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Circo da Lama

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

Circo da Lama

25
Mai15

Um caso antigo

Bruno Vieira Amaral

 

Tinha visto o anúncio rudimentar no quadro de cortiça na sala dos professores. “Aluga-se quarto. Contactar Maria Emília da secretaria.” Nessa tarde, depois do almoço, foi ver o quarto. O bairro não era tão mau quanto pensava. Havia espaços verdes e canteiros, embora mal cuidados, e um campo de jogos. Reparou que, mesmo a meio da tarde, havia muita gente nos cafés. À entrada da maior parte dos prédios havia lixo acumulado. Num baldio, nas traseiras dos prédios, ao abandono, estava um carrinho de compras. António gostou da casa. Cheirava a limpo. No quarto só havia espaço suficiente para a cama, mesa-de-cabeceira com candeeiro, guarda-fatos com espelho na porta e uma secretária, à qual tinham tido o cuidado de juntar uma cadeira que devia pertencer à mesa da cozinha. A decoração consistia numa jarra de loiça em cima da secretária e, numa das paredes laterais, numa aguarela de um velho sentado num barquinho junto a um cais. Tinham-nas comprado de propósito para criar um certo ambiente de conforto. Talvez tivesse sido ideia da mãe de Mila. Simpatizou com ambas. Foram agradáveis sem ser intrusivas. Foi Mila quem lhe mostrou o quarto.

 

“Era o nosso quarto, meu e do meu irmão. Tínhamos de partilhar porque não havia mais quartos. Era um bocado chato, mas pronto, se o professor ficar cá não vai ter esse problema.”

 

Pediu desculpa por não ter televisão no quarto. Mas se António quisesse ver o noticiário ou algum filme fora do horário da telenovela, podia juntar-se a elas na sala. Mila dizia isto a rir. Era bem-vindo. O preço do quarto, trinta e cinco contos, não incluía alimentação porque, Mila fez questão de explicar, ela e a mãe nem sempre cozinhavam. À noite bebiam chá, comiam uma peça de fruta e ninguém era obrigado a seguir o mesmo regime, “o nosso ramadão”, disse na brincadeira. Mas António estava à vontade se quisesse cozinhar. Uma das prateleiras da despensa era para ele. E podia usar o frigorífico à vontade. Mila era uma mulher bem nutrida. Talvez fosse o ramadão a impedi-la de engordar. A janela do quarto dava para o baldio. António ficou contente. Achou aquela paisagem de uma beleza inesperada. Resolveu ficar ali.

 

Nos dois primeiros meses, António só foi uma vez a Leiria. Quase todos os dias depois do jantar, telefonava a Luísa. Eram conversas curtas sobre as aulas dele, as histórias do Dr. Nóvoa, uma rua fechada no centro do Leiria. Luísa perguntava-lhe como é que ele se estava a dar com aquilo. Ele respondia sempre da mesma maneira, que não desgostava, era uma experiência.

 

“Depois já não vais querer nada com Leiria. Nem comigo.”

 

“Não digas parvoíces.”

 

Vendo que o rapaz saía quase todas as noites para telefonar à namorada, Mila disse-lhe que podia usar o telefone lá de casa. A factura era detalhada. Fariam as contas no fim do mês.

 

“E o professor pode levar o telefone para o quarto. Para poder falar à vontade com a namorada.”

 

Ao dizê-lo, sorriu. António notou um registo diferente na voz de Mila. À graça jovial que lhe era característica, acrescentava um tom de proximidade descontraída, natural quando duas pessoas conquistam um certo grau de confiança. Apesar desse novo à-vontade Mila tratava-o a preceito, formal, “o professor”. Era um entendimento.

