"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos
22.12.15

O relato da clausura de Horácio Cardoso é o relato de um processo gradual de insanidade com intervalos pontuais de lucidez ou um processo gradual de lucidez com intervalos pontuais de loucura, intervalos fundamentais para que à força de tentar suprimi-los esses instintos não acabassem por dominar por completo aquele homem? A parede verde-escura, a falta de sol e de ar, os policiais que leu e que exasperavam uma imaginação já de si fértil, os apontamentos e as notas, frases sem sentido, inícios de romances que nunca iria escrever. Nessas tentativas incipientes de criação, até nos esboços de um caderno de memórias, Horácio notava, com o desencanto de quem se traiu a si mesmo, até que ponto a sua linguagem fora contaminada pela política e pela revolução. Afunilara a sua vida para uma existência meramente política e como que se amputara da linguagem da literatura que lera na adolescência, que a certa altura lhe parecera imaterial e risível, uma substância deletéria que entorpecia a vontade e afastava os homens da nobre missão revolucionária. Agora que tanto precisava dela, agora que essa linguagem readquirira aos seus olhos o prestígio, a nobreza, a força serena do que é escrito sem intenção de convencer ou de doutrinar, essa linguagem escapava-lhe e já não era apenas o seu corpo que se encontrava enclausurado mas também a sua experiência, os seus sentimentos, as suas ideias estavam condenados a permanecer dentro de si sem encontrarem as palavras através das quais se poderiam expressar. Cultivara o estranho e desesperado hábito de ver na parede, nos padrões do cadeirão, nos azulejos da cozinha, os filmes da sua juventude, quadros que conhecia de reproduções, o futuro. E nesse futuro via a tarde em que, após meses de cativeiro, sairia de casa, os movimentos tolhidos pelo tempo de inactividade, e seria como nascer de novo, a sensibilidade aguda aos ruídos, à luz, à cidade, caminharia com cuidado para que ninguém o pudesse identificar, pela avenida do Hospital e então para seu grande horror haveria de perceber que o mundo se esquecera de si, muitas coisas tinham ocorrido nesses meses, eram tantos os fantasmas nas ruas de Luanda que ninguém reparava naquele homem espectral, barbudo e desgrenhado. Teve a sensação claustrofóbica e aterradora de que se entrasse na esquadra e dissesse quem era, “Sou Horácio Cardoso, 26 anos, traidor procurado pela polícia secreta”, ninguém acreditaria nele porque numa cidade em que todos os dias desapareciam pessoas ninguém acreditava nos loucos que reclamavam identidades. Era difícil apurar a realidade das pessoas. Nos meses em que esteve encerrado naquele apartamento lembrava-se de ter recebido algumas visitas, antigos camaradas que também tinham escapado à polícia secreta, e das conversas intermináveis que mantinham e que se prolongavam pela noite fora, contra tudo o que o bom senso aconselhava. Havia semanas de grande afluência em que Horácio Cardoso de tão desgastado já nem sequer os ouvia, respondia-lhes de olhos fechados, acenava, assentia, e só por delicadeza não lhes pedia que se fossem embora, que o deixassem descansar, porque sabia que arriscavam muito indo ali e porque sabia o que lhe custavam as semanas em que não vinha ninguém. Em certos dias de calor, em que a parede ameaçava liquefazer-se, ouvia o barulho colectivo de uma multidão a aproximar-se, palavras de ordem gritadas por homens e mulheres de gargantas secas, depois os estampidos de tiros, rajadas de metralhadoras que rasgavam o silêncio das ruas como frutos para o desperdício, o tropel de gente em fuga, gritos de surpresa perante um horror subitamente materializado, até que tudo se cobria do silêncio atroz das cidades abandonadas à pressa e os espaços pareciam recobrar o fôlego num descanso breve, uma pausa a que uma voz conhecida vinha pôr termo, com o que de início parecia uma reza, um discurso litúrgico que, aos poucos, adquiria a cadência humana das conversas íntimas entre homens que há muito se conhecem mas que a vida afastou, Horácio escutava a voz radiofónica do mais velho a sussurrar-lhe palavras paternais que, no entanto, tinham no seio um núcleo indesmentível de ameaça, como um fruto muito doce que amarga junto ao caroço. A voz dizia-lhe que sempre soube que ele estava ali escondido, o Dinis era agente da Disa, ele próprio, o presidente, o destacara porque era um dos seus homens de confiança, não havia nada que não soubessem, conheciam todos os passos, dos amigos e dos inimigos, a que horas jantavam, escreviam, amavam, os momentos em que pensavam nessas coisas, os fantasmas e as dúvidas que lhes corroíam os espíritos, as violências que planeavam mentalmente, o ódio de que se alimentavam, cada cabelo que tinham na cabeça, cada grão de areia em cada praia, cada folha de cada árvore, nada lhes podia ser ocultado porque não havia nenhum homem que, posto perante a Lei e o Estado, não fosse transparente. Tudo o que eram, pensavam, escreviam e sonhavam para aquele país estava algures nas páginas de um relatório dos agentes da secreta e se não estava era porque não existia e o que não existia nem tinha de ser eliminado. Ouvia-se a si mesmo noutros tempos a catequizar as massas ignorantes, a contar-lhes a própria história em jeito de parábola bíblica, o filho pródigo, a semente de mostarda, porque a única linguagem metafórica que entendiam era a da Bíblia, então os revolucionários como ele liam a Bíblia à noite para pregar a revolução durante o dia. O que interessava é que resultasse, que as suas palavras lançassem luz sobre as trevas da ignorância alimentadas por séculos de opressão. A revolução não poderia falhar. “A Revolução é ciência. A Revolução é um acto moral supremo porque responsabiliza o Homem perante o seu Povo, perante a humanidade, perante a sua espécie.” Quantas vezes repetiu estas palavras, procurando negar o que à sua volta era evidente, o desleixo, a desorganização, a falta de ideias e, quando havia ideias, a falta de meios? Sobravam as palavras e uma convicção demoníaca, espiritual, fanática, na fantasia erguida por essas palavras. Ao ler os comunicados, as notícias nos jornais, as frases feitas, as fórmulas, o esqueleto do verbo sem a substância da verdade, ficava impressionado, como se de um momento para o outro uma complexa equação matemática lhe surgisse no cérebro com uma simplicidade violenta e transformadora. Afinal, era aquilo, a linguagem cifrada dos puros, “revolta pequeno-burguesa”, “tribalistas”, “acção reaccionária”, “as massas”, “os inflitrados”, “fantoches”, em todas as repartições, oficinas, empresas e serviços deverá ser posta uma fotografia do Camarada Presidente Agostinho Neto, símbolo da luta e da autoridade que esmagará o oportunismo e a ambição, “Viva a ditadura democrática revolucionária!” Viva, caralho!

