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Circo da Lama

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

Circo da Lama

14
Out09

Azares

Bruno Vieira Amaral
Aos quinze anos, no já longínquo 1993, algumas opções que o tempo me permite classificar de infelizes desviaram-me dos despreocupados bancos da escola e atiraram-me para um mal-remunerado trabalho num café do meu bairro. O estabelecimento, cujo chão de mosaicos castanhos encardidos e pejados de beatas, as mesas de fórmica descascadas nos cantos e de tampos ofendidos por outras beatas e por navalhas rupestres, e as cadeiras desirmanadas lhe conferiam um estilo que em nada se distiguia dos efeitos de um vulgar, porém persistente, desamazelo, era propriedade de um tal Senhor Teixeira, beirão baixote, olhar desconfiado de merceeiro de província, característica associada, nos meios onde grassam a indigência, a preguiça e a venda a fiado, ao “jeito para o negócio”. Habitava o senhor Teixeira numa vivenda, que não se situando no bairro, dele não muito distava, com a mulher, uma matrona dada a casacos de peles e outros exageros ornamentais e uma filha obesa, no que saía à mãe, de olhos cinzentos e vivos, herança paterna, e uma escassez de inteligência que, à falta de provas, atribuiremos aos desmandos do acaso. A vivenda era, numa palavra, horrível. Dois grandes leões de pedra ladeavam a entrada e, dito isto, tudo o resto será submeter o leitor a um escusado suplício. O café tinha mais de vinte anos e sofrera várias gerências sem que nenhuma se pudesse vangloriar de ter vencido o aspecto um tanto lúgubre de taberna. Para o povo, o nome do café também permanecera, indiferente aos excessos de imaginação de proprietários voluntariosos: era A Toca. O Adão original que o baptizara teria em mente a evocação de um refúgio de caçadores, sugerindo aos clientes o conforto e o calor das tocas, ignorando, porém, os antecedentes literários do nome bestial. Da decoração inicial pouco ou nada restava. Lembro-me de ver em miúdo uma cabeça de javali exposta por cima do balcão, mas que já lá não estava quando comecei a trabalhar. Creio que terá sido o segundo proprietário do café a pintar numa das paredes laterais um pôr-do-sol tropical com palmeiras tingidas de vermelho e, ao fundo, uma cubata à porta da qual se via a silhueta de uma mulher, com uma criança às costas. O nome, A Toca, sobreviveu à pífia tentativa de africanização e o proprietário seguinte, ao alargar o espaço destinado ao armazenamento de bebidas, acabou por esconder o mural do Diogo Rivera austral com umas portas corridas de contraplacado. O senhor Teixeira, para além do seu cabelo oleoso, não trouxe inovações. Aproveitou o que havia e nisto se incluía uma clientela em parte composta por bêbedos e desempregados crónicos e um ou outro indivíduo que combinava admiravelmente ambos os estados. Consegui o lugar sem que nenhum mérito particular me deva ser reconhecido. Pesou mais a intercessão da minha avó do que a minha experiência, que era nula, a minha postura, deficiente, e a minha simpatia, a mesma de hoje mas agravada pela timidez da adolescência. A minha avó queria acima de tudo manter-me ocupado, uma pretensão louvável, e agindo como procuradora dos meus interesses, destes não cuidou com especial empenho. Por dez horas de trabalho diárias ficou acordado que eu receberia a insultuosa quantia de mil e duzentos escudos. Apresentei-me ao trabalho com uma determinação resignada, na disposição de aprender o ofício. Nos primeiros tempos não conheci qualquer sucesso, em parte devido à minha tendência para passar as manhãs sentado num barril de cerveja, observando filosoficamente o movimento das pessoas na rua que entravam e saíam das lojas onde se vendia de tudo um pouco, de hortaliças a meias de senhora, de frangos assados a carrinhos da Majorette. As mulheres, na maioria avós domésticas com os netos à volta das saias, atravessavam a rua, parando ocasionalmente para falar com uma amiga e repousar do esforço à sombra de um toldo ou da paragem de autocarro, apenas