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Circo da Lama

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

Circo da Lama

17
Jul17

Ulisses e uma tradição antiga

Bruno Vieira Amaral

“As that reference to Tristram Shandy indicates, one of the traditions which Ulysses inhabits is the literary Saturnalian tradition, the home of the unruly, eccentric, learned, comic and satiric works of literature. These are pedantic and anti-pedantic, replete with learning while mocking learning; now they lure us into their fictional worlds, and now they alert us to their fictionality. A Saturnalia was a riotous festival in which slaves and masters changed places; and this literary tradition has qualities of exuberant deliberate disorder, invoking boundaries and anarchically transgressing them. Like a rebellious servant, the author or narrator may be self-revealing instead of being self-effacing, and may expose the devices which are normally concealed, making deliberate breaches of generic and structural decorum. Conventions may be exploited, extended, and exposed as conventions; modes of discourse may jostle on parade; and language may perform acrobatics. Elaborate erudition is often combined with farcical, bawdy and indecent humour, corporeal grossness mocks pedantic solemnity, and apparent piety may be counterpointed by modes of irreverence or scepticism. The Saturnalian tradition is well over 2,400 old, extends through postmodernism to the present day, and is likely to continue for many years to come.”

Cedric Watts

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16
Jul17

A casa e o corpo de Clara

Bruno Vieira Amaral

Há, em Aquarius, dois momentos em que Clara, a personagem de Sónia Braga, se liberta: no mar, mergulhando nas ondas de uma praia do Recife, e em casa, numa dança solitária após uma fracassada tentativa de sexo com um amante que a rejeita ao saber que, por causa de um cancro, Clara tirou a mama direita.

Não é com os filhos, com quem alterna a ternura com a impiedade, nem com as amigas, naquela espécie de riso para espantar os fantasmas que é apenas um biombo que oculta as tristezas, nem com o prostituto que lhe oferece prazer sem sentimento e sem culpa, nem sequer nas discussões com os maus da fita, os homens que lhe querem ficar com a casa, que ela se liberta. É na solidão, na companhia dos elementos primordiais da sua vida: o mar (o filme começa com uma cena noturna na praia), a música (em certos momentos o filme, mais do que pelo enredo, parece ser sustentado pelas canções que o atravessam), o vinho, a casa. Destes elementos, só a água é verdadeiramente primordial, mas a música também é ar e o vinho também é fogo e sangue e a casa também é terra e corpo.

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O filme de Kléber Mendonça Filho pega num tópico arquetípico do western – o indivíduo que vê a sua propriedade cobiçada por alguém mais poderoso – e transforma-o na luta de Clara pela sua casa, pelo seu corpo. É que, neste caso, o apego à casa não se justifica nem pelo valor da propriedade, nem, ao contrário do que Clara diz aos filhos (eles nasceram e foram criados naquela casa), pelo valor sentimental. Ao defender a sua casa, Clara está a defender o seu corpo, esse corpo mutilado do qual ela já abdicou o que tinha de abdicar. Não está disposta a fazer outras cedências.

Nenhuma das agressões que Clara sofre, e sofre várias ao longo do filme, é contra o seu corpo – ninguém lhe bate, ninguém a viola, ninguém abusa dela – mas todos os ataques de que é vítima, todas as ameaças que lhe fazem são, numa dimensão profunda, físicos porque se dirigem à sua vulnerabilidade, ao facto de ser mulher: o amante que a rejeita, o ex-vizinho que a ameaça, o proprietário dos outros apartamentos do edifício que lhe lembra que aquele não é um lugar seguro para uma mulher sozinha. É como um cerco que se vai apertando e que, paradoxalmente, empurra Clara para o único lugar onde ela está a salvo e que ela sabe como defender. A casa, aqui, é o lugar da mulher mas não naquele sentido da expressão “o lugar da mulher é em casa”. O sentido da casa é o de um território do qual a mulher se recusa a ser expulsa e que ela defende com energia e com aquela espécie de fúria justiceira ampliada pelo medo.

No final, quando Clara se vinga, a violência com que o faz é mais simbólica mas não deixa de ser física. Estabelece uma fronteira, um limiar que não pode ser cruzado sem autorização. Veja-se também como, numa cena inicial, Clara deixa os inimigos à entrada, afirmando-se senhora da sua casa e, metaforicamente, do seu corpo: esta é a minha casa, feita de cimento, este é o meu corpo, feito de sangue, mas também, ambos, feitos de música, de vinho, de mar. O corpo de Clara é o mundo de Clara e ela não os quer perder.

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