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Circo da Lama

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

Circo da Lama

29
Ago17

Hiroshima, meu amor

Bruno Vieira Amaral

Há dias, passei em frente da casa de uma antiga colega da escola secundária. Presumo que já não viva ali. Há uns anos, vi pendurada numa janela uma dessas placas das imobiliárias. Era uma rapariga tímida, timidez que, porém, só consumia uma parte do seu encanto. Éramos próximos, mas não íntimos. Uma vez, já perdi a conta aos anos, convidei-a para irmos ao cinema. Hiroshima, meu amor. Nunca beijei esta rapariga, nunca fizemos amor, nunca nada. Mas eu vi no olhar dela, à saída da sala, aquele brilho baço que só desce sobre as mulheres depois de um orgasmo. Estava perturbada, isso sei, e penso que me perguntou porque é que a tinha convidado para ver aquele filme. Porquê? Queria que ela me amasse? Não sei. Queria marcá-la, queria que o corpo dela estremecesse e os pensamentos explodissem e o coração batesse à velocidade do cinema, vinte e quatro batimentos por segundo, e queria que ela, por muitos homens que viesse a conhecer, nunca mais esquecesse aquela noite. E, afinal, tantos anos depois, a única certeza é a de que eu não me esqueci. Tudo é vaidade.

28
Ago17

A vida ao ritmo das redes sociais

Bruno Vieira Amaral

A presidente da CIG afirmou que a decisão de recomendar a retirada dos livros da Porto Editora do mercado foi uma resposta ao clamor nas redes sociais: “nós recomendámos tendo em conta a polémica que estava nas redes sociais […] recomendámos à Porto Editora que pudesse retirá-los para apaziguar de alguma forma os ânimos e permitir com alguma serenidade olhar para os conteúdos”. Ou seja, primeiro recomenda-se a suspensão da venda e depois é que se vai olhar com alguma serenidade para os conteúdos. Teresa Fragoso nem sequer precisava de dizer que foram as redes sociais a impor uma decisão rápida, mas, ao mesmo tempo, procurou demonstrar quão perniciosas eram as diferenças entre os livros escolhendo os exemplos mais convenientes, fazendo o que se chama cherry picking. Ricardo Araújo Pereira fez o exercício contrário e demonstrou o que já sabíamos: o clamor nas redes sociais é, quase sempre, o ruído da ignorância, quando não da má-fé. Os indignados querem indignar-se e não admitem que os factos sirvam de corta-fogo aos incêndios virtuais. Houve quem exigisse saber o nome dos autores dos livros, certamente com propósitos pedagógicos de humilhar, insultar e ofender, mas provando que nem sequer tinham visto os tais blocos de actividades, não que isso interesse muito quando a indignação, como os incêndios de Verão, já está descontrolada e tem várias frentes activas. A Porto Editora, também atordoada, foi lesta a anunciar a retirada dos livros do mercado, sempre ao ritmo imposto pelas redes sociais. Agora parece que mudou de estratégia, mas, quanto a mim, o mal estava feito: a obediência imediata teve o cheiro da capitulação ou, ainda pior, da minimização de danos, expressão corriqueira nos departamentos de comunicação das empresas sempre que as chamas das redes sociais lhes chegam às portas. Como era de esperar, aquele momento didáctico de Ricardo Araújo Pereira teve já uma grande repercussão, mas nem isso foi suficiente para aplacar a fúria justiceira de alguns. “Está bem, o caso não é assim tão grave, mas a luta pela igualdade de direitos é justa e isso é que interessa”, dizem, e siga para bingo. Logo após estalar a polémica, o pediatra Mário Cordeiro deu uma entrevista ao Expresso em que dizia não estar de acordo com a recomendação e sustentava a sua opinião. Respostas de alguns indignados: é faccioso, deve ter interesses obscuros para ser tão parcial, não gosto da pinta dele. Porém, aquilo que na minha opinião é mais grave é constatar a facilidade com que milhares de pessoas aceitaram a bondade de uma recomendação para a retirada de um livro do mercado. Dou de barato a ignorância em relação ao conteúdo dos livros. Afinal, ninguém frequenta as redes sociais à espera de encontrar opiniões fundamentadas e que resultem de uma análise aprofundada dos factos. Mas é preocupante que uma tal recomendação encontre semelhante acolhimento numa sociedade. Recomendar a retirada de um livro do mercado (aos que, em defesa da CIG, dizem que não é uma proibição mas uma simples recomendação, realçando a bondade das intenções da comissão, lembro que, felizmente, esta não tem poderes para decretar a proibição de um livro, mas é claro que se tivesse, isso também não perturbaria muita gente) é uma decisão grave que não pode ser tomada num clima definido pela excitação das redes sociais. Poderia até ser justa (e já se provou que não é), mas isso dificilmente aconteceria quando a presidente da comissão admite que o ruído das redes teve um peso decisivo na recomendação. Estas indignações são cíclicas e de curta duração, mas, enquanto duram, criam a ilusão de ocupar todo o espaço mediático disponível. É assim o tempo das redes sociais, mas não pode ser esse o tempo de um comissão como a CIG, por uma vez transformada em tribunal instantâneo das boas práticas editoriais. A CIG solicitou pareceres independentes para fundamentar a decisão? Em que consistiu a “avaliação técnica” que diz ter feito? Ouviu a editora? Ouviu os autores? Fez uma análise de outras publicações equiparáveis? Não fez porque esse processo requer tempo e quando o tempo é fixado pelas redes sociais nunca há tempo. Não se pode “pedir às redes sociais” que respirem fundo, reflictam e só depois se pronunciem. Mas isso é o mínimo que se pode exigir a um organismo público que recomenda, com certa leveza de espírito, que um livro seja retirado dos pontos de venda.

