Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Circo da Lama

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

Circo da Lama

21
Jan10

O Crime

Bruno Vieira Amaral

 

O intelectual português, espécie à qual eu gostaria de pertencer logo que a minha mãe me ofereça umas calças adequadas, compra a New Yorker para sentir a civilização na ponta dos dedos, para sentir em inglês o odor inconfundível de uma ideia que já teve, mas que a rígida legislação laboral, que o obriga a sofrer horrores num call-center de Odivelas, o impediu de materializar em forma de artigo no Jornal de Letras. Eu, intelectual português wannabe, compro O Crime para manchar de sangue a polpa dos meus dedos delicados. Que O Crime ainda não seja reconhecido como baluarte da nossa imprensa escrita e da nossa cultura, diz mais da pobreza das nossas elites do que da qualidade intrínseca deste jornal – que é, não restem dúvidas, pavorosa. Quem, como eu, não se pode dar ao luxo de fins-de-semana nas Pousadas de Portugal, tem, ainda assim, direito a saber o que se passa no país real. O país que nós conhecemos trocou a agricultura pela blogosfera, as vindimas pelo lançamento de livros, o sexo por temporadas inteiras de séries americanas (é assim que hoje em dia se vêem as séries, não é como antigamente, em que saltávamos do episódio 3 do Justiceiro para o 50 do MacGyver, convencidos, mesmo que por breves segundos, de que era a mesma série e, em casos terminais, o mesmo episódio) e a Vila de Ourique pelo Ouriquense. Mas há um outro país onde ainda se agricultiva, onde o lançamento de livros, se os houvesse, acabaria no frontispício do cabrão do miúdo que não pára com a choradeira, onde o sexo é uma actividade que resiste à escassez demográfica (eu, menino da cidade, não me caso porque seria incapaz de ter relações sexuais com alguém da minha família) – é este o país que O Crime, qual arquivo para os futuros historiadores, nos oferece pela módica quantia de 1,30 euros. Em que outro jornal, para já não falar em blogs, poderíamos encontrar a comovente história do Pedro Jorge, de 39 anos, que vivia com o tio? O Pedro Jorge, símbolo de um Portugal que teima em ser Portugal, matou o tio com um tiro de caçadeira. E matou-o, não porque o tio lhe tivesse chamado filho da puta num blog, não porque o tio não o tivesse convidado para o lançamento de um livro, não porque o tio não lhe quisesse dar dinheiro para o vinho. Peço desculpa. Pedro Jorge matou o tio porque este não lhe quis dar dinheiro para o vinho, mas este facto revela apenas uma parte, e não a menos sanguinária, do carácter do rapaz-homem. É que, uma semana após a trágica ocorrência, Pedro Jorge, numa manifestação nobre dos seus sentimentos mais profundos, reconheceu que matou o tio, mas que já tinha saudades dele. Caro leitor, na selva urbana que é a nossa, as pessoas matam-se e poucas horas depois já nem se lembram do nome da vítima, se é que alguma vez a conheceram. Ao ler O Crime, eu desfolho um país, tacteio as inocentes pétalas deste bom povo e encontro gente genuína como o Pedro Jorge, gente que mata a família (a família, reparem, ele não matou um estranho, matou um familiar, também isto é ser português) quando esta não lhe dá dinheiro para o vinho (o vinho, meus amigos, o vinho; não foi cerveja, nem vodka do Lidl, foi vinho, e também isto é ser português), gente que arranja sempre um quartinho vago no coração para esse sentimento tão nosso e tão universal: a saudade. Também isto é ser português.  

10 comentários

Comentar post

Seguir

Contactos

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2013
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2012
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2011
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2010
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2009
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D