era a cereja no topo do bolo. Todavia, faltava o drama para tornar inesquecível a conquista do CDA. A cinco minutos do final da contenda, Rodrigues repôs a igualdade na sequência de um pontapé de canto em que Leal não ficou isento de responsabilidades. O veterano guarda-redes saiu a destempo e, a partir daí, equipa enervou-se. Os últimos minutos foram de sufoco da equipa visitante. Já depois do minuto 90, o CRI beneficiou de um livre perigoso à entrada da área, mais descaído para o lado direito. Jacques executou o livre mas Leal, com uma defesa espantosa, foi buscar a bola lá onde “a coruja mora” e garantiu o título para as suas cores. Teria sido uma injustiça se o CDA perdesse um campeonato durante o qual foi sempre a melhor equipa, mas pode agradecer ao seu veterano guardião que ontem realizou a sua última partida pelo Desportivo.”

 

link do postPor Bruno Vieira Amaral, às 10:49  ver comentários (2) comentar

18.6.14

Para o José Eduardo Agualusa

 

Joseph-Antoine Bell, Cyrille Makanaky, François Omam-Biyik, Roger Milla: de cabeça, são estes os nomes de que me lembro da equipa dos Camarões que coloriu o cinzento mundial de 1990. A memória de outros nomes regressa depois ao ver a lista completa: Jean-Claude Pagal, Bonaventure Djonkep, Stephen Tataw. Repetir estes nomes não me traz de volta apenas um som dourado e longínquo da infância, é ainda o eco de uma esperança que reverberou pela primeira vez e com mais intensidade naquele Verão transalpino: o delírio messiânico de que um dia uma equipa africana seria capaz de conquistar o mundo. Acreditava-se que, quando tal sucedesse, seria não apesar das diferenças do futebol africano mas por causa dessas diferenças, aquilo a que se chamava a sua magia (outros diriam o perfume). Essa magia, observada e classificada pelos europeus, nunca foi, para esses europeus, mais do que as inesperadas e incompreensíveis erupções de talento no meio do caos. Bell, Tataw e Milla espantaram e divertiram o mundo. Saíram nos quartos-de-final, com palmadinhas nas costas pelos serviços prestados à causa do entretenimento. Quatro anos depois, com um Milla já sem forças para dançar, velho guerreiro cansado de tantas batalhas, a selecção dos Camarões saiu na primeira fase, sem estrondo. Nesse ano, a esperança já se mudara para a Nigéria, com os nossos conhecidos Peter Rufai e Rashidi Yekini, e grandes promessas como Jay-Jay Okocha, Daniel Amokachi e Viktor Ikpeba. Como a maior parte destes jogadores jogava na Europa, ao contrário do que acontecia com a selecção dos Camarões de 1990, esperava-se que a magia africana aliada à experiência europeia resultasse numa receita infalível. Não resultou. Em 94 e 98, a Nigéria foi a corporização do mito da magia africana e também a corporização dos defeitos estruturais que impediriam o mito de se transformar em realidade. A Nigéria deslumbrou e colapsou. O mesmo aconteceu com o Senegal, em 2002, e com o Gana, em 2010, igualmente incapazes de superar o limite teleológico dos quartos-de-final.

 

Ao longo destes 24 anos, desde o fenómeno Camarões até hoje, o discurso sobre o futebol africano – as suas qualidades, defeitos e hipóteses de sucesso – é praticamente idêntico ao discurso-padrão dos europeus sobre África: referência às riquezas naturais e deploração pelo desperdício, pela incapacidade de os africanos se organizarem de forma a tirar partido dos seus recursos. Se hoje já vemos treinadores negros a orientar as selecções africanas, a regra quase sempre foi a do sábio branco designado para civilizar os selvagens. Enquanto isso, os jogadores africanos eram reduzidos a uma caricatura (magia, alegria, dança), a um estado de infantilidade futebolística, meninos-bichos fascinados pelo objecto-bola, capazes de truques e cabriolas mas com uma tendência genética para a indisciplina, para a ignorância táctica. Nem precisamos de ir muito longe: a nossa selecção campeã do mundo sem balizas continua a ser vista assim pelos verdadeiros europeus, os poderosos, do Norte. Com a vitória da selecção alemã, regressaram os insultos a Cristiano Ronaldo, a sua demissão enquanto jogador para os grandes momentos, apresentando, na inversa, as máquinas alemãs, austeras mas terrivelmente eficazes. Miguel Sousa Tavares, na sua crónica no jornal A Bola, deu seguimento a esta narrativa: viram como Müller não usa brincos, não é vedeta, é humilde e eficaz? Quem é que está nos antípodas de Müller? Curiosamente, mesmo quando a selecção alemã deslumbra, como em 2010, as metáforas nunca se feminizam, nunca há magias nem perfumes. As metáforas são sempre tecnológicas e militares, bélicas e industriais, justificando a supremacia: os alemães atropelam, esmagam, dizimam, botas cardadas devastando campos de flores. Neste caso, somos nós os africanos.