16
Ago17

Detestava o desleixo

Bruno Vieira Amaral

“Jelisic começava por recolher o dinheiro, os relógios e as jóias dos detidos. Não raro, batia-lhes. Fazia isto diante da namorada, Monika, que às vezes visitava o campo porque era o irmão quem o chefiava. Em seguida, os prisioneiros eram obrigados a sair do hangar, um a um. Jelisic ordenava a um homem que se ajoelhasse e encostasse a cabeça a uma grelha metálica de escoamento. Depois matava-o com dois tiros na nuca, usando uma pistola com silenciador. Durante um ou dois minutos antes da execução, o homem escolhido implorava que lhe poupasse a vida. “Não me faça isso. Porquê eu? Não fiz nada.” Mas não adiantava. Antes de o matar, Jelisic insultava a mãe do prisioneiro. Na verdade, quanto mais medo este demonstrava, maior o prazer do algoz. A seguir, dois prisioneiros transportavam o corpo para um camião-frigorífico utilizado para levar os cadáveres para uma vala comum e Jelisic mandava lavar a grelha. Detestava o desleixo.”

Não Faziam Mal a Uma Mosca, Slavenka Drakulic

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 Goran Jelisic executa um prisioneiro a 7 de Maio de 1992

11
Ago17

Barbosa e os guarda-redes negros

Bruno Vieira Amaral

Há 23 anos que a equipa principal do Benfica não apresentava um guarda-redes negro. O jovem Bruno Varela sucede a Neno, o último negro a defender a baliza do Benfica. Pode ser uma simples curiosidade de almanaque, mas a verdade é que fazer um onze do Benfica dos últimos 23 anos só com jogadores negros é relativamente fácil. O grande problema é mesmo encontrar um nº 1. Vejamos: na defesa teríamos Luisão, Alcides, Okunowo, Zoro, Edcarlos, Nelson, Nelson Semedo, Sidnei, Miguel, Hélder, José Soares, Eliseu, Armando; no meio-campo, Michael Thomas, Manuel Fernandes, Binya, Sabry, Balboa, Amaral, Carlitos, Edilson, Ramires, Talisca; no ataque, Mantorras, Geovanni, Makukula, Javier Balboa, Suazo, Manú, Brian Deane. Suficiente para constituir um plantel. Só falta o guarda-redes, que não poderia ser nenhum destes: Júlio César, Quim, Ederson, Robert Enke, Paulo Lopes, Moreira, Oblak, Roberto, Butt, Artur, Júlio César, Mika, Eduardo, Paulo Santos, Moretto, Rui Nereu, Preud’Homme e Bossio.

