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Circo da Lama

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

Circo da Lama

22
Fev17

Verão indiano (segunda parte)

Bruno Vieira Amaral

Quando saímos do palácio, mergulhámos com uma boa dose de inconsciência no caos de Hyderabad, caminhando pela rua do Laad Bazaar (o famoso mercado de braceletes), uma das quatro ruas que conduz ao Charminar. Para lá chegarmos, tivemos de atravessar a estrada, actividade que, como desporto radical, não fica a dever nada ao bungee-jumping. Se algum forasteiro tiver a peregrina ideia de aguardar que os veículos parem para que ele passe, é muito provável que, daqui por duas décadas, ainda esteja no mesmo sítio. Observando atentamente o guia, percebi que a única solução para chegar ao outro lado era a de aproveitar uma breve interrupção ou abrandamento na circulação para me meter entre os veículos, fazer o gesto universal de clemência unindo as duas mãos na direcção dos condutores ou usar um dos filipinos como escudo humano. Quando cheguei ao outro lado, senti-me um judeu após atravessar o Mar Vermelho e olhei com alguma superioridade para os elementos do grupo que tinham ficado para trás e que não tinham sido tão lestos quanto eu a descodificar os segredos essenciais à sobrevivência dos peões em Hyderabad.

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Descobri que, na rua do mercado, que de início pensei ser pedonal, também circulavam velocípedes. Obtive a informação quando uma mota passou a menos de cinco centímetros da minha pessoa, anunciando-se de forma típica com uma buzinadela que, por instantes, me desorientou. Os condutores só me pareceram inclementes até ao momento em que me vi rodeado de transeuntes implacáveis, nada sensíveis aos meus propósitos de registar para a posteridade aquela experiência e nitidamente impacientes quando eu, embasbacado com a multiplicidade de cores das lojas de roupas e joalharias, interrompia a caminhada e lhes obstruía o caminho. Por mais de uma vez, fui alvo de imprecações que, graças ao meu desconhecimento da língua local, não pude apreciar em toda a plenitude.

Para piorar tudo, a rua estava em obras. A certa altura, deparei-me com um homem enfiado num buraco, rodeado por outros quatro ou cinco. Não percebi se estavam a reparar uma conduta ou se estavam a tentar resgatá-lo. Para onde quer que me virasse, via qualquer coisa invulgar. Era impossível traduzir com exactidão tudo aquilo recorrendo unicamente aos utensílios rudimentares da minha pouca experiência noutros países. Em vez disso, deixei-me simplesmente arrastar, caminhando pela multidão ao mesmo ritmo dos autóctones mas sem fazer a mínima ideia do meu destino, perdendo por vezes de vista os outros elementos do grupo, mantendo como único ponto de referência o velho guia que, sem nada que o distinguisse, sem nenhum objecto que o identificasse, lá ia levantando misericordiosamente o braço na esperança de que o reconhecêssemos para que nenhum dos convidados do Festival Literário de Hyderabad fosse encontrado semanas depois a regatear braceletes ou transformado em estátua viva à espera de atravessar a rua.  

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O Charminar (que quer dizer “quatro torres”) também estava em obras de restauro, engalanado com aqueles andaimes arcaicos aparentemente feitos de canas, pelo que optámos por ficar em baixo a observá-lo muito respeitosamente, declinando a oportunidade de escalar os 149 degraus que levam o visitante ao topo do edifício, enquanto o guia nos explicava que o monumento tinha sido mandado construir pelo fundador da cidade, o sultão Muhammad Quli Qutb Shah, em 1591. Com a cidade a ser dizimada pela peste, o Sultão prometeu a Alá que, se levasse a morte para outras paragens, permitindo o crescimento de Hyderabad, ele construiria o monumento em Sua homenagem. E foi isso que aconteceu. A peste foi dizimar para outras freguesias e Hyderabad, na altura um centro populacional relativamente modesto, cresceu até ser o que é hoje: uma megalópole de 7 milhões de almas e nunca menos de 93626 rickshaws, segundo os dados oficiais.

Incrivelmente, e apesar de termos andado em grupos separados, conseguimos regressar todos ao autocarro e, depois de uma nova viagem pelas ruas da cidade em hora de ponta, chegar a tempo do jantar que decorreu num relvado a poucos metros do hotel. Novo embate com a gastronomia explosiva de Hyderabad, do qual saí outra vez derrotado, e conversa de chacha com dois designers alemães e uma poeta australiana cuja tese de doutoramento a tinha levado ao Bangladesh para um trabalho sobre as vidas de uma “closeted lesbian”, de uma “transgender woman”, de uma “unhappy housewife” e de uma “ruthless businesswoman” (esta inventei), o equivalente a um “four of a kind” em estudos de género ou, melhor dizendo, “four of a different kind”. Foi apenas um aperitivo para o jogo dos dias seguintes em que ganha quem grita mais alto contra: a) a sociedade patriarcal, b) o Ocidente, c) o Cristianismo, d) o Homem Branco, e) a polícia, f) a Direita, g) o Capitalismo, h) a conspiração branca. Mais preocupado com as prováveis e previsivelmente dolorosas consequências gastro-intestinais do consumo de comida picante, fiquei feliz por descobrir que o iogurte ajuda a amenizar os efeitos dos condimentos. E, com esta informação na cabeça, regressei ao hotel.

