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Circo da Lama

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

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Circo da Lama

13
Set09

Paixão Correspondida

Bruno Vieira Amaral

 
Publicado no i
 
Comecemos por reconhecer a audácia da edição portuguesa ao juntar “amor” e “Henry Miller” num local público. Henry Miller e Anaïs Nin conheceram-se em Paris, em 1931. Ela tinha 28 anos e ele quase 40. Ele era um furacão de vida e um escritor reconhecido apenas o suficiente para não morrer à fome. Ela tinha aspirações literárias e um casamento que lhe assegurava as doses burguesas de conforto financeiro e insatisfação intelectual. Cada um tinha para dar aquilo de que o outro precisava: Anaïs, cheques e a sua predisposição para adular Miller; Miller, a sua predisposição para ser adulado e Henry Miller. Tornaram-se amantes.
 
As primeiras cartas oscilam entre considerações literárias e definições genéricas das relações entre homens e mulheres. Anaïs percebeu rapidamente o que Miller representava para a sua vida: “Um homem que domina é um homem que não ama”. Dias mais tarde, descreve o primeiro encontro entre os dois: “Vi uma boca que era em simultâneo inteligente, animal e suave”. Estas palavras, escritas por uma mulher inteligente e sensual, foram um bálsamo para o ego gargantuesco de Miller. Ela aceitava a submissão e concedia-lhe o direito de ser o artista mas também o “animal sexual”. Miller agradeceu: “Faz-me tremendamente feliz em ver-me indiviso...em deixar-me ser o artista, como sou, e mesmo assim não esquecer o homem, o animal, o amante esfomeado, insaciável”. Nem só de Dostoievski vive o homem.
 
As cartas prosseguem num crescendo de intensidade: Anaïs teorizando sobre a avalanche de sensações através de uma linguagem concisa e penetrante; Miller escrevendo torrencialmente, em estado de permanente excitação. Anaïs afirmava que Miller era um homem “cuja vida o tornou ébrio” e ele não queria ficar aquém do epíteto: “tudo o que posso dizer é que estou louco por ti”, “ estou maluco esta noite”, “ouve, estou muito bêbedo”, “estou excitadíssimo agora”, “provocas-me um cio incrível”, “estou sentado, a escrever-te com uma erecção tremenda”, etc. A resposta de Anaïs a este festival milleriano de erecções e loucura é quase clínica, submetendo o instinto ao crivo do pensamento: “Ia escrever ontem muito mais sobre a ideia de «excitação», mas a carta tinha de ser posta no correio antes das oito”. Anaïs raramente corrigia uma frase. O seu estilo tinha a precisão económica de um conta-gotas. Miller, pelo contrário, era um exaltado, uma mangueira de alta pressão que debitava frases, esperando que, por obra do seu génio, alguma ideia surgisse dos destroços.
 
As cartas, escritas durante um período de 20 anos, foram um longo processo de sublimação dos respectivos estilos e personae literárias. Assumindo uma postura sacrificial, Anaïs “queria parir Henry Miller”, o escritor. Para tanto sustentou-o com dinheiro e elogios. Infelizmente, o talento de Miller era mais modesto que o seu ego e o parto conheceu algumas complicações. À medida que a possibilidade de uma vida em conjunto se esfumava, a crença fanática de Anaïs nos méritos de Miller deu lugar ao cepticismo condescendente. Anaïs tinha conseguido dar à luz uma criança que nunca deixaria de o ser: egoísta e fascinada com a descoberta das partes íntimas.

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