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Bem, mas Varela é apenas pretexto para falar de Moacir Barbosa Nascimento, guarda-redes do escrete no Mundial de 1950 perdido no Maracanã para o Uruguai de Ghiggia. Ora, o pobre Barbosa era negro e, por esse motivo ou simplesmente porque o guarda-redes é sempre o alvo mais fácil, foi o bode expiatório da enorme decepção brasileira. Reza a lenda que os pais apontavam Barbosa e diziam aos filhos que aquele era o homem que tinha feito o Brasil chorar. O próprio Barbosa dizia que era o único brasileiro que tinha cumprido uma pena superior a 30 anos.

Em 1994, no Mundial dos EUA, uma equipa de televisão levou o velho Barbosa para falar com Cláudio Taffarel, o loiro que defendia as redes do escrete. Temendo que Barbosa contaminasse o alto astral da equipa, o supersticioso Mário Zagallo, então adjunto de Carlos Alberto Parreira, terá dado ordens para manterem o ex-goleiro bem longe dos jogadores. Nesse ano, o Brasil foi campeão, mas só doze anos depois é que um negro voltou a ser o guarda-redes titular indiscutível da selecção brasileira num Mundial. Dida, que jogava no Milan, quebrou a maldição e, de então para cá, houve vários guarda-redes negros brasileiros em destaque no futebol internacional, como Helton ou Heurelho Gomes.

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Essa reabilitação do guarda-redes negro não impediu que, até ao fim da vida, Barbosa continuasse a ser a cara da célebre derrota. Morreu em 2000, dizem que de tristeza prolongada. A filha adoptiva, Tereza Borba, lembra que no dia do jogo com o Uruguai os vizinhos de Barbosa tinham preparado um banquete na rua. Quando regressou a casa, Barbosa encontrou a mesa posta e farta, a imagem paradoxal da desolação: “nem os cachorros atacaram a mesa. Parecia que o mundo tinha parado. Isso ficou marcado na memória dele: uma mesa abastada para um banquete enorme e ninguém quis comer.”

Barbosa só foi vingado com o Mineiraço do mundial de 2014, os 7-1 com que a Alemanha dizimou o Brasil na meia-final. Foi preciso uma humilhação olímpica para que o Brasil perdoasse o guarda-redes de 1950. Na baliza do escrete, nessa terrível noite de Belo Horizonte, estava o actual guarda-redes do Benfica, Júlio César. Ainda é cedo para dizer se Bruno Varela será o titular do Benfica esta época, mas deixo-lhe o conselho de se manter afastado do Maracanã. É que uma das piores noites da carreira de Neno foi no mítico estádio do Rio de Janeiro, numa das poucas ocasiões em que defendeu a baliza da selecção portuguesa. Foi a 8 de Junho de 1989 e Portugal perdeu por 4-0. Naquela noite, foi ele o Barbosa.

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01
Ago17

Uma intelectual de direita

Bruno Vieira Amaral

“P. Sendo a figura cultural que é, como é que reage à circunstância de a maioria esmagadora dos intelectuais portugueses terem neste momento, uma opção eleitoral tão diferente da sua [Agustina apoiava a candidatura de Freitas do Amaral nas Presidenciais de 1986]?

R. Aqueles que se podem aproximar da minha área, não profunda, mas, pelo menos, superficialmente, serão pessoas um pouco saudosistas, um pouco situadas no regime anterior. Não as ignoro, são pessoas perfeitamente respeitáveis. Mas, hoje, depois da II Guerra Mundial, tornou-se uma espécie de marca, de ferrete não ser uma pessoa de esquerda. Basta o nome para as pessoas ficarem um pouco tranquilizadas. Evita-lhes muitas complicações. E as pessoas, mais ou menos, estão todas dependentes umas das outras. Ou, pelos seus empregos, ou pelos seus lugares, ou pelas suas necessidades de se orientarem na vida, sobretudo, depois dos 30 anos. Às pessoas que, como dizia o poeta Heine, já compraram o seu serviço de chá, de porcelana, é muito difícil evitar estilhaçar ou perder a asa de uma chávena… Sobretudo, no campo da política, a pessoa começa a dizer «ele é fascista» ou «se ele pensa desta maneira é porque é fascista e é porque, nesse caso, já teria apoiado os campos de concentração, e, nesse caso, até já teria sido, possivelmente, um dos que aplaudiram os discursos do Hitler». E coisas assim. A imaginação não pára mais e as pessoas, a certa altura, estão perfeitamente paralisadas de terror. É um novo terrorismo.”

Agustina por Agustina entrevista conduzida por Artur Portela

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