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Nessa noite, pensei em tudo o que tinha visto naquela cidade e percebi que, pela primeira vez na minha vida, estava no estrangeiro. Os países que já tinha visitado – todos europeus – com as idênticas ruas racionais, as mesmas lojas, a mesma disposição de elementos só ligeiramente diferentes entre si (em Budapeste temos a estátua de Petöfi e em Lisboa a de Camões), apareceram-me como encarnações de uma mesma ideia. Agora, atormentado pelo barulho infernal e incessante das buzinas que abafam até as sirenes das ambulâncias, aquele mundo ordeiro e previsível das cidades europeias surgiu-me como uma realidade tristíssima, desumana e morta, um museu a céu aberto destinado a turistas e coleccionadores de antiguidades. Enquanto as cidades europeias estão cheias de coisas antigas, ali abarrotavam de coisas velhas e, paradoxalmente, modernas. As antiguidades europeias estão arrumadas, catalogadas, embebidas em formol, enquanto aqui as velharias estão vivas, escapam aos rótulos e amanhã podem já não estar no sítio onde hoje as encontrámos. Não sabemos se pertencem ali ou se, como nós, estão apenas de passagem. Na ânsia de preservar, nós, europeus, sufocamos tudo como pais zelosos que apertam os filhos até à asfixia. Os filhos da Índia, toda a Índia – o comércio, os carros, os prédios, até os monumentos – são vagabundos. Não querem ser preservados. Querem respirar.

Na verdade, nunca tinha sentido uma cidade viva, a resfolegar como um cavalo indomável. Ali tudo era velho e improvisado, o que nos pareciam ruínas podiam ser prédios inacabados atravessados por um cheiro a açafrão e a caril, a frutas e a fritos e ao peixe cozinhado em enormes panelas a fumegar no meio da rua; os mesmos letreiros tanto serviam para anunciar hospitais e clínicas como para sinalizar lojas de braceletes e saris, restaurantes low-cost e oficinas; havia homens deitados em camionetas e sentados em cadeiras no meio da rua, entre o trânsito, como se estivessem à espera de ser recolhidos, homens a mijar para montes de entulho, outros a cortar cocos com catanas, motos com três e quatro passageiros, cabras vadias a trincar ervas e a focinhar no lixo debaixo de um viaduto de onde se via, ao longe, um sossegado campo de cricket onde treinavam algumas crianças de equipamentos alvíssimos, edifícios modernos lado a lado com outros de idade incerta, numa anarquia tão repleta de vida como uma feira medieval com eletricidade, internet sem fios e smartphones.

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Eis a cidade em constante mutação num país em que a economia informal anda perto dos 80%, o que faz com que tudo tenha um aspecto provisório, clandestino e desmontável, ou seja, tudo aquilo que é fugaz se sobrepõe ao que é permanente, como o palácio de Chowmahalla, escondido como um oásis, um templo secreto a que só os iniciados podem aceder e que os outros ignoram como se não existisse, como se fosse uma miragem. Por uma entrada discreta, fomos postos a salvo dessa confusão que atrai e repugna, que nos assusta, que nos faz temer pela sanidade daquelas pessoas, como se fosse impensável viver diariamente debaixo daquela agitação, como se vivessem habitualmente com o misto de desconforto e entorpecimento que eu experimentava pela primeira vez, como quando estamos numa daquelas diversões de feira de alta velocidade e desejamos que pare, porque não aguentamos mais, e desejamos que prossiga, porque sabemos que não vai parar por causa de nós.

Um livro, que comprei dias depois, intitulado Indian Cities, ajudou-me a perceber melhor a realidade que me era tão difícil descrever e entender sem recorrer aos equivalentes europeus que, porém, nunca lhe poderiam fazer justiça. “For decades, cities in poor countries have been regarded as a kind of misfit representation of the real city and their modernity, a kind of inauthentic, borrowed modernity. With so many poor people, slums and squatter settlements, lack of rules regarding land use, chaotic and disorderly growth, their existence and future have always been questioned by experts and contrasted to the proper cities or the well-planned and managed cities of the West.”

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A dificuldade em avaliar estas cidades de acordo com os seus peculiares critérios – dificuldade enfrentada até por quem estuda a sério estes assuntos – deu origem à criação de um conceito mais abrangente, o de “modernidade alternativa” ou de “modernidade indígena”, que me surgiu como perfeitamente adequado àquela realidade porque os conceitos de “atraso” ou de “sub-desenvolvimento” eram bisturis rombos para esquadrinhar aquele mundo tão complexo e que nunca, para ser completamente sincero, me pareceu “atrasado”. Outra ideia no livro que me ajudou a dar corpo de palavra aos meus pensamentos foi a de “cidade cinética”, “or the city of impermanence and temporary structures.” […] “While standard writing can cover the static city or the city of the established built environment, it is more difficult to capture the realities of the kinetic city.” Tentar captar em palavras uma cidade como Hyderabad era, acabei por perceber, como tentar prender uma sombra esquiva.

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