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"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

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Circo da Lama

16
Mai09

Na boca do lobo

Bruno Vieira Amaral

 

 

Publicado no i

 

 

 

Louis-Ferdinand Céline (1894-1961) continua a ser um nome controverso na história da literatura do séc. XX. Formado em Medicina, conquistou a celebridade literária com o primeiro romance (Viagem ao Fim da Noite, 1932), uma obra em que a sua experiência pessoal durante a I Guerra e nos anos seguintes foi transferida para o narrador, o seu alter-ego Ferdinand Bardamu. Escrito num estilo próximo da oralidade, inovando no recurso ao calão e a neologismos, o livro teve a bênção simultânea da crítica e do público. O segundo romance, Morte a Crédito, publicado em 1936, não teve o mesmo sucesso. Mas foram os panfletos anti-semitas e a colaboração com a Alemanha nazi que lançaram sobre Céline o anátema de escritor maldito que perdura até hoje.

 

Em 1944, a libertação da França pelas tropas aliadas obrigou-o a procurar refúgio na Alemanha. 2ª parte de uma trilogia que inclui os romances Castelos Perigosos e Rigodon, Norte é o relato dessa viagem ao fim da noite alemã. Acompanhado pela mulher, pelo gato e por um amigo, Céline relata sem ilusões a sua condição de refugiado e de colaboracionista. A traição à pátria obriga-o a partilhar o destino de uma Alemanha derrotada sem o consolo moral de ser alemão: “Somos malditos em toda a parte”; “só queriam uma coisa, ver-se livres de nós”. Apesar da desconfiança com que são recebidos, apesar das privações e das indignidades sofridas, para Céline tudo é preferível a ter ficado em Paris: “Quando as hienas vêm atrás de nós, saltar para a boca do lobo é apesar de tudo uma pequena vingança...”. A lucidez com que avalia a sua situação é a mesma que utiliza para descrever o que era então uma sociedade à beira do colapso. Céline compõe um quadro onde, num contexto de destruição geral, as intrigas palacianas, as depravações sexuais, as denúncias fúteis e as burlescas sessões de cartomancia de aristocratas desesperados formam um conjunto de coerência absurda, como na estranha lógica de um pesadelo ou de uma alucinação. Como no resto da sua obra, Céline aproxima uma lupa das suas personagens, expondo com a mesma precisão clínica a decadência física e a corrupção moral. O resultado é a humanidade retratada sem piedade num tom que vai do grotesco ao humor negro.

 

Por tudo isto, e apesar da narração na primeira pessoa e da persona do autor, Norte não é um panfleto em que um pária vocifera as suas memórias. Norte é um romance. É o autor, e não o homem, que se revela nestas páginas. O seu estilo recria os ritmos do discurso oral, não o transcreve. As imprecações e o calão, as onomatopeias e as reticências não são, ao contrário do que convém à lenda satânica, ejaculações de ódio de um louco anti-semita. São as ferramentas de um escritor para dominar uma locomotiva que apenas não segue os carris académicos. A música celineana não é uma melodia agradável. É uma sinfonia através da qual o escritor exorciza o ódio pelo qual ainda hoje é julgado.

 

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