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Circo da Lama

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

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Circo da Lama

24
Abr09

Crime na Universidade de Lovaina

Bruno Vieira Amaral

Can you not give it to me?
Do not be ashamed – I do not mind if it is small.

 

Sylvia Plath – Ariel

 

 

Não comece a pensar coisas. O verso em epígrafe quererá dizer alguma coisa mas nada que interesse para a história que vou contar. Gente dos blogues adora expor obscenidades de poetas anglo-saxónicos em epígrafe. Você entra no blogue e já está a levar com uma ejaculação de Pound na cara. Nesta história, que está num blogue mas não é um, você leva com Plath, não confundir com Paltrow. Adiante. A história é policial e tem mais de um capítulo. Começa assim:

 

Subitamente, Vanenburg lembrou-se: “Kundera!”. Correu para a sala, evitando as quinquilharias e as pilhas de livros de Sidney Sheldon, e gritou: “Kundera! A resposta é Kundera”. O dr. Eufrázio olhou-o com espanto. Kundera, como é que nunca tinha pensado nisso. Refez os acontecimentos: às 15:45 do dia 26 de Novembro Carly Simon, assistente estagiária na Universidade de Lovaina, foi encontrada morta no apartamento da Rue des Flutes. Overdose de Kierkegaard, a causa provável. O alerta foi dado pela empregada de limpeza, Sueli Morton de Oliveira, uma autoridade em Filosofia Medieval, que vinha todas as terças e sextas.

O inspector Klaus Augenthaler, especialista em Criminologia e a acabar uma pós-graduação em Literatura Austro-húngara, ficou perplexo: “O tom azulado da pele e uma edição barata de Temor e Tremor; não há dúvidas: overdose de Kierkegaard.” Em menos de uma semana era o terceiro caso fatal. Alguém andava a lixar os leitores belgas. Kierkegaard mal traduzido é normalmente fatal. Após uma breve análise, o criminólogo detectou vestígios de Nietzsche. “Cá está! Traduzem Kierkegaard e, para render, acrescentam um parágrafo de Nietzsche, uma frase de Feuerbach, uma vírgula sabe-se lá de quem!” O assistente, Guimarães Rosa Filho, ouvia com atenção o inspector. Aquele não era um cenário bonito. Guimarães Rosa Filho nunca pensou que conheceria o mundo sórdido da tradução: livros, mulheres de óculos, gongorismo, linguística. Saíram para interrogar Ademir Van Damme. Arraia-miúda. Tinha feito umas traduções de autores croatas, nada mais. Mas conhecia bem o meio.
- Não sei de nada – disse Van Damme e sorriu enigmaticamente.
- Não nos faças perder tempo. Sabes bem que há poucas pessoas capazes de traduzir Kierkegaard e acrescentar-lhe duas linhas de um artigo de Homero Serpa. – disse Augenthaler. A história do Homero Serpa era mentira mas era uma técnica antiga do inspector.
- É verdade. Há um tipo que costuma esconder filósofos do século XIX na edição de Domingo d’ “A Bola”.
- Filho da mãe! – vociferou Augenthaler pontapeando uma coisa que soube mais tarde ser a perna de Guimarães Rosa Filho – Esta gente é capaz de tudo. Bem, Ademir, estou capaz de te oferecer uma edição de bolso dos Aforismos de Schopenhauer. Ouvi dizer que já não consegues ler nada na íntegra.
- Sabe como é que é, Inspector. Chega uma altura em que tudo o que seja mais do que uma citação dá cabo do sistema nervoso.
- Ah, e preciso da morada dele.
- A morada, não sei. Mas sei onde é que o podem encontrar.


Claro. À porta do Liceu Francês. Augenthaler já tinha ouvido falar de uns tipos sem escrúpulos que aliciavam os miúdos com primeiras edições falsificadas. Há menos de um mês, tinham encontrado um rapaz de quinze anos – uma criança, por amor de Deus! – numa valeta. Ao lado, uma edição de “Ulisses” assinada pelo autor, um tal de James Jones. Os miúdos não ligavam a esses pormenores. Mal sabiam eles que o monólogo de Molly Bloom só pode ser lido duas horas depois da refeição. Não. Ávidos de sabedoria, morriam ingloriamente. O que será de uma cidade em que os adolescentes matam e morrem por umas linhas de grande literatura universal? Augenthaler e Guimarães Rosa Filho chegaram sem dar nas vistas. Acontece que estacionaram em cima de uma velhota. A multidão quase que os linchou. No meio da confusão, Augenthaler viu alguém que lhe fez gelar o sangue. Ao lado do homem que procuravam estava Sueli Morton de Oliveira. O caso era ainda mais estranho do que julgavam. Que outras revelações iriam ser reveladas? (no próximo capítulo, Sueli Morton de Oliveira despe-se em exclusivo para os leitores deste blogue).
 

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