 

Pensei em tudo isto ao ver no outro dia um pouco dos jogos do Gana e da Nigéria e lembrando-me que este ano, finalmente, ainda não ouvi ninguém a dizer que chegou a vez do futebol africano. Os nomes – Muntari, Obi Mikel, Ameobi, Boateng – já não têm aquela ressonância exótica, conhecemo-los de os vermos jogar semanalmente nos melhores clubes europeus. Os tempos mudaram. Yaya Touré ou Didier Drogba, entre muitos outros, conseguiram, por mérito próprio, ultrapassar os limites de recreio infantil, selvagem, onde quiseram fechar o jogador africano. Hoje, já se fala pouco na magia africana e em África como destino futebolístico de um futuro utópico porque África já está aqui, fiável, cerebral, atlética, criativa, nestes jogadores. E noutros, de um passado que nos é próximo, que desafiaram, inconscientemente e avant la lettre, essas narrativas imbecis: que eficácia e fiabilidade faltavam a Eusébio? Que cultura táctica e liderança faltavam a Coluna? Não ouvir a velha conversa de que este é que vai sei o ano do futebol africano é a grande conquista do futebol africano e dos grandes jogadores africanos que, mais do que isso, são grandes jogadores de futebol.

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17.6.14

As reacções a uma derrota da selecção portuguesa são sempre interessantes num sentido antropológico e não lhes conseguimos escapar. Ligamos a televisão depois do jogo e os comentadores, contristados ou perplexos, descobrem as lacunas da convocatória, identificam os problemas no onze, lamentam o descontrolo de Pepe, resignam-se perante os sinais débeis de recuperação económica. Não há-de faltar um queirosiano que, numa metáfora sanitária, proponha varrer porcarias, ou que, mais confortável na arquitectura, sonhe com o repensar de todo o edifício do futebol de formação, o que implicará a disposição das cadeiras das salas do ensino básico em 4-3-3. Fora do comentadorismo profissional, um lunático lembra razoavelmente que Pepe é brasileiro, outro diz que o pai de Bruno Alves também é brasileiro e um terceiro, impossibilitado de alterar a naturalidade de Rui Patrício, acusa-o de ser frangueiro contumaz. Sportinguistas incorrigíveis defendem, sem ironia, que a história seria diferente se Adrien estivesse em campo. Só que um cérebro que extrai da observação do jogo de ontem a conclusão de que os problemas da nossa equipa se resolveriam com a entrada de Adrien não é digno de confiança. Já no Facebook, entre piadas envolvendo camelos e Angela Merkel, alguns indignados acusavam os jogadores de não honrarem a camisola. Presumo que o conceito de honrar a camisola passe, por exemplo, por beijar o escudo quando se marca um golo, actividade que os alemães impediram com relativo à-vontade. Não havendo golos, talvez honrar a camisola seja uma mistura da predisposição metafísica para uivar durante o hino com o impulso incontrolável para correrias acéfalas em que o jogador, por manifestamente estar a correr à toa mas com a convicção oposta, demonstra todo o seu inesgotável amor à pátria, até ser derrubado pela humidade baiana ou pela sombra de um alemão. Depois há um grupo curioso especialista em tomar as dores dos emigrantes. Para os elementos deste grupo, o pior de uma derrota da selecção, do Benfica ou da representante portuguesa no Eurofestival, é o sentimento de vergonha que irá cobrir toda a comunidade portuguesa durante duas semanas de luto interior e troça alheia. No lote das minhas reacções preferidas no facebook, um universo limitado que exclui analfabetos e Pacheco Pereira, gosto das semi-esotéricas ou de causalidade não imediatamente detectável. Explico: ontem, várias pessoas atribuíram a goleada dos alemães não à efectiva superioridade dos alemães mas a uma deliberação cósmica de justiça poética em que a selecção portuguesa estaria a pagar, por decreto divino, pela schadenfreude (já que estamos em ressaca germânica) que assolou alguns espíritos lusitanos graças à humilhação espanhola às mãos dos holandeses. Apenas sabedoria popular: “não te rias do vizinho que o teu mal vem a caminho.” Ou seja, para a próxima, ficamos contentes e caladinhos que nem ratos perante a desgraça de nuestros hermanos, caso contrário o universo, sempre atento a estas faltas de solidariedade entre vizinhos, tratará de pôr no nosso caminho severos protestantes para nos dar uma lição das boas. Eu também tenho uma explicação do género e que, na minha modéstia, creio ser um pouco mais fundamentada: desde que os limpámos com a nossa equipa B no Euro 2000, os alemães têm feito questão de esfregar o chão com a equipa das quinas sempre que a encontram – e, para felicidade deles, têm-na encontrado muitas vezes. Já são quatro derrotas em quatro jogos oficiais, enquanto lembramos, satisfeitos e alvares, aqueles três golos de Sérgio Conceição. A arbitragem também figurou em certas explicações secundárias, mas nada com a intensidade de outros momentos gloriosos como o penalty de Abel Xavier ou o murro de João Vieira Pinto ao árbitro. Finalmente, não podia faltar a figura do português insubmisso que não vai em futebóis e que já topou que isto da crise não é para todos: “não há dinheiro, não há dinheiro, mas vai tudo para o Brasil ver a bola.”

