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Circo da Lama

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

Circo da Lama

29
Jan16

O romancista acidental

Bruno Vieira Amaral

Publicado na LER 120, Janeiro de 2013

 

Manhã fria de fim de novembro. Depois de uma chuva bíblica, o céu ficou limpo. O encontro com o escritor José Rodrigues dos Santos está marcado para um hotel em Sintra. Aguardamos no exterior, onde dois senhores falam sobre os exercícios físicos que praticam, pilates, natação uma ou duas vezes por semana, trabalho específico para os abdominais. Uma senhora sai do hotel para a corrida matinal, garrafa de água na mão. À entrada, um funcionário de sobrecasaca e chapéu alto recolhe, com uma pinça, as beatas depositadas no cinzeiro. É um hotel de luxo. No átrio, os hóspedes falam baixo, os recepcionistas recebem-nos com sorrisos descartáveis “vêm para uma entrevista? Com certeza. É só um momento.” Cinco minutos depois da hora marcada, chega José Rodrigues dos Santos. Afável, não levanta qualquer objeção a que comecemos pelas fotografias. Entretanto, refere circunstancialmente que este hotel foi considerado o melhor do mundo por uma publicação internacional. Depois das fotografias é hora de falarmos com o autor que mais livros vende em Portugal, mais de um milhão e meio de acordo com a informação disponibilizada pela editora. À exceção do primeiro, A Ilha das Trevas, todos os seus romances ultrapassaram a barreira dos 100 mil exemplares. Antes de ser romancista, já era uma figura bastante conhecida dos portugueses, como jornalista e apresentador do Telejornal. Os livros deram-lhe outro tipo de notoriedade. Recentemente foi eleito pelos leitores do Reader’s Digest como “escritor de confiança”, à frente de José Saramago e de Miguel Sousa Tavares. O seu décimo romance, A Mão do Diabo, lançado em novembro, tem um tema bastante atual mas, de certa forma, inesperado para um thriller: a crise económica. É o regresso de Tomás de Noronha, historiador e protagonista dos seus romances de mistério, pronto a desvendar o segredo dos verdadeiros responsáveis pela crise. Pelo meio, há perseguições a alta velocidade pelas ruas de Lisboa e uma missa negra em Florença. Ainda que um romance possa não parecer a hipótese mais óbvia para o efeito, este foi um livro pensado para esclarecer os portugueses sobre as origens da situação em que vivem. A experiência do escritor diz-lhe que, em Portugal e na Europa (na América diz que é diferente), os leitores gostam de ver temas não ficcionais tratados pela ficção. Também não teve receio que o tema afastasse leitores: “A minha preocupação não foi que as pessoas tivessem medo do tema ou não. Achei que as pessoas estavam confusas em relação ao tema e achei que tinha coisas a dizer sobre o tema e utilizei este veículo, o romance, para, procurando ser muito interessante na história que burilei, expressar estas verdades fundamentais sobre como funciona a nossa economia e a nossa democracia.” Rodrigues dos Santos reafirma que, depois de lerem este romance, os portugueses dificilmente se deixarão enganar novamente pelos políticos. Uma ideia caridosa, certamente, quando é o próprio que diz que “nós não queremos ouvir a verdade”. Estaremos então preparados para ler a verdade num romance? “Mas aí eu acho que é importante que o romance a explique. Neste caso o romance dá uma explicação para que as pessoas entendam os desafios que nós temos.” O livro tempera a verdade crua com o sal e a pimenta da ficção. Na nota final o escritor refere os mais de vinte livros que leu para fundamentar as opiniões veiculadas no romance. Apesar disso, diz que há informações no livro que não podem ser encontradas em nenhum outro lado, como a explicação pormenorizada do que se passa nos bastidores: “A forma como a política é exercida, como os negócios são feitos para beneficiar os financiadores do partido em detrimento dos financiadores do país, que são os contribuintes.”

