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Circo da Lama

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

Circo da Lama

19
Ago09

Começa assim

Bruno Vieira Amaral

Os prédios eram altos, não todos, só as torres, sete andares, recentes mas gastos, como se a vontade de experimentar uma casa os tivesse corroído, a roupa a drapejar nos estendais, como se em cada casa vivessem dezenas de pessoas, os fogareiros a arder nas manhãs de domingo, os elevadores parados, gente a trepar pelas escadas, gente a expirar o cansaço até ao cimo, até às quatro assoalhadas cheias de mobílias velhas, resgatadas de barracas, fogões de dois bicos, candeeiros a petróleo, caixas de velas para iluminar a vida sem electricidade, homens a exibir a preguiça, homens pré-históricos, de fartos bigodes, crianças ranhosas e mulheres despenteadas a lavar a dura desgraça dos dias nos tanques de pedra nas varandas, sob o sol iníquo das vidas que não se mexem, nem para cima, nem para baixo, imóveis como os elevadores, um luxo morto, os mais ágeis tinham erguido barracas para servirem de garagens, os empreendedores, gente que tinha ido para ali com sonhos de abundância, sem saberem que tinham saído de um buraco mais fundo para outro mais à superfície, um buraco na mesma, onde a vontade de fazer, de ter mais, de não se resignar era ainda mais ridícula como um afogado à beira da praia que não sabe que as ondas nunca o deixarão chegar a terra, faziam e não paravam, em permanente acção, um burguesia esquisita, ignorante de que tudo aquilo, as barracas, as hortas, as obras no interior das casas, eram esforços inúteis para enganar a pobreza, que os assaltava a meio da noite, com os gritos, as festas até às tantas, a merda dos cães nas escadas, ainda não sabiam mas tinham caído naquele buraco para sempre, até ao fim das vidas, não podiam adivinhar que trinta anos mais tarde andariam naqueles passeios, mais civilizados, a passear os netos, os filhos que os viriam visitar em domingos envergonhados, orgulhosos de terem saído do buraco onde os pais tinham caído e fuçado, a ascensão social naqueles olhares de desdém e a piedade natural de quem sobe para os outros que ficaram, mesmo que sejam os pais, é a lei da vida, e não estão assim tão mal, os filhos nunca conseguem compreender as ambições dos pais, olham para trás e vêem-nos ali, imóveis e eternos, no lugar que é o deles, nem mais, nem menos, sem suspeitarem que trinta anos antes os pais chegaram ali, ao buraco, com a esperança de ser uma passagem, um interlúdio de sacrifício numa narrativa épica de ascensão, e tinham demorado uma vida inteira para perceber que aquela era a última estação e os filhos nunca perceberam que tinham subido fincando os pés nos lombos sofridos dos pais e estes com a única réstia de orgulho de disponibilizarem os lombos doridos aos filhos, exibindo os filhos nos cafés, com as mulheres e os maridos que não eram dali, os netos saudáveis e letrados, a crescer em infantários e casas com aquecimento central, a ignorar os avós e aquela pobreza toda de um bairro que haveria de ser sempre um bairro, onde as pessoas todas se conheciam e cumprimentavam como se fossem todos da mesma família, cumprimenta ali aquela senhora que é amiga da avó, os filhos, saudáveis, letrados e bons dentes, eles ali uma vida inteira encavernados mas ali estavam os filhos, saudáveis, letrados e bronzeados, prova de que tinham chegado à superfície, tinham estudado com os filhos dos doutores e agora tinham bons carros, bons dentes e tinham-lhes dado bons netos, que orgulho, a vida de formiga para chegar a ver aqueles netos, o cheiro nauseabundo do bairro, dos cafés de chão cheio de escarros, tudo tinha valido a pena, mesmo demolidas as garagens, mesmo terraplanadas as hortas, tudo valera a pena para chegar a ver aqueles netos que odiavam o cheiro nauseabundo do bairro dos avós, a mesma merda dos mesmos cães nas escadas, meu rico filho, e os filhos e os netos a fugir dali, do buraco, quase asfixiados, desejosos de regressar à superfície das suas vidas de casa própria e centro comercial. Naquela altura, há trinta anos, teriam desprezado quem lhes tivesse dito que trinta anos mais tarde ainda estariam ali a celebrar filhos e netos que os desprezavam ou, os melhores, os toleravam, incrédulos perante a resignação dos pais, desdenhosos dos sacrifícios, ignorando que o pescoço à superfície dependia dos lombos doridos dos pais. Há trinta anos era assim, os que acreditavam que era tudo uma questão de tempo até a vida melhorar e os outros para quem a vida já tinha melhorado tudo o que tinha a melhorar e muito bom seria se não piorasse, eram os que escarravam o chão dos cafés e cujos cães cagavam as escadas dos prédio, a ralé de uma comunidade que era toda ralé, mas que arranjou uma aristocracia, uma burguesia, um povo, porque se a natureza tem horror ao vazio, os seres humanos não vivem sem uma hierarquia, uma escada imaginária que possa ser escalada, desde os degraus cheios de merda de cães às alturas beatíficas, e enquanto uns montavam negócios, padarias e frutarias, oficinas e sapatarias, boutiques e retrosarias, cafés de chão escarrado e mercearias, vende-se fiado, outros ficavam a ver o mundo a avançar, enterrados de merda de cão e dívidas, sem hortas, nem garagens, pobres cada vez mais pobres a ver pobres como eles cada vez mais finos, sem entenderem porquê, a encherem essa ignorância de resentimento e inveja, porque afinal tinham todos chegado ali iguais na miséria e, de um momento para o outro, uns tinham deixado a miséria para trás enquanto outros se afundavam nela, todos iguais mas uns mais iguais do que outros, casas de borla para todos, casas sem portas nem janelas para todos, prédios com elevadores que não se mexiam para todos, casas com tanques para todos e bastaram dois três anos para uns terem portas e janelas de alumínio e outros arremedos de portas e janelas feitos de contraplacado e plástico, prédios com elevadores que começaram a andar para cima e para baixo e prédios em que os elevadores nem para cima nem para baixo, casas em que as máquinas de lavar vieram atirar os tanques de pedra para a colecção de artefactos pré-históricos e casas em que a máquina de lavar foi durante anos e anos um delírio futurista enquanto o tanque se enchia e vazava e enchia e vazava e uma mulher despenteada se esfalfava à torreira do sol a esfregar fraldas de pano cheias de merda e calças do trabalho cheias de óleo e a vida presa nessa nora, às voltas e voltas, nesse mastigar estúpido dos dias, nesse amassar da roupa e dos braços, do corpo inteiro até o sangue saltar do nariz num esguicho, nunca acaba, daqui ninguém sai vivo e olhar para trás sem nostalgia porque agora ao menos as paredes são de cimento e a merda dos cães é mais fácil de lavar das escadas do que da terra em frente das barracas, e enquanto uns tinham chegado ao paraíso e outros esperavam que aquilo fosse o purgatório, havia os outros, os retornados que finalmente conheciam o inferno, rodeados de brancos ressentidos, que temiam essa raça sem terra, os retornados que retornavam a uma terra desconhecida, refugiados que se refugiavam numa terra que os não queria, expulsos de um éden africano pela política dos brancos e pelo ódio dos pretos, mulatos, mulas, híbridos caídos em terra de ninguém muito menos deles.

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