 

PS: quanto à questão Klose, por enquanto, tudo bem.

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16.6.14

As estatísticas e os factos sobre mundiais são enormes repositórios do insólito. Além disso, as estatísticas costumam ser burras, sobretudo quando na posse de cabeças burras, e os factos são sempre impiedosos, sem cuidar da sensatez mãos que os manejam. Vejamos, por exemplo, o curioso caso de Oleg Salenko, que foi, a par de Hristo Stoitchkov, o melhor marcador do mundial de 94. Fantástico! Que proeza incrível! Mais: cinco dos seis golos do avançado russo nesse torneio foram marcados no mesmo jogo. Contra os Camarões. Um jogo que já não contava para nada. Uma glória triste. Eu vi o jogo e, ao contrário do que sucedeu há poucos dias ao ver os golos da Holanda contra a Espanha, a sensação não foi a de ver uma das páginas mais inesquecíveis dos mundiais a ser escrita mas a de assistir, em directo, à elaboração de uma das mais extravagantes notas de rodapé de todos os tempos. Naquela tarde sob o inclemente sol californiano, cada golo desajeitado de Salenko, até atingir os cinco que serão o seu penhor para a eternidade, foi um prego na nossa sensibilidade, a sensibilidade de quem continua a acreditar que os quatro golos de Eusébio à Coreia do Norte, e até os quatro golos de Butragueño à Dinamarca, são registos infinitamente superiores ao do pobre Salenko que, contudo, marcou mais um, o seu incontestável argumento a favor dos factos. Consultem todos os almanaques e wikipedias e lá encontrarão a façanha acabrunhada de Salenko: melhor marcador daquele mundial e recordista de golos marcados num só jogo. É por isso que, hoje, a nossa selecção tem pela frente muito mais que o tão importante primeiro jogo. Cabe aos nossos jogadores, sobretudo ao quarteto defensivo e a o guarda-redes, evitar que Miroslav Klose, aquele panzer desengonçado, se torne o melhor marcador da história dos mundiais, o que seria um atentado futebolístico, uma ofensa estética e uma imortalização injusta pela via burocrática da estatística. Não pode acontecer. E se tiver de acontecer, se essa for a vontade dos deuses imbecis que abençoaram Salenko e todos os da sua igualha, então ao menos que o nome de Portugal não fique associado a mais uma infeliz, porém inapagável, nota de rodapé da história do futebol. Entre tantos e tão geniais avançados que aprimoraram a arte de marcar golos, que resistiram à ideia de que um golo é apenas a certificação fatal e desapaixonada de um processo anterior e que instituíram uma arte autónoma, o golo como momento independente da sequência contínua do tempo, suspensão temporária das leis da física, o mundo não pode permitir que seja Klose a figurar no topo. Depois de vermos o golo de Van Persie, aquela ordem ténue dada à bola em pleno voo, com as coordenadas exactas para sobrevoar Casillas, a coroação de Klose seria um insulto, uma mancha vergonhosa, um retrocesso civilizacional a ser chumbado até pelos conspícuos juízes do palácio Ratton. Se aquele senhor terminar este torneio como o melhor marcador de sempre, no dia seguinte estaremos todos, mentalmente, de regresso às cavernas. É preciso evitar semelhante tragédia. Se tudo o resto falhar, confiemos nas artes marciais de Bruno Alves e nos instintos homicidas de Pepe. Confiemos que o futebol encontrará maneira de escrever direito sobre as linhas tortas da estatística.