 

Quer isto dizer que os jornalistas têm falhado na missão de esclarecer os cidadãos? Falharam, sim, mas por uma boa razão: “Um jornalista, um historiador ou um jurista pode saber que algo aconteceu mas se não tem modo de o provar não o pode afirmar. Enquanto um romancista quando sabe que algo aconteceu usa a ficção Perguntam-lhe “Mas qual é a prova?” ele responde “ah, mas isto é ficção”. É possível usar a ficção para dizer grandes verdades. Por exemplo, Kafka, quando escreveu O Processo, disse uma grande verdade sobre a justiça. Nós lemos e intuímos que aquilo é verdadeiro. É possível usar a ficção para expor a verdade de uma forma que o discurso não ficcional não consegue porque está preso a um conjunto de convenções. Nesse sentido é verdade que os jornalistas fracassaram mas fracassaram devido às regras da sua profissão.”

A Mão do Diabo é o sexto romance com Tomás de Noronha. O seu autor faz a distinção entre obras: “Tenho dois tipos de romance, o romance histórico, que obedece a regras mais canónicas, e tenho os romances de mistério, em que faço o jogo entre ficção e não ficção que são os romances do Tomás de Noronha.” Regra geral, estes últimos vendem melhor, apesar de as vendas, desde Fúria Divina, publicado em 2009, terem vindo a cair, ainda que ligeiramente. A fórmula é simples: Rodrigues dos Santos pega num tema e, mesmo que à partida não tenha um apelo evidente para o público, procura uma maneira de o tornar interessante vestindo os factos com os fatos do romance de mistério/policial/de aventuras. A nacionalidade de Cristóvão Colombo, a existência de Deus, o aquecimento global, o terrorismo islâmico e os segredos do Cristianismo foram temas submetidos ao mesmo tratamento narrativo. Por muito complexo que seja o tema, os leitores acabam por aderir: A Fórmula de Deus é um romance sobre física e matemática. A questão é como vamos fazer a obra. Como é que vamos pegar num tema que pode ser mais seco e transformá-lo numa coisa interessante. Esse é o desafio do escritor.”A Fórmula de Deus vendeu 187000 exemplares. São estes números que lhe dão confiança para acreditar que nem as longas passagens explicativas e didáticas de A Mão do Diabo demoverão os leitores. Pelo contrário, eles já estão habituados a que seja assim nos romances de Tomás de Noronha: “É um pouco como os romances da Agatha Christie. No final, o Poirot junta os suspeitos. Têm aquele formato.” São livros que atraem todo o tipo de leitores. Um livreiro disse-lhe que estes são os únicos livros que vendem tão bem no Dia do Pai como no Dia da Mãe, embora os homens se interessem mais pelos diálogos – “a parte de ensaio do romance” – e as mulheres passem à frente, à procura da parte romanesca. E se os leitores sabem que podem contar com um determinado formato, sabem também que podem contar com a fiabilidade da informação factual. Por muito que se esforce por tornar cativantes os seus livros, Rodrigues dos Santos, ao contrário de Dan Brown, com quem é frequentemente comparado, não altera os factos: “Ele [Dan Brown] faz o jogo da verdade-não verdade mas apenas ao nível da verosimilhança. Ele altera os factos reais para se adaptarem à ficção e eu faço o contrário: eu altero a ficção para que esta se adapte aos factos reais. Não quer isto dizer que eu esteja imune ao erro, mas quando eu digo uma coisa que não seja verdadeira é por erro, não é intencional. No caso do Dan Brown, ele conscientemente altera determinados factos para se ajustarem à ficção.” Uma ideia reforçada pelo editor Guilherme Valente, responsável pela Gradiva, quando diz que “Carlos Fiolhais e Jorge Dias de Deus, dois físicos de inquestionável competência, afirmaram diante de mim e publicamente não terem encontrado um único erro científico” em A Fórmula de Deus. O escritor também não considera que romancear ideias complexas e teses muito debatidas corresponda necessariamente a uma simplificação. A propósito de O Último Segredo, que abordava temas polémicos para o Cristianismo como a virgindade de Maria ou o facto de Jesus ser judeu, diz: “O livro tem mais de 600 páginas, não simplifica assim tanto.” Guilherme Valente é mais cáustico quando lhe perguntamos se não há o risco de uma editora como a Gradiva, reconhecida pela qualidade das suas publicações científicas, criar nos leitores uma confusão entre ciência a sério e o tratamento romanceado de informação científica. Pergunta-nos se faríamos essa pergunta ao diretor da Gallimard: “Nós não editamos ficção apresentando-a aos leitores como ciência, história, religião, sociologia, psicologia”.

