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Circo da Lama

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

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Circo da Lama

29
Dez09

Monstros

Bruno Vieira Amaral

Estou ligeiramente nauseado ou, nas palavras imortais da minha tia, “veio-me um arroto azedo à boca.” O livro 101 Monstros, de Simon Sebag Montefiore, está recheado de maldades suculentas, mas tudo tem os seus limites. Que Idi Amin gostasse de canibalizar os adversários (Montefiore não dá a receita) uma pessoa ainda compreende. Afinal, o homem intitulava-se “Senhor de Todos os Animais da Terra e dos Peixes do Mar e Conquistador do Império Britânico em África em Geral e no Uganda em Particular”. Não é a degustação do fígado de um inimigo que faz dele mais ou menos louco. Há muitos hábitos gastronómicos que nos parecem repelentes. Calígula, por exemplo, terá comido a irmã, embora não haja notícia que a tenha deglutido. Provavelmente confundiu-a com a mãe. Isto é perdoável. Até Vlad, príncipe da Valáquia, tem desculpa. Vlad na realidade era Vlad II e todos sabemos como as sequelas costumam ser piores que o original. Por tédio ou por maldade, Vlad divertia-se se a empalar camponeses. Também espetava pregos na cabeça de embaixadores estrangeiros, uma prática que infelizmente a diplomacia moderna prefere ignorar. Quanto à empalação podemos afirmar que a sua fama negra é exagerada. Passamos a explicar: crava-se uma estaca no chão e, em seguida, crava-se o camponês na estaca. Consoante o género, o camponês pode iniciar o percurso pelo ânus ou pela vagina. Quando a estaca chega à boca (ou a boca chega à estaca, visto que não é esta que investe mas sim o camponês insensato que desliza), aconselha-se a vítima a cumprir um período de repouso não inferior a 80 anos. Como é óbvio, um número considerável de camponeses chegava ao fim da empalação num estado que a ciência designa como “estar morto” e que os médicos que fazem urgências e são entrevistados pela RTP caracterizam como “chegar cadáver.” Mas também não foi isto que me deixou indisposto. O que me perturbou foi o descuido do tradutor. Então não é que traduziu The Feast of the Goat como O Festim do Bode? O título original do livro de Mario Vargas Llosa é La Fiesta del Chivo, mas a edição portuguesa existe e é A Festa do Chibo. Ora, isto é indesculpável. Uma verdadeira monstruosidade, a única capaz de me provocar um esgar de nojo ao longo desta leitura. Empalemos os tradutores!

 

 

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