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15.6.14

Itália e Inglaterra proporcionaram, no dizer dos entendidos, um excelente espectáculo de futebol. Pergunto-me: quando é que viraram o mundo do avesso? Por razões estéticas e pragmáticas, a Itália nunca se preocupou em proporcionar excelentes espectáculos de futebol. A cada Mundial, há uma mão-cheia de equipas que diligentemente se entregam a essa missão, embora costumem cair, com toda a espectacularidade, por volta dos quartos-de-final, o mais tardar. Quanto à Inglaterra, mais do que a produzir excelentes espectáculos de futebol, é uma nação destinada a sofrê-los. Aliás, as participações dos ingleses em campeonatos do mundo e da Europa inserem-se na categoria de entretenimento. E no entanto, neste ano da graça de 2014, Itália e Inglaterra proporcionaram mesmo um excelente espectáculo de futebol. Nos dias que correm, são duas das selecções mais simpáticas e amáveis (no sentido em que se oferecem ao amor alheio) do mundo. Dos respectivos bancos, os jogadores recebem emanações positivas: Cesare Prandelli, ar de galã florentino de trattoria, não é um estóico defensor da fealdade futebolística que sempre caracterizou a Bella Italia. Roy Hogdson, professor prudente, também não quer que a selecção inglesa seja apenas um conjunto rupestre de figuras secundárias do seu próprio campeonato. Com ele, o velho kick and rush é matéria museológica. Sábio, percebeu que a maneira mais rápida de se construir uma verdadeira equipa nestas condições é aproveitar uma base pré-existente, neste caso, a base do Liverpool de Brendan Rodgers, ontem à noite transplantada para a Amazónia. Prandelli também beneficia de uma espinha dorsal prêt-a-porter: a da Juventus tricampeã de Itália e, não se esqueçam, eliminada pelo Benfica nas meias-finais da estupenda Liga Europa. Mas, além destas paticularidades, o centro de um jogo emocionante será sempre a capacidade dos jogadores em campo. E ontem, a mais comovente foi a capacidade de Raheem Sterling para a alegria. A certa altura, já cansado, fintou Marchisio a passo numa área de terreno que daria à justa para erguer um poste de iluminação. E as recepções? Na minha modesta opinião, a qualidade de um jogador mede-se de forma bastante fiável pela qualidade das recepções, e por isso afirmo que Sterling é um génio. Não apenas um louco furioso e veloz como Theo Walcott ou Aaron Lennon, que confundem relvado com pista de tartan, mas um génio capaz de ajoelhar adversários em tocas de coelho. Mesmo quando arriscou mais uma finta, um remate improvável, Sterling não o fez por egoísmo, mas inspirado pela alegria pura dos seus dezanove anos. Para esta nova Inglaterra, contribui também a feliz ausência de mastodontes como Ferdinand e Terry. Assim, em vez de uma colecção de cromos afectada pelo spleen de fim de época e parasitada pelas oxigenadas e penumáticas wags, temos um organismo vivo e enérgico. A Itália é outra coisa. É um corpo ligado a Pirlo, como certos corpos estão ligados à máquina. Se não estou em erro, a máquina de efectuar passes que é Pirlo errou dois em todo o jogo. Quando nos lembramos do número de passes que o homem falha é porque na sinfonia pirliana um passe falhado é uma nota em falso: dá-se logo por ela. Claro que toda a equipa italiana impressiona porque todos os jogadores sabem o que estão a fazer em campo. O que, tendo em conta que Balotelli é um deles, é um feito de proporções shakespearianas. Quando tudo acabou, ficou a amargura de um jogo como estes não se poder decidir através da nota artística: três pontos para Itália, três pontos para Inglaterra e flores para Sterling e Pirlo.