No caso de José Rodrigues dos Santos, a resposta ao desafio de tornar interessante o tema reside, em grande parte, no trabalho de pesquisa. É a pesquisa que lhe aponta caminhos e soluções narrativas. Por isso, e ao contrário de outros, como Miguel Sousa Tavares, encarrega-se ele próprio da investigação: “é a pesquisa que me vai ditar qual é o sentido da ficção que vou criar. Por exemplo, quando estava a fazer a pesquisa para A Fórmula de Deus cruzei-me com uma referência a um encontro que Einstein teve com Ben-Gurion [primeiro-ministro de Israel] em 1951, em Princeton, em que falaram sobre a existência de Deus, e eu pensei “Eh pá! Este é o ângulo que eu vou usar para a história ficcional”. Isto terá a ver com a sua formação jornalística que, admite, é também a principal influência no seu estilo de escrita. Admirador de Somerset Maugham, Rodrigues dos Santos reconhece que, ainda que inconscientemente, somos influenciados por todos os autores que lemos. Mas a sua bíblia estilística é o jornalismo, com a necessidade permanente de ser claro e interessante. Para o escritor, “as palavras não são um fim em si mesmo mas são um instrumento para contar alguma coisa. O meu background é o de jornalista. E os jornalistas, como sabe, escrevem com duas funções, a de serem compreendidos – se eu escrever uma frase e o leitor não compreender, em princípio a culpa é minha – e a de aquilo que escrevem ser interessante.” Outros escritores falam da tortura que é o processo de escrita. Rodrigues dos Santos desconhece essas dificuldades: “Escrevo um texto e estou constantemente a limá-lo e mesmo depois de o livro ser publicado há coisas que encontro que podiam ter sido mais bem trabalhadas, mas é uma questão diferente da questão do prazer e da tortura que o livro suscita. Para mim escrever é como respirar, faz parte da minha vida. Enquanto um grande número de escritores menciona que é um período terrível, o fabrico do livro para mim é puro prazer.” Admite uma dificuldade, a de entrar na cabeça das personagens femininas: “é mais difícil porque não é uma coisa que venha de dentro de mim. Não vem. Resulta da observação exterior, não é da observação interior. Há quem diga que a mulher e o homem são a mesma coisa. Eu não acho que sejam.”

JRS.JPG Foto: Pedro Loureiro

 

