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Circo da Lama

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

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Circo da Lama

03
Jan10

História Universal da Infâmia

Bruno Vieira Amaral

 

Publicado no i

 

 

Defenestrações, genocídios, empalações, torturas, envenenamentos: o cardápio de crueldades de que o ser humano é capaz é praticamente inesgotável. O historiador Simon Sebag Montefiore, com a colaboração de John Bew e Martyn Frampton, escolheu 101 exemplares da maldade humana. Aqui encontramos estadistas poderosos, imperadores megalómanos, ditadores sanguinários, mas também traficantes de droga, profetas alucinados e assassinos em série. Em certos momentos, temos uma sensação de déja vu. As mesmas histórias de ambição e de loucura representadas por personagens diferentes. A crueldade não conhece ideologias, religiões ou territórios e distingue-se pela facilidade em inventar inimigos, isto é, em angariar vítimas. Inimigos da Pátria, da Revolução ou de Deus, judeus, homossexuais ou índios: a diferença, real ou fabricada, é o pretexto mais comum para a prática de atrocidades. Da antiga Babilónia à África pós-colonial, do Império Romano à Alemanha nazi, da Chicago de Capone à Sicília de Riina, da Espanha inquisitorial aos campos de treino de terroristas no Afeganistão, o Mal encontra sempre maneira de se manifestar. Não o Mal enquanto categoria ontológica, mas o mal enquanto expressão objectiva do pior que habita o ser humano. No prefácio, Montefiore lembra que alguns dos homens que escolheu, como Genghis Khan ou Tamerlão, mereciam um livro à parte, o dos heróis-monstros. O génio que demonstraram no campo de batalha atenua o horror dos crimes que cometeram, relativiza-os. Não são poucos os exemplos de homens cuja grandeza política assenta em pilhas de cadáveres. No entanto, há crimes que resistem ao relativismo histórico e às propagandas patrióticas ou religiosas. É por isso legítimo falar do Mal, desde que não sirva para escamotear o facto de que a crueldade é uma escolha. Pode revelar aspectos da natureza humana que são difíceis de entender mas não deve ser desculpada com base em relativismos culturais ou, pior ainda, abordagens metafísicas. Hitler e Estaline não eram monstros, nem demónios. Eram homens. É isso que assusta. Ainda mais assustador é pensar nos actores secundários, nos milhares de “pessoas banais, que se transformaram em assassinos e torturadores”. Algumas das entradas deste manual de maus costumes não teriam sido possíveis sem a colaboração desses cúmplices anónimos. Alguns mancharam as mãos de sangue, outros cobriram-se com a ignomínia do silêncio.
 
Montefiore diz que “todos nós deveríamos conhecer estas personagens, lembrar os seus crimes e termos, sobre eles, a nossa própria opinião.” A estrutura enciclopédica e o estilo expositivo desta obra, convidam o leitor a tirar as suas próprias conclusões. Será esta a melhor maneira de impedir desgraças futuras? Dificilmente. As nossas mentes saturadas do horror servido em directo pelas televisões são pouco sensíveis a lições de História. As toneladas de actos horrendos despejadas por Montefiore embatem contra espíritos moldados por uma cultura que suaviza os monstros. Para além disso, o repertório da crueldade, suficientemente vasto para fazer o tempo andar para trás, não deve ser menosprezado. Quando comparada com a barbárie primitiva do genocídio no Ruanda a sofisticação tecnológica com que os nazis implementaram a solução final parece oriunda de um futuro macabro de ficção científica. A História repete-se com ligeiras nuances, mas sempre como tragédia.

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