para regressarem à condição de mulas de carga ou, como muitas vezes ouvi da minha avó, de mouras de trabalho, com os pequenos a correrem à frente, insensíveis aos avisos que as avós lhes gritavam. A simpatia do senhor Teixeira para com as minhas derivas existenciais não durou muito. A minha imobilidade, que sobressaía no contraste com os seus movimentos incessantes de formiga avarenta, cedo começou a agastá-lo. Eu não percebia porque é que durante as horas mortas da manhã, sem clientes dignos do nome - uns quatro ou cinco indivíduos que permaneciam ali sentados, enxotando ocasionais e moles moscas, suspirando recordações de tempos mais abundantes do que os magros que agora roíam e observando com filosofia idêntica à minha as mesmas avós domésticas, sem nada consumir ou, nas poucas ocasiões em que uma moeda solitária lhes pesava no bolso, bebendo de um trago uma irrepetível taça de branco para logo regressarem à habitual modorra – havia necessidade de me manter ou parecer ocupado. O senhor Teixeira explicou-me, com a sua rudimentar pedagogia, que nesta nobre actividade havia sempre alguma coisa para fazer e, no caso de não haver, era obrigação do bom empregado inventar. E mostrava-me o pó acumulado nas prateleiras, os bolos expostos de uma maneira que só apelava aos sentidos dos mais gulosos e javardos de entre os clientes, o balcão onde devia estar sempre uma fila de pires com as respectivas colheres e pacotes de açúcar, os cinzeiros onde jazia uma beata solitária, a arca refrigeradora que nunca poderia estar aquém da capacidade máxima e prosseguia numa lista interminável, excedendo largamente a minha capacidade de lhe prestar atenção. O entusiamo comercial do senhor Teixeira esbarrava na minha indiferença e espalhava-se pelo café, desenhando uma trajectória descendente e fenecente, como fogo-de-artifício a morrer na noite. O comportamento do Zé Lopes, um dos fatais clientes matutinos era-me mais familiar e caro do que a lenga-lenga destinada a inspirar todos aqueles que, ao contrário de mim, desejavam subir a pulso na vida. Devido a um tumor maligno, o rosto do Zé Lopes estava em franco retrocesso e percebia-se mal o que dizia. Todas as manhãs bebia um copo de leite morno, que tinha de ser exactamente morno, embora a percepção que tinha da temperatura dependesse do seu humor naquele dia. Algumas vezes, e não foram assim tão poucas, o copo de leite, demasiado quente ou demasiado frio, voltara para trás. Ter de o fazer não me custava tanto como a reacção exagerada do Zé Lopes. Levantava os braços e desviava o olhar, num excesso histriónico que as pessoas normais costumam poupar para os acontecimentos irremediáveis. Inversamente, não escondia um júbilo desproporcionado quando a temperatura do leite correspondia à expectativa. A cara de marioneta, tão diferente daquela que eu me lembrava de ver em criança, oferecia-me a metade do sorriso que ainda lhe restava e eu ficava satisfeito. O Zé Lopes tinha cinco filhos. Eu conhecia dois deles, poucos anos mais velhos do que eu. Era uma estirpe ruim. O próprio Zé Lopes era conhecido pelas bebedeiras e pelos arraiais de pancada na mulher que se lhes seguiam. Publicamente era isso, e um feroz sportinguismo, que o distinguia. A doença, no entanto, teve um efeito moderador no consumo de álcool. Os abusos físicos sobre a mulher também cessaram mas para o efeito terá contribuído um episódio que, na mitologia do bairro, adquiriu estatuto de lenda. Contava-se que certa noite, a mulher do Zé Lopes, farta de apanhar no focinho, aproveitou-se do sono do marido para lhe encostar uma faca de cozinha ao escroto e avisá-lo de que se lhe voltasse a bater corria o sério risco de acordar e dar com a sua masculinidade a uma distância não natural do próprio corpo. Ou porque não era intenção dele desaparecer dali, ou por não estar nos seus planos assassinar a mãe dos filhos ou, ainda, por compreensível amizade aos tomates, a verdade é que os acessos de violência do Zé Lopes terão terminado nessa noite.

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