 

Notas:

- Uruguai – Costa Rica: em dez minutos que vi do jogo, assisti a duas entradas que terei de classificar de “uruguaias”, não por terem sido perpetradas por uruguaios mas por serem “uruguaias”. Do lado de lá da linha lateral, o impecável professor Tabárez, perfil de cantor de milongas em amenas noites portenãs, deve-se ter sentido insultado por tamanha brutalidade.

 

- Campbell: o campeonato do mundo foi inventado para assistirmos à explosão destas figuras vindas do nada (atenção, o nada a que me refiro está povoado de olheiros do Arsenal, Carlos Daniel e Luís Freitas Lobo).

 

- Colômbia – Grécia: finalmente percebe-se a frase de Jesus: quem não gostaria de pegar em três jogadores banais e ordenar-lhes que se transformassem num Cuadrado?

link do postPor Bruno Vieira Amaral, às 14:10  ver comentários (2) comentar

14.6.14

Tudo o que hoje se escrever sobre Vicente Del Bosque vai soar a um cobarde ajuste de contas, uma pedra atirada por alguém escondido atrás do arbusto da goleada laranja. Não é o caso. Ontem, enquanto assistia ao jogo, a minha preocupação não era a de observar as movimentações dos jogadores mas a de reunir informação suficiente que me permitisse responder a uma pergunta simples: o que é Vicente del Bosque? É verdade que a marcha do resultado não ajudou à minha concentração. A certa altura, fechei os olhos tentando fixar a imagem do seleccionador espanhol e só via Casillas a perder a bola para Van Persie. Até que, perto do final, a solução foi-me revelada: Vicente del Bosque, Don Vicente, com aquele aspecto romanesco de abade de província, é o contrário de um fantasma. Os fantasmas manifestam a sua presença das mais variadas formas, abrindo gavetas e portas, arrastando correntes pelos corredores, apagando velas em momentos nada festivos. Ninguém os vê mas toda a gente – pronto, talvez só os mais histéricos – tem a certeza da sua presença. Ora, a presença física de Don Vicente é inequívoca, como puderam testemunhar ontem milhões de espectadores em todo o mundo. O que não sentimos são os sinais imateriais da sua presença. Toda a gente o vê mas é como se ele não existisse. O currículo de del Bosque é impressionante e eu só tenho uma boa justificação para a riqueza desse currículo: del Bosque é o grande especialista na arte de não se intrometer, através de tácticas e de minuciosos estudos do adversário, entre os jogadores que lhe põem ao dispor e aquilo que estes naturalmente conseguem fazer. Ele está lá porque alguém tem de ir às conferências de imprensa falar sobre as coisas, porque a sociedade, apesar dos esforços dos progressistas, ainda não está preparada para que uma equipa se apresente sem treinador e porque, caso os resultados sejam maus, é preciso ter um bode expiatório à mão. Creio que del Bosque está perfeitamente habilitado a desempenhar estas e toda uma série de tarefas menores que lhe atribuam. E conseguirá fazê-lo sem se atrever, nem que seja numa única substituição, a imprimir à equipa o seu “cunho pessoal”, para utilizar uma expressão máriowilsoniana. Se há coisa que Del Bosque sabe fazer é imprimir, ao de leve, o seu cunho impessoal. Isto é uma virtude quando tem bons jogadores no máximo das suas capacidades e uma tragédia quando os jogadores não são assim tão bons ou não estão em grande forma. Ontem, depois de a Espanha sofrer mais um golo, já não sei se o terceiro ou quarto, Del Bosque esbracejou junto à linha lateral. O efeito foi nulo. Os gestos de um fantasma visível. Depois, ordenou umas substituições e o resultado foi igualmente nulo. Um fantasma que se vê e não se sente. Treinadores como Del Bosque limitam-se a andar a estabelecer pontes, a promover consensos e a gerir conflitos, numa postura que é apresentada como sendo de grande sabedoria confuciana e que é apenas analgésica e sedativa. Um seleccionador é, na verdade, um aposentado que se recusa a ir para o parque jogar sueca ou a quem falta o espírito para se dedicar ao engate de viúvas em aulas de danças de salão. Acontece que Don Vicente, mesmo quando era treinador do Real Madrid, já tinha esse ar episódico, de treinador dominical de quem se espera que, a qualquer momento, tire cervejas da geleira e as distribua pela malta sentada no banco. É o arquétipo do seleccionador. O contrário de um fantasma. Vê-se mas nunca abre as portas que os seus jogadores não conseguem abrir sozinhos.