 

António aproveitava algum tempo livre para passear pelos arredores. Ia até à baía do Seixal, sempre com o seu bloco, visitava a velha fábrica de cortiça, transformada em ecomuseu, os moinhos de maré, as esplanadas ribeirinhas de onde, à tarde, via a cidade de Lisboa distendida num amplo e luminoso esplendor. Duas vezes por mês ia ao cinema a Lisboa, hábito cultivado desde os tempos da faculdade. Dava aulas a turmas do 5º e do 6º. Os miúdos gostavam dele. Era um professor meio “aluado”. Um dia, um dos alunos reparou que trazia uma meia de cada cor. Costumava chegar atrasado e sonolento.

 

Nos primeiros tempos, quando regressava dos telefonemas, António ia logo para o quarto. Ligava o rádio e, deitado na cama, lia um livro ou sentava-se à secretária a desenhar coisas que vira durante o dia, o padrão das migalhas na mesa do bar, o movimento das folhas dos plátanos nos canteiros que separavam os blocos da escola, o rosto de toupeira de uma colega, professora de Técnicas Administrativas. O pai quis oferecer-lhe uma televisão. Ele recusou. Não ter televisão era das melhores coisas daquele quarto. Mais tarde, com o tempo, e a insistência de dona Adelaide, António começou a sentar-se na sala, a ver a telenovela, cansado, distraído.

 

“Quando o professor voltar para a sua terra não pode dizer que anda a ver a telenovela.”

 

“Acho que ninguém ia acreditar.”

 

Aquela familiaridade aconchegava-o. Tinha decidido dar aulas longe de casa porque precisava de estar sozinho, de ver as possibilidades que a vida lhe podia oferecer. Assustava-o a ideia de acabar o curso, ir trabalhar para o amigo do pai, casar com Luísa, ter filhos e, de repente, a vida ter passado por ele sem que fosse ouvido sobre o assunto. Gostava de Luísa, sem dúvida, até mais do que esta decisão faria supor. Para si mesmo, António pensava em trazê-la para perto dele. Só que queria que fosse ela a tomar a decisão. Queria que Luísa arriscasse, chegasse ao pé dos pais e lhes dissesse que ia viver com ele num apartamento reles da margem sul, que bastava o ordenado de professor. Ela havia de arranjar um emprego num consultório, como recepcionista ou empregada numa loja de roupas. Porque é que aquela vidinha em Leiria, entregue de bandeja, sem questões, sem resistência, era a melhor, a única, que podiam conceber? Mas esperar uma decisão dessas por parte de Luísa era inútil. Ela nunca o faria. Nem sequer era capaz de o visitar. Seria um escândalo. Então António deixava o tempo passar e aquela vontade inicial de estar sozinho, isolado, começou a abrir frestas. Transformara-se numa solidão suburbana, sem qualquer glória, improdutiva. Tinha de a combater de alguma maneira. Para começar, servia-lhe estar sentado no sofá ao lado de Mila, vendo a telenovela brasileira com dona Adelaide, abancada no cadeirão majestoso cujo braço recebia o telefone para o caso de o filho ligar de Inglaterra. Quando a telenovela acabava, dona Adelaide levantava-se, dava as boas noites e ia para a cama. António também ia para o quarto. Mila ficava na sala a ler livros de mistério, thrillers, Robin Cook, romances de amor, Danielle Steel. A luz do quarto incomodava a mãe. Uma noite, intrigado pela leitura de Mila, que passou o episódio inteiro da telenovela a ler, António perguntou-lhe que livro era. Mila reagiu como se visse um peixe a morder o isco.

 

“Contágio. É sobre uma epidemia. Isto é viciante. Uma pessoa não consegue parar.”

 

Não era o tipo de leitura que interessasse António.

 

“Então de que livros é que o professor gosta?”

 

Tanta coisa. Agora estava a ler O Cérebro de Broca, de Carl Sagan. Mas havia um escritor inglês muito bom, Ian McEwan. Era o preferido. Tinha lido quatro livros e eram todos magníficos. Eram histórias um tanto urbano-depressivas. Mas mais do que livros o seu grande fascínio era o cinema.

