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Circo da Lama

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

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Circo da Lama

22
Jun09

Benilde

Bruno Vieira Amaral

Dona Benilde tem oitenta e tal anos ou talvez já tenha noventa ou terá chegado aos cem sem que ninguém, nem mesmo ela, o saiba. Tem o passo ligeiro dos velhos demasiado saudáveis para a idade e que costumam embarcar (para utilizar uma expressão da minha avó, que não conhece Caronte) num instante, sem tempo para maleitas degradantes e hospitais SA. Nenhuma mulher de trinta ou quarenta anos se move assim, com aquela presteza de movimentos. A mulher de quarenta anos é muito consciente de si e não quer que a pressa lhe hipoteque a graciosidade. A dona Benilde, de idade incerta, já não se preocupa com. Não manca, não se queixa e se se pode dizer que a morte do Carlitos a envelheceu, não é com menos autoridade que se pode afirmar que esses anos suplementares que toda a tragédia acarreta se fixaram no rosto e na luz dos olhos que perderam, é facto, alguma da antiga vivacidade. A tristeza da dona Benilde é um incêndio circunscrito que não se propagou ao resto do corpo. A que se deve a jovialidade física desta mulher? A dona Benilde veio de Angola em 1975 e com ela vieram duas irmãs, dona Lina e dona Olívia, ambas entre os oitenta e os cem anos, mais nova a Lina, Olívia a mais velha, a primeira famosa por uma peculiar escassez de dentes, a segunda conhecida por falar sozinha enquanto desce as escadas, do terceiro andar ao rés-do-chão, visto que confiou sempre mais nas pernas, ainda que trémulas, do que na ciência dos elevadores, ainda que inspeccionados. Este hábito ludita valeu-lhe, há uns meses, umas costelas partidas quando desceu um lanço de escadas mais depressa do que o permitido pela sua idade. Aterrou à porta de um vizinho que teve a gentileza de a socorrer primeiro e só depois se rir. Dona Olívia já regressou aos antigos hábitos: desce as escadas enquanto fala com seres imaginários, recriminando-os porventura de lhe não terem amparado a aparatosa queda. Esta é a justificação genética que encontro para a saúde da dona Benilde e não me embrenho em teorias geográficas porque conheço pouco do seu passado africano e já vi muito boas pessoas vindas de África a quem o clima europeu juntamente com as mágoas do exílio não fizeram nada bem aos ossos, às articulações e ao património. Não é despicienda a questão dos bens porque a dona Benilde não os tem. Desconheço se alguma vez teve bens cuja perda pudesse ter lamentado nestes trinta anos que leva de Portugal. Calculo que não. Tendo pouco, dona Benilde não se comporta como se alguma vez tivesse tido muito. Porém, os hábitos que me interessam são outros e é por eles que escrevo estas linhas. Ao ler um romance de Naguib Mahfouz, deparei com a descrição de uma personagem que me pareceu apropriada à dona Benilde: “uma autêntica enciclopédia de fatalidades”. Magoada ou não com o que a vida lhe reservou, dona Benilde especializou-se no negócio da morte, especificamente em funerais. Nunca perde um e não é criteriosa na escolha. Vizinhos, conhecidos, vagabundos, todos os habitantes do bairro sabem que terão companhia na derradeira viagem. Dona Benilde também acompanha doenças prolongadas mas é mais por consideração aos familiares do que por vocação. São os funerais que a entusiamam. E fazem-no a tal ponto que é licíto deduzir-se que a dona Benilde terá algum contrato com a morte e que essa será a explicação mais lógica da sua energia geriátrica. Gostaria de falar de outro assunto – a fotografia do homem que foi a grande paixão de dona Benilde – mas, por agora, devo calar-me.

 

 

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