Foi por acaso que o jovem apresentador do noticiário noturno da RTP se tornou uma celebridade. Em 1991, quando começou a primeira Guerra do Golfo, José Rodrigues dos Santos, então com 26 anos, estava em direto. Desde esse dia, o “apresentador orelhudo” (ver página 77 de A Mão do Diabo) passou a ser uma das figuras mais populares da nossa televisão. A segunda vida, a de romancista, também começou por acaso. As circunstâncias da sua estreia como ficcionista não foram tão dramáticas, mas o próprio ficou surpreendido quando José Manuel Mendes, presidente da Associação Portuguesa de Escritores, depois de ler a sua tese de doutoramento (Crónicas de Guerra, também publicada pela Gradiva), lhe disse que estava ali um grande romancista em potência: “Eu olhei para ele e ri-me. Era a mesma coisa que ele me dizer que eu era um astronauta em potência. Ri-me. Não fazia sentido. Acontece que ele manteve esta ideia e tinha uma revista literária e pediu-me para escrever um conto e eu não tive lata de dizer que não. Então peguei numa história que se passava em Timor, e que não tinha sido incluída na tese, e comecei a escrever um contozinho. Quando me apercebi, o conto já tinha duzentas páginas e acabei por publicar o meu primeiro romance, A Ilha das Trevas. E aí fiquei hooked, fiquei viciado.” A Ilha das Trevas foi publicado por outra editora, a Temas e Debates, numa coleção dirigida por Maria do Rosário Pedreira, a editora mais conhecida do meio literário quando se trata de descobrir novos talentos. Eis a história contada pela própria: “Um dia, o jornalista da RTP Rui Lagartinho, meu amigo havia vários anos, perguntou-me se não me importava de receber o José Rodrigues dos Santos, pois ele estava a escrever um livro que achava encaixar-se perfeitamente na Ficção-Verdade. Disse-lhe que sim e marcámos uma reunião em que soube que JRS adorava a colecção e, independentemente da relação com a editora que publicava os seus outros livros (e que, aliás, manteve), queria fazer um livro para a Ficção-Verdade. Falou-me do tema (a história de Timor desde a anexação pela Indonésia em 1975 até à restauração da independência em 2002) e da sua ideia de misturar personagens fictícios aos reais, e fiquei bastante entusiasmada, até porque ele me contou ter acompanhado como repórter vários momentos importantes dessa história e isso me dar alguma segurança sobre o rigor da crónica.” A editora pensou que o livro se adequava perfeitamente à coleção que dirigia. Praticamente não fez alterações. A “prosa era fluente como a de uma notícia, sem rodriguinhos nem floreados” e “o tom era despretensioso, como o de uma reportagem.” O primeiro contacto de Guilherme Valente com a escrita de Rodrigues dos Santos foi mais intenso. Um dia, ao chegar à editora, tinha em cima da secretária o original de Crónicas de Guerra: “Pensei: mais um desses mediáticos a querer ser escritor… Mas aconteceu um «milagre», isto é, o improvável: deu-me para começar logo, eu próprio, a ler o texto e li, sem parar, toda a parte referente à Guerra Civil de Espanha.” Foi o começo de um sucesso avassalador que, já em 2012, atingiu o primeiro lugar do top de vendas da FNAC, em França, com a tradução de A Fórmula de Deus, um feito assinalável para um autor português. Até na Bulgária o nome de José Rodrigues dos Santos começa a ser conhecido. Daniela Atanasova, da editora Hermes Books, que publica autores como James Patterson e Daniel Silva, revela que Códex 632 e A Fórmula de Deus, cuja tradução foi apoiada pela Direcção-Geral do Livro e das Bibliotecas, tiveram uma excelente recepção quer por parte da crítica, quer por parte do público.

Para um autor publicado em mais de vinte países, com mais de um milhão e meio de exemplares vendidos só em Portugal, será que as críticas negativas são tidas em conta ou subscreve a afirmação de Sousa Tavares quando disse, em entrevista à Ler, que se encontrava confortavelmente sentado em cima de um milhão de livros vendidos? “Não subscrevo nem dessubscrevo. Por uma questão, não tenho muitas críticas negativas. Você vai ler as críticas, por exemplo, agora em França, são espantosas [nem todas, diga-se, como se pode ler aqui http://www.carozine.fr/culture-lecture/la-formule-de-dieu-jose-rodrigues-dos-santos.html]. Também já tive críticas negativas no estrangeiro. São raras. Mas nas críticas negativas no estrangeiro o crítico não me conhece de parte nenhuma e portanto eu percebo que ele não é malicioso, não é destrutivo. Ele diz que a obra tem esta falha, eu analiso e posso dar-lhe razão. O que às vezes acontece em Portugal é que há malícia porque as pessoas já me conhecem.” Das únicas duas críticas negativas que diz ter tido em Portugal só houve uma que considerou maliciosa. Foi a de Rogério Casanova, no Expresso, ao livro Fúria Divina: “Vê-se que ali não há...há uma intenção destrutiva. Pronto, tudo bem, a pessoa escreve, é livre de escrever, a constituição dá liberdade da pessoa escrever o que lhe apetece. Desvalorizo.” A crítica foi tão marcante que Guilherme Valente afirma mesmo que “somos uma cultura cheia de «casanovas»”. No outro lado do Atlântico, onde haverá menos casanovas e as pessoas não conhecem José Rodrigues dos Santos enquanto figura pública, um crítico do Washington Post disse que O Códex 632 tinha “falhas graves”, que “a informação académica não é inerentemente dramática” e que “a escrita é preguiçosa e, por vezes, pateta”. O escritor defende-se “Sim, na América foi o país em que tive mais críticas negativas do que nos outros países, em que as críticas são geralmente positivas. Essa do Washington Post dá uma no cravo e outra na ferradura. Há questões que são relacionadas com a temática em si. Quando ele diz que há informações que não são inerentemente dramáticas, não são na América, mas em Portugal são. Quando temos informações de que Colombo era um judeu português isso é informação muito interessante para um português. Acho eu. Para um não português não é particularmente interessante, mas eu escrevi aquele romance para o leitor português. Em relação à escrita em si, temos aí um problema que tem a ver com a própria tradução.”

