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"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

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Circo da Lama

07
Ago09

O corno na literatura - apontamentos para um ensaio

Bruno Vieira Amaral

O azar do corno na literatura é ceder o nome de família para os títulos dos romances. Eça lá se lembrou de frontispiciar o Basílio, primo que veio com libertinagens tropicais enquanto o coitado do Jorge mordia o pó que o diabo amassou nos caminhos poeirentos do Alentejo, entre engenharias várias e as mamas pênseis e o olhar oblíquo da taberneira. Olhar oblíquo de cigana era o de Capitu, Capitolina, cabra de olhos de ressaca, grandes e enfeitiçantes, Capitu-Giovanna Antonelli na novela de Manoel Carlos. E foi o mulato Machado a quebrar as tradições e a honrar o corno com o título, duplo título aliás, Dom Casmurro, embora esse não tenha sido o nome dado à pia, mas o mais beato Bento Santiago, glória a Deus nas alturas. É raro ouvir a história pela boca do corno mas sucede que nem o próprio o soube de ciência certa, nem nós, leitores, mais de cem anos depois, podemos jurar pela fidelidade de Capitu ou atirar-lhe, com a convicção dos justos, a pedra castigadora. Quer isto dizer que se ainda não sabemos, nem sabemos se seremos os últimos a saber, os corneados fomos nós pela matreirice de Assis. O lenço de Otelo de Bentinho, a prova possível da traição suspeitada, foi, maldito sejas entre os homens, amaldiçoada seja a semente do teu baixo e mais abaixo ventre, o próprio filho, o filho do homem, no dizer do bíblico José Dias (personagem com a boca cheia de superlativos e que morre a suspirar um: “Lindíssimo!”), o pequeno e profético Ezequiel, tão igual, nas mãos e no jeito de arremessar a cabeça, ao amigo Escobar. Que um homem descubra a traição por uma carta, um bilhetinho guardado numa caixa lacada, entre folhas e suspiros, num sonho em que a mulher geme o nome do amante, tudo isto são truques mais ou menos ao alcance de qualquer um. Que o corno se certifique da traição na pessoa, corpo, gestos e palavras do filho, isso é de génio. Tudo fica em águas de bacalhau porque o suposto amante morre afogado (tal como o Lulu Banzo Pombeiro, marido de Kianda, divindade aquática, no último romance de JE Agualusa), talvez suicídio, talvez azar. Regressemos aos cornos de facto, como Charles Bovary, outro que emprestou o apelido à infâmia, mesmo que o próprio nome contenha uma sugestão bovina (lembremos que há 3 madames Bovary no livro: duas virtuosas e uma que lia o que não devia). Este Bovary futuramente bovino desde as primeiras páginas em que se apresenta na escola com as mãos brutas a esmagar o boné e a balbuciar o nome tem o destino traçado, não por culpa própria, mas por escolha pobre da segunda mulher (mulher de Potifar, é o que era). Nisto da traição feminina o corno nunca tem culpa, esposo amantíssimo, pai exemplar, mesmo o infeliz Clifford Chatterley que foi à guerra e de lá voltou com o hemisfério sul inutilizado, não tinha culpa, que podia ele fazer (se tivesse visto Em Carne Viva poderia aprender alguma coisa com o Bardem mas podia argumentar com igual justiça que nem o esforço maxilar de um estropiado sossega os ardores de uma mulher, mas que a ars linguae de um homem pode despertá-los não reste a menor dúvida, lembremos Basílio, autor material do primeiro cunnilingus da literatura portuguesa, o que poderá ser desmentido por mentes mais lidas do que a minha que recordarão um qualquer minete medieval nas barbas de Dom Dinis, que de bom poeta tinha tanto que ficou para a história como o lavrador por ter mandado plantar o pinhal de Leiria, o que significa que mais valor damos ao pau do que à língua e que a expressão langue de bois talvez não seja tão despropositada), a mulher que se deixasse ganhar os ângulos ossudos da semivirgindade. Se uns se indignam com a traição, o desgraçado Clifford, sabedor da sua incapacidade para cumprir os conjugais deveres, indigna-se, à inglesa, com o rebaixamento social implícito na relação de Constance com um assalariado. A aristocracia e a fleuma britânicas têm destas coisas. O estropiado aceita a traição desde que consumada nos salões e não na cavalariça. (continua um dia destes).

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