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Circo da Lama

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

Circo da Lama

16
Ago17

Detestava o desleixo

Bruno Vieira Amaral

“Jelisic começava por recolher o dinheiro, os relógios e as jóias dos detidos. Não raro, batia-lhes. Fazia isto diante da namorada, Monika, que às vezes visitava o campo porque era o irmão quem o chefiava. Em seguida, os prisioneiros eram obrigados a sair do hangar, um a um. Jelisic ordenava a um homem que se ajoelhasse e encostasse a cabeça a uma grelha metálica de escoamento. Depois matava-o com dois tiros na nuca, usando uma pistola com silenciador. Durante um ou dois minutos antes da execução, o homem escolhido implorava que lhe poupasse a vida. “Não me faça isso. Porquê eu? Não fiz nada.” Mas não adiantava. Antes de o matar, Jelisic insultava a mãe do prisioneiro. Na verdade, quanto mais medo este demonstrava, maior o prazer do algoz. A seguir, dois prisioneiros transportavam o corpo para um camião-frigorífico utilizado para levar os cadáveres para uma vala comum e Jelisic mandava lavar a grelha. Detestava o desleixo.”

Não Faziam Mal a Uma Mosca, Slavenka Drakulic

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 Goran Jelisic executa um prisioneiro a 7 de Maio de 1992

11
Ago17

Barbosa e os guarda-redes negros

Bruno Vieira Amaral

Há 23 anos que a equipa principal do Benfica não apresentava um guarda-redes negro. O jovem Bruno Varela sucede a Neno, o último negro a defender a baliza do Benfica. Pode ser uma simples curiosidade de almanaque, mas a verdade é que fazer um onze do Benfica dos últimos 23 anos só com jogadores negros é relativamente fácil. O grande problema é mesmo encontrar um nº 1. Vejamos: na defesa teríamos Luisão, Alcides, Okunowo, Zoro, Edcarlos, Nelson, Nelson Semedo, Sidnei, Miguel, Hélder, José Soares, Eliseu, Armando; no meio-campo, Michael Thomas, Manuel Fernandes, Binya, Sabry, Balboa, Amaral, Carlitos, Edilson, Ramires, Talisca; no ataque, Mantorras, Geovanni, Makukula, Javier Balboa, Suazo, Manú, Brian Deane. Suficiente para constituir um plantel. Só falta o guarda-redes, que não poderia ser nenhum destes: Júlio César, Quim, Ederson, Robert Enke, Paulo Lopes, Moreira, Oblak, Roberto, Butt, Artur, Júlio César, Mika, Eduardo, Paulo Santos, Moretto, Rui Nereu, Preud’Homme e Bossio.

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Bem, mas Varela é apenas pretexto para falar de Moacir Barbosa Nascimento, guarda-redes do escrete no Mundial de 1950 perdido no Maracanã para o Uruguai de Ghiggia. Ora, o pobre Barbosa era negro e, por esse motivo ou simplesmente porque o guarda-redes é sempre o alvo mais fácil, foi o bode expiatório da enorme decepção brasileira. Reza a lenda que os pais apontavam Barbosa e diziam aos filhos que aquele era o homem que tinha feito o Brasil chorar. O próprio Barbosa dizia que era o único brasileiro que tinha cumprido uma pena superior a 30 anos.

Em 1994, no Mundial dos EUA, uma equipa de televisão levou o velho Barbosa para falar com Cláudio Taffarel, o loiro que defendia as redes do escrete. Temendo que Barbosa contaminasse o alto astral da equipa, o supersticioso Mário Zagallo, então adjunto de Carlos Alberto Parreira, terá dado ordens para manterem o ex-goleiro bem longe dos jogadores. Nesse ano, o Brasil foi campeão, mas só doze anos depois é que um negro voltou a ser o guarda-redes titular indiscutível da selecção brasileira num Mundial. Dida, que jogava no Milan, quebrou a maldição e, de então para cá, houve vários guarda-redes negros brasileiros em destaque no futebol internacional, como Helton ou Heurelho Gomes.

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Essa reabilitação do guarda-redes negro não impediu que, até ao fim da vida, Barbosa continuasse a ser a cara da célebre derrota. Morreu em 2000, dizem que de tristeza prolongada. A filha adoptiva, Tereza Borba, lembra que no dia do jogo com o Uruguai os vizinhos de Barbosa tinham preparado um banquete na rua. Quando regressou a casa, Barbosa encontrou a mesa posta e farta, a imagem paradoxal da desolação: “nem os cachorros atacaram a mesa. Parecia que o mundo tinha parado. Isso ficou marcado na memória dele: uma mesa abastada para um banquete enorme e ninguém quis comer.”

Barbosa só foi vingado com o Mineiraço do mundial de 2014, os 7-1 com que a Alemanha dizimou o Brasil na meia-final. Foi preciso uma humilhação olímpica para que o Brasil perdoasse o guarda-redes de 1950. Na baliza do escrete, nessa terrível noite de Belo Horizonte, estava o actual guarda-redes do Benfica, Júlio César. Ainda é cedo para dizer se Bruno Varela será o titular do Benfica esta época, mas deixo-lhe o conselho de se manter afastado do Maracanã. É que uma das piores noites da carreira de Neno foi no mítico estádio do Rio de Janeiro, numa das poucas ocasiões em que defendeu a baliza da selecção portuguesa. Foi a 8 de Junho de 1989 e Portugal perdeu por 4-0. Naquela noite, foi ele o Barbosa.

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01
Ago17

Uma intelectual de direita

Bruno Vieira Amaral

“P. Sendo a figura cultural que é, como é que reage à circunstância de a maioria esmagadora dos intelectuais portugueses terem neste momento, uma opção eleitoral tão diferente da sua [Agustina apoiava a candidatura de Freitas do Amaral nas Presidenciais de 1986]?

R. Aqueles que se podem aproximar da minha área, não profunda, mas, pelo menos, superficialmente, serão pessoas um pouco saudosistas, um pouco situadas no regime anterior. Não as ignoro, são pessoas perfeitamente respeitáveis. Mas, hoje, depois da II Guerra Mundial, tornou-se uma espécie de marca, de ferrete não ser uma pessoa de esquerda. Basta o nome para as pessoas ficarem um pouco tranquilizadas. Evita-lhes muitas complicações. E as pessoas, mais ou menos, estão todas dependentes umas das outras. Ou, pelos seus empregos, ou pelos seus lugares, ou pelas suas necessidades de se orientarem na vida, sobretudo, depois dos 30 anos. Às pessoas que, como dizia o poeta Heine, já compraram o seu serviço de chá, de porcelana, é muito difícil evitar estilhaçar ou perder a asa de uma chávena… Sobretudo, no campo da política, a pessoa começa a dizer «ele é fascista» ou «se ele pensa desta maneira é porque é fascista e é porque, nesse caso, já teria apoiado os campos de concentração, e, nesse caso, até já teria sido, possivelmente, um dos que aplaudiram os discursos do Hitler». E coisas assim. A imaginação não pára mais e as pessoas, a certa altura, estão perfeitamente paralisadas de terror. É um novo terrorismo.”

Agustina por Agustina entrevista conduzida por Artur Portela

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