Regressando a Portugal, vemos que os romances mais “literários” (a expressão é de Guilherme Valente) – A Filha do Capitão, A Vida Num Sopro e, especialmente, O Anjo Branco, baseado na vida do pai do escritor, um médico que viveu em Moçambique – receberam elogios da crítica. Eduardo Pitta, no Público, escreveu que a narrativa de O Anjo Branco era de “uma clareza exemplar” e que o livro “tem lugar cativo na bibliografia essencial da guerra em África.” O escritor Urbano Tavares Rodrigues afirmou que o livro, um romance “belo, profundo e inteligente”, foi “uma surpreendente e gratificante revelação.” Nada que alimente as ilusões de José Rodrigues dos Santos quanto às suas obras, que acha que não irão sobreviver: “Nem as minhas nem as de ninguém. Alguém pensa que daqui a um milhão de anos ainda se está a falar do José Saramago? Eu gostaria que o meu nome sobrevivesse durante dez milhões de anos e que toda a gente me lesse religiosamente como a Bíblia, mas isso é uma fantasia, é absurdo. Não vale a pena estar a pensar nisso. O facto é que não sabemos o que vai acontecer.” Para Guilherme Valente, que também considera O Anjo Branco “um grande livro, a vários títulos”, “claro que há para aí iluminados que, maravilhando-se com o seu próprio umbigo, decretam hoje o que irá perdurar mais na história da literatura”. Com ou sem futurologia, o trabalho dos críticos ajuda a enquadrar uma obra num determinado contexto nacional ou literário. Por isso pedimos ao crítico e escritor Miguel Real que procurasse situar o trabalho de José Rodrigues dos Santos no conjunto da literatura portuguesa [ver caixa]. O próprio Rodrigues dos Santos não se coíbe de manifestar a sua opinião sobre Equador, de Miguel Sousa Tavares: “é uma obra marcante no século XX”. Para além de ter desmontado alguns mitos editoriais (como o dos livros grandes e caros não venderem), “mostrou que os portugueses em geral estavam dissociados das suas letras. Queriam ler e não compreendiam os seus autores. A obra é incontornável porque a partir desse momento ser um autor português deixou de ser um anátema.” Margarida Rebelo Pinto não tinha já feito o mesmo? “Sim, mas não me vai comparar com o Equador, no sentido em que os romances da Margarida Rebelo Pinto se destinam a um segmento muito específico do mercado. No caso do Equador é um romance aberto a todo o mercado.” Os seus livros acabaram por beneficiar desse efeito porque o livro de Sousa Tavares “criou um novo público que começou a aceitar os autores portugueses.”

É esse novo público que garante a José Rodrigues dos Santos um sucesso contínuo e incomparável. O escritor confirma que os próximos projetos já estão em marcha, apesar de não poder revelar pormenores. Afinal, o próximo segredo, que certamente não será o último, ainda é a alma deste negócio.