 

“A sério? Também adoro cinema. Adoro mesmo. Quando era miúda, lá em Moçambique, íamos todas as semanas. Depois quando viemos é que deixei de ir. O meu ex-marido também não gostava. Mas agora vou mais vezes, aos fins-de-semana. Assim o que gostei mais foi um que é As Pontes de...

 

“...Madison County”

 

“O professor também viu esse? É lindo, lindo. Uma história tão triste e tão linda. Gostei mesmo.”

 

António não tinha visto mas sabia qual era. Todas as mulheres assim da idade de Mila gostavam desse filme.

 

“Puxa! Da minha idade? Mas que idade é que o professor acha que eu tenho?”

 

Gargalhou. António desculpou-se. Queria dizer é que não era um filme para miúdas.

 

“E conhece assim tantas mulheres da minha idade?”

 

Assinalou “minha idade” com aspas e olhou o rapaz directamente nos olhos. António sentiu um aperto. Ao fim de dois segundos fraquejou e desviou o olhar. Mila tinha um rosto bonito, olhos grandes, cheios de vida que, ao sorrir, realçando as pestanas, ganhavam uma languidez que apetecia. Andava sempre muito arranjada, lábios e olhos pintados. Tinha tendência para engordar mas aos trinta e nove anos, sem filhos, era apenas voluptuosa, carnal. Uma mulher sem artifícios, vivida, mais velha do que ele. A consciência dessa simplicidade afectou-o. Teve vontade de a beijar nesse momento, de lhe sentir o corpo, queria saber o que uma mulher assim diria no momento do prazer. Era como a manifestação viva de uma outra vida, mais real, mais autêntica, de mulheres que liam thrillers, viam telenovelas, sobreviviam a divórcios e viviam nos subúrbios com a mãe: a vida real e pulsante. Naquele momento, o namoro com Luísa pareceu-lhe tão artificial como um romance do início do século XIX. Lembrou-se das conversas frouxas com a namorada, em obediência a um final que os dois já conheciam, um guião pobre. Com Mila, mesmo começando a conversa sobre livros e filmes banais, havia imprevisibilidade, espírito, o agridoce da sedução. Sem o saber era isto que António procurava quando decidira dar aulas e ficar longe de Leiria: o imprevisível.

 

“Não tem de responder. Diga-me lá então de que filmes é que gosta?”

 

Pousou o livro no cadeirão da mãe. Aconchegou-se no sofá, as pernas dobradas, como uma adolescente.

 

“Bem, embora eu não tenha um ranking de filmes, porque aquilo que um filme nos diz depende da fase da vida em que o vemos, se tivesse de escolher um filme diria que é As Asas do Desejo.”

 

“O professor é atrevido. Isso é erótico? Nunca ouvi falar desse filme.”

 

“Não. É um filme a preto e branco, uma história sobre anjos caídos.”

 

“Como A Cidade dos Anjos? Vi esse há pouco tempo. Adorei.”

 