link do postPor Bruno Vieira Amaral, às 11:50  ver comentários (1) comentar

13.6.14

Podia escrever sobre o Rakitic, que não só dá belos beijos gregos a companheiros de equipa, como lhes oferece bolas perfeitas, redondas, suaves, em bandejas invisíveis lançadas a quarenta metros de distância; podia escrever sobre aquela biqueirada subtil de Óscar, um rapaz com ar de juvenil e que ontem correu mais que uma associação de quenianos (e o Brasil tinha um falso autêntico queniano no banco); podia escrever sobre um passe inútil mas belo (que é diferente de um passe belo mas inútil) de Neymar; podia escrever sobre a robusta imprestabilidade de Hulk em todas as acções de jogo em que participou; podia escrever sobre uma magnífica defesa de Pletikosa, sobre Bernard agarrado a um croata que o limpou do ombro como se se libertasse de um grão de areia, sobre Fred, um jogador que tem a virtude de nos tornar mais benévolos quando olhamos para o trio de avançados da selecção portuguesa; podia, finalmente, escrever sobre o senhor Nichimura e aquele penalty, só que ontem escrevi que, para mim, o mundial começava hoje e não me quero desmentir logo ao terceiro dia de crónicas. Por isso escreverei sobre a Austrália, que hoje se estreia contra o Chile. Nunca me tinha questionado sobre a simpatia que equipas oriundas de países que não querem saber de futebol para nada me despertam. Quando dediquei alguns minutos ao assunto, concluí que, esgotadas todas as tentativas razoáveis de convencer os selvagens da superioridade do futebol – incluindo organizações de mundiais e exportação de simpáticas e decadentes estrelas para as suas ligas de latão – o meu desejo de que tivessem sucesso seria uma forma desesperada de os tentar convencer pela linguagem universal do sucesso. Como quem diz: se não sois capazes de apreciar este belo desporto, apreciai ao menos o reconhecimento proporcionado pelas vitórias. Isto deu origem a equívocos dos quais saímos todos derrotados. Os relativos sucessos de países como os EUA não só não lhes fizeram nascer uma súbita e avassaladora paixão pelo futebol, como ainda lhes alimentaram a soberba e a prepotência de nos vencerem num desporto que para nós é tudo e para eles é quase nada. Tentámos suborná-los com o sucesso e ficámos sem dinheiro e sem mercadoria. Mas como, mesmo assim, continuo a simpatizar com estas equipas excêntricas, tive de encontrar outra explicação. Acho que é esta: quero que estes rapazes vençam porque são uma espécie de mártires do futebol, missionários a pregar em território inimigo. Para imaginarmos como um futebolista australiano ou norte-americano é visto pelos seus compatriotas só temos de pensar na forma como olhamos para aqueles grupos bizarros que, periodicamente, se juntam em campos obscuros da margem sul para jogar basebol. Tirando a natural tendência de qualquer sociedade para produzir bolsas refractárias e alienígenas – fanáticos de cosplay, seguidores de Madame Blavatsky ou eleitores que votam no POUS  – só um eventual apoio da CIA justifica, no meu limitado entendimento, o esforço necessário não só para aprender as regras do basebol como também para as pôr em prática num complexo desportivo da Verdizela aos domingos de manhã. Enfim, quero que os australianos ganhem porque são corajosos. No lugar onde nasceram, jogar à bola não lhe traz prestígio nem dinheiro. Serão sempre onze malucos aos pontapés numa bola. Curiosamente, como aqueles jamaicanos que participaram nos Jogos Olímpicos de Inverno, parecem ser os que mais se divertem nestes certames. No fundo, eles estão ali a representar mais do que a sua nação (que não quer saber deles para nada), estão a representar os milhões de adeptos que, em frente do televisor, sonharam um dia estar do outro lado. É em nome dessa cumplicidade amadora que festejo todos os golos que marcam.