link do postPor Bruno Vieira Amaral, às 11:39  comentar

3.12.15

«Há quem seja tocado pela nostalgia apenas ao revisitar velhas fotografias de família, onde se constata que a morte, afinal, estivera desde sempre entre nós, ou os objectos sentimentais que nos recordam um tempo, uma pessoa, uma união. Porém, para mim o tempo reflui ao lembrar-me do armário mural (“de construção em aço inox com uma prateleira intermédia, fechado com portas de correr”) que me custou 600 euros e que vendi por 150 a um tipo que vivia destes negócios de ocasião e que me pagou em notas contadas com modos rapaces de negociante de feira, desapartando-as com um dedo sujo humedecido de saliva. Era acompanhado por um rapaz corpulento. Estacionaram a carrinha à porta do café. Desmontaram e carregaram o material com a ausência de sentimentos dos cangalheiros, e na lembrança do momento em que saíram vejo que o brilho final desse armário arde em mim com o fulgor das paixões humanas. Sinto o mesmo pelo frigorífico (“frigorífico misto branco com congelador e refrigerador”) que vendi à D. Laura, eterna vizinha da minha mãe. De todos os objectos daquele tempo, só não consegui vender uma caixa registadora. As banquetas que sobraram, ofereci-as ao Gouveia para decorar uns apartamentos que ele, sempre com um olho nos negócios, planeava arrendar a turistas. Uma ficou lá por casa e, de vez em quando, o meu filho usava-a como cavalo imaginário. A registadora permanece a um canto do quarto da minha adolescência, em cima de um pequeno móvel, em casa da minha mãe. Há pouco, reencontrei um dossiê com os despojos do meu fracasso: facturas, ementas, guias de remessa, fotocópias de cheques, talões bancários, folhas com o “recebi” e a rubrica do Dr. Nunes da Rocha. Pergunto-me se este memorial imprevisto terá alguma utilidade. A arrumação pode ser uma forma delicada de esquecimento. E, no entanto, as coisas estão ali. Vivas. Regresso a elas como um arqueólogo que já conhece a história. Nada é apenas plausível, hipotético. Aconteceu. Servem como prova os nomes das empresas, dos fornecedores, das ruas onde estacionei o carro, as salas onde fechei negócios, as datas em que autorizei, com a minha assinatura, que a desgraça se materializasse. Só depois desses factos duros regressam as impressões indocumentadas: um cão majestoso, a astúcia tranquila do Gouveia, um papagaio sonolento, o rasto efémero do capote esvoaçante do Toureiro, a memória imaginada de um tigre a passear-se num chão de ladrilhos, o corpo fantasmagórico de Magda e o amor que eu ainda sentia por ela desvanecendo-se em simultâneo ao ritmo de canções melancólicas que ela detestava e das palavras cruas que aprendera a recitar.»

 

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Excerto de Para Mal dos Meus Pecados, publicado na Granta nº 5

link do postPor Bruno Vieira Amaral, às 12:22  comentar

 
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