António explicou-lhe que A Cidade dos Anjos era na verdade um remake de As Asas do desejo, mas que este era uma obra-prima e o outro era apenas um filme romântico, kleenex, este sim para mulheres de todas as idades. E inebriado pelo desejo que começara a sentir era como se fosse mais fácil encontrar as palavras para dizer o que pensava sobre o filme, como se o tesão por aquela mulher aclarasse as suas ideias, o fizesse perceber tudo com total nitidez, não só o filme de Wim Wenders, mas a sua vida, a situação em que se encontrava. Teve a certeza – e nunca sentira nada semelhante, com tanta clarividência – que Mila também o desejava. Nunca tinha percebido com tanta clareza que uma mulher o queria, e imaginou que dali a poucos minutos estariam no quarto dele, na cama, o seu corpo nu a roçar a camisa de noite, a cuequinha de estampado de tigre – e essa pequena nota de mau gosto, expressão de uma noção básica de sensualidade e erotismo, essa nota que noutra mulher seria indesculpável, tornaria Mila numa mulher completamente desejável, porque ela era assim, real, autêntica – e quando finalmente se despisse, António sentiria o cheiro a óleo de côco por toda a pele e então ela, sábia, com a sabedoria do mundo e da vida, da idade, muito longe das repetições decoradas e infantis de Luísa que tudo o que fazia era o que pensava que ele gostaria que ela fizesse, pegaria no pau molhado, “Ai querido como tu estás”, e conduziria a mão dele para a cona quente, para que também sentisse como ela o queria, e ia chupar os dedos dele e ia gemer e ia dar-lhe os dedos dele a chupar para que os dois sentissem o sabor do desejo dela, e então ia recebê-lo, controlando-lhe o ritmo e quando ele, inexperiente e ávido, estivesse para se vir, ela ia perceber e dir-lhe-ia então ao ouvido: “Amor, tens de o tirar.” E ouvir aquele “amor” assim, dito por uma desconhecida, era o último impulso para que se viesse para cima das mamas, da barriga, das pernas, “é tão bom, amor”, e ficaria a vê-la espalhar o sémen pelo resto do corpo, como se se inundasse.

 

“Tu falas muito bem. Gosto de te ouvir. Gosto mesmo de te ouvir.”

 

Tinha acabado.

 

“É fácil uma mulher apaixonar-se por ti. É muito fácil.”

 

António tinha vontade de chorar. Mila olhou para o relógio.

 

“Caramba, já é tão tarde. Caminha, professor. Depois chega tarde à escola e ainda começam a dizer que a culpa é da Mila.”

 

António levou muito tempo a adormecer. Esperou que Mila entrasse no quarto. Mas ela não veio. Nem nessa noite nem nas noites que se seguiram. António deixou de se sentar na sala para ver a telenovela. Desculpava-se com o excesso de trabalho. Ia à rua fazer o telefonema, voltava e dirigia-se para o quarto. Precisava de se afastar do corpo de Mila.

 

Quando o ano lectivo acabou, António regressou a Leiria. Falou com o pai. Queria saber se aquilo do Delgado ainda era válido. Luísa ficou muito feliz. Os pais dela também. Quando anunciaram o casamento no ano seguinte, o Dr. Nóvoa fez questão de lhes oferecer a viagem de lua-de-mel. O copo-de-água foi retumbante. Uma cerimónia com mais de duzentos convidados, numa quinta escolhida pelo sr. Joaquim, com mesa de queijos e conjunto musical. Sete anos depois, quando já havia falatório, nasceu Núria, no Hospital Magalhães Lemos, com 2.900kg, a 2 de Setembro.

 

“Parabéns a você, nesta data querida”, os empregados do restaurante juntaram-se para cantar os parabéns. Núria estava eufórica. Soprou as velas. A mãe deu-lhe um ralhete. António foi abraçado pelo sogro: “Que contes muitos e que nós estejamos cá para os ver.” Luísa beijou o marido. Um beijo. António recordou-se daquela noite num apartamento na Cruz de Pau. Nunca conseguiu perceber o que tinha dito sobre o filme, As Asas do Desejo, mas sabia que chegara a uma verdade essencial a que nenhuma reflexão árida, inteiramente intelectual, o poderia ter levado. Sentiu que atingira um cume da existência, um lugar belo, em que o que se pensa, o que se sente e o que se deseja se une numa amálgama, um momento em que um homem se realiza na indescritível harmonia entre o interior e o exterior. Um momento destes jamais se repetiria. Só lhe restava guardá-lo, pensar nele de vez em quando, afagar a sua realidade ténue. Naquele momento, há muitos anos, sob o efeito do olhar de Mila, foi capaz de amar tudo, toda a gente, Mila, Luísa, os pais, toda a humanidade, todas as palavras, todos os objectos: a jarra banal sobre a secretária, os livros de Robin Cook, a aguarela ingénua na parede do quarto, As Pontes de Madison County, um carrinho de compras abandonado no baldio.

 

 

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