link do postPor Bruno Vieira Amaral, às 14:14  ver comentários (2) comentar

12.6.14

Para o Reinaldo Moraes

 

A FIFA, que é a organização mais poderosa e mais corrupta do mundo, depois do FMI e da ‘Ndrangheta, tem fama de aterrar nos países escolhidos para albergar as competições que a própria FIFA oferece ao seu cortejo de saqueadores e começar logo a dar ordens, cadernos de encargos, “preto, olha a massa”, acessibilidades, transportes e essas coisas todas que transformam qualquer país atrasado no “state of the art”, no último grito, no “uau, estas estações de metro são tipo Kubrick”. Até que a FIFA chegou ao Brasil. Foi lindo. Aquele sujeito que deve ser suíço ou flamengo, protestante é de certeza, Jérôme Valcke, não sei quê da FIFA, andou a fazer cara de alemão, mal disposto com os índios e os mosquitos e os estádios que não saíam do papel, e a ameaçar, e a dizer que assim não dava, com aquela voz de capataz primeiro-mundano, vilão ideal para a versão 3D do Orientalismo, até que se viu que o homem não aguentou o Brasil. Desistiu. Que se dane. Que se foda. É. Foi preciso chegar ao Brasil para a FIFA descobrir, com muitos anos de atraso, o “quesefodismo”. Os estádios não estão prontos? Que se foda. Há greves dos trabalhadores do metro? Que se foda. Derrapagens de milhões? Que se foda. Parabéns ao Brasil por ter dado uma lição graciosa à FIFA e por disponibilizar a todo o mundo a primeira copa “quesefodista” da história.

 

PS: descobri que, afinal, o Valcke é francês. Que se foda.

link do postPor Bruno Vieira Amaral, às 11:53  ver comentários (1) comentar

Hoje é o dia mais chato do mundial depois do dia do jogo de atribuição do 3º lugar. Está ao nível daqueles dias de purgatório entre os quartos-de-final e as meias-finais e entre as meias e a final, quando os jornalistas desterrados fazem reportagens sobre autóctones que vendem piricas e criam tucucas e têm um primo que foi casado com uma portuguesa, “gente boa”, e descobrem aos gritinhos que uma antiga lenda dos relvados agora é proprietário de uma oficina ou dono de uma empresa de transportes. É o dia inaugural. Os adeptos estão ansiosos por ver futebol e eles dão-nos coreografias e música mexida, tecidos esvoaçantes e pirotecnia. Quando o jogo começa há uma sensação de falsa partida. Durante a primeira parte, jogadores e público – no estádio e em casa – não sabem se já é a sério ou se aquilo ainda faz parte do espectáculo dos Fura dels Baus. Um Camarões-Honduras ou um Costa-Rica-Tunísia disputado a meio do campeonato às três da tarde num estádio de 40 mil lugares em plena Amazónia tem um potencial competitivo muito superior ao de um Brasil-Alemanha no primeiro dia da competição. Felizmente, as regras da Fifa tratam de evitar esses confrontos violentos logo no início. Sai sempre um soporífero Brasil-Escócia, um paupérrimo Alemanha-Bolívia ou mesmo um África do Sul-México que ninguém sabe de onde veio e para onde foi. O efeito é o de uma anestesia antes de uma operação complicada: “Isto vai ser um mês difícil, com muito futebol, por isso, para começar, tem de levar com este joguinho que é muito relaxante. É provável que, daqui a nada comece a ver uns rapazinhos loiros de camisolas axadrezadas, não se preocupe, é mesmo assim”. A única esperança é que haja uma surpresa, que o mais forte seja derrotado e que o choque seja forte o suficiente para acordar o mundo da letargia em que duas horas de vai-vem televisivo entre o rabo de Jennifer Lopez e a cara de Dilma Rousseff o irão sem dúvida depositar. No que me diz respeito, o mundial a sério começa amanhã. Hoje é só circo, fumaça e escrete. Nada que me interesse.

link do postPor Bruno Vieira Amaral, às 10:51  ver comentários (1) comentar

 
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