22
Jan16

Maria Adelaide

Bruno Vieira Amaral

Texto inédito que ofereci à RUC:

https://www.mixcloud.com/inesrodrigues/radioteca-7/

 

E Maria Adelaide? Ah, esse caso fora um deslize indesculpável, um entusiasmo juvenil quando já tinha passado dos cinquenta, idade em que sentia o vigor, por então já episódico, como uma experiência avassaladora. Sentia-se um animal e quanto mais essa sensação violenta o dominava, mais o seu discurso amoroso se refinava, quase explodindo em expressões ameaçadoras, superlativos, adjectivos que lhe amarravam os uivos: “não vou medir as palavras: foi brutal”, “você falou de beleza interior mas a sua beleza exterior…tocou-me de uma maneira, abalou-me…você é uma mulher lindíssima, Maria Adelaide.” Maria Adelaide tinha trinta e nove anos, dois filhos adolescentes, um casamento terrível com um indivíduo indigno, várias depressões e uma tentativa de suicídio no quarto da casa de família na Barra, onde passavam férias há várias décadas. Foi aí que César a reencontrou. Lembrava-se da filha do juiz, mas nunca imaginara que se tivesse tornado nesta mulher belíssima e com a medida certa de tristeza para lhe provocar um desejo incontrolável. O juiz Souto de Almeida convidara-o para um almoço depois de se terem cruzado numa conferência sobre a reforma dos tribunais, em Águeda. Quando a viu, o efeito foi demolidor: “uma aparição, um anjo”, haveria de protestar mais tarde, justificando a loucura temporária que então o afectou. A languidez de Maria Adelaide atribuiu-a César a qualquer coisa de lúbrico, ignorando a quantidade de medicamentos que a deixavam naquele estado apático, de sorrisos atrasados, de pequenos comentários que não revelavam nem inteligência nem comedimento, antes a incapacidade de Maria Adelaide intervir atempadamente e a propósito nas conversas. César, tesudo como um cavalo, prometeu, ao fim daquele almoço decadente, que Maria Adelaide não iria sofrer mais. Ele não o permitiria. “Você tem de ser tratada como uma porcelana da China. Você é uma mulher sensível…hiper-sensível”. Cada palavra que lhe saía da boca era uma confissão de derrota, o reconhecimento da impossibilidade de traduzir para linguagem aquele torvelinho de pensamentos cavernícolas, a vontade de violar Maria Adelaide, de a foder com uma violência selvagem que a libertasse daquela languidez e a mantivesse naquele estado narcótico, que ela se viesse gritando que nem uma histérica e que logo se acalmasse subjugada pela sua masculinidade. A filha do senhor juiz, por amor de Deus! O juiz, com um vagar bovino, comia sem se dar conta da perturbação do convidado. Só a sua excelentíssima esposa, com a infalível perspicácia feminina, via através de César, as suas intenções animalescas, e aquilo afectou-lhe o estômago, como se aquele homem estivesse ali para cumprir um desígnio terrível: raptar, violar e matar-lhe a filha e, quem sabe, fazer o mesmo com ela. A tudo isto Maria Adelaide era indiferente. Habitava alturas inacessíveis. Durante horas, falou com César, fumou quase dois maços de tabaco e quanto mais César se desencontrava com palavras aveludadas que não serviam para expressar os seus tormentos, mais Maria Adelaide vogava para longe, aproveitando a ondulação da voz de César, dos seus exageros, das suas metáforas pobres, seráficas e cerâmicas, anjos e loiças, enfim, da vulgaridade irremediável de um homem escravizado pelo desejo de foder uma mulher triste. Despediram-se. Nesse Verão, César ainda ligou várias vezes para casa dos Souto de Almeida mas não voltou a falar com Maria Adelaide. Às vezes tem dúvidas sobre a realidade daquele almoço de sábado na Barra, do cheiro a velas no hálito da excelentíssima esposa do senhor juiz, dos dois labradores que o senhor juiz tinha no quintal, do olho lacrimejante do senhor juiz, do seu cabelo amarelado, dos braços langorosos da filha do senhor juiz expostos por um vestido doméstico, da maresia, das manchas verdes que cobriam a areia, do nome